Juliet, Naked – Juliet, Nua e Crua

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Geralmente a gente leva aquela vidinha mais ou menos. E nos acostumamos com esse “mais ou menos”. Mas o que nos desagrada na nossa vidinha “assim, assim” nos tira a paz. Isso pode durar muito tempo. A vida inteira, muitas vezes. Ou pode chegar um dia em que um fato inesperado nos faz querer mudar. Juliet, Naked segue a onda da obra do escritor Nick Hornby na sua busca da relação das pessoas com a música e vice-versa mas avança alguns passos em direção à maturidade. Um filme com doses certas de humor, romance, drama e cinismo. Uma bela pedida.

A HISTÓRIA: Em um vídeo gravado para o seu site, Duncan Thomson (Chris O’Dowd) fala um pouco mais sobre a aura e as “lendas” que envolvem o seu ídolo máximo, o sumido “astro” do rock alternativo Tucker Crowe (Ethan Hawke). Nesse vídeo, feito em casa, Duncan relembra as linhas gerais da trajetória de Tucker e comenta como ele fez uma “obra-prima” em 1993 antes de “desaparecer”. Muitos anos depois, em 2014, teriam feito uma foto dele em uma fazenda, mas ninguém comprovou se a imagem seria do artista. Corta.

Em uma pequena cidade do litoral do Reino Unido, Annie Platt (Rose Byrne) mantém o legado do pai no museu da cidade. Agora, ela está com o desafio de organizar uma mostra que vai lembrar um Verão dos anos 1960 na cidade. Ela passa os dias entre o trabalho no museu, a rotina de um relacionamento morno com Duncan e desempenhando o papel de confidente da irmã mais nova, Katie (Alex Clatworthy).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu Juliet, Naked): Como manda o meu figurino, eu não sabia praticamente nada sobre Juliet, Naked antes de entrar no cinema e começar a assistir ao filme. Mas, conforme ele foi se desenvolvendo, me pareceu que aquele estilo e aquela assinatura da produção, especialmente do roteiro, me pareciam familiares.

Então não foi surpresa nenhuma, pelo contrário, fez muito sentido, depois, saber que o roteiro de Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins foi escrito tendo uma obra de Nick Hornby como fonte. Juliet, Naked tem o estilo de Hornby do primeiro ao último minuto. Assim, para entender bem este Juliet, Naked, o ideal seria antes visitar (ou revisitar) o filme High Fidelity – que eu assisti antes de criar este blog, por isso esse o texto sobre ele não poderá ser encontrado por aqui.

High Fidelity foi o filme que fez Hornby ser conhecido do grande público. Depois, dá para entender um bocado da “pegada” do autor com a produção About a Boy – que eu assisti também antes de criar o blog. O que estes filmes, baseados em livros de Hornby, têm em comum e que é importante conhecer e/ou entender antes de assistir a Juliet, Naked? Nas duas produções que “lançaram” Hornby para o grande público nós temos protagonistas em busca de sua própria maturidade.

Já foi comprovado, cientificamente, que os homens amadurecem, em geral, mais tarde que as mulheres. Esse amadurecimento mais tardio é sempre confrontado pelas responsabilidades da vida adulta versus os gostos ainda juvenis que muitos homens preservam pelo máximo de tempo possível. Assim, você pode ganhar muita responsabilidade conforme os anos passam, mas nem sempre você consegue lidar bem com toda essa responsabilidade e “cobrança”.

Mais uma vez, em Juliet, Naked, vemos a dois homens relevantes para a história que tem dificuldade de lidar com alguns aspectos mais “adultos” das suas vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Professor, Duncan alimenta uma verdadeira “paixão” pela música de Tucker Crowe. Ele é o típico “fanático” pelo artista, aquele cara que acredita que sabe tudo sobre o seu ídolo e o defende com unhas e dentes – mesmo não sendo muito racional (ou nada racional?) nesta defesa.

Ao mesmo tempo que dedica apenas o tempo necessário para a sua profissão de professor e igualmente apenas a atenção mínima para a namorada que vive com ele, Duncan dedica grande parte da sua paixão para a música de Tucker e para o site que criou sobre o artista. Cheio de razão sobre o que acredita saber sobre Tucker, Duncan fantasia o ídolo e a vida que ele possa ter seguido após ter optado pelo “anonimato”.

Nessa parte, tanto Hornby quanto os roteiristas de Juliet, Naked fazem uma ponderação interessante sobre as nossas paixões e como elas nos cegam. Duncan coloca tanta energia no seu “amor” pelo ídolo que, no dia em que ele o encontra com a ex-namorada na praia, ele é incapaz de identificar o objeto da sua paixão. Depois, no jantar cheio de constrangimento que os três e mais o filho de Tucker tem na casa de Annie, fica evidente o descolamento das impressões de Duncan sobre o ídolo e a realidade.

Nesse sentido, Juliet, Naked se revela um filme muito interessante. Nos faz pensar sobre o quanto o nosso amor, paixão ou admiração mesmo para outra pessoa (ou obra) nos torna cegos ou, no mínimo, míopes para a realidade sobre aquela pessoa (ou obra). De fato isso acontece, e com maior frequência do que gostaríamos de admitir. É preciso racionalizar e usar a nossa inteligência para eliminar a névoa e a vista nublada, para enxergar além da “cortina de fumaça”.

Mas para isso acontecer, é preciso ter contato com a realidade, nua e crua, e querer enxergar. Há quem prefira a vista nublada e a paixão cega, mesmo sabendo o que elas representam. Sempre é uma questão de escolha individual – e intransferível, portanto. Duncan, está claro conforme a produção avança, é um sujeito afeito e apreciador de miopia. Ele se deixa levar pelas emoções – ainda que seja tão ruim em administrá-las na prática. Lhe falta, evidentemente, uma maior maturidade emocional.

Isso é comprovado com o final de Juliet, Naked. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder definitivamente a ex-namorada para o ex-ídolo, ele não disfarça a dor de cotovelo que passou a sentir utilizando a internet para “atacar” o novo trabalho de Tucker. Quantas decisões erradas tomamos por que nos sentimos traídos ou decepcionados? Esses sentimentos nunca são bons conselheiros.

Enquanto Duncan procura, mas parece não achar muito a maturidade emocional, temos outra figura em uma busca por maturidade nesta produção: Tucker. Depois de fazer um relativo sucesso como cantor e compositor, ele se afasta da música e da exposição pública e pula de relacionamento em relacionamento, colecionando não apenas ex-mulheres ou ex-parceiras, mas também diversos filhos.

Quando Duncan recebe a primeira gravação do disco de Tucker que ele ama e publica uma crônica a respeito no seu site, a pouco valorizada – e não tão míope – Annie resolve publicar um comentário dando um contraponto para toda aquela “rasgação de seda”. Ao ver um comentário mais ácido, Tucker entra em contato com a usuária que o postou. E assim ele começa a se corresponder com Annie.

Nesse sentido, Juliet, Naked explora muito bem as possibilidades de contato e de interação cheios de significado que a tecnologia da internet nos trouxe. Como é o caso deste blog mesmo, onde tanta gente boa fala sobre cinema e acaba trocando impressões sobre os filmes. Sempre é possível, nestes locais, encontrar pessoas com grande afinidade com a gente – mais até do que algumas pessoas próximas, muitas vezes.

