Wonder Wheel – Roda Gigante

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Um lugar cheio de prazeres, de atrativos e de entretenimento. Mas, para alguns, esse lugar está decadente. Agora, vale sempre perguntar: quem faz a decadência de um lugar? Será que ele, por si só, pode tornar-se decadente? Ou somos nós, as pessoas, que sucumbimos a nossos vícios, egoísmos e decaímos em relação ao que sonhamos? Woody Allen apresenta mais um de seus filmes. Bem ao seu estilo. Mas, é bom dizer, Wonder Wheel não faz parte da melhor safra do diretor. Com roteiro um bocado óbvio, rebuscado, Wonder Wheel tem um estilo teatral interessante, mas que se torna um pouco enfadonho pelo roteiro que não é tão bom quanto poderia ser.

A HISTÓRIA: Começa em Coney Island nos anos 1950. Vemos a uma praia cheia e, no Posto 7, a um “salva vidas” que se apresenta como narrador da história. Mickey (Justin Timberlake) diz que trabalha ali no Verão, mas que está estudando para ser artista. E, como tal, ele gosta de escrever utilizando muitos símbolos. Ele gosta de drama. E é uma história com esse estilo que ele vai nos apresenta.

O drama narrado por Mickey inicia com a chegada de Carolina (Juno Temple), uma bela moça que está procurando por Humpty (Jim Belushi). Ela logo descobre que ele trabalha no carrossel do parque à noite, mas fica sabendo onde encontrar a mulher dele, Ginny (Kate Winslet). Todos esses personagens vão se relacionar e viver momentos de emoção e de tensão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wonder Wheel): Bem, o que dizer sobre esse filme? Vou começar pelo básico, que foi a minha motivação de assistir a Wonder Wheel – ainda em 2017, mais precisamente no final do ano. Eu admiro o diretor Woody Allen, o seu estilo e as suas escolhas artísticas. Ele sempre explorou uma forma de fazer cinema, de valorizar a história e os personagens que eu admiro. Por isso, não sou super “fanática” do diretor, mas tento assistir aos novos filmes dele sempre que eles aparecem.

Essa foi a minha principal motivação para assistir a Wonder Wheel. Ver o que Allen iria nos apresentar dessa vez. Procuro não ver trailers ou ler sobre os filmes antes de assisti-los – essa é uma mania que eu tenho. Mas admito que eu costumo saber se um filme foi bem ou mal segundo as críticas do público e dos especialistas antes de optar por uma produção. Então sim, eu sabia que Wonder Wheel não estava muito “bem visto”, digamos assim. Ele não tinha caído no gosto das pessoas. E ao assistir a essa produção, eu descobri o porquê disso.

O filme começa bem, com um visual super interessante e que lembra alguns filmes de Federico Fellini. Depois, vemos uma direção de fotografia muito presente, algo importante e marcante em todos os minutos da produção. Conforme a história escrita por Allen se desenrola, também percebemos uma grande aposta do diretor em um tom “teatral” que funciona até uma certa parte e, depois, fica bastante previsível e até cansativo.

Como sempre, o diretor escreve o seu roteiro para os atores terem os seus “grandes momentos”. E isso acontece aqui. Como costuma acontecer também, as “grandes linhas” e momentos do roteiro são escritas para a protagonista, interpretada pela grande e sempre talentosa Kate Winslet. Mas até os grandes momentos da atriz parecem um tanto óbvios e previsíveis – especialmente, imagino, para quem já assistiu a vários e vários filmes do diretor.

Feitos esses comentários sobre pontos que me chamaram a atenção na produção, falemos um pouco sobre a história narrada por Wonder Wheel. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). O âmago da narrativa é um certo “triângulo amoroso” entre Mickey, Ginny e Carolina. Ou melhor, uma sugestão de triângulo amoroso que acaba, na prática, apenas se desenhando e não se consolidando, mas que acaba sendo fundamental para os atos finais de Ginny e de Mickey. No mais, o filme nos conta a mudança na rotina do casal Humpty e Ginny quando a filha do primeiro casamento de Humpty pede abrigo para eles. E o que mais Wonder Wheel nos conta?

Em termos de ação e de dinâmica dos personagens, essa narrativa que eu comentei resume tudo. Mas o interessante da narrativa está, evidentemente, na história e nos atos da protagonista, Ginny. Ela é a parte realmente importante da trama. Afinal, quase tudo que vemos em cena acontece por influência dessa personagem. Ela é que está no centro da dinâmica entre os personagens e ela é determinante para o que acontece na reta final da produção. Também é Ginny que apresenta os elementos que “fazem pensar” (ainda que pouco) em Wonder Wheel.

Para mim, a única parte interessante e que “se salva” desse filme – além da direção de fotografia – é o contexto da personagem de Kate Winslet. Ela nos mostra, de forma bastante didática, inclusive, como as frustrações de uma vida e o descolamento da ideia que uma pessoa tinha para si mesma como realidade ideal e o que ela de fato vive pode provocar destruição e muitos, muitos problemas. Ginny é uma mulher frustrada, que vive em um casamento por “comodismo” e não por amor e que não se esqueceu das besteiras que fez na vida – como o amor que perdeu por traição feita por ela.

Ela conhece Mickey em um passeio na praia em que ela estava pensando em colocar fim na própria vida. Como é infeliz, não apenas no casamento, mas em sua vida particular – ela trabalha como garçonete, e tem uma grande frustração por causa disso -, ela acaba repercutindo negativamente em todas as direções ao seu redor. Vide o seu filho “problemático” Richie (Jack Gore). O garoto pouco fala, mas expressa a sua insatisfação com a vida colocando fogo em tudo que aparece pela frente.

