Kongens Nei – The King’s Choice


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O baú de histórias envolvendo a Segunda Guerra Mundial parece não ter fim. Sempre algum novo filme, seja de Hollywood, seja de outra latitude, volta a revisitar aquele período com alguma história pouco contada ou com um novo ponto de vista sobre fatos relativamente conhecidos. Kongens Nei, o filme da Noruega indicado para o Oscar 2017 e que avançou na lista das nove produções com chances de uma indicação no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood conta uma história pouco conhecida do período da guerra.

A HISTÓRIA: Começa falando de um episódio marcante para a Noruega. Em junho de 1905, o parlamento norueguês dissolveu a união entre a Suécia e a Noruega. Naquele mesmo ano, o povo norueguês decidiu pela continuidade da monarquia, e o príncipe Carl, da Dinamarca, é escolhido Rei da Noruega. Desta forma, o poder político é exercido pelo governo e pelo Parlamento, com o rei desempenhando apenas um papel representativo.

Em novembro de 1905 a família real chega na Noruega, e o rei passa a ser chamado de Haakon VII. Cenas históricas mostram ele chegando com a esposa e o filho pequeno Olav. Depois das cenas históricas, o filme algumas décadas na história, mostrando outros fatos marcantes, inclusive a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha. A história então se desenvolve a partir do dia 8 de abril de 1940, na eminência da Noruega ser invadida pelos alemães.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kongens Nei): Este é um filme bastante importante para os noruegueses, eu não tenho dúvidas disso. Afinal, a decisão do rei Haakon VII (Jesper Christensen) marcou a história do país e, acredito, até hoje deve ser contada nas escolas e algo conhecido por todos do país.

Verdade que, além do interesse específico para os noruegueses, Kongens Nei tem um certo interesse histórico. Pela ótica do rei e de sua família, conseguimos não apenas ver na prática como ocorria uma invasão dos nazistas em um país que era neutro, um dos fatos que marcou a Segunda Guerra Mundial, como também percebemos o tipo de estratégia que era adotada por Adolf Hitler.

Após fazer estas considerações, quero dizer que Kongens Nei é essencialmente importante para a Noruega, o seu país de origem. Para os demais públicos pelo mundo o filme é interessante, mas não chega nem perto de ser fundamental. Seja avaliando ele pela ótica história, seja pela ótica de cinema.

Afinal, Kongens Nei é um grande filme de perseguição, fuga, estratégia asfixiante dos nazistas e tentativa de negociações sem fundamento lógico por parte do país invadido. Durante grande parte da história assistimos ao rei Haakon VII e a sua família fugindo para tentar sobreviver. Um acerto no roteiro de Harald Rosenlow-Eeg e Jan Trygve Royneland é, dentro do possível, mostrar os cidadãos comuns neste processo.

Além disso, e fica evidente no desenrolar do filme, Kongens Nei é uma grande homenagem para o protagonista. A produção dirigida por Erik Poppe mostra como o rei se manteve firme em sua posição de defender um país independente e, dentro do possível, a população norueguesa apesar da ameaça constante contra sua própria vida e a de seus familiares.

Neste sentido, Kongens Nei é um filme interessante e que chega a ser levemente inspirador sobre a defesa de valores irrefutáveis, como o respeito à vontade da maioria da população e a defesa de um país soberano e independente. O rei Haakon VII defendeu isso e conseguiu, passada a guerra, deixar isso de legado para o seu país.

A direção de Poppe e o roteiro de Rosenlow-Eeg e Royneland se esforçam para humanizar a figura do rei e da família real. E eles conseguem o seu objetivo. Em mais de uma ocasião o rei Haakon VII aparece com medo e com dores, apesar de que na maior parte do tempo ele tentava se manter altivo. Também interessante quando o protagonista lembra para o filho, o príncipe Olav (Anders Baasmo Christiansen) como ele se tornou rei por decisão popular e de forma “imprevista”, como que lembrando qual era a origem de todo aquele “poder”.

A discordância entre os pontos de vista do rei e do príncipe também são um elemento constante da produção. No fundo, aquela é uma relação de pai e filho clássica, em que o primeiro, mais experiente, está tentando ensinar o filho a ter uma visão mais equilibrada e com uma visão mais ampla do que os seus instintos impulsivos (aparentemente) pregavam.

