Categorias
Cinema Cinema europeu Cinema francês Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2015

Il Capitale Umano – Human Capital – Capital Humano

ilcapitaleumano1

Em um mundo em que o que vale e interessa é o que a outra pessoa tem, quem pensa diferente só pode ser considerado louco. Il Capitale Umano trata de uma realidade que muitos de nós queremos ignorar, por ser tão vazia, tão torta e tão absurda. Não por acaso vivemos tempos duros. Quando o capital que interessa é o do ter, do possuir, o dinheiro e não o humano, a esperança está em quem consegue resistir a isso e dar o exemplo da compaixão, do amor e do afeto apesar do cenário agreste. Este é um filme forte, bem construído e um pouco desconcertante.

A HISTÓRIA: Fim de festa. Os funcionários de um clube recolhem tudo após a premiação de um colégio de elite e tradicional. Fabrizio (Gianluca Di Lauro) é um destes funcionários com pressa para ir para casa. Como ele chegou mais cedo naquele dia, ele também sai mais cedo e vai para casa de bicicleta. Em um certo ponto de uma estrada, um carro que anda rápido atinge o ciclista e faz Fabrizio sair para fora da pista. O motorista não para. Em seguida, quatro capítulos contam o que aconteceu naquela noite e os personagens envolvidos direta e indiretamente naquele episódio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Il Capitale Umano): Esse filme me deixou impressionada e me fez demorar um pouco para dormir. Isso porque não tem como assistir a Il Capitale Humano e ficar indiferente. Muitas vezes não queremos ver, fazemos questão de ignorar essas realidades em que o capital, o dinheiro é o que vale.

Da minha parte, não convivo com pessoas que colocam o dinheiro como o seu deus, mas elas existem. E são muitas. E tantas outras são como Divo, ambiciosas e invejosas e que fariam tudo para ser como os Bernaschi. Literalmente tudo. Ao abordar os estragos provocados pelo “Deus-dinheiro”, Il Capitale Umano se aprofunda em relações familiares, amorosas e de negócio. Tudo é contaminado por essa lógica do “ter” em lugar do “ser”.

Lembro bem da Campanha da Fraternidade de 2010, que citava Mateus para relembrar que as pessoas não podem servir a Deus e ao dinheiro. Não por acaso é corajoso quem prega uma vida diferente. Há espaço para esta figura em Il Capitale Umano. Esta pessoa é Luca Ambrosini (Giovanni Anzaldo), um jovem com vocação artística que acaba sendo penalizado por um tio sem escrúpulos e que colocou nas costas dele o crime de ser traficante. Ele foi culpado como tantos outros adolescentes na história do Brasil simplesmente para que o criminoso adulto escapasse da cadeia.

Pelo que passou, Luca é um tanto “desajustado”. Ele precisa de acompanhamento psicológico porque tem uma certa tendência depressiva e autodestrutiva. Nem todos os que se voltam contra o sistema movido pelo dinheiro precisam perder a “razão”, serem classificados como “desajustados”, mas é fato que a pressão para quem não segue essa lógica é grande. Quando ele de fato comete um delito, está apavorado o suficiente para não assumir a culpa. Afinal, ele não tinha “ficha limpa”. E aí entra outra reflexão interessante deste filme.

Nem tudo o que parece, é. No início da produção, o espectador fica indignado com a brutalidade do atropelamento de Fabrizio e a fuga do motorista. Mas nem desconfiamos a história que está por trás daquele fato. Por isso mesmo o roteiro volta seis meses no tempo, para contar o que aconteceu. E não é por acaso que Dino é a figura central da primeira parte.

Ele encarna uma das figuras mais desprezíveis desta lógica sem futuro e destrutiva do dinheiro no centro das ações e atenções. Dino é a figura capaz de vender a mãe – ou a filha – para conseguir o que deseja. Ele tem inveja de quem tem mais e quer se igualar a eles. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme).

O exemplo e a pressão dele sufocam a filha Serena Ossola (Matilde Gioli) que, por um tempo, vive uma relação sem futuro com Massimiliano Bernaschi (Guglielmo Pinelli). Ele é o típico jovem que sempre teve tudo o que quis e que não tem limites. Ela claramente não tem nada a ver com ele, mas fica na relação por comodismo e também por pressão do pai que, evidentemente, quer um “bom partido” para a filha.

Mas voltando ao que eu comentava antes, de que nem tudo é o que parece. Depois de Fabrizio ser atropelado, começa a investigação sobre o caso. Quando chegam ao carro de Massimiliano, toda a imprensa e a sociedade tem certeza de que ele é o culpado. Afinal, ele é rico, e os ricos não tem “limites” e merecem ser “punidos”. Essa é a ironia da nossa sociedade. A maioria tem inveja dos abastados e querem ter o mesmo que eles, mas quando eles estão sob suspeita, todos querem derrubá-los o mais rápido possível.

Era verdade que o carro envolvido no acidente era o de Massimiliano, mas o motorista não era ele. E aí entra novamente em cena o oportunista Dino. Quando descobre a verdade, ele resolve tirar proveito, ganhar dinheiro sobre a situação, não se importando com a filha e muito menos em saber sobre a história de Luca. Neste enredo, outros personagens ajudam a engrossar o coro do absurdo.

Carla Bernaschi (Valeria Bruni Tedeschi), por exemplo, não tem nada a ver com o marido Giovanni Bernaschi (Fabrizio Gifuni). Ela é, a exemplo de Luca, uma pessoa sensível e “artística”. Mas ela decidiu que o mais importante era a segurança e o conforto que o dinheiro poderia proporcionar-lhe – mais que a liberdade de ser quem ela era. Essas escolhas, feitas por tanta gente diariamente, transformam grandes potenciais em mercadorias de troca. As pessoas são compradas, abrem mão de sua própria liberdade em troca de que?

Por um breve período do filme, Carla Bernaschi acredita que poderá usar parte da fortuna do marido para uma “boa causa”. Doce ilusão. O dinheiro é sempre atraído por mais dinheiro, quer ser multiplicado. Não lhe interessa a arte, as pessoas, os valores. A frustração é enorme, especialmente para pessoas como Carla e Luca.

A diferença é que a primeira decidiu gastar a vida em troca de nada de valor. O segundo, mesmo pagando por erros de outros e dos seus próprios, ainda tem alguma esperança no amor de Serena. E desta forma, apesar de duro e de nos mostrar com franqueza o cinismo do mundo, Il Capitale Umano também nos revela a esperança. Sempre é possível escolher um caminho mais digno, coerente, libertário e solidário. Depende apenas de cada indivíduo fazer as escolhas certas na vida – e é sempre possível mudar de rumo. O que não dá é para viver na ilusão de que o capital terá alguma preocupação benéfica. Isso é meio caminho andado para a frustração.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos pontos fortes da produção dirigida por Paolo Virzi é a narrativa da produção. Além de ter um bom ritmo, o filme não descuida em imergir em um punhado de personagens principais mostrando não apenas as suas atitudes, mas principalmente o que lhes motiva e as suas personalidades. Além disso, e o que é um ganho para o espectador, a história começa bem e prossegue cada vez mais aumentando o tom, nos fazendo mudar de perspectivas mais de uma vez. Virzi consegue um bom ritmo pela forma com que ele dirige os atores e entende a própria narrativa, tornando algumas vezes as cenas mais contemplativas e, em outras, sequências bastante ágeis.

Ponto fundamental do filme é o roteiro de Virzi escrito em conjunto com Francesco Bruni e Francesco Piccolo baseado na obra de Stephen Amidon. A divisão em capítulos, as diferentes óticas narrativas e a ação crescente da produção apenas revelam o bom trabalho do trio de roteiristas.

Este é um filme de atores. O roteiro é competente, mas sem a escolha certa dos intérpretes, este filme não teria o poder que ele tem de fazer pensar e de impactar o espectar. Todo o elenco principal está muito bem, mas gostei, em especial, do trabalho de Fabrizio Bentivoglio, Matilde Gioli, Valeria Bruni Tedeschi e Giovanni Anzaldo. Cada um deles convence a cada minuto em cena. Estão estupendos! Outros coadjuvantes ajudam na narrativa, a exemplo de Valeria Golino (Roberta, mãe de Serena).

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Jérôme Alméras e de Simon Beaufils, assim como da ótima edição de Cecilia Zanuso. A trilha sonora praticamente não existe durante o filme, mas entra nos créditos finais, que são matadores – e é assinada por Carlo Virzi. No mais, funcionam bem os figurinos de Bettina Pontiggia; a decoração de set de Monica Sironi e o trabalho do departamento de arte de Andrea Bottazzini e Mauro Radaelli.

Il Capitale Umano estreou na Itália em dezembro de 2013. A partir daí, o filme participou de nada menos que 33 festivais em diversos países do mundo. Nesta trajetória ele colecionou 42 prêmios e foi indicado a outros 29. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme no Globo de Ouro da Itália e o de Melhor Atriz para Valeria Bruni Tedeschi no Festival de Cinema de Tribeca.