Na cabeça de Ginny, ela tem talento e deveria fazer sucesso no teatro ou no cinema. Mas a vida “foi injusta” com ela, ninguém conseguiu reconhecer o talento que ela acredita ter e, por isso, ela vive aquela vida “ordinária” em um lugar que ela odeia e com uma pessoa que ela apenas suporta – e ainda, em alguns dias, muito mal. Ginny não sabe lidar com o filho, Richie, e enxerga no romance que desenvolve com Mickey uma fuga da sua realidade infeliz. No fundo, ela gostaria de sair dali correndo e não olhar para trás, mas ela não tem coragem para isso.

Como Mickey simboliza para ela tudo aquilo que ela não tem – juventude, talento, perspectiva de viver um amor que ela não vive -, Ginny fica perturbada ao perceber que a filha do marido, Carolina, pode ameaçar esse seu “ideal de fuga”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E é assim que Ginny não provoca a captura de Carolina, mas também não impede que a moça seja levada pelos capangas do ex-marido mafioso. Mickey percebe que ela teve participação no sumiço de Carolina e a abandona, mas Ginny já está vivendo novamente em seu mundo próprio de fantasia. Ali, ninguém pode “tocá-la” ou frustrá-la mais do que a vida mesma em que ela se perdeu.

Como resolver uma situação como a de Ginny? Bem, aí poderíamos entrar em um grande debate – ou sessões de terapia. Mas acho que as pessoas devem sempre buscar o que lhes dá sentido e o que lhes faz feliz. Você está insatisfeito com a sua vida e gostaria de estar em outro local ou fazendo outra coisa? Corra atrás então do que você quer. Você gostaria de ser uma artista de sucesso, mas esse tal sucesso não veio?

Quem sabe você deveria ver tudo o que a vida lhe deu e está lhe dando e que não passa por esse sucesso desejado. Ficar satisfeito com o que você tem, que possivelmente será bastante – e mais do que muitos merecem. Ter gratidão, perceber a sua realidade com olhos mais generosos. Parte das respostas começa por aí. Mas enfim, como eu disse, esse é um longo papo. Mas Wonder Wheel pode estimular as pessoas a pensarem sobre isso e, quem sabe, debaterem a respeito das suas próprias frustrações.

Por causa da personagem de Ginny e de tudo que ela nos apresenta, Wonder Wheel não é um verdadeiro desperdício de tempo. Mas… a forma com que a história, que não é assim tão original, é contada, não surpreende e nem se apresenta tão envolvente. O filme segue muitas trilhas conhecidas e acaba se perdendo um pouco no tom teatral. Tantos outros filmes tratam muito bem sobre a decadência particular de um indivíduo. Não acho que Wonder Wheel faça isso com maior propriedade ou profundidade. Valeu pela experiência, mas eu não recomendaria como um filme que precisa ser visto. Espero que Woody Allen volte melhor na próxima vez.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, as melhores qualidades de Wonder Wheel são a direção de fotografia de Vittorio Storaro, caprichada e muito bonita, que ajuda a pontuar a história com as suas variações, e o trabalho de dois dos quatro atores principais. Kate Winslet está ótima, mais uma vez, apesar de nem sempre o roteiro lhe ajudar como poderia; e gostei muito do trabalho de Jim Belushi também – ele mergulhou no personagem e mostra muita verdade em cada cena.

Os outros dois atores que têm relevância no filme estão bem, mas não fazem nada demais, digamos assim. Justin Timberlake mostra que é um intérprete regular, com um desempenho que poderia ser obtido por vários outros atores do mercado. Juno Temple também está bem, mas acho que ela apresenta uma interpretação morna. Mas entre os dois, ainda acho que Temple está melhor que Timberlake. Ainda assim, nada demais a comentar sobre o elenco. Apenas que Kate Winslet e Jim Belushi são os melhores em cena.

Além do quarteto de atores central, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes: Steve Schirripa como Nick, um dos capangas do ex-marido de Carolina; Tony Sirico como Angelo, o outro capanga que anda atrás de Carolina; Jack Gore está bem como Richie, o filho revoltado de Ginny; e Gregory Dann, Bobby Slayton e Michael Zegarski como os companheiros de pesca de Humpty.

Além da direção de fotografia de Storaro, ponto alto da produção, vale comentar a competente edição de Alisa Lepselter; o design de produção de Santo Loquasto; a direção de arte de Miguel López-Castillo; a decoração de set de Regina Graves; os figurinos de Suzy Benzinger; a maquiagem feita por 12 profissionais; o Departamento de Arte com 16 profissionais e o trabalho das 14 pessoas envolvidas com os Efeitos Visuais.

Wonder Wheel estreou no dia 14 de outubro de 2017 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participou de outros cinco festivais e eventos de cinema. Nessa trajetória, o filme conquistou um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que ele recebeu até agora foi o de Atriz do Ano para Kate Winslet no Hollywood Film Award.

Esta produção foi rodada em diversos lugares de Nova York, incluindo o Ruby’s Bar & Grill, em Coney Island; o Deno’s Wonder Wheel Amusement Park, também em Coney Island; o Richmond Hill Flea Market, em Richmond Hill; o Snug Harbor Cultural Center, em Staten Island; a South Beach e a Chinese Scholars Garden, em Staten Island; o Freak Bar, em Coney Island; o Rye Playland, em Rye; e o St. George Theatre, em Staten Island.

De acordo com o Box Office Mojo, Wonder Wheel fez US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 5,9 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Ou seja, no total, cerca de US$ 7,3 milhões. Bilheteria bastante baixa e que sinaliza, provavelmente, prejuízo para os produtores – não temos certeza disso porque não encontrei o valor de custo do filme, mas provavelmente ele está no vermelho.

