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The Paperboy – Obsessão

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Um elenco com vários nomes de destaque em Hollywood, um roteiro fraco a maior parte do tempo e bastante violento. The Paperboy é um destes filmes que você não sabe muito bem a que veio. Nem para que. O roteiro tem alguns momentos totalmente absurdos, e a história parece não engrenar nunca. Ainda assim, abriga algumas cenas de impacto, e uma e outra reflexão interessante. Não é um totalmente desastre, mas está longe de ser bom.

A HISTÓRIA: Uma mulher ajeita o cabelo enquanto o diretor pede para ser avisado quando a equipe estiver gravando. Começam as gravações e ele comenta que muitas pessoas se perguntaram o que realmente teria acontecido. Ele afirma que muitas perguntas surgiram logo depois que o livro foi publicado, e agradece a Anita Chester (Macy Gray) pela ajuda a tornar o assunto mais claro. Ela deve saber o necessário, já que o livro foi dedicado a ela.

Anita afirma que tudo o que está no livro é verdade, e começa a contar a história conforme ela lembra do que aconteceu. Ela diz que tudo aconteceu em 1969, durante o verão em Moat County, na Flórida. Um policial foi morto, e Hillary Van Wetter (John Cusack) foi preso pelo crime. O assunto acaba entrando no cotidiano da família para a qual Anita trabalhava como empregada porque o irmão de Jack (Zac Efron), o jornalista Ward Jansen (Matthew McConaughey) desconfia da versão oficial e viaja para a cidade para tentar descobrir detalhes sobre o que aconteceu.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a The Paperboy): A primeira impressão que eu tive com este filme foi que Macy Gray, ótima cantora, estava forçando na interpretação da personagem Anita. E esta impressão só vai se confirmando conforme a trama avança. Nem sempre uma artista do meio musical consegue se sair bem no meio cinematográfico. Há bons exemplos, como Norah Jones em My Blueberry Nights (comentado aqui no blog).

Não podemos falar o mesmo sobre Macy Gray. Ela faz um trabalho exagerado, um tanto preguiçoso. Um dos pontos que incomoda neste filme. Mas ele não é o único. Depois da aparição de Macy Gray, voltamos até agosto de 1969, quando o xerife Thurmond Call (Danny Hanemann) é morto. Rapidamente percebemos que o diretor Lee Daniels tem estilo e vai levar esse filme sob rédeas curtas. Funcionam bem as cenas em preto e branco, e elas criam uma boa expectativa no espectador de que verá uma produção diferenciada. Ledo engano.

Certo que Daniels faz um bom trabalho na direção. As cenas em preto em branco são ótimas. E o estilo do restante do filme, com um trabalho fundamental do diretor de fotografia Roberto Schaefer, também é interessante. Mas o problema deste filme é mesmo o roteiro, escrito por Daniels e Peter Dexter. Este último, autor do livro que inspirou o filme.

Há sequências verdadeiramente desnecessárias nesta produção. Que não apenas não agregam informações para a história, como também beiram ao absurdo. Exemplos? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sequência em que Anita vai limpar o quarto de Jack e eles acabam “trocando” de papéis e a segunda visita dos irmãos Jansen, junto com Charlotte Bless (Nicole Kidman), para ver a Hillary. Na primeira, totalmente dispensável aquela brincadeira de Anita com Jack, que acaba não tendo graça alguma, e, na segunda, bastante sem propósito a obsessão de Hillary sobre quem tem calças. No fim das contas, duas sequências que não agregam nada ao filme.

Mas há pelo menos uma outra sequência mais absurda que estas. Aquela que mostra Jack nadando na praia e, depois, sendo “atacado” por águas-marinhas. A solução para ajudá-lo, incluindo a execução da cena, é simplesmente ridícula. E beira o absurdo. Por estas cenas, o filme chega a deixar o espectador perplexo. Pelo lado negativo. A sensação que fica é que estamos perdendo o nosso precioso tempo vendo a um filme sem pé nem cabeça.

Para tornar a balança um pouco mais justa, contudo, há sequências em The Paperboy potentes. Há tanto a provocativa cena em que Hillary faz Charlotte masturbar-se na frente de Jack, Ward e do colega jornalista Yardley Acheman (David Oyelowo), quanto, e principalmente, a sequência em que Jack encontra o irmão sodomizado e quase morto. A reta final da produção, ainda que em parte prevista, também impressiona pela brutalidade. Aliás, este filme faz o estilo “sem papas na língua”. O problema é que ele é muito desigual e demora demais para chegar a alguma cena interessante.

Na maior parte do tempo, The Paperboy parece um filme arrastado, cansado, como se o roteiro e a equipe estivessem de fato sofrendo com aquele verão extremamente quente nos Estados Unidos. Seguindo a narrativa de Anita, esta produção parece ser a história do “primeiro amor” de um belo garoto, Jack, que ainda não sabe o que vai fazer da vida. Após os fatos que acontecem neste filme, ele aprende a duras penas um pouco mais sobre perder a quem se ama, reencontra a própria mãe, que há muito tempo não via, e acaba definindo os rumos que vai seguir.

Pena que apesar de ser centrado neste personagem, o roteiro aprofunde pouco na personalidade dele. A maior parte do tempo o esforçado Zac Efron fica babando para a bonita, mas não tão bela quanto deveria ser Charlotte Bless. Apesar da história dele parecer o centro deste filme, o enredo principal orbita sobre a culpabilidade ou a inocência de Hillary. Como pano de fundo, a divisão da sociedade norte-americana, mesmo no final dos anos 1960, sobre o tema racial.

Desde o princípio do roteiro fica evidente que os conflitos entre brancos e negros é um elemento importante desta história. Ainda que o homem que tem a culpa questionada seja branco. Mas existe o personagem do jornalista Yardley deslocado, sem contar a “descartável” Anita e o clima que os circunda. Outro preconceito surge lá pelas tantas: o que circunda os homossexuais. Pessoas como Ward que, aparentemente, devem esconder a sua vida privada e caminhar “nas penumbras” para encontrar o que lhe interessa. Mas estes assuntos são apenas citados na produção. Em nenhum momento ganham verdadeira relevância.

Uma questão que o filme levanta, contudo, verdadeiramente é interessante: como alguns defensores dos direitos civis fizeram besteira para defender os seus pontos de vista. Ainda que esta seja uma ficção, impossível não acreditar que houve histórias como a revelada em The Paperboy. Jornalistas como Yardley que ficaram famosos por escrever reportagens e livros sustentando histórias que não foram bem apuradas ou que, simplesmente, foram adulteradas para defender a teorias de acusados injustamente – e que, no fim das contas, eram culpados por seus crimes.

No caso de Hillary, não fica claro que ele foi culpado pela morte do xerife Thurmond Call. Mas pela personalidade violenta que acompanhamos na reta final da produção, e pela aparente história combinada entre ele e o tio Tyree Van Wetter (Ned Bellamy) sobre o campo de golfe, existe uma dúvida bem consistente de que ele foi o culpado. A pressa de Ward e, especialmente, de Yardley em defender a teoria de que Hillary era inocente, ele acaba sendo solto. E o restante da história se desenvolve.

Até hoje acompanhamos muitas histórias de culpados que saem rapidamente da prisão e acabam cometendo uma ou mais atrocidades. Não tenho dúvidas de que a “justiça dos homens” é falha. E não faltam exemplos para confirmar esta afirmação. Desta forma, The Paperboy aborda um tema interessante, ainda que perca muito tempo com bobagens e com sequências que poderiam ser dispensadas. Mas os atores se esforçam em seus papéis, ainda que falte química e sintonia entre eles. A direção funciona, mas o roteiro é muito ruim. Uma pena.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se eu fosse avaliar este filme friamente, provavelmente daria uma nota ainda menor para ele. Mas como gostei da direção de Lee Daniels, resolvi melhorar um pouco a avaliação. Também vale dar a nota acima pelo esforço de Matthew McConaughey, que é o melhor em cena, e por Zac Efron fazer um bom trabalho – ele realmente é lindo e pode evoluir na carreira se estudar um pouco mais interpretação.

Por outro lado, e contrariando alguns textos que li por aí, não gostei da Nicole Kidman. Achei a interpretação dela um pouco “over”, exagerada, e algumas vezes até perdida. Não gostei. Assim como achei um desperdício o papel de John Cusack. Ele é um ator melhor que o que ele demonstra neste filme.

Além dos atores citados, vale comentar o trabalho de Scott Glenn como W.W. Jansen, pai de Jack e Ward; e Nealla Gordon como Ellen Guthrie, que trabalha com W.W. Jansen e acaba ficando noiva dele. Os demais fazem papéis muito secundários e que acabam não tendo muita relevância para a produção.

Da parte técnica do filme, Lee Daniels tem uma direção firme e mostra talento, ainda que não faça nada totalmente inovador – as técnicas utilizadas por ele podem ser vistas no trabalho de outros diretores. O roteiro é ruim, fraco, arrastado, com várias sequências dispensáveis. A direção de fotografia, por outro lado, é um dos pontos fortes da produção. Mérito de Roberto Schaefer, como comentei anteriormente.

Merecem aplausos também o design de produção de Daniel T. Dorrance, a direção de arte de Wright McFarland, a decoração de set de Tim Cohn e os figurinos de Caroline Eselin e a edição de Joe Klotz. Eles são os responsáveis por ambientar o filme de forma convincente em 1969. A maquiagem da equipe liderada por Robin Mathews, por outro lado, deixa um pouco a desejar. Me pareceu forçada em muitos momentos. A trilha sonora de Mario Grigorov funciona, tem alguns bons momentos, mas não achei digna de ser comprada, por exemplo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Nicole Kidman entrou no lugar da atriz Sofía Vergara, que faz Modern Family, que tinha sido confirmada como a protagonista do filme antes. E o diretor Pedro Almodóvar foi cotado diversas vezes para assumir este projeto, que seria o primeiro filme dele em inglês. Mas no fim das contas, Almodóvar desistiu do projeto – talvez ele tivesse feito algo melhor do material original. Nunca saberemos.