Esta produção teria custado 6 milhões de euros e faturado, apenas na Itália, cerca de 5,65 milhões de euros até o dia 7 de julho de 2014. Considerando os outros mercados em que ele estreou, dá para presumir que ele ao menos se pagou.

Co-produzido pela Itália e pela França, Il Capitale Umano foi praticamente todo rodado na região de Lombardia, na Itália – apenas as cenas de Luca na prisão foram rodadas na Casa di Reclusione di Bollate, em Milão.

Il Capitale Umano foi o filme da Itália indicado para o Oscar 2015. No fim das contas, ele não conseguiu figurar nem entre os cinco finalistas ao prêmio. Uma injustiça, na minha humilde opinião. Não assisti a Relatos Salvajes e Timbuktu, mas ainda que Leviathan e Mandariinid sejam bons, achei Il Capitale Umano melhor que eles. Para resumir, ele deveria ter ficado entre os finalistas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção,  que é uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 47 textos positivos e 12 negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 80%.

Meus caros leitores e leitoras aqui do blog, sei que fiquei ausente por bastante tempo. Peço desculpas por isso. Mas entrei em diversas semanas de muito trabalho. Assisti a Il Capitale Umano há mais de um mês, mas só hoje consegui parar para terminar o texto. Agora, de férias, devo ficar ausente mais umas duas semanas, mas depois vou voltar com bem mais tempo e periodicidade.

Como estamos no final do ano e quase em 2016, tenham certeza que o meu foco será o próximo Oscar. Para seguir a tradição deste espaço. Obrigada a cada um@ de vocês que segue fiel a este espaço. Continuem visitando, comentando e compartilhando esta página. Em 2016 quero publicar mais textos por aqui e colocar a conversa com vocês em dia. Eis bons planos para o Ano-Novo. 😉 Abraços grandes.

CONCLUSÃO: Um filme potente e que não deixa ninguém indiferente. Il Capitale Umano é destas produções para quem gosta de pensar sobre uma história muito mais do que apenas passar o tempo vendo a um filme. Ele nos provoca, nos faz pensar, mexe com as estruturas. Muito bem narrado e dividido em quatro partes, além do prólogo, Il Capitale Umano questiona os valores atuais das sociedades, as relações familiares e o papel do amor neste processo. Destas produções que podem render horas de debates. Para mim, uma preciosidade que vale ser vista, divulgada e debatida.

Categorias
Cinema Cinema espanhol Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2015

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados – Viver é Fácil com os Olhos Fechados

viviresfacilconlosojoscerrados1

Ter sonhos e persegui-los é algo fundamental. Especialmente em tempos duros e complicados. Vivir es Facil con los Ojos Cerrados se passa em uma época difícil para a Espanha, de ditadura, quando a liberdade de sonhar não era um artigo comum. Além de tratar daquela época e de uma Espanha pouco difundida mundo afora, esta produção aborda um momento cultural único, dos The Beatles e dos questionamentos que John Lennon levantou em sua época. Especialmente sobre o que de fato é importante na vida.

A HISTÓRIA: Um rádio antigo é sintonizado. Nas notícias de uma emissora, a apresentadora comenta que muitas pessoas se perguntam o que estaria acontecendo com John Lennon. Havia, na época, rumores de que ele iria acabar com a banda The Beatles. Em uma reportagem de jornal, aparece a notícia de que Lennon está em Almería, na Espanha, para participar de um filme.

A notícia segue contextualizando a época, comentando sobre a histeria que circunda os Beatles, trata das ameaças que começam a surgir pelas declarações de Lennon e sobre como pode ser desagradável para eles se apresentarem em países com ditaduras como a Espanha. É neste país que o professor Antonio (Javier Cámara) ensina inglês para os seus alunos com músicas dos Beatles. Fã da banda e de Lennon, ele decide viajar para Almería para se encontrar com o ídolo. No caminho, ele encontra Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesc Colomer) em suas peregrinações pessoais.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vivir es Facil con los Ojos Cerrados): Tinha ouvido falar desse filme, há tempos, mas não tinha conseguido assisti-lo até agora. Gosto do cinema espanhol e de filmes que se debruçam sobre uma certa época na história. Especialmente quando esta época é delicada para o país.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados é ambientado em 1966, durante a ditadura do general Francisco Franco – que esteve no poder entre 1939 e 1976. Interessante um filme falar sobre falta de liberdade e pobreza nas ruas naquela época já que a imagem que o regime franquista sempre procurou passar foi de um país unido e aonde tudo ia bem. Não é apenas no Brasil, infelizmente, que muita gente se diz saudosista da época da ditadura. Na Espanha há muita gente que ainda diz ter saudade de Franco, enquanto outros simplesmente não viveram aquela época e não tem lembrança dos horrores da ditadura – a exemplo do que acontece no país.

Mas voltemos ao filme. Vivir (tratarei do filme assim, desta forma abreviada) é um filme interessante por unir dois temas importantes: a falta de liberdade individual e a falta de liberdade coletiva versus a busca por essas liberdades. Ao mesmo tempo que esta produção fala de uma época bem específica em um país, a Espanha, ela também aborda um fenômeno cultural que ultrapassou todas as barreiras de território, que foi a beatlemania.

O filme, em si, é bem simplista. A história gira em torno de três personagens que buscam, cada uma sua maneira, o seu próprio caminho. O professor Antonio ensina inglês para crianças através das letras das músicas do The Beatles. Belén é uma jovem que não tem muitas perspectivas e que está procurando reencontrar a mãe em um momento delicado de sua vida. Enquanto isso, Juanjo sai de casa porque não aguenta a repressão paterna e quer experimentar a experiência de viver por conta própria.

Ao saber que John Lennon está rodando um filme em Almería, Antonio decide viajar de Albacete até a pequena cidade na Andalucía, no Sul da Espanha, para tentar se encontrar com o líder da sua banda preferida. A primeira parte do filme mostra a vida de Antonio e a sua viagem até lá. No caminho, ele encontra Belén em um posto de gasolina e Juanjo na estrada. Acaba dando carona para os dois, e os três acabam juntos em Almería.

Bonita a forma com que o diretor e roteirista David Trueba conta essa história. De forma clara ele contrapõe as pessoas mais velhas e sua forma dura de lidar com a realidade com a forma fresca e mais leve dos jovens, ao mesmo tempo que mostra uma Espanha igualmente fechada e cheia de problemas contra uma cultura estrangeira que não tem fronteiras e que fascina a qualquer pessoa. Com isso, Trueba não quer dizer que a grama do vizinho é sempre mais verde, mas que alguns países e pessoas demoram mais tempo para perceber o que é importante e o que simplesmente é a continuação de velhos costumes e modos de agir que não incluem aos demais.

Ainda que praticamente não vejamos Madri ou outra grande cidade maior da Espanha neste filme, parece ficar evidente a intenção de Trueba nos falar da “Espanha profunda”, ou seja, do interior que vai demorar mais para evoluir. Ao mesmo tempo que em Almería temos pessoas simples e sem pompas e circunstâncias, temos figuras que são grosseiras, preconceituosas, e que só aceitam pessoas que sejam iguais a elas.

O exemplo mais claro deste perfil é o valentão da cidade que, gratuitamente, zomba de Juanjo por causa de seu cabelo e agride o adolescente quando tem uma oportunidade. Outros homens da localidade simplesmente não fazem nada. Esse é um comportamento que ainda se vê muito na Espanha – por isso chamei de “Espanha profunda” antes -, aonde “o que vem de fora” não é bem aceito. Talvez, tolerado. Neste sentido, Antonio encarna um modelo de adulto mais moderno, que não tem problemas em admirar o que vem de fora quando o modelo é bom e positivo – como no caso de Lennon e The Beatles. Além disso, fica claro que ele defende sempre Belén e Juanjo. De fato ele se preocupa com os demais.

Mas além deste recorte histórico e comportamental de um país, Vivir trata de questões que independem da fronteira. Ao se debruçar em canções dos The Beatles, o filme repercute o que muitas músicas de Lennon e companhia queriam evidenciar, como a solidão de estar rodeado de pessoas e estar sozinho, os valores que são realmente importantes versus o ouro de tolo que a fama propicia, entre outros questionamentos. Antonio representa um sujeito solitário e libertário que se identifica com as músicas e suas reflexões. Pouco a pouco ele vai contaminando com esperança aos demais personagens desta história.

Falando em personagens, sem dúvida alguma os melhores construídos são os de Antonio e Juanjo. Do primeiro, já falei bastante. O segundo, representa os jovens bem educados e que não se satisfazem com o regime repressor – seja o de casa, seja o de fora de casa. Responsável, amável, ele está pronto para a vida, mas quer mudanças. É o lado corajoso da história. Belén demonstra, para mim, a perda da inocência – seja de uma pessoa em uma época da vida, seja do próprio país, a Espanha. Mas ela, no filme, acaba tendo um papel um pouco controverso.

