Wonder Wheel – Roda Gigante

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Um lugar cheio de prazeres, de atrativos e de entretenimento. Mas, para alguns, esse lugar está decadente. Agora, vale sempre perguntar: quem faz a decadência de um lugar? Será que ele, por si só, pode tornar-se decadente? Ou somos nós, as pessoas, que sucumbimos a nossos vícios, egoísmos e decaímos em relação ao que sonhamos? Woody Allen apresenta mais um de seus filmes. Bem ao seu estilo. Mas, é bom dizer, Wonder Wheel não faz parte da melhor safra do diretor. Com roteiro um bocado óbvio, rebuscado, Wonder Wheel tem um estilo teatral interessante, mas que se torna um pouco enfadonho pelo roteiro que não é tão bom quanto poderia ser.

A HISTÓRIA: Começa em Coney Island nos anos 1950. Vemos a uma praia cheia e, no Posto 7, a um “salva vidas” que se apresenta como narrador da história. Mickey (Justin Timberlake) diz que trabalha ali no Verão, mas que está estudando para ser artista. E, como tal, ele gosta de escrever utilizando muitos símbolos. Ele gosta de drama. E é uma história com esse estilo que ele vai nos apresenta.

O drama narrado por Mickey inicia com a chegada de Carolina (Juno Temple), uma bela moça que está procurando por Humpty (Jim Belushi). Ela logo descobre que ele trabalha no carrossel do parque à noite, mas fica sabendo onde encontrar a mulher dele, Ginny (Kate Winslet). Todos esses personagens vão se relacionar e viver momentos de emoção e de tensão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wonder Wheel): Bem, o que dizer sobre esse filme? Vou começar pelo básico, que foi a minha motivação de assistir a Wonder Wheel – ainda em 2017, mais precisamente no final do ano. Eu admiro o diretor Woody Allen, o seu estilo e as suas escolhas artísticas. Ele sempre explorou uma forma de fazer cinema, de valorizar a história e os personagens que eu admiro. Por isso, não sou super “fanática” do diretor, mas tento assistir aos novos filmes dele sempre que eles aparecem.

Essa foi a minha principal motivação para assistir a Wonder Wheel. Ver o que Allen iria nos apresentar dessa vez. Procuro não ver trailers ou ler sobre os filmes antes de assisti-los – essa é uma mania que eu tenho. Mas admito que eu costumo saber se um filme foi bem ou mal segundo as críticas do público e dos especialistas antes de optar por uma produção. Então sim, eu sabia que Wonder Wheel não estava muito “bem visto”, digamos assim. Ele não tinha caído no gosto das pessoas. E ao assistir a essa produção, eu descobri o porquê disso.

O filme começa bem, com um visual super interessante e que lembra alguns filmes de Federico Fellini. Depois, vemos uma direção de fotografia muito presente, algo importante e marcante em todos os minutos da produção. Conforme a história escrita por Allen se desenrola, também percebemos uma grande aposta do diretor em um tom “teatral” que funciona até uma certa parte e, depois, fica bastante previsível e até cansativo.

Como sempre, o diretor escreve o seu roteiro para os atores terem os seus “grandes momentos”. E isso acontece aqui. Como costuma acontecer também, as “grandes linhas” e momentos do roteiro são escritas para a protagonista, interpretada pela grande e sempre talentosa Kate Winslet. Mas até os grandes momentos da atriz parecem um tanto óbvios e previsíveis – especialmente, imagino, para quem já assistiu a vários e vários filmes do diretor.

Feitos esses comentários sobre pontos que me chamaram a atenção na produção, falemos um pouco sobre a história narrada por Wonder Wheel. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). O âmago da narrativa é um certo “triângulo amoroso” entre Mickey, Ginny e Carolina. Ou melhor, uma sugestão de triângulo amoroso que acaba, na prática, apenas se desenhando e não se consolidando, mas que acaba sendo fundamental para os atos finais de Ginny e de Mickey. No mais, o filme nos conta a mudança na rotina do casal Humpty e Ginny quando a filha do primeiro casamento de Humpty pede abrigo para eles. E o que mais Wonder Wheel nos conta?

Em termos de ação e de dinâmica dos personagens, essa narrativa que eu comentei resume tudo. Mas o interessante da narrativa está, evidentemente, na história e nos atos da protagonista, Ginny. Ela é a parte realmente importante da trama. Afinal, quase tudo que vemos em cena acontece por influência dessa personagem. Ela é que está no centro da dinâmica entre os personagens e ela é determinante para o que acontece na reta final da produção. Também é Ginny que apresenta os elementos que “fazem pensar” (ainda que pouco) em Wonder Wheel.