Justamente esse potencial da internet que acaba sendo um elemento determinante para a história de Annie e de Tucker. Para surpresa dela, que não “endeusa” o artista como o namorado, Tucker acaba se revelando um sujeito realmente interessante. E atento, que lhe dá ouvidos e atenção, algo que ela não recebe em casa.

Juliet, Naked também entra, de forma bastante discreta, em outro tema bastante presente nos nossos dias: o que é, afinal, traição? Annie esconde de Duncan que ela está se correspondendo com o ídolo-mor dele. Não apenas trocando e-mails e mensagens, mas confidências – como a declaração de que ela “desperdiçou” os seus últimos 15 anos de vida. Annie não se sente orgulhosa de esconder isso do namorado, mas também não vê como falar a verdade para ele.

Como a vida tem as suas ironias, Duncan “mete a pata” e faz besteira traindo Annie com uma nova colega de colégio, Gina (Denise Gough). O “motivador” dele em relação à ela é porque Gina parece compartilhar da mesma emoção que ele sente ao escutar à primeira gravação do disco de Tucker.

Como acontece com muitos homens imaturos, Duncan “se deixa levar” e tem uma noite de sexo que não significa “nada” com Gina. Mas isso é suficiente para Annie ter a desculpa perfeita para terminar com aquele relacionamento morno e mais ou menos – sobre o qual ela já estava farta há algum tempo.

Depois, o que é um clássico também, Duncan se arrepende e tenta voltar com Annie. Sem sucesso, é claro, porque Annie já está cansada da “vidinha mais ou menos” que vinha levando e resolve correr atrás de algo que lhe faça mais sentido. Ufa! Ainda bem! Tantas mulheres abrem mão de suas próprias vontades, desejos e do que lhes traz mais sentido por causa de comodismo… ainda bem que esse não foi o caso da protagonista de Juliet, Naked.

Assim, de forma bem natural, esse filme nos faz refletir de que a vida está cheia de surpresas e de oportunidades. Por causa de um comentário franco que fez no site do namorado, Annie acabou se aproximando de um ex-ídolo rockeiro sobre o qual ela não tinha nenhuma atração em particular. A vida está cheia destas surpresas e oportunidades. O que fazemos com elas é o que realmente interessa, no final. Quantas vezes você teve uma ótima oportunidade pela frente mas a deixou passar?

Tucker estava “confortável” morando na garagem nos fundos da propriedade da sua última namorada e cuidando do filho Jackson (Azhy Robertson). Depois de errar tanto com suas ex-mulheres/namoradas e de não realmente buscar ser um bom pai, ele quer fazer diferente agora – assim, esse filme mostra um homem com dificuldade para amadurecer realmente procurando por esta mudança na sua vida.

Seus planos iam muito bem, até que Annie apareceu na sua vida. Apesar de estar em uma situação “confortável”, Tucker é quem toma a iniciativa de uma aproximação. Quando eles realmente se aproximam, Annie vê que a vida do novo pretendente é um verdadeiro caos. Ela poderia ter recuado, agradecido a oportunidade e seguido em outra direção. Mas ambos já tinham se modificado, um ao outro, e resolveram não fechar os olhos para isso.

Mudanças maravilhosas podem acontecer com as pessoas – e com as sociedades, enquanto coletivo de pessoas – quando as pessoas estão dispostas para que isso aconteça. Mas é preciso disposição, sem dúvida. É preciso sair da zona de conforto, da “vidinha mais ou menos” e da segurança do que já conhecemos. É preciso se arriscar, sabendo que há chances de dar certo ou de dar errado. E tudo bem.

Pensando no que pode ter atraído tanto Annie em Tucker, acho que foi a grande e incurável honestidade dele. Em nenhum momento Tucker quis disfarçar os seus defeitos ou parecer algo que ele não era. Essa franqueza, tão difícil de encontrar por aí, assim como o olhar cuidadoso e realmente interessado de Tucker, foram “fatais” para Annie. Realmente é como achar uma agulha em um palheiro.

Para uma pessoa que vive um bocado na zona de conforto mas que não está cega para as mudanças e para as possibilidades que a vida sempre nos apresenta, Juliet, Naked é uma brisa de ânimo e de esperança. Um filme sobre a busca da felicidade, de fazer melhor na próxima vez e de maior maturidade. Uma brisa animadora frente a tanto caos e cegueira. Um filme sobre música e o amor baseado em princípios que realmente valem a pena. Um belo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto de produções com muitos diálogos e com bastante conteúdo. Esse é o caso deste Juliet, Naked. Algo bastante típico também do escritor Nick Hornby. O autor, assim como os roteiristas desta produção, exploram muito bem a construção dos personagens. Não apenas nos diálogos deles com outros personagens mas, sobretudo, no diálogo deles “interno”. Vemos isso coloado em Juliet, Naked de forma natural, sem forçar a barra e em momentos pontuais.

O roteiro de Juliet, Naked, vocês podem imaginar, é um dos pontos fortes do filme. Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins respeitam o estilo de Nick Hornby e conseguem construir um roteiro envolvente e que mergulha com cuidado e verdadeira “admiração” nos personagens centrais da história. Há diálogos deliciosos e engraçados espalhados aqui e ali, assim como momentos para o drama e o romance. Uma crônica sobre pessoas comuns e os nossos tempos de comunicação intermediada por computadores e tudo que isso significa de filtros e de possibilidades.

Além do roteiro acima da média, Juliet, Naked apresenta uma direção de Jesse Peretz bastante coerente com a história. O diretor, com muitos trabalhos na direção de curtas e de séries de TV e relativamente poucos trabalhos na direção de longas, valoriza bem o trabalho dos atores e os locais em que eles vivem e/ou transitam. Essencialmente, o trabalho de Peretz não tem nenhum grande “achado” de ângulo ou ritmo de câmera, mas ele faz um trabalho competente de valorização das interpretações dos atores.

Falando em atores, esse é um outro ponto forte de Juliet, Naked. Rose Byrne e Ethan Hawke estão simplesmente incríveis em seus papéis. Especialmente Hawke, que parece se encaixar perfeitamente no papel de um “ex-ídolo” jovem, belo e admirado que acaba se afastando de tudo e de todos e passa a ter quase uma “ojeriza” à fama. Hawke envelheceu e não é mais aquele garoto jovem e belo como antes. Então ele se encaixa perfeitamente no papel. Hawke e Byrne são simpáticos e “iluminam” a tela, além de fazerem uma bela parceria em cena. Gostei muito do trabalho deles e da construção de seus personagens.

Para mim, Hawke e Byrne roubam as cenas sempre que aparecem. Apesar disso, há outros nomes competentes e que fazem um belo trabalho em Juliet, Naked. Vale citar, em especial, o bom trabalho de Chris O’Dowd como Duncan, um cara de meia idade com algumas paixões e com pouca capacidade de desenvolver relações reais; Alex Clatworthy muito bem com a irmã mais nova, lésbica e “pegadora” da protagonista, Katie, um contraponto interessante para Annie; Denise Gough bem em um papel menor e de coadjuvante, realmente, como Gina, a professora que dá em cima do colega Duncan; Azhy Robertson muito bem como Jackson, o filho mais novo de Tucker e a sua esperança de ser “um bom pai”; e Ayoola Smart como Lizzie, uma das filhas de Tucker que procura o pai quando está grávida.

