Life, Animated


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Cada pessoa é um mundo, com as suas regras, sentimentos, desejos e forma diferente de encarar a realidade que a cerca. Mas há alguns mundos que são mais complicados de entender à primeira vista. Life, Animated surpreende por se debruçar na história de uma pessoa que tem um mundo um tanto difícil de ser alcançado. Pelo menos pela forma de compreensão da maioria. Com o tempo, contudo, aquele mundo foi descoberto também. Documentário cotado para o Oscar 2017, Life, Animated fascina pela história do protagonista e pela homenagem indireta que faz ao cinema.

A HISTÓRIA: Começa com um vídeo caseiro. Cornelia Suskind pergunta a Ron, seu marido, que está com um dos filhos do casal no colo, se ela deve ficar com o botão vermelho pressionado. Na sequência, Ron aparece em uma cadeira de balanço com os filhos Walter e Owen. Os vídeos caseiros são intercalados por desenhos que parecem storyboards. Faz parte do cotidiano daquela família brincadeiras, leituras e desenhos animados. Corta. Owen, já adulto, caminha por um corredor e fala um pouco sozinho, citando Walt Disney e o Oscar.

Ele entra em uma sala. Ali ele e outros alunos tem aulas de como eles devem se portar para viver com certa tranquilidade em uma comunidade. Em um mês Owen vai se graduar e sairá da casa dos pais para morar sozinho. Ele tem um comportamento bem diferente e, conforme a história vai se desenvolvendo, vamos conhecendo mais de perto sobre Owen.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Life, Animated): Eu sempre tive um interesse muito grande por conhecer melhor os diversos tipos de desordem e de dificuldades mentais que um indivíduo pode apresentar durante a vida. Nenhum de nós está livre de passar por determinadas limitações durante a nossa trajetória, e algumas pessoas desenvolvem elas muito cedo, ainda crianças.

O autismo sempre foi algo que me chamou a atenção. A leitura que eu tinha sobre o tema até assistir a este documentário é que as pessoas com autismo tinham uma certa dificuldade de se relacionarem com as outras pessoas e que elas viviam “fechadas” em seus próprios mundos. Esta é uma forma simplista de ver à realidade de um autista, sem dúvida, e isso ficou ainda mais claro para mim depois que eu assisti a Life, Animated.

Algo que eu gostei muito no filme dirigido por Roger Ross Williams é a forma natural com que ele é construído. Partimos de imagens de família, de vídeos caseiros, para mergulhar na história de Owen e de sua família. Mas no roteiro escrito pelo pai do protagonista, o jornalista Ron Suskind, por mais que outras pessoas apareçam em cena, o foco está sempre em Owen e na sua forma de lidar com o mundo.

A arte entra justamente neste esforço em compreender as razões que fazem Owen agir de uma certa maneira e não de outra. Depois de muito tempo, como costuma acontecer na vida real, os pais de Owen compreenderem que ele entendia o mundo e se expressava através dos desenhos da Disney.

O filme não poderia também começar em um momento mais interessante. Começamos a acompanhar a rotina do protagonista em Cabo Cod, uma península no extremo leste do Estado americano de Massachusetts, quando ele está se preparando para ganhar a “independência” e viver sozinho. Este é um passo gigante, para muitos pais de autistas, praticamente impensável. Mas Owen está perto de conseguir isso.

Life, Animated ganha interesse, desta forma, não apenas em mostrar a preparação para este grande momento na vida de Owen, como também por mostrar as suas dificuldades e, claro, a trajetória que levou ele e seus familiares até ali. Como os filmes de Walt Disney são fundamentais para entender o universo particular de Owen, este documentário também está cheio de cenas e de diálogos dos filmes animados do estúdio.

Tão fascinante quanto mergulhar e conhecer melhor a rotina de um autista como Owen é verificar mais uma história de como a arte pode mudar vidas. As produções da Disney fascinam não apenas a Owen, mas a todas as pessoas do grupo que ele forma para apreciar sessões de cinema que tem as produções do estúdio como foco.

Com criatividade, Suskind e Williams apresentam um filme que aborda não apenas esta relação apaixonada entre Owen e a Disney, mas também torna parte da narrativa da história do protagonista também um expressão artística com desenhos belíssimos. Achei toda a produção de muito bom gosto e de grande sensibilidade.

