Quand on a 17 Ans – Being 17 – Quando se Tem 17 Anos

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Muitas descobertas ocorrem quando somos adolescentes. Esta é a fase da vida em que aprendemos muito sobre nós mesmos e, principalmente, sobre os outros. Quand on a 17 Ans fala justamente sobre algumas destas descobertas e sobre outros temas importantes – e não apenas para adolescentes. Como normalmente acontece com o cinema francês, neste filme temos, mais uma vez, um olhar cuidadoso, atento e muito sincero sobre realidades que nem sempre outros cinemas se preocupam em abordar. Mais um filme francês interessante, ainda que, serei franca, ele não traz nenhuma grande novidade em narrativa ou em sua abordagem.

A HISTÓRIA: Paisagens passam rápido. Ruas, um túnel. E, de repente, aquelas paisagens bucólicas e primaveris dão lugar para cenários repletos de neve. Esse é o primeiro trimestre. Thomas (Corentin Fila) caminha cheio de roupa sobre a neve. Em um ponto de ônibus, ele lê um livro enquanto espera o transporte. Dentro do veículo, que tem alguns outros jovens, ele olha a paisagem. Na escola, o professor de educação física diz para dois alunos escolherem os seus times. Pouco a pouco, todos os jovens da turma são chamados, menos Thomas e Damien (Kacey Mottet Klein) para o final. Os rapazes se olham, se examinam. Na sala de aula, Damien recita uma poesia. Quando ele termina e caminha para o seu lugar, Thomas lhe passa a perna e faz Damien cair. E este é apenas o começo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Quand on a 17 Ans): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o início, é que ele foge dos cenários franceses urbanos com os quais já nos acostumamos. Quand on a 17 Ans não se passa em Paris, Lyon ou em alguma outra cidade importante da França. Não. A história é toda desenvolvida em uma pequena cidade do interior. Um município que fica entre montanhas e que tem alguns habitantes que vivem mais isolados, na montanha.

Este é o ambiente. O contexto é o escolar – e das famílias dos adolescentes que se encontram em uma escola. Todos nós já vivemos esse contexto. A escola é um local de aprendizado, de estudo, de dedicação, de amizades e de alguns desafios e, às vezes, desafetos. Ali que aprendemos sobre as principais áreas do conhecimento e também sobre pessoas e as suas relações. Quand on a 17 Ans foca, neste ambiente, em dois jovens que tem problemas entre si.

Thomas e Damien não são populares. Muito pelo contrário. Eles vivem grande parte do tempo sozinhos, isolados, e não parecem gostar um do outro. Thomas agride primeiro, mas Damien resolve se preparar com o vizinho Paulo (Jean Corso) para poder revidar à altura quando for necessário. Neste início da produção, vemos uma situação clássica de bullying e de rivalidade dentro de uma escola. Thomas e Damien vivem se medindo, e cada um se prepara para revidar contra o outro quando possível.

O que pode resultar deste cenário? Certamente uma sequência de desentendimentos até que um quebre a cara do outro ou até que eles saiam do colégio e vão para a universidade. Nesta fase inicial da produção, nos questionamos o que pode provocar tanta aversão de Thomas em relação a Damien. Seria inveja? Afinal, Thomas é adotado e mora em um local isolado. Nas horas vagas, ele deve ajudar o pai na criação dos animais. Enfim, não tem uma vida nada fácil. Enquanto isso, Damien ganha caronas diárias da mãe, que é médica, e parece ter tudo que precisa “sem esforços”.

Além dos jovens se conhecerem do colégio, outro ponto de contato acontece entre eles através de suas famílias. Em uma certa noite, a mãe de Damien, a Dra. Marianne (Sandrine Kiberlain), é chamada para atender à mãe de Thomas, Christine (Mama Prassinos). Nesta visita, Marianne fica desconfiada que Christine esteja grávida. Ela já tentou engravidar antes, mas nunca teve sucesso na tentativa de ter um filho próprio do casal. Mas, desta vez, com a gravidez identificada cedo, Marianne acredita que ela poderá ter o filho ou filha, desde que tenha alguns cuidados.

