Moonrise Kingdom


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Crianças sempre rendem histórias fascinantes. O cinema tem algumas preciosidades com esta verve – para citar apenas dois clássicos óbvios, são inesquecíveis The Goonies e Stand By Me. Agora, Moonrise Kingdom entra para a lista de clássicos do gênero. O diretor Wes Anderson faz um trabalho impecável, com muito estilo e detalhista. E tudo, absolutamente tudo funciona bem. Se você gosta de histórias divertidas e que não tem medo de explorar a fantasia, este é um filme extremamente indicado para você.

A HISTÓRIA: O quadro de uma casa engraçada, frente ao mar, uma tesoura ao lado esquerdo e uma bolsa do lado direito. A câmera desliza pela casa, e acompanhamos um garoto colocando um disco na vitrola. Os irmãos logo se reúnem ao seu redor. Suzy (Kara Hayward) pega o seu gato, coloca o binóculo pendurado no pescoço, vai até a sala em que os irmãos estão e se senta para voltar a ler um de seus livros de fantasia favoritos. Ela lê por pouco tempo, abre as cortinas da janela e olha com o binóculo para fora, onde chove forte. Ela está naquela casa vermelha e engraçada do quadro. A família dela, formada por três irmãos e os pais Walt Bishop (Bill Murray) e Laura Bishop (Frances MacDormand), fazem de tudo para passar o tempo enquanto a tempestade segue forte. Quando o sol sai, Suzy vai até a caixa de correspondências e encontra uma carta endereçada para ela. Em seguida, o narrador (Bob Balaban) desta história nos apresenta a Ilha de Nova Penzance, onde o desaparecimento de um jovem escoteiro vai mudar a rotina de muita gente em pouco tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes de Moonrise Kingdom, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu ao filme): A diferença está estampada logo nos primeiros minutos. Não apenas por aquela câmera deslizante e pelo inusitado hábito das crianças em ouvirem discos que contam em detalhes o funcionamento de uma orquestra. O estilo do lugar, os detalhes de cada cômodo e personagem, tudo marca o estilo do trabalho de Wes Anderson. E o ritmo que ele consegue imprimir logo no início, nos apresentando aquele mundo fascinante dos Bishop, não esvanece pelo restante do filme. Mesmo quando saímos daquela casa cheia de peculariedades.

Aliás, cada novo ambiente revelado ou momento apresentado pelo brilhante roteiro que Anderson escreveu com Roman Coppola mantém o interesse desta produção. Como em um quadro cuidadosamente pintado por Sam (o fantástico Jared Gilman), cada lugar e cada ângulo de filmagem parece ter sido meticulosamente analisado antes de ser gravado em película. Junto com a direção sem retoques de Anderson, merece aplausos a direção de fotografia de Robert D. Yeoman. Não importa se estamos no interior de uma casa ou em algum dos cenários externos maravilhosos percorridos pela dupla de aventureiros mirins. A qualidade da imagem e a busca da beleza são elementos constantes.

Se a direção é irretocável, porque nos conduz com perfeição, procurando sempre a beleza e, ao mesmo tempo, valorizando o trabalho dos ótimos atores, e todos os demais aspectos técnicos do filme funcionam bem para contar esta história, o que dizer do roteiro? Igualmente irretocável, porque acerta no tom de aventura, no drama, na comédia e no romance. Todos os elementos básicos estão ali, sem exagero em uma dose ou outra.

Algo que achei incrível neste filme é que, mesmo sendo uma história baseada na clássica aventura pela descoberta do mundo adulto feito por jovens que ainda não chegaram lá, Moonrise Kingdom não tem uma narrativa totalmente infantil e/ou juvenil. Certo, há bastante fantasia na história. Mas há espaço para os adultos mostrarem o seus próprios pontos de vista. Verdade que eles parecem meio bobos… mas isso faz parte da vida. Crianças e jovens parecem tão surpreendentes, verdadeiras evoluções de seus pais. Até que eles viram adultos, e mostram toda a sua fragilidade, trapalhadas, incertezas e, porque não, coragem. Moonrise Kingdom é brilhante porque fala de tudo isso, e de maneira sutil.