Ao mesmo tempo que Belén é admirável, pela beleza e pela honestidade, ela parece ser a peça sempre desejável da história. Então ela ainda é vista de forma machista, em uma sociedade que é assim e que, por ser assim, acha que ela deve se casar com alguém e ter filhos – essa é a sua única opção. Ela, por outro lado, parece querer ser dona de si mesma – é libertária e, algumas vezes, me pareceu que até demais. Desejada por Antonio e por Juanjo, ela acaba sendo a peça de um tradicional triângulo amoroso – que, no fundo, não se concretiza.

Desta forma, Vivir fala de muitos temas e tem diversas nuances. Esse emaranhado todo percebemos em parte enquanto o filme está se desenrolando. O restante surge com o tempo e depois que a produção acaba. Mas algo bonito que a história deixa como mensagem é que é possível sonhar e ir atrás dos seus sonhos, independente da idade ou do quanto as outras pessoas possam achar a sua ideia maluca.

Antonio não era o perfil clássico do cara que parte de uma cidade para outra para falar com o seu ídolo. Mas ele faz isso e dá exemplo para os jovens que parecem ser mais libertários que ele. Buscar os sonhos exige vontade, saída e perseverança. Independe de idade, classe social ou profissão. Apenas essa mensagem já vale o filme. Assim como outros detalhes espalhados aqui e ali. Uma das minhas cenas preferidas é quando Juanjo consegue fazer o gravador de Antonio funcionar na volta para casa. Momento delicado e cheio de esperança. Esse é um filme bacana, mas faltou um pouco mais de emoção, talvez, para que eu o considerasse marcante.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: David Trueba é um nome relativamente conhecido do cinema espanhol. Nascido em Madri em 1969, ele tem 16 prêmios no currículo e outras 24 indicações a prêmios. De sua filmografia com 17 trabalhos como diretor, os destaques, além deste Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados, são La Buena Vida, de 1996; e Soldados de Salamina, de 2003. Ele é o irmão mais novo do Trueba mais conhecido do cinema espanhol, o veterano Fernando Trueba. Fernando, o irmão mais velho de David, tem 29 prêmios e 26 indicações no currículo, incluindo uma indicação ao Oscar em 2012 pelo filme Chico & Rita.

O roteiro deste filme, claramente, está focado no trabalho de três atores. Javier Cámara, mais uma vez, demonstra ser um ótimo ator, sensível e atento aos detalhes. Ele convence no papel que for. Faz o mesmo aqui. Os jovens Natalia de Molina e Francesc Colomer, especialmente o segundo, também demonstram talento e convencem. Além deles, tem um certo destaque o trabalho de Ramon Fontserè, que interpreta a Ramón, o dono do restaurante que acaba sendo um ponto de encontro importante dos viajantes; Rogelio Fernández como Bruno, o filho cadeirante de Ramón; Jorge Sanz como o pai de Juanjo e Ariadna Gil como a mãe do jovem. Os demais tem papeis pouco relevantes.

A direção de David Trueba é bem tradicional, assim como o seu roteiro, que é linear e revisita aspectos conhecidos de road movie e de filmes que mesclam drama e humor. Nada a destacar do trabalho dele como diretor ou roteirista, apenas que ele valoriza o trabalho dos atores. Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho do diretor de fotografia Daniel Vilar e da editora Marta Velasco. A trilha sonora de Pat Metheny também é boa.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados estreou em setembro de 2013 no Festival de Cinema de San Sebastián. Depois, o filme passou por outros 14 festivais de cinema. Nesta trajetória, o filme recebeu 16 prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina pelo Prêmio do Círculo de Roteiristas de Cinema da Espanha; e para os de Melhor Ator para Javier Cámara, Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme no Prêmio Goya.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Vivir foi filmado em duas cidades da Espanha: Madri e Almería.

Esta produção foi a indicação oficial da Espanha para o Oscar 2015.

Agora, pequena curiosidade sobre o filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De acordo com a história criada por Trueba, Lennon mostrou para Antonio uma música nova na qual ele estava trabalhando. Isso aconteceu durante o encontro deles no trailer do compositor nos intervalos das filmagens em Almería. Inicialmente, Antonio achou que a música não tinha sido gravada. Mas depois, voltando para Madri, Juanjo percebe que faltava um ajuste na velocidade do gravador para escutar a música. Quem conhece um pouco de The Beatles e de Lennon sabe que aquela música era uma primeira versão de Strawberry Fields Forever.

Muito bacana essa “tirada” do filme. Afinal, como tantas outras músicas, o filme trata esta música como tendo um título provisório diferente, “Living is Easy with Eyes Closed”, o título do próprio filme e que cai como uma luva para aquela realidade. Afinal, se você ignorar que vive em uma ditadura, ignorar a pobreza e os valores deturpados da sociedade, poderá viver de forma mais fácil. Mas se você se importa com tudo isso, certamente ficará incomodado e terá uma vida mais “difícil”. A escolha é sempre sua/nossa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 textos positivos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 100% e uma nota média de 7,8. Este é um raríssimo caso de um filme com 100% de aprovação dos críticos. Interessante.

Esta é uma produção 100% espanhola.

CONCLUSÃO: Este é um filme simpático, com diversas nuances críticas e de reflexão. Bem dirigido, com atores comprometidos, só não é arrebatador por causa do roteiro, um tanto singelo demais. Ainda assim, Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados tem diversas provocações, seja na análise de uma época, na reflexão sobre a formação de uma identidade nacional, ou na ponderação sobre um fenômeno cultural “invasor”. Um dos acertos do filme é mostrar um pouco da “Espanha” profunda e pouco conhecida, assim como no desejo dos realizadores de valorizar os bons exemplos e a aposta nos jovens. Por outro lado, a história é singela, bacaninha, mas não arrebata e nem surpreende. Um filme simpático, que vale ser conferido em uma tarde ou noite tranquila.

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema do mundo Cinema europeu Cinema francês Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2015 Movie Oscar 2015

Gett – The Trial of Viviane Amsalem – O Julgamento de Viviane Amsalem

gettthetrialofvivianeamsalem1

Ter liberdade de pensar e sentir por sua própria conta. Decidir a própria vida. Parecem princípios básicos, mas para muitas mulheres em muitas partes do mundo – e inclusive ao nosso lado ou dentro da nossa casa – isso não tem nada de básico. Para estas mulheres, a liberdade é uma palavra fora do dicionário. Por isso mesmo Gett – The Trial of Viviane Amsalem é um filme tão importante, tão vital. Ele mostra o estrago e o absurdo de uma cultura em que a mulher é um ser menor, sempre à mercê da vontade de um homem, especialmente se ela é casada. Com interpretações fantásticas e um roteiro bem construído, este filme é essencial.

A HISTÓRIA: O advogado Carmel Ben Tovim (Menashe Noy) olha fixo por um longo período antes de falar em nome de sua cliente, Viviane Amsalem (a fantástica Ronit Elkabetz). Ele diz que lamenta que o marido de Viviane, Elisha Amsalem (Simon Abkarian), não tenha cooperado nos últimos três anos em se fazer presente no tribunal e nem ao menos em opinar sobre o pedido de divórcio feito pela mulher.

Agora, na frente do juiz rabino Salmion (Eli Gornstein) e de seus dois auxiliares, Elisha diz que não aceita o divórcio e que quer que a esposa volte para casa. Mesmo ela dizendo que não é possível eles voltarem a ficar juntos, o juiz ordena que ela volte por seis meses, tentando a reconciliação. Este é apenas o começo de um longo martírio de Viviane em busca da própria liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gett – The Trial of Viviane Amsalem): É um desafio assistir a este filme. Não porque ele seja longo demais, ou muito arrastado. Pelo contrário. O roteiro dos diretores Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz é tão bem escrito e preciso, com a valorização adequada do trabalho do pequeno grupo de atores envolvidos, que não há sobras ou faltas na ação. A dificuldade em assistir a esse filme sem em algum momento ferver um pouco o sangue é ver o absurdo da situação.

Estamos acostumados, no Brasil, a longos processos judiciais. Mas por aqui, normalmente, questões como o divórcio são resolvidas com grande facilidade. Algumas vezes, concordo, até com facilidade demais. Sou da opinião que as pessoas, depois de casadas, devem fazer um esforço para permanecerem juntas e darem certo naquela união. Afinal, elas deveriam ter pensado bem e escolhido com consciência os seus respectivos cônjuges. Dificuldades aparecem e vão aparecer, mas o casamento não deve terminar por causa delas.

Agora, uma situação muito diferente é vivida pelos personagens centrais desta trama. E é um grande acerto dos roteiristas ir desbravando a intimidade deles lentamente. No início, Viviane e Elisha apenas marcam posição: ela quer o divórcio, ele não. E segundo a cultura e a tradição judaica, é o homem que decide. Sim, e essa é a parte mais marcante desta produção: a mulher não tem direito de escolher, de opinar. Torna-se evidente, assim, a subjugação da mulher, colocada em segundo plano e abaixo do homem.

