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Hymyilevä Mies – The Happiest Day in the Life of Olli Mäki – O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki

Qual é a medida do sucesso? Afinal de contas, o que significa vencer? O simples, belo e interessante Hymyilevä Mies (The Happiest Day in the Life of Olli Mäki no título internacional) nos apresenta estas questões de forma muito sutil. Enquanto alguns poderiam encarar o circo que orbita uma grande conquista como o ápice da trajetória e de tudo que eles fizeram, outros como o protagonista deste filme encontram sentido muito além daqueles holofotes e daquela pressão por resultados e apertos de mãos. Eis um filme singelo e muito, muito eficaz em sua mensagem. Uma grande produção que mereceu sim avançar na lista dos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2017.

A HISTÓRIA: Olli Mäki (Jarkko Lahti) entra devagar no vagão do trem. Ele observa tudo, com atenção. Corta. Olli tenta fazer o carro pegar, e consegue fazer isso acionando o afogador. Ele retira as crianças do automóvel e parte para se encontrar com Raija Jänkä (Oona Airola). Ele percorre um bom caminho passando por bosques até que chega na casa de Raija. Ele cumprimenta o pai da garota e outras pessoas da família até que encontra Raija, que lhe diz que eles vão a um casamento. Durante a cerimônia, vários homens pergunta para ele sobre o seu peso e sobre a categoria em que ele vai disputar o cinturão de boxe. Em breve ele tentará fazer história em uma luta contra um norte-americano.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hymylevä Mies): Este é um filme simples. Uma história de amor, no fim das contas, ambientada nos anos 1960. O protagonista é um lutador de boxe mas, pelo apelido que lhe deram, antes de assumir as luvas ele trabalhava como padeiro. Ou seja, ele não dedicou a vida inteira para a carreira de pugilista – foi amador durante boa parte da “carreira”, na verdade.

Com os pés bem estabelecidos no chão e vindo do interior, Olli Mäki é um sujeito simples que se vê enredado em uma trama de expectativas e de aparências que orbitam sobre a disputa de um título mundial de boxe. Logo nos primeiros minutos do filme, alguns elementos desta produção nos chamam a atenção. Para começar, a maravilhosa fotografia em preto e branco assinada por J.P. Passi.

Essa fotografia nos ajuda a não apenas nos transportamos para aquela época na qual a história se passa mas, principalmente, a focarmos no que realmente interessa – evitando as “distrações” das cores. Percebemos melhor, com o preto e o branco, as nuances das interpretações e do roteiro. Além disso, até parece que o romance entre Olli e Raija fica ainda mais bonito – e que o filme ganha uma aura de “atemporal”.

Com as distrações dos cenários e do vestuário, que poderiam ser muito chamativos, anulados pela fotografia en preto e branco, nos focamos na ação e nas relações entre os personagens. Como comentei antes, a história de Hymyilevä Mies parece simples. Acompanhamos a trajetória de um pugilista nos dias que antecederam a grande luta “definidora” da sua carreira até então. O treinador e agente dele, Elis Ask (Eero Milonoff), mudou o pupilo de categoria, colocando ele em um peso menor do que ele deveria estar para buscar a sua consagração como campeão mundial pena – tudo porque, aparentemente, ele não queria Olli “rivalizando” com ele próprio, o treinador, que tinha o mesmo peso que Olli quando ainda lutava.

Quando Olli viaja para encarar a reta final do treinamento e fica na casa de Elis, ele leva consigo a namorada Raija. Eles acabam ficando no quarto dos filhos de Elis, em camas separadas, mas a falta de “intimidade” – algo normal para a época – não muda nada para os dois. Apenas a presença de Raija anima Olli para seguir a sua trajetória em busca do cinturão. Ela lembra ao pugilista das suas origens e, mais que isso, o tipo de relação que ele tanto aprecia e que lhe dá sentido. Por outro lado, Elis se esforça em tirar o máximo de proveito da situação, fazendo todo um “jogo de cena” com patrocinadores e apoiadores para conseguir dinheiro.

Como Olli Mäki é o mais novo protótipo de “herói nacional”, ele é chamado a participar de jantares, reuniões e encontros orquestrados pelo agente e que tem como finalidade conseguir mais dinheiro para os dois – especialmente para Elis. Olli participa de tudo aquilo por inércia, mas claramente ele não está satisfeito com aquele circo. A história contada pelo diretor Juho Kuosmanen e pelo parceiro do diretor no roteiro, Mikko Myllylahti, trabalha esta dicotomia entre o que a maioria considera um sonho e o que pode ser considerado o “dia perfeito” pela ótica do indivíduo (e não da maioria). O que é bom para “todos” ou para a maioria pode não ser bom para uma pessoa que usa o cérebro e exerce a sua própria liberdade consciente.

O pugilista que protagoniza esta história deixa se levar pelas circunstâncias – como nós mesmos em tantas fases da nossa vida. Ele agarra as oportunidades que aparecem e ganha suficientes vezes para chegar até o momento que muitos consideram ser o ápice de sua carreira. O agente e treinador dele, ex-campeão de boxe, lhe diz que o dia da disputa do cinturão será o “dia mais feliz de sua vida”. Sob a ótica de Elis, assim como da maioria das pessoas, isso significa que ele vai ganhar e que terá um dia de glória, colocando o seu nome “na história”.

Mas realmente o dia mais feliz de uma pessoa é quando ela ganha um campeonato ou um prêmio que a distingue dos demais? O que este filme demonstra de forma muito natural e singela é que ser “melhor” ou “maior” muitas vezes não é sinônimo de felicidade – até porque é uma ilusão esta ideia de “maior” ou “melhor”.

A felicidade ou a realização não surge destas fontes. Muito pelo contrário. Olli Mäki quer tudo menos ser tratado de forma distinta ou especial. Ele apenas deseja ser igual a tantas outras pessoas que são felizes quando encontram e desfrutam da companhia de alguém que amam (especialmente quando este sentimento é correspondido, claro). Ser comum pode ser algo maravilhoso, especialmente se você desfruta a sua vida cuidando de si e dos outros, olhando cada pessoa nos olhos e se importando com os demais e com o que lhe rodeia.

Incomoda a Olli todo o circo que é montado ao redor da sua disputa. Ele vem de uma longa trajetória como boxeador amador – Elis cita, em uma entrevista, que apesar de Olli ter vencido apenas oito de 10 lutas como profissional, que ele tem um histórico de 300 lutas como amador. Ele não é um principiante, e isso fica claro no comportamento de respeito que ele tem com o esporte e com a sua preparação. Mas ele não gosta de todo aquele “jogo de cena” de adular pessoas, apertar mãos, simular sorrisos e pensar em respostas inteligentes para repórteres e a dupla de documentaristas contratados para acompanhar o novo “herói nacional”.

Ele se cansa de todo este teatro e percebe que a companhia de Raija incomoda Elis. A garota, simpática, sempre bem humorada e inteligente, também percebe como é deixada de lado sempre que possível pelo agente de Olli. Sentindo-se um tanto “peixe fora da água”, ela acaba voltando para casa, para o interior tão desprezado por Elis – e por tantas outras pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Olli sente a ausência da amada e vai atrás dela. Mesmo correndo o risco de se prejudicar antes da decisão do campeonato mundial, ele não pensa duas vezes em procurar a sua própria felicidade.