Outro nome cotado para esta produção foi o de Tobey Maguire. Mas o ator não conseguiu espaço na agenda, com outros projetos em andamento. Alex Pettyfer tinha sido escalado para o papel de Jack, mas acabou dando lugar para Efron.

E uma observação que eu faço do filme. O título original, The Paperboy, faz uma referência clara à Jack que, de fato, é um entregador de jornais no início da história. Depois, Hillary tira sarro de Ward e Yardley chamando eles também de “entregadores de jornais”. Os dois são jornalistas, mas isso pouco importa para o presidiário. E para quase não variar, a tradução do filme no Brasil mudou totalmente o sentido do título do original. Nestas situações, em que é difícil traduzir o título, sempre vou achar melhor deixar o título original, sem mudar o sentido dele.

The Paperboy estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, ele passaria por outros oito festivais, incluindo o do Rio de Janeiro, no início de outubro de 2013. Nesta trajetória, ele ganhou três prêmios e foi indicado a outros seis, além de ter sido indicado para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman.

Entre os que recebeu, destaque para o de Ator Favorito em Filmes Drama para Zac Efron no People’s Choice Awards; Ator do Ano para Matthew McConaughey (pelo conjunto de trabalhos dele recentes, incluindo ainda Magic Mike, Killer Joe e Bernie) pela Associação de Críticos de Cinema de Central Ohio e um Prêmio Especial Honorário para Matthew McConaughey (pelo mesmo conjunto de filmes citado anteriormente) entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Austin. Os prêmios recebidos, até achei justos, mas a indicação de Kidman achei exagerada.

The Paperboy teria custado cerca de US$ 12,5 milhões. Nos Estados Unidos, o filme acumula um resultado de pouco mais de US$ 693,2 mil até o início de outubro. E no restante dos mercados, ele soma outros US$ 660,5 mil. Ou seja, somados, os resultados ultrapassam um pouco US$ 1,35 milhão. Perspectiva de um fracasso importante se seguir este ritmo. E cá entre nós, não me surpreende.

Esta produção foi rodada em Los Angeles e na cidade de New Orleans.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,7 para The Paperboy. Coincido bastante com esta avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 78 textos negativos e 60 positivos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,1.

Como em outras vezes, quero citar uma parte da crítica do conceituado Peter Howell, da Toronto Star, que pode ser lida na íntegra aqui. Na opinião dele, The Paperboy é um “exagerado e pantanoso melodrama” que tem um elenco tipo A e um “material tipo Z”. hehehehe. Boa! Howell também considerou a cena da urinada a mais ridícula do filme, mas não a única, e que tudo na produção é exagerado – o que não é bom.

Outro crítico listado como um dos favoritos dos leitores do Rotten Tomatoes teve uma opinião bem diferente. Steven Rea, do Philadelphia Inquirer, deu três de quatro estrelas possíveis para The Paperboy. Você pode ler o texto na íntegra aqui. Rea destaca o trabalho de Matthew McConaughey e o de Macy Gray, que considera que está fantástica no filme. Na avaliação do crítico, Daniels busca com os seus filmes “choque e pavor”, e isso é algo positivo. “Mas eles também pretendem explorar os recantos mais obscuros da alma, os sonhos e desejos que circulam sobre as nossas cabeças, e isso é ainda melhor”, escreveu. Uma maneira diferente de analisar The Paperboy, a qual respeito – ainda que não concorde.

The Paperboy é o terceiro filme da carreira de Lee Daniels. Em 2009 ele impressionou a muita gente – e eu me incluo no grupo – com Precious (comentado aqui no blog). Antes, ele dirigiu a Shadowboxer, lançado em 2005. Depois de The Paperboy, ele dirigiu The Butler, estrelado por Forest Whitaker e que conta a história de um mordomo que trabalhou com vários presidentes dos Estados Unidos na Casa Branca. Pelo jeito, após Precious, ele não seguiu no mesmo ritmo. Anda apresentando trabalhos mais fracos.

Este filme, 100% made in USA, entra na lista de produções daquele país que estou comentando aqui no blog após uma votação feita entre vocês, caros leitores. Até a próxima!

CONCLUSÃO: Este filme é quase uma incógnita. Afinal, qual é o propósito de The Paperboy? Ele não conta apenas a história do primeiro amor de um jovem. Nem mesmo a história real por trás de um livro. Além do fascínio de um belo jovem por uma mulher vulgar e obstinada por um presidiário, este filme coloca no mesmo caldeirão a segregação racial do Sul dos Estados Unidos, direitos civis e pena de morte – e a consequente preocupação de alguns jornalistas em evitar injustiças.

Esta mistura levanta algumas questões interessantes, mas não a ponto de fazer o filme te convencer. Verdade que ele tem algumas cenas bem fortes, e algumas interpretações esforçadas. Ainda assim, falta alma para esta produção, assim como mais argumentos para convencer o espectador. O cinema poderia perfeitamente seguir adiante sem esta produção. Gaste seu tempo com ele apenas se você gosta muito dos atores, do diretor ou se já tiver assistido a tudo o mais de bom que está nos cinemas.

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The Master – O Mestre

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Todos servem a algo ou a alguém. Essa afirmação foi cantada por Bob Dylan em 1979 na música Gotta Serve Somebody. E eu sempre lembro dela, nos momentos mais diferentes. Afinal, por mais independente e esperto que alguém se imagine, uma hora ou outra ele vai servir a alguém. The Master trata um pouco sobre isto. De como as pessoas precisam de lideranças e de crenças. Elas vão seguir e servir a alguém. E elas tem o poder de escolher a quem.

A HISTÓRIA: O mar. Águas azuis. Um marinheiro olha para o horizonte e sente o sol. Depois, em um coqueiro, ele retira alguns cocos com um machado, e bebe aquela água com um aditivo. Este cidadão é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), que faz parte de um grupo de marinheiros em tempo de guerra que encontra tempo para lutar como “gladiadores” na areia e para fazer imagens de mulheres nuas na praia. Com o fim do conflito, Quell volta para os Estados Unidos, onde passa por um tratamento psiquiátrico. Liberado, ele vai trabalhar como fotógrafo, na colheita de verduras, mas sempre se envolve em algum conflito. Até que entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), conhecido como Mestre, e fazer parte do grupo de seguidores de sua filosofia chamada A Causa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Master): A música no início do filme fala muito a respeito do que vamos assistir a seguir. Porque ela é estimulante e ajuda a estarmos, ao mesmo tempo, atentos e inquietos. E este é apenas o começo. Outro elemento também logo fica evidente: que Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho. Ele é a parte mais perturbadora da história, porque tem um desempenho visceral que impressiona.

The Master é um destes filmes curiosos do senhor Paul Thomas Anderson. O diretor assina também o roteiro da produção, que mergulha em elementos conhecidos do público estadunidense, como os traumas de um pós-guerra e a difícil experiência de integração dos ex-soldados a uma sociedade que não viu ou sentiu o que eles passaram em ambientes de batalha, tédio, espera e tensão. Mas o filme também inova ao mostrar uma seita, baseada em “ciência”, mas que trata de questões quase (ou que podem ser consideradas) religiosas.

Por todas as partes, os elementos dominantes deste filme são a dominação e a submissão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não percebemos no início, mas teremos certeza apenas no final, que Freddie Quell e Lancaster Dodd estão em uma permanente queda de braços. Para Dodd, líder de uma seita que busca consolidar-se e crescer, Quell é um belo experimento. Um desafio que, se superado, vai ajudar-lhe a ganhar ainda mais fama. Quell, por sua vez, perdido e solitário, sem amigos ou o amor verdadeiro, fica fascinado com a persuasão de Dodd, com o grupo que circula ao redor dele, e com a aparente confiança que o “guru” deposita nele, um pária social.

A todo o momento, esperamos que alguma catástrofe aconteça. Não sei vocês, mas eu aguardava a hora em que Quell pegaria uma mulher contra a sua vontade, talvez até a “bastante acessível” Peggy Dodd (Amy Adams). Isso porque ele é inconstante e imprevisível. Ainda que, conforme o filme passa, começamos a ter um quadro um pouco mais aprofundado do personagem, o opositor perfeito para o equilibrado e calculista Lancaster Dodd.

A grande questão levantada por The Master é de quem, afinal, acaba tendo mais poder? O sujeito inteligente, determinado, manipulador e cheio de seguidores, que tenta convencer as pessoas com sua doutrina e lógica, ou a força destrutiva, independente, anárquica e fora dos padrões do sujeito que flerta com a loucura e brinca com os padrões sociais? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por boa parte do filme, o primeiro tenta domar, compreender e subjugar o segundo. Acreditando que ele precisa ser “salvo” e domesticado. O segundo joga este jogo do subjugado por um tempo, mas resiste. E surpreende. A cena final entre os gigantes Phoenix e Hoffmann é de arrepiar, e só revela, mais uma vez, como este é o trabalho da vida de Joaquin.

O final deste filme pode levantar muitos debates – como a produção inteira, inclusive. O que eu achei dele? Bueno, primeiro, que os métodos de Dodd não eram tão eficazes assim – o que acaba sendo uma ironia interessante sobre qualquer figura que, como ele, tenta ser um messias misturando religião com ciência. Depois, que há casos de psoturas anarquistas e que fogem da lógica predominante que vencem qualquer tentativa de “conversão”. E terceiro que, mesmo que o objetivo “total” de Dodd não tenha sido realizado, de subjugar Quell, ele serviu como inspiração para o ex-militar, que seguiu adotando algumas das técnicas de Dodd a sua própria maneira.