Além destes nomes, que tem um destaque maior na trama, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Lily Newmark como Carly, uma das namoradas de Katie; Phil Davis como o caricatural e um bocado “sem noção” prefeito de cidade pequena Terry Barton; Eleanor Matsuura como Cat, a última ex-namorada de Tucker – e dona da propriedade onde ele mora nos fundos da residência; Florence Keith-Roach como Caroline e Megan Dodds como outras ex-mulheres de Tucker – elas são mães, respectivamente, de Lizzi e dos gêmeos Zak (Thomas Gray) e Jesse (Brodie Petrie), todos filhos de Tucker.

Entre os aspectos do filme, além do saboroso e interessante roteiro do trio Peretz, Taylor e Jenkins e da direção firme e coerente de Peretz, vale destacar a direção de fotografia de Remi Adefarasin; a edição de Sabine Hoffman e de Robert Nassau; a trilha sonora de Nathan Larson; o design de produção de Sarah Finlay; a direção de arte de Caroline Barclay; a decoração de set de Ellie Pash e os figurinos de Lindsay Pugh.

Ainda que os filmes mais significativos baseados na obra de Nick Hornby não tenham sido comentados aqui no blog – porque eles são anteriores à criação deste espaço -, tenho publicados no site duas críticas de filmes que contaram com o roteiro de Hornby. Vocês podem conferir por aqui a crítica de An Education e, neste link, a crítica de Brooklyn. Não são os melhores trabalhos dele, mas os dois filmes são interessantes.

Juliet, Naked estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de Sydney, de Zurique e do American Film Festival. Nessa trajetória de festivais, ele foi indicado em uma categoria mas não ganhou prêmio algum.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Rose Byrne estava grávida de seis meses quando Juliet, Naked foi filmado. Para esconder essa gravidez, o diretor optou por planos de câmera inteligentes, como takes de médio e grande plano, e pela colocação de bolsas e notebooks na frente da barriga da atriz para que a gravidez não aparecesse na tela.

O escritor Nick Hornby faz uma ponta no filme. Ele aparece ao lado da atriz Rose Byrne na sequência no museu na qual Tucker Crowe canta a música “Waterloo Sunset”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 96 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,9. No site Metacritic, Juliet, Naked recebeu o “metascore” 67, fruto de 20 críticas positivas e 12 medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Juliet, Naked fez pouco mais de US$ 3,4 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos.

Juliet, Naked é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: A energia que nós dedicamos a alguns aspectos da nossa vida nem sempre é proporcional ao quanto aquilo vale a pena realmente. Muitas vezes, não nos dedicamos o quanto deveríamos para a pessoa que está ao nosso lado, gastando aquela energia com nossos gostos pessoais. Juliet, Naked segue a linha de Nick Hornby de falar de encantamento, de paixão, de amor e de música, mas com alguns toques maiores de autocrítica, cinismo e compaixão com seus personagens. Mais um filme interessante e divertido com a marca de Hornby e com ótimos atores em cena. Porque vale falar de música, de amor e da vida de gente comum. Boa pedida para quem gosta do gênero.

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First Reformed – No Coração da Escuridão

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As nossas escolhas nem sempre são óbvias. Ainda que seja verdade que muito do que fazemos, no dia a dia, seja previsível, tantas outras escolhas fogem do que poderia ser considerado como “evidente”. First Reformed trata sobre o que realmente nos move, e sobre motivações escondidas por trás de atos algumas vezes incompreensíveis para os demais. Nem tudo na vida tem explicação, por mais que nos agarremos na razão ou na fé. Ou até tudo tem explicação, mas ela nem sempre está ao nosso alcance. Estes são alguns dos assuntos deste filme.

A HISTÓRIA: Lentamente, a câmera vais e aproximando de uma igreja branca e simples. Em volta desta igreja, apenas algumas árvores e arbustos. Em uma placa, as informações sobre o local: Primeira Igreja Reformada de Snowbridge, Nova York. Planejada em 1767, construída em 1801 por colonos da Friesland Oeste, liderados pelo pastor Wortendyk, é a mais antiga igreja em atividade no Condado de Albany.

Atual líder dessa igreja histórica, o pastor Toller (Ethan Hawke) comenta que decidiu começar a escrever um diário. Ele escreve isso em um caderno, onde começará a relatar as suas experiências e reminiscências. Ele diz que o objetivo é registrar em palavras os pensamentos dele e os acontecimentos de seu dia a dia de forma objetiva. O pastor Toller afirma: “Quando se escreve sobre si, não se deve mostrar misericórdia”. A ideia dele é manter o diário por um ano. Mas muitos eventos vão acontecer antes desse prazo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Reformed): Enquanto poucas opções de filmes me chamam a atenção nos cinemas, eu vou seguindo com a minha lista de filmes que foram apontados por especialistas como alguns dos melhores do ano e com a minha “revisita”/redescoberta de clássicos do cinema. First Reformed faz parte da primeira categoria, é claro.

Inicialmente, achei a proposta do filme bastante interessante. Acredito que todos, independente da fé ou da falta de fé que tenham, têm uma certa curiosidade sobre como é a vida dos padres e pastores. O que eles fazem quando eles não estão em seu “grande momento” de ministrar missas e celebrações? Nem sempre lembramos, mas eles são pessoas comuns, homens que tem necessidades fisiológicas e capacidade física e mental limitada como qualquer outro homem que já viveu sobre a Terra.

Apesar de serem feitos de carne e osso, órgãos vitais e instintos, como todos nós, esses “homens da Igreja” são investidos de um grande diferencial: para quem tem fé e segue a religião cristã, eles são diferenciados porque são os “porta-vozes” de Deus. Eles se prepararam por diversos anos para entender a Palavra de Deus como ninguém e, ao dedicarem a sua vida para a sua religião, eles estão dedicando os seus dias para Deus e para as suas comunidades.

Para quem segue uma religião cristã, esses padres e pastores são conselheiros e pessoas para quem eles podem pedir ajuda quando necessário. Ainda que tudo isso seja verdade, também é verdade que estes líderes espirituais e comunitários também tem as suas necessidades, acertos e falhas, como qualquer outro ser humano. E as pessoas têm curiosidade para saber o que acontece com eles fora das situações mais “comuns” e evidentes e o que eles realmente pensam além das pregações.

Admito que eu sou uma destas pessoas. Que tem curiosidade sobre como é a vida, os sentimentos e pensamentos dos padres e pastores. First Reformed aparece para responder parte destas dúvidas. O protagonista deste filme, o pastor Toller, teve uma história complicada antes de fazer parte da Igreja. Mas, como ele comenta com Michael (Philip Ettinger), um ativista que vai ser pai e que não quer colocar uma criança nesse mundo em vias de destruição, após perder o filho único na Guerra do Iraque, ele foi chamado pelo pastor Jeffers (Cedrid the Entertainer) para atuar na First Reformed.

A igreja em que ele atua tem importância histórica e está perto de completar 250 anos de atividades quando Toller começa o seu próprio diário e começamos a acompanhá-lo nessa produção com roteiro e direção de Paul Schrader. No dia a dia como pastor, além de presidir algumas celebrações na igreja histórica, ele faz visitas guiadas explicando um pouco da história do local para interessados, apresenta “souvenirs” da igreja e participa das atividades da Abundant Life, igreja de Jeffers.