Para mim, a única parte interessante e que “se salva” desse filme – além da direção de fotografia – é o contexto da personagem de Kate Winslet. Ela nos mostra, de forma bastante didática, inclusive, como as frustrações de uma vida e o descolamento da ideia que uma pessoa tinha para si mesma como realidade ideal e o que ela de fato vive pode provocar destruição e muitos, muitos problemas. Ginny é uma mulher frustrada, que vive em um casamento por “comodismo” e não por amor e que não se esqueceu das besteiras que fez na vida – como o amor que perdeu por traição feita por ela.

Ela conhece Mickey em um passeio na praia em que ela estava pensando em colocar fim na própria vida. Como é infeliz, não apenas no casamento, mas em sua vida particular – ela trabalha como garçonete, e tem uma grande frustração por causa disso -, ela acaba repercutindo negativamente em todas as direções ao seu redor. Vide o seu filho “problemático” Richie (Jack Gore). O garoto pouco fala, mas expressa a sua insatisfação com a vida colocando fogo em tudo que aparece pela frente.

Na cabeça de Ginny, ela tem talento e deveria fazer sucesso no teatro ou no cinema. Mas a vida “foi injusta” com ela, ninguém conseguiu reconhecer o talento que ela acredita ter e, por isso, ela vive aquela vida “ordinária” em um lugar que ela odeia e com uma pessoa que ela apenas suporta – e ainda, em alguns dias, muito mal. Ginny não sabe lidar com o filho, Richie, e enxerga no romance que desenvolve com Mickey uma fuga da sua realidade infeliz. No fundo, ela gostaria de sair dali correndo e não olhar para trás, mas ela não tem coragem para isso.

Como Mickey simboliza para ela tudo aquilo que ela não tem – juventude, talento, perspectiva de viver um amor que ela não vive -, Ginny fica perturbada ao perceber que a filha do marido, Carolina, pode ameaçar esse seu “ideal de fuga”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E é assim que Ginny não provoca a captura de Carolina, mas também não impede que a moça seja levada pelos capangas do ex-marido mafioso. Mickey percebe que ela teve participação no sumiço de Carolina e a abandona, mas Ginny já está vivendo novamente em seu mundo próprio de fantasia. Ali, ninguém pode “tocá-la” ou frustrá-la mais do que a vida mesma em que ela se perdeu.

Como resolver uma situação como a de Ginny? Bem, aí poderíamos entrar em um grande debate – ou sessões de terapia. Mas acho que as pessoas devem sempre buscar o que lhes dá sentido e o que lhes faz feliz. Você está insatisfeito com a sua vida e gostaria de estar em outro local ou fazendo outra coisa? Corra atrás então do que você quer. Você gostaria de ser uma artista de sucesso, mas esse tal sucesso não veio?

Quem sabe você deveria ver tudo o que a vida lhe deu e está lhe dando e que não passa por esse sucesso desejado. Ficar satisfeito com o que você tem, que possivelmente será bastante – e mais do que muitos merecem. Ter gratidão, perceber a sua realidade com olhos mais generosos. Parte das respostas começa por aí. Mas enfim, como eu disse, esse é um longo papo. Mas Wonder Wheel pode estimular as pessoas a pensarem sobre isso e, quem sabe, debaterem a respeito das suas próprias frustrações.

Por causa da personagem de Ginny e de tudo que ela nos apresenta, Wonder Wheel não é um verdadeiro desperdício de tempo. Mas… a forma com que a história, que não é assim tão original, é contada, não surpreende e nem se apresenta tão envolvente. O filme segue muitas trilhas conhecidas e acaba se perdendo um pouco no tom teatral. Tantos outros filmes tratam muito bem sobre a decadência particular de um indivíduo. Não acho que Wonder Wheel faça isso com maior propriedade ou profundidade. Valeu pela experiência, mas eu não recomendaria como um filme que precisa ser visto. Espero que Woody Allen volte melhor na próxima vez.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, as melhores qualidades de Wonder Wheel são a direção de fotografia de Vittorio Storaro, caprichada e muito bonita, que ajuda a pontuar a história com as suas variações, e o trabalho de dois dos quatro atores principais. Kate Winslet está ótima, mais uma vez, apesar de nem sempre o roteiro lhe ajudar como poderia; e gostei muito do trabalho de Jim Belushi também – ele mergulhou no personagem e mostra muita verdade em cada cena.