E eis a ironia final de The Master. Porque por mais que algumas pessoas resistam a certa dominação, elas acabam cedendo a parte delas e/ou a suas influências mesmo sem querer. No fim, sempre que duas pessoas se encontram e se relacionam pra valer, elas se modificam mutuamente. Seguem suas trajetórias, após este encontro, tendo algum hábito ou forma de atuar diferente, influenciada pela pessoa que encontraram.

The Master trata desta história. Com interpretações dedicadas, especialmente de Joaquin Phoenix, e uma direção que valoriza estas interpretações, este é um filme de atores. E que ironiza sobre alguns mestres e seus seguidores, e sobre a validade e eficácia de suas doutrinas. Esta produção segue a lógica de uma extensa sessão de psicanálise. Por isso, tem momentos angustiantes, de puro desabafo e de alguma chatice. A parte que pode render algum bocejo envolve os “exercícios” e “provações” que Quell passa sob a batuta de Dodd. Mas nada que torne a aventura insuportável. Até porque Paul Thomas Anderson sabe o momento de virar o disco. E faz isso sempre no momento certo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Difícil terminar de escrever este texto. Por uma razão bem simples: assisti a este filme, acredito, ainda em fevereiro. Após o Oscar. Na sequência, comecei a escrever este texto. Mas pela correria que tive no meu trabalho, salvei ele nos rascunhos e só voltei a completá-lo hoje. Final de abril, mais ou menos dois meses depois. Então ficou difícil de relembrar de todas as minhas impressões sobre o filme. Por isso, peço desculpas para vocês. Esta crítica ficou mais “fria” do que eu gostaria.

Muito se falou que The Master seria “livremente” inspirado na história de L. Ron Hubbard, o polêmico, admirado e criticado “mestre” da cientologia. Honestamente? Vejo muitos pontos em comum e acredito, francamente, que Paul Thomas Anderson quis dar uma cutucada na cientologia sim. Para os curiosos sobre este assunto, eis aqui um texto, em inglês, assinado por Marc Headley que faz uma comparação interessante entre o filme, Lancaster Dodd, L. Ron Hubbard e a cientologia.

Paul Thomas Anderson faz mais um belo trabalho aqui, mas não considero este o seu melhor filme. Ainda prefiro Magnolia e There Will Be Blood. Neste momento, o diretor está trabalhando em seu décimo sexto título, Inheret Vice, ambientado na Los Angeles dos anos 1960 e protagonizado, mais uma vez, por Joaquin Phoenix.

Para mim, e volto a repetir isto, este é o trabalho mais impressionante de Phoenix. Ele domina e carrega o filme. E olha que ele tem, ao seu lado, o ótimo Philip Seymour Hoffmann e a sempre competente Amy Adams. Ainda assim, eles ficam eclipsados por Phoenix.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Jesse Plemons como Val Dodd, filho do Mestre; Ambyr Childers como Elizabeth, a filha de Dodd; Rami Malek como o marido dela, Clark, que acaba desafiando o protagonista em diversos momentos; e Laura Dern como Helen Sullivan, uma das “crentes” da doutrina de Dodd.

Da parte técnica do filme, vale comentar sobre a trilha sonora fundamental, e algumas vezes irritante, de Jonny Greenwood; e a direção de fotografia de Mihai Malaimare Jr., que valoriza a luz, algumas vezes parece “superexposta” e, consequentemente, nos ajuda a nos transportar para os Estados Unidos do período pós-Segunda Guerra Mundial.

Este foi o primeiro filme de Anderson sem o diretor de fotografia Robert Elswit – que tinha se comprometido a filmar The Bourne Legacy.

E uma curiosidade sobre The Master: ele tem uma forte influência estilística do documentário Let There Be Light, de John Huston, lançado em 1946.

A cena em que Freddie retira etanol de um torpedo para “envenenar” uma de suas bebidas foi baseada em fatos reais contados por Jason Robards para o diretor.

Na cena da destruição da cela na prisão, Phoenix realmente quebra o vaso sanitário. Ele fez isso no improviso. Outra sequência de improviso é aquela que abre o filme, com Freddie falando na praia.

The Master foi indicado a três Oscar‘s, mas não levou nenhuma estatueta para casa. Mesmo saindo de mãos vazias da premiação máxima de Hollywood, ele foi bem reconhecido em outras partes. No total, até o momento, ele recebeu 60 prêmios, a maioria deles entregue por associações de críticos. Preciso destacar, entre este total, os prêmios de melhor Diretor e melhores Atores para Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no Festival de Veneza.

Esta produção recebeu a nota 7,2 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 189 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota é muito boa, levando em conta a média do site.

Meus bons leitores/seguidores deste site, peço desculpas pela ausência desde o último Oscar. Mas é que vivi meses complicados, de muito trabalho fora do blog. Mas prometo que a partir desta semana eu voltarei a publicar com mais frequência, combinado? Obrigada a quem seguiu visitando este espaço e para quem fez comentários por aqui no período.

Em breve, começo a cumprir a promessa da última enquete neste site. A maioria de vocês pediu para que eu comece a falar de filmes nacionais. Muito bem, vou começar a fazer isto. Amanhã, vou assistir ao filme Somos Tão Jovens, um belo recomeço para as críticas de filmes nacionais aqui no blog. Sou convidada do Cinemark do Floripa Shopping. E na sequência, falo tudo sobre esta produção, que certamente vai mexer comigo – depois conto as razões -, para vocês. Inté breve!

CONCLUSÃO: Paul Thomas Anderson é um diretor diferenciado. E isso é o que eu mais gosto nele. Anderson fez um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Magnolia. E em todas as suas produções, ele apresenta esta forma de fazer cinema que não se parece com a de nenhum outro diretor de sua geração. The Master é mais um filme potente de sua filmografia, que flerta com questões importantes para a psicologia, mas que vai além. Trata de seitas, religiões e da ciência – cada uma com muitas aspas. Aborda os desejos reprimidos, a parte racional e animal de cada indivíduo e, principalmente, a nossa necessidade de acreditar e seguir certas ideias e pessoas. Um filme tão interessante que, certamente, pode render horas de debates. Por tratar de certas datas e locais, The Master foi apontado como uma produção que trata da cientologia e de seu fundador. De fato, há muitas semelhanças entre o roteiro e a história real, o que alimenta, ainda mais, os debates e a polêmica. Um filme perturbador, em vários sentidos, mas muito bom.

OSCAR 2013: The Master foi indicado a três estatuetas do Oscar deste ano. E não levou nenhuma. O que não é surpreendente, porque este não é um filme fácil para Hollywood.

As indicações foram para três atores. Algo justo, porque esta é uma produção que destaca o trabalho do ator. Assim, Joaquin Phoenix foi indicado como Melhor Ator; Philip Seymour Hoffman foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante; e Amy Adams foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.

De fato, acho que Christoph Waltz e Anne Hathaway tiveram interpretações mais impactantes em seus respectivos filmes do que os sempre competentes Hoffman e Adams. Agora, Phoenix… ele está tão entregue a seu papel e faz uma interpretação tão impactante e alucinante, que ouso dizer que ele merecia mais a estatueta que Daniel Day-Lewis.

Claro que ninguém duvida que Day-Lewis merecia ser o primeiro ator a receber três estatuetas pela categoria principal para homens do Oscar. Mas, desta vez, Phoenix fez um trabalho superior. Mas para quem acompanha a Academia, faz parte também saber que ela é política, e gosta de criar os seus mitos. Day-Lewis foi alçado a esta posição. Com méritos.

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Life of Pi – As Aventuras de Pi

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Se você assistiu a Life of Pi, certamente nunca mais vai esquecer de Richard Parker. Este nome vai ficar ressoando na sua lembrança por muito tempo. A história sobre ele é grande, mas demorei para assisti-la porque estava com preguiça. Admito que não foi por acaso que deixei este filme como o último para assistir da lista dos melhores indicados para o Oscar 2013. Eu sabia que Life of Pi trazia a história de um garoto e um certo tigre. E me deu preguiça. Porque achei que seria uma daquelas histórias de amizade entre “pessoas e bichinhos selvagens”. Ledo engano. E uma grande e boa surpresa.

A HISTÓRIA: Em um belo jardim, uma girafa come algumas folhas em uma árvore. Na sequência, um desfile de belos e diferentes bichos aparecem na tela. Quando os créditos e a música terminam, Pi Patel (Irrfan Khan) começa a contar a sua história para o escritor (Rafe Spall) que vai visitá-lo por indicação de um grande amigo do pai (Adil Hussain) de Pi, Mamaji (Elie Alouf). Ele conta que nasceu em Pondicherry, uma parte francesa da Índia, e que foi criado em um zoológico mantido por sua família. Procurando uma boa história para contar, o escritor comenta que Mamaji disse que Pi poderia lhe inspirar com o que havia acontecido em sua vida, e que comprovaria que Deus existe. Mergulhamos nesta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Life of Pi): O início deste filme me fez acreditar, por alguns minutos, que a minha resistência à ele poderia ser justificada. Por uns 200 segundos, assistimos a um desfile de diferentes animais na telona. Enquanto eles iam se sucedendo, apesar das belas imagens, eu pensava: “será mesmo que teremos um filme gracinha sobre bichos?”. Ainda bem que não.

Logo entra em cena o fantástico personagem de Pi Patel, interpretado, quando adulto, pelo carismático Irrfan Khan. A escolha do ator foi perfeita. Ele passa legitimidade como contador de história. E mesmo que apareça muito menos que o jovem Suraj Sharma, que vive Pi na juventude, Khan é fundamental para esta história. Ele nos fascina como narrador da mesma forma com que impressiona ao escritor estrangeiro interpretado por Rafe Spall.