De arrepiar algo assim. Mas é o que a tradição – aquela mesma questionada por Jesus, condenado à morte e até hoje não aceito pelos judeus – deles prega. Que a mulher deve se submeter e, de preferência, sem questionar. Mas Viviane não é assim. Que brava e maravilhosa essa personagem e também a atriz que a interpreta – e que é uma das roteiristas e diretora, ao lado do irmão.

Agora, voltando para um dos acertos fundamentais desta produção: os roteiristas escreveram a narrativa para ela crescer lentamente. No início, temos apenas a posição firme e contrária dos dois personagens centrais. Depois, pouco a pouco, é que vamos ouvindo outras testemunhas – familiares de Viviane, conhecidos de Elisha e vizinhos do casal. E, na reta final, finalmente marido e mulher dão os seus testemunhos.

Antes destes outros personagens entrarem em cena e do filme ganhar em tensão com os depoimentos das duas partes diretamente interessadas no divórcio, impressiona já o que o roteiro fala nos diálogos e o que ele comunica com a troca de olhares entre os personagens. Os flagrantes e os silêncios expressam tanto ou mais do que os argumentos. Como acontece na nossa vida e, certamente, na casa de Viviane e Elisha – que sempre tiveram grande dificuldade de comunicação.

É verdadeiramente assustador pensar que uma mulher deva ficar durante diversos anos se submetendo a um juizado composto por três ou dois (quando um deles renuncia temporariamente) rabinos para conseguir um direito tão básico quanto o de tomar as rédeas da própria vida. Mas quantas mulheres hoje em dia são prisioneiras de seus próprios namorados e maridos depois de terem sido “sequestradas” por eles – para usar um termo do Padre Fabio de Melo? Seja esse sequestro mais “literal”, com elas sendo mantidas em casa praticamente como prisioneiras, seja de forma mais genérica, com elas capturadas após um longo período de manipulações e de esmagamento do que elas tem de melhor, que é a sua própria independência e auto-estima.

O fantástico deste filme é que ele mostra uma mulher forte, brava, destemida e que respeita a si mesma, em primeiro lugar. Depois de algumas décadas de casamento, quando ajudou a cuidar da sogra e educou os filhos, ela decide se separar. Porque vive uma vida miserável ao lado de Elisha, um homem que não consegue se comunicar com a esposa e que, segundo ela, sempre que pode a critica e a ofende. Ele também se queixa da mulher, dizendo que ela não o respeita, grita com ele e que não age como uma “boa esposa”.

Ora, então por que ele quer insistir naquela vida miserável e infeliz? Ele jura que é porque ama ela. Viviane argumenta que, no fundo, ele a odeia. No fundo, amor e ódio muitas vezes se misturam, e isso fica evidente nas trocas de olhares entre os dois. Além de amor e ódio, é possível ver naqueles olhares pedidos de súplica, perdão, desprezo e competição aberta para saber quem pode mais. Quem será mais forte.

O bacana desta produção é que ela não julga e nem apresenta uma única interpretação sobre o que aquele casal sente e vive. De forma muito natural, Gett – The Trial of Viviane Amsalem nos apresenta uma realidade e nos dá a liberdade – algo tão negado para a protagonista – de fazermos as nossas próprias leituras e interpretações. Característica fundamental de um grande filme, que acerta também na dinâmica da história, ao enclausurar a audiência junto com aqueles personagens em uma sala de audiência e na ante-sala de espera, e também na aposta da interpretação dos atores.

Da minha parte – e você tem, como sempre, todo o direito de discordar -, acredito que Viviane e Elisha tiveram em algum momento amor um pelo outro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas, de fato, ele não dava o divórcio para ela por puro orgulho e porque ele não queria perder o controle sobre a mulher. Na reta final, quando ele cede após ela prometer que não vai se relacionar com mais nenhum homem, fica subentendido que este era o “problema” dele: vê-la em outra relação. Não acredito que seja apenas isso.

Acho sim que ele não admitia que aquela mulher tivesse vida própria. O cotidiano deles tinha virado um inferno? Ele preferia isso e dar o troco para ela sempre que possível do que deixá-la ser feliz longe dele. Homens que vêem as mulheres como objetos, como “coisas” que eles podem possuir, jamais vão respeitar a vontade própria destas mulheres. De fato, e como aquele sistema judaico do qual eles fazem parte, eles acreditam que a mulher é “inferior” e deve se submeter. Me desculpe se você acha isso também, mas este pensamento é repulsivo e totalmente contrário ao que qualquer crença digna possa sugerir.

Além de nos fazer pensar sobre o absurdo de diferentes realidades – e muitas vezes a nossa ou de alguém próximo também pode ser vista como absurda -, este filme nos mostra um exemplo de mulher admirável. Que não sucumbiu ao que o juiz ordenou inicialmente, nem ao desgasta do longo processo ou da condenação de boa parte daquela sociedade em que ela estava inserida.

Ela não estava feliz, tinha uma vida miserável e sabia que não havia salvação para aquela realidade mudar com o marido e, por isso, decidiu recomeçar. O final, que mostra ela caminhando para a liberdade, não poderia ser mais bonito e encorajador. Para todas as mulheres, homens, jovens e adultos que se sentem prisioneiros de algo que lhes faz mal. Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante refletir sobre os primeiros minutos desta produção. Logo no início temos o ator Menashe Noy, que interpreta ao advogado Carmel Ben Tovim, em uma cena que parece longa de olhar fixo para baixo, parecendo um pouco constrangido, e ao olhar para alguém que estava em um nível inferior ao dele. Conforme a cena se desenrola e vemos a parte dos outros homens do recinto, percebemos só depois que ele olhava para Viviane Amsalem. Não por acaso ela é a última a ser mostrada. Afinal, naquele cenário, ela está em “posição inferior” a dos homens e é a última a “importar”. Muito inteligente esta sequência que representa bastante da história que veremos em seguida.

Todo o julgamento a que assistimos é absurdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo no início os juízes são informados que a mulher que está pedindo divórcio está há três anos fora de casa, morando com parentes, e que neste período o marido não falou com ela, exceto uma vez – quando ela perdeu um irmão. Isso não significa nada para os rabinos e juízes Salmion (o que preside quase todo o julgamento), Danino (Rami Danon) e Abraham (Roberto Pollack).

Não demora muito para Salmion perguntar para o advogado de Viviane se o marido não lhe dava o essencial, que seria dinheiro e comida. Sério mesmo? Como Carmel mesmo diz, logo no início do julgamento, Viviane é cabeleireira há 20 anos, e foi com o dinheiro de seu trabalho que ela conseguiu se sustentar e aos filhos nos três anos em que viveu fora da casa de Elisha. Então ela não precisa de um marido para lhe dar “dinheiro e comida”. Como se não bastasse esse pensamento ridículo, ainda o juiz diz que a razão dela para querer o divórcio, que é não amar mais ao marido, “não é razão” para se separar. Sem maiores comentários.

Interessante como logo nos primeiros minutos do filme o protagonista diz para a esposa que busca o divórcio: “Jamais, Viviane!”. Claramente, para mim, o orgulho dele fala mais alto. E não há amor ali. Porque quem ama quer ver a outra pessoa feliz. Se esforça para isso. E se, lá pelas tantas, não consegue mais fazer a outra pessoa feliz, vai querer que ela busque a felicidade em outro lugar. Assim de simples. Isso só não funciona para homens machistas que acham que são proprietários das mulheres – tornadas mercadorias.

A atriz Ronit Elkabetz tem uma interpretação digna de muitos prêmios – além do Oscar, de outros tantos mais de respeito mundo afora. Ela dá um show de interpretação neste filme. Depois de diversos anos de um longo julgamento em que ela só pedia pelo direito de recomeçar a vida – mas no qual ela estava sendo julgada -, sem dúvida alguma os grandes momentos da produção são aqueles em que ela tem dois rompantes de desabafo. Mas são momentos inesquecíveis também quando ela e o ator Simon Abkarian, que também faz um grande trabalho, dão os seus próprios testemunhos.

Neste momento, do testemunho deles, muito da relação entre os dois se torna clara e cristalina. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elisha diz que ama a mulher e que não aceita o divórcio porque ela é o destino dele e os dois estão presos um ao outro. Em seu depoimento, Elisha também deixa claro que nunca tentou agradar a esposa e que ele não é tão coerente assim ao seguir a própria religião – afinal, gosta de coisas que não são “kosher”, como o cinema.

Ela, por sua vez, emociona ao dizer que há 10 anos pensa seriamente em se separar, mas que o primeiro pensamento a esse respeito veio logo depois deles terem se casado. Viviane não demorou para perceber que os dois eram incompatíveis. Perguntada sobre o porquê de ter se casado, ela respondeu o que muitas mulheres, certamente, responderiam sobre as suas próprias escolhas: “porque nós fazemos isso, nos casamos”. É, minha gente, isso é complicado. Algumas vezes as pessoas casam porque é o que a sociedade e as famílias esperam, mas fazem escolhas ruins. O resultado disso sabemos que nunca será bom. Essa história é um bom exemplo.

