Salmon Fishing in the Yemen – Amor Impossível


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Lasse Hallström é um especialista em fazer filmes bonitos. Ele busca belas imagens, e gosta de ter tempo de revelá-las. Nos incita à contemplação. Não é diferente com Salmon Fishing in the Yemen, um filme divertido, muito inglês, e que busca enfatizar como não há limites para a vontade – e o dinheiro. Bem ao estilo de Hallsröm, que gosta de adaptar romances bacaninhas para a telona, Salmon Fishing aborda temas muito diferentes de forma leve e um tanto descompromissada.

A HISTÓRIA: Água, e belos peixes. Uma figura com vara de pescar e turbantes pesca em um cenário incrível. E começa a narrativa com uma carta escrita por Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt), de um escritório de advocacia, para o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor). Ela diz que representa um cliente com muito dinheiro que quer financiar um projeto para que o Iêmen comece a produzir salmão. Harriet comenta, na correspondência, que o projeto tem o apoio do Ministério de Relações Exteriores inglês, que quer reforçar a cooperação com o pequeno país árabe que faz fronteira com a Arábia Saudita e Oman. Após mandar o e-mail para o Dr. Jones, Harriet sai para se encontrar com o militar Robert Mayers (Tom Mison), com quem ela está começando a se envolver. Dr. Jones acha a ideia de criar salmões no Iêmen absurda, mas acaba sendo forçado, por questões políticas, a embarcar no projeto financiado pelo Sheikh Muhammmed (Amr Waked).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momento importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Salmon Fishing in the Yemen): Um ponto forte desta produção é o humor da história. E a coragem do roteiro de Simon Beaufoy, adaptado do livro de Paul Torday, em refletir sobre questões como as relações diplomáticas, a política inglesa e seus “veja bem”, assim como na ironia de mostrar os extremos de um cientista que busca lógica constante e de um sheikh árabe movido pela fé e que tem dinheiro suficiente para mover montanhas.

Como a vida mesma ensina, este filme revela como as convicções vão sendo modificadas e enfraquecidas pela experiência. Nem o cientista segue sendo tão objetivo quando ele esperava, nem o sheikh com todas as ferramentas na mão (especialmente a fé e o dinheiro) consegue tudo o que quer. A vida é mais complexa do que parece, como escreveria e cantaria Jorge Drexler. E as variantes vão nos moldando. Porque a nossa vontade, por mais que algumas vezes surpreendente, sempre é limitada. O desejo de um indivíduo esbarra na vontade de seu semelhante, quando as pessoas não estão olhando na mesma direção.

Salmon Fishing in the Yemen ensina um pouco sobre isso. O que é surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por incrível que pareça, este filme me fez lembrar de algums discussões que eu tive o prazer de ter no meu doutorado. Especificamente sobre projetos de desenvolvimento local. O erro mais comum, incluside de organizações internacionais de respeito, é querer implantar em locais diferentes as mesmas fórmulas de desenvolvimento. Sem se preocupar em ouvir as pessoas daquela localidade, seja para saber se aquela proposta é adequada para elas, seja para despertar nos indivíduos a capacidade de encontrarem soluções para os seus próprios problemas. E Salmon Fishing trata exatamente disto.

O sheikh Mohammed está cheio de boas intenções, investe um rio de dinheiro – literalmente – para levar uma alternativa econômica e de renda para aquele local antes depreciado, mas não encontra este mesmo entendimento entre um grupo de pessoas local. Claro que se ele tivesse feito outro movimento, como ouvir as pessoas locais antes de atuar, envolvendo elas nesta proposta de desenvolvimento, ele teria tido outra resposta. O que nos leva a outra questão: por mais que achemos que estamos fazendo o bem e uma escolha certa, devemos sempre nos questionar. Partir da posição humilde de que não sabemos tudo, e que deveríamos ouvir mais do que falar aquilo que, para nós, parece tão evidente e certo.

Salmon Fishing, aliás, parece estar sempre falando sobre como esta posição humilde de questionar-se sempre parece ser a mais adequada. Dr. Jones e Harriet acabam, cada um em seu momento, questionando as suas próprias escolhas de vida. O sheikh, por mais diferente que é a sua realidade e firmeza de propósitos, também acaba se questionando. E o que o filme mostra, e eis uma parte bacana dele, é que há sempre alternativas. Não importa o problema que você esteja enfrentando, ou as escolhas que já tenhas tido na vida, há sempre um novo recomeço possível. Para isso, basta ter um pouco de fé, e alguma humildade e coragem.