Faz parte do cotidiano do protagonista o trabalho de aconselhamento de pessoas da comunidade e o seu envolvimento com os jovens da Abundant Life. Logo no início desta produção, a jovem Mary (Amanda Seyfried) procura o pastor Toller pedindo ajuda. Ela quer que ele converse com Michael, o seu marido até há pouco desempregado, depressivo e que não deseja que o filho deles nasça. O exemplo do casal é bastante ilustrativo sobre os desafios que um pastor/padre tem que enfrentar no seu dia a dia.

O roteiro de Schrader é inteligente ao mostrar, logo no início, as diferentes situações que um líder espiritual e comunitário enfrente no seu dia a dia. Desde o início desta produção, o nosso protagonista divide os seus dias entre a burocracia de preparar as comemorações da data festiva da First Reformed e o aconselhamento do casal Michael e Mary. Enquanto interesses “mundanos”, econômicos e políticos envolvem o primeiro tema, no segundo tema temos dilemas espirituais e existenciais – inclusive uma questão de vida e morte.

Acho que o filme acerta ao humanizar a figura de um pastor, mostrando toda a sua busca por ajudar ao próximo e, ao mesmo tempo, as suas contradições. Nisso, Schrader vai muito bem. Mas em outros pontos, achei que o filme exagera na dose apenas para “chocar” o espectador. E sempre que um filme faz isso, exagera nas tintas e nas doses para criar um impacto em quem está assistindo, mas de uma forma um tanto “deslocada” em relação ao restante da narrativa, acho que a produção perde alguns pontos. Esse foi o caso deste First Reformed.

Para mim, foi evidente a aproximação contraditória do pastor e de Mary desde o início. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas, ainda que existisse certa “tensão sexual” entre eles, o pastor não faria nada se o marido dela não tivesse se matado. Isso é fato. Mas o quanto ele se sentiu responsável pela morte de Michael? Ainda que ele tivesse claro que não foi ele que apertou o gatilho, o quanto Toller não pensava se ele poderia ter evitado aquilo?

De fato, depois que Mary descobre o colete com bombas e chama Toller para dar um jeito naquilo, tanto Mary quanto o pastor não souberam lidar com o risco que a descoberta deste fato trazia para Michael. Eles não mediram bem esse risco e aconteceu o que aconteceu naquele parque para o qual o pastor é chamado.

A partir daquele momento, o que já vinha sendo ruim para Toller, apenas piora. Ele acaba questionando as questões práticas do dia a dia da igreja, como os interesses econômicos e políticos, e buscando por uma resposta para aquela pergunta cabal que Michael fez para ele: “Deus pode nos perdoar pelo que fizemos a esse mundo?”. Até aí, tudo bem. Todo esse conjunto de questionamentos e dúvidas do pastor em seu íntimo, reveladas por seu diário, são compreensíveis.

Como acontece, acredito, com tantas outras pessoas que acabam se dedicando à Igreja para ajudar os outros, muitas vezes é mais fácil ser misericordioso e generoso com os demais do que consigo mesmo. Dizem que muitos psicólogos estudam essa área porque eles próprios tem muitos dilemas e problemas para resolver/tratar. Acredito que o mesmo pode acontecer com quem vira um pastor/padre ou um voluntário contumaz na Igreja.

Para mim, esse é o caso do protagonista de First Reformed. Ele tem uma profunda dor da perda do filho para resolver – e, provavelmente, uma boa carga de culpa por causa dessa perda. Toller vivenciou a perda de um filho, e por causa de uma “tradição” familiar de servir à pátria que se provou fatal. Por causa disso, o casamento dele faliu. E o que lhe restou? Além de muitas dúvidas, a vontade de converter toda a sua força excedente em ajudar ao próximo.

Isso é bacana e digno de aplausos, mas como alguém já disse antes, para que você consiga ajudar a alguém, primeiro é necessário que você ajude a si mesmo. Apenas alguém que está bem consigo mesmo pode fazer realmente bem aos demais. E vemos isso claramente com Toller, que até é capaz de ajudar aos outros, mas por relativamente pouco tempo porque ele próprio não se ajuda. No escuro da noite, ele consome garrafas e garrafas de bebida e urina sangue. Ele está doente, mas não parece estar disposto a pedir ajuda.

Além disso, fora os momentos obrigatórios de celebrações, ele admite que tem dificuldade de rezar. Em seus escritos, ele também deixa claro uma boa dose de autocrítica e de questionamentos sobre a própria instituição igreja. Confrontado com questões polêmicas, Toller nem sempre tem uma resposta para dar para o interlocutor. Seja para aquela pergunta cabal feita por Michael, seja para responder “à altura” um jovem que o confronta em uma roda de conversa. De fato, os pastores e padres nem sempre tem a resposta para tudo – daí surge o famoso “Mistério” e a falta de respostas justificada pela nossa capacidade humana limitada de entender a realidade e os fatos.

Até aí, tudo certo. First Reformed apresenta consistência, questionamentos interessantes e uma humanização da figura de um pastor que raramente vemos em algum filme. Também interessante como essa produção toca em outro tema importante: a autodestruição da humanidade através da degradação dos recursos naturais. Um tema que a Igreja retratada nesta produção não toca, por razões de interesse econômico – vide a figura do empresário Balq (Michael Gaston) -, mas que o Papa Francisco já deixou claro em seu Laudato Si.

Enfim, por tudo isso e até esse ponto, First Reformed se revela como um filme muito interessante. Agora, lá pelas tantas, ele “descamba” para um lado de “chocar” a audiência que eu achei forçado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beleza que o pastor Toller era um sujeito crítico e cheio de autocrítica. Tudo bem que ele se sentisse um pouco culpado pela morte do próprio filho e pelo suicídio de Michael. Certo que ele estava buscando penalizar-se pelo desejo que começou a ter em relação à Mary. Mas tudo isso justificaria ele planejar virar um homem-bomba?

Achei esse “grande finale” que a produção quase teve um bocado forçado. Na verdade, toda aquela autoflagelação do pastor achei exagerada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, aquela ideia dele de explodir Balq, Jeffers, Esther (Victoria Hill) e todas as demais pessoas que participariam das comemorações dos 250 anos da igreja First Reformed. Sério mesmo que, por mais que ele se cobrasse e questionasse os “interesses” da igreja, ele embarcaria na ideia de Michael de virar um “mártir” matando diversos inocentes?

Sim, ele sabia que estava doente e que iria morrer em um tempo relativamente curto. Isso poderia ser motivo para um ato desesperado, mas não acho que para um ato que significaria tanta destruição e perda de vidas. Depois, como o pastor Toller vê Mary no local – algo que ele não desejava ou estava esperando -, ele decide abortar a primeira ideia e aí o filme descamba para outra cena um bocado nonsense. Toller acaba se autoflagelando sem nenhum efeito realmente prático para aquilo – além de transformar a raiva e a frustração em dor.

No fim das contas, nada disso adianta para ele. A celebração cheia de interesses econômicos e políticos acontece de qualquer forma e ele e Mary acabam se envolvendo da mesma maneira. Com tudo isso, é como se First Reformed pregasse que não adianta ter convicções e boas intenções. No fim das contas, o mundo segue girando na sua lógica desigual e as pessoas continuam se rendendo aos seus instintos e não à sua razão.