Wonder Wheel é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 104 textos negativos e 45 positivos para Wonder Wheel, o que garante para a produção um nível de aprovação de apenas 30% e uma nota média 5.

CONCLUSÃO: Quem assistiu a um par de filmes do diretor e roteirista Woody Allen já conhece a sua assinatura como realizador. A mesma assinatura vemos aqui, em Wonder Wheel, mas sem a mesma qualidade que vimos anteriormente. Não assisti a todos os filmes do diretor para dizer se este faz parte da lista dos mais fracos, mas algo tenho certeza: Wonder Wheel não é um de seus melhores filmes. Ainda que a produção toque em questões importantes, como a decadência humana e o descolamento entre os sonhos e o ideal de uma pessoa e o que ela verdadeiramente consegue realizar, esse filme realmente não decola em momento algum.

Os protagonistas tem alguns bons momentos, mas o filme em si parece “mais do mesmo”. Nem a direção feita com esmero e a busca pelo tom teatral e por uma certa homenagem à Fellini aqui e ali tornam este filme relevante. Assista apenas se você não perde a um filme de Woody Allen. Se você não tem tanta fidelidade ao diretor assim, procure uma opção melhor nos cinemas e/ou em casa. Porque há opções bem melhores por aí – inclusive do próprio Woody Allen.

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Blue Jasmine

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Uma mulher que sabe bem o lugar importante que ela deve ocupar no mundo. Não por mérito próprio, mas porque ela há de encontrar e encantar um homem que possa proporcionar-lhe a vida de rainha que ela merece. Blue Jasmine foi feito para uma mulher brilhar, e esta mulher se chama Cate Blanchett. A personagem dela é sobre a qual me refiro no início deste texto.

Como o sol e os demais planetas, é ela que aguarda que o mundo gire ao seu redor. Woody Allen faz, mais uma vez, um filme para que uma atriz de renome brilhe e tenha a carreira marcada por seu desempenho. Demorei para assistir a este filme. Gostei dele, mas não encontrei em Blue Jasmine todas as qualidades que eu esperava.

A HISTÓRIA: Um avião corta os céus dos Estados Unidos. Dentro dele, Jasmine (Cate Blanchett) conta para a passageira ao lado (interpretado por Joy Carlin), que ela nunca conheceu um homem como Hal (Alec Baldwin). Ela fala da vida que teve com ele, e como se sentia especial ao seu lado. Lembra como tocava a música Blue Moon quando eles se conheceram, e a mulher ao lado parece embarcar na história.

Jasmine diz que deixou a faculdade para ficar com Hal, mas que não perdeu nada porque ela não se imaginava como uma antropóloga. Na saída para pegar a bagagem, ela diz que o sexo entre eles sempre foi bom. Ela também conta que os médicos tentaram seis medicamentos com ela, mas que nada funcionou como deveria. Nesta parte, a mulher ao lado dela parece um pouco desconfortável. E é desta maneira, um tanto deslocada, que Jasmine tentará refazer a vida em San Francisco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blue Jasmine): Devo adiantar para vocês que vou cometer algumas “heresias” neste texto. Mas há uma justificativa para elas – mesmo que vocês possam discordar dos argumentos.

Como eu disse antes, demorei um bocado para assistir a Blue Jasmine. Uma prova disso é que vi a quase todos os principais concorrentes ao próximo Oscar, incluindo Gravity (comentado aqui no blog), assim que ele estreou nos cinemas, mas perdi o momento de Blue Jasmine. Pouco a pouco, contudo, fui acompanhando como Cate Blanchett foi ganhando todos os prêmios da temporada por causa do desempenho neste filme, e como ela é a virtual favorita para o próximo Oscar, fui obrigada a assistir a este filme.

E francamente? Vi a mais uma produção com a marca do Woody Allen. E aí vai o primeiro sacrilégio deste filme: nunca achei nada demais na filmografia de Allen. Um indicativo disto é que não tenho nenhum de seus filmes como um dos meus preferidos de todos os tempos. Outros diretores, muito menos “badalados”, me “afetam” ou me convencem muito mais em sua forma de contar uma história.

Dito isso, feito este parêntesis, Blue Jasmine é mais um filme bem escrito por Woody Allen. Outra vez, este diretor com marca registrada muito própria, escolheu um tema específico para escrever um roteiro bacana sobre ele. No caso de Blue Jasmine, ele se debruça nas mulheres de escroques que vivem uma vida de primeira a custa dos outros – ou seja, não são ricos por mérito, mas por exploração. E há quem diga que não há rico por mérito… mas esta é outra história.

A personagem principal deste filme, vivida por Blanchett, Jeanette ou Jasmine (o segundo nome por escolha própria), encarna aquele tipo de mulher que acha que a função que tem na vida é encontrar um homem endinheirado pra sustentá-la. Isso porque ela faz uma avaliação de si mesma muito específica: ela merece ter o bom e o melhor. Mas diferente de outras mulheres, Jasmine não acha que conseguirá isso por conta própria – afinal, tudo é muito complicado, especialmente batalhar pela própria sobrevivência e/ou vida boa.

No filme de Allen, encontramos Jasmine após a “tragédia”. Mesmo não tendo me fascinado tanto quanto deveria, o roteiro de Blue Jasmine tem um mérito: ele sabe ir e vir do presente para o passado com suavidade e no momento exato. Assim, pelas lembranças da protagonista, voltamos sempre para a época na qual Hal estava vivo para acompanhar momentos que pudessem ou não sinalizar a inocência ou o conhecimento de Jasmine sobre tudo o que acontecia.