Interessante como Hymyilevä Mies se junta a vários outros filmes que nos mostram como a vida é feita de escolhas. Que até podemos chegar a um momento considerado dos sonhos pela maioria, mas que se aquilo não fizer sentido para a gente, de nada vai valer o sacrifício. De forma muito honesta o diretor Juho Kuosmanen apresenta um trabalho de desconstrução do que é considerado o “grande momento” da vida de alguém. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No fim das contas, quando chega a hora H, tudo o que Olli deseja é que aquilo tudo termine logo. Ele quer se ver livre daquele compromisso, daquela pressão, e voltar para a vida que ele deseja.

Quem de nós não foi “levado pela vida” para situações de “prestígio”, de todos os “holofotes” voltados para nós e, nem por isso, nos encontrávamos satisfeitos. Algumas vezes, quando fazemos um trabalho excepcional e “damos o sangue” para um determinado projeto ou empresa, convites aparecem e acabamos aceitando desafios sem saber exatamente para onde um “não” nos levaria. Isso acontece com o protagonista desta produção. Ele se sai bem como boxeador e vai galgando posições até que chega, pelas mãos de Elis, a uma disputa de mundial.

Quando atinge aquele ponto, contudo, Olli percebe que não era exatamente aquilo que ele desejava. Mas ele não tem mais como fugir e, como Olli é um sujeito ético, ele vai cumprir o peso acordado com o agente/treinador mesmo que aquele peso não era o ideal para ele. Olli se sacrifica e atinge uma condição física deplorável apenas para ficar no peso que o treinador ambicioso estipulou para ele. Tudo que o protagonista quer é terminar logo aquele calvário para que ele possa voltar para a vida tranquila que ele tinha e para desfrutar o anonimato – ou quase isso – ao lado de Raija.

De uma forma bastante singela, mas interessante, Hymyilevä Mies nos mostra que não é um problema nos equivocarmos e deixarmos a “vida nos levar”. Não é ruim quando atingimos um estágio da carreira em que ganhamos evidência para que outros – e poucas vezes nós mesmos – se beneficiem. O problema não estava com Olli, mas com Elis e o circo de aparências ambicioso que se formou ao redor de um desafio da carreira do pugilista. O que seria um problema, naquele cenário, é se Olli se deixasse levar por tudo aquilo e perdesse o foco no que realmente era importante para ele.

Isso acontece com muitas pessoas. Especialmente nos esportes – não são poucos os talentos que saíram de uma carreira amadora no boxe, por exemplo, e se perderam na busca por títulos profissionais. Mas isso também pode acontecer em qualquer área. A falsa sensação de “riqueza”, “poder” ou “prestígio” pode levar as pessoas a cometerem atos absurdos, abjetos. Elas deixam “a vida” lhes levar para caminhos que elas nunca desejariam e a trilhar rotas que, em outras épocas, a “versão mais jovem” e honesta delas lamentaria. É a velha transformação do indivíduo pelo dinheiro, pelo poder ou pela vaidade.

Hymyilevä Mies nos apresenta uma história simples de resistência a tudo isso. O filme de Kuosmanen mostra que outras escolhas são possíveis. Ou seja, a noção de vitória e de êxito pode variar muito e ser muito diferente conforme os valores que colocamos na balança. É bacana um filme que leve este tipo de ponderação a sério sem que estas questões, filosóficas para alguns, sejam abordadas de forma pesada ou pretensiosa. Um verdadeiro alívio para estes tempos em que efeitos especiais a borbotões muitas vezes procuram substituir boas histórias. Isso nunca vai acontecer.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguns aspectos técnicos de Hymyilevä Mies são de “encher os olhos”, mesmo quando eles não atendem exatamente ao nosso sentido visual. 😉 A qualidade mais “gritante” do filme, como comentei rapidamente antes, é a direção de fotografia de J.P. Passi. Em filmes como esse, ambientado nos anos 1960, faz todo o sentido ter uma fotografia em preto e branco e com uma certa “granulação”. É como se estivéssemos assistindo a um filme feito realmente naquela época. Muito interessante.

A trilha sonora desta produção, mais presente na parte inicial do filme, também é um elemento interessante de Hymyilevä Mies. Mérito do trio Laura Airola, Joonas Haavisto e Miika Snare. Eles ajudam o espectador a se ambientar no início dos anos 1960.

Os figurinos também foram escolhidos a dedo. Um belo trabalho de Sari Suominen. Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Jussi Rautaniemi; e o design de produção de Kari Kankaanpää.

Curioso que nos agradecimentos do filme, os produtores e o diretor Juho Kuosmanen agradecem a Olli Mäki e a Raija Mäki. Até observar isso eu não sabia que esta produção era baseada em fatos reais. 😉 Mais uma razão para gostar do filme. Achei interessante como Kuosmanen homenageou o pugilista que “frustrou” uma nação no início dos anos 1960 e que, ao mesmo tempo, simbolizava tantos valores interessantes.

Hymyilevä Mies estreou em maio de 2016 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, logo na sequência, o filme participou dos festivais de Munique, Karlovy Vary e Melbourne. Na sequência, a produção participaria, ainda, de outros 24 festivais pelo mundo.

Em sua trajetória, Hymyilevä Mies conquistou 12 prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o prêmio “Un Certain Regard” para Juho Kuosmanen no Festival de Cinema de Cannes; para o Gold Hugo na competição para jovens diretores no Festival Internacional de Cinema de Chicago; para o Descoberta Europeia do Ano para Juho Kuosmanen dado no European Film Awards; para o Prêmio de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Zurique; e para oito prêmios, incluindo o de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator para Jarkko Lahti, Melhor Atriz Coadjuvante para Oona Airola e Melhor Direção de Fotografia no Jussi Awards, um tipo de “Oscar finlandês”.

Interessante que este filme não segue o estilo Rocky de ser… Nesta produção o sujeito não fica com o cinturão, com a vitória e com a garota. Respeito Rocky, mas é interessante ver a uma produção que apresenta outra proposta de “final feliz”.

Agora, algumas curiosidades sobre Hymyilevä Mies. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No final desta produção, Olli e Raija estão caminhando ao lado do porto e passam por um casal de idosos. Raija inclusive pergunta para Olli se ele acha que os dois vão ficar assim, velhos e felizes juntos. Ele responde que sim. O casal de idosos com o qual eles se cruzam são o Olli e a Raija da vida real. Bonitinho, não? 😉

O diretor Juho Kuosmanen assistiu a uma peça sobre a vida de Olli Mäki no teatro de Kokkola em 2011. Na ocasião, o verdadeiro Olli estava na plateia. No final da peça, o diretor de teatro pediu para fazer uma foto com Olli. Foi então que Kuosmanen disse para Lahti que se um dia ele fizesse um filme sobre Olli, o papel principal seria dele. Lahti levou à sério a questão e começou a treinar como boxeador. Ele chegou a disputar algumas lutas oficiais de amadores. Quando Kuosmanen resolveu fazer o filme, ficou óbvio que o protagonista da produção seria Lahti.

Por falar em Kokkola, o diretor Juho Kuosmanen, o produtor Jussi Rantamäki, o ator Jakko Lahti, a atriz Oona Airola e o verdadeiro Olli Mäki, todos são originários desta cidade finlandesa.

Nos testes iniciais para este filme, o uso das cores se mostrou incapaz de capturar o “período de tempo” da história. Por isso o diretor resolveu filmar em 16 mm preto e branco, o que ajudou os realizadores a “esconderem” detalhes modernos através de um “look vintage”. Realmente funcionou.