É maravilhoso relembrar as pequenas grandes descobertas… como o primeiro beijo, uma praia pouco conhecida e que vai desaparecer do mapa, as saídas inteligentes para armadilhas que vão aparecendo no caminho… Também é ótimo ver como as crianças evoluem, nos surpreendem. Mas um filme que falasse apenas disto, pareceria uma releitura de obras que já vimos. Moonrise Kingdom fala também dos adultos, e de como a vida vai tomando rumos que nem sempre sonhávamos quando éramos crianças. Ou jovens.

E a grandeza deste filme está, além de toda a técnica irretocável, nesta reflexão sobre as fases e encantos diferentes que vivenciamos no decorrer da vida. Porque na vida adulta os heróis não seguem todos os caminhos que parecem óbvios e claros. E nem eles próprios são heróicos todas as vezes. Há rompantes de felicidade e de coragem. Há momentos de fraqueza e de infelicidade. A vida é complexa. Inclusive para os jovens, que se sentem perdidos, como os protagonistas geniais desta produção. Agora, no fim das contas, o que Moonrise Kingdom nos explica, e de forma muito estilosa, criativa e bacana, é que não importa em que idade você esteja perdido, há sempre pessoas para dividir este sentimento com você e para te ajudar a encontrar uma saída, uma direção. Para que ninguém se sinta perdido por muito tempo.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quando um filme trabalha todos os seus detalhes com esmero, isso fica evidente na telona. Moonrise Kingdom tem esta qualidade. Além da direção excelente de Anderson, um elemento fundamental para este filme é a direção de fotografia de Robert D. Yeoman. Em muitas e muitas cenas nós temos verdadeiros quadros na nossa frente. Pinturas. A escolha das locações e, sobretudo, do que filmar e de como fazer isso acaba sendo fundamental.

Vale bater palma, mais uma vez, para a excelente trilha sonora de Alexandre Desplat. Já estou na torcida para ela ser indicada ao Oscar. Em Moonrise Kingdom a trilha de Desplat é um personagem coadjuvante. Palmas também para a edição de Andrew Weisblum. O trabalho preciso dele imprime o ritmo adequado para a história, sem imperfeições.

Como os detalhes e o conceito visual do filme são importantes, vale citar também o ótimo trabalho do design de produção de Adam Stockhausen, a direção de arte de Gerald Sullivan, os figurinos de Kasia Walicka-Maimone, a maquiagem da equipe coordenada por Carla Antonino, e o departamento de arte composto por nada menos que 88 artistas das mais diferentes especialidades. Este grande grupo foi responsável pelo acuro visual desta produção. Merece ser citado, ainda, o trabalho da equipe de efeitos especiais comandada por Uros Otasevic e a equipe com 45 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais.

Para um filme dar certo, além de um ótimo roteiro e direção, o que mais é preciso? Grandes atores. Daqueles generosos, que não precisam fazer pirotecnia para mostrar que são melhores que os outros, mas que dividem a cena com maestria e respeitando seus parceiros de elenco. Pois bem, Moonrise Kingdom nos presenteia com um elenco desta estirpe. Os atores principais são Jared Gilman e Kara Hayward, que dão um banho. E o mais impressionante: eles são estreantes. Mostram maturidade e comprometimento com os seus personagens densos. Jovens que enfrentam uma barra pesada e que buscam o caminho da esperança – nem que ele seja o da fuga. Mas os adultos estão muito bem. Bruce Willis e Edward Norton surpreendem como adultos sensíveis, um tanto trapalhões, perdidos e heróicos às suas próprias maneiras.

Tem papéis menores, mas igualmente complexos e bem interpretados Bill Murray e Frances MacDormand. Tilda Swinton faz quase uma ponta, mas entra na mesma sintonia, assim como Jason Schwartzman que, desta vez, soube segurar-se na medida certa. Bob Balaban está genial como o narrador. E ainda temos o elenco juvenil. Começando pelos engraçados – ainda que quase sem falas – irmãos de Suzy: Jake Ryan interpreta a Lionel Bishop; Tanner Flood a Murray Bishop, e Wyatt Ralff a Rudy Bishop.