Depois de algumas novas agressões, Marianne é chamada para o colégio. Conhecendo um pouco da realidade de Thomas, ela não simplesmente defende o filho e ataca o “agressor” dele, como muitos pais – talvez mais brasileiros – fazem. Não. E este é o primeiro grande ensinamento deste filme. Se você quer ensinar o seu filho bons valores, você deve ensinar com o exemplo. Marianne não busca colocar toda a culpa no jovem que ela mal conhece e defender apenas o filho, ou sugerir que eles tentem se evitar. Ao invés disso, ela estimula que os dois tenham uma convivência próxima.

Vendo a dificuldade de Thomas com os estudos pela realidade que ele vive, Marianne sugere que o jovem passe um tempo na casa deles, na cidade, e que Damien o ajude no aprendizado. Que bela mensagem esta, não? Muitas vezes os ódios e a violência surgem da falta de contato de uma realidade diferente com a outra. O que não entendemos, podemos pensar em odiar. Quando nos aproximamos e passamos a conhecer o que é diferente, podemos ver as semelhanças que temos, aquilo que nos une, e passamos a ter mais empatia, afeto, respeito.

Este é um dos aprendizados bacana deste filme singelo. Mas ele não termina de nos surpreender por aqui. O roteiro escrito pelo diretor André Téchiné e por Céline Sciamma tem pelo menos uma bela reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muitas vezes não gostamos de alguém por aquela pessoa ser diferente da gente. Nem percebemos exatamente o que nos incomoda, mas reagimos àquilo. Especialmente quando somos jovens. Adultos, somos mais capazes – ou deveríamos ser – de pensarmos no diferente e de tentarmos aceitá-lo. Mas na adolescência, achamos “normal” não gostar de algumas pessoas e isolá-las do nosso convívio.

O famoso “eu não vou com a cara dele(a)” muitas vezes não tem uma explicação racional. É pela forma com que a pessoa nos olha, ou pelo simples fato dela existir de uma forma diferente do qual estamos acostumados. Os motivos de “estranheza” são variados e, nem sempre quando somos jovens, identificamos realmente as causas do desconforto, do que nos incomoda ou nos afasta do outro. Pois bem, neste filme estas questões não ficam sem respostas. Quando os pais de Damien incentivam o jovem Thomas a viver na casa deles, mais perto da escola, os dois adolescentes não podem mais se evitar. Eles devem aprender a conviver juntos e lidar com tudo que lhes incomoda.

Quando entram neste processo é que o que estava escondido vem para a superfície. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Damien e Thomas se aproximam, viram amigos, param de se odiar, e é assim que Damien tem coragem de falar sobre a atração que tem por Thomas. Isso não estava evidente antes, mas tudo fica mais claro quando Damien começa a se soltar. Ele sempre esteve atraído por Thomas e, possivelmente, o outro sentia esta “energia” e não sabia lidar bem com a situação.

Neste segundo momento da produção, Quand on a 17 Ans entra em outro momento de aprendizado e de “autoconhecimento” dos seus personagens. Damien tem que lidar com a própria descoberta da sexualidade, enquanto Thomas não parece corresponder ao que o novo amigo sente. Eles passam por diversos desafios, cada um na sua família – Thomas deve aprender a não ser mais o filho único do casal Chardoul enquanto Damien tem que lidar com a morte do pai, o piloto de aviões da Aeronáutica francesa Nathan (Alexis Loret).

Ou seja, os dois jovens passam por momentos difíceis sozinhos – ainda que, na prática, eles não estejam isolados. Só que, na realidade particular de cada um, e eles começam a aprender sobre isso, cada indivíduo lida com as suas experiências de forma solitária. Thomas tem um contato forte com a Natureza, e costuma viver situações fortes na montanha para lidar com as frustrações/preocupações que está sentindo. Enquanto isso, Damien vive no conforto do seu lar as suas próprias aflições. Muito do que ele sente ele lida na solidão de seu quarto.

Os dois jovens, desta forma, lidam com os seus próprios desafios nos ambientes em que eles se sentem seguros. Quando finalmente Damien externaliza o que ele sente por Thomas, o alvo da paixão dele não reage bem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, passado o momento da surpresa e do medo, eles acabam cedendo ao desejo e ficam juntos. Não sabemos muito bem como essa história vai terminar, se mal ou bem. Mas é bacana ver o processo de aprendizado e de autodescoberta dos dois jovens. Cada um vindo de uma realidade tão diferente, com um “background” tão diverso, mas que acabam se entendendo, se respeitando e se amando.