Para que, como eu, precisava conhecer um pouco melhor a realidade de um autista, Life, Animated apresenta diversas visões sobre a rotina de alguém que tem este diagnóstico. Boa parte da produção aborda a própria ótica de Owen e de seus pais e irmão, mas há também depoimentos de especialistas e um olhar atento para os amigos, colegas e para a namorada do protagonista. Só senti falta de ouvir mais estas outras pessoas diagnosticadas com autismo.

Verdade que há um protagonista claro nesta produção, o filho do roteirista. Ao mergulhar na história dele, temos mais detalhes sobre a visão de mundo, os desejos, as capacidades e limitações dele. Mas o filme poderia ter abordado mais os amigos e colegas dele dando um pouco mais de “voz” para alguns deles. Faltou um pouco esta abordagem um pouco mais ampla da história.

Ainda assim, não tenho dúvidas, este é o melhor filme que eu já assisti sobre um autista. Não apenas por contar a sua história, mas especialmente por valorizar as suas conquistas. Em uma sociedade que tenta entender e incluir os autistas e em uma família que tem condições financeiras para buscar o melhor para ele, Owen consegue um desenvolvimento impressionante. Ele passa a ter uma certa independência e, perto do final da produção, faz um discurso maravilhoso em um evento mundial sobre o tema na França.

Mas apesar das alegrias e dos pontos altos de Owen, Life, Animated não foge das dificuldades e dos momentos de dor pelas quais ele e os familiares passam. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressionante e comovente como ele sofre quando a namorada termina com ele. Sem dúvida alguma ele, assim como tantas outras pessoas que passam por algum distúrbio mental, tem muita dificuldade em lidar com o sofrimento, com uma perda e com a dor.

O ponto alto do filme, sem dúvida alguma, é justamente aquele depoimento de Owen no congresso sobre autismo. Nesta parte, me chamou a atenção, em especial, quando o protagonista desmistifica alguns lugares-comum sobre o autismo. Por exemplo, quando ele diz que o autista não quer viver isolado, sem amigos, muito pelo contrário.

Ele quer ter amigos, mas só tem uma forma diferente de se expressar sobre isso e sobre outros temas. Belo filme, tanto pela abordagem sincera sobre o tema quanto pelo olhar artístico sobre a história de Owen – inclusive transformando uma história que ele criou em animação. Bela sacada. Um filme que deveria ser praticamente obrigatório, especialmente nas escolas, para que as crianças aprendam a conviver com as diferenças e entendê-las melhor. Quem sabe assim teríamos, no futuro, sociedades mais inclusivas? Esta é uma boa meta a ser perseguida.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos pontos fortes desta produção é a forma com que a história de Owen Suskind é contada. Apesar de ter uma “coluna vertebral” linear, mostrando a rotina do protagonista pouco antes dele se tornar mais independente e um pouco depois disto acontecer, Life, Animated também retorna na história de Owen, explicando como o quadro ele evoluiu e como o diagnóstico foi sendo aprimorado. Sem contar a parte do documentário “puro e duro” ser intercalado pela arte e pela fantasia. Um filme diferenciado, por este conjunto “da obra”.

Além de uma direção cuidadosa de Roger Ross Williams, que acompanha muito de perto e de forma atenta Owen, vale destacar a homenagem que Ron Suskind faz para o filho ao contar a sua história com tanto carinho. Desta forma, o jornalista também ajuda a muitas famílias e autistas a enxergarem as suas próprias realidades com outra perspectiva, além de esclarecer particularidades do autismo para quem não tem um caso destes por perto.

Da parte técnica do filme, vale destacar o excelente trabalho do departamento de animação de Life, Animated com oito profissionais e a trilha sonora irretocável de T. Griffin Dylan Stark. Também fazem um bom trabalho o diretor de fotografia Thomas Bergmann, o editor David Teague e Lucien Harriot, que é responsável pelos efeitos visuais da produção.