E da gurizada dos escoteiros, ganham mais destaque Lucas Hedges como Redford, a “pedra no sapato” e desafeto número 1 de Sam; Charlie Kilgore como Lazy Eye, garoto que é sempre um dos primeiros escalados para qualquer missão; Andreas Sheikh como Panagle; Chandler Frantz como Gadge, o braço direito de chefe dos escoteiros Ward; Rob H. Campbell como Deluca; L.J. Foley como Izod; e Gabriel Rush como Skotak.

Moonrise Kingdom teria custado cerca de US$ 16 milhões. Uma bagatela para os padrões de Hollywood. Apenas nos Estados Unidos, até o dia 1 de novembro, ele faturou pouco mais de US$ 45,5 milhões. Já saiu no lucro. Agora, merece ganhar mais uns prêmios para a estante dos realizadores.

Falando em prêmios, esta produção já ganhou 11 e foi indicada a outros 25, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical. Entre os que ganhou, destaque para dois como Melhor Filme do Ano no AFI Awards (em 2012 e 2013, o que é curioso); Melhor Filme no Gotham Awards; e o Top Ten Independent Films no National Board of Review.

Moonrise Kingdom estreou no Festival de Cannes em maio de 2012. Depois ele passou, ainda, pelos festivais de Karlovy Vary e Wroclaw American Film Festival.

Esta produção estreou nos Estados Unidos em apenas quatro salas de cinema, duas em Nova York, duas em Los Angeles. Mas conseguiu arrecadar US$ 167,2 mil por sala de cinema, o melhor resultado de todos os tempos por sala de cinema para um filme que não seja desenho animado.

Não sei vocês, mas eu fiquei encantada com as paisagens do filme. Ele foi totalmente rodado em Rhode Island, nos Estados Unidos. A cenas externas da casa dos Bishop’s foi rodada em Conanicut Light, em Jamestown; as cenas no Fort Lebanon, em Yawgoog Scout Reservation, em Rockville; e as do Acampamento Ivanhoe em Bayfield Farm, em South Kingstown.

Moonrise Kingdom tem se saído bem na opinião da crítica. Mas não tão bem quanto Argo, por exemplo (comentado aqui no blog), que também está na disputa pelo Oscar. Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 193 críticas positivas e apenas 13 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,2.

Não assisti aos outros filmes ainda mas, no momento, estou na torcida por Moonrise Kingdom para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical. Também espero que ele tenha chances para ser indicado ao Oscar em algumas categorias.

CONCLUSÃO: Fantástico! Entre os filmes que eu assisti este ano – e a quantidade foi muito menor do que eu gostaria -, sem dúvida, este é um dos melhores. Guardada todas as devidas proporções, Moonrise Kingdom está, para mim, na lista de filmes brilhantes da mesma forma que Little Miss Sunshine. Claro que os dois bebem de fontes muito diferentes – Moonrise Kingdom é, descaradamente, inspirado no mundo literário e da fantasia, enquanto Little Miss Sunshine na nossa realidade fantasiosa. Mas ambos são brilhantes a seu modo. O que mais me deixou fascinada com Moonrise Kingdom foi o estilo do filme, sua preocupação com os detalhes, o roteiro (com algumas frases geniais) e o trabalho em sintonia dos atores. Tudo isso funciona bem devido à direção de primeira de Anderson, que nos conduz com maestria e como em uma valsa pela história. Com suavidade, precisão e delicadeza. Merece ser visto, sem dúvida. E revisto. Estava sentindo falta de assistir a um filme como esse, que enchesse o espírito de uma mensagem bacana, me conduzisse pela mão em uma história bacana e que ainda deixasse uma trilha de inspiração.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: Moonrise Kingdom não tem um grande produtor para levá-lo longe. E isso é uma pena. Talvez ele não chegue a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, ainda que mereça. E se chegar lá, certamente não vai conseguir ganhar dos medalhões. Mesmo com poucas chances, estou na torcida por ele. Pelo menos para que ele figure em várias categorias – ainda que não tenha força para ganhá-las.

