Boyhood – Boyhood: Da Infância à Juventude


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Durante a nossa vida, vamos mudando de perspectivas pouco a pouco. O olhar vai se ampliando, e por mais que pareça que muitas vezes surgem mais dúvidas que certezas, é fato que aprendemos muito no caminho. Tudo que vem depois do primeiro passo são erros e acertos, alegrias e tristezas, confirmações e negações, surpresas e previsibilidade. Boyhood é um filme excepcional porque mostra tudo isso com maestria. Há tempos não via um filme tão profundo e inspirador. Sem dúvida alguma, uma produção que deve chegar forte no próximo Oscar.

A HISTÓRIA: Coldplay na vitrola, céu azul com algumas nuvens, e um garoto deitado na grama, Mason (Ellar Coltrane) observa aquele quadro celeste. A mãe dele (Patricia Arquette) aparece e eles vão para casa. Logo que ela chega, ele comenta que acha que sabe de onde vem as moscas. No caminho, ela comenta sobre a reunião que teve com a professora dele. Depois, ele sai para pedalar com o amigo, Tommy (Elijah Smith). A irmã de Maison, Samantha (Lorelei Linklater) surge para chamar o garoto para comer. Acompanhamos essa família e o crescimento dos irmãos até que eles vão para a faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Boyhood): Este é um destes filmes que por mais que você tente escrever sobre ele, os comentários sempre vão ficar aquém do que é a produção. Uma de tantas provas de que este filme é brilhante é que ele tem duas horas e quarenta e cinco minutos de duração e, mesmo assim, Boyhood não fica chato em nenhum momento.

Claro que, e é bom você saber isso se ainda não assistiu ao filme, é preciso estar preparado, com paciência – ou melhor, tempo, sem nenhum compromisso imediato – e bem disposto para ver a Boyhood. Não apenas pela duração do filme, mas pela proposta dele de debruçar-se sobre a vida de algumas famílias e mostrar a evolução deles no decorrer de um longo período. Você fica fascinada(o) com aquelas histórias, mesmo elas parecendo, muitas vezes, tão familiares.

Esta é uma das diversas graças de Boyhood. Tenho certeza que o filme, além de nos apresentar uma história de ficção com diversas camadas de leituras, também provoca autorreflexão do espectador. Da minha parte, não tive uma realidade parecida com a dos protagonistas mas, ainda assim, sempre há algum elemento que te faz lembrar da tua própria história. São raros os filmes que conseguem isso. Apresentar uma história interessante e, ao mesmo tempo, despertar empatia dos diferentes públicos.

Você que acompanha esse blog há algum tempo sabe que eu sou avessa à saber sobre os filmes antes de assisti-los. Procuro não assistir a trailer e nem ler nada a respeito. Mas sem querer, ouvi um comentário de que Boyhood tinha sido filmado com os mesmos atores por diversos anos. Depois de ver ao filme confirmei a informação: o genial diretor Richard Linklater, responsável também pelo roteiro desta produção, filmou esta história com os principais atores envolvidos no enredo durante 12 anos.

Então, e isso é inovador, acompanhamos a evolução daqueles personagens não apenas na história, mas fisicamente. E, claro, quando os atores que dão vida para aquelas linhas de roteiro também amadurecem, percebe-se esta evolução de forma muito mais dinâmica e realista do que apenas mudando os atores ou enchendo os adultos de maquiagem para demonstrar a passagem do tempo – que é o que a maioria dos filmes fazem.

A entrega dos atores de Boyhood é, assim, diferenciada. Assim como a capacidade do roteiro em não apenas fazer-se crer, mas também em criar empatia. E que roteiro, meus caros! Linklater acerta a mão em cada detalhe, sendo coerente com as descobertas, questionamentos, problemas e relacionamentos do protagonista e da irmã dele, em especial, que são as figuras que mais dominam a cena.

Neste sentido, esta produção é um libelo filosófico sobre a vida. Além de interessante, é marcante ver a evolução de Mason com o passar dos anos, assim como o esforço dos pais separados dele para dar uma formação decente para o garoto e a irmã. Ao fazer esse exercício de acompanhar Mason e os demais durante 12 anos, Linklater está também contando parte da história de uma geração.

Essa narrativa está presente não apenas na trilha sonora capitaneada por Meghan Currier e Randall Poster e que faz uma boa revisitada em canções marcantes da história recente dos Estados Unidos e do mundo, mas também nas experiências que os irmãos Mason e Samantha passam – como a estreia do filme do Harry Potter. Essa característica do filme faz a história dele ser ainda mais “familiar” para os espectadores.