É um filme interessante, ainda que um pouco arrastado pela sequência histórica dos fatos. Ainda que a invasão nazista ocorra de uma maneira muito rápida, e contada dia a dia e nas horas mais importantes pelos roteiristas, esta produção de “bastidores” da crise envolvendo a invasão na Noruega acaba sendo uma grande perseguição e fuga. E sem maiores “surpresas” no caminho, Kongens Nei acaba sendo um pouco entediante.

Ainda assim, como eu comentei antes, este filme ganha pontos por falar de valores importantes para uma nação e um governante e por mostrar um pouco sobre como pessoas comuns podem ter atitudes importantes em momentos decisivos da História.

Isso não se aplica apenas à família real, no caso desta produção, mas também a figuras como o jovem soldado Fredrik Seeberg (Arthur Hakalahti), que simboliza a todos os jovens que tiveram que pegar em armas para tentar defender o seu país, e Birger Eriksen (Erik Hivju), comandante do forte que acaba atacando um navio alemão invasor.

Também achei interessante o filme porque ele demonstra com um exemplo prático como Hitler era engenhoso. Conhecemos bem o viés dele de crueldade e do extermínio de diversos grupos, mas nem sempre sabemos sobre detalhes de suas estratégias de guerra. E por mais que seja absurdo, não deixa de ser impressionante a forma ardilosa com que ele agia em relação a alguns países europeus.

No caso da Noruega, mostrado pelo filme, ele avançou com navios e tropas ao mesmo tempo que mandou um “acordo” em que ele apenas era o beneficiário. E o argumento do documento era algo impressionante: a Alemanha estava oferecendo “proteção” para a Noruega contra o inimigo Inglaterra. Ora, essa era uma grande desculpa para a Noruega ser ocupada e explorada por um lado da guerra que não lhe interessava.

Mas na cabeça de Hitler aquele era um argumento que ele poderia usar na propaganda nazista e que poderia convencer a muitos “crentes” de seu regime. E era uma forma “melhor” de invadir um país do que simplesmente entrar arrasando. Só que Kongens Nei nos demonstra muito bem como isso não era tudo.

Ao mesmo tempo que Hitler mandava o documento pedindo um “acordo” para o rei da Noruega, ele na prática já ia invadindo o país. Demonstrando, assim, que ele ia conseguir o que ele queria de uma forma ou de outra. Como bem observou o príncipe Olav, isso não era uma negociação. Quando apenas um lado diz como tudo deve ser, trata-se de imposição. E foi o que aconteceu no caso da Noruega, da Dinamarca e de outros países.

Em resumo, esta é uma produção bacana, que tem as suas qualidades, especialmente nestes pontos de destaque do roteiro, mas que no fima das contas é mediana. Para mim, ela não deveria estar na lista dos finalistas deste ano na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira porque não é tão ousada, criativa ou bem desenvolvida quanto outras produções desta safra. Mas gostos são gostos, como sempre.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante neste filme, como em quase todas as produções do cinema europeu, é como todo o elenco do filme está afinado, sem grandes “estrelismos” ou destaques. O elenco todo está bem. Ainda assim, claro que merecem menções especiais os atores Jesper Christensen, que consegue humanizar muito bem a figura do rei, e Anders Baasmo Christiansen como o filho dele e um contraponto importante para a história.

Além destes atores, vale citar o bom trabalho de Jan Frostad como Carl Joachim Hambro, que faz parte do governo; Arthur Hakalahti como o jovem soldado Fredrik Seeberg, que acaba simbolizando vários jovens que se arriscaram naqueles anos na guerra que se seguiu; Erik Hivju muito bem como o comandante Birger Eriksen, aquele que não espera a ordem final para defender o seu país atacando uma embarcação alemã; Karl Markovics muito bem como o embaixador alemão Kurt Bräuer, que demora para acreditar que uma saída diplomática não será possível; e Katharina Schüttler como Anneliese, a mulher do embaixador.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de John Christian Rosenlund, a trilha sonora no estilo épico de Johan Söderqvist, a edição de Einar Egeland e os figurinos de Karen Fabritius Gram.