Além dos dois atores principais, que estão perfeitos em seus papéis, vale destacar o ótimo trabalho de Menashe Noy como o expressivo e sensível advogado de Viviane; Sasson Gabai como o magnético e competente advogado e rabino Shimon, irmão de Elisha e que por boa parte do julgamento atua como advogado dele; além, claro, dos juízes. Outros atores aparecem como testemunhas. Eles fazem um bom trabalho, mas nada que fuja do esperado ou mereça um destaque específico.

Da parte técnica do filme, achei perfeita a direção da dupla Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz. Os irmãos acertam em cheio na dinâmica em cena, no ritmo das câmeras e na atenção constante no trabalho dramático do elenco. O roteiro também é construído com esmero, sem sobras ou faltas. Para estes elementos funcionarem bem, vale destacar o trabalho da diretora de fotografia Jeanne Lapoirie e do editor Joel Alexis.

Gett – The Trial of Viviane Amsalem estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme passaria ainda por outros 32 festivais e mostras em diversas partes do mundo. Uma trajetória admirável e merecida pelo filme de qualidade.

Em suas andanças por estes festivais, o filme abocanhou 13 prêmios e foi indicado a outros 14. Poderia ter sido mais. Só acho que não foi porque esta produção, apesar de ter uma temática universal, pode cair estranha para o gosto de alguns – que não se interessam e/ou não são interessados pela cultura judaica ou por culturas diferenciadas. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante para Sasson Gabai no Prêmio da Academia de Cinema Israelense; o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Chicago; o de Melhor Produção Israeli, Melhor Ator para Menashe Noy e Prêmio da Audiência do Festival de Cinema de Jerusalém; o Prêmio Diretores para Acompanhar no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; e o prêmio da produção ter figurado na lista do Top 5 de Filmes em Língua Estrangeira do National Board of Review.

Esta produção, indicada oficialmente ao Oscar por Israel, foi nomeada também como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro 2015. No Oscar o filme não conseguiu chegar entre os finalistas. No Globo de Ouro ele perdeu para Leviathan (com crítica aqui). Da minha parte, gosto de Leviathan. É um filme importante e crítico, mas apreciei mais o debate levantado por Gett – The Trial of Viviane Amsalem. Gostos.

Há poucas informações sobre o desempenho de Gett – The Trial of Viviane Amsalem nas bilheterias. Consegui apurar apenas que o filme teria feito pouco menos de US$ 988 mil nos Estados Unidos.

Não consegui descobrir as locações deste filme, apenas que ele foi rodado no Verão de 2013.

Os usuários do site IMDB deram a nota 7,8 para Gett – The Trial of Viviane Amsalem. Uma avaliação boa para o padrão do site. Mas os críticos que tem os seus textos divulgados no Rotten Tomatoes foram ainda mais efusivos na aprovação do filme. Eles dedicaram 65 críticas positivas, uma rara aprovação de 100% e uma nota média de 8,5. Excelente.

De acordo com este texto do site do Film Society Lincoln Center, Gett – The Trial of Viviane Amsalem é baseado na história real de uma mulher que lutou nos tribunais para conseguir o divórcio em uma comunidade ortodoxa de Israel.

Esta é uma coprodução de Israel com a França e a Alemanha.

Interessante o currículo de Ronit Elkabetz. Nascida em Beershaba em 1964, ela tem 30 trabalhos como atriz, quatro como roteirista e três como diretora. Todos os trabalhos dela na direção foram feitos ao lado do irmão, Shlomi Elkabetz. Ele tem quatro projetos como roteirista e diretor – além dos três feitos com a irmã, ele tem Edut como um trabalho solo. Os dois valem ser acompanhados.

CONCLUSÃO: Um filme com poucos atores e que se passa inteiro em um tribunal. Brilhante justamente por esta escolha. Afinal, a vida de Viviane Amsalem ficou presa e suspensa durante todos aqueles anos em que ela foi julgada por querer ser livre. Algo inadmissível para a cultura machista judaica em que uma mulher deve se submeter sempre aos desejos do marido. Mesmo em culturas que não são aquela os homens esperam que as mulheres estejam sempre aos seus pés.

No Brasil mesmo vivemos em uma sociedade machista em que as mulheres devem ceder o máximo possível frente a homens que se acham superiores. Por tudo isso esse filme é fundamental. Mesmo que você não entenda o que ele quer dizer. Bem pensada para o propósito que ela se dispõe, esta produção acerta na valorização dos atores, dos sentimentos que eles trocam e querem passar e na sensação de clausura. Perfeito na simplicidade.

Categorias
Oscar 2015 Votações no blog

E o Oscar 2015 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

87th Oscars®, Thursday Set Ups

Olá pessoal, boa noite!

Mais uma vez eu tenho o prazer de acompanhar a entrega do maior prêmio da indústria cinematográfica de Hollywood, o Oscar, junto com vocês.

Este ano, contudo, tenho uma novidade. A partir das 20h30 eu farei uma cobertura em tempo real do tapete vermelho e, depois, da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood no site do jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, aonde trabalho como repórter e colunista de Economia.

Por lá eu vou atualizar muito mais rápido que por aqui. Por isso se você tem pressa e quer participar da cobertura, indico que acompanhe essa cobertura pelo site do jornal, que pode ser acessado por aqui. O canal E! Entertainment começou a programação do Oscar as 15h30 deste domingo, dia 22 de fevereiro, com a contagem regressiva para o tapete vermelho e a premiação.

A receita foi a mesma do ano passado: especulações e palpites sobre as celebridades que vão arrasar este ano no tapete vermelho, se destacando pelos vestidos, ternos e acessórios. Comentaram também a principal queda de braço da noite, na categoria Melhor Filme, que deve ser disputada por Boyhood e Birdman. As bolsas de apostas inglesas colocaram as fichas em Birdman. Para o meu gosto, quem deveria levar é Boyhood. Logo veremos.

Os comentaristas do canal E! também falaram do esquecimento no Oscar de Selma, que foi indicado apenas a Melhor Filme e Melhor Canção – e tem chances apenas na segunda categoria. Dá para entender esse “desprezo” da Academia por causa do ano conturbado que os Estados Unidos viveu desde o último Oscar. Em 2014 o prêmio principal foi para 12 Years a Slave, mas depois vieram as mortes de negros por policiais brancos e a convulsão social que agitou o país do Tio Sam. Agora, realmente, o clima é outro.

Na contagem regressiva o pessoal também falou de combinações de acessórios com diferentes cores de vestidos, lembraram atores e atrizes que se vestiram bem e mal em edições anteriores, e houve até uma predição feita por filhotes caninos – no ano passado o E! apostou no mesmo recurso.

No Oscar 2014 os cãezinhos disponíveis para adoção acertaram ao comer toda a comida do prato com o nome do filme 12 Years a Slave. Este ano, eles não limpara o prato, mas comeram mais o que havia em Boyhood. 😉 Vocês aqui no blog também votaram mais em Boyhood. Logo veremos se todos nós acertamos. Nas premiações pré-Oscar Boyhood e Birdman dividiram os prêmios. Será uma disputa concorrida, tenho certeza.

O tapete vermelho começou a ser transmitido pelo E! às 19h30. Como no ano passado, a chegada começou a ficar interessante depois das 20h.

Pessoal, a dica fica mesmo para vocês acompanharem a cobertura em tempo real no site que eu indiquei ali acima. Por aqui, vou conseguir apenas publicar os ganhadores das diferentes categorias depois.

Agora sim, voltei para cá. 🙂 Espero que vocês tenham me dado o prazer de ter me acompanhado em uma cobertura em tempo real para valer, desta vez. Inclusive com alguma interação. Para quem não viu como foi, dá para acessar o conteúdo neste link.

birdman13No fim das contas, os dois filmes mais indicados este ano, The Grand Budapest Hotel e Birdman, com nove chances cada um, foram também os que mais ganharam estatuetas. Birdman levou quatro, com vantagem por ter abocanhado três das principais: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Para fechar a conta, levou ainda o Oscar de Melhor Fotografia.

The Grand Budapest Hotel abocanhou quatro prêmios técnicos: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Penteado, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora. Todos merecidos. Em segundo lugar entre os filmes que mais receberam estatuetas, ficou Whiplash, com três prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som. Todos muito merecidos também.

Meu palpite era que o Oscar 2015 seria pulverizado. Pois bem, fora The Grand Budapest Hotel e Birdman ganhando quatro estatuetas cada e Whiplash levando três, o restante dos prêmios foram pulverizados para nada menos que 10 produções. Cada um ficou com um Oscar cada.