Fascinante ver como Mason começa com algumas perguntas e descobertas, a exemplo de como surgem as moscas, e termina se questionando sobre o sentido de tudo. E isso porque acompanhamos ele apenas até aquele momento de ruptura quando ele sai da casa materna. Certamente se acompanhássemos ele por ainda mais tempo, entrando na vida universitária e depois adulta dele, outros questionamentos e descobertas surgiriam.

Uma das qualidades bacanas de Boyhood, pra mim, é que o filme trata de uma constituição familiar bastante comum nas últimas décadas, que foi uma mãe solteira tentando cuidar dos filhos enquanto o ex-marido tentava fazer a sua própria vida. Ainda mais bacana é que o pai das crianças, interpretado pelo ótimo Ethan Hawke, nunca se ausentou. Então temos, pelo menos, duas perspectivas distintas na formação destes jovens. O que, de fato, aconteceu em muitos lares reais mundo afora.

Interessante também acompanhar os acertos, os erros, os tropeços e as boas tacadas feitas tanto pela mãe quanto pelo pai de Mason e Samantha. Eles vão evoluindo, junto com os filhos. A mãe, como tantas outras que acaba tendo que cuidar dos filhos praticamente sozinha, tenta outras vezes constituir uma família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o filme começa, ela está namorando um sujeito que não se adapta muito bem à rotina de uma mãe que tem dois filhos para cuidar.

Depois, ela acaba se casando duas vezes. Primeiro, com o professor universitário Bill Welbrock (Marco Perella), pai de Mindy (Jamie Howard) e Randy (Andrew Villarreal). Depois, com um sujeito bem mais novo, com bastante experiência em servir o Exército, Jim (Brad Hawkins). Entre o primeiro namorado e o segundo marido, a mãe dos protagonistas muda-se diversas vezes, tanto de cidade quanto de casa. Em cada ocasião, Mason e Samantha tem que se adaptar a novas escolas e fazendo novos amigos.

Muitas famílias sabem o que isso significa. Rupturas, recomeços, dificuldades de diferentes ordens. Mas algo que Boyhood mostra bem é que um laço forte acaba sustentando estas pessoas: o amor. Há diversos conflitos, especialmente entre os irmãos, com gênios bem diferentes, mas todos se gostam e se respeitam. Percebemos no roteiro de Linklater como cada indivíduo, especialmente Mason e Samantha, vão modificando não apenas a forma de ver o que acontece ao redor, mas também a forma com que lidam com as diferentes demandas da vida.

O texto do diretor é brilhante. Ele reserva momentos de pura reflexão e contemplação, ao mesmo tempo que dá espaço para eventos tensos e chocantes. Especialmente as tentativas frustadas da mãe dos protagonistas em formar uma família rendem pano pra manga. E elas reforçaram um pensamento que eu tenho há algum tempo: especialmente complicada e triste a vida de uma mãe solteira que faz de tudo para constituir uma família e, nesta busca algumas vezes desesperada, não observa bem o homem que está colocando dentro de casa.

O professor Bill Welbrock, interpretado com perfeição por Marco Perella, é um exemplo primoroso disto. Aparentemente ele era um sujeito respeitável, equilibrado, admirável. Mas foi só começar a convivência e observar ele mais de perto para ver que haviam muitos problemas ali. A cena dele intimidando e agredindo a família na mesa é o momento mais impactante do filme.

Enquanto isso, o “inconsequente” pai de Mason e Samantha vai trilhando a sua vida pouco a pouco. De um sujeito sem grandes perspectivas, que tentava ser músico ao mesmo tempo que aceitava qualquer emprego para pagar as contas, ele chega a uma versão de si mesmo bem mais responsável. Lá pelas tantas, ele parece desencanar da mãe das crianças e decide formar uma nova família com a simpática Annie (Jenni Tooley).

De família bem católica e tradicional, Annie apresenta para Mason e Samantha uma versão de família que, até então, eles desconheciam. Especialmente significativo o aniversário de Mason em que ele vai passar um tempo com os familiares de Annie, interpretados por Richard Andrew Jones e Karen Jones.