O apartamento de Elis que aparece no filme é, na verdade, o apartamento onde mora o diretor Juho Kuosmanen.

Por falar no diretor, vale comentar que esta produção é apenas o segundo longa feito por ele. Antes, ele dirigiu a quatro curtas e ao longa Taulukauppiaat, este último de 2010. Ou seja, é realmente um jovem talento que está despontando no mercado. Vale acompanhá-lo.

Os atores principais, assim como a direção interessante de Kuosmanen, o seu roteiro despretensioso e as maravilhosas direção de fotografia e trilha sonora da produção são os pontos fortes de Hymyilevä Mies. Jarkko Lahti e Oona Airola estão ótimos em seus respectivos papéis. Eles convencem e são encantadores, apresentando uma sintonia exemplar. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Eero Milonoff e Joanna Haartti como, respectivamente, Sr. e Sra. Ask – treinar e a sua esposa – e de John Bosco Jr. como o pugilista Davey Moore. Os demais atores fazem papéis de menor relevância.

Hymyilevä Mies foi a produção escolhida pela Finlândia para representar o pais no Oscar 2017.

Aliás, falando no título original desta produção, como eu não falo finlandês 😉 eu fui procurar o que Hymyilevä Mies significa. Em uma tradução livre, o título significaria algo como “O Homem Sorridente”. Interessante, não? O título internacional foi respeitado na tradução para o Brasil, ou seja, “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki”. Achei importante eles terem preservado este título – que, aliás, é muito bom.

Hymyilevä Mies foi totalmente rodado na Finlândia, mais precisamente na cidade de Helsinque, em lugares como a estação de trem central da cidade, o Olympiastadion (Estádio Olímpico), Vartiosaari e Kaivopuisto.

Este filme é uma coprodução da Finlândia, da Suécia e da Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Hymyilevä Mies, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 46 positivas, em um raríssimo exemplo de um filme que obteve aprovação de 100% dos críticos. A nota média dada por eles no site foi de 7,6.

CONCLUSÃO: Para ser profunda, uma história não precisa estar cercada de diálogos difíceis ou de pirotecnia. Muito pelo contrário, Hymylevä Mies surpreende por nos questionar algumas das questões principais da vida. De qualquer um de nós. Afinal, como comentei no início, o que é ter sucesso? O que é vencer? Como se encontra a felicidade. O filme de Juho Kuosmanen nos mostra que não é atingindo o ponto alto de uma carreira, mas sendo coerente consigo mesmo e com os seus próprios sentimentos. Geralmente a vitória passa pelo amor. Seja ele na forma que for. Uma bela produção, feita com esmero e que nos apresenta uma história simples, mas com algumas mensagens potentes.

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El Ciudadano Ilustre – The Distinguished Citizen – O Cidadão Ilustre

Quando alguém escreve, mergulha em todos os aspectos de sua vida e daquilo que quer contar. Nossa bagagem sempre está presente, mesmo quando não nos damos conta dela. El Ciudadano Ilustre, a exemplo do recentemente comentado por aqui Paterson, trata de literatura e da vivência do artista. Mas diferente do filme de Jim Jarmusch, El Ciudadano Ilustre tem mais pimenta e humor, além de uma certo “realismo fantástico” que lembra bem parte da literatura latino-americana.

A HISTÓRIA: O mestre de cerimônias apresenta as credenciais e uma rápida biografia do escritor Daniel Mantovani (Oscar Martínez). Apesar de ter vivido grande parte de sua vida na Europa, o argentino Mantovani espera na ante-sala para receber o Prêmio Nobel da Literatura. Quando ele é chamado ao palco, faz um discurso comentando como, ao receber o prêmio, ele percebe que a sua carreira terminou. Afinal, ele está sendo o artista mais “cômodo” para jurados, especialistas, acadêmicos e reis, e esta, na opinião de Montovani, não deve ser o papel de um escritor.

Cinco anos depois, o escritor argentino segue recebendo prêmios e com uma agenda cheia de eventos. Em alguns ele comparece, outros eventos ele simplesmente recusa. Um destes convites é feito pela prefeitura de Salas, cidade em que ele nasceu e que lhe serve de inspiração para as suas obras. No primeiro capítulo deste filme, Montovani recebe o convite para voltar para Salas. Inicialmente ele recusa, mas depois volta atrás e decide retornar para a cidade natal para receber o título de “cidadão ilustre” da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a El Ciudadano Ilustre): Como é bom voltar para o bom e velho cinema argentino! Porque sim, é muito difícil ver a um filme do país vizinho e não gostar do que assistimos. El Ciudadano Ilustre segue esta linha de satisfação quase sempre garantida, apresentando um filme inteligente, interessante, literário e bastante humano.

Esta produção foi a indicação deste ano da Argentina para o Oscar. Uma bela escolha, ainda que o filme fuja do padrão hollywoodiano. O roteiro de Andrés Duprat mergulha no fazer literário tendo como protagonista um escritor que lembra muito a outros nomes da literatura latino-americana, especialmente aqueles da escola do “realismo mágico”. Como assistir a El Ciudadano Ilustre e não lembrar de “Cien Años de Soledad” do grande Gabriel García Márquez?

Claro que há muitas outras referências, como os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, entre outros. Também me lembrei muito de José Saramago, o português que ganhou um Nobel da Literatura, a exemplo do protagonista deste filme, e que não achou, exatamente, que este foi um grande “presente”. E aí está uma das principais qualidades do roteiro de Duprat, a sua fina ironia.

Logo nos primeiros minutos do filme percebemos que Duprat nos mostra, através de seu Daniel Mantovani, que a noção de sucesso é bastante relativa. Para o protagonista de El Ciudadano Ilustre, os títulos que ele recebe, inclusive o Nobel, não querem dizer nada – ou querem dizer muito pouco. Ele continua “solitário”, incomodado com o que vê ao seu redor e, principalmente, com questões mal resolvidas com a sua cidade natal Salas e algumas pessoas que ele deixou por lá.

Como acontece na vida real, o escritor deste filme também se inspira muito na realidade, nas memórias que tem e preserva de sua cidade natal e a sua gente e, principalmente, na releitura que ele faz desta mesma realidade. Como ele escreve ficção, utiliza alguns elementos da realidade para dar asas para a própria criatividade e deixar fluir a literatura que lhe torna famoso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma muito inteligente, Duprat nos faz acreditar que Mantovani decide aceitar o convite da prefeitura de Salas para ir para a cidade receber o título de cidadão ilustre do município.

Desde que ele decide aceitar o convite, mergulhamos junto com ele em uma cidade do interior cheia de particularidades. Como tantas e tantas cidades do interior do Brasil, da Argentina e, tenho quase certeza, de qualquer parte do mundo. Quem nunca foi para o “interiorzão” e não viu vários detalhes que Mantovani vai encontrando pelo caminho, desde o ar-condicionado do hotel que só poderá ser usado após um pedido “expresso” do hóspede para a recepção até uma certa falta de oportunidades e do que fazer para uma parte considerável da população.

Personagens curiosos vão aparecendo conforme Mantovani vai se deslocando pela cidade. Muitos deles fascinados por um “cidadão ilustre” que colocou o pequeno “pueblo” no mapa mundial. Mas claro que há sempre o outro lado da moeda, como o prefeito que quer aparecer bem na foto com o escritor que ganhou o Nobel e o artista da cidade que não é premiado em um concurso e que empreende uma guerra particular contra o mais novo “desafeto”. Também há a jovem inteligente que vê no famoso escritor a desculpa perfeita para sair da pequena cidade e buscar uma vida longe dali.