Aliás, esta parece ser a premissa principal do filme. Afinal, o quanto alguém pode ser inocente frente a tanto dinheiro sem uma justificativa plausível para ele existir? As mulheres dos ricaços que ganham verba de forma escusa de fato não sabiam de nada ou fingem não saber? A responsabilidade de Jasmine sobre tudo o que aconteceu e o “preço” que ela paga por ter se feito de cega move a trama, na mesma medida que a tentativa da personagem em se “reerguer”.

Achei especialmente interessante como ela tenta fazer a vida por “conta própria”. No fundo, como fica comprovado, ela apenas tenta fingir que vai tentar um caminho alternativo. Ela é daquela “espécie” de mulher que não quer um grande esforço. O ideal, para este perfil, é que surja pela frente um marido rico e que possa suprir todas as suas demandas.

Não vou julgar uma pessoa que siga esta linha. Até porque há várias mulheres assim. Mas francamente? Não vejo na dependência de outra pessoa, neste caso um “marido-provedor”, a saída para um ser humano. Afinal, cadê a independência, a autonomia? Como eu posso me sentir uma pessoa completa e capaz se não consigo crescer e me manter por conta própria? Acho ótimo e primordial dividir a vida e o que se sabe com os outros – ou com uma pessoa especificamente. Mas a dependência é sempre ruim – porque torna as pessoas superficiais e sem identidade.

Demora, mas lá pelas tantas Jasmine percebe isso. Só que talvez seja tarde demais para ela… Será? Francamente, para quem está disposto a “mudar a chave”, nunca acho que seja tarde demais para nada. Muito menos para tomar as rédeas da própria vida nas mãos. Mas o que faz a protagonista deste filme?

(SPOILER – não leia se você não assistiu a Blue Jasmine). Ela busca o primeiro cara que possa lhe manter na vida boa assim que possível. Assim, naturalmente, ela agarra a oportunidade que uma festa lhe dá e tenta segurar o bom partido Dwight (Peter Sarsgaard). Como tantas pessoas na vida real, fora desta ficção, Jasmine conta apenas parte da própria história. E exagera outras partes. O suficiente para convencer Dwight que ela também é um bom partido. E no fim das contas, quantas relações não surgem e são mantidas através de um cálculo impreciso de troca de benefícios?

Woody Allen sustenta Blue Jasmine com a mesma lógica de tantos outros de seus filmes. Ele tem ótimos acertos em algumas cenas, enquanto na maior parte do tempo procura transportar para a telona o supra-sumo de uma realidade que ele já encontrou na vida. E com a qual nos deparamos também, uma hora ou outra, se formos um pouco atentos.

Como manda a regra de um roteiro de Allen, há algumas sequências verdadeiramente impagáveis. A minha preferida é quando a “tia” Jasmine desabava com os sobrinhos Matthew (Daniel Jenks) e Johnny (Max Rutherford) em uma lanchonete. A cara de constrangidos dos dois, que todos nós já tivemos frente a alguma confissão de um parente “cheio da cachaça”, é impagável. Assim como a interpretação de Blanchett.

Possivelmente, o ponto forte do filme, junto com a “reviravolta” no roteiro perto do final. Para o meu gosto, que vejo Woody Allen um tanto supervalorizado na maior parte do tempo – ainda que devo admitir que ele mantém uma coerência rara para um diretor de Hollywood em sua filmografia -, a nota abaixo se justifica especialmente pela “sacada” do roteiro a partir do reencontro de Jasmine com o enteado Danny (Chalie Tahan quando criança, Alden Ehrenreich quando adulto). Porque, naquele momento, o espectador tem a resposta sobre a “inocência” de Jasmine. Como diz aquela lenda, nada pior do que a vingança de uma mulher traída.

Finalizando, Blue Jasmine é um filme típico de Allen, com algumas sequências muito bem construídas, uma ótima escolha de elenco – Sally Hawkins como Ginger, para mim, é a surpresa positiva da produção -, um roteiro que sabe focar uma parte específica da sociedade com humor e a duração exata. Mais que uma hora e meia de filme seria pedir demais. Mas Blue Jasmine funciona bem em seu tempo de duração, ainda que não seja nenhuma produção verdadeiramente marcante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há uma lenda de que Woody Allen sempre faz filmes para as “atrizes da vez” brilharem. Sabendo que tais atrizes são aquelas que ele escolhe a dedo. Francamente, acho que Cate Blanchett está bem neste filme, mas não vejo que ela faça o trabalho da vida dela aqui. Como já vi acontecer recentemente com outras atrizes que passam pelas “mãos” de Woody Allen. Ainda assim, e isso é fato, ele sabe dirigir bem os atores que participam de suas produções.

Neste filme, além de Cate Blanchett, que literalmente vive a personagem que faz os demais orbitarem ao seu redor, gostei muito da entrega de Sally Hawkins. De uma maneira muito discreta, nada espalhafatosa, Hawkins encarna bem o papel da irmã que se sente sempre eclipsada. Além das duas, que se destacam na produção, acho que Alec Baldwin segura bem no papel de Hal, assim como Andrew Dice Clay está bem como Augie – especialmente na sequência em que ele fala algumas verdades para Jasmine quando ela está para comprar o anel de noivado.

Outros que merecem ser mencionados pelo bom trabalho: Bobby Cannavale como Chili, o novo namorado de Ginger que está louco para Jasmine sair da casa para que ele possa viver com a namorada; e Louis C.K. como Al, o homem que Ginger conhece em uma festa e que, francamente, está na cara que é casado. Também está bem, ainda que apareça pouco, o trabalho de Max Casella como Eddie, o amigo de Chili que é “escalado” para um encontro com Jasmine, e o “eterno esquisitão” Michael Stuhlbarg como o Dr. Flicker, o dentista com quem a protagonista vai trabalhar.