Algo que me chama muito a atenção no trabalho de Linklater é que ele não santifica e nem condena nenhum de seus personagens. Quando alguns podem criticar a mãe, pensando que ela deveria ter sido mais responsável com os homens que ela colocou dentro de casa, ele nos apresenta diversos exemplos dela sendo modelo para pessoas de fora da família.

Primeiro, ele sinaliza nesta direção com alunos dela quando a personagem de Patricia Arquette começa a dar aula na universidade. Depois, ela recebe um elogio inesperado do pai de Mason e Samantha e, para fechar com chave-de-ouro, ficamos sabendo que ela serviu de inspiração para um trabalhador latino investir na própria educação e ascender na vida.

Na verdade, a mãe dos garotos é uma de tantas outras batalhadoras. Porque não é fácil educar dois filhos, tendo ou não o apoio do pai deles por perto – ou em uma família constituída de forma tradicional. Boyhood deixa isso muito claro, e nos faz repassar a nossa própria trajetória. Na reta final da produção, com Mason perto de ir para a universidade, acompanhamos várias descobertas do rapaz. Da primeira namorada até o primeiro emprego, passando pelos primeiros questionamentos sérios deles de vida.

Tudo é aprendizado. As perguntas nunca param, mas a inquietação vai diminuindo. Ou, como disse de forma brilhante o pai de Mason e Samantha perto do final, vamos sentindo menos com o passar do tempo, porque criamos certa resistência. Essa é uma das diversas pérolas do filme. Aliás, todo aquele diálogo entre Mason e o pai é perfeito. O garoto percebe que o tempo passa, mas em muitos sentidos os pais deles seguem perdidos como ele, ainda jovem. Isso é fato, ninguém é tão sábio que não siga com dúvidas ou se equivocando, mesmo velho.

Na reta final da produção, algumas outras lições importantes. A mãe dos garotos começa a sofrer com a síndrome do ninho vazio, percebendo que investiu muito nos filhos e, talvez, pouco nela mesma – ainda que, no caso dela, até sobrou espaço para bastante atitude, desde evoluir na própria formação, fazendo faculdade e mestrado, até ter tido outros relacionamentos. Ainda assim, não é fácil romper com os hábitos e com a vida em comum com os filhos. Eis uma lição pela qual todos os pais passam.

Mas achei brilhante mesmo Mason iniciar a “vida adulta”, morando longe dos pais e em uma república universitária, logo descobrindo que existem muitos amores nesta vida. Respeito quem acha que só existe um grande amor, uma metade da laranja, uma tampa para a nossa panela. Da minha parte, acredito na versão final de Boyhood, na qual novos amores aparecem sempre, basta nos dispormos a encontrá-los. Evidente que, lá pelas tantas, é sempre possível romper com todas as opções e ficar apenas com um amor, constituindo família e recomeçando o ciclo. Mas esta escolha é de cada um. E será, um dia, de Mason e Samantha. Boyhood, por tudo isso, é fantástico.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impossível não ficar impressionada com o excepcional trabalho do jovem Ellar Coltrane como Mason. Aos 20 anos, ele nos dá uma lição de como assumir um papel com garra e talento. Além de Boyhood, este jovem talento tem apenas outros quatro filmes no currículo. Não assisti a nenhum outro de seus filmes, mas acredito que o mais conhecido deles seja Fast Food Nation, também dirigido e com roteiro de Richard Linklater. Depois do reconhecimento por Boyhood, acho que vale seguir a carreira de Coltrane para ver o que mais ele fará.

Apesar de em Boyhood a atriz Lorelei Linklater interpretar a irmã mais velha de Mason, na vida real ela tem a mesma idade de Ellar Coltrane: 20 anos. Ela é quase três meses mais velha que o parceiro de cena. Além de Boyhood, Lorelei tem apenas outros três filmes no currículo. O primeiro deles, lançado em 2001; o segundo, um curta em vídeo; e o terceiro, em fase de pós-produção. Como o nome dela sugere, ela é filha de Richard Linklater, diretor e roteirista de Boyhood. Acho ela boa, mas não vi tanto talento nela quanto em Ellar Coltrane.

Sempre achei os atores Patricia Arquette e Ethan Hawke diferenciados. Especialmente pelas escolhas que eles fizeram em suas respectivas carreiras – escolhas estas nem sempre óbvia. Pois bem, eles participarem de um projeto diferenciado como Boyhood apenas reforça a minha opinião sobre eles. Poucos atores em Hollywood encarariam uma proposta tão diferente e que apresentasse tanto sacrifício e exposição. Mas estes dois atores, de fato, são diferenciados. Gostei muito do trabalho deles. Acho que os dois brilham com a mesma intensidade que Coltrane.