O desenvolvimento da história é linear e bastante lógico, além de saboroso. Duprat tem um texto saboroso, que explora muito bem o contraste entre o escritor famoso e que tem uma grande vivência internacional e reflexiva e o povo simples da cidade em que ele nasceu. Mantovani não tem nada a ver com aquelas pessoas, aparentemente e olhando de forma geral, assim como quase nenhum de nós tem realmente a ver com o nosso lugar de origem – ainda que não podemos, ao mesmo tempo, ser explicados sem esta informação.

Ainda que o filme seja focado no protagonista, acabamos sabendo menos dele do que de Salas. Sim. Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn sabem conduzir a história de Andrés Duprat com maestria, destacando os locais e personagens de Salas mais do que o escritor ilustre que nos leva por aqueles caminhos. Enquanto a história se desenvolve, acabamos sabendo um pouco sobre ele. Por exemplo, que ele não retorna para Salas há 40 anos – como a mãe dele morreu naquele período, calculamos que a última vez que ele esteve lá foi para o enterro dela.

No vídeo de homenagem que fazem para ele na cidade, acabamos sabendo que o pai dele morreu 10 anos depois da mãe, mas Mantovani não foi para lá naquela ocasião. Ainda que ele frequenta a cidade há tanto tempo, ele deixou lá pessoas que lembram bem dele, como o antigo amigo Antonio (Dady Brieva) e a ex-namorada Irene (Andrea Frigerio) que, agora, está casada com Antonio. Na Espanha, onde mora, Mantovani vive de forma confortável, mas mora sozinho. Em uma conversa com Antonio ficamos sabendo que ele não se casou e que não teve filhos.

Mas se não conhecemos em detalhes a vida pessoas de Mantovani, sabemos sobre os seus valores e formas de pensar e agir, acabamos aprendendo conforme a história se desenvolve. Ele é um sujeito que respeita a todos, mas que não se deixa corromper e nem levar por favores ou promessas bobas. Ele também acha a fama e os prêmios uma bobagem, ou efeitos de um trabalho bem feito. Nada mais, nada menos. Ele não tem muita paciência com pessoas “sem noção” e não tem muitas “papas na língua”. Fala o que pensa e gosta de ter a liberdade para isso.

Para mim, o genial mesmo do filme foi o seu final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No início, como eu comentei, Mantovani não aceita diversos convites, inclusive o feito pelo município de Salas. Depois, a história parece dar uma “virada” e ele vai para lá. No final, aparentemente, ele é morto por Roque (Nicolás de Tracy), e nos últimos minutos da produção parece que vamos ver ele ser velado. E aí vem a grande e inteligente reviravolta: Mantovani está lançando o seu último livro, justamente a história que acabamos de ver.

Um dos jornalistas da coletiva de imprensa pergunta se o livro, que tem Mantovani como protagonista pela primeira vez em suas obras, é baseado em fatos reais. O escritor diz que isso pouco importa e mostra uma marca no peito, brincando que ela pode ter diversas origens. Achei brilhante! Belo final e que deixa a “moral da história” a gosto do espectador.

Da minha parte, acho sim que tudo o que vimos foi uma criação de Mantovani e que ele, de fato, não foi até Salas. Se observarmos bem quando ele “recebe o tiro”, o projétil teria acertado o escritor pelas costas e do lado direito dele. Pois bem, quando ele mostra a “marca” na coletiva de imprensa, ela está do lado esquerdo e na frente do corpo. Ou seja, mesmo que a bala tivesse atravessado da parte de trás para a parte da frente, não estaria deste lado, correto? Um elemento que acho que ajuda a mostrar que o que vimos foi o último livro dele “filmado”. Boa sacada.

Mas como acontece com tantas outras obras, saber o que realmente o escritor quis dizer ou o que tem a ver com a realidade e o que não tem a ver pouco importa. A experiência de deliciar-se com a obra, com a criatividade e com a narrativa do artista é o que interessa. Neste sentido, El Ciudadano Ilustre nos apresenta um filme interessante, bem equilibrado entre o drama e a comédia um tanto ácida.

Uma produção bem escrita e que tem algumas críticas interessantes sobre as pessoas que são consideradas “ilustres” em certa comunidade. Afinal, quem é admirado e quem tem o poder? Às vezes os talentos reconhecidos são os que caem no gosto de grupos, realmente, e outras vezes estas pessoas também sabem provocar e desempenhar o papel esperado de um artista. Por outro lado, quem “manda” é quem tem dinheiro e, muitas vezes, quem aterroriza os demais pela violência. Como bem explora a última obra do protagonista deste filme. Em resumo, um filme que faz pensar e que diverte.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A principal qualidade desta produção é o roteiro de Andrés Duprat, sem dúvida. Ele faz um filme com história linear que apresenta uma bela surpresa e que mistura realidade e ficção de forma estratégica e interessante. Um filme sobre literatura que não apenas mergulha no território de inspiração do escritor como também mostra um pouco de seu processo criativo e uma certa crítica para o “mainstream” da área.

Mesmo sendo o ponto forte do filme, admito que tem partes do roteiro que me pareceram um pouco lugar-comum demais. Em especial a personagem de Julia (Belén Chavanne). Para a “virada” do filme a história dela serve como uma luva, mas dentro do contexto da história e do personagem principal, ela acaba parecendo um tanto forçada. Talvez se a atriz fosse um pouco mais atraente, convenceria mais.

A direção de Gastón Duprat e de Mariano Cohn é boa. Valoriza tanto as particularidades da cidade de Salas quanto o padrão de vida do protagonista e, claro, o trabalho de cada ator. Do elenco, sem dúvida alguma o destaque é Oscar Martínez. Os outros atores se esforçam, mas estão alguns degraus abaixo do protagonista em termos de talento. Alguns são, visivelmente, amadores. Isso acaba prejudicando um pouco o filme porque eles realmente parecem um tanto deslocados em algumas cenas.

Além de Martínez, estão bem na produção Dady Brieva, Andrea Frigerio e, mesmo que aparecendo menos, Nora Navas como Nuria, secretária de Mantovani. Além deles, vale citar o bom trabalho de Manuel Vicente como o prefeito Cacho; Belén Chavanne em um papel muito previsível como Julia; Marcelo D’Andrea como o “inimigo” egocêntrico Florencio Romero, artista local que não “engole” Mantovani; e Julián Larquier Tellarini como o recepcionista do hotel em que o escritor fica hospedado.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Mariano Cohn e de Gastón Duprat; a trilha sonora de Toni M. Mir; e os figurinos de Laura Donari.

El Ciudadano Ilustre foi rodado nas cidades de Barcelona, na Espanha, e nas cidades argentinas de Buenos Aires (chegada do protagonista no país de origem), Cañuelas e Navarro, estas duas últimas próximas de Buenos Aires e que se passaram pela ficcional Salas.

O filme, que é uma coprodução da Argentina e da Espanha, recebeu 13 prêmios e foi indicado a outros 17. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Roteiro Original conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina; para o de Melhor Filme Iberoamericano conferido pelo Prêmio Goya; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Haifa; para de Melhor Roteiro e para o conferido pela Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica no Festival de Cinema de Havana; para dois de Melhor Roteiro e dois de Melhor Filme (Silver Spike e Golden Spike) no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; para os de Melhor Filme do Vittorio Veneto Film Festival Award e de Melhor Ator para Oscar Martínez no Festival de Cinema de Veneza; e para o prêmio Open Horizons dado pela audiência do Festival de Cinema de Thessaloniki.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas para o filmes e… só. Ou seja, El Ciudadano Ilustre conquistou uma rara aprovação de 100% no Rotten Tomatoes, somando uma nota média de 7,2 no site. Belo desempenho.