A marca de Woody Allen se manifesta logo nos primeiros minutos do filme. Aquela crônica de uma conversa desconcertante no avião é típica do diretor. Quem nunca teve que “aguentar” uma pessoa que gosta de falar a vida inteira para um desconhecido? Algo constrangedor, mas bastante realista. Ainda mais nos tempos atuais, em que a tecnologia ajuda as pessoas a “desabafarem”. Para mim, um sintoma importante da falta de contato, de afeto e de intimidade que as pessoas tem umas com as outras em muitos momentos – e daí, como “válvula de escape”, fica mais “fácil” (bem entre aspas) falar com desconhecidos sobre coisas muito pessoais. O que é quase o mesmo que falar sozinho – como Blue Jasmine bem argumenta.

Grande apreciador de jazz, Woody Allen nos entrega, mais uma vez, uma trilha sonora embalada pelo gênero. Algo que sempre funciona, assim como os créditos iniciais e finais de seus filmes. Eles resgatam os créditos dos anos 1950 e 1960, principalmente.

Agora, um adendo aos comentários anteriores sobre o filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Blue Jasmine). Ainda que Jasmine faça o perfil de mulher “interesseira”, ou seja, daquela mulher que prefere se anular para não passar trabalho de correr atrás do próprio dinheiro e ser mantida por um homem, chega a incomodar o machismo que a circula. Não apenas em comentários maldosos de Chili, que não alivia em momento algum em “jogar verdades” na cara de Jasmine, mas também na forma com que homens como o Dr. Flicker a trata. Até parece que todos no filme esperam que o futuro inevitável da mulher – e não apenas de Jasmine – seja se entregar e depender de um homem. Triste e limitante cenário.

Da parte técnica do filme, sem dúvida destaco a trilha sonora, a edição de Alisa Lepselter e os figurinos de Suzy Benzinger. Outros nomes que podem interessar: Javier Aguirresarobe como diretor de fotografia; Santo Loquasto assinando o design da produção; Michael E. Goldman e Doug Huszti na direção de arte; Kris Boxell e Regina Graves na decoração de set; e a maquiagem da equipe comandada por Karen Bradley e Linda Kaufman.

Blue Jasmine estreou em Los Angeles e em Nova York no dia 26 de julho de 2013. Depois, o filme participaria do Traverse City Film Festival no dia 30 de julho. A produção passou ainda por outros seis festivais e recebeu, até o momento, 21 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo três Oscar’s. Entre os que recebeu, destaque para o Golden Globe de Melhor Atriz – Drama para Cate Blanchett, para o Screen Actors Guild de Melhor Atriz também para Blanchett e para outros 18 prêmios que a atriz recebeu pelo papel como Jasmine.

Esta última produção de Woody Allen teria custado US$ 18 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 33,2 milhões. No restante dos mercados aonde o filme já estreou, ele faturou cerca de US$ 61,6 milhões. Um bom desempenho, e que garante mais um sucesso para a filmografia de Allen.

Blue Jasmine foi rodado em Nova York, em San Francisco e em diferentes cidades da Califórnia.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: a figurinista Suzy Benzinger tinha um orçamento de apenas US$ 35 mil. Apenas a bolsa Hermès que Jasmine carrega valia mais do que isso. Desta forma, Benzinger precisou conseguir emprestada não apenas a bolsa, mas a maioria das roupas de grife que aparece na produção.

As atrizes Cate Blanchett e Sally Hawkins foram as únicas do elenco a terem o script completo durante as filmagens. Os demais atores tiveram que improvisar bastante.

Inicialmente, o ator Bradley Cooper tinha sido sondado para fazer um papel no filme, mas por conflitos de agenda ele acabou ficando de fora do projeto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Blue Jasmine. Uma boa avaliação, mas abaixo de vários concorrentes do filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: A mulher elegante que fala sozinha e que conta, para quem quiser ouvir, detalhes da própria vida, ganhou um filme em sua homenagem. Blue Jasmine persegue os passos desta mulher quando ela não tem mais o que tinha. Um filme bem contado, com a duração exata, e com algumas cenas impagáveis. Bem ao estilo de Woody Allen. E ainda que a consagrada Cate Blanchett brilhe em seu papel, fica complicada a comparação. Digo isso não apenas porque ela concorre com nomes incríveis no próximo Oscar, mas também porque as entregas das atrizes que estão disputando o prêmio mais vistoso de Hollywood são muito diferentes. Mas falarei sobre isso logo mais, no tópico abaixo.

Sobre o filme… é uma história interessante, que foca uma parte menos “visível” da mentirosa classe alta e que vive de golpes. A mulher frágil não é idiota, ainda que seja feita de muita complexidade. Allen, como em outros filmes, vai esmiuçando a alma da protagonista e, através desta lente apurada, percebemos as suas relações, conhecemos os seus desejos e limites. Mais um filme humano, demasiado humano, e que trata dos efeitos irreversíveis que uma vida de escolhas equivocadas pode provocar. O inferno não são os outros, segundo Blue Jasmine. Bem escrito, envolvente, só não tem a potência para ser inesquecível. Há filmes melhores de Blanchett e Allen – separados – no mercado.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Impressionante como Cate Blanchett “papou tudo” por causa de seu desempenho em Blue Jasmine. A atriz, uma das melhores de seu geração, para o meu gosto, ganhou os principais prêmios da temporada por seu trabalho como Jasmine. Ela merece toda esta badalação? Sem dúvida, Blanchett está perfeita neste filme. E também merece qualquer prêmio pelo conjunto da obra. Mas e as outras concorrentes no Oscar?

