Quand on a 17 Ans – Being 17 – Quando se Tem 17 Anos


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Muitas descobertas ocorrem quando somos adolescentes. Esta é a fase da vida em que aprendemos muito sobre nós mesmos e, principalmente, sobre os outros. Quand on a 17 Ans fala justamente sobre algumas destas descobertas e sobre outros temas importantes – e não apenas para adolescentes. Como normalmente acontece com o cinema francês, neste filme temos, mais uma vez, um olhar cuidadoso, atento e muito sincero sobre realidades que nem sempre outros cinemas se preocupam em abordar. Mais um filme francês interessante, ainda que, serei franca, ele não traz nenhuma grande novidade em narrativa ou em sua abordagem.

A HISTÓRIA: Paisagens passam rápido. Ruas, um túnel. E, de repente, aquelas paisagens bucólicas e primaveris dão lugar para cenários repletos de neve. Esse é o primeiro trimestre. Thomas (Corentin Fila) caminha cheio de roupa sobre a neve. Em um ponto de ônibus, ele lê um livro enquanto espera o transporte. Dentro do veículo, que tem alguns outros jovens, ele olha a paisagem. Na escola, o professor de educação física diz para dois alunos escolherem os seus times. Pouco a pouco, todos os jovens da turma são chamados, menos Thomas e Damien (Kacey Mottet Klein) para o final. Os rapazes se olham, se examinam. Na sala de aula, Damien recita uma poesia. Quando ele termina e caminha para o seu lugar, Thomas lhe passa a perna e faz Damien cair. E este é apenas o começo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Quand on a 17 Ans): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o início, é que ele foge dos cenários franceses urbanos com os quais já nos acostumamos. Quand on a 17 Ans não se passa em Paris, Lyon ou em alguma outra cidade importante da França. Não. A história é toda desenvolvida em uma pequena cidade do interior. Um município que fica entre montanhas e que tem alguns habitantes que vivem mais isolados, na montanha.

Este é o ambiente. O contexto é o escolar – e das famílias dos adolescentes que se encontram em uma escola. Todos nós já vivemos esse contexto. A escola é um local de aprendizado, de estudo, de dedicação, de amizades e de alguns desafios e, às vezes, desafetos. Ali que aprendemos sobre as principais áreas do conhecimento e também sobre pessoas e as suas relações. Quand on a 17 Ans foca, neste ambiente, em dois jovens que tem problemas entre si.

Thomas e Damien não são populares. Muito pelo contrário. Eles vivem grande parte do tempo sozinhos, isolados, e não parecem gostar um do outro. Thomas agride primeiro, mas Damien resolve se preparar com o vizinho Paulo (Jean Corso) para poder revidar à altura quando for necessário. Neste início da produção, vemos uma situação clássica de bullying e de rivalidade dentro de uma escola. Thomas e Damien vivem se medindo, e cada um se prepara para revidar contra o outro quando possível.

O que pode resultar deste cenário? Certamente uma sequência de desentendimentos até que um quebre a cara do outro ou até que eles saiam do colégio e vão para a universidade. Nesta fase inicial da produção, nos questionamos o que pode provocar tanta aversão de Thomas em relação a Damien. Seria inveja? Afinal, Thomas é adotado e mora em um local isolado. Nas horas vagas, ele deve ajudar o pai na criação dos animais. Enfim, não tem uma vida nada fácil. Enquanto isso, Damien ganha caronas diárias da mãe, que é médica, e parece ter tudo que precisa “sem esforços”.

Além dos jovens se conhecerem do colégio, outro ponto de contato acontece entre eles através de suas famílias. Em uma certa noite, a mãe de Damien, a Dra. Marianne (Sandrine Kiberlain), é chamada para atender à mãe de Thomas, Christine (Mama Prassinos). Nesta visita, Marianne fica desconfiada que Christine esteja grávida. Ela já tentou engravidar antes, mas nunca teve sucesso na tentativa de ter um filho próprio do casal. Mas, desta vez, com a gravidez identificada cedo, Marianne acredita que ela poderá ter o filho ou filha, desde que tenha alguns cuidados.