Para quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre o realismo mágico na literatura, este texto pode ser uma boa introdução. E conhecer a obra destes e de outros escritores desta escola, claro, vale muito a pena. 😉

Ah, vale falar um pouco sobre os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat. Os dois são argentinos, nascidos em “pueblos” que fazem parte da província de Buenos Aires. O primeiro tem 41 anos e é natural de Villa Ballester, e o segundo tem 47 anos e nasceu em Bahía Blanca. Os dois fazem parceria na direção desde o início da carreira de cada um, no ano 2000, com o documentário Enciclopedia. Antes de El Ciudadano Ilustre eles dirigiram Yo Presidente, em 2006; El Artista, no mesmo ano; e El Hombre de al Lado, em 2009. Fiquei curiosa para ver alguns destes filmes anteriores.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e provocador, que questiona alguns lugares-comum sobre a noção de sucesso e de verdade. El Ciudadano Ilustre é mais um bom exemplar de cinema argentino, com uma história envolvente, interessante, rica em detalhes, muito bem contada e com um grande protagonista. Impossível não lembrar de grandes escritores e o seu ofício, assim como de personagens tão típicos de qualquer parte do mundo e que sempre servem de referência para quem vive de contar histórias. Um filme gostoso e que passa rápido, diferente de Paterson, que também trata de literatura e de inspiração artística. Eis uma boa pedida.

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Nocturnal Animals – Animais Noturnos

A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

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The Lobster – O Lagosta

Uma alegoria sobre as relações interpessoais de uma sociedade preto no branco e com uma boa dose de nonsense. The Lobster exagera em seus argumentos e no desenvolvimento da história para nos fazer pensar sobre os padrões estabelecidos, sobre sociedades muito regradas e, de quebra, nos apresenta uma história de amor inusitada. Um filme criativo, sem dúvida, mas que não chega a mexer com o espectador. Algumas vezes o exagero faz isso. Faz pensar, mas não nos cativa.

A HISTÓRIA: Uma mulher dirige um carro na chuva. Ela está atenta à paisagem e para em determinado ponto. Ela sai do carro, caminha alguns passos em direção a um pasto e dá três tiros contra um asno. Um outro animal próximo olha tudo e se aproxima lentamente do animal abatido. A mulher volta para o carro. David (Colin Farrell) está sentado no sofá e ouve um “sinto muito” da mulher. Ele pergunta se ele usa óculos ou lentes, e ela responde que óculos. Em seguida, David e o seu cachorro/irmão são levados da casa. Ele chega no hotel e faz o seu cadastro, logo sendo apresentado para as regras do local. Esta é a primeira vez que ele fica sozinho e terá pela frente uma série de desafios por causa disso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Lobster): Pouco a pouco o espectador vai entrando no mundo “maluco” criado pelos roteiristas Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou. Se bem que, depois que o filme termina, você fica pensando que o nonsense da história não é tão nonsense assim. Vamos falar sobre isso.

Quando The Lobster começa, percebemos que o protagonista foi abandonado pela mulher (que não aparece em cena), que encontrou alguém mais “interessante” que ele. A saída para David (Colin Farrell) é ir para um “hotel” que tem regras muito claras. Aparentemente, todo mundo que fica sozinho na “cidade” é levado para aquele hotel.

Ali, a pessoa tem duas opções: ou consegue arranjar alguém compatível e dar certo com esta pessoa em um determinado período de tempo ou, no final do prazo, a pessoa escolhe um animal para se “transformar” nele e, nesta nova condição, tentar ter um futuro melhor. Para alongar o período que a pessoa tem no hotel e aumentar as chances de conhecer alguém compatível, a pessoa participa em grupo de caçadas em que para cada pessoa “solitária” abatida, o caçador ganha um dia a mais de permanência no hotel.

Lendo estas linhas e vendo o filme sem interpretação, The Lobster parece um bocado absurdo, não é mesmo? Mas como a narrativa é lenta, durante a experiência de assistir a produção já começamos a refletir sobre as mensagens que o diretor e roteirista Lanthimos quer nos passar. Primeiro, vejo que ele exagera na narrativa para fazer os espectadores se questionarem sobre a sociedade em que vivemos. Para a maioria parece realmente que só faz sentido se uma pessoa encontrar a outra em viver em “casal”. Os que decidem fugir deste padrão são considerados “párias” sociais, não é mesmo?

Claro que cada vez mais, nas nossas sociedades modernas, o solitário acaba sendo aceito porque este perfil foi aumentando com o passar do tempo. Mas o padrão das sociedades ainda é de homem e mulher que formam um casal e, preferencialmente, tem filhos. As razões para defender este padrão são tão primárias quanto aquelas mostradas pelos administradores do hotel desta produção. Além disso, Lanthimos e Filippou brincam com alguns outros conceitos sociais muito interessantes.

De várias tiradas que The Lobster apresenta, me chamaram atenção duas. A primeira é que quando um “protótipo” de casal começa a ter problemas de convivência, como discussões e desentendimentos, eles podem receber dos administradores um “filho” para amenizar os problemas. Na vida real, infelizmente, muitos casais tem esta mesma leitura. Que um filho poderá resolver o que eles não conseguem sozinhos. Ter um filho por este motivo nunca é uma boa ideia.

A outra tirada interessante da produção é a lógica com que vivem os “solitários”. Não vivem sob regras rígidas apenas aqueles que estão no circuito do hotel. Os “párias” que vivem refugiados na floresta também estão sob regras rígidas. Eles podem até conversar e ter uma interação básica, mas não podem ter relações sexuais ou muito próximas. Nas festas, por exemplo, cada um dança música eletrônica com o seu próprio fone de ouvido e aparelho. Piada sobre os solitários que vivem em festas e em tantas outras partes de forma realmente individualista.

Analisando o comportamento dos personagens, todos são um bocado mecânicos. Não apenas as pessoas envolvidas na dinâmica do hotel, mas também aqueles que buscam ali uma nova oportunidade de seguir sendo “humano”, agem de forma pouco natural. As conversas são estranhas, assim como as atitudes. Para um casal ter chances, ele deve ter um elemento que os “define” em comum. Se um homem manco não encontra uma mulher que também seja manca, ele forja um problema de sangramento no nariz para combinar com uma garota que tem a mesma condição.

Ainda que todos, aparentemente, lidem bem com a ideia de serem transformados em animais se não conseguirem um(a) parceiro(a) em tempo hábil, a verdade é que todos parecem um tanto desesperados ou para ganhar mais tempo através da caça de solitários ou forjando semelhanças que não existem para fazer um casal. Vale também analisar esta ideia das pessoas serem “transformadas” em animais caso elas não sejam mais “úteis” como humanos (e a utilidade só existe se você vive como casal).