Aliás, não sei quanto o roteiro de David Magee é fiel ao livro de Yann Martel. Mas posso dizer que é uma grande sacada da história o personagem do escritor gringo. Porque ele, no fundo, somos todos nós, “ignorantes” na cultura e nas peculiaridades dos indianos. Olhamos para aquela realidade, a exemplo de Slumdog Millionaire, com admiração e fascínio. Afinal, é uma cultura muito diferente da nossa e, ao mesmo tempo, ela guarda certas semelhanças com a diversidade e os contrastes do Brasil.

Enquanto o grande Slumdog explora mais a música, o ritmo acelerado da narrativa e os contrastes da Índia, Life of Pi mergulha mais na tradição e nos costumes daquele “sempre exótico país”. Então a minha primeira impressão positiva foi a escolha acertada dos atores e da “posição” dos personagens: o escritor gringo, que representa o espectador que vê tudo aquilo com surpresa, e o personagem principal, com uma história engraçada, curiosa e fascinante.

O segundo ponto que me fascinou na história foi a sua ideia de diálogo religioso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não demora muito para Pi nos ensinar que todas as religiões são válidas porque todas, a sua maneira, tratam de devoção, respeito a uma (ou mais de uma) divindade(s) e de amor. Mas ao invés de igualar todas as religiões, o protagonista deste filme mostra as diferenças entre elas, e como cada uma pode tornar o homem melhor de uma maneira diferente. Assim, Pi segue o hinduísmo, como qualquer indiano, encarando os seus diversos deuses como super-heróis; fica fascinado com o cristianismo, admirando a história de doação de Jesus; e também conhece Deus através do islamismo, quando percebe como a religião pode ser sentida fisicamente e dar paz de espírito. Nas palavras de Pi, ele conheceu a fé pelo hinduísmo, o amor de Deus pelo cristianismo e a serenidade e a irmandade pelo islamismo.

Belo exemplo. De como a curiosidade pacífica pode levar uma pessoa a conhecer o melhor das diferentes religiões e, desta forma, entender melhor os seus irmãos. O curioso é que, em casa, Pi tinha um pai ateu e uma mãe que não era muito religiosa, mas apegada ao hinduísmo como um último elo de ligação com as suas origens. Com isso, nosso personagem mostrava caráter e independência na forma de pensar. Algo que lhe acompanharia para o resto da vida. Essa reflexão, jogada tão cedo na telona, me fascinou. E para fechar, Pi ensina que há muitas dúvidas para quem acredita, mas que isso é importante quando a fé é vista como algo algo vivo. E aí vem outro ponto interessante da história.

Pi aprende, com Mamaji, que o medo paralisante ou desesperador poderiam ser os seus principais inimigos. Assim, ele não aprende apenas a lidar com a água, mas também a ter um grande fascínio pelos animais. Especialmente por Richard Parker, um tigre de bengala que faz parte do zoológico da família. Ele respeita o tigre e tem uma grande admiração por ele. Mas aprende, com o pai, que deve temê-lo, e encará-lo como um animal cruel. Qualquer ligação afetiva que Pi possa acreditar que existe, ao olhar no olho do tigre, ensina Santosh Patel, deve ser vista pelo filho como um reflexo de suas próprias expectativas.

Esta é uma forma de olhar para um tigre e para a Natureza. Mas há outras. E grande parte de Life of Pi vai tratar desta segunda maneira de encarar a Natureza. Ela é fascinante, e podemos aprender muito com as características de cada animal. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Assim, quando Pi está sozinho com quatro tipos de bichos em um bote após o naufrágio do navio que está levando ele e a família para o Canadá, ele observa as características essenciais de cada um deles. Aprende a entendê-los, respeitá-los e temê-los. Mas depois, quando fica sozinho com Richard Parker, percebe o quanto o “diálogo” entre eles é o que garantirá a sua própria sobrevivência.

Até perto do final, fiquei apenas fascinada com as belas imagens conquistadas pelo excelente diretor Ang Lee e pelo excepcional trabalho do diretor de fotografia chileno Claudio Miranda. Life of Pi é de encher os olhos. O visual é fantástico, e a trilha sonora de Mychael Danna ajuda a embalar a história e torná-la ainda mais emotiva e dinâmica. O aprendizado de Pi com Richard Parker e vice-versa é pura fantasia e, para pessoas que não se importam com histórias assim, um verdadeiro deleite.

Mas aí que o filme nos dá uma rasteira e revela, perto do fim, toda a sua grandiosidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a esta produção). Afinal, ser apenas uma história difícil de acreditar, mas fascinante, da sobrevivência de um jovem de um naufrágio junto a um tigre, não tornaria Life of Pi grande. Seria, apenas, interessante, bem feito, bonito. Mas quando descobrimos, como o escritor que escuta este conto, que esta história é uma grande parábola para o protagonista lidar com a própria dor e com aquela situação traumatizante, percebemos o quanto Yann Martel realmente escreveu uma grande história. Ao pensar em tudo que acontece após o naufrágio com pessoas específicas no lugar dos animais, Life of Pi ganha outra dimensão.

As pessoas são, muitas vezes, muito mais cruéis que qualquer “animal selvagem”. Somos capazes das maiores brutalidades, das ações mais inacreditáveis – para o bem e para o mal. Life of Pi trata um pouco sobre isso. Nos aproxima das nossas origens, animais, mas revela, também, como podemos superar estas origens para darmos exemplos de grandeza. De valentia, coragem, generosidade e amor. Os japoneses, que sabem como poucos lidar de forma lírica com a dor e a perda, conhecem bem a força de uma parábola. De uma história fantástica para tratar de sentimentos importantes. Não por acaso, são japoneses que escutam Pi e fazem um relatório final que ajuda a consolidar a sua história.

Bem pensado, e muito relevante, a pergunta que Pi faz para o escritor – que somos nós – no final. Qual história nós preferimos, levando em conta que nenhuma delas explica o naufrágio e nem elimina a dor e as perdas que ele sofreu? Fica a critério de cada espectador fazer a sua escolha. Mas evidente que esta é uma alegoria, uma forma poética de encarar uma realidade que foi muito mais cruel. Belo ensinamento, em todos os sentidos. Muito bem administrado desde o princípio, este filme ganha uma outra dimensão no final. Para a nossa sorte.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Life of Pi é um filme lindo. Muito bem acabado, visualmente. Para isso acontecer, pelos ambientes em que a produção se passa, é fundamental não apenas o ótimo trabalho do diretor Ang Lee e do diretor de fotografia Claudio Miranda, mas também o trabalho competente de David Gropman no design de produção; a direção de arte de Al Hobbs, Ravi Srivastava, James F. Truesdale e Dan Webster; o departamento de arte comandado por Wylie Griffin; os efeitos especiais da equipe de Zong-Se Wei e Shang-Mong Wu; e, principalmente, pelos efeitos visuais da equipe que parece não ter fim (vide a lista gigante no site IMDb) coordenada por Oscar Velasquez e que teve a liderança de Manasi Ashish, Ronn Brown, John Kent Jr. e Masahito Yoshioka. Todo este coletivo é responsável pelo apelo visual da produção. E, sem dúvida, grande parte da verba do filme foi gasta com os efeitos visuais.

Outro nome importante para Life of Pi funcionar é o do editor Tim Squyres. Ele teve trabalho, com Life of Pi. Para que tudo esteja no lugar certo, em um filme que consegue ter bastante ritmo, apesar de grande parte dele se passar ao redor de um barco salva-vidas à deriva no mar.

Do elenco, merecem um aplauso especial a dupla que encarna o protagonista. Tanto Suraj Sharma quanto Irrfan Khan dão um show. Ambos são carismáticos e ambos dominam a cena de forma impressionante. Convencem, e com naturalidade.

Além deles, que roubam a cena, e dos atores já listados, vale citar a atriz Tabu como Gita Patel, a mãe tranquila e amorosa de Pi; Gautam Belur como o garoto Pi aos cinco anos de idade; Ayush Tandon como Pi quando ele tinha 11 e 12 anos – aliás, este garoto rouba a cena quando aparece; Ayan Khan em uma ponta como o irmão de Pi, Ravi Patel, quando ele tinha sete anos de idade; Mohd Abbas Khaleeli como Ravi dos 13 para os 14 anos, também como ponta; Vibish Sivakumar como Ravi entre os 18 e os 19 anos; Gérard Depardieu em uma superponta como o cozinheiro grosseiro do navio que leva a família Patel; James Saito e Jun Naito como a dupla de investigadores japoneses que procura saber como o navio naufragou; Andrea Di Stefano como o padre que ensina sobre Cristo para Pi; e Shravanthi Sainath como a primeira paixão de Pi, a jovem indiana aluna de dança Anandi.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: até um certo ponto, M. Night Shyamalan tinha sido cotado para dirigir e escrever o roteiro deste filme. Sem dúvida, teríamos sido apresentados a uma forma muito diferente de narrar a história se isso tivesse acontecido.

De fato existe uma Piscine Molitor na França. Segundo esta história, o protagonista recebeu o nome de Piscine Molitor Patel por causa de uma piscina francesa. A piscina existe perto do Parque Bois de Boulogne, entre o estádio de Roland Garros e o Parc des Princes. Em 1990 ela foi considerada um patrimônio histórico, após ter caído em desuso e ter sido fechada em 1989.

Só depois de assistir a Life of Pi é que fiquei sabendo sobre a “polêmica” (bem entre aspas mesmo) envolvendo a obra de Yann Martel e o livro de Moacyr Scliar. Sou franca em dizer que não li a nenhuma das duas obras. Mas pelo que eu entendi, o livro de Scliar conta a história de um garoto que cruza o Oceano Atlântico em um bote junto com um jaguar. Quem assistiu a Life of Pi – e imagino que o filme seja bem fiel à obra de Martel – sabe que o “espírito” da obra deste autor é muito diferente do conceito de Scliar. Não vejo, de fato, um plágio aí. Mas admito que só poderei opinar com toda a propriedade recomendada após ler aos dois livros.