No fim das contas, Quand on a 17 Ans não trata apenas de adolescentes e de suas descobertas, mas também sobre a capacidade que todos nós temos – e que não deveríamos perder nunca – de aprender com a gente e com os outros, de nos envolvermos e de sentirmos compaixão e afeto pelos demais. Quando baixamos a nossa guarda e paramos de lutar uns com os outros, podemos olhar nos olhos da outra pessoa e ver o que temos em comum. Podemos amar, sem julgamentos, e cuidar para que a outra pessoa não se fira de forma gratuita.

Este é um filme simples, singelo, que nos conta uma história pouco focada pelo cinema – mesmo o francês. É bom sair das paisagens com as quais estamos acostumados e olhar para um grupo de pessoas com as quais, talvez, não tenhamos muito contato. Tem um tempo que eu deixei de ser adolescente. Hoje, tenho pouco contato com este público. Mas sei, de ouvir muitas pessoas que tem contatos com eles falar, que esta geração atual de jovens é muito mais aberta ao diferente e à experimentação. Eles não estão tão apegados a rótulos como “eu sou homossexual” ou “eu sou heterossexual”. São mais abertos à experiências e ao amor, venha ele da onde vier.

Por isso achei tão interessante este filme. Acho que ele aborda estes temas bem, sem ignorar que ainda existe grande estranheza e “rivalidade” entre os diferentes no ambiente escolar. Até porque é ali, na escola, em que aprendemos a conviver com realidades diversas, onde formamos a nossa ética no dia a dia. Acho que Quand on a 17 Ans mostra tudo isso muito bem, e de uma forma muito natural, quase documental. É um verdadeiro alívio encontrar filmes que tratam sobre pessoas e não focam apenas em efeitos especiais.

Devemos ter atenção e aprender com os jovens. Olhar para eles com carinho e saber o que eles pensam e sentem. Além de mostrar a realidade de pessoas comuns com bastante sinceridade, este filme tem o mérito de não seguir uma linha de confronto ou de violência. Assim, Quand on a 17 Ans nos mostra sim que é possível a aproximação e o entendimento entre diferentes. Que da estranheza e da violência pode surgir o amor.

Em um mundo em que as pessoas estão se acostumando cada vez mais a viverem divididas, é importante ter uma produção como esta, com mensagens tão positivas, para variar. Eu só não dei uma nota maior para a produção porque eu achei que a “virada” de Thomas em relação a Damien poderia ter sido um pouco mais realista, ter ocorrido de uma maneira um pouco mais gradativa do que a que vemos no filme. Apenas a parte dele – o ator é esforçado, mas não é tão bom quanto o parceiro de cena – e que poderia ter sido melhor desenvolvida. Mas, no geral, é um belo filme.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como ocorre com frequência no cinema francês, o ponto forte de Quand on a 17 Ans é o seu roteiro. Mérito do diretor André Téchiné e de Céline Sciamma. Eles conseguem envolver o espectador em uma narrativa que vai, pouco a pouco, se aprofundando na realidade de cada um dos personagens centrais, mas sem que este processo seja “forçado”. Conhecemos mais de Thomas e de Damien de forma natural. Conforme os trimestres vão passando e o ano escolar e as estações vão mudando, a história também avança e amadurece. Um belo trabalho dos roteiristas.

Os atores são bons mas, como eu comentei antes, achei o trabalho do jovem Kacey Mottet Klein mais bem acabado do que do parceiro de cena Corentin Fila. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Enquanto Damien vai se descobrindo e se revelando aos poucos e as mudanças pelas quais ele passa são bem transmitidas pelo jovem ator que o interpreta, o mesmo não pode ser falado sobre Thomas. Sim, verdade que o personagem dele é mais quieto e vem de uma paisagem mais “agreste”. Mas não deixa de ser um tanto estranha a mudança dele de grande resistência à ideia de ter alguma relação amorosa com Damien até a parte em que ele cede ao amigo. Verdade que, em alguns outros momentos, Thomas parece não ser tão resistente a Damien… mas então por que ele reage de forma virulenta em duas ocasiões?

Sim, é verdade que os adolescentes, muitas vezes por não saberem exatamente o que querem ou o que sentem, reagem de maneira intempestiva e um tanto “sem pensar”. Esta questão da idade pode ajudar a explicar um pouco da falta de coerência do personagem de Thomas. Mas acho também que o roteiro e/ou o ator poderiam ter tido um desempenho um pouco melhor para que o desenvolvimento da história, quase sempre natural e coerente, pudesse ocorrer de forma ideal nesta parte da resistência e da aceitação de Thomas também.