Antes de falarmos delas, vamos relembrar para quais estatuetas Blue Jasmine foi indicado: Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz para Cate Blanchett e Melhor Atriz Coadjuvante para Sally Hawkins. Destas indicações, a única que pode dar um Oscar para o filme é mesmo a indicação de Blanchett. Acompanhei as últimas premiações e reparei em como ela ganhou todos os prêmios – do Globo de Ouro até o Screen Actors Guild, os dois principais na corrida pré-Oscar.

Talvez por saber disto e por acompanhar a carreira de Blanchett, eu esperava mais dela em Blue Jasmine. Certo, alguém pode dizer que eu estou cometendo uma heresia. Mas não me entendam mal. Não quero dizer que ela não esteja muito bem no papel. O filme é dela – e foi feito desta forma, como tantos outros filmes de Allen que são planejados para a atriz protagonista brilhar (e as demais atrizes da produção também).

Mas é que com tantos prêmios recebidos, eu estava esperando uma interpretação acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita. E não foi isso que eu vi. Ainda preciso assistir ao trabalho de outras duas feras para concluir definitivamente sobre a categoria Melhor Atriz: Meryl Streep e Judi Dench. Mas apenas comparando o trabalho de Blanchett, de Amy Adams (American Hustle, comentado aqui no blog) e de Sandra Bullock (Gravity), acho que a Academia deveria premiar a… Bullock.

Sim, nem eu acredito que escrevi isso. Em qualquer situação eu acho Blanchett melhor que a Bullock. Mas desta vez, mesmo achando o roteiro de Gravity fraco, vejo uma entrega muito maior de Bullock que de Blanchett em seus respectivos filmes. Blue Jasmine não é o papel da vida de Blanchett. Mas talvez seja o filme em que Bullock mais se esforçou. De qualquer forma, acho que seria uma zebra Blanchett perder esta. E não será injusto, por tudo que ela já fez no cinema – e, até agora, ela nunca recebeu um Oscar como Melhor Atriz, apenas como Melhor Atriz Coadjuvante. Está na hora dela ganhar, é claro.

Dito isso, não estarei torcendo por ela na noite do Oscar. Mas também não acharei nada injusto se a Academia lhe fizer justiça. Nas outras categorias em que o filme está concorrendo, não vejo chances em Melhor Atriz Coadjuvante – onde a estatueta está sendo disputada a tapas por Lupita Nyong’o (de 12 Years a Slave, que eu comentei neste texto) e por Jennifer Lawrence (de American Hustle) – e nem em Melhor Roteiro Original.

Neste último, francamente, acho que o prêmio deveria ir para Her (comentado por aqui) ou para Dallas Buyers Club (para o qual você encontra uma crítica aqui). Ainda que American Hustle – que jamais seria o meu voto – possa surpreender. Mas Blue Jasmine… ainda que tenha um texto muito bom, corre por fora. No dia 2 de março nossas dúvidas serão respondidas.

Midnight in Paris – Meia-noite em Paris

Paris… ah, Paris! Quem já caminhou pelas ruas, calçadas, praças, parques, cafés, restaurantes, museus e viu todas as cores e nuances de luz da capital francesa sabe que não existe uma cidade do mundo com aquele encanto. Há um charme, uma aura diferenciada. Woody Allen acerta na mosca ao fazer uma homenagem descarada para esta cidade com Midnight in Paris. Ele retoma o seu texto ligeiro, esperto, com várias referências às artes e histórias da cidade e, de quebra, encontra a sua versão jovem em Owen Wilson. Bom rever Allen em sua melhor forma novamente.

A HISTÓRIA: Vários ângulos mostram Paris em todo o seu esplendor, acompanhados de uma trilha sonora deliciosa. Imagens que contam parte da rotina da cidade, começando pela manhã, seguindo pela tarde, com tempo bom e chuva, até chegar à noite iluminada. Em seguida, o roteirista de Hollywood e escritor Gil (Owen Wilson) tenta convencer a noiva, Inez (Rachel McAdams) de que não há e nunca houve uma cidade como Paris. Especialmente quando chove. Ela não entende as razões de tanto fascínio, e diz que não poderia morar fora dos Estados Unidos. Gil está maravilhado com o cenário que inspirou Monet, mas Inez responde dizendo que ele está apaixonado por uma fantasia. A partir daí, acompanharemos as aventuras do casal por uma Paris bastante distinta, que varia conforme a ótica de cada um.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Midnight in Paris): Woody Allen voltou à sua melhor forma. No texto ligeiro, cheio de referências e de humor inteligente. Midnight in Paris faz uma descarada e merecida homenagem à mais maravilhosa das cidades, Paris. Mas o filme é delicioso não apenas por isso, mas pelas pequenas ironias sobre a forma diferente com que as pessoas encaram as próprias vidas e as cidades pelas quais vão percorrendo enquanto esta mesma vida passa.

Como é costumeiro nos filmes de Allen, em Midnight in Paris os protagonistas vivem um momento de crise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E por ironia, vivem essa crise nas vésperas de dar o passo mais decisivo: o de se casarem. Mas eles parecem falar idiomas diferentes a todo o instante. E, desde o início, o espectador fica esperando para saber em qual momento eles irão se separar. Porque parece impossível eles darem certo. Ele é um romântico, sonhador. Ela, uma garota fascinada por alguém mais velho e que pareça vomitar conhecimento a cada palavra proferida – pura ilusão, diga-se. Porque ninguém sabe tudo. E aquele que parece estar dando uma aula constante, é apenas maçante.