Em nenhum momento o ator Suraj Sharma contracenou com um tigre de verdade no barco. Apenas algumas cenas em que o animal nada na água, durante a história, foram feitas com um tigre de verdade. Para ser mais precisa, 86% das cenas em que o tigre aparece, ele não passa de efeitos especiais. Em apenas 23 cenas, ou 14% do tempo em que o animal aparece, se trata de um tigre de bengala real.

O estreante Suraj Sharma não tinha feito planos para estrelar este filme. Na verdade, ele foi descoberto ao acompanhar o irmão para uma audição. Sem pretender, ele superou 3 mil candidatos para o papel. E se saiu muito, muito bem.

Life of Pi custou impressionantes US$ 120 milhões. Mas ao assistir ao filme, entendemos como este dinheiro foi gasto. Principalmente com efeitos especiais e visuais. A parte técnica, sem dúvida, consumiu grande parte dos recursos, especialmente porque esta é uma produção sem atores muito conhecidos.

Até o dia 17 de fevereiro, Life of Pi tinha arrecadado quase US$ 111,4 milhões apenas nos Estados Unidos. Juntando a bilheteria no resto do mundo, certamente ele não dará prejuízo.

Esta produção estreou em setembro no Festival de Cinema de Nova York. Depois, ele passaria por outros três festivais, nenhum de grande peso. Até o momento, Life of Pi ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 56, além de ter recebido 11 indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano na AFI Awards; Melhor Direção de Fotografia e Melhores Efeitos Visuais no BAFTA Awards; Melhor Roteiro Adaptado no Satellite Awards; e Melhor Trilha Sonora Original no Globo de Ouro.

Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, Life of Pi foi filmado em Taiwan, na Índia e no Canadá. Sem dúvida estas locações também ajudaram a elevar o custo da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem o seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 190 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média 8.

Life of Pi é uma produção dos Estados Unidos e de Taiwan.

Há tempos eu não tinha dificuldade em escolher o cartaz do filme que eu estava comentando aqui no blog. Mas com Life of Pi, fiquei muito na dúvida… os três cartazes que eu escolhi eram muito bonitos. Mas acabei decidindo por este, possivelmente o mais clássico deles.

CONCLUSÃO: Nada como ser surpreendida positivamente, não é mesmo? Eu não gosto de filmes que forçam a barra para tornar a relação entre animais e pessoas ultra sentimentais. Afinal, nossas relações com os bichos são suficientemente passionais. Não preciso de histórias que levem esta relação ao extremo. Para minha surpresa, Life of Pi não chega nem perto desta vertente de filme. Eis aqui uma história interessante e diferenciada, rara no cinema atual. Um filme que fala como as parábolas fazem sentido. Como é belo pensar em uma forma diferente de encarar a dor, e de enfrentar situações que não deveriam ter acontecido. A perda e a dor podem ser embaladas de uma forma diferente para conseguirem ser levadas adiante. Lindo visualmente, Life of Pi é ainda mais bonito na mensagem. Vença o seu preconceito, como eu venci o meu, para surpreender-se também. Sem dúvida, um dos grandes filmes desta safra recente que chegou até o Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Life of Pi foi um dos filmes que mais recebeu indicações no Oscar deste ano. Foram 11, no total, a maioria em categorias técnicas. O que é justo, evidentemente, porque esta é uma produção bem acabada, com uma produção impecável e que segue a linha da fantasia, do surreal.

Entre as indicações em categorias técnicas, estão as de Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhores Efeitos Visuais.

Não assisti a todos os concorrentes destas categorias, mas posso dizer que Life of Pi tem ótimas chances de ganhar as estatuetas de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Visuais. Em Melhor Edição de Som, ele tem fortes concorrentes, como 007 Skyfall, que não assisti, mas que sei que tem um trabalho ótimo em edição de som e, principalmente, Zero Dark Thirty. Igualmente, podem vencer Argo ou, até mesmo, correndo por fora, Django Unchained. Categoria bem equilibrada e difícil de acertar. Meu voto estaria entre Life of PI e Zero Dark Thirty. E em Melhor Mixagem de Som a disputa é boa também. Acho que os grandes concorrentes voltam a ser 007 Skyfall, Argo e Les Misérables. Meu voto estaria entre Les Misérables e Life of Pi.

Além das categorias técnicas, Life of Pi está concorrendo em três categorias principais: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Em todas estas categorias a disputa é acirrada, com grandes produções concorrendo a cada estatueta. E com alguns favoritos já anunciados pelos prêmios que antecedem ao Oscar.

Os grandes concorrentes de Life of Pi em Melhor Roteiro Adaptado são Argo e Lincoln. Como Melhor Diretor, a queda de braço está forte, com algumas surpresas nas indicações, como o novato Benh Zeitlin, de Beasts of the Southern Wild, e veteranos que há tempos estão cotados para receber uma nova estatueta, como Steven Spielberg e Michael Haneke. Francamente, acho que Ang Lee tem poucas chances, e que a Academia deve reconhecer Spielberg. Mas surpresas podem acontecer.

Analisando o trabalho de diretor, deixando para lá a verve de roteirista, meu voto iria para Ang Lee, Benh Zeitlin ou Michael Haneke. Finalmente, a categoria de Melhor Filme… tudo indica que Life of Pi não terá chances frente a Argo e Lincoln. No fim das contas, o filme de Ang Lee deve levar algumas estatuetas em categorias técnicas. Tem potencial para umas quatro ou cinco estatuetas. Seria merecido.

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Django Unchained – Django Livre

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É difícil para um diretor que fez filmes incríveis seguir com a mesma batida a cada nova produção. E mesmo que muita gente diga que Quentin Tarantino não consegue mais reprisar a força de Reservoir Dogs e Pulp Fiction, por exemplo, é inevitável tirar o chapéu para Django Unchained. Claro que ele não faz o filme definitivo de faroeste. E nem chega a resgatar o gênero – que já passou por um resgate fundamental com Unforgiven – e todos os filmes que viriam depois deste clássico de Clint Eastwood. Mas ele consegue nos conquistar logo no início com um roteiro incrível e algumas sacadas que só ele é capaz de ter. Pena que ele perde um pouco a mão na duração do filme, que poderia ter meia hora a menos, pelo menos. Mas ele segue sendo bom, muito acima da média.

A HISTÓRIA: Cenário desértico. A câmara abaixa, e vemos uma fileira de homens negros com machucados graves de chicotadas nas costas. Tempos depois, em uma noite escura, eles estão andando com cobertas nas costas porque o cenário está gelado. Esta história está ambientada em 1858, dois anos antes da Guerra Civil dos Estados Unidos. O grupo está sendo guiado pelos comerciantes de escravos chamados de irmãos Speck (James Remar e James Russo) por algum lugar no Texas, até que Dicky Speck para o grupo ao avistar uma carroça se aproximando. Nela está o Dr. King Schultz (Christoph Waltz) e seu cavalo Fritz. Ele procura pelos Speck e pelos escravos que eles compraram em Greenville. Entre eles está um escravo que trabalhou nas plantações Carrucan. Ele está sendo procurado porque poderá ajudar Shultz em uma missão. E este homem é Django (Jamie Foxx). A partir daquele momento, Schulz e Django desenvolvem uma parceria que vai levá-los longe, em um caminho de justiceiros.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Django Unchained): Os primeiros 50 minutos deste filme é o que ele tem de melhor. Tarantino consegue ganhar a plateia logo no início, com aquela agilidade de roteiro e de sacadas que lhe tornou famoso. Os diálogos, a trilha sonora e a preocupação dele com o tempo e o ângulo da câmera fazem toda a diferença na parte inicial da produção. Mas depois o diretor gasta tempo demais na Candyland.

O filme não chega a ficar arrastado, ou chato. Até porque Tarantino sabe muito bem fazer o seu ofício. Tanto como diretor, como como roteirista. E ele sabe, na mesma medida, escolher os seus atores. E a dupla Jamie Foxx e Christoph Waltz segura todas as pontas, fazendo um dueto ajustado e que funciona com precisão. O mesmo não pode ser dito dos atores Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson.

O primeiro interpreta ao rico fazendeiro Calvin Candie. Na primeira parte de sua aparição, especialmente na cena do escravo com os cães, ele está bem. Um pouco over, mas ainda bem. Agora, quando se encontra com Samuel L. Jackson, que interpreta ao escravo Stephen, um tanto “mandão” e over demais, DiCaprio acompanha ao ritmo e também fica um pouco acima da nota adequada. Sem dúvida, tirando um pouco de lenga-lenga daquela apresentação de Django, Schulz e Candie, e também da enrolação da proximidade um tanto forçada entre Candie e Stephen, o filme ganharia.

Achei uma ótima sacada de Tarantino, logo após o sucesso de Inglorious Basterds, não apenas recuperar a ótima fase do ator Christoph Waltz mas, e principalmente, colocá-lo na pele de um alemão. Que, como era de se esperar, não entendia aquela infâmia chamada escravidão nos Estados Unidos. E a exemplo do filme anterior, Tarantino fez questão de não se ater a uma história real. Ou a amarrar a história a fatos muito concretos. Apesar disso, e por ser um grande interessado pela Segunda Guerra Mundial e pelo tema da escravidão, ele pode escrever dois roteiros cheios de realismo. Aquele realismo fantástico que o caracteriza.