Depois de algumas novas agressões, Marianne é chamada para o colégio. Conhecendo um pouco da realidade de Thomas, ela não simplesmente defende o filho e ataca o “agressor” dele, como muitos pais – talvez mais brasileiros – fazem. Não. E este é o primeiro grande ensinamento deste filme. Se você quer ensinar o seu filho bons valores, você deve ensinar com o exemplo. Marianne não busca colocar toda a culpa no jovem que ela mal conhece e defender apenas o filho, ou sugerir que eles tentem se evitar. Ao invés disso, ela estimula que os dois tenham uma convivência próxima.

Vendo a dificuldade de Thomas com os estudos pela realidade que ele vive, Marianne sugere que o jovem passe um tempo na casa deles, na cidade, e que Damien o ajude no aprendizado. Que bela mensagem esta, não? Muitas vezes os ódios e a violência surgem da falta de contato de uma realidade diferente com a outra. O que não entendemos, podemos pensar em odiar. Quando nos aproximamos e passamos a conhecer o que é diferente, podemos ver as semelhanças que temos, aquilo que nos une, e passamos a ter mais empatia, afeto, respeito.

Este é um dos aprendizados bacana deste filme singelo. Mas ele não termina de nos surpreender por aqui. O roteiro escrito pelo diretor André Téchiné e por Céline Sciamma tem pelo menos uma bela reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muitas vezes não gostamos de alguém por aquela pessoa ser diferente da gente. Nem percebemos exatamente o que nos incomoda, mas reagimos àquilo. Especialmente quando somos jovens. Adultos, somos mais capazes – ou deveríamos ser – de pensarmos no diferente e de tentarmos aceitá-lo. Mas na adolescência, achamos “normal” não gostar de algumas pessoas e isolá-las do nosso convívio.

O famoso “eu não vou com a cara dele(a)” muitas vezes não tem uma explicação racional. É pela forma com que a pessoa nos olha, ou pelo simples fato dela existir de uma forma diferente do qual estamos acostumados. Os motivos de “estranheza” são variados e, nem sempre quando somos jovens, identificamos realmente as causas do desconforto, do que nos incomoda ou nos afasta do outro. Pois bem, neste filme estas questões não ficam sem respostas. Quando os pais de Damien incentivam o jovem Thomas a viver na casa deles, mais perto da escola, os dois adolescentes não podem mais se evitar. Eles devem aprender a conviver juntos e lidar com tudo que lhes incomoda.

Quando entram neste processo é que o que estava escondido vem para a superfície. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Damien e Thomas se aproximam, viram amigos, param de se odiar, e é assim que Damien tem coragem de falar sobre a atração que tem por Thomas. Isso não estava evidente antes, mas tudo fica mais claro quando Damien começa a se soltar. Ele sempre esteve atraído por Thomas e, possivelmente, o outro sentia esta “energia” e não sabia lidar bem com a situação.

Neste segundo momento da produção, Quand on a 17 Ans entra em outro momento de aprendizado e de “autoconhecimento” dos seus personagens. Damien tem que lidar com a própria descoberta da sexualidade, enquanto Thomas não parece corresponder ao que o novo amigo sente. Eles passam por diversos desafios, cada um na sua família – Thomas deve aprender a não ser mais o filho único do casal Chardoul enquanto Damien tem que lidar com a morte do pai, o piloto de aviões da Aeronáutica francesa Nathan (Alexis Loret).

Ou seja, os dois jovens passam por momentos difíceis sozinhos – ainda que, na prática, eles não estejam isolados. Só que, na realidade particular de cada um, e eles começam a aprender sobre isso, cada indivíduo lida com as suas experiências de forma solitária. Thomas tem um contato forte com a Natureza, e costuma viver situações fortes na montanha para lidar com as frustrações/preocupações que está sentindo. Enquanto isso, Damien vive no conforto do seu lar as suas próprias aflições. Muito do que ele sente ele lida na solidão de seu quarto.

