Wonder Wheel – Roda Gigante

wonder-wheel

Um lugar cheio de prazeres, de atrativos e de entretenimento. Mas, para alguns, esse lugar está decadente. Agora, vale sempre perguntar: quem faz a decadência de um lugar? Será que ele, por si só, pode tornar-se decadente? Ou somos nós, as pessoas, que sucumbimos a nossos vícios, egoísmos e decaímos em relação ao que sonhamos? Woody Allen apresenta mais um de seus filmes. Bem ao seu estilo. Mas, é bom dizer, Wonder Wheel não faz parte da melhor safra do diretor. Com roteiro um bocado óbvio, rebuscado, Wonder Wheel tem um estilo teatral interessante, mas que se torna um pouco enfadonho pelo roteiro que não é tão bom quanto poderia ser.

A HISTÓRIA: Começa em Coney Island nos anos 1950. Vemos a uma praia cheia e, no Posto 7, a um “salva vidas” que se apresenta como narrador da história. Mickey (Justin Timberlake) diz que trabalha ali no Verão, mas que está estudando para ser artista. E, como tal, ele gosta de escrever utilizando muitos símbolos. Ele gosta de drama. E é uma história com esse estilo que ele vai nos apresenta.

O drama narrado por Mickey inicia com a chegada de Carolina (Juno Temple), uma bela moça que está procurando por Humpty (Jim Belushi). Ela logo descobre que ele trabalha no carrossel do parque à noite, mas fica sabendo onde encontrar a mulher dele, Ginny (Kate Winslet). Todos esses personagens vão se relacionar e viver momentos de emoção e de tensão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wonder Wheel): Bem, o que dizer sobre esse filme? Vou começar pelo básico, que foi a minha motivação de assistir a Wonder Wheel – ainda em 2017, mais precisamente no final do ano. Eu admiro o diretor Woody Allen, o seu estilo e as suas escolhas artísticas. Ele sempre explorou uma forma de fazer cinema, de valorizar a história e os personagens que eu admiro. Por isso, não sou super “fanática” do diretor, mas tento assistir aos novos filmes dele sempre que eles aparecem.

Essa foi a minha principal motivação para assistir a Wonder Wheel. Ver o que Allen iria nos apresentar dessa vez. Procuro não ver trailers ou ler sobre os filmes antes de assisti-los – essa é uma mania que eu tenho. Mas admito que eu costumo saber se um filme foi bem ou mal segundo as críticas do público e dos especialistas antes de optar por uma produção. Então sim, eu sabia que Wonder Wheel não estava muito “bem visto”, digamos assim. Ele não tinha caído no gosto das pessoas. E ao assistir a essa produção, eu descobri o porquê disso.

O filme começa bem, com um visual super interessante e que lembra alguns filmes de Federico Fellini. Depois, vemos uma direção de fotografia muito presente, algo importante e marcante em todos os minutos da produção. Conforme a história escrita por Allen se desenrola, também percebemos uma grande aposta do diretor em um tom “teatral” que funciona até uma certa parte e, depois, fica bastante previsível e até cansativo.

Como sempre, o diretor escreve o seu roteiro para os atores terem os seus “grandes momentos”. E isso acontece aqui. Como costuma acontecer também, as “grandes linhas” e momentos do roteiro são escritas para a protagonista, interpretada pela grande e sempre talentosa Kate Winslet. Mas até os grandes momentos da atriz parecem um tanto óbvios e previsíveis – especialmente, imagino, para quem já assistiu a vários e vários filmes do diretor.

Feitos esses comentários sobre pontos que me chamaram a atenção na produção, falemos um pouco sobre a história narrada por Wonder Wheel. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). O âmago da narrativa é um certo “triângulo amoroso” entre Mickey, Ginny e Carolina. Ou melhor, uma sugestão de triângulo amoroso que acaba, na prática, apenas se desenhando e não se consolidando, mas que acaba sendo fundamental para os atos finais de Ginny e de Mickey. No mais, o filme nos conta a mudança na rotina do casal Humpty e Ginny quando a filha do primeiro casamento de Humpty pede abrigo para eles. E o que mais Wonder Wheel nos conta?

Em termos de ação e de dinâmica dos personagens, essa narrativa que eu comentei resume tudo. Mas o interessante da narrativa está, evidentemente, na história e nos atos da protagonista, Ginny. Ela é a parte realmente importante da trama. Afinal, quase tudo que vemos em cena acontece por influência dessa personagem. Ela é que está no centro da dinâmica entre os personagens e ela é determinante para o que acontece na reta final da produção. Também é Ginny que apresenta os elementos que “fazem pensar” (ainda que pouco) em Wonder Wheel.

Para mim, a única parte interessante e que “se salva” desse filme – além da direção de fotografia – é o contexto da personagem de Kate Winslet. Ela nos mostra, de forma bastante didática, inclusive, como as frustrações de uma vida e o descolamento da ideia que uma pessoa tinha para si mesma como realidade ideal e o que ela de fato vive pode provocar destruição e muitos, muitos problemas. Ginny é uma mulher frustrada, que vive em um casamento por “comodismo” e não por amor e que não se esqueceu das besteiras que fez na vida – como o amor que perdeu por traição feita por ela.