Ok, é válido apresentar esse contraponto um tanto cínico e sem esperança, mas achei tanto a reta final do filme, com os seus recursos “exagerados”, quanto este tom amargo da produção um tanto distante do estilo de produção que mais me interessa. Sim, nada do que é humano me é estranho. Mas há maneiras mais ou menos esperançosas de encarar o que nos rodeia. Pessoalmente, eu vou sempre optar pela esperança. Mas First Reformed opta por outro caminho. Respeito, mas isso não faz eu gostar mais desse filme.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, para mim, o essencial de um filme é o seu roteiro. O que aquela obra, específica, quis nos contar. Por isso, vocês vão me desculpar, mas escrevi tanto antes… diferente do que eu tinha me proposto a fazer há não muito tempo. Tinha comentado que iria escrever menos sobre os filmes, eu sei. Mas sobre First Reformed eu achei que precisava escrever mais. E, acima, falei essencialmente do roteiro e da história do filme. Mas agora tratarei de outros aspectos da produção.

Para começar, acho que Paul Schrader acerta ao focar em um número reduzido de personagens. Como uma das intenções deste filme é “mergulhar”, se aprofundar na vida e na visão de um pastor de igreja, achei coerente ficarmos a maior parte do tempo focados nesse personagem. Como em First Reformed temos um personagem realmente importante, os outros que aparecem em cena estão ali apenas para ajudar a explicar o protagonista. Então sim, fez muito sentido e funcionou termos poucos personagens secundários e atores em cena. Uma boa escolha.

O roteiro de Paul Schraber tem qualidades e defeitos, como já tratei na crítica acima. A sua direção é correta e bastante focada nas interpretações dos personagens, como não poderia deixar de ser em um filme que pretende aprofundar-se em um personagem – e nas pessoas que convivem com ele. Ou seja, tudo muito correto, e nada acima desta correção. A direção de Schraber é segura, mas não foge da previsibilidade.

Entre os atores em cena, sem dúvida alguma o grande destaque é para o ator Ethan Hawke. Ele está muito bem, muito seguro e faz uma interpretação convincente do início ao fim. Apenas me chamou a atenção o quanto ele envelheceu. Nesse filme, mais em qualquer outro que eu assisti com ele, percebi que o tempo chegou para Hawke. Fui procurar a idade dele, e descobri que ele está prestes a completar 48 anos – ele faz aniversário no dia 6 de novembro. Então sim, teremos que nos acostumar com um Hawke mais maduro. 😉

Ethan Hawke é o destaque deste filme. Mas o que ele faz aqui pode lhe render uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2019? Até pode ser que sim. Mas acho que Joaquin Phoenix em You Were Never Really Here, recentemente comentado aqui no blog, tem mais chances de emplacar uma indicação. Veremos.

Além do protagonista desta produção, chama a atenção, desde a sua primeira aparição na igreja, a jovem sempre talentosa Amanda Seyfried. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a esse filme). Não vou mentir para vocês. Quando vi Amanda Seyfried naquele banco da igreja logo no início da produção, eu já suspeitava que ela teria um “flerte” com o pastor. Quem conhece a trajetória da atriz não deve ter ficado nada surpreso com isso. Ela está bem no filme, ainda que apareça pouco – na comparação com o protagonista, é claro. Ela faz um trabalho bem ponderado e interessante. Convence como alguém frágil e que ajuda a desestabilizar o pastor já instável.

Os outros atores que interpretam personagens que tem alguma relevância nessa história são: Cedric the Entertainer como o pastor Jeffers, líder da congregação em que Toller atua; Victoria Hill como Esther, coordenadora do coral de jovens da igreja e apaixonada por Toller; Philip Ettinger como Michael, ativista ambiental e marido de Mary; Michael Gaston como o empresário e “apoiador” da igreja de Jeffers, Balq; Bill Hoag como Elder, braço direito de Toller na igreja; Frank Rodriguez em uma ponta como o sheriff da cidade; e Gary Lee Mahmoud em uma ponta como o doutor que atende Toller quando ele finalmente resolve fazer os seus exames.

Diversos temas relevantes pipocam aqui e ali nessa produção. Entre outros, chama a atenção o diálogo de Toller com Michael. Algumas questões importantes são levantadas ali. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gostei, em especial, como Toller aborda o fato de que o desespero de tirar uma criança do mundo é maior do que a aflição de colocar uma criança no mundo. Esse é um tema interessante agora que discutimos tão abertamente o aborto no Brasil. Sem dúvida, em um mundo perfeito, não teríamos aborto. Mas temos que ser realistas. E sim, o desespero é maior que a aflição. Que ninguém perca isso de vista e que tenhamos mais conscientização das pessoas.

Interessante também como Toller afirma que a coragem é a solução para o desespero. De fato, é preciso querer, ter esperança, porque isso pode superar a questão da razão e da crítica – e toda a desesperança que isso pode trazer. Para Toller, as pessoas devem aprender a conviver com a esperança e o desespero. Só assim viver seria possível. Mesmo não tendo todas as respostas – porque ninguém conhece “a mente de Deus”, como defende Toller -, podemos escolher uma vida correta, afirma o personagem. Ele tem razão sobre isso. No fim das contas, tudo na nossa vida é uma questão de escolha e de decisões que tomamos.

Entre os aspectos técnicos desta produção, vale destacar a direção de fotografia de Alexander Dynan e a edição de Benjamin Rodriguez Jr. Além destes aspectos, vale citar a trilha sonora de Brian Williams; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Raphael Sorcio; a decoração de set de Nadya Gurevich; e os figurinos de Olga Mill.

First Reformed estreou em agosto de 2017 no Festival de Cinema de Veneza. O filme participaria de 16 outros festivais de cinema em diversos Estados americanos e em outros países antes de estrear em circuito comercial nos Estados Unidos em maio de 2018. Até julho deste ano, o filme passou ainda por outros três festivais de cinema.

Nessa trajetória de festivais, First Reformed ganhou três prêmios e foi indicado a outros oito. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Diretor para Paul Schrader no FEST International Film Festival; o Narrative Feature Competition no Montclair Film Festival; e o Green Drop Award para Paul Schrader no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale parar para citar algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o diretor e roteirista Paul Schrader, esse é um filme totalmente diferente a tudo que ele já fez. Para o diretor, First Reformed segue a linha de produções de Ingmar Bergman, Robert Bresson e Andrei Tarkovsky.

A atriz Amanda Seyfried estava, de fato, grávida durante as filmagens de First Reformed – filmagens essas que duraram 20 dias, apenas.

Durante uma entrevista no Festival de Cinema de Roterdã, Paul Schrader comentou que só quando foi editar o filme ele notou as semelhanças de First Reformed com Taxi Driver, que também teve roteiro escrito por ele. Faz muito, mas muito tempo que eu assisti a Taxi Driver. Então tenho que rever ao filme mas, inicialmente, não vejo muitas semelhanças entre eles não… Alguém me ajuda com essa dúvida? Eles têm ou não algo a ver?

As filmagens externas e internas na igreja foram rodadas na Igreja Episcopal de Zion, na cidade de Douglaston, no Queens. O filme inteiro foi rodado no Queens e no Brooklyn, bairros famosos de Nova York.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para First Reformed, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 163 críticas positivas e 12 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,3. As notas para esta produção estão bem acima da média. Só eu que realmente não me emocionei com a produção, pelo visto. 😉

First Reformed ostenta o metascore 85 no site Metacritic, além do selo “Metacritic Must-See” – selo de recomendação do site. Realmente o filme caiu no gosto dos críticos. De acordo com o site Box Office Mojo, First Reformed arrecadou US$ 3,45 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Ou seja, um filme elogiado e recomendado mas pouco visto nos cinemas até agora.