Os dois jovens, desta forma, lidam com os seus próprios desafios nos ambientes em que eles se sentem seguros. Quando finalmente Damien externaliza o que ele sente por Thomas, o alvo da paixão dele não reage bem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, passado o momento da surpresa e do medo, eles acabam cedendo ao desejo e ficam juntos. Não sabemos muito bem como essa história vai terminar, se mal ou bem. Mas é bacana ver o processo de aprendizado e de autodescoberta dos dois jovens. Cada um vindo de uma realidade tão diferente, com um “background” tão diverso, mas que acabam se entendendo, se respeitando e se amando.

No fim das contas, Quand on a 17 Ans não trata apenas de adolescentes e de suas descobertas, mas também sobre a capacidade que todos nós temos – e que não deveríamos perder nunca – de aprender com a gente e com os outros, de nos envolvermos e de sentirmos compaixão e afeto pelos demais. Quando baixamos a nossa guarda e paramos de lutar uns com os outros, podemos olhar nos olhos da outra pessoa e ver o que temos em comum. Podemos amar, sem julgamentos, e cuidar para que a outra pessoa não se fira de forma gratuita.

Este é um filme simples, singelo, que nos conta uma história pouco focada pelo cinema – mesmo o francês. É bom sair das paisagens com as quais estamos acostumados e olhar para um grupo de pessoas com as quais, talvez, não tenhamos muito contato. Tem um tempo que eu deixei de ser adolescente. Hoje, tenho pouco contato com este público. Mas sei, de ouvir muitas pessoas que tem contatos com eles falar, que esta geração atual de jovens é muito mais aberta ao diferente e à experimentação. Eles não estão tão apegados a rótulos como “eu sou homossexual” ou “eu sou heterossexual”. São mais abertos à experiências e ao amor, venha ele da onde vier.

Por isso achei tão interessante este filme. Acho que ele aborda estes temas bem, sem ignorar que ainda existe grande estranheza e “rivalidade” entre os diferentes no ambiente escolar. Até porque é ali, na escola, em que aprendemos a conviver com realidades diversas, onde formamos a nossa ética no dia a dia. Acho que Quand on a 17 Ans mostra tudo isso muito bem, e de uma forma muito natural, quase documental. É um verdadeiro alívio encontrar filmes que tratam sobre pessoas e não focam apenas em efeitos especiais.

Devemos ter atenção e aprender com os jovens. Olhar para eles com carinho e saber o que eles pensam e sentem. Além de mostrar a realidade de pessoas comuns com bastante sinceridade, este filme tem o mérito de não seguir uma linha de confronto ou de violência. Assim, Quand on a 17 Ans nos mostra sim que é possível a aproximação e o entendimento entre diferentes. Que da estranheza e da violência pode surgir o amor.

Em um mundo em que as pessoas estão se acostumando cada vez mais a viverem divididas, é importante ter uma produção como esta, com mensagens tão positivas, para variar. Eu só não dei uma nota maior para a produção porque eu achei que a “virada” de Thomas em relação a Damien poderia ter sido um pouco mais realista, ter ocorrido de uma maneira um pouco mais gradativa do que a que vemos no filme. Apenas a parte dele – o ator é esforçado, mas não é tão bom quanto o parceiro de cena – e que poderia ter sido melhor desenvolvida. Mas, no geral, é um belo filme.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como ocorre com frequência no cinema francês, o ponto forte de Quand on a 17 Ans é o seu roteiro. Mérito do diretor André Téchiné e de Céline Sciamma. Eles conseguem envolver o espectador em uma narrativa que vai, pouco a pouco, se aprofundando na realidade de cada um dos personagens centrais, mas sem que este processo seja “forçado”. Conhecemos mais de Thomas e de Damien de forma natural. Conforme os trimestres vão passando e o ano escolar e as estações vão mudando, a história também avança e amadurece. Um belo trabalho dos roteiristas.