Entre as qualidades do filme, além do bom roteiro de Téchiné e de Sciamma, vale destacar o bom trabalho de Téchiné na direção. Como eu disse antes, ele segue um pouco a linha quase de documentário. Está com a câmera sempre próxima dos atores e mostrando não apenas as suas reações em cada momento da história mas também o contexto em que eles estão vivendo. Então o filme também se preocupa com os cenários da escola, das casas e dos entornos dos dois jovens. No fim das contas, é isso que interessa para a produção e para entendermos melhor os personagens.

Este filme, como tantos outros do cinema francês, é focado na construção da história focada nos personagens. Por isso mesmo, é tão importante que os atores em cena sejam bons. Os jovens Kacey Mottet Klein e Corentin Fila fazem um bom trabalho. Eles são carismáticos e vão revelando mais de seus personagens aos poucos. Entre os atores adultos, o destaque, sem dúvida, vai para a experiente Sandrine Kiberlain. Ela brilha em cada momento que aparece em cena. Fazem um bom trabalho também, ainda que apareçam menos em cena, Alexis Loret, Mama Prassinos e Jean Fornerod – este último interpretando Jacques, pai de Thomas. Jean Corso também faz um bom trabalho como o coadjuvante Paulo.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa fotografia de Julien Hirsch e a edição de Albertine Lastera. A trilha sonora é muito, muito pontual. Para quem gostou dela, vale comentar que ela é assinada por Alexis Rault.

Quand on a 17 Ans estreou em fevereiro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o final de outubro de 2017 este filme participou/participaria ainda de outros 31 festivais pelo mundo. Um número realmente impressionante. Um filme de festivais, pois.

Em sua trajetória até o momento, Quand on a 17 Ans ganhou dois prêmios e foi indicado a outros nove. Ele ganhou os prêmios de Melhor Revelação Masculina para Kacey Mottet Klein no Cabourg Romantic Film Festival e o Grande Prêmio do Júri para André Téchiné no Outfest.

Este filme é uma coprodução da França com a Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme singelo e que fala sobre pessoas comuns. Elas não moram em Paris, ou em algum outro centro urbano francês. Moram sim em uma pequena cidade que tem alguns habitantes “nas montanhas”. A vida por ali não é fácil, mas todos procuram fazer o melhor possível. E neste cenário, como em qualquer outra parte, os jovens se descobrem. Aprendem diariamente sobre eles e sobre os outros e também nos ensinam. Quand on a 17 Ans nos mostra, por exemplo, a importância do aprendizado e da aceitação das diferenças e de quem se é. Também aprendemos que nem tudo acontece como queremos, mas que o importante é tirar o melhor de cada fase. Um belo filme, bastante sensível e honesto. Ou seja, bem francês. 😉

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Violette

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Vidas aparentemente ordinárias podem revelar-se tão extraordinárias quanto a dos ídolos que vamos conhecendo com o tempo. Violette conta a história de uma escritora menos conhecida, mas que foi rodeada por nomes famosos. Nesta história, conhecemos não apenas a trajetória dela e de suas relações com os famosos, mas principalmente refletimos sobre os efeitos duradouros que a rejeição dos pais podem provocar na vida de uma pessoa. Um filme profundo, que trata de vidas complicadas e intensas. Recomendado se você não estiver procurando um filme para “relaxar”. Essa produção é tudo, menos relaxante.

A HISTÓRIA: Começa com a frase de que a feiura em uma mulher é um pecado mortal. Se ela é bela, é notada por isso. E o mesmo vale para a feiura. O dia está amanhecendo, e Violette Leduc (Emmanuelle Devos) caminha depressa por uma floresta, abandonando uma mala pesada no caminho enquanto os latidos dos cães se aproximam. Ela é presa, porque carregava uma mala com comida escondida. Corta. Capítulo 1: Maurice. Violette caminha por uma floresta, mas desta vez sem os latidos dos cães. Ela está chegando em casa. Logo que entra, deve deixar o dinheiro que conseguiu com um velho. Chegando no quarto, Maurice Sachs (Olivier Py) pede que ela não faça barulho. Este é apenas um dos importantes relacionamentos que fará a personagem de Violette ser conhecida como uma escritora libertária.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Violette): Faz mais de uma semana que eu assisti a esse filme, mas só agora consigo escrever sobre ele. Na memória, lembranças frescas do ótimo trabalho da atriz Emmanuelle Devos, que dá peso para a história em uma interpretação firme e convincente. A direção cuidadosa e que valoriza o trabalho da protagonista feita por Martin Provost, que assina o roteiro ao lado de Marc Abdelnour e René de Ceccatt, também é um diferencial da produção.