E é assim que assistimos à perplexididade das pessoas, sejam brancos ou negros, com a relação entre Schultz e Django. O fantástico Christoph Waltz leva com muita propriedade o seu personagem do início até o fim. Ele não entende a escravidão, por isso trata Django como um sujeito igual a ele, oferecendo uma parceria desde o princípio. Correto, como todo alemão, ele logo coloca sobre as mesas as cartas que possui e que está disposto a oferecer. E Django embarca em sua proposta por causa disso. Pelo respeito e pela consideração que ele nunca tinha recebido. E que merecia receber, é claro.

E os dois fazem uma parceria incrível como caçadores de recompensas. Que outra mente além de Tarantino poderia colocar nesta posição um ex-dentista e um escravo alforriado? Grande sacada. O melhor do filme está nesta parceria entre os dois e na trilha que eles percorrem até a casa de Calvin Candie. A partir dali, apenas a cena do encontro de Schultz com Broomhilda von Schaft (Kerry Washington) vale a nossa atenção completa.

Há algumas outras pérolas jogadas até o final, claro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como o grand finale de Candie e a aparição de Tarantino como um dos empregados da temida The LeQuint Dickey Mining Company. E, claro, aquele “eterno retorno” de Kill Bill com a cena derradeira na casa grande. Uma vingança que se preze tem que ter uma sequência ciranda como aquela, segundo Tarantino. A marca dele está ali, assim como em todas as outras partes deste filme que trata sobre amor, fidelidade, respeito e uma época em que absurdos aconteciam sob a proteção da lei. Não é o filme definitivo sobre western mas, sem dúvida, é um exemplar interessante do gênero. Como tudo em que Tarantino se mete. A verdade é que o diretor e roteirista não consegue fazer um filme ruim. Ele até pode agradar mais aqui do que ali, mas nunca nos decepciona.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Totalmente uma obviedade dizer isso, mas a trilha sonora de Django Unchained é maravilhosa. Mais um trabalho excepcional de Tarantino que tem como uma de suas marcas registradas fazer uma trilha digna de ser comprada. Entre as ótimas escolhas, o mestre Ennio Morricone; várias músicas de Luis Bacalov; a ótima Freedom de Elayna Boynton, Kelvin Wooten e Anthony Hamilton; RZA e o grande Johnny Cash. Só para citar alguns.

Muito interessante, ainda falando da trilha sonora, de como Tarantino resgatou músicas de vários outros filmes. Como, por exemplo, várias músicas do filme I Crudeli, de 1967, dirigido por Sergio Corbucci; e outras canções de Two Mules for Sister Sara, de 1970, dirigido por Don Siegel; de I Giorni Dell’Ira, de 1967, do diretor Tonino Valerii; de Batoru Rowaiaru, de 2000, dirigido por Kinji Fukasaku; Lo Chiamavano King, de 1971, do diretor Giancarlo Romitelli; e de Città Violenta, de 1970, dirigido por Sergio Sollima. Esta é uma das formas de Tarantino de sugerir ótimos filmes para as pessoas fascinadas não apenas pelo cinema que ele faz mas, especialmente, pelo próprio cinema.

O ator Franco Nero merece um crédito especial no início do filme. E não é por menos. Ele é um veterano e um ícone dos filmes de faroeste. E aparece, em Django Unchained em uma superponta, como Amerigo Vessepi, o italino que aposta contra Calvin Candie em uma luta na noite em que os protagonistas chegam ao local.

Django Unchained custou a barbaridade de US$ 100 milhões. Digo barbaridade porque acabo de assistir a Beasts of the Southern Wild, comentado aqui no blog, que teria custado cerca de US$ 1,8 milhão e que, igualmente, chegou a ser indicado como Melhor Filme no Oscar deste ano. Brincando brincando, o dinheiro gasto com Django poderia ter garantido a produção de 55 filmes como Beasts of the Southern Wild. Claro, vocês vão dizer, os padrões são muito diferentes. Mas mesmo assim… muitos faroestes foram feitos com baixo orçamento. E, francamente, Django não precisava gastar US$ 100 milhões. Certamente custou tudo isso porque os atores pesaram no orçamento. 🙂

Até o momento, apenas nos Estados Unidos, Django faturou pouco mais de US$ 150,9 milhões. Obviamente ele se pagou. Ainda assim, tem um potencial muito menor de lucro do que um filme de baixo orçamento.

Django Unchained estreou no Canadá em dezembro de 2012. Depois, ele foi entrando nos outros circuitos comerciais e, até o momento, não participou de nenhum festival de cinema. Mesmo sem concorrer nestes locais, ele já faturou 19 prêmios e foi indicado a outros 38, além de ser indicado a cinco Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano no Prêmio da AFI; o Melhor Ator Coadjuvante para Leonardo DiCaprio e um Top Films do National Board of Review; e os Globos de Ouro de Melhor Roteiro e de Melhor Ator Coadjuvante para Christoph Waltz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para esta produção. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão exigente do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 201 críticas positivas e 26 negativas para Django Unchained, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8.

Vocês notaram que demorei para assistir a este filme, não é? Admito que eu perdi a estreia dele no Brasil. E que, depois, preferi me jogar em outras “novidades” destacadas pelo Oscar antes de ver a este filme. Afinal, sempre me desmotiva um pouco quando “todos” já assistiram a algo. Mas o bom é que, apesar de tanta gente ter dito que tinha gostado de Django Unchained, isso não me impediu de assistí-lo sem estar contaminada. E agora, só falta um para fechar a lista dos nove indicados ao Oscar principal. Bóra lá!

CONCLUSÃO: Tarantino adora histórias de vingança. Destas que fazem a plateia torcer pelo mocinho que foi sacaneado. Django Unchained muda apenas o gênero de filme, e a paisagem, mas segue a mesma linha de outras produções recentes do diretor. Desta vez, ele faz a mistura inusitada entre faroeste e escravidão, e o resultado, como não poderia deixar de ser, é pop. Para quem não gosta de sangue, esta não é uma boa pedida. Porque não há tiro jogado fora neste filme. Todos acertam algum alvo e, a cada acerto, o sangue jorra. Tarantino parece cada vez mais propenso a fazer isto acontecer. Ele chegou perto de tornar o recurso over, mas o roteiro, especialmente os diálogos, tão bem escritos, ainda fazem a balança pender para o bom gosto. Django Unchained poderia ser mais curto, sem prejuízo para a história. Mas graças ao roteiro e aos atores principais, não sofremos com a vontade de Tarantino em utilizar o tempo que ele acha adequado para nos levar pela mão em mais um conto de vingança. Com aquela trilha sonora impecável. Ele segue bem. E mereceu estar no Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Django Unchained foi indicado a cinco Oscar’s. Conseguiu emplacar as indicações de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som, Melhor Ator Coadjuvante para Christoph Waltz e Melhor Roteiro Original.

Francamente, pela ousadia que Tarantino segue tendo ao trilhar seu próprio caminho e filmografia autoral, Django merece ter sido indicado como Melhor Filme. Até como incentivo para que outros autores sigam fazendo isso, independente se o tema ou a condução do filme segue a cartilha do politicamente correto ou do que Hollywood quer pregar no momento.

Apesar de merecer estar entre os nove melhores filmes do ano, segundo o Oscar, Django não tem chances de ganhar dos favoritos Lincoln, Argo ou, correndo por fora, até de Zero Dark Thirty. Mas em outras categorias ele tem chances reais de levar a estatueta.

Não assisti ao trabalho de Philip Seymour Hoffman em The Master, mas conferi o trabalho dos demais concorrentes nesta categoria. E acho que Christoph Waltz está melhor que Alan Arkin, Robert De Niro (muito caricato e repetitivo) e Tommy Lee Jones em seus respectivos filmes. Claro que o Oscar pode premiar Arkin ou Jones para consagrar ainda mais a Argo ou Lincoln, respectivamente. Mas seria muito justo Waltz levar esta estatueta.

Django pode faturar também Melhor Edição de Som, ainda que ele tenha em Zero Dark Thirty um concorrente fortíssimo. Em Melhor Fotografia, fica difícil de opinar porque só assisti a Lincoln, do restante da lista, mas acredito que Life of Pi seja o grande concorrente desta categoria.

Em Melhor Roteiro Original a parada volta a ser duríssima. Sou suspeita para falar… gosto demais do roteiro de Moonrise Kingdom. Mas Zero Dark Thirty também ganharia, fácil, o meu voto, assim como Amour. Eita categoria difícil! E Django Unchained ainda se junta a eles. Dificile. Todos os roteiros muito bons. Mas eu acho que ficaria entre Zero Dark Thirty e Django. Para resumir, qualquer um que vencer terá sido por méritos.

Resumo da ópera: Django Unchained pode sair de mãos vazias deste Oscar, ou levar uma ou duas estatuetas. Entre as que tem mais chance, estão a de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição de Som. Especialmente o de ator.

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Les Misérables – Os Miseráveis

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Me perdoem, mas vou começar este texto dizendo algo óbvio. Os clássicos são chamados clássicos por uma boa razão. E esta boa razão se chama qualidade extrema. Na escola, eu lembro, crianças e jovens têm preguiça de ler os clássicos. Muitas vezes, de fato, porque eles são difíceis. Por isso mesmo, é sempre um prazer quando alguém como o diretor Tom Hooper resolve resgatar um clássico e jogá-lo nos cinemas, utilizando uma linguagem muito mais acessível. Les Misérables é uma produção intocável. E que me surpreendeu. Admito que, no início, eu estava com um pouco de “preguiça” de assistir a um musical adaptado da obra de Victor Hugo. Achei que poderia ficar pedante demais. Mas que fantástico presente! Quebre qualquer preconceito que você puder ter com musicais. Vai valer a pena.