O foco está nos dois filhos e seus pais. Ainda assim, atores coadjuvantes ajudam a contar essa história e a fazê-la tão boa. Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Libby Villari como a avó dos garotos por parte de mãe; Sam Dillon como Nick, amigo da juventude de Mason; Zoe Graham como Sheena, primeira namorada do protagonista; Richard Robichaux como o primeiro chefe de Mason; e Jessi Mechler como Nicole, uma nova descoberta para o garoto. Há outros coadjuvantes, alguns com aparições bem interessantes, mas que eu não vou citar por terem tido uma importância menor na história.

Linklater deixa clara a sua admiração de bons professores e da formação das crianças e dos jovens. Não por acaso tem uma certa relevância alguns coadjuvantes que aparecem pouco, mas que tem falas inspiradoras na história. É exemplo disso Tom McTigue como Mr. Turlington, que dá aulas de fotografia para Mason; e Mona Lee Fultz como a professora do ensino médio do protagonista e que lhe dá bons conselhos após ele ter algumas fotografias reconhecidas em um concurso.

Da parte técnica do filme, além do excelente roteiro de Linklater, vale destacar a direção de fotografia de Lee Daniel e Shane F. Kelly; a edição perfeita de Sandra Adair; o design de produção – vital, como os elementos seguintes, para nos situar nos diferentes tempos da história – de Rodney Becker e Gay Studebaker; a decoração de set de Melanie Ferguson; e os figurinos de Kari Perkins.

Boyhood estreou em janeiro de 2014 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria de outros 28 festivais, incluindo os de Berlim, Karlovy Vary e San Sebastián. Nesta trajetória o filme colecionou 84 prêmios e foi indicado a outros 85 – incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque por ter figurado na lista de 11 filmes considerados “Filme do Ano” pelo AFI Award; por três prêmios no Festival de Berlim, incluindo o de Melhor Diretor; pelo prêmio de Melhor Filme Internacional Independente no British Independent Film Awards; pelo Prêmio da Audiência no Gotham Awards; por figurar na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo a National Board of Review; pelo prêmio FIPRESCI de Melhor Filme do Ano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; e por diversos outros prêmios entregues pela crítica de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Falando em Globo de Ouro, Boyhood está indicado nas categorias Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Roteiro. Todas estas indicações muito merecidas, diga-se.

Gostei do resultado financeiro obtido pelo filme. Afinal, não basta ter um projeto revolucionário, é preciso fazer com que ele dê lucro para quem apostou na produção. Boyhood teria custado cerca de US$ 4 milhões – orçamento baixíssimo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 24,2 milhões. No restante dos mercados em que já estreou, ele soma pouco mais de US$ 19,1 milhões. Ou seja, gerou quase US$ 43,4 milhões de caixa. Sem dúvida ele se pagou e está dando lucro. Que bom!

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: ela começou a ser filmada em maio de 2002, ou seja, quando os atores principais tinham sete anos de idade, e terminou de ser rodada em outubro de 2013. Na verdade, 11 anos de filmagens e com lançamento 12 anos depois do filme ter começado a ser rodado.

Para quem, como eu, tem curiosidade sobre as locações dos filmes, comento que Boyhood foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em cidades como Austin, San Marcos e Houston, todas no Texas.

Falando em curiosidades da produção, essa eu achei genial: Richard Linklater escalou a filha Lorelei para o papel de Samantha porque a garota estava sempre cantando e dançando ao redor da casa deles e pedindo para participar de um dos filmes do diretor. Pois bem, ele resolveu colocá-la no papel de Samantha, mas pelo terceiro ou quarto ano de filmagens, ela perdeu o interesse na brincadeira e pediu para o papel dela ser eliminado do filme, solicitando que o pai dela matasse Samantha na história. Ele recusou, dizendo que não era um fim trágico destes que ele estava planejando. No fim das contas, a garota voltou a se empolgar com o papel. Ainda bem. De fato não seria a melhor saída Samantha morrer no filme.