Fora as questões filosóficas sobre ter paciência – a velha alusão ao ato de pescar – e de investir em uma ideia movidos pelo amor, Salmon Fishing acerta ao contrapor os homens “da ciência e da fé”, justamente para mostrar que eles não são tão diferentes assim e podem ser igualmente “contaminados” por uma característica ou outra. Porque, no fim das contas, e ainda que o Dr. Jones não tenha percebido, mas é justamente o amor por uma mulher (no caso dele) ou por uma ideia/povo (no caso do sheikh) que move ele, Harriet e o sheikh.

Achei especialmente engraçado como o protagonista, tão enfático em seu conhecimento científico, é tão “inocente” a respeito da vida real. Como Dr. Jones, há muitos especialistas espalhados por aí que são quase autistas. Vivem tão fechados em seus mundos científicos que não percebem como o restante da vida se desenvolve. Para ele, como cientista, é impossível criar salmões em um clima como aquele do Iêmen. Mas ele logo descobre que não há fronteiras para a capacidade do dinheiro em mudar realidades e transformar o impossível em algo possível. Certamente ele amadurece conforme esta história se desenvolve, e acompanhá-lo nesta “passagem” da vida pueril de um cientista para a de um sujeito que embarca em um projeto cheio de interesses e interessante encanta o espectador.

Outro acerto da produção é ironizar não apenas o jeito interessante dos ingleses encararem a sua própria intimidade, como também os bastidores da política. Servem de condimento para a história a relação fria entre Alfred e Mary Jones (Rachael Stirling). Eles são destes casais, e há muitos na Inglaterra e em outros países, que ficaram juntos cedo e que são mais amigos do que amantes ou confidentes. Há pouca intimidade naquele lar. E essa falta de paixão contamina todo o restante.

A mesma intimidade pouco afetiva é vista na casa da poderosa Patricia Maxwell (a excelente Kristin Scott Thomas), assessora de imprensa do Primeiro Ministro britânico. Fora de casa ela intimida e consegue mudar as coisas a favor do governo britânico impondo autoridade, mas dentro do lar ela não consegue ser ouvida pelo filho adolescente. Um contraste interessante e que faz refletir sobre a capacidade de homens em mulheres em obter sucesso em determinado campo da vida – profissional ou pessoal – mas, dificilmente, em todos. Até porque, e Salmon Fishing fala sobre isso, a dedicação para um propósito ou outro faz toda a diferença.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não li ao livro de Paul Torday, e que inspirou o roteiro de Salmon Fishing, mas algo eu posso dizer: que belo trabalho de Simon Beaufoy! Mais um, aliás. Aqui, outra vez, ele cuida de um roteiro ágil, cheio de diálogos preciosos e bem planejados/costurados. Não há sobras, e sim muitas linhas bem escritas. Dá gosto de ver um roteiro assim. E ainda que ele não seja muito surpreendente, no final, ele segura o interesse até o último minuto, bastante ajudado pelo carisma dos protagonistas e pelo ótimo trabalho dos coadjuvantes.

Falando nos coadjuvantes, Kristin Scott Thomas rouba a cena cada vez que aparece. Mas junto com ela, merecem ser mencionados alguns atores que fazem a diferença. Como, por exemplo, Conleth Hill, que interpreta a Bernard Sugden, o burocrata que é o chefe do Dr. Jones, político padrão, e que morre de medo de Patricia Maxwell. Os dois servem como uma ótima dupla de apoio para os protagonistas, junto com o excelente egípcio Amr Waked, que tem uma presença impressionante frente às câmeras, e do galã com pequena participação na trama, Tom Mison.

Salmon Fishing conseguiu, até o dia 3 de junho, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho baixo, comparado com os blockbusters, mas não está mal para um filme com estilo “alternativo”.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais de cinema, o de Portland, de Palm Springs e o de Tokyo. Nesta trajetória, ele conquistou um prêmio, o segundo lugar como melhor narrativa no festival de Palm Springs. Recentemente ele foi indicado para três prêmios no Globo de Ouro: Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia para Ewan McGregor e Melhor Atriz em Filme – Musical ou Comédia para Emily Blunt. Acho bem difícil ele ganhar qualquer um destes três.

Da parte técnica do filme, merecem ser mencionados os ótimos trabalhos do diretor de fotografia Terry Stacey, a trilha sonora de Dario Marianelli, e a edição de Lisa Gunning, que dá um ritmo interessante e que apresenta um trabalho técnico excelente.