Sendo franca, eu nunca li nada assinado por Violette Leduc. Por isso mesmo fiquei fascinada com esta história nem tanto pela protagonista, mas pelo círculo que ela frequentou, especialmente por ver um pouco do resgate histórico de uma de tantas leituras possíveis da conhecidíssima Simone de Beauvoir (interpretada por Sandrine Kiberlain). Esta sim, eu li. 🙂

Interessante perceber como Simone, apesar de tão conhecida, ser tão acessível. Ao ponto de receber a visita de uma desconhecida Violette e, de forma muito generosa, ler o que ela tinha a apresentar. Vendo ali um potencial a ser incentivado, Simone cuidou em dar apoio para a escritora iniciante, ainda que ela tivesse outras intenções com a aproximação. Francamente não sei até que ponto ela teve ou não um romance com Simone – o filme argumenta que a paixão foi apenas unidirecional, que partiu de Violette e não foi correspondida por Simone, mas francamente fiquei com as minhas dúvidas.

De qualquer forma, o filme é interessante por mostrar alguns ícones da cultura “libertária” e cheia de contradições daquela época, como Simone de Beauvoir, Jean Genet (Jacques Bonnaffé), Maurice Sachs, Yvon Belaval (Fabrizio Rongione), Louis Jouvet (Richard Chevallier), Gaston Gallimard (Marc Faure) e Jacques Lemarchand (Pierre-Alain Chapuis) fora das convenções, em momentos descontraídos e de intimidade. Assim, os ícones perdem um pouco o verniz de “deuses” e se tornam, também (e por que não?) ordinários. Lembrando que Gallimard e Lemarchand aparecem apenas em uma ponta.

Interessante ver a alguns destes nomes famosos em momentos de vida ordinária – especialmente Simone e Jean Genet -, com suas inseguranças, infantilidades e “pisadas na bola”. Mas há também boas intenções, especialmente de Simone, e uma longa jornada de autocompreensão e de perdão de momentos decisivos da própria vida por parte da protagonista. E esta, para mim, foi a parte mais tocante da produção.

Há tempos eu reflito sobre a capacidade que algumas pessoas tem – e outras não – em dar origem a novas gerações. Ter filhos, pelo ato simples de parir, parece fácil. Mas ter filhos é algo muito mais complexo e que exige responsabilidade. E talento, gosto sempre de observar. Nem todo mundo foi feito para ser mãe ou para ser pai. E quanto antes as pessoas se dão conta disso, melhor.

Digo isso porque Violette é, para mim, mais um de tantos exemplos de como a geração de uma pessoa sem responsabilidade pode cobrar um preço alto da pessoa inocente que foi gerada. Violette era uma “bastarda”. O peso de ter sido rejeitada é o que vai determinar boa parte de sua vida. Isso até que ela consegue começar a trilhar o caminho da libertação através da literatura. Uma de tantas artes que podem ajudar no processo de cura e, consequentemente, de libertação.

Pouco a pouco Violette consegue perdoar a mãe, Berthe Leduc (Catherine Hiegel), o pai, que não conheceu, e a própria história. Consequentemente, fica evidente que a carência eterna dela tem como fonte a falta de amor e de aceitação original. Uma constatação difícil de ser feita por quem sempre se sentiu rejeitada, mas que vista em perspectiva e após o início do processo de autoconhecimento e de cura, pode ser alcançada.

Muito bacana como Violette consegue trilhar esse caminho, mesmo que ele seja feito de muitas pedras, sofrimento e decepções. Mas no fim das contas, aparentemente, a escritora conseguiu aceitar melhor a própria história e, principalmente, encontrar um pouco de paz. Algo complicado, que exige paciência e tempo, mas que é possível. E desejável.