First Reformed é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no site.

CONCLUSÃO: Algumas vezes é mais fácil ajudar do que ser ajudado. Fazer algo por alguém que precisa do que ajudar a si mesmo. First Reformed parece nos falar claramente sobre isso. E sobre como nem tudo que é aparente realmente é importante. Muitas vezes as pessoas tem uma determinada motivação escondida para fazerem o que fazem. E nem sempre a ajuda chega a tempo. Esse é um filme com atuações competentes e que levanta alguns temas interessantes, mas que me pareceu exagerar em algumas doses para “chocar” o espectador. Para mim, faltou um pouco mais de conteúdo para a história.

Boyhood – Boyhood: Da Infância à Juventude

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Durante a nossa vida, vamos mudando de perspectivas pouco a pouco. O olhar vai se ampliando, e por mais que pareça que muitas vezes surgem mais dúvidas que certezas, é fato que aprendemos muito no caminho. Tudo que vem depois do primeiro passo são erros e acertos, alegrias e tristezas, confirmações e negações, surpresas e previsibilidade. Boyhood é um filme excepcional porque mostra tudo isso com maestria. Há tempos não via um filme tão profundo e inspirador. Sem dúvida alguma, uma produção que deve chegar forte no próximo Oscar.

A HISTÓRIA: Coldplay na vitrola, céu azul com algumas nuvens, e um garoto deitado na grama, Mason (Ellar Coltrane) observa aquele quadro celeste. A mãe dele (Patricia Arquette) aparece e eles vão para casa. Logo que ela chega, ele comenta que acha que sabe de onde vem as moscas. No caminho, ela comenta sobre a reunião que teve com a professora dele. Depois, ele sai para pedalar com o amigo, Tommy (Elijah Smith). A irmã de Maison, Samantha (Lorelei Linklater) surge para chamar o garoto para comer. Acompanhamos essa família e o crescimento dos irmãos até que eles vão para a faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Boyhood): Este é um destes filmes que por mais que você tente escrever sobre ele, os comentários sempre vão ficar aquém do que é a produção. Uma de tantas provas de que este filme é brilhante é que ele tem duas horas e quarenta e cinco minutos de duração e, mesmo assim, Boyhood não fica chato em nenhum momento.

Claro que, e é bom você saber isso se ainda não assistiu ao filme, é preciso estar preparado, com paciência – ou melhor, tempo, sem nenhum compromisso imediato – e bem disposto para ver a Boyhood. Não apenas pela duração do filme, mas pela proposta dele de debruçar-se sobre a vida de algumas famílias e mostrar a evolução deles no decorrer de um longo período. Você fica fascinada(o) com aquelas histórias, mesmo elas parecendo, muitas vezes, tão familiares.

Esta é uma das diversas graças de Boyhood. Tenho certeza que o filme, além de nos apresentar uma história de ficção com diversas camadas de leituras, também provoca autorreflexão do espectador. Da minha parte, não tive uma realidade parecida com a dos protagonistas mas, ainda assim, sempre há algum elemento que te faz lembrar da tua própria história. São raros os filmes que conseguem isso. Apresentar uma história interessante e, ao mesmo tempo, despertar empatia dos diferentes públicos.

Você que acompanha esse blog há algum tempo sabe que eu sou avessa à saber sobre os filmes antes de assisti-los. Procuro não assistir a trailer e nem ler nada a respeito. Mas sem querer, ouvi um comentário de que Boyhood tinha sido filmado com os mesmos atores por diversos anos. Depois de ver ao filme confirmei a informação: o genial diretor Richard Linklater, responsável também pelo roteiro desta produção, filmou esta história com os principais atores envolvidos no enredo durante 12 anos.

Então, e isso é inovador, acompanhamos a evolução daqueles personagens não apenas na história, mas fisicamente. E, claro, quando os atores que dão vida para aquelas linhas de roteiro também amadurecem, percebe-se esta evolução de forma muito mais dinâmica e realista do que apenas mudando os atores ou enchendo os adultos de maquiagem para demonstrar a passagem do tempo – que é o que a maioria dos filmes fazem.

A entrega dos atores de Boyhood é, assim, diferenciada. Assim como a capacidade do roteiro em não apenas fazer-se crer, mas também em criar empatia. E que roteiro, meus caros! Linklater acerta a mão em cada detalhe, sendo coerente com as descobertas, questionamentos, problemas e relacionamentos do protagonista e da irmã dele, em especial, que são as figuras que mais dominam a cena.

Neste sentido, esta produção é um libelo filosófico sobre a vida. Além de interessante, é marcante ver a evolução de Mason com o passar dos anos, assim como o esforço dos pais separados dele para dar uma formação decente para o garoto e a irmã. Ao fazer esse exercício de acompanhar Mason e os demais durante 12 anos, Linklater está também contando parte da história de uma geração.

Essa narrativa está presente não apenas na trilha sonora capitaneada por Meghan Currier e Randall Poster e que faz uma boa revisitada em canções marcantes da história recente dos Estados Unidos e do mundo, mas também nas experiências que os irmãos Mason e Samantha passam – como a estreia do filme do Harry Potter. Essa característica do filme faz a história dele ser ainda mais “familiar” para os espectadores.

Fascinante ver como Mason começa com algumas perguntas e descobertas, a exemplo de como surgem as moscas, e termina se questionando sobre o sentido de tudo. E isso porque acompanhamos ele apenas até aquele momento de ruptura quando ele sai da casa materna. Certamente se acompanhássemos ele por ainda mais tempo, entrando na vida universitária e depois adulta dele, outros questionamentos e descobertas surgiriam.

Uma das qualidades bacanas de Boyhood, pra mim, é que o filme trata de uma constituição familiar bastante comum nas últimas décadas, que foi uma mãe solteira tentando cuidar dos filhos enquanto o ex-marido tentava fazer a sua própria vida. Ainda mais bacana é que o pai das crianças, interpretado pelo ótimo Ethan Hawke, nunca se ausentou. Então temos, pelo menos, duas perspectivas distintas na formação destes jovens. O que, de fato, aconteceu em muitos lares reais mundo afora.

Interessante também acompanhar os acertos, os erros, os tropeços e as boas tacadas feitas tanto pela mãe quanto pelo pai de Mason e Samantha. Eles vão evoluindo, junto com os filhos. A mãe, como tantas outras que acaba tendo que cuidar dos filhos praticamente sozinha, tenta outras vezes constituir uma família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o filme começa, ela está namorando um sujeito que não se adapta muito bem à rotina de uma mãe que tem dois filhos para cuidar.

Depois, ela acaba se casando duas vezes. Primeiro, com o professor universitário Bill Welbrock (Marco Perella), pai de Mindy (Jamie Howard) e Randy (Andrew Villarreal). Depois, com um sujeito bem mais novo, com bastante experiência em servir o Exército, Jim (Brad Hawkins). Entre o primeiro namorado e o segundo marido, a mãe dos protagonistas muda-se diversas vezes, tanto de cidade quanto de casa. Em cada ocasião, Mason e Samantha tem que se adaptar a novas escolas e fazendo novos amigos.

Muitas famílias sabem o que isso significa. Rupturas, recomeços, dificuldades de diferentes ordens. Mas algo que Boyhood mostra bem é que um laço forte acaba sustentando estas pessoas: o amor. Há diversos conflitos, especialmente entre os irmãos, com gênios bem diferentes, mas todos se gostam e se respeitam. Percebemos no roteiro de Linklater como cada indivíduo, especialmente Mason e Samantha, vão modificando não apenas a forma de ver o que acontece ao redor, mas também a forma com que lidam com as diferentes demandas da vida.