A ideia de The Lobster é que se uma pessoa não pode ser útil formando um casal, ela pode ganhar nova utilidade se transformando em um animal. Nesta circunstância ela poderá procriar, ajudar a aumentar a população de uma espécie em risco de extinção ou até ter uma “serventia” para outros humanos, seja como animal doméstico, seja como comida. Daí paro para pensar no início desta produção. Aquela mulher estaria se “vingando” de um ex-marido ou de outro tipo de desafeto? Bem possível. 😉

Engraçado como o protagonista acaba fazendo o mesmo que um colega e mentindo para tentar conseguir uma parceira no hotel e, depois que o plano dá errado, ele se lança para a vida solitária sem querer, na verdade, viver aquela realidade. No início ele até aceitou bem as regras dos solitários, mas quando conheceu uma mulher que era míope como ele, eles se apaixonaram. A partir daí, eles não podiam ser mais aceitos naquele grupo. Ao invés de serem expulsos, eles foram penalizados.

Isso faz pensar como determinados grupos – e isso é algo bastante atual – tem uma grande dificuldade de aceitar pessoas que tenham um padrão diferente. A resposta deles para os “rebeldes” é, geralmente, uma penalização grave, desde o banimento até a morte. Simplesmente os que são diferentes não são aceitos – e isso vale, na viagem deste filme, tanto para os que não formam casais quanto para aqueles que formam, dependendo se falamos do povo do hotel ou da floresta.

No fim das contas, David se vê obrigado a mutilar a si mesmo para que ele e a sua nova mulher tenham uma chance na cidade, onde as pessoas só são aceitas como casais. E é regra básica de qualquer casal ter “o que define o indivíduo” em comum. Com isso, Lanthimos e Filippou nos fazem refletir sobre como qualquer radicalismo e como qualquer sociedade cheia de regras é daninha, mortal. Deveríamos todos trabalhar para a inclusão das pessoas, e não para a exclusão. Um filme interessante, com um roteiro bem inusitado para nos fazer pensar sobre conceitos importantes. Só achei ele um pouco longo e com um desenvolvimento um tanto arrastado. Poderia ser mais curto e um tanto mais direto nos pontos centrais.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fazia tempo que eu não via o ator Colin Farrell em uma interpretação tão interessante. Ele exagera nas caras e bocas e nem faz uma interpretação caricatural – o que volta e meia ele apresenta. Não. Em The Lobster Farrell está coerente e em uma interpretação sem exageros e na qual é possível acreditar no personagem. Ele humanizou uma figura bem diferente do usual. O espectador agradece.

Além de Colin Farrell, The Lobster tem alguns grandes atores em papéis secundários. Deste elenco “de apoio”, destaque para Rachel Weisz como a narradora e a nova parceira que o protagonista encontra na floresta, entre os solitários; John C. Reilly como o “homem que sibila” e que vira amigo de David no hotel; Léa Seydoux como a maluquete líder dos solitários; Michael Smiley como o braço direito da líder dos solitários; Olivia Colman como a gerente do hotel; Ashley Jensen como a mulher do “biscoito” e que se desespera por não conseguir um companheiro; Angeliki Papoulia como a “sem coração” que é a psicopata que David resolve enganar sem sucesso; Garry Mountaine como o parceiro da gerente do hotel; Ariane Labed como a camareira que é “agente dupla”; Ben Whishaw como o jovem manco que finge ter o mesmo problema de uma jovem para fazer um casal com ela; e Jessica Barden como a jovem garota que tem um problema com o nariz que sempre sangra.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Yorgos Lanthimos. Ele soube explorar bem a interpretação dos atores e também os cenários restritos em que eles se movimentam. Só achei o filme um tanto longo demais. Alguns trechos menos relevantes para a história poderiam ter sido perfeitamente cortados. Vale ainda destacar a direção de fotografia de Thimios Bakatakis; a edição de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Jacqueline Abrahams e a trilha sonora contundente e bastante pontual, quase como outro narrador do filme, e executada por seis nomes do Departamento de Música.

O nome de Yorgos Lanthimos não me parecia familiar. Buscando mais informações sobre ele, descobri que o diretor grego tem 44 anos e fez, antes de The Lobster, oito curtas e longas. Foi vendo a lista do que ele tinha dirigido antes que eu percebi que The Lobster não foi o primeiro filme que eu vi dele. Antes, assisti a Kynodontas (comentado aqui), outro filme muito, muito peculiar e forte. Pelo visto, Lanthimos tem um estilo de cinema realmente diferenciado, que tende ao exagero para fazer o espectador pensar sobre determinados padrões e realidades. Não deixa de ser interessante.

Novamente a violência é um elemento importante em um filme de Lanthimos. Parece que ao explorá-la de forma tão crua e visceral ele está querendo nos alertar sobre o fascínio que nós como indivíduos e em coletivo, nas nossas sociedades, temos com a violência. Vale questionar isso sim, com certeza.

The Lobster teria custado cerca de 4 milhões de euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 9 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele teria feito outros US$ 8,98 milhões. Ou seja, conseguiu cobrir os gastos e faturar alguma coisa.

Esta produção foi totalmente rodada na Irlanda, em locais como o Parknasilla Hotel and Resort, em Sneem; o The Eccles Hotel, em Glengariff Harbour; o Grand Canal Dock e o Blanchardstown Shopping Centre, em Dublin; e a floresta Dromore, em Coillte Teoranta.

The Lobster é uma coprodução da Grécia, da Irlanda, da Holanda, do Reino Unido e da França. São poucos os filmes com tantas produtoras e países envolvidos. Interessante a forma com que os produtores deste filme conseguiram captar tantos recursos de diferentes países.

Esta produção ganhou 22 prêmios e foi indicada a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz Coadjuvante para Olivia Colman no British Independent Film Awards; para o prêmio do júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cannes – onde o filme recebeu ainda o prêmio do júri do Palm Dog para o cachorro Bob e uma menção especial no Queer Palm para Yorgos Lanthimos; o de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original no Florida Film Critics Circle Awards; o de Melhor Filme Estrangeiro no Hellenic Film Academy Awards; o de Melhor Roteiro no International Cinephile Society Awards; o de Melhor Diretor no Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Miami; e o de Melhor Trilha Sonora Original e Design de Som para Johnnie Burn no Festival Internacional de Cinema de Ghent.

Além destes prêmios que recebeu, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e ao Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Colin Farrell. No primeiro ele perdeu para Manchester by the Sea (comentado aqui) e, no segundo, para Ryan Gosling, de La La Land (com crítica neste link). Francamente, acho que nos dois casos as derrotas foram merecidas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

CONCLUSÃO: Um filme cerebral e nada emocional. O diretor e roteirista Yorgos Lanthimos leva ao extremo alguns conceitos de padronização da sociedade dos indivíduos para nos fazer pensar sobre como o excesso de regras pode nos tornar pouco mais que robôs. Mesmo sendo um “espetáculo do absurdo”, The Lobster mexe com diversos conceitos individuais e coletivos e mostra que mesmo em sociedades hiper controladas é possível improvisar e encontrar o amor.

Com roteiro bem criativo e curioso, esta produção é para quem não se importa com histórias e enredos estranhos e inusitados. É curioso, mas não chega a mexer com o espectador. Esta mais para uma obra nonsense do que para um grande filme.

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20th Century Women – Mulheres do Século 20

Estar sempre aberta e humilde para aprender, especialmente com as pessoas. Viver cada época da sua vida com atenção e com gratidão. Degustar da vida, seus sabores e dissabores. Ter a coragem de decidir se quer ter filhos ou não. Avançar e evoluir e tentar contribuir da melhor forma possível para que as pessoas ao redor, como você, sejam melhores. Tudo isso faz parte da vida e faz parte deste filme incrível chamado 20th Century Women. Ele concorreu ao Oscar 2017 como Melhor Roteiro Original e eu tinha certa curiosidade de assisti-lo, mas vi que ninguém tinha se empolgado muito com ele. Mas eu sim.