Os outros dois atores que têm relevância no filme estão bem, mas não fazem nada demais, digamos assim. Justin Timberlake mostra que é um intérprete regular, com um desempenho que poderia ser obtido por vários outros atores do mercado. Juno Temple também está bem, mas acho que ela apresenta uma interpretação morna. Mas entre os dois, ainda acho que Temple está melhor que Timberlake. Ainda assim, nada demais a comentar sobre o elenco. Apenas que Kate Winslet e Jim Belushi são os melhores em cena.

Além do quarteto de atores central, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes: Steve Schirripa como Nick, um dos capangas do ex-marido de Carolina; Tony Sirico como Angelo, o outro capanga que anda atrás de Carolina; Jack Gore está bem como Richie, o filho revoltado de Ginny; e Gregory Dann, Bobby Slayton e Michael Zegarski como os companheiros de pesca de Humpty.

Além da direção de fotografia de Storaro, ponto alto da produção, vale comentar a competente edição de Alisa Lepselter; o design de produção de Santo Loquasto; a direção de arte de Miguel López-Castillo; a decoração de set de Regina Graves; os figurinos de Suzy Benzinger; a maquiagem feita por 12 profissionais; o Departamento de Arte com 16 profissionais e o trabalho das 14 pessoas envolvidas com os Efeitos Visuais.

Wonder Wheel estreou no dia 14 de outubro de 2017 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participou de outros cinco festivais e eventos de cinema. Nessa trajetória, o filme conquistou um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que ele recebeu até agora foi o de Atriz do Ano para Kate Winslet no Hollywood Film Award.

Esta produção foi rodada em diversos lugares de Nova York, incluindo o Ruby’s Bar & Grill, em Coney Island; o Deno’s Wonder Wheel Amusement Park, também em Coney Island; o Richmond Hill Flea Market, em Richmond Hill; o Snug Harbor Cultural Center, em Staten Island; a South Beach e a Chinese Scholars Garden, em Staten Island; o Freak Bar, em Coney Island; o Rye Playland, em Rye; e o St. George Theatre, em Staten Island.

De acordo com o Box Office Mojo, Wonder Wheel fez US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 5,9 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Ou seja, no total, cerca de US$ 7,3 milhões. Bilheteria bastante baixa e que sinaliza, provavelmente, prejuízo para os produtores – não temos certeza disso porque não encontrei o valor de custo do filme, mas provavelmente ele está no vermelho.

Wonder Wheel é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 104 textos negativos e 45 positivos para Wonder Wheel, o que garante para a produção um nível de aprovação de apenas 30% e uma nota média 5.

CONCLUSÃO: Quem assistiu a um par de filmes do diretor e roteirista Woody Allen já conhece a sua assinatura como realizador. A mesma assinatura vemos aqui, em Wonder Wheel, mas sem a mesma qualidade que vimos anteriormente. Não assisti a todos os filmes do diretor para dizer se este faz parte da lista dos mais fracos, mas algo tenho certeza: Wonder Wheel não é um de seus melhores filmes. Ainda que a produção toque em questões importantes, como a decadência humana e o descolamento entre os sonhos e o ideal de uma pessoa e o que ela verdadeiramente consegue realizar, esse filme realmente não decola em momento algum.

Os protagonistas tem alguns bons momentos, mas o filme em si parece “mais do mesmo”. Nem a direção feita com esmero e a busca pelo tom teatral e por uma certa homenagem à Fellini aqui e ali tornam este filme relevante. Assista apenas se você não perde a um filme de Woody Allen. Se você não tem tanta fidelidade ao diretor assim, procure uma opção melhor nos cinemas e/ou em casa. Porque há opções bem melhores por aí – inclusive do próprio Woody Allen.

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We Are What We Are – Somos o que Somos

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Há vários tipos de filmes de terror. Existe aquele estilo que deixa o espectador em permanente tensão e que provoca sobressaltos pontuais, enquanto outros filmes cozinham a tensão a fogo lento. Há histórias que exploram a violência, os cortes e o sangue, enquanto outros apostam mais no terror psicológico – na sugestão e não na exposição do terrível. We Are What We Are é do estilo fogo lento, que na maior parte do tempo apenas sugere o terror, mas que também escolhe um “grand finale” que parece escolha de gente maluca. E há muitos malucos por aí.