Encontrar uma história que trata destes temas de forma tão franca e, inevitavelmente, alguma vezes pesada, é importante. E necessário. Por isso mesmo, recomendo o filme para quem está disposto a confrontar-se com uma história densa, complicada, mas com alguns ensinamentos interessantes. E que, de quebra, ainda nos mostra alguns ídolos da literatura e do teatro por um ângulo diferenciado e mais próximo. Vale conferir, especialmente se você está em um dia de ver um filme mais “denso.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, destaque para a excelente e bela direção de fotografia de Yves Cape. Também gostei muito da trilha sonora de Hugues Tabar-Nouval e da edição de Ludo Troch. O trio é fundamental para a produção, com destaque especial para a trilha sonora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Levando em conta a média do site, esta é uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 24 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,1. Excelente nota, diga-se.

O único prêmio recebido por Violette foi uma Menção Especial para Emmanuelle Devos no Festival de Cinema Internacional de Haifa – quando ela foi citada também pelo trabalho na produção Le Temps de l’Aventure.

Eu gosto do diretor Martin Provost. Para ser franca, dos cinco longas e do único curta que ele dirigiu, assisti antes de Violette apenas a Séraphine (comentado aqui no blog). Achei o filme anterior dele mais excepcional que este Violette. Ainda assim, algo é preciso admitir: ele tem bom gosto na seleção de histórias interessantes e inusitadas. Espero que ele continue trilhando este caminho e com o olhar cuidadoso que ele tem, valorizando principalmente a direção de fotografia e as intérpretes em seus trabalhos.

Gente, corri para publicar este texto até o final da noite de domingo. Por isso mesmo, vou ficar devendo estas notas de final de texto. Logo que possível, complemento com mais informações, beleza? Até mais!

CONCLUSÃO: Esse não é um filme fácil. E nem poderia ser diferente. Afinal, a história destrincha boa parte da vida de Violette Leduc, uma escritora que foi contemporânea de Simone de Beauvoir, Jacques Guérin, Jean Genet, Maurice Sachs, Louis Jouvet e de Gaston Gallimard e, mais que isso, circulou entre eles. Honestamente, não sabia nada dela até então. Mas mais que nos mostrar alguns destes ídolos de perto, especialmente Simone de Beauvoir, este filme propicia uma reflexão interessante sobre as cicatrizes que a falta de amor pode provocar em uma pessoa.

Violette é rejeitada, como tantas pessoas que não nascem em lares estruturados, e a busca desesperada por aceitação e por carinho para estas pessoas é algo que deveria qualquer pessoa refletir antes de tomar decisões importantes na vida. Um filme interessante por mergulhar tanto na vida e nos sentimentos de uma escritora que penou muito para ser reconhecida e que, até hoje, não tem a popularidade de outros nomes de sua época. Interessante, mas denso. Por isso mesmo, não recomendo se você estiver apenas procurando um filme para relaxar. Este, definitivamente, não é o caso desta produção.

9 Mois Ferme – 9-Month Stretch – Uma Juíza Sem Juízo

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Algumas vezes é bom dar um tempo nos filmes sérios, existenciais e complexos e se jogar em uma produção “bobinha”. 9 Mois Ferme pode ser classificada nesta última categoria. Não existe, no filme, nenhuma grande reflexão e pouco espaço para a identificação do espectador. Mas há sim um belo trabalho de direção e dos atores. Eles fazem o filme valer o nosso tempo, assim como a história divertida e envolvente – além de inusitada.

A HISTÓRIA: Uma estátua da Justiça vendada e com sua tradicional balança equilibrada. A câmera se afasta. Ao redor daquela estátua, muitos sorrisos, flertes, bebidas e comemoração. É Ano-Novo. A câmera desliza seguindo bandejas, convidados, no compasso da música clássica, até chegar a um punhado de balões. Um deles se desprende e sai voando pela janela, chegando até o local de trabalho da juíza Ariane Felder (Sandrine Kiberlain). Ela narra a própria história, fala de suas convicções e das razões que a fazem não celebrar a virada de ano. Mas acaba cedendo ao apelo de um grupo de festeiros e sai para celebrar, sem saber que aquela noite iria mudar a vida dela para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 9 Mois Ferme): Normalmente eu gosto do que o cinema francês nos apresenta. Isso porque, no geral, as produções daquele país primam por histórias bem contadas, muitas delas com tom existencialista – ou seja, que nos fazem pensar sobre as nossas próprias vidas, seja no singular ou no plural. Mas mesmo quando o filme é mais “raso”, como no caso das comédias, a tendência é que encontremos produções de qualidade se a grife é francesa.