A HISTÓRIA: Ondas do mar. Santa Bárbara, 1979. Vemos a cidade do alto e, depois, um carro em chamas em um estacionamento. As pessoas começam a correr para ver o que está acontecendo. Dorothea (Annette Bening) e Jamie (Lucas Jade Zumann) olham admirados para a destruição. Dorothea diz que aquele era o Ford Galaxy do marido dela, o mesmo carro que eles usaram para trazer o filho deles do hospital para casa.

Jamie conta que a mãe dele tinha 40 anos quando ele nasceu, e que todos diziam que ela era muito velha para ter um filho. Dorothea conta sobre o primeiro contato com o filho, na maternidade, e como ela disse que a vida é grande e desconhecida. Esta é a história desta mãe e deste filho e das pessoas que conviveram com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 20th Century Women): Que bela e grata surpresa este filme! Ele me conquistou, desde o início, pela narrativa criativa e, claro, pelos ótimos personagens, pelo desenvolvimento da história e pelos diálogos. 20th Century Women é um exemplo fantástico de como o roteiro é algo fundamental em uma produção.

Como eu comentei na crítica anterior, de Ghost in the Shell (que você encontra por aqui), o roteiro para mim sempre será o elemento mais importante de qualquer produção. Em 20th Century Women ele é o elemento central e a melhor qualidade da produção, ainda que não seja a única, é claro.

Este filme conta a história fantástica de uma mulher de 55 anos que há vários anos cuida sozinha da criação do filho adolescente. Vivemos o final dos anos 1970, uma época de muitas modificações sociais e, claro, de avanços também na liberação da mulher. 20th Century Women coloca as mulheres em evidência, com certeza, mas o filme não se resume apenas a isso. Muito rico e interessante, ele também trata sobre a relação de mães e filhos e sobre como preparar um homem para o futuro.

Afinal, o que nos faz ser pessoas bacanas, realmente inseridas e participantes da sociedade? Que valores são importantes repassar para a frente, e como fazer isso sem sufocar quem precisamos educar? 20th Century Women trata de educação, mas trata também de amadurecimento e do desenvolvimento humano. E aí você pensa: puxa, mas tratar de todos estes temas em um filme deve ser algo complicado e maçante. Poderia ser, mas o roteirista e diretor Mike Mills faz isso com cuidado e maestria exemplar.

Como acontece com todo filme fantástico, sobre 20th Century Women também seria possível escrever praticamente um livro, ou um tratado. Não farei isso, vocês sabem, primeiro porque este não é o espaço adequado e, depois, porque com o meu manifesto eu já tinha defendido textos mais curtos e objetivos, citando que em casos especiais (e este é um deles) eu poderia escrever um pouco mais.

Gostei de algumas sacadas bacanas de Mills. Destaco duas. A primeira foi contar a história destacando alguns personagens centrais e os anos em que eles nasceram. A protagonista, claro, é Dorothea, que nasceu em 1924 e que tem a sua introdução narrada pelo filho, um rapaz que tenta entender a vida, a sua referência principal (a mãe) e tudo que lhe cerca sob a sua própria ótica pela primeira vez.

Não importa a idade que você tenha. Todos nós já fomos crianças e adolescentes na vida. Quando éramos crianças, nos divertíamos e tínhamos os pais como referência máxima. O respeitávamos, lhes obedecíamos e começávamos a conhecer outras pessoas e outras relações na escola e em outras partes. Na adolescência começamos, pela primeira vez, a pensar pela nossa própria conta. Percebemos mais as influências variadas que nos rodeiam e já não achamos que tudo o que nossos pais nos dizem é certo.

Este filme começa justamente neste momento na vida dos protagonistas, Dorothea e Jamie. Depois de sabermos um pouco mais sobre a Dorothea que nasceu em 1924, ela nos conta um pouco sobre o filho que nasceu em 1964. Sempre que conta cada história, Mills pinça alguns fatos e imagens que ajudam a contextualizar a geração daquela pessoa. Porque somos muito influenciados pelas nossas famílias, nossos pais e antepassados, mas definitivamente somos também produtos culturais e da sociedade em que nascemos e crescemos.

20th Century Women é, assim, um filme sobre desenvolvimento humano. Sobre o processo de crescer e de envelhecer e tudo que nos acontece no caminho. Enquanto Jamie está começando a abrir as suas asas e a pensar por conta própria, Dorothea está aprendendo a envelhecer sem estar casada e no padrão social estabelecido como mais comum para a época. Ela é uma mulher, mas é também mãe e profissional. Tem os seus desejos e as suas fraquezas e, sobretudo, tem muita vontade de aprender e um respeito profundo pelos demais.

Esta é uma das maiores belezas deste filme e da personagem principal da história. Essa abertura para aprender, para olhar para o outro e para si mesmo com sinceridade e atenção. Dorothea é uma personagem incrível, uma mulher incrível. E ela nos lembra tantas e tantas outras mulheres, inclusive as nossas mães. Muitas vezes demoramos para perceber isso, mas nosso pai e nossa mãe são pessoas comuns que decidiram, em algum momento da vida, ter filhos.

Ainda que quando somos crianças achamos que eles são perfeitos e que tudo que eles falam deve ser levado em conta e respeitado, conforme o tempo passa e nós mesmo passamos por diversos desafios na vida, percebemos com ainda mais verdade quem são os nossos pais. Como eles acertam e como eles erram. Como eles tem as suas inseguranças e as suas convicções. E como nós nem sempre precisamos concordar, e que tudo bem se for assim. O importante, e 20th Century Women trata disso muito bem, é conhecermos com profundidade uns aos outros, nos respeitarmos e nos amarmos sempre.

O roteiro de Mills também destaca as outras duas mulheres que fazem parte da vida de Jamie e Dorothea: a jovem estudante Julie (Elle Fanning), amiga de infância de Jamie; e a jovem fotógrafa Abbie (Greta Gerwig). Também conhecemos um pouco mais sobre a única figura masculina mais presente na vida do garoto, o mecânico e “faz-tudo” William (Billy Crudup), que está ajudando Dorothea a reformar a casa onde ela, o filho e Abbie moram.

Observadora inteligente do passar do tempo, Dorothea acaba ficando um pouco “perdida” com as mudanças pelas quais o filho passa na adolescência. Como acontece com todo adolescente, Jamie já não consegue dialogar com a mãe como antes e parece um tanto “revoltado” e/ou “distante”. Dorothea não sabe, porque ele é filho único e ela não teve outras mães para compartilhar sobre isso, mas esses comportamento são normais para a idade. Preocupada com o que está acontecendo, ela pede ajuda para Julie e Abbie, o que deixa Jamie revoltado.

E assim, com muita inteligência e cuidado, Mills avança na evolução de Dorothea e Jamie enquanto mãe e filho e enquanto indivíduos. Também avança nas relações entre os personagens centrais desta história, uma pequena comunidade que desbrava as interessantes e mutáveis relações entre as pessoas. Outra qualidade que achei muito interessante no roteiro de Mills foi a forma com que ele destacou algumas obras durante toda a produção.