Isso já era previsto que acontecesse com filmes como Still Alice, Selma, Ida e CitizenFour, mas admito que eu esperava um reconhecimento maior para Boyhood. Para mim, junto com Selma, injustiçado já no momento das indicações, Boyhood foi o grande injustiçado da noite. Infelizmente ele ficou passível de ser comparado com filme muito mais fracos como Sniper Americano e The Theory of Everything.

Acabei citando outros premiados acima. Para mim, foi justo Ida ganhar como Melhor Filme em Língua Estrangeira, ainda que Mandariinid tenha mexido mais comigo. Gostei de ver Big Hero 6 desbancar How To Train Your Dragon 2. Não assisti a nenhum dos filmes de animação, mas eu tinha gostado da pegada de Big Hero 6 no trailer que eu assisti. Agora quero conferir o filme. Melhor Documentário não teve jeito, ganhou o favorito CitizenFour.

No saldo geral deste ano, achei a premiação bastante morna. O apresentador Neil Patrick Harris, em especial, foi muito ruim. Não fez rir nem a plateia de americanos que normalmente entende as piadas que pra gente não fazem muito sentido. Achei fraco demais. As apresentações – incluindo uma homenagem estranha protagonizada por Lady Gaga – também careceram de brilho e impacto.

Para salvar um pouco a noite, apresentações bacanas de Adam Levine (que interpretou a canção Lost Stars, do filme Begin Again), Tim McGraw (com a bela canção I’m Not Gonna Miss You, do filme Glen Campbell… I’ll Be Me), Rita Ora (com a canção Grateful, do filme Beyond the Lights) e, principalmente, com a emocionante e que levantou a plateia apresentação de Common e John Legend (da ótima Glory, de Selma). Essas apresentações, especialmente a última, ajudaram a salvar um pouco a noite de espetáculo morno.

Nas categorias dos atores e atrizes, nenhuma surpresa. E algumas injustiças com carreira bem consistentes resolvidas. Levaram estatueta J.K. Simmons, Patricia Arquette, Julianne Moore e Eddie Redmayne. Todos ganhando pela primeira vez. Aliás, este ano, muitos ganharam uma estatueta pela primeira vez. Fiquei especialmente feliz por Julianne Moore que há tempos merecia um Oscar. Justiça também com Simmons e Arquette, que sempre tiveram a coragem de fazer filmes alternativos, e com Redmayne, que teve o papel de sua vida em The Theory of Everything.

Sobre o resultado do Oscar 2015, sem dúvida gostaria que Boyhood tivesse levado mais prêmios, especialmente o de Melhor Filme. Acho ele mais profundo e impactante, inclusive mais fácil de ser lembrado no futuro, que Birdman. Selma e The Imitation Game também mereciam mais destaque. Mas algo é preciso dizer: a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi ousada ao premiar um filme como Birdman.

A produção com roteiro liderado por Alejandro González Iñarritu e dirigida por ele faz uma grande autocrítica ao mainstream. Conta uma história pesada que, apesar de ter alguma fantasia, faz questionamentos bem pesados sobre Hollywood, a Broadway e outros símbolos da cultura dos Estados Unidos. Premiar este filme é um passo a mais na renovação da indústria plasmada em Hollywood. E isso é sempre bacana.

Obrigada a você que me acompanhou na cobertura no site do Notícias do Dia. Espero que no próximo ano possamos continuar juntos, seja por aqui ou por outra plataforma que surgir. Abaixo deixo a lista com todos os premiados. Para saber a minha opinião sobre cada entrega de prêmios, acesse este link – o mesmo divulgado anteriormente. Abraços e até a próxima.

 

  • Melhor Ator Coadjuvante: J.K. Simmons (Whiplash). Outros indicados: Robert Duvall, Ethan Hawke, Edward Norton, Mark Ruffalo.
  • Melhor Figurino: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: Inherent Vice, Into the Woods, Maleficent, Mr. Turner.
  • Melhor Maquiagem e Penteado: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: Foxcatcher, Guardians of the Galaxy.
  • Melhor Curta de Animação: Feast. Outros indicados: The Bigger Picture, The Dam Keeper, Me and My Moulton, A Single Life.
  • Melhor Animação: Big Hero 6. Outros indicados: The Boxtrolls, How to Train Your Dragon 2, Song of the Sea, The Tale of the Princess Kaguya.
  • Melhores Efeitos Visuais: Interstellar. Outros indicados: Dawn of the Planet of the Apes, Captain America: The Winter Soldier, Guardians of the Galaxy, X-Men: Days of Future Past.
  • Melhor Curta Dramático: The Phone Call. Outros indicados: Aya, Boogaloo and Graham, Butter Lamp, Parvaneh.
  • Melhor Curta Documentário: Crisis Hotline: Veterans Press 1. Outros indicados: Joanna, Our Curse, The Reaper, White Earth.
  • Melhor Documentário: CitizenFour. Outros indicados: Finding Vivian Maier, Last Days in Vietnam, The Salt of the Earth, Virunga.
  • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Ida. Outros indicados: Leviathan, Mandariinid, Timbuktu, Relatos Salvajes.
  • Melhor Mixagem de Som: Whiplash. Outros indicados: American Sniper, Birdman, Interstellar, Unbroken.
  • Melhor Edição de Som: American Sniper. Outros indicados: Birdman, The Hobbit: The Battle of the Five Armies, Interstellar, Unbroken.
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Patricia Arquette (Boyhood). Outras indicadas: Laura Dern, Keira Knightley, Emma Stone, Meryl Streep.
  • Melhor Fotografia: Birdman. Outros indicados: The Grand Hotel Budapest, Ida, Mr. Turner, Unbroken.
  • Melhor Edição: Whiplash. Outros indicados: American Sniper, Boyhood, The Grand Budapest Hotel, The Imitation Game.
  • Melhor Design de Produção: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: The Imitation Game, Interstellar, Into the Woods, Mr. Turner.
  • Melhor Trilha Sonora Original: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: The Imitation Game, Interstellar, Mr. Turner, The Theory of Everything.
  • Melhor Canção Original: Glory (Selma). Outras indicadas: Everything Is Awesome (The Lego Movie), Grateful (Beyound the Lights), I’m Not Gonna Miss You (Glen Campbell… I’ll Be Me), Lost Stars (Begin Again).
  • Melhor Roteiro Adaptado: The Imitation Game. Outros indicados: American Sniper, Inherent Vice, The Theory of Everything, Whiplash.
  • Melhor Roteiro Original: Birdman. Outros indicados: Boyhood, Foxcatcher, The Grand Budapest Hotel, Nightcrawler.
  • Melhor Diretor: Alejandro González Iñarritu (Birdman). Outros indicados: Richard Linklater, Bennett Miller, Wes Anderson, Morten Tyldum.
  • Melhor Atriz: Julianne Moore (Still Alice). Outras indicadas: Marion Cotillard, Felicity Jones, Rosamund Pike, Reese Whiterspoon.
  • Melhor Ator: Eddie Redmayne (The Theory of Everything). Outros indicados: Steve Carell, Bradley Cooper, Benedict Cumberbatch, Michael Keaton.
  • Melhor Filme: Birdman. Outros indicados: American Sniper, Boyhood, The Grand Budapest Hotel, The Imitation Game, Selma, The Theory of Everything, Whiplash.

 

 

 

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema europeu Cinema norte-americano Crítica de filme Documentário Filme premiado Movie Oscar 2015 Votações no blog

CitizenFour – Cidadãoquatro

Vale a pena fazer um trabalho alternativo e que rompe com as regras do jogo para mostrar a verdade por trás dos fatos suavizados pelo mainstream. Tanto isso é verdade que Edward Snowden procurou um blogueiro e uma documentarista alternativos e que vinham fazendo um trabalho sólido de denúncia de abusos do governo dos Estados Unidos para fazer a denúncia que abalou o mundo em 2013. CitizenFour conta os bastidores da boca no trombone de Snowden por uma das duas pessoas escolhidas por ele para falar das espionagens da NSA (National Security Agency, ou Agência de Segurança Nacional): a diretora Laura Poitras.

A HISTÓRIA: Começa com uma explicação da diretora. Ela diz que em 2006 foi colocada em uma lista secreta após ter feito um filme sobre a Guerra do Iraque. Nos anos seguintes, ela foi diversas vezes presa e interrogada nas fronteiras dos Estados Unidos. O filme seguinte dela foi sobre Guantánamo e a guerra contra o terror. Ela comenta que este é o terceiro filme da trilogia sobre a América após o 11/9.