A HISTÓRIA: Uma bandeira tremula na água. O ano é 1815, exatamente 26 anos após o início da Revolução Francesa. Novamente a França tem um rei ocupando o seu trono. Um navio de guerra retorna para o porto e é puxado por dezenas de homens com grossas cordas. Eles são prisioneiros. Entre eles, Jean Valjean (Hugh Jackman). O grupo canta a sua pobreza, com ódio na voz, e são observados pelo policial Javert (Russell Crowe). Depois de ajudar a puxar o navio, Valjean é convocado por Javert a pegar o mastro com a bandeira francesa. E recebe a notícia que está saindo em condicional. Mas que terá que carregar uma carta que lhe apresenta como um homem perigoso. Uma condenação para o resto da vida. Livre, contudo, Valjean recebe uma única oportunidade de recomeçar a vida, e acaba escolhendo este caminho, que significa ignorar o próprio nome, para tentar trilhar um caminho distinto do que aquela carta de condicional lhe determinava.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Miseràbles): Para gostar deste filme, em primeiro lugar, é preciso aceitar algo que nem sempre as pessoas parecem estar dispostas a aceitar: de que todos nós somos falhos. É estranho ouvir Russell Crowe em um musical? Certamente. Ele parece sofrer para cantar? Um pouco. Mas nem esta primeira constatação, logo no início do filme, e nem a mesma constatação feita com outros atores que, diferente de Hugh Jackman e Anne Hathaway são menos afeitos a cantar, diminuem a força dramática desta história e as suas várias qualidades.

Logo que terminei de assistir a Les Misérables, eu sabia que deveria dar uma nota muito alta para ele. Talvez, até, a máxima. De verdade, fiquei emocionada com a entrega da equipe envolvida e, evidentemente, com o respeito deles com a obra máxima de Victor Hugo. E que obra! Há muito tempo eu não chegava perto deste clássico e de toda a sua profundidade. E esta leitura, com levada muito popular, rejuvenesceu a tão examinada história de Jean Valjean.

Sou da opinião, e a cada dia mais, que as pessoas devem abandonar os preciosismos. Deixar para lá um pouco da “erudição” e do apego ao original, como se ele fosse imutável – quando toda obra carrega, em sua própria essência, a capacidade de ser mutável -, para “abrir a mente” para as releituras. Claro que não defendo as adaptações que violentam o original. Mas este não é o caso deste Les Misérables. A essência do original está toda aqui. Mas vestida de uma roupagem para este século 21 que se parece, em muito, com a parte final do século anterior.

Sendo assim, e voltando um parágrafo, comento que eu sabia, logo depois de terminar de ver a este filme, que lhe daria uma nota muito boa. Primeiro, porque Les Misérables tem um cuidado com os aspectos técnicos irretocável. É um filme que investe nos detalhes, desde o trabalho do ator, os figurinos, direção de fotografia, até os efeitos visuais e especiais. Depois, porque o roteiro respeita a essência do original. E finalmente, porque ele inova ao investir na dramaticidade da música para supervalorizar o lado afetivo do original sem torná-lo piegas.

Ainda que eu tivesse uma nota em mente, resolvi dar uma olhada nas avaliações dos usuários dos sites IMDb e Rotten Tomatoes. Como vocês, meus caros leitores, sabem que eu sempre faço. E como em qualquer outra crítica, não tive a minha nota modificada por estas análises. Mas admito que fiquei surpresa ao ver que, desta vez, mais que em outras, minhas impressões não acompanhavam a da maioria.

Observei muitas críticas pesadas para este filme. E daí notei o seguinte: Les Misérables é, provavelmente, a produção mais “ame ou odeie” que está concorrendo ao Oscar deste ano. Basta olhar as críticas espalhadas por aí. Muita gente não gostou desta produção porque um ou outro ator não sabe cantar. Ou porque eles não cantam tão bem assim. Ah, convenhamos. De fato isto é o mais importante?

Sim, como eu disse antes, Russell Crowe não parece totalmente à vontade cantando. Por isso mesmo, desde a primeira vez que ele aparece em cena, ele parece “comedido”. Melhor para ele. Se você não tem potência vocal e/ou não se sente tão confiante cantando, se comparado com outros colegas, melhor fazer a sua parte dentro de certas limitações.

Da minha parte, como alguém sem preconceitos, acho que vale se lançar para assistir a um filme sem a postura primária de que musicais são chatos, de que alguém vai cantar mal, e de que clássicos estão vencidos. Até porque sempre busco o mais importante de um filme: ele convence? Ele me emocionou? Ele pareceu legítimo em sua proposta?

Pois eu acho que Les Misérables consegue, sim, emocionar. Ele convence com a história de Jean Valjean e de uma França que se decepcionou com a Revolução Francesa. Esta produção, além disto, também parece legítima em sua proposta de revisitar um clássico e vestí-lo com nova roupagem. Para o meu gosto, tudo funcionou bem nesta produção. Com uma pequena ressalva: o estereótipo irritante do casal Thénardier, interpretado pela dupla Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter.

Certo, é evidente que os Thénardier são os personagens com maior levada estereotipada de Les Misérables. Que eles são mesmo caricatos, e tudo o mais. Na primeira aparição de Cohen e Carter, não me irritei com a caricatura deles. Mas depois… Tom Hooper teria nos poupado de uma certa e restrita chatice da história se tivesse diminuído a participação dos dois atores na trama. Para mim, Cohen não consegue deixar para traz Borat, e Carter lembra sempre uma personagem qualquer de Tim Burton. Eles são a parte frágil do filme, e me impedem de dar a nota máxima para esta produção.

Porque, para o meu gosto, Les Misérables funciona muito bem, exceto pelos excessos de Cohen e Carter. Além das qualidades já comentadas, achei impressionante a entrega dos atores. Eles emocionam, assim como a história. E agora, voltemos ao início desta crítica. Les Misérables trata de algo fundamental: a compreensão de que todos nós somos falhos. O grande embate entre Valjean e Javert está de que o segundo se acha totalmente cheio de moral. Em certo momento, ele fala que veio da mesma origem de Valjean… não completa a sua linha de pensamento, mas fica evidente que ele se acha superior.

Afinal, apesar de vir da mesma origem ordinária e carente, Javert seguiu “o caminho da lei”, venceu os desafios da vida e trilhou “o caminho certo”, enquanto Valjean roubou alguns pães para dar para a irmã e o filho dela que estavam com fome. Este pensamento de Javert é o mesmo de 99% das pessoas, talvez. Essa massa de gente que, muitas vezes, quando há uma matéria de polícia, argumenta que “bandido bom é bandido morto”, e que esta história de direitos humanos é uma grande bobagem, já que os “bandidos” não tem esta mesma postura ao fazer as suas vítimas.

Quanta dureza de princípios, não? Eis, para mim, o último grau de desumanização. Para estas pessoas que defendem a pena capital, não importa o ser humano e suas histórias. O importante são os números. X bandidos mortos é o que interessa. Quantos mais, melhor. Mas será mesmo que cada um de nós estamos isentos de dúvida? Quanto tempo você já gastou para refletir como seria a sua vida se você não tivesse nascido no local em que você nasceu? No berço da família da qual vieste? E se você tivesse nascido em outra parte, com uma família muito diferente?

Não quero relativizar tudo e dizer que todos os “bandidos” tem as suas justificativas e que são todos “tadinhos”. Mas peço calma em qualquer andor. Les Misérables é uma história tão incrível porque nos fala sobre estas coisas… de como a sociedade pode excluir as pessoas, tirarem as suas oportunidades de desenvolverem os seus próprios potenciais. De como o coletivo pode estigmatizar e interromper vidas que poderiam ser produtivas e maravilhosas.

Vide Valjean. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De fato, e muitos devem ter tido uma reação impressionante quando, na primeira oportunidade, ele sai roubando ao Bispo (Colm Wilkinson) que lhe ajudou, ele erra feio ao seguir bandido logo que tem a chance de escolher que caminho seguir. Mas daí, e eu também fiquei indignada a princípio, vem a história para nos dar o primeiro tapa na cara.

Quanto do que fazemos e do que tantas pessoas fazem é por automatismo? Valjean, até aquele momento, estava acostumado a que? Depois de 19 anos preso, penando como um diabo, ele sai da detenção e é tratado como um cachorro. Em seu íntimo, tudo que ele tinha era raiva e revolta. De forma automática, ele segue sendo um marginal – à margem da sociedade. Até que, para surpresa geral – especialmente dele -, ele recebe um segundo gesto seguido de ajuda. É perdoado e incentivado a recomeçar a vida. E este gesto solene de generosidade chega fundo ao coração endurecido de Valjean.

Quantos de nós não sentimos o coração sendo endurecido com o passar do tempo, depois de ter recebido tantos golpes? Um certo Renato Russo, certo, dia, cantou: “… não vou me deixar embrutecer/ eu acredito nos meus ideais/ Podem até maltratar o meu coração/ que o meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”. Certo, mas quantas pessoas se mantém fortes apesar dos golpes? Conseguem manter a suavidade, apesar de tantos golpes para que se tornem brutas?

Valjean aprende com o gesto do Bispo e muda a sua vida para sempre. Ganha uma oportunidade de recomeçar que 99% dos presos libertos do nosso país não recebem. Com apenas um candelabro de prata – perto da morte percebemos que ele ainda preserva o outro -, ele multiplica os recursos, vira um homem de negócios, dá oportunidade de emprega para muitas pessoas e se torna um homem respeitado pela sociedade.