O texto do diretor é brilhante. Ele reserva momentos de pura reflexão e contemplação, ao mesmo tempo que dá espaço para eventos tensos e chocantes. Especialmente as tentativas frustadas da mãe dos protagonistas em formar uma família rendem pano pra manga. E elas reforçaram um pensamento que eu tenho há algum tempo: especialmente complicada e triste a vida de uma mãe solteira que faz de tudo para constituir uma família e, nesta busca algumas vezes desesperada, não observa bem o homem que está colocando dentro de casa.

O professor Bill Welbrock, interpretado com perfeição por Marco Perella, é um exemplo primoroso disto. Aparentemente ele era um sujeito respeitável, equilibrado, admirável. Mas foi só começar a convivência e observar ele mais de perto para ver que haviam muitos problemas ali. A cena dele intimidando e agredindo a família na mesa é o momento mais impactante do filme.

Enquanto isso, o “inconsequente” pai de Mason e Samantha vai trilhando a sua vida pouco a pouco. De um sujeito sem grandes perspectivas, que tentava ser músico ao mesmo tempo que aceitava qualquer emprego para pagar as contas, ele chega a uma versão de si mesmo bem mais responsável. Lá pelas tantas, ele parece desencanar da mãe das crianças e decide formar uma nova família com a simpática Annie (Jenni Tooley).

De família bem católica e tradicional, Annie apresenta para Mason e Samantha uma versão de família que, até então, eles desconheciam. Especialmente significativo o aniversário de Mason em que ele vai passar um tempo com os familiares de Annie, interpretados por Richard Andrew Jones e Karen Jones.

Algo que me chama muito a atenção no trabalho de Linklater é que ele não santifica e nem condena nenhum de seus personagens. Quando alguns podem criticar a mãe, pensando que ela deveria ter sido mais responsável com os homens que ela colocou dentro de casa, ele nos apresenta diversos exemplos dela sendo modelo para pessoas de fora da família.

Primeiro, ele sinaliza nesta direção com alunos dela quando a personagem de Patricia Arquette começa a dar aula na universidade. Depois, ela recebe um elogio inesperado do pai de Mason e Samantha e, para fechar com chave-de-ouro, ficamos sabendo que ela serviu de inspiração para um trabalhador latino investir na própria educação e ascender na vida.

Na verdade, a mãe dos garotos é uma de tantas outras batalhadoras. Porque não é fácil educar dois filhos, tendo ou não o apoio do pai deles por perto – ou em uma família constituída de forma tradicional. Boyhood deixa isso muito claro, e nos faz repassar a nossa própria trajetória. Na reta final da produção, com Mason perto de ir para a universidade, acompanhamos várias descobertas do rapaz. Da primeira namorada até o primeiro emprego, passando pelos primeiros questionamentos sérios deles de vida.

Tudo é aprendizado. As perguntas nunca param, mas a inquietação vai diminuindo. Ou, como disse de forma brilhante o pai de Mason e Samantha perto do final, vamos sentindo menos com o passar do tempo, porque criamos certa resistência. Essa é uma das diversas pérolas do filme. Aliás, todo aquele diálogo entre Mason e o pai é perfeito. O garoto percebe que o tempo passa, mas em muitos sentidos os pais deles seguem perdidos como ele, ainda jovem. Isso é fato, ninguém é tão sábio que não siga com dúvidas ou se equivocando, mesmo velho.

Na reta final da produção, algumas outras lições importantes. A mãe dos garotos começa a sofrer com a síndrome do ninho vazio, percebendo que investiu muito nos filhos e, talvez, pouco nela mesma – ainda que, no caso dela, até sobrou espaço para bastante atitude, desde evoluir na própria formação, fazendo faculdade e mestrado, até ter tido outros relacionamentos. Ainda assim, não é fácil romper com os hábitos e com a vida em comum com os filhos. Eis uma lição pela qual todos os pais passam.

Mas achei brilhante mesmo Mason iniciar a “vida adulta”, morando longe dos pais e em uma república universitária, logo descobrindo que existem muitos amores nesta vida. Respeito quem acha que só existe um grande amor, uma metade da laranja, uma tampa para a nossa panela. Da minha parte, acredito na versão final de Boyhood, na qual novos amores aparecem sempre, basta nos dispormos a encontrá-los. Evidente que, lá pelas tantas, é sempre possível romper com todas as opções e ficar apenas com um amor, constituindo família e recomeçando o ciclo. Mas esta escolha é de cada um. E será, um dia, de Mason e Samantha. Boyhood, por tudo isso, é fantástico.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impossível não ficar impressionada com o excepcional trabalho do jovem Ellar Coltrane como Mason. Aos 20 anos, ele nos dá uma lição de como assumir um papel com garra e talento. Além de Boyhood, este jovem talento tem apenas outros quatro filmes no currículo. Não assisti a nenhum outro de seus filmes, mas acredito que o mais conhecido deles seja Fast Food Nation, também dirigido e com roteiro de Richard Linklater. Depois do reconhecimento por Boyhood, acho que vale seguir a carreira de Coltrane para ver o que mais ele fará.

Apesar de em Boyhood a atriz Lorelei Linklater interpretar a irmã mais velha de Mason, na vida real ela tem a mesma idade de Ellar Coltrane: 20 anos. Ela é quase três meses mais velha que o parceiro de cena. Além de Boyhood, Lorelei tem apenas outros três filmes no currículo. O primeiro deles, lançado em 2001; o segundo, um curta em vídeo; e o terceiro, em fase de pós-produção. Como o nome dela sugere, ela é filha de Richard Linklater, diretor e roteirista de Boyhood. Acho ela boa, mas não vi tanto talento nela quanto em Ellar Coltrane.

Sempre achei os atores Patricia Arquette e Ethan Hawke diferenciados. Especialmente pelas escolhas que eles fizeram em suas respectivas carreiras – escolhas estas nem sempre óbvia. Pois bem, eles participarem de um projeto diferenciado como Boyhood apenas reforça a minha opinião sobre eles. Poucos atores em Hollywood encarariam uma proposta tão diferente e que apresentasse tanto sacrifício e exposição. Mas estes dois atores, de fato, são diferenciados. Gostei muito do trabalho deles. Acho que os dois brilham com a mesma intensidade que Coltrane.

O foco está nos dois filhos e seus pais. Ainda assim, atores coadjuvantes ajudam a contar essa história e a fazê-la tão boa. Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Libby Villari como a avó dos garotos por parte de mãe; Sam Dillon como Nick, amigo da juventude de Mason; Zoe Graham como Sheena, primeira namorada do protagonista; Richard Robichaux como o primeiro chefe de Mason; e Jessi Mechler como Nicole, uma nova descoberta para o garoto. Há outros coadjuvantes, alguns com aparições bem interessantes, mas que eu não vou citar por terem tido uma importância menor na história.

Linklater deixa clara a sua admiração de bons professores e da formação das crianças e dos jovens. Não por acaso tem uma certa relevância alguns coadjuvantes que aparecem pouco, mas que tem falas inspiradoras na história. É exemplo disso Tom McTigue como Mr. Turlington, que dá aulas de fotografia para Mason; e Mona Lee Fultz como a professora do ensino médio do protagonista e que lhe dá bons conselhos após ele ter algumas fotografias reconhecidas em um concurso.