Enquanto vemos a imagem de um túnel escuro com uma luz deslizando pelo teto, ouvimos a diretora narrando um e-mail que recebeu. Nele, um sujeito dizia que era funcionário do governo do mais alto nível da comunidade de inteligência, e que contatar com ela era de alto risco. Sugere que ela tome precauções de segurança antes deles continuarem a conversar. E termina assinando CitizenFour. Na cena seguinte, vemos a Glenn Greenwald no Rio de Janeiro, em sua residência em 2011, entrando ao vivo para falar de um contrassenso do presidente Barack Obama. Em breve, acompanharemos o encontro entre CitizenFour, Greenwald e Laura Poitras em Hong Kong.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já tenha assistido a CitizenFour): A única possibilidade de você nunca ter ouvido falar de Edward Snowden é se você viveu dentro de uma bolha no fundo do mar nos últimos dois anos. Desde que a primeira matéria de Gleen Greenwald sobre a espionagem em massa e global do governo dos Estados Unidos veio à tona, foi inevitável não ouvir falar deste assunto e, depois, de Snowden.

Sendo assim, CitizenFour não apresenta um personagem novo. Pelo contrário. O documentário da corajosa e elogiada diretora Laura Poitras explora parte dos nuances deste nome tão conhecido mundo afora nos últimos anos. Ver Snowden “mais de perto” e em momentos tão decisivos, como quando as primeiras matérias foram publicadas e começaram a repercutir, é o que este filme tem de mais interessante.

O jeito de Laura filmar é “naturalista”, ou seja, ela procura ter o mínimo de interferência possível no que está acontecendo. Mas como bem nos ensinou o diretor brasileiro Eduardo Coutinho, não existe documentário sem interferência de quem está por trás da câmera. Então é apenas uma ilusão a ideia que Laura tenta nos passar que ela está de forma “invisível” acompanhando tudo, sem muitas perguntas ou interferências de outros tipos. Isso fica evidente toda vez que Snowden comenta com Greenwald, especialmente, sobre algo que ele tinha conversado com Laura.

A diretora sabe, contudo, narrar uma história sem grandes interferências. Para isso, ela utiliza diferentes recursos. Lê e-mails que recebeu do CitizenFour, intercala cenas dos dias decisivos em que ela e Greenwald conversaram com Snowden, mostra parte do cotidiano de Greenwald, segue com Snowden mesmo quando o ex-advogado e articulista não estava mais no quarto já famoso de Hong Kong, e tempera tudo isso com cenas de outros personagens, como William Binney, um lendário cripto-matemático da NSA, e Ladar Levinson, fundador do serviço de correio eletrônico criptografado LAVABIT.

O filme perde um pouco porque já sabemos muito sobre as denúncias de Snowden, mas ganha pontos pela forma da narrativa de Laura. Ela vai nos situando sobre como tudo aconteceu. O trabalho que ela fez, assim como Gleen Greenwald, acaba atraindo o interesse de Snowden. Se Laura não tivesse feito os documentários My Country, My Country e The Oath e tivesse sido perseguida pelo governo dos Estados Unidos por causa disso, Snowden não a teria procurado após sentir dificuldade de manter um contato seguro com Greenwald.

Por coincidência, ou não, Laura era amiga de Greenwald. No livro “No Place to Hide” (ou “Sem Lugar para se Esconder”), lançado por Greenwald em 2014, ele conta como recebeu e-mails assinados por Cincinnatus, que dizia ter informações importantes, mas que só poderia manter um contato mais aprofundado se o articulista conseguisse uma conexão segura – o que ele não tinha, e de como acabou conhecendo a pessoa com quem ele se correspondeu desde o final de 2012 em poucas ocasiões por intermédio de Laura.

Isso, infelizmente, não fica claro no filme. Este é um problema de CitizenFour. O documentário não situa o espectador sobre a amizade de Greenwald com Laura e muito menos contextualiza um pouco melhor a importância dele para as denúncias envolvendo os exageros praticados pelo governo dos Estados Unidos especialmente após o 11 de Setembro. Esse é um ponto fraco do filme. A falta de contextualização é sempre um problema, especialmente para documentários.

Mas a narrativa sobre como tudo começou e foi se desenvolvendo é perfeita. Ficamos sabendo as razões de Laura ter sido escolhida por Snowden, acompanhamos o primeiro e-mail entre eles e sabemos, por exemplo, que a conversa entre o delator e Greenwald só não avançou por uma falta de segurança na comunicação. A parte mais interessante e de relevância histórica está nos dias em que o trio se encontrou no hotel de Hong Kong.

O primeiro encontro foi no dia 3 de junho de 2013. Durante oito dias Snowden se encontrou com Laura, Greenwald e durante parte deste tempo, com o jornalista investigativo do The Guardian Ewen MacAskill para tentar esmiuçar para eles os documentos ultra secretos que ele estava divulgando, explicar as suas intenções e motivações.

É fascinante ouvir Snowden falar sobre o desejo dele que a internet voltasse a ser livre, e que as pessoas tivessem a tranquilidade de serem e pensarem o que elas quisessem sem o medo de que algo de ruim poderia acontecer com elas simplesmente porque um determinado governo não quisesse que elas pensassem de determinada forma ou defendessem certas ideias.

Além de documento histórico, CitizenFour nos mostra um lado diferente de Snowden. Fica claro como ele sabia que o pior poderia acontecer com ele, após ele fazer contato com Greenwald e Laura, mas que ele não se importava com isso. Interessante ver como ele é um sujeito comum, apesar de ter uma inteligência fora do comum. Em certo momento, quando se sentiu mais frágil, ele se olhou no espelho e preocupou-se com a aparência. Como qualquer pessoa faria em algum momento da vida.

Também interessante ver como a reação de Snowden muda com o passar do tempo. No início, ele está tranquilo e bem seguro do que está fazendo. Diz que sabe que o pior pode acontecer com ele, mas está confiante de estar fazendo o que é certo – denunciar a vigilância e espionagem global do governo dos Estados Unidos, com potencial de monitorar todas as comunicações e localização de qualquer pessoa mundo afora. Até que as denúncias começam a aparecer, o assunto ganha repercussão, a namorada dele é encurralada, a família questionada, e ele já não está tão seguro assim.

Bacana essa parte. Afinal, nós temos coragem de fazer o que é necessário, mesmo que o pior aconteça com a gente. Mas quando vemos pessoas próximas sendo ameaçadas, essa segurança inicial é abalada. Nos sentimos responsáveis, culpados, e fragilizados por causa disso. Snowden passa por isso. Mas segue em frente. E é especialmente curioso que após o assunto vir à tona, ele percebe a ameaça real e já não está tão tranquilo sobre o que irá acontecer. O que comprova que uma coisa é idealizarmos uma situação, outra bem diferente é vivenciarmos ela.

Laura nos dá um documento importante não apenas por contribuir na narrativa dos fatos, mas também por mostrar um Snowden que ninguém conhecia. Interessante também como ele fez questão das primeiras notícias darem conta dos fatos e não apresentarem ele, o denunciante. Em mais de uma ocasião ele reforça que ele não era a notícia. Mas em certo momento Greenwald e ele falam sobre ele aparecer, ter a história contada, e de como isso poderia ser uma forma de contar os fatos da maneira correta, inclusive protegendo ele – o que não ocorreria se a revelação da identidade dele fosse feita pelo governo dos Estados Unidos, por exemplo.

Desta forma, CitizenFour nos dá algumas boas lições sobre o poder da informação e do jornalismo. Quando um trabalho é feito de forma séria, comprometida, e com as informações sendo dadas sempre em primeira mão, quem está divulgando estes dados tem o poder na mão. Por mais que as pessoas da NSA e do governo dos Estados Unidos seguiram mentindo por bastante tempo, negando a vigilância feita a nível global, os fatos revelados por Snowden comprovavam o contrário. Ele, um sujeito comum, aliado com Greenwald e outros jornalistas, conseguiu mudar o poder de mãos.

Pela forma com que esta produção é narrada, com um pouco de ajuda da trilha sonora marcante que acompanha a história, CitizenFour parece um filme de espiões. E não deixa de ser. Ainda que Snowden nunca trabalhou para governos “inimigos” dos Estados Unidos, mas apenas quis alertar o mundo sobre a vigilância individual e que acaba com a privacidade das pessoas. Do início ao fim o espectador sente que está acompanhando uma história de espionagem e contra-espionagem.

Bem narrado, este filme ajuda a dar um quadro mais amplo sobre as discussões envolvendo os temas levantados por Snowden – a diretora mostra palestras e audiências sobre o tema que ocorreram paralelamente ao interesse de Snowden de colocar a boca no trombone e pouco depois dele ter feito isso. O Brasil aparece em alguma cenas, tanto por causa da residência de Greenwald no Rio quanto por matérias que foram publicadas por aqui e audiências sobre o tema feitas no Congresso. Laura, claro, sempre está acompanhando Greenwald e Snowden, os personagens centrais desta história.

O problema desta produção, além dela não provocar tanta surpresa ou arrebatamento porque já sabemos boa parte da história, é que a diretora nem sempre contextualiza os personagens para o espectador. Além de não sabermos muito sobre Greenwald, não entendemos muito bem a aparição de outras figuras em cena. Como Jeremy Scahill. Quem acompanha o jornalismo norte-americano sabe quem é Scahill. Especializado em assuntos envolvendo a segurança nacional dos Estados Unidos, Scahill é um jornalista investigativo. Conheci ele por causa do filme Dirty Wars (comentado aqui no blog), que foi indicado como Melhor Documentário no ano passado.