Midnight in Paris tem o tempo certo. Não é longo demais, e nem repetitivo. E essas qualidades parecem ser cada vez mais difíceis de serem encontradas. Os filmes que conseguem acertar no tempo e na dose do vai-e-vem do roteiro sem torná-lo repetitivo são um verdadeiro achado. Claro que em Midnight repete duas fórmulas: o conflito entre Gil e Paul (Michael Sheen), o “super-crânio” admirado por Inez, e as “voltas no tempo” do protagonista. Mas como em cada uma destas “repetições” há novidades, novos elementos, um molho nos diálogos, principalmente, a fórmula não parece ajustada. E também não se repete vezes demais.

O primeiro elemento que chama a atenção na produção e continua impecável até o final é a trilha sonora. E o apurado senso estético de Allen para capturar a essência de Paris. A trilha sonora que merece aplausos é mérito de Stephane Wrembel. Diferente de outros diretores, que poderiam perder tempo demais focando os cenários maravilhosos de Paris, Allen faz isso apenas na medida necessária. No “clipe” de homenagem que abre a produção e poucas vezes mais – e sempre tratando a cidade como pano-de-fundo de diálogos interessantes e interpretações sob medida. Nada de exageros, nada “over” – diferente de Vicky Cristina Barcelona, só para dar um exemplo recente.

Um dos grandes acertos de Allen foi ele ter voltado a tratar sobre si mesmo. Sim, porque seus melhores filmes são mais que autorais, são quase microcinebiografias. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Novamente ele se coloca no personagem principal. Mas teve a lucidez de saber que não pode mais figurar como um quase-galã. Então ele encontrou o ator perfeito para viver o seu estilo: Owen Wilson. Até o jeito de falar dele lembra o de Allen em filmes antigos. Ele está perfeito. Allen brinca com o erro na escolha amorosa e com o desejo de um artista em ser mais sério – deixando clara a sua preferência irônica de que a literatura é mais interessante que qualquer roteiro de Hollywood.

Não sabemos exatamente o que se passa. Se Gil, em um momento de crise, acaba alucinando por várias noites e embarcando sozinho em conversas com alguns dos maiores escritores e artistas de todos os tempos, e que conviveram juntos na Paris dos anos 1920, ou se ele realmente encontrou uma forma mágica de voltar no tempo. Isso pouca importa. Outra lição de Midnight in Paris é que o cinema é magia, que nos faz sonhar, viajar no tempo e no espaço, e que não vem ao caso que uma história seja 100% lógica. Paris faz qualquer pessoa viajar no tempo. A cidade respira cultura, e tem histórias e personagens em cada esquina. Incluindo os de importância histórica.

A brincadeira com a meia-noite também é divertida. Afinal, quem não se lembra da clássica histórica da Cinderela? E quantos de vocês já não brincaram que precisavam sair mais cedo antes que a carruagem virasse abóbora? Então por que coisas fantásticas não podem acontecer com o bêbado certo no lugar certo com o desejo certo na cidade de Paris? Midnight nos ensina a sonhar, e a soltarmos a imaginação. É uma ode à arte e à criatividade.

Mas o melhor do filme, além de Paris, da trilha sonora e da criatividade do roteiro, são duas ironias do texto de Allen. Primeiro, ele dá um bom tapa com luva de pelica nos estadunidenses “clássicos”, como Inez e seus pais, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). Destes que chegam em Paris ou em outra cidade fora dos Estados Unidos e acham razões para criticar quase tudo. Não conhecem muito sobre a cultura do lugar, e ficam fascinados com qualquer Paul que pareça saber algo – sendo verdadeiro ou não o que ele esteja dizendo. Ou simplesmente não querem saber de cultura alguma. Querem apenas voltar para os Estados Unidos o mais rápido possível. Pessoas que acham que precisam pagar caro para algo bom, e que estando em outro país, assistem a um filme made in Hollywood. O inverso de Gil, que admira e quer mergulhar naquela cultura.

A outra ironia é ainda melhor – e mais filosófica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Antes mesmo do protagonista voltar no tempo, junto com Adriana (Marion Cotillard), para a melhor época de Paris na opinião dela – na virada dos séculos 19 para o 20 – eu já estava pensando naqueles retornos… afinal, faz falta mesmo acreditar que houve um tempo melhor que o atual? Que tipo de resultado um pensamento assim pode trazer? Frustração, e pouco mais. Ok, para a história esse desejo irrepreensível do protagonista serve. Mas na vida real, ser saudosista não leva à nada. Muito melhor é saber admirar o tempo passado, grandes obras que outros deixaram, mas conseguir admirar o tempo presente com o mesmo interesse e fascínio. Afinal, a história até pode se repetir, em alguns aspectos, mas o tempo é sempre novo e chega para surpreender. Saber tirar proveito disto é fundamental. E o final do filme mostra isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais uma vez, Woody Allen acerta na escolha do elenco. E desta vez, pelos artistas homenageados pela história, ele conta com um grupo de primeira. Além dos atores já citados, dos quais eu destaco os ótimos trabalhos de Owen Wilson, que me surpreendeu – para mim, dos filmes dele que eu assisti até agora, este foi o melhor -, o de Kurt Fuller e da encantadora e precisa Marion Cotillard, vale citar o surpreendente desempenho de Carla Bruni, como uma guia de museu; Alison Pill como Zelda Fitzgerald; Corey Stoll como Ernest Hemingway; Tom Hiddleston como F. Scott Fitzgerald; Kathy Bates como Gertrude Stein; Adrien Brody como Salvador Dalí (estrelando uma das sequências mais engraçadas do filme); e a encantadora Léa Seydoux como Gabrielle.

