Wonder Wheel – Roda Gigante


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Um lugar cheio de prazeres, de atrativos e de entretenimento. Mas, para alguns, esse lugar está decadente. Agora, vale sempre perguntar: quem faz a decadência de um lugar? Será que ele, por si só, pode tornar-se decadente? Ou somos nós, as pessoas, que sucumbimos a nossos vícios, egoísmos e decaímos em relação ao que sonhamos? Woody Allen apresenta mais um de seus filmes. Bem ao seu estilo. Mas, é bom dizer, Wonder Wheel não faz parte da melhor safra do diretor. Com roteiro um bocado óbvio, rebuscado, Wonder Wheel tem um estilo teatral interessante, mas que se torna um pouco enfadonho pelo roteiro que não é tão bom quanto poderia ser.

A HISTÓRIA: Começa em Coney Island nos anos 1950. Vemos a uma praia cheia e, no Posto 7, a um “salva vidas” que se apresenta como narrador da história. Mickey (Justin Timberlake) diz que trabalha ali no Verão, mas que está estudando para ser artista. E, como tal, ele gosta de escrever utilizando muitos símbolos. Ele gosta de drama. E é uma história com esse estilo que ele vai nos apresenta.

O drama narrado por Mickey inicia com a chegada de Carolina (Juno Temple), uma bela moça que está procurando por Humpty (Jim Belushi). Ela logo descobre que ele trabalha no carrossel do parque à noite, mas fica sabendo onde encontrar a mulher dele, Ginny (Kate Winslet). Todos esses personagens vão se relacionar e viver momentos de emoção e de tensão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wonder Wheel): Bem, o que dizer sobre esse filme? Vou começar pelo básico, que foi a minha motivação de assistir a Wonder Wheel – ainda em 2017, mais precisamente no final do ano. Eu admiro o diretor Woody Allen, o seu estilo e as suas escolhas artísticas. Ele sempre explorou uma forma de fazer cinema, de valorizar a história e os personagens que eu admiro. Por isso, não sou super “fanática” do diretor, mas tento assistir aos novos filmes dele sempre que eles aparecem.

Essa foi a minha principal motivação para assistir a Wonder Wheel. Ver o que Allen iria nos apresentar dessa vez. Procuro não ver trailers ou ler sobre os filmes antes de assisti-los – essa é uma mania que eu tenho. Mas admito que eu costumo saber se um filme foi bem ou mal segundo as críticas do público e dos especialistas antes de optar por uma produção. Então sim, eu sabia que Wonder Wheel não estava muito “bem visto”, digamos assim. Ele não tinha caído no gosto das pessoas. E ao assistir a essa produção, eu descobri o porquê disso.

O filme começa bem, com um visual super interessante e que lembra alguns filmes de Federico Fellini. Depois, vemos uma direção de fotografia muito presente, algo importante e marcante em todos os minutos da produção. Conforme a história escrita por Allen se desenrola, também percebemos uma grande aposta do diretor em um tom “teatral” que funciona até uma certa parte e, depois, fica bastante previsível e até cansativo.

Como sempre, o diretor escreve o seu roteiro para os atores terem os seus “grandes momentos”. E isso acontece aqui. Como costuma acontecer também, as “grandes linhas” e momentos do roteiro são escritas para a protagonista, interpretada pela grande e sempre talentosa Kate Winslet. Mas até os grandes momentos da atriz parecem um tanto óbvios e previsíveis – especialmente, imagino, para quem já assistiu a vários e vários filmes do diretor.

Feitos esses comentários sobre pontos que me chamaram a atenção na produção, falemos um pouco sobre a história narrada por Wonder Wheel. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). O âmago da narrativa é um certo “triângulo amoroso” entre Mickey, Ginny e Carolina. Ou melhor, uma sugestão de triângulo amoroso que acaba, na prática, apenas se desenhando e não se consolidando, mas que acaba sendo fundamental para os atos finais de Ginny e de Mickey. No mais, o filme nos conta a mudança na rotina do casal Humpty e Ginny quando a filha do primeiro casamento de Humpty pede abrigo para eles. E o que mais Wonder Wheel nos conta?