Como tantos outros filmes com fonte histórica, Kongens Nei termina com alguns dados sobre o que acontece com os personagens centrais e a história depois que a narrativa termina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Essa parte foi bem feita, exceto por não revelar quantas pessoas morreram na Noruega por causa daquele conflito. Este é um dado importante e que ficou faltando. Segundo este artigo da Wikipédia que eu achei, por parte da Noruega e da Dinamarca teriam sido mortos 6.116 combatentes – a maior parte deles da Noruega, que resistiu mais tempo.

Algo bacana no final é o filme mostrar as três gerações da família real juntas. Depois que o rei Haakon VII morreu, bem depois do final da Segunda Guerra Mundial, o filho dele, Olav, assumiu o lugar do pai e, depois, Harald, que conviveu com o avô, assumiu o posto. Os três aparecem em uma cena bacana na reta final da produção.

Interessante também o fascínio que algumas famílias reais ainda despertam em grande parte de seus “súditos” e em diversos países mundo afora. Kongens Nei apresenta bem a admiração, o fascínio e o respeito das pessoas com o rei e a sua família. Eles são figuras praticamente sem autoridade hoje em dia, mas ainda despertam muito interessem, ditam moda e parecem sempre ser símbolo de comportamento e valores para as sociedades em que eles ainda tem uma função diplomática.

Kongens Nei estreou em uma seção especial no Castelo Real de Oslo no dia 16 de setembro de 2016. Nos cinemas da Noruega o filme estreou pouco depois, no dia 23 de setembro. Depois, o filme participou do Filmfest Oslo e, no dia 10 de janeiro, no Festival de Cinema Internacional de Palm Springs. Não há informações sobre prêmios para a produção até o momento.

O diretor norueguês Erik Poppe tem seis filmes no currículo. Ele estreou em 1998 com o longa Schpaaa, dirigiu quatro episódios da série de TV Brigaden e, depois, fez os filmes Hawaii, Oslo; DeUsynlige e Tusen Ganger God Natt, este último o seu filme mais conhecido. Da minha parte, Kongens Nei é o primeiro filme dele que eu assisto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Não há críticas sobre o filme no site Rotten Tomatoes, o que só demonstra como ele é um grande “desconhecido” entre os críticos e, francamente, tem chances zero no Oscar 2017. Aliás, me admira ele ter avançado na disputa.

Esta é uma produção 100% da Noruega.

CONCLUSÃO: Apenas o fascínio dos votantes da Academia para filmes que contam histórias da Segunda Guerra Mundial para justificar o avanço de Kongens Nei na disputa ao Oscar. Esta produção, que é apenas mediana, não tem nem uma história realmente fascinante e nem ao menos algum outro recurso que justificaria ele figurar na lista dos possíveis indicados. Pessoalmente, prefiro outros filmes que ficaram de fora da lista, como Elle e até o espanhol Julieta. É um filme para ser visto por pura curiosidade, porque ele realmente está longe de ser marcante.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Seria uma grande forçada de barra se Kongens Nei avançasse e chegasse a ser indicado ao prêmio da Academia. Ele já pode se considerar um vencedor por ter chegado a figurar na pré-lista dos nove filmes que avançaram na disputa.

Da minha parte, até o momento, acredito que devem ser indicados como os cinco finalistas em Melhor Filme em Língua Estrangeira os filmes Toni Erdmann (comentado aqui), The Salesman, Land of Mine (com crítica neste link), A Man Called Ove (comentado aqui) e um dos outros quatro na disputa – My Life as a Zucchini, Tanna, Paradise ou It’s Only the End of the World.

Não consigo cravar os indicados nesta categoria porque eu ainda preciso assistir a estes últimos quatro da lista de nove pré-finalistas. Mas entre o outros quatro que eu já assisti, não tenho dúvida que os três citados, com exceção de The Salesman, eu ainda não consegui assistir, mas que é um dos favoritos na disputa, devem avançar. Ou, pelo menos, merecem.

PEQUENO AVISO: Meus caros leitores aqui do blog, eu vou seguir com as publicações normais até o Oscar 2017, para seguir uma tradição aqui do blog. Mas passada a premiação, se eu não tiver conseguido uma boa adesão na campanha de apoio ao blog, eu vou dedicar mais tempo para outras atividades que me deem retorno financeiro e vou tornar as atualizações aqui mais escassas ou bem mais sucintas. Se você quer ajudar o blog a continuar como ele está agora ou até a ampliar a frequência de publicações, sugiro o apoio a este projeto:

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