A HISTÓRIA: Teia de aranha, barulho de pássaros, e uma frase de Alyce Parker que diz que aquilo que é feito é feito com amor e que a vontade de Deus deve ser feita. Depois, cenas de um lago e de florestas. Chove. Naquele cenário de interior, uma folha cai de uma árvore e é levada pelas águas. As mesmas que passam sob um rio, por sobre o qual trafega uma caminhonete que vai nos levar até uma casa branca por onde Emma Parker (Kassie Wesley DePaiva) olha da porta para fora. É sexta-feira. E mesmo com muita chuva, Emma dirige até a venda mais próxima. Mas ao sair de lá com compras, ela olha para a foto de uma garota desaparecida e passa mal. Enquanto isso, na casa da família, as irmãs Iris (Ambyr Childers) e Rose (Julia Garner) cuidam do caçula Rory (Jack Gore) após ler o bilhete da mãe que não vai voltar mais para casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a We Are What We Are): Serei honesta com vocês. Este filme me deu preguiça de escrever. Ao ponto de eu ficar alguns dias me enrolando para começar este post e em dúvida em como iniciá-lo. E isso não ocorreu porque o filme é perturbador. Mas porque eu achei ele bem mais fraco do que eu esperava.

Logo no início de We Are What We Are fica claro o desejo do diretor e roteirista Jim Mickle em fazer um filme de terror com uma pegada bem “realista”. Assim, mergulhamos nas paisagens e no “jeito de ser” daquela comunidade do interior dos Estados Unidos para compreender um pouco melhor o que está por vir. Ainda assim, é preciso muita generosidade na imaginação para acreditar na história.

Vendo o cartaz de We Are What We Are e pensando no título do filme, a primeira teoria que formulei é que esta seria a história de uma família com uma história muito pesada. Talvez até de torturas, violência física e mental praticadas por um pai dominante contra as mulheres da família. Logo pensei nas histórias reais que volta e meia aparecem no noticiário e me “preparei” para ver, inclusive, um pai que abusasse sexualmente de seus filhos. Ledo engano.

No caso deste filme, a ficção fica aquém das histórias da vida real. Isso porque tudo se resume a um único mistério. Algo que perdurou por séculos e que, convenhamos, fica difícil de acreditar que nunca tenha sido descoberto. Mas um acerto no roteiro de Mickle com Nick Damici (que também interpreta ao sheriff Meeks), baseados no trabalho original de Jorge Michel Grau, é que ele não demora nada para mostrar a primeira morte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emma morre de um jeito estranho, “vomitando” um líquido negro que nos faz pensar se ela pode ter sido envenenada… ou se havia algo sobrenatural naquela morte.

Mas a dúvida dura praticamente nada. Porque logo percebemos que a família Parker costuma manter reféns no porão do celeiro onde apenas o patriarca, Frank (Bill Sage) pode entrar. E daí não demora muito para sabermos que eles são canibais. Pronto, mistério desvendado. E o “risco” que a família corre parece pouco ameaçador, com uma investigação bem capenga feita pelo Dr. Barrow (Michael Parks) e pelo recém formado policial Anders (Wyatt Russell).

O problema é que ainda que o roteiro acerte ao mostrar a primeira morte logo, despertando o interesse do público, We Are What We Are demora para decolar. Ao invés de entrar mais diretamente na tensão da família Parker, a história gasta um tempo precioso focando a “vida comum” daquelas pessoas. Desde o cereal que Rory não pode comer até a relação com a simpática e desimportante vizinha Marge (Kelly McGillis). Para mim, boa parte daquela “ambientação” poderia ter sido economizada para entrarmos com um pouco mais de profundidade na tradição familiar ou nos conflitos dentro da casa dos Parker.

Claro que o “banho maria” serve para alimentar a expectativa para que algo diferente aconteça. E não chega a ser um total sacrifício esperar por isso já que os atores são muito bons. Mas de fato falta ritmo para We Are What We Are. E, como eu disse, também acho que a vida real já nos apresentou casos muito mais tenebrosos que este. No fim das contas, o mais difícil de acreditar não é que os Parker eram canibais. Mas que desde 1782 aquela família preservava o costume de sequestrar e matar pessoas e que eles nunca haviam sido pegos – ou seja, mais ou menos 230 anos de crimes estranhamente “invisíveis”.