Apesar de ter sido rodado entre 2002 e 2013, Boyhood teve apenas 45 dias de filmagens neste período. E outra curiosidade: como nos Estados Unidos é ilegal assinar contratos com mais de sete anos de duração – para filmagens, ao menos -, nenhum dos atores pode assinar um contrato para o compromisso total de 12 anos. Burocracias aqui e lá. 🙂

O guitarrista que Mason vai assistir ao lado do pai, na parte final do filme, na verdade é o pai verdadeiro do ator Ellar Coltrane. Bruce Salmon é um músico atuante em Austin, no Texas, onde a cena de Boyhood foi rodada.

Amigos de muito tempo, Linklater e Ethan Hawke cresceram em casas de pais divorciados e tiveram pais que atuaram no ramo de seguros no Texas, e exemplo do personagem do pai de Mason no filme.

Boyhood é o filme favorito de 2014 do presidente Barack Obama.

A trilha sonora também é um elemento à parte nesta produção. Ótima trilha, diga-se. Destaco, entre outras, as músicas Yellow, do Coldplay; Hate to Say I Told You So, do The Hives; Authem Part Two, do Blink 182; Soak Up the Sun, de Sheryl Crow; Island in the Sun, de Weezer; What is Life, de George Harrison; Get Lucky, de Daft Punk com Pharrell Williams; Let It Die, de Foo Fighters; Band on the Run, de Paul McCartney & Wings; Do You Realize, de The Flaming Lips; Could We, de Cat Power; Crazy, de Gnarls Barkley; Hate It Here, de Wilco; One (Blake’s Got a New Face), de Vampire Weekend; 1901, de Phoenix; Lovegame e Telephone, de Lady Gaga; Radioactive, de Kings of Leon; Beyond The Horizon, de Bob Dylan; Suburban War e Deep Blue, de Arcade Fire.

Agora, ainda falando em trilha sonora, interessante algumas músicas escritas e interpretadas por Ethan Hawke, como Split the Difference e Ryan’s Song – esta última que ele apresenta junto com Ellar Coltrane, Lorelei Linklater e Jenni Tooley. Na trilha, ainda, as canções Não Acorde o Neném, Em Todo Lugar Voz Boa e Coisa Boa do brasileiríssimo Moreno Veloso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Boyhood. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes revelaram-se ainda mais empolgados ao dedicar 249 críticas positivas e apenas quatro negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 9,3.

Este filme, por ser 100% dos Estados Unidos, entra na lista de produções sugeridas em votações no blog – aquelas em que vocês definiam países dos quais eu deveria assistir a alguns filmes e comentar por aqui.

CONCLUSÃO: Conto nos dedos os filmes que falaram profundamente de conceitos que eu acredito e que tiveram, ao mesmo tempo, um olhar sensível sobre a condição humana e seu aprendizado constante. Acertar e errar, frustrar-se e sentir pleno prazer e gratidão, tudo isso faz parte da vida de qualquer pessoa, seja ela da classe social, raça ou latitude que for. Boyhood acompanha a evolução de uma família que não é tradicional por diversos anos, da infância dos filhos até a chegada deles na “vida adulta”. A história se desenvolve de maneira sensível, coerente e dura, em muitos momentos, como a vida mesma. Uma aula de roteiro, de direção e de trabalho dos atores. Lindo. Por tudo isso, altamente recomendado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Ainda estou começando a ir atrás dos filmes que tem chances na próxima premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas algo posso dizer desde já: Boyhood tem que aparecer na lista dos finalistas. Pelo menos. Não tenho dúvidas que este é um dos grandes filmes do ano passado e, por isso mesmo, vale estar no Oscar.

Para mim, ele deveria aparecer na lista de Melhor Filme – que permite até 10 títulos – e, se possível, nas categorias Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator para Ellar Coltrane, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Atriz para Patricia Arquette. Ainda que eu tenha dúvidas se ela figuraria em Melhor Atriz ou Melhor Atriz Coadjuvante. Só para começar, seriam seis indicações. Mas o filme ainda poderia entrar em alguma categoria técnica – ainda que, aí, eu veja menor possibilidade.

Além das indicações, fica difícil ainda de fazer um prognóstico. Preciso assistir aos outros fortes concorrentes do ano. Mas, inicialmente, eu não acharia injusto ele ganhar como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator. Há tempos eu não assistia a um filme tão competente neste conjunto de quesitos.