No Globo de Ouro, ele foi indicado apenas na categoria Melhor Filme – Comédia ou Musical. Esse é um indicativo de que, talvez, com um certo lobby, ele possa ser indicado a Melhor Filme no Oscar. Tomara. Mas além desta indicação, acho que Wes Anderson merecia, e muito, ser indicado como Melhor Diretor. Ele faz um trabalho excepcional nesta produção. Além dele, achei fantástico o trabalho de Alexandre Desplat nesta produção – muito mais do que em Argo, para dar um exemplo. O roteiro também merecia uma indicação… ainda que, aparentemente, temos um ano cheio de excelentes trabalhos originais.

Para resumir, se tiver sorte e um bom trabalho nos bastidores, Moonrise Kingdom pode chegar a ser indicado em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Original. Sem dúvida, mas com o risco de ser injusta por não ter assistido aos demais concorrentes, acho que ele merecia ganhar em todos estes quesitos. Mas as chances deste filme, especialmente levando em conta os concorrentes, é muito pequena. Uma pena.

7 comentários em “Moonrise Kingdom

  1. Olha Ale, com esse 10 eu nem vou continuar a ler a resenha pra não tomar spoiler, vou correndo assistir o filme! Sempre que tenho uma dúvida olho logo a nota que você deu pra ter uma indicação! Depois comento aqui 😀

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    1. Olá Dan!

      Bom te reencontrar por aqui.

      Estou respondendo só hoje, início de 2014… imagino que a essas alturas você já viu ao filme, não é mesmo? E aí, o que achou?

      Obrigada pelo teu prestígio. Isso é algo muito bacana. Espero que tenhas voltado outras vezes depois. O que eu posso prometer, desde agora, é que nossa conversação será mais rápida – estou me preparando este ano para isso, para manter o blog mais atualizado inclusive nos comentários dos posts.

      Abraços e obrigada pelo incentivo de sempre. Inté!

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    1. Olá annacarrazone!

      Primeiramente, seja bem-vinda por aqui.

      Que bom que você gostou do post. E o que achaste do filme?

      Achei Moonrise Kingdom uma destas gratas surpresas que vamos encontrando pelo caminho… filme que não foi badalado, mas que é muito bacana.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E volte por aqui mais vezes!

      Abraços e inté!

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  2. Alessandra, parabéns pelo post! 😉

    Assisti MK ontem e fiquei completamente apaixonado por tudo no filme. Sou fã dos trabalhos do Wes Anderson – acabei de baixar o Fantastico Sr. Raposo, o único que ainda não vi – e aqui ele se superou em todos os quesitos. O filme é mágico, tem traços de Salinger e me lembrou outras produções teen como Meu 1o Amor, Goonies, Conta Comigo e Onde vivem os monstros.

    Quanto ao Oscar, acredito que MK seja indicado em fotografia (com grandes chances) e trilha sonora (menos provável).

    Beijão e mais uma vez parabéns pelo blog e pelo capricho nos posts!!!

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    1. Oi Renato!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui!

      Legal que você gostou do post. Porque do filme é impossível não gostar, não é mesmo? 🙂

      Realmente o Wes Anderson é um sujeito interessante e que merece ser acompanhado. Eu não assisti aos primeiros filme dele e nem ao Sr. Raposo. Mas o restante assisti e gostei.

      De fato, em alguns aspectos este filme lembra estes outros clássicos juvenis que citaste. Mas acho que ainda assim ele segue com a marca do diretor e com aquela “estranheza” em seus filmes que eu tanto gosto.

      No fim das contas, Moonrise Kingdom acabou sendo indicado apenas para Melhor Roteiro Original no Oscar. Perdeu a estatueta, mas mereceu chegar lá entre os finalistas.

      Obrigadíssimo pelo teu comentário, tão incentivador, e pela tua visita. Espero te encontrar por aqui muitas vezes ainda.

      Beijos e abraços e inté!

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