Midnight in Paris estreou no Festival de Cannes no dia 11 de maio de 2011. Depois, ele participou de outros cinco festivais e acumulou, até agora, nove prêmios e outras 38 indicações – incluindo quatro Oscar‘s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro.

O novo filme de Woody Allen custou aproximadamente US$ 17 milhões. E foi muito bem nas bilheterias – com um roteiro delicioso, o nome de Allen e Paris como pano-de-fundo, não tinha erro. Apenas nos Estados Unidos o filme arrecadou, até o dia 5 de fevereiro deste ano, pouco mais de US$ 56,5 milhões. Na França, ele acumulou pouco mais de 8,4 milhões de euros e, na Itália, mesmo o país em crise, outros pouco mais de 8,7 milhões de euros. Nada mal. Mais que pagado, e no lucro.

E Woody Allen, aos 76 anos, não para. Atualmente o cineasta trabalha na pós-produção de seu 47º filme como diretor – e 68º como roteirista: Nero Fiddled, no qual ele volta a atuar. No elenco estão Ellen Page, Jesse Eisenberg, Alec Baldwin, Penélope Cruz, Alison Pill, Roberto Benigni, Ornella Muti, entre outros. Os dois primeiros atores me atraem. Já os demais… bueno, a conferir.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Midnight in Paris. Achei que a nota poderia ter sido melhor. Talvez nem todos conheçam Paris… sim, porque eu acho que o fato da pessoa ter presenciado aquele encanto pessoalmente, ter vivido pelo menos um pouco o charme daquela cidade faz toda a diferença na percepção deste filme. E de qualquer outra que torne uma cidade como uma das protagonistas. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 181 críticas positivas e apenas 14 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,8.

Midnight in Paris é uma co-produção da Espanha e dos Estados Unidos.

Da parte técnica do filme, além da trilha sonora deliciosa – e fundamental para o resultado do filme -, vale citar a ótima direção de fotografia de Darius Khondji e Johanne Debas; a edição de Alisa Lepselter; a direção de arte de Jean-Yves Rabier e Anne Seibel; o design de produção de Anne Seibel; a decoração de set de Hélène Dubreuil e os figurinos de Sonia Grande.

E agora, uma observação inevitável: sim, eu sei que eu demorei para assistir a Midnight in Paris. Mas quem acompanha este blog há algum tempo, já deve saber que quando eu perco “o momento” de assistir a um lançamento, ele acaba ficando no final da fila. E ela é tão, mas tãoooo grande! Midnight in Paris só voltou a subir na lista porque está concorrendo ao Oscar, claro. Mas valeu a pena assistir, mesmo com todo esse atraso.

CONCLUSÃO: Como continuar fazendo filmes sobre cidades e suas digitais e não parecer redudante? Não é uma tarefa das mais fáceis. Mas talvez o segredo seja soltar a criatividade e a imaginação. Ser menos realista e mais surrealista. Midnight in Paris é um filme delicioso, criativo e que reinventa alguns dos lugares-comuns de seu cineasta, Woody Allen. Engraçado, mas não de uma forma forçada. O diretor e roteirista continua falando de casais, suas crises e o desejo individual que pode, muitas vezes, não coincidir e pioras as coisas. Mas sobretudo, ele trata de Paris. De como aquela cidade é maravilhosa, não importa o clima ou a época. De quebra, Allen ainda brinca com esse vício dos sadosistas de plantão, de sempre achar o passado melhor que o presente. Desta forma, eles nunca aproveitam as chances, oportunidades e encantos de sua própria época. Um filme delicioso, para quem vive o presente, o passado e gosta de histórias que ainda investem na imaginação.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Midnight in Paris foi indicado para quatro Oscar’s. Achei bastante justo. O filme mereceu as indicações que recebeu. Além de ser indicado na categoria principal, de melhor filme, a produção está concorrendo como Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor e Melhor Direção de Arte.

Destas categorias, vejo que ele tem alguma chance, ainda que pequena, em Melhor Roteiro Original e Melhor Diretor. Como melhor filme, ainda que não seria nenhum crime ele ganhar, acho que as chances são mínimas. Afinal, The Artist e The Descendants, especialmente o primeiro, são favoritíssimos. Na mesma onda, três diretores parecem ter mais chances que Allen, que já recebeu três Oscar’s na carreira. A saber: Michel Hazanavicius, por The Artist; Martin Scorsese, por Hugo; e Alexander Payne por The Descendants. Em uma bolsa de apostas, eles estariam na frente de Allen.

Como Melhor Roteiro Original, Midnight in Paris tem mais chances. Seu grande concorrente é The Artist. A queda-de-braço ficou menor. Qualquer um dos dois vencendo será algo justo. Os demais correm por fora. Finalmente, Midnight concorre em Direção de Arte. Acho que The Artist e Hugo tem mais chances nesta categoria. Mas nunca se sabe… No cômputo geral, vejo que Midnight pode sair do Oscar de mãos abanando ou, na melhor das hipóteses, ganhar em Roteiro Original.

SUGESTÕES DE LEITORES: Antes tarde do que mais tarde, já diriam os espanhóis… revendo o meu arquivo de sugestões deixadas por vocês, meus caros leitores, percebi que Midnight in Paris havia sido indicado pelo Lorenzo Lavati no ano passado. E ainda que este filme, como The Tree of Life, tenha sido assistido agora porque ambos foram indicados ao Oscar, vale citar que o Lorenzo tinha pedido um texto sobre eles no dia 25 de setembro do ano passado. E aí, Lorenzo, você gostou deste filme? Volte aqui para comentar. Abraços!