E daí vem a minha teoria de que um filme de terror tem que ter uma mínima de lógica para poder convencer. Admito um louco matando um monte de gente por puro prazer, até porque há muitos por aí, mas acreditar que os Parker seguiram com esta tradição por tanto tempo é beeeeem complicado. Sem contar que o filme me deixou com mais dúvidas do que respostas, em alguns momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por exemplo: os Parker só matavam e comiam as suas vítimas no período de “quaresma” ou faziam isso o tempo inteiro?

Se a resposta é a primeira alternativa, então de fato comer carne humana uma vez por ano poderia provocar aquela “doença de kuru” – também chamada de “doença de Creutzfeldt-Jakob”? E se a resposta é a segunda alternativa, da onde os Parker arranjaram tantas vítimas em mais de 200 anos de canibalismo? Difícil acreditar em uma versão ou em outra. Se bem que faz mais sentido a primeira versão – de que eles eram canibais uma vez por ano. Buscando mais informações sobre a “doença de kuru” encontrei este texto bem elucidativo. Mas daí o que não bate na história é que a doença não se manifesta porque se come carne humana, mas sim porque alguém que tem o tal príon contamina os demais ao ser devorado.

Outro ponto que me pareceu obscuro foi o da morte da filha do casal Kimble (Traci Hovel e Nat DeWolf). Afinal, por que aquela história entrou ali no meio? Apenas como “cortina de fumaça” e para desviar a atenção do espectador? Vejamos. A garota não foi levada como refém por Frank. Mas pode ter sido morta por ele – quando o corpo dela é encontrado no rio não dá para descartar que alguém tenha se desfeito do carro e dela após um crime. Ainda que a cena sugira que ela tenha morrido afogada após cair com o carro ali. Então para que mostrar Frank na estrada caminhando em direção à ela? E se foi ele que matou a garota e depois “desovou” o carro e a vítima no rio, para que ele mataria alguém sem o propósito de “alimentar a família”? O provável é que ele fosse inocente na história – e tenha ajudado a garota na estrada mesmo. Mas achei desnecessário e um elemento a mais para confundir quem assiste.

Descontado estes dois pontos que achei dispensáveis, Mickle faz um trabalho cuidadoso a maior parte do tempo. Ele escolhe algumas cenas bem interessantes e ângulos diferenciados. Tem um estilo de direção que flui na tela, ritmado em muitas ocasiões. Os atores também fazem um bom trabalho, especialmente Bill Sage, que interpreta o sempre ameaçador Frank. As atrizes que fazem as irmãs Iris e Rose também dão conta do recado em papéis complicados. O jovem Jack Gore irrita um pouco com Rory, mas acho que esta era uma das suas funções.

Mesmo com os acertos, incluindo vários quesitos técnicos (dos quais vou falar logo abaixo), senti falta de mais cenas de abuso familiar. Porque, convenhamos, que garotas iriam concordar em seguir uma tradição familiar tão absurda apenas porque o pai dizia que tinha que ser feito e porque era a “vontade de Deus”. Aliás, o que justificaria essa “vontade divina”? Por que apenas os Parker deveriam ter o direito de comer outras pessoas – e não serem devorados? Bastante sem pé e sem cabeça… quase literalmente. 🙂

Daí quando você pensa que aquela história está absurda demais, vem o “grand finale”. hehehehehehe. Admito que achei a cena da “comilança” das meninas muito coerente com o filme. Afinal, se é para apostar no macabro, vamos apostar com todas as fichas, não é mesmo? Sem dúvida aquela sequência é a melhor do filme – para quem gosta do gênero terror, é claro. Admito que, até ali, tinha achado We Are What We Are muito “água com açúcar” na parte do terror. Mas a sequência na mesa, após uma bem difícil de acreditar perseguição de Frank (que poderia ter sido derrubado por qualquer um naquela condição frágil e já doente), serve como uma redenção do filme. Tardia, quase, mas à tempo. Um filme macabro que se justifica no final, mas que deveria ter mais força no resto do tempo.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Ryan Samul, da decoração de set de Daniel R. Kersting e dos figurinos de Liz Vastola. Todos estes elementos ajudam Jim Mickle a contar esta história e ambientar os personagens no contexto correto – eles vivem no melhor estilo de “família recatada e muito devota”. Também funciona a edição de Mickle e a trilha sonora de Phil Mossman, Darren Morris e Jeff Grace.