Em termos de ação e de dinâmica dos personagens, essa narrativa que eu comentei resume tudo. Mas o interessante da narrativa está, evidentemente, na história e nos atos da protagonista, Ginny. Ela é a parte realmente importante da trama. Afinal, quase tudo que vemos em cena acontece por influência dessa personagem. Ela é que está no centro da dinâmica entre os personagens e ela é determinante para o que acontece na reta final da produção. Também é Ginny que apresenta os elementos que “fazem pensar” (ainda que pouco) em Wonder Wheel.

Para mim, a única parte interessante e que “se salva” desse filme – além da direção de fotografia – é o contexto da personagem de Kate Winslet. Ela nos mostra, de forma bastante didática, inclusive, como as frustrações de uma vida e o descolamento da ideia que uma pessoa tinha para si mesma como realidade ideal e o que ela de fato vive pode provocar destruição e muitos, muitos problemas. Ginny é uma mulher frustrada, que vive em um casamento por “comodismo” e não por amor e que não se esqueceu das besteiras que fez na vida – como o amor que perdeu por traição feita por ela.

Ela conhece Mickey em um passeio na praia em que ela estava pensando em colocar fim na própria vida. Como é infeliz, não apenas no casamento, mas em sua vida particular – ela trabalha como garçonete, e tem uma grande frustração por causa disso -, ela acaba repercutindo negativamente em todas as direções ao seu redor. Vide o seu filho “problemático” Richie (Jack Gore). O garoto pouco fala, mas expressa a sua insatisfação com a vida colocando fogo em tudo que aparece pela frente.

Na cabeça de Ginny, ela tem talento e deveria fazer sucesso no teatro ou no cinema. Mas a vida “foi injusta” com ela, ninguém conseguiu reconhecer o talento que ela acredita ter e, por isso, ela vive aquela vida “ordinária” em um lugar que ela odeia e com uma pessoa que ela apenas suporta – e ainda, em alguns dias, muito mal. Ginny não sabe lidar com o filho, Richie, e enxerga no romance que desenvolve com Mickey uma fuga da sua realidade infeliz. No fundo, ela gostaria de sair dali correndo e não olhar para trás, mas ela não tem coragem para isso.

Como Mickey simboliza para ela tudo aquilo que ela não tem – juventude, talento, perspectiva de viver um amor que ela não vive -, Ginny fica perturbada ao perceber que a filha do marido, Carolina, pode ameaçar esse seu “ideal de fuga”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E é assim que Ginny não provoca a captura de Carolina, mas também não impede que a moça seja levada pelos capangas do ex-marido mafioso. Mickey percebe que ela teve participação no sumiço de Carolina e a abandona, mas Ginny já está vivendo novamente em seu mundo próprio de fantasia. Ali, ninguém pode “tocá-la” ou frustrá-la mais do que a vida mesma em que ela se perdeu.

Como resolver uma situação como a de Ginny? Bem, aí poderíamos entrar em um grande debate – ou sessões de terapia. Mas acho que as pessoas devem sempre buscar o que lhes dá sentido e o que lhes faz feliz. Você está insatisfeito com a sua vida e gostaria de estar em outro local ou fazendo outra coisa? Corra atrás então do que você quer. Você gostaria de ser uma artista de sucesso, mas esse tal sucesso não veio?

Quem sabe você deveria ver tudo o que a vida lhe deu e está lhe dando e que não passa por esse sucesso desejado. Ficar satisfeito com o que você tem, que possivelmente será bastante – e mais do que muitos merecem. Ter gratidão, perceber a sua realidade com olhos mais generosos. Parte das respostas começa por aí. Mas enfim, como eu disse, esse é um longo papo. Mas Wonder Wheel pode estimular as pessoas a pensarem sobre isso e, quem sabe, debaterem a respeito das suas próprias frustrações.

Por causa da personagem de Ginny e de tudo que ela nos apresenta, Wonder Wheel não é um verdadeiro desperdício de tempo. Mas… a forma com que a história, que não é assim tão original, é contada, não surpreende e nem se apresenta tão envolvente. O filme segue muitas trilhas conhecidas e acaba se perdendo um pouco no tom teatral. Tantos outros filmes tratam muito bem sobre a decadência particular de um indivíduo. Não acho que Wonder Wheel faça isso com maior propriedade ou profundidade. Valeu pela experiência, mas eu não recomendaria como um filme que precisa ser visto. Espero que Woody Allen volte melhor na próxima vez.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, as melhores qualidades de Wonder Wheel são a direção de fotografia de Vittorio Storaro, caprichada e muito bonita, que ajuda a pontuar a história com as suas variações, e o trabalho de dois dos quatro atores principais. Kate Winslet está ótima, mais uma vez, apesar de nem sempre o roteiro lhe ajudar como poderia; e gostei muito do trabalho de Jim Belushi também – ele mergulhou no personagem e mostra muita verdade em cada cena.