Ela conhece Mickey em um passeio na praia em que ela estava pensando em colocar fim na própria vida. Como é infeliz, não apenas no casamento, mas em sua vida particular – ela trabalha como garçonete, e tem uma grande frustração por causa disso -, ela acaba repercutindo negativamente em todas as direções ao seu redor. Vide o seu filho “problemático” Richie (Jack Gore). O garoto pouco fala, mas expressa a sua insatisfação com a vida colocando fogo em tudo que aparece pela frente.

Na cabeça de Ginny, ela tem talento e deveria fazer sucesso no teatro ou no cinema. Mas a vida “foi injusta” com ela, ninguém conseguiu reconhecer o talento que ela acredita ter e, por isso, ela vive aquela vida “ordinária” em um lugar que ela odeia e com uma pessoa que ela apenas suporta – e ainda, em alguns dias, muito mal. Ginny não sabe lidar com o filho, Richie, e enxerga no romance que desenvolve com Mickey uma fuga da sua realidade infeliz. No fundo, ela gostaria de sair dali correndo e não olhar para trás, mas ela não tem coragem para isso.

Como Mickey simboliza para ela tudo aquilo que ela não tem – juventude, talento, perspectiva de viver um amor que ela não vive -, Ginny fica perturbada ao perceber que a filha do marido, Carolina, pode ameaçar esse seu “ideal de fuga”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E é assim que Ginny não provoca a captura de Carolina, mas também não impede que a moça seja levada pelos capangas do ex-marido mafioso. Mickey percebe que ela teve participação no sumiço de Carolina e a abandona, mas Ginny já está vivendo novamente em seu mundo próprio de fantasia. Ali, ninguém pode “tocá-la” ou frustrá-la mais do que a vida mesma em que ela se perdeu.

Como resolver uma situação como a de Ginny? Bem, aí poderíamos entrar em um grande debate – ou sessões de terapia. Mas acho que as pessoas devem sempre buscar o que lhes dá sentido e o que lhes faz feliz. Você está insatisfeito com a sua vida e gostaria de estar em outro local ou fazendo outra coisa? Corra atrás então do que você quer. Você gostaria de ser uma artista de sucesso, mas esse tal sucesso não veio?

Quem sabe você deveria ver tudo o que a vida lhe deu e está lhe dando e que não passa por esse sucesso desejado. Ficar satisfeito com o que você tem, que possivelmente será bastante – e mais do que muitos merecem. Ter gratidão, perceber a sua realidade com olhos mais generosos. Parte das respostas começa por aí. Mas enfim, como eu disse, esse é um longo papo. Mas Wonder Wheel pode estimular as pessoas a pensarem sobre isso e, quem sabe, debaterem a respeito das suas próprias frustrações.

Por causa da personagem de Ginny e de tudo que ela nos apresenta, Wonder Wheel não é um verdadeiro desperdício de tempo. Mas… a forma com que a história, que não é assim tão original, é contada, não surpreende e nem se apresenta tão envolvente. O filme segue muitas trilhas conhecidas e acaba se perdendo um pouco no tom teatral. Tantos outros filmes tratam muito bem sobre a decadência particular de um indivíduo. Não acho que Wonder Wheel faça isso com maior propriedade ou profundidade. Valeu pela experiência, mas eu não recomendaria como um filme que precisa ser visto. Espero que Woody Allen volte melhor na próxima vez.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, as melhores qualidades de Wonder Wheel são a direção de fotografia de Vittorio Storaro, caprichada e muito bonita, que ajuda a pontuar a história com as suas variações, e o trabalho de dois dos quatro atores principais. Kate Winslet está ótima, mais uma vez, apesar de nem sempre o roteiro lhe ajudar como poderia; e gostei muito do trabalho de Jim Belushi também – ele mergulhou no personagem e mostra muita verdade em cada cena.

Os outros dois atores que têm relevância no filme estão bem, mas não fazem nada demais, digamos assim. Justin Timberlake mostra que é um intérprete regular, com um desempenho que poderia ser obtido por vários outros atores do mercado. Juno Temple também está bem, mas acho que ela apresenta uma interpretação morna. Mas entre os dois, ainda acho que Temple está melhor que Timberlake. Ainda assim, nada demais a comentar sobre o elenco. Apenas que Kate Winslet e Jim Belushi são os melhores em cena.

Além do quarteto de atores central, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes: Steve Schirripa como Nick, um dos capangas do ex-marido de Carolina; Tony Sirico como Angelo, o outro capanga que anda atrás de Carolina; Jack Gore está bem como Richie, o filho revoltado de Ginny; e Gregory Dann, Bobby Slayton e Michael Zegarski como os companheiros de pesca de Humpty.

Além da direção de fotografia de Storaro, ponto alto da produção, vale comentar a competente edição de Alisa Lepselter; o design de produção de Santo Loquasto; a direção de arte de Miguel López-Castillo; a decoração de set de Regina Graves; os figurinos de Suzy Benzinger; a maquiagem feita por 12 profissionais; o Departamento de Arte com 16 profissionais e o trabalho das 14 pessoas envolvidas com os Efeitos Visuais.

Wonder Wheel estreou no dia 14 de outubro de 2017 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participou de outros cinco festivais e eventos de cinema. Nessa trajetória, o filme conquistou um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que ele recebeu até agora foi o de Atriz do Ano para Kate Winslet no Hollywood Film Award.