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8 comentários em “Boyhood – Boyhood: Da Infância à Juventude

  1. Após ver um filme que nem Boyhood, a visita aqui é imprescindivel.
    Também não vi todos os possíveis concorrentes ao Oscar deste ano, mas não acredito que verei outro filme que tenha gostado tanto quanto esse.
    Antes de ver o filme já sabia das peculiaridades da produção, foi o que me instigou a ver, mas fiquei fascinado com o resultado final, principalmente a empatia que tive pela historia e os personagens.
    Roteiro e direção muito bem conduzidos por Linklater, talvez a reincidência de padrastos a princípio bacanas que se revelam alcoolatras tenha sido uma forçada na minha opinião, o resto é impecável.
    A trilha com muita música boa, também destaco Dylan, Hives e Coldplay, situam o filme quanto a época, tal feito também realizado através das questões políticas americanas. Quanto as trilhas ainda, a música que mais me chamou atenção foi de uma banda que eu não conhecia, ‘The Family of the Year’, música “Hero”, nome da banda bem conveniente.
    O elenco está fantastico, quando mais novo era amarradão na Arquette, na verdade gostaria de vê-la em mais produções, embora, ela saiba escolher bem seus trabalhos. O diálogo dela com seu filho nos minutos finais da película é de arrepiar. Não sou pai ainda, mas entendi perfeitamente o sentimento dela como mãe, era como se tivesse vendo a minha. Hawke já tem aparecido mais em outras produções, das mais recentes destaco “Predestination”, muito bom filme. Quanto a sua participação em Boyhood é onde estão os melhores diálogos, cabendo a ele orientar os filhos quanto a vida sexual e amorosa, o personagem dele cresce muito com o passar dos anos. Já os filhos interpretados por Coltrane e Lorelei, destaca-se obviamente o primeiro, embora, a filha de Linklater tenha ido muito bem, especialmente na fase infantil. O mais incrível na interpretação de Coltraine é a sua verossimilhança. Apesar da infância com video-games, amigos, Harry Potter, mas com pais divorciados, Mason apresentava uma percepção da vida dos adultos que o rodeavam, os casos amorosos dos pais por exemplo, ficando mais evidente isso em relação a mãe. O jovem que se tornou, sendo precionado a ser alguém (com diploma), começando a trabalhar, descobrindo o amor e a si mesmo, mas ainda refletindo aquela criança a qual fomos apresentados na primeira metade do filme.
    Não sou filho de pais divorciados e sou da geração com infância nos anos 80-90, não sei o que foi ser criança e crescer de 2000 pra cá, mas isso é irrelevante por que o filme vai além, é mais profundo, descreve vidas, destacando a de Mason e durante um bom período de tempo, talvez o mais importante, justamente quando tomamos ciência da própria.
    Grande Abraço e parabéns pela resenha, excelente trabalho!!

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  2. Filme MARAVILHOSO!!! De uma sutileza e simplicidade incrível, e o que é mais legal é ver os atores envelhecendo, mudando, se transformando, nos mostrando as marcas do tempo e nos fazendo refletir a respeito disso, como tudo passa tão depressa e como precisamos aproveitar e aprender com cada fase das nossas vidas. É como ver um álbum de fotos em ordem cronológica! Quem gosta de filmes “pipocão”, ou cheio de efeitos e clichês vai detestar, é preciso ter sensibilidade artística para assistir Boyhood e entende lo em sua essência.

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  3. Excelente filme e excelente crítica, como sempre. Mas me lembrou um bocado a série Anos Incríveis (The Wonder Year) que tem uma proposta similar e se desenrola ao longo de mais de 5 anos onde vemos os atores crescendo. Mas tão ou mais interessante do que ver jovens atores evoluindo com o tempo, sem aquelas lastimáveis trocas de intérpretes, foi também ver Ethan Hawke mudando com o tempo. Dá pra notar a diferença nesse mais de 10 anos, principalmente porque não parece ter usado maquiagem.

    Só senti falta de saber o que aconteceu com os filhos do professor universitário que no começo foi um bom pai e padrasto, mas foi destruído pelo alcoolismo. O que me leva a esse tema do quanto o álcool arruína a vida das tantas pessoas, mas curiosamente quase ninguém o vê como uma coisa ruim, sempre o perdoando como se fosse uma coisa boa da qual as pessoas apenas “abusam”.

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  4. Filme ESPETACULAR!!!!! O enredo é formidável. Pela complexidade da trama, contada de forma “simples”. Concordo com Marcus Valerio XR, quanto ao fato de a mãe não ter feito nada em relação aos filhos do professor alcoólatra. Jeito americano de ser?
    Como sempre, adoro ler as críticas desse blog.

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