Para quem gosta de saber aonde as produções foram filmadas, Salmon Fishing foi rodado em Londres, na Escócia e em Marrocos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Não está mal, avaliando a média de notas do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 91 críticas positivas e 45 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,2.

De fato, público e crítica tiveram uma avaliação muito próxima. E a minha, acima, talvez tenha sido muito generosa. Mas é que me surpreendi com todos os temas que esta produção trata. Admito, contudo, que ela simplifica um bocado os personagens principais – Dr. Jones muito estigmatizado como o “cientista insensível e deslocado do mundo real” e o sheikh muito estereotipado como o sujeito cheio da grana que gasta um rio de dinheiro em um projeto absurdo. Mas a verdade é que estes personagens existem na vida real, com um pouco menos ou mais de caricatura. Então devo dizer que este filme me convenceu, apesar do exagero em alguns momentos e pela falta total de surpresa na reta final. Mas tudo isso para dizer que eu entendo a avaliação menos generosa das outras pessoas. 🙂

Salmon Fishing in the Yemen é uma produção 100% inglesa.

Agora, uma pequena e fácil observação: o título original é bacana porque é autoexplicativo e resume parte da produção. Por outro lado, o título para o mercado brasileiro… horrível. Como em tantas outras vezes. Que Amor Impossível o que? Lamentável.

CONCLUSÃO: Há uma grande dose de realidade e de fantasia neste filme. Pescar, e isso Hemingway e tantos outros escritores já haviam nos ensinado, é uma questão filosófica e quase espiritual. Por tratar também de pescaria, Salmon Fishing in the Yemen pretende ser além do que uma bonita embalagem. Ele roça em questões como fé, superação humana e a motivação para nos fazermos maiores do que o ser insignificante (mas poderoso) que somos. E a grande motivação, claro, é o amor. Agora, francamente, se esta produção fosse apenas isto, filosofia em forma de pílulas, ela seria chata. Mas ela vai além. Aborda o jeito inglês de viver, trabalhar e amar, assim como os bastidores ridículos da política. Imagem é tudo, já diria uma certa propaganda. E o roteirista Simon Beaufoy e o diretor Lasse Hallström acertam a mão ao misturar todos estes elementos, buscando o equilíbrio entre eles. O resultado é um filme divertido, muito bem conduzido, que não surpreende no final, mas que traz alguns elementos interessantes no decorrer da história, além de um grupo de atores muito concentrado e com bom desempenho. Vale ser conferido, ainda que não seja inevitável.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: Salmon Fishing in the Yemen deve ser indicado em algumas categorias do próximo Oscar. Mas é difícil precisar em quantas. Como sempre, tudo vai depender do lobby de seus produtores e realizadores. Não seria surpreendente ele chegar a ser indicado como Melhor Filme, especialmente agora que até 10 produções podem chegar lá. Na versão anterior da premiação, quando apenas cinco eram indicadas, certamente ele ficaria de fora. Mas com a lista maior, é possível que ele chegue, mesmo não sendo o melhor do ano – e isso porque eu não assisti nem a metade dos favoritos.

Também é possível, pela “ficha corrida” de Hallström e pelo trabalho competente que ele fez nesta produção, que ele seja indicado como Melhor Diretor. É mais difícil, é verdade, mas nunca se sabe. No mais, não seria surpresa se o filme aparecesse na lista de Melhor Direção de Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Porque cada um destes elementos funciona com perfeição e tem destaque na produção.

Mesmo que o filme chegue a conquistar todas estas indicações, francamente acredito que ele saia de mãos vazias da premiação. Talvez Salmon Fishing tenha mais chances em direção de fotografia e trilha sonora. Mas, ainda assim, meu palpite é que ele não deverá ganhar nada. O que não seria injusto, analisando os seus concorrentes.

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3 comentários em “Salmon Fishing in the Yemen – Amor Impossível

  1. Gostei desse filme, vi a um bom tempo, não lembro se antes ou depois de “Perfect Sense”, filme de mesmo ano com E. McGregor, dessa vez fazendo par romantico com Eva Green. Apesar da historia diferente são dois belos filmes romanticos e valem a pena.
    Abraços!!

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  2. Excelente crítica!
    Esse filme me pegou de surpresa…exatamente por não ter grandes expectativas quando o assisti….
    E o ator Amr Waked está absolutamente encantador… Seria a Quadragésima Oitava esposa do Sheikh Mohammed feliz! Kkkkkkkkkkk

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