Mas se você não assistiu a Dirty Wars ou acompanha as denúncias de Scahill na imprensa norte-americana, não vai entender nada quando ele aparece em cena em CitizenFour. Descontado este e outros pequenos problemas, o filme é marcante e será lembrado no futuro, com certeza. Especialmente pelo conteúdo – ainda que a forma/narrativa também seja interessante.

O mais incrível, e que fica como mensagem nesta história, é como o governo dos Estados Unidos usou como desculpa a segurança nacional para infringir leis do próprio país e leis de consenso mundial. Utilizando a tecnologia, presente em quase todas as partes, o governo norte-americano tem o potencial de vigiar qualquer pessoa, incluindo você e eu.

O mais grave, contudo, é essa vigilância envolver governantes e empresas estratégicas de diferentes países. Parece argumento de ficção científica, mas é real essa invasão de privacidade. Filme importante e que agrega elementos novos sobre a história de Snowden. Envolvente, documento histórico, só peca um pouco pela contextualização.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro projeto com o qual a diretora Laura Poitras se envolveu foi a série de TV Split Screen, de 1997, quando ela atuou como assistente de direção. Ela atuaria na mesma posição no ano seguinte no documentário Free Tibet, quando ela também se envolveu como produtora associada. Como diretora, o primeiro projeto foi Flag Wars, de 2003, quando Laura atuou como co-diretora. A estreia na direção sozinha foi feita três anos depois, com My Country, My Country, indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2007.

Em 2010, Laura lançou o segundo documentário solo: The Oath. Depois, ela participaria com dois episódios na série de TV P.O.V. – os dois fruto dos documentários anteriores, um exibido em 2006 e, o outro, em 2010. Em 2011 e 2013 ela dirigiu dois curtas, O’Say Can You See e Death of a Prisoner, respectivamente. No ano passado foi a vez dela lançar CitizenFour.

Com o documentário sobre Edward Snowden a diretora chega a segunda indicação ao Oscar. As bolsas de apostas inglesas apontam que, desta vez, ela deve ganhar a estatueta dourada. Veremos. Até o momento, a diretora acumula 26 prêmios recebidos e outras 19 indicações.

Um nome me chamou a atenção logo nos primeiros minutos do filme: Steven Soderbergh. Ele é um dos produtores executivos do filme. A produção propriamente dita é dividida entre Laura Poitras, Dirk Wilutzky e Mathilde Bonnefoy. Mas é bacana ver Soderbergh como um dos apoiadores do projeto. Por estas e por outras que eu gosto dele.

A direção de fotografia de CitizenFour é feita por Laura Poitras – quase todos os documentários tem o diretor como diretor de fotografia também -, Kirsten Johnson, Trevor Paglen e Katy Scoggin. A edição ficou por conta de Mathilde Bonnefoy.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a NSA, uma introdução pode ser feita por este artigo da Wikipédia. Ao assistir a esse documentário, fiquei pensando: “Não ouvimos mais falar, nos últimos meses, de Snowden. Como ele estará?”. Pois bem, procurando um pouco a respeito, fiquei sabendo que seguem saindo matérias relacionadas com dados que ele divulgou, como esta em que documentos revelados por ele demonstraram que os serviços de informação dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha invadiram a rede de computadores da maior fabricante mundial de chip de celulares, a holandesa Gemalto. Essa notícia é de ontem, dia 20 de fevereiro de 2015. Snowden segue “causando”.

Depois de muita confusão sobre o asilo político para Snowden – inclusive foi feita uma campanha para ele ser aceito pelo Brasil -, ele foi recebido pela Rússia, como bem explica o filme de Laura. Mas a autorização dos russos era por um ano. O que aconteceu depois. Segundo esta matéria, o governo russo autorizou Snowden a permanecer por mais três anos abrigado no país. Como essa permissão foi dada em agosto do ano passado, ele tem pouso garantido por lá pelo menos até 2017. Menos mal que o mundo não tem apenas uma nação predominante. Nestas horas, acho bom China e Rússia, além de outros países, conseguirem colocar um pouco de equilíbrio na geopolítica mundial.

Quais nomes foram fundamentais nas discussões mundo afora nos últimos anos? Para mim, além de Edward Snowden, só mesmo o Papa Francisco. Pois bem, aparentemente os dois vão concorrer ao Nobel da Paz em 2015. Pelo menos é isso o que sinaliza esta reportagem. Se isso realmente for confirmado, vai ser interessante a definição sobre qual dos dois teve mais importância para a Paz mundo afora. O que vocês acham? Se eu tivesse que votar, eu teria sérias dúvidas em quem votar.

CitizenFour estreou em outubro de 2014 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros 10 festivais e eventos relacionados com filmes documentários. Nesta trajetória a produção recebeu 39 prêmios e outras 19 indicações – incluindo a indicação de Melhor Documentário no Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o BAFTA de Melhor Documentário; para o prêmio de melhor direção em documentário dado pelo Directors Guild of America; para o prêmio de Melhor Filme dado pela Associação Internacional de Documentaristas; para o prêmio de Melhor Filme de Não-Ficção dado pelo Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos; e para o prêmio de “cineasta que faz a diferença” no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Esta produção foi rodada em Hong Kong, em Berlim, Bruxelas, Londres, Rio de Janeiro, Moscou e nos Estados Unidos. Ou seja, Laura Poitras deu uma boa volta ao mundo para fazer este documentário. E ela migra de um local para o outro com muita suavidade.

Agora, uma curiosidade relacionada com Edward Snowden: ele será interpretado pelo ator Joseph Gordon Levitt na cinebiografia que será dirigida por Oliver Stone – outro diretor com posições políticas bem claras. O que eu admiro.

Não encontrei informações sobre os custos de CitizenFour, mas sim sobre o resultado dele nas bilheterias. De acordo com o site Box Office Mojo, este filme conseguiu pouco mais de US$ 2,6 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 202,3 mil no restante dos mercados em que já estreou.

Na verdade, o filme estreou de forma limitada (em poucos cinemas) nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá e na Austrália, e entrou em cartaz em poucos países, como Alemanha, Dinamarca e Áustria. Ou seja: ele ainda precisa estrear na maioria dos lugares. Isso explica a bilheteria ainda baixa. CitizenFour tem previsão de estrear em março na França e na Espanha. Não há previsão ainda para o Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme de Laura Poitras. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 textos positivos e apenas três negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,3 – o nível da aprovação e a nota são ótimos levando em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução da Alemanha com os Estados Unidos. Sendo assim, ele entra na lista de produções pedidas por vocês, caros leitores, aqui no blog.

CONCLUSÃO: A história que Edward Snowden contou, todos conhecem. Mas parte dos bastidores dos contatos dele com os porta-vozes da novidade que ele veio trazer, de que o governo dos Estados Unidos através da NSA armazena informações da comunicação de pessoas do mundo inteiro, incluindo aí líderes de outros países, é apresentada neste CitizenFour. A outra parte da história pode ser conferida no livro de Gleen Greenwald.

Este documentário acerta ao nos mostrar os bastidores de parte das negociações e das entrevistas, assim como ajuda a desmistificar a figura séria de Snowden. Mas ele não chega a arrebatar, ou a nos revelar fatos muito surpreendentes sobre o personagem central. É bom, mas não é excepcional, apesar de ser um documento importante e que fecha uma trilogia da diretora.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Nas bolsas de apostas do Reino Unido, não tem para ninguém. CitizenFour é, disparado, o favorito para ganhar a estatueta dourada na categoria Melhor Documentário este ano. Os mesmos apostadores dão como certa a vitória de Birdman (comentado aqui) como Melhor Filme. Caso eles estejam certos nestas duas categorias, o Oscar vai dar passos largos no caminho da ousadia.

Começando por Birdman: o filme de Iñarritu atira para todos os lados ao fazer uma crítica geral ao mainstream. O filme ataca do cinemão norte-americano – simbolizado pelos filmes de heróis – até a Broadway e a parada de sucessos musical dos Estados Unidos. Ser nove vezes indicado ao Oscar este ano já era um grande feito para o filme. Se ele sair com as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor, o feito terá sido memorável.

CitizenFour vai na mesma direção. Primeiro porque o filme trata como herói um dos maiores inimigos dos Estados Unidos dos últimos anos. Edward Snowden escancarou a vigilância dos cidadãos dos Estados Unidos e do resto do mundo, virando um dos principais assuntos de 2013.

Se ganhar como Melhor Documentário, este filme não apenas consagrará ainda mais Snowden, mas também a diretora Laura Poitras que fez outras duas produções corajosas sobre a América após o 11/9. Por tudo isso, acredito que seria justo o filme ganhar. Isso iria coroar o trabalho corajoso da diretora e também a ousadia de Snowden.