Life, Animated estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro deste ano. Depois, o filme participou de outros 30 festivais pelo mundo. Nesta trajetória a produção ganhou 11 prêmios e foi indicada a outros 18. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Directing Award no Festival de Cinema de Sundance; para o de Melhor Documentário pela escolha da audiência no Festival Internacional de Cinema de San Francisco; para o mesmo prêmio que foi dado pela audiência do Festival de Cinema de Nantucket; para o Truly Moving Picture Award no Heartland Film; para o de Melhor Filme pela escolha do público no Full Frame Documentary Film Festival; para o prêmio especial do júri como Melhor Documentário do dead CENTER Film Festival; para a escolha dos críticos de documentário como Most Compelling Living Subject of a Documentary no Critics Choice Documentary Award; e para o prêmio do júri estudantil para Roger Ross Williams no Black Reel Awards.

Esta produção também foi escolhida como uma das cinco melhores na categoria Documentário do National Board of Review. Junto com ela estão Gleason, The Eagle Huntress, Miss Sharon Jones! e De Palma.

Não encontrei informações sobre o custo de Life, Animated, mas achei sim que a produção fez pouco mais de US$ 244 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. É pouco, sem dúvida. Até agora ele me parece um filme de “nicho”. Precisa ser mais conhecido, até para ganhar fôlego para o Oscar.

Life, Animated é o 10º filme do currículo de diretor de Roger Ross Williams. O americano de 43 anos já tem um Oscar na carreira, ganho em 2010 com o curta de documentário Music by Prudence. Williams estreou como diretor em 2003 com o documentário feito para a TV New York Underground. Depois de Life, Animated ele voltou para os curtas, dirigindo um curta de documentário para a TV e um curta para o cinema.

O pai de Owen e roteirista deste filme, o jornalista Ron Suskind, tem 57 anos de idade e se formou mestre em jornalismo na Universidade de Columbia em 1983. Ele começou a trabalhar em 1990 no Wall Street Journal e já virou um repórter sênior da cobertura nacional do mesmo jornal três anos depois, ficando neste cargo até o ano 2000. Em 1995 ele ganhou um Prêmio Pulitzer por uma série de reportagens no Wall Street Journal que depois seria transformada no livro “A Hope in the Unseen”. Hoje ele escreve para as revistas Esquire, Time e a do New York Times.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 85 críticas positivas e apenas cinco negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,6. As duas avaliações são bem positivas se levarmos em conta o padrão dos sites.

Entre os nomes que fazem pontas no filme estão os atores admirados no mundo Disney Jonathan Freeman e Gilbert Gottfried.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra em uma lista de críticas que atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme muito bem construído e que terá, a exemplo de tantas outras produções, diferentes camadas de entendimento. Para quem tem um autista na família, sem dúvida esta produção terá uma identificação imediata e deve emocionar muito ao apresentar a história de um rapaz que soube avançar bem em sua forma de se comunicar.

Para os que não tem um caso na família, sem dúvida será um grande aprendizado e um mergulho interessante na realidade de um autista. Diferente de outras produções, Life, Animated acerta ao explorar os desejos, sentimentos e o cotidiano do protagonista pouco antes dele se tornar mais independente e logo após ele obter esta conquista. Bem feito, merece ser visto, sem dúvida. Um dos bons achados deste ano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Life, Animated é um dos 15 documentários que avançaram na disputa por uma das cinco vagas no Oscar 2016. Ele tem pela frente “favoritos” como O.J.: Made in America (comentado por aqui) e Weiner e outros fortes candidatos como 13th (com crítica neste link), Fuocoammare (comentado aqui) e Gleason, apenas para citar alguns.

A vida de Life, Animated não será fácil. Aparentemente este é um ano bem disputado na categoria dos documentários. Ainda preciso assistir a vários dos concorrentes, mas acho que a causa levantada por este filme e a forma interessante com que ele trata a história do protagonista merecem ser mais conhecidas. Uma boa forma de fazer isso é esta produção emplacar entre os cinco finalistas. Acho que ela merece, só não sei se os outros concorrentes vão deixar.

Torço para que Life, Animated consiga figurar entre os cinco finalistas para o Oscar de Melhor Documentário. Agora as chances dele ganhar a estatueta dourada são remotas. Digo isso analisando a chuva de prêmios que O.J.: Made in America tem recebido. Acredito que ele seja o favorito segundo a opinião dos críticos – não é o meu favorito, já que prefiro 13th.

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