E com 9 Mois Ferme a regra segue valendo. Depois de vários filmes de ação e dramas, nada melhor do que mergulhar em uma comédia inteligente e cheia de ironias. Desta vez o ambiente é o do tribunal – aliás, não lembro de ter visto a outro filme tirando tanto sarro deste cenário tão cheio de drama e de suspense como este. E o romance liga duas pessoas que normalmente não veríamos unidas nunca – ou, melhor, apenas em outra posição, a da juíza que condena o criminoso.

Mesmo sendo uma comédia, contudo, 9 Mois Ferme toca em temas muito contemporâneos e interessantes. Para começar, o filme explorar a visão da mulher moderna, independente, que dedica a vida ao trabalho e que “abre mão” dos homens. O roteiro sagaz do diretor e ator Albert Dupontel, que teve a colaboração de Héctor Cabello Reyes e Olivier Demangel para escrever a história deste filme, também explora a realidade dos tribunais, que são vistos sem pompa ou circunstância, e também a cada vez mais frequente desestruturação das famílias.

Os dois protagonistas desta produção são frutos de lares desfeitos. Isso é o que une a juíza Ariane e o bandido Bob Nolan (o diretor e roteirista Albert Dupontel). Mas esta característica, segundo a própria Ariane, se espalhou mais que capim em terreno fértil e não cuidado. Vide os vários casos que ela atende das varas da família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por ironia completa, é justamente o protótipo de uma nova família o que acaba aproximando Ariane e Bob. Algo que não foi nem um pouco planejado e ideia que a protagonista combate por um bom período.

Ariane exemplifica o perfil de muitas mulheres de sucesso da atualidade. Ela tem 40 anos e se dedica totalmente ao trabalho, abrindo mão de relacionar-se com homens (e mulheres), sem sentir necessidade de ter uma vida sexual ativa, conseguindo prazer em outras atividades – como a dança. O mesmo se vê em várias partes – com a busca do prazer variando entre sair com os amigos e beber, dançar ou praticar um esporte atrás de adrenalina e endorfina.

Mas para ela basta uma noite de “loucuras” para que este “modelo perfeito” de vida controlada seja testado. Ela fica grávida, e não tem a menor ideia de quem. Fazendo os cálculos, ela descobre que engravidou na virada do ano. Primeiro, desconfia do colega De Bernard (Philippe Uchan), sujeito sem noção e bastante debochado – e que parece flertar com ela mais que o normal nos últimos meses.

Ela confronta o provável “culpado” de sua gravidez. Procura confirmar a suspeita fazendo um teste de DNA. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E é aí que ela fica sabendo da existência de Bob Nolan. Ele é acusado de um assalto que terminou quase em homicídio, um crime com requintes de crueldade. Como ele está preso, não é difícil para a juíza conseguir um “depoimento” do possível pai de seu filho. Ao saber pelo advogado gago Trolos (Nicolas Marié) que Ariane é uma juíza temida e muito inteligente, o nada esperto Bob dá um jeito de procurar a ajuda da magistrada, sem ao menos sonhar que eles já estão ligados por causa do Ano-Novo.

A narrativa de 9 Mois Ferme é veloz e envolvente. Não há espaço para bocejos ou para o tédio. O roteiro do filme faz rir sem apelações, ainda que escolha a via do exagero e da exploração dos estereótipos. Sabemos o que esperar de quase todos os personagens porque eles são apresentados de forma direta e honesta. Como pede uma boa comédia, não há viradas surpreendentes em 9 Mois Ferme, apenas uma narrativa que fica mais profunda conforme os personagens vão reagindo ao que acontece ao seu redor.

Em alguns momentos este filme me fez lembrar outras produções interessantes como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain e Lola Rennt. Em que sentido? Especialmente na narrativa rápida, concisa e inventiva (características de Lola Rennt), assim como na realidade fantasiada e na “reconstituição” de cenas passadas e/ou imaginadas que caracteriza Amélie Poulain. Estes elementos são bem utilizados por 9 Mois Ferme, com destaque para a direção inspirada de Dupontel e o roteiro bem escrito por ele e seus colaboradores.