Até que Javert volta a lhe assombrar. E ele estará perseguindo o personagem até o final. Porque os dois são a mesma pessoa, apesar da sociedade vê-los de forma tão diferente. E eis uma das forças deste clássico de Victor Hugo. Nos mostrar que papéis contrários da mesma sociedade podem ser, mais que nada, duas faces da mesma moeda. Javert não suporta “ficar devendo” nada para o homem que ele abomina porque, no fim das contas, é incapaz de perceber que eles são tão parecidos. Por ter sido um homem “da lei” a vida toda, Javert não era melhor que Valjean. Pelo contrário. Já que Valjean foi capaz de se arriscar mais de uma vez pela vida de outra pessoa. Foi capaz de amar e de se doar sem esperar nada em troca. Enquanto Javert apenas “cumpria o seu dever”. E quem tem mais mérito: aquele que faz algo por obrigação, porque assim lhe cobra o “dever”, ou aquele que se doa por livre e expontânea vontade?

Um filme que trata de todas estas coisas já é algo fora do comum. E por isso mesmo, merece ser visto. Porque faz pensar, porque emociona. Mas além disso, Les Misérables trata sobre o espírito da mudança. Aborda a força inspirada de uma França que nunca desistiu de lutar por liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo que estes ideiais não tenham sido vitoriosos após a Revolução Francesa, eles perduram. No tempo. Passam gerações, vencem fronteiras. Seguem inspirando.

Mas nem por isso, deixa de valer a crítica de que os anos seguintes à Revolução não trouxeram melhora para o povo. Que seguiu cada vez mais miserável. E que um certo levante não chegou a ser popular, mas apenas serviu de tema para registros históricos de uma covardia que aconteceu e se repete em diferentes sociedades até hoje. Mesmo que transfigurada com outras roupagens.

Enquanto Les Misérables trata destes e de outros temas tão magnifícos e raros, há quem se apegue apenas a uma falta de musicalidade de um ou outro ator. Que pena. Mas a história está lá. Nos mostrando como uma pessoa nunca é apenas um determinado personagem. Um ladrão não precisa ser, sempre, um ladrão. Um homem da lei, idem. Cada pessoa é responsável por suas próprias escolhas, e elas nos determinam. O mágico da vida é que esta reinvenção é constante. Só não muda quem não quer – ou acha que não precisa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Les Misérables teve a sua premiere no dia 5 de dezembro, em Londres. Depois desta data, pouco a pouco, ele foi sendo lançado nos mercados de diferentes países. Até o momento, a produção está confirmada para participar de apenas um festival, o de Belgrado, no dia 23 de fevereiro.

Como comentei antes, este filme é todo bem acabado. Além do ótimo trabalho dos atores – um melhores que outros -, vale destacar alguns aspectos técnicos da produção. Começando pela ótima direção de Tom Hooper. O diretor inglês consegue, ao mesmo tempo, explorar belos cenários da França do século 19, os detalhes dramáticos das interpretações de seus principais atores, e a convulsão social/divisão de classes tão explorada pela obra de Victor Hugo. Hooper se utiliza de um jogo de câmeras importante, dando ritmo visual para a produção, em sintonia com a música. Tudo deve fluir nesta produção, e ele consegue fazer com que isso aconteça na prática.

Para ajudar Hooper neste processo, é fundamental o trabalho do diretor de fotografia Danny Cohen. Ele faz um trabalho impecável, tanto nas cenas abertas, com muitos figurantes ou com ajuda de efeitos especiais, quanto e, principalmente, nos planos mais dramáticos com os atores principais em interpretações solitárias. Muito bom o trabalho da dupla de editores Chris Dickens e Melanie Oliver. Eles são peças-chave para que o diretor consiga dar o ritmo adequado para as cenas.

E depois, vem a turma responsável pela linguagem visual desta produção. Merecem ser elogiados os trabalhos da designer de produção Eve Stewart; a direção de arte da equipe Hannah Moseley, Grant Armstrong, Gary Jopling e Su Whitaker; os figurinos de Paco Delgado, bárbaros; a decoração de set de uma equipe de nove profissionais; o departamento de arte, que faz um trabalho impressionante; os efeitos especiais da equipe de James Davis III; os efeitos visuais da equipe de Sandra Chocholska, Edson Williams e Thomas Nittmann; e a ótima maquiagem da equipe comandada por Audrey Doyle, Nikita Rae e Malwina Suwinska.

Como qualquer musical exige, a trilha sonora e todos os demais aspectos sonoros desta produção são impecáveis. Claro, alguns atores como Russell Crowe, Eddie Redmayne e até Amanda Seyfried não se saem tão bem cantando quanto outros nomes da produção, mas isso não impede que o filme funcione bem na parte musical. Vale, portanto, elogiar o departamento de som desta produção, assim como o departamento musical comandado por Claude-Michel Schönberg, com direção musical de Stephen Brooker.

Les Misérables tem roteiro de William Nicholson, Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, já que é uma adaptação do musical homônomo baseado na obra original de Victor Hugo. Segundo os próprios produtores deste filme, ele segue o musical que já foi assistido por mais de 60 milhões de pessoas em teatros de 42 países e adaptado para 21 idiomas. Há 27 anos o musical está em cartaz perigrinando por diferentes nações. Segundo os produtores, Les Misérables é o musical há mais tempo em cartaz no mundo.

Tiro o meu chapéu para Hugh Jackman. Ele faz, em Les Misérables, um de seus grandes papéis até hoje. Grande interpretação, digna de prêmios. Os demais atores são coadjuvantes. Ainda assim, impressiona a interpretação de Anne Hathaway, que rouba a cena como Fantine. Amanda Seyfried está bem como Cosette, assim como Isabelle Allen, que interpreta a personagem quando criança. Pena que Seyfried, por mais carismática que ela seja, não consiga se destacar tanto quanto Hathaway e nem cantar como ela. O mesmo se pode dizer de Eddie Redmayne, que perde na comparação com Jackman tanto na interpretação quanto ao cantar.

Dos atores secundários, vale destacar o trabalho de Samantha Barks como Éponine, a jovem apaixonada por Marius e que, mesmo assim, tem uma postura correta e não canalha com Cosette; o jovem Daniel Huttlestone como Gavroche, o menino emblemático da história; e Aaron Tveit como Enjolras, o líder dos revolucionários.

Les Misérables teria custado cerca de US$ 61 milhões. Até o momento, o filme faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 137,5 milhões. Nada mal para um musical – ainda mais baseado em um clássico.

Esta produção foi totalmente rodada no Inglaterra, em cidades como Winchester, Kettering, Kent e Londres.

Uma curiosidade sobre esta produção: Paul Bettany havia sido considerado para o papel de Javert antes de Russell Crowe. Talvez ele tivesse se saído melhor. Para o papel de Fantine, foram consideradas as atrizes Amy Adams, Jessica Biel, Marion Cotillard, Katie Winslet e Rebecca Hall. Geoffrey Rush, que interpretou a Javert na versão de Les Misérables para o teatro, foi considerado para o papel de Monsier Thenardier.

Inicialmente, Les Misérables teria quatro horas de duração. Ainda bem que fizeram uma versão bem mais curta.

Até o momento, Les Misérables recebeu 31 prêmios e foi indicado para outros 79, além de ter recebido oito indicações para o Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para dois como o Filme do Ano no AFI Awards; para os Globos de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Hugh Jackman, e Melhor Música para Suddenly; Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway no Screen Actors Guild; além de figurar no Top Films da National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Les Misérables. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 150 textos positivos e 65 negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média 7. A pior nota entre os filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano.

CONCLUSÃO: Uma história emocionante, adaptada de um clássico. E que da forma com que foi adaptada, faz refletir sobre vários valores e posturas que seguem válidas e, me arrisco a dizer, seguirão válidas enquanto existir a humanidade. Les Misérables provavelmente não vai agradar a todos. Primeiro, porque não é qualquer um que tem paciência para os musicais. Assim como nem todos tem paciência com os clássicos. Junte ambos, musical e clássico, e terás muitos insatisfeitos. Mas com a ousadia de adaptar o texto de Victor Hugo para o formato musical, o drama dos personagens deste clássico são colocados em negrito e sublinhado. Les Misérables nos fala, com estes tons dramáticos ressaltados pela música, da fantástica capacidade humana da reinvenção. E de como o amor pode ter um papel fundamental neste processo. Com uma produção impecável, um trabalho apaixonado do diretor e de seus comandados, Les Misérables é um dos belos filmes desta safra. Desde que você ignore seus pequenos pecados.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Les Misérables recebeu o mesmo número de indicadores que o recentemente comentado por aqui, Silver Linings Playbook. Mas diferente do filme de David O. Russell, de fato eu acho que a produção de Tom Hooper mereceu cada uma de suas indicações.

Curioso que Les Misérables concorre, basicamente, em categorias técnicas, mas foi ignorado em Melhor Roteiro Adaptado. Não que uma produção que, como ele, concorre como Melhor Filme do ano precise estar, obrigatoriamente, indicada como roteiro. Mas é estranho ele não estar ali. Assim como Hooper ter ficado de fora da lista de Melhor Diretor.

Então o que sobrou para Les Misérables? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Canção Original para Suddenly, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som e, finalmente, Melhor Filme, Melhor Ator para Hugh Jackman e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway.

Mesmo não tendo assistido a todos os filmes que estão concorrendo com Les Misérables, não seria uma surpresa ver ele ganhando em algumas destas categorias. Principalmente nas de Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som e, quem sabe, até como Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway. De fato, ela merece. Se o filme ganhar nestas categorias – Melhor Ator parece ser uma barbada para Daniel Day-Lewis -, ele terá conseguido quatro ou cinco Oscar’s. E deve estar satisfeito com isso.

Francamente, apesar de saber que Day-Lewis é o favorito e que, de fato, ele ganhando não será uma injustiça, mas eu prefiro a Hugh Jackman. Acho que ele, como Anne Hathaway, tiveram uma entrega muito maior para os seus papéis.

Independente das expectativas, claro que acidentes de percurso sempre acontecem. E Les Misérables pode sair de mãos vazias. Pode ocorrer. Mas acredito que não. Até porque seria uma boa injustiça.