Os atores são bons mas, como eu comentei antes, achei o trabalho do jovem Kacey Mottet Klein mais bem acabado do que do parceiro de cena Corentin Fila. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Enquanto Damien vai se descobrindo e se revelando aos poucos e as mudanças pelas quais ele passa são bem transmitidas pelo jovem ator que o interpreta, o mesmo não pode ser falado sobre Thomas. Sim, verdade que o personagem dele é mais quieto e vem de uma paisagem mais “agreste”. Mas não deixa de ser um tanto estranha a mudança dele de grande resistência à ideia de ter alguma relação amorosa com Damien até a parte em que ele cede ao amigo. Verdade que, em alguns outros momentos, Thomas parece não ser tão resistente a Damien… mas então por que ele reage de forma virulenta em duas ocasiões?

Sim, é verdade que os adolescentes, muitas vezes por não saberem exatamente o que querem ou o que sentem, reagem de maneira intempestiva e um tanto “sem pensar”. Esta questão da idade pode ajudar a explicar um pouco da falta de coerência do personagem de Thomas. Mas acho também que o roteiro e/ou o ator poderiam ter tido um desempenho um pouco melhor para que o desenvolvimento da história, quase sempre natural e coerente, pudesse ocorrer de forma ideal nesta parte da resistência e da aceitação de Thomas também.

Entre as qualidades do filme, além do bom roteiro de Téchiné e de Sciamma, vale destacar o bom trabalho de Téchiné na direção. Como eu disse antes, ele segue um pouco a linha quase de documentário. Está com a câmera sempre próxima dos atores e mostrando não apenas as suas reações em cada momento da história mas também o contexto em que eles estão vivendo. Então o filme também se preocupa com os cenários da escola, das casas e dos entornos dos dois jovens. No fim das contas, é isso que interessa para a produção e para entendermos melhor os personagens.

Este filme, como tantos outros do cinema francês, é focado na construção da história focada nos personagens. Por isso mesmo, é tão importante que os atores em cena sejam bons. Os jovens Kacey Mottet Klein e Corentin Fila fazem um bom trabalho. Eles são carismáticos e vão revelando mais de seus personagens aos poucos. Entre os atores adultos, o destaque, sem dúvida, vai para a experiente Sandrine Kiberlain. Ela brilha em cada momento que aparece em cena. Fazem um bom trabalho também, ainda que apareçam menos em cena, Alexis Loret, Mama Prassinos e Jean Fornerod – este último interpretando Jacques, pai de Thomas. Jean Corso também faz um bom trabalho como o coadjuvante Paulo.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa fotografia de Julien Hirsch e a edição de Albertine Lastera. A trilha sonora é muito, muito pontual. Para quem gostou dela, vale comentar que ela é assinada por Alexis Rault.

Quand on a 17 Ans estreou em fevereiro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o final de outubro de 2017 este filme participou/participaria ainda de outros 31 festivais pelo mundo. Um número realmente impressionante. Um filme de festivais, pois.

Em sua trajetória até o momento, Quand on a 17 Ans ganhou dois prêmios e foi indicado a outros nove. Ele ganhou os prêmios de Melhor Revelação Masculina para Kacey Mottet Klein no Cabourg Romantic Film Festival e o Grande Prêmio do Júri para André Téchiné no Outfest.

Este filme é uma coprodução da França com a Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme singelo e que fala sobre pessoas comuns. Elas não moram em Paris, ou em algum outro centro urbano francês. Moram sim em uma pequena cidade que tem alguns habitantes “nas montanhas”. A vida por ali não é fácil, mas todos procuram fazer o melhor possível. E neste cenário, como em qualquer outra parte, os jovens se descobrem. Aprendem diariamente sobre eles e sobre os outros e também nos ensinam. Quand on a 17 Ans nos mostra, por exemplo, a importância do aprendizado e da aceitação das diferenças e de quem se é. Também aprendemos que nem tudo acontece como queremos, mas que o importante é tirar o melhor de cada fase. Um belo filme, bastante sensível e honesto. Ou seja, bem francês. 😉

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