Além de fazer uma linda homenagem para o clássico fundamental do cinema Casablanca, 20th Century Women abre espaço para citar diversas obras que acabam embalando o crescimento e o autoconhecimento de Jamie e de Julie. Enquanto a adolescente busca entender o amor e a sexualidade, Jamie mergulha em livros emprestados por Abbie e que tentam apresentar um pouco da complexidade feminina. Todos os temas são tratados com muita franqueza na produção porque os personagens vivem as suas vidas desta forma franca, bem ao sabor do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Gostei também de como 20th Century Women mostra que não existem fórmulas de mulher (ou de homem) para serem seguidas. Enquanto algumas mulheres podem preferir nunca mais casar e ficarem sozinhas grande parte da vida, outras podem escolher o casamento e ter filhos, ao mesmo tempo que outras mulheres vão casar e não vão querer engravidar.

O século 20 trouxe esta liberdade para as mulheres. Da mesma forma, os homens podem ser mais ou menos sensíveis em relação a entender e conviver com as mulheres. Tudo isso vai depender da educação que eles receberam e das escolhas que fizeram na vida. É possível criar os filhos para eles serem mais sensíveis e inteligentes, isso Dorothea nos mostra bem. Mas, como sempre, esta não é uma decisão apenas de uma mãe ou de um pai, vai depender, essencialmente, da escolha do indivíduo de ele ser mais aberto, humano, sociável e sensível. Seja ele homem, seja ele mulher.

O roteiro é a grande qualidade desta produção. Mas ela também acerta na escolha do elenco, de cada personagem e, principalmente, na entrega de cada atriz e ator ao seus respectivos papéis. Todos estão ótimos, mas Annette Bening faz um trabalho excepcional. Ela está impecável. Finalizando as qualidades da produção, gostei muito da condução de Mike Mills, que é detalhista e perfeccionista. Ele sabe valorizar os cenários e os lugares mas, especialmente, os atores e o texto. Todos os demais aspectos que ajudam o filme a ser ambientado em sua época, inclusive a ótima trilha sonora, também funcionam muito bem. Enfim, um filme completo e de grande, grande qualidade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto quando um filme me surpreende positivamente. Como eu falei lá no início, 20th Century Women entrou no meu radar por causa da indicação que ele recebeu no Oscar. Mas como eu ouvi algumas críticas mornas sobre ele, acabei deixando ele para ser visto mais tarde, sem pressa. Por pouco eu não o perdi, o que seria uma grande besteira. Apesar de ter recebido apenas uma indicação ao Oscar, ele é um grande filme, melhor que outras produções que foram indicadas mais vezes. Gosto de filmes humanistas, e esta é uma destas produções. Bela surpresa.

Fiquei muito interessada em conhecer mais sobre o diretor e roteirista Mike Mills. Este californiano de 51 anos de idade tem apenas 10 títulos no currículo como diretor. Ele estreou em 1999 com o vídeo documentário Air: Eating, Sleeping, Waiting and Playing. Depois ele fez dois curtas antes de fazer o vídeo Moby: Play – The DVD. Daí vieram mais um curta e um vídeo chamado Pulp Anthology em 2002. A estreia dele com um longa nos cinemas foi Thumbsucker, em 2005, filme que teve não apenas a direção dele, mas também o roteiro de Mills. Depois vieram o documentário Does Your Soul Have a Cold? em 2007 e, em 2010, o longa Beginners.

Este é um dos grandes filmes de Annette Bening. Ela tem uma personagem ótima e com um texto excepcional, mas isso não basta. É preciso talento para trazer veracidade para um texto tão bom. Ela é o grande nome do filme, mas os outros atores estão muito bem também. Elle Fanning está ótima e mostra, mais uma vez, como é um dos grandes nomes de sua geração. Greta Gerwig faz um grande trabalho, assim como a revelação Lucas Jade Zumann.

Entre os coadjuvantes, destaque para Billy Crudup sendo Billy Crudup – ele sempre está muito igual, não?; e para as pontas competentes de Alison Elliott, que interpreta a mãe de Julie; para Thea Gill, como mãe de Abbie; para Olivia Hone como a irmã de Julie; para Waleed Zuaiter como Charlie, colega de Dorothea e um de seus “romances” pontuais; e Darrell Britt-Gibson como Julian, um dos homens que Dorothea conhece e que chama para um jantar em casa. Há outros atores que aparecem como colegas de Jamie e Julie, mas ninguém sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, Mike Mills manda bem não apenas no ótimo roteiro, mas também na direção cuidados a e detalhista, que valoriza especialmente os atores, mas também os ambientes e o tempo narrativo. Ele conduz muito bem o filme. A trilha sonora de 20th Century Women, com muito rock e punk, também é um ponto a destacar. Fantástico. Vale também elogiar a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Leslie Jones; o design de produção de Chris Jones; os figurinos de Jennifer Johnson; e a decoração de set de Aimee Athnos, de Traci Spadorcia e de Neil Wyzanowski.

20th Century Women teria custado US$ 7 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 5,6 milhões. Ou seja, o filme, mesmo que você incluir o resultado obtido em outros mercados, está mal conseguindo pagar os custos de produção e distribuição. Espero que ele tenha algum sucesso no boca a boca, porque a produção merece ser mais conhecida.

Esta produção foi rodada em várias locações na Califórnia e uma pequena parte em Nova York. Entre os locais na Califórnia, há cenas em East Beach, em Miramar Beach e em Montecito, incluindo em Four Seasons Resort The Baltimore Santa Barbara.

Entre as curiosidades de 20th Century Women está a de que o filme é semi-autobiográfico, segundo Mike Mills. Os personagens do filme são inspirados em pessoas que participaram da juventude do diretor. A personagem de Annette Bening tem traços da mãe de Mills e também da própria atriz.

Durante as gravações, o elenco foi incentivado a sugerir músicas que eles achavam que os seus personagens escutariam. O filme Casablanca era um dos favoritos da mãe de Mills, por isso ele aparece em mais de um momento de 20th Century Women.

20th Century Women ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Actress Defying Age and Ageism para Annette Bening dado pelo Alliance of Women Film Journalists; o de Melhor Atriz para Annette Bening do Atlanta Film Critics Society Awards; Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig dado pela Detroit Film Critics Society; e os de Melhor Atriz para Annette Bening e de Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig conferidos pela Nevada Film Critics Society. Além de uma indicação ao Oscar, o filme também foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical e ao de Melhor Atriz – Comédia ou Musical para Annette Bening.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso esta crítica atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog na qual vocês pediram filmes daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para 20th Century Women, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 144 textos positivos e 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,8. Achei interessante como especialmente os críticos gostaram da produção.

CONCLUSÃO: Muito do que somos tem a ver com as nossas origens. Nossos pais, antepassados, o entorno em que nascemos e no qual crescemos. Ainda que tudo isso seja verdade, há um peso muito específico e que merece ser sempre analisado: o das nossas mães. Elas nos influenciam decisivamente. Este filme fala sobre isso e fala sobre a força impressionante que as mulheres tem no mundo. Ainda que o título remeta às mulheres do século 20, ele poderia tratar de mulheres de qualquer época. Nós temos a força, é preciso dizer.

Com muita sensibilidade e um roteiro incrível, 20th Century Women presta uma grande homenagem à todas as mulheres e para todas as mães. Dificilmente alguém não verá ao menos um pouco da sabedoria e da coragem de suas próprias mães na protagonista deste filme. Roteiro primoroso, elenco muito afinado e que faz um grande trabalho, 20th Century Women é delicioso para quem não tem pressa em ver um filme e gosta de se deliciar com grandes história. Para quem curte, volta e meia, pensar na vida e em como caminha a Humanidade. Achei impecável, maravilhoso, inspirador.