Da parte técnica do filme, além do excelente roteiro de Linklater, vale destacar a direção de fotografia de Lee Daniel e Shane F. Kelly; a edição perfeita de Sandra Adair; o design de produção – vital, como os elementos seguintes, para nos situar nos diferentes tempos da história – de Rodney Becker e Gay Studebaker; a decoração de set de Melanie Ferguson; e os figurinos de Kari Perkins.

Boyhood estreou em janeiro de 2014 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria de outros 28 festivais, incluindo os de Berlim, Karlovy Vary e San Sebastián. Nesta trajetória o filme colecionou 84 prêmios e foi indicado a outros 85 – incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque por ter figurado na lista de 11 filmes considerados “Filme do Ano” pelo AFI Award; por três prêmios no Festival de Berlim, incluindo o de Melhor Diretor; pelo prêmio de Melhor Filme Internacional Independente no British Independent Film Awards; pelo Prêmio da Audiência no Gotham Awards; por figurar na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo a National Board of Review; pelo prêmio FIPRESCI de Melhor Filme do Ano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; e por diversos outros prêmios entregues pela crítica de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Falando em Globo de Ouro, Boyhood está indicado nas categorias Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Roteiro. Todas estas indicações muito merecidas, diga-se.

Gostei do resultado financeiro obtido pelo filme. Afinal, não basta ter um projeto revolucionário, é preciso fazer com que ele dê lucro para quem apostou na produção. Boyhood teria custado cerca de US$ 4 milhões – orçamento baixíssimo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 24,2 milhões. No restante dos mercados em que já estreou, ele soma pouco mais de US$ 19,1 milhões. Ou seja, gerou quase US$ 43,4 milhões de caixa. Sem dúvida ele se pagou e está dando lucro. Que bom!

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: ela começou a ser filmada em maio de 2002, ou seja, quando os atores principais tinham sete anos de idade, e terminou de ser rodada em outubro de 2013. Na verdade, 11 anos de filmagens e com lançamento 12 anos depois do filme ter começado a ser rodado.

Para quem, como eu, tem curiosidade sobre as locações dos filmes, comento que Boyhood foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em cidades como Austin, San Marcos e Houston, todas no Texas.

Falando em curiosidades da produção, essa eu achei genial: Richard Linklater escalou a filha Lorelei para o papel de Samantha porque a garota estava sempre cantando e dançando ao redor da casa deles e pedindo para participar de um dos filmes do diretor. Pois bem, ele resolveu colocá-la no papel de Samantha, mas pelo terceiro ou quarto ano de filmagens, ela perdeu o interesse na brincadeira e pediu para o papel dela ser eliminado do filme, solicitando que o pai dela matasse Samantha na história. Ele recusou, dizendo que não era um fim trágico destes que ele estava planejando. No fim das contas, a garota voltou a se empolgar com o papel. Ainda bem. De fato não seria a melhor saída Samantha morrer no filme.

Apesar de ter sido rodado entre 2002 e 2013, Boyhood teve apenas 45 dias de filmagens neste período. E outra curiosidade: como nos Estados Unidos é ilegal assinar contratos com mais de sete anos de duração – para filmagens, ao menos -, nenhum dos atores pode assinar um contrato para o compromisso total de 12 anos. Burocracias aqui e lá. 🙂

O guitarrista que Mason vai assistir ao lado do pai, na parte final do filme, na verdade é o pai verdadeiro do ator Ellar Coltrane. Bruce Salmon é um músico atuante em Austin, no Texas, onde a cena de Boyhood foi rodada.

Amigos de muito tempo, Linklater e Ethan Hawke cresceram em casas de pais divorciados e tiveram pais que atuaram no ramo de seguros no Texas, e exemplo do personagem do pai de Mason no filme.

Boyhood é o filme favorito de 2014 do presidente Barack Obama.

A trilha sonora também é um elemento à parte nesta produção. Ótima trilha, diga-se. Destaco, entre outras, as músicas Yellow, do Coldplay; Hate to Say I Told You So, do The Hives; Authem Part Two, do Blink 182; Soak Up the Sun, de Sheryl Crow; Island in the Sun, de Weezer; What is Life, de George Harrison; Get Lucky, de Daft Punk com Pharrell Williams; Let It Die, de Foo Fighters; Band on the Run, de Paul McCartney & Wings; Do You Realize, de The Flaming Lips; Could We, de Cat Power; Crazy, de Gnarls Barkley; Hate It Here, de Wilco; One (Blake’s Got a New Face), de Vampire Weekend; 1901, de Phoenix; Lovegame e Telephone, de Lady Gaga; Radioactive, de Kings of Leon; Beyond The Horizon, de Bob Dylan; Suburban War e Deep Blue, de Arcade Fire.

Agora, ainda falando em trilha sonora, interessante algumas músicas escritas e interpretadas por Ethan Hawke, como Split the Difference e Ryan’s Song – esta última que ele apresenta junto com Ellar Coltrane, Lorelei Linklater e Jenni Tooley. Na trilha, ainda, as canções Não Acorde o Neném, Em Todo Lugar Voz Boa e Coisa Boa do brasileiríssimo Moreno Veloso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Boyhood. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes revelaram-se ainda mais empolgados ao dedicar 249 críticas positivas e apenas quatro negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 9,3.

Este filme, por ser 100% dos Estados Unidos, entra na lista de produções sugeridas em votações no blog – aquelas em que vocês definiam países dos quais eu deveria assistir a alguns filmes e comentar por aqui.

CONCLUSÃO: Conto nos dedos os filmes que falaram profundamente de conceitos que eu acredito e que tiveram, ao mesmo tempo, um olhar sensível sobre a condição humana e seu aprendizado constante. Acertar e errar, frustrar-se e sentir pleno prazer e gratidão, tudo isso faz parte da vida de qualquer pessoa, seja ela da classe social, raça ou latitude que for. Boyhood acompanha a evolução de uma família que não é tradicional por diversos anos, da infância dos filhos até a chegada deles na “vida adulta”. A história se desenvolve de maneira sensível, coerente e dura, em muitos momentos, como a vida mesma. Uma aula de roteiro, de direção e de trabalho dos atores. Lindo. Por tudo isso, altamente recomendado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Ainda estou começando a ir atrás dos filmes que tem chances na próxima premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas algo posso dizer desde já: Boyhood tem que aparecer na lista dos finalistas. Pelo menos. Não tenho dúvidas que este é um dos grandes filmes do ano passado e, por isso mesmo, vale estar no Oscar.

Para mim, ele deveria aparecer na lista de Melhor Filme – que permite até 10 títulos – e, se possível, nas categorias Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator para Ellar Coltrane, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Atriz para Patricia Arquette. Ainda que eu tenha dúvidas se ela figuraria em Melhor Atriz ou Melhor Atriz Coadjuvante. Só para começar, seriam seis indicações. Mas o filme ainda poderia entrar em alguma categoria técnica – ainda que, aí, eu veja menor possibilidade.

Além das indicações, fica difícil ainda de fazer um prognóstico. Preciso assistir aos outros fortes concorrentes do ano. Mas, inicialmente, eu não acharia injusto ele ganhar como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator. Há tempos eu não assistia a um filme tão competente neste conjunto de quesitos.