Além dos atores já citados, vale comentar que a frase que aparece no início do filme é de autoria da personagem Alyce Parker, interpretada por Odeya Rush. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela faz parte da reconstituição da “tradição” dos Parker e escreve a “Bíblia” da família – que ensina, entre outros pontos, como esquartejar uma pessoa.

Falando nos atores, sem dúvida os melhores em cena, além das irmãs Parker, são os que interpretam ao pai das meninas e ao médico-detetive. Agora, uma curiosidade sobre o elenco: a atriz que faz a vizinha, Marge, é ninguém mais, ninguém menos que a mesma atriz que estrelou Top Gun ao lado de Tom Cruise. Sim senhores! O tempo passa diferente para as pessoas, sem dúvida – basta olhar para Tom Cruise e outros astros que pouco envelheceram enquanto os seus pares de menos sucesso passaram por outra experiência.

Agora, vamos voltar às confusões que este filme provoca. Afinal de contas, porque vemos ao cartaz de Bridget Rafferty, sabemos da história da jovem Kimble e depois ouvimos o nome de Sra. Stratton (na verdade, Arlete Stratton, interpretada por Annemarie Lawless)? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Imagino que jogar na tela os nomes de três vítimas diferentes seja a forma de Mickle deixar ainda mais claro que os Parker tem uma verdadeira multidão de vítimas nas “costas”. O incrível mesmo é que nunca a vizinha Marge ou qualquer outra pessoa tenha desconfiado deles, não é mesmo? Se ainda houvessem outros cúmplices… tipo o delegado, ou os próprios vizinhos, eu acharia mais fácil de acreditar.

We Are What We Are me pareceu desleixado em alguns momentos. Por exemplo, na primeira vítima dos Parker, em 1782… aquele cadáver estava beeeem mal feito. Depois, achei bem absurdo que a Sra. Stratton estava acorrentada e amordaçada tendo as mãos livres… quem, ao ser sequestrada e colocada em cativeiro, seguiria amordaçada podendo usar as mãos para tirar o pano da boca? hahahahahahaha. Detalhes que poderiam ter sido melhor cuidados.

Na verdade, acho a minha nota acima até generosa. Levando em conta todos estes pontos falhos do filme. O que acontece é que gostei do final. Ele acabou me deixando de boca aberta e garantindo alguns pontos para o filme.

Não há muitas informações sobre o custo ou a bilheteria que We Are What We Are conquistou em diferentes mercados até agora. O site Box Office Mojo, por exemplo, traz apenas a informação de que este filme estreou nos Estados Unidos no dia 27 de setembro e que teria faturado, até o final de outubro, pouco mais de US$ 81,3 mil. Uma miséria. E para ficar ainda mais claro como esta produção estreou sem força nos EUA, We Are What We Are abriu a temporada por lá em apenas duas salas de cinema.

Este filme estrou no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, ele participaria de outros 12 festivais, incluindo o de Cannes. Segundo o site IMDb, apesar desta trajetória considerável, ele não conseguiu nenhum prêmio até o momento.

Falando no IMDb, se eu fosse levar em conta a opinião dos usuários do site, não teria assistido a We Are What We Are. Afinal, eles deram apenas a nota 5,7 para esta produção. Para comparar, o filme original, o mexicano Somos Lo Que Hay, de 2010, dirigido por Jorge Michel Grau, ostenta a nota 5,6 no site. Ou seja, ambos bem abaixo da média que considero ideal – a partir de 6,5, pelo menos. Mas o que me convenceu a assistir a este filme foi a avaliação dos críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles dedicaram 49 críticas positivas e oito negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,1. Muito boa esta nota, levando em conta a tendência do site.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos – o que faz a lista de produções que atendem a uma votação aqui no site apenas “engrossar”.

CONCLUSÃO: Honestamente, eu esperava mais de We Are What We Are. Mesmo sem conhecer o filme original, de 2010, esperava por uma produção com rasgos mais doentios, por assim dizer. Ou, pelo menos, com maior tensão. Acho que a história cozinha tão lentamente que chega a dar um pouco de sono… tudo para, claro, chegarmos a um final macabro e extremamente esquisito. O que combina com o filme, é claro. Mas ainda que o desfecho seja coerente, há outras partes que não são, e o sentimento que esperamos de um filme assim na maior parte do tempo não acontece. Ainda assim, esta produção acerta na escolha do elenco e do “clima” da produção. Mas lhe faltam outros predicados para ser mais marcante. É bom, mas há outros do gênero muito melhores.