Como acontece com tantas pessoas na vida real, uma noite de “destempero” de Ariane é o suficiente para mudar a vida da personagem. Mas isso só acontece de fato porque ela revê as próprias certezas e tem, para isso, uma ajudinha de Bob Nolan. Ele é fundamental não apenas na noite do Ano-Novo, mas também na intervenção que salva o filho da juíza quando ela, desesperada, tenta provocar um aborto ao atirar-se de uma altura considerável na sala de casa.

Há quem possa ver neste filme várias cenas exageradas – essa última, da tentativa de aborto, é uma delas. Mas sem exagero, o que seria feito das comédias? Esse gênero investe no escracho e no exagero de forma consciente. E cá entre nós, a vida mesma é feita de vários momentos assim. Então relaxe e aproveite este filme, ou pense nele como um bom passatempo. Além de ser envolvente e engraçado, 9 Mois Ferme nos fala sobre a nossa própria capacidade de reinvenção.

Algumas vezes, quando estamos distraídos e/ou resolvemos quebrar um pouco as nossas certezas bem sólidas, o inesperado pode acontecer e nos trazer presentes muito bacanas, como o amor e uma nova forma de encarar a vida. Sem tantas regras e sisudez, de uma maneira muito mais leve. Como este filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores escalados para fazer este filme estão ótimos. Todos. Mas com destaque especial para aqueles que dão vida para os protagonistas. Fiquei impressionada com a consistência de Albert Dupontel e Sandrine Kiberlain. Seja juntos ou separados, eles convencem em seus papéis e apresentam grande sintonia.

Falando em atores, vale citar uma ponta de primeira grandeza: o ator Jean Dujardin aparece como o tradutor para a língua de sinais de diversas matérias televisivas que apresentam o caso do bandido Bob Nolan. Quando o vi em cena, quase não acreditei. Mais uma razão para sorrir durante este filme.

9 Mois Ferme me chamou a atenção para o trabalho de Albert Dupontel. Não apenas porque ele estrela a produção, mas também porque atua aqui como diretor e roteirista. Fui procurar mais informações sobre ele e vi que Dupontel tem nada menos que 42 trabalhos como ator – incluindo filmes e séries para a TV – e mais seis como diretor e roteirista. Todos os filmes que ele dirigiu, desde o curta Désiré, de 1992, até este 9 Mois Ferme foram escritos por ele. Eis um nome interessante e que merece ser acompanhado.

Este filme tem várias sequências interessante. Mas uma das melhores, para mim, foi aquela da dobradinha feita pela protagonista vivida por Sandrine Kiberlain e o ator Bouli Lanners – que interpreta o policial que ajuda ela a resgatar imagens de diversas câmeras que filmaram a saída da festa de Ano-Novo. Genial a forma com que o diretor/roteirista constrói aquela busca desesperada e também a sintonia entre os atores em cena. Impossível não rir das ironias ditas por Lanners.

9 Mois Ferme estreou no Festival de Cinema Francês de Angoulême em agosto de 2013. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais – o mais conhecido deles foi o de San Sebastián. Nesta trajetória, a produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros nove. Os dois prêmios recebidos foram relevantes: Melhor Atriz para Sandrine Kiberlain e Melhor Roteiro Original no César, maior prêmio do cinema francês. Merecidos.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, 9 Mois Ferme foi totalmente rodado em Paris, com cenas no Palais de Justice e na Place Dauphine – dois dos variados pontos turísticos da Cidade Luz.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Vincent Mathias, a ótima edição de Christophe Pinel e a trilha sonora envolvente de Christophe Julien.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para 9 Mois Ferme. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site e o tipo do filme.

CONCLUSÃO: Pegue uma história inusitada e carregada de humor, junte uma ótima direção e atores competentes e você terá um filme divertido e que vai passar rápido. Este é o caso de 9 Mois Ferme, que narra a inesperada ligação entre uma juíza e um arrombador/assaltante. Mesmo sendo uma comédia que investe no exagero, como bem pede o gênero, este filme tem algumas ponderações interessantes, como que a herança que recebemos de nossos pais pode ser revista no futuro – e a vida pode nos trazer revisões interessantes de certezas há muito solidificadas. Divertido, ágil e com a duração certa, 9 Mois Ferme se revela um entretenimento interessante e competente.