Os outros dois atores que têm relevância no filme estão bem, mas não fazem nada demais, digamos assim. Justin Timberlake mostra que é um intérprete regular, com um desempenho que poderia ser obtido por vários outros atores do mercado. Juno Temple também está bem, mas acho que ela apresenta uma interpretação morna. Mas entre os dois, ainda acho que Temple está melhor que Timberlake. Ainda assim, nada demais a comentar sobre o elenco. Apenas que Kate Winslet e Jim Belushi são os melhores em cena.

Além do quarteto de atores central, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes: Steve Schirripa como Nick, um dos capangas do ex-marido de Carolina; Tony Sirico como Angelo, o outro capanga que anda atrás de Carolina; Jack Gore está bem como Richie, o filho revoltado de Ginny; e Gregory Dann, Bobby Slayton e Michael Zegarski como os companheiros de pesca de Humpty.

Além da direção de fotografia de Storaro, ponto alto da produção, vale comentar a competente edição de Alisa Lepselter; o design de produção de Santo Loquasto; a direção de arte de Miguel López-Castillo; a decoração de set de Regina Graves; os figurinos de Suzy Benzinger; a maquiagem feita por 12 profissionais; o Departamento de Arte com 16 profissionais e o trabalho das 14 pessoas envolvidas com os Efeitos Visuais.

Wonder Wheel estreou no dia 14 de outubro de 2017 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participou de outros cinco festivais e eventos de cinema. Nessa trajetória, o filme conquistou um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que ele recebeu até agora foi o de Atriz do Ano para Kate Winslet no Hollywood Film Award.

Esta produção foi rodada em diversos lugares de Nova York, incluindo o Ruby’s Bar & Grill, em Coney Island; o Deno’s Wonder Wheel Amusement Park, também em Coney Island; o Richmond Hill Flea Market, em Richmond Hill; o Snug Harbor Cultural Center, em Staten Island; a South Beach e a Chinese Scholars Garden, em Staten Island; o Freak Bar, em Coney Island; o Rye Playland, em Rye; e o St. George Theatre, em Staten Island.

De acordo com o Box Office Mojo, Wonder Wheel fez US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 5,9 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Ou seja, no total, cerca de US$ 7,3 milhões. Bilheteria bastante baixa e que sinaliza, provavelmente, prejuízo para os produtores – não temos certeza disso porque não encontrei o valor de custo do filme, mas provavelmente ele está no vermelho.

Wonder Wheel é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 104 textos negativos e 45 positivos para Wonder Wheel, o que garante para a produção um nível de aprovação de apenas 30% e uma nota média 5.

CONCLUSÃO: Quem assistiu a um par de filmes do diretor e roteirista Woody Allen já conhece a sua assinatura como realizador. A mesma assinatura vemos aqui, em Wonder Wheel, mas sem a mesma qualidade que vimos anteriormente. Não assisti a todos os filmes do diretor para dizer se este faz parte da lista dos mais fracos, mas algo tenho certeza: Wonder Wheel não é um de seus melhores filmes. Ainda que a produção toque em questões importantes, como a decadência humana e o descolamento entre os sonhos e o ideal de uma pessoa e o que ela verdadeiramente consegue realizar, esse filme realmente não decola em momento algum.

Os protagonistas tem alguns bons momentos, mas o filme em si parece “mais do mesmo”. Nem a direção feita com esmero e a busca pelo tom teatral e por uma certa homenagem à Fellini aqui e ali tornam este filme relevante. Assista apenas se você não perde a um filme de Woody Allen. Se você não tem tanta fidelidade ao diretor assim, procure uma opção melhor nos cinemas e/ou em casa. Porque há opções bem melhores por aí – inclusive do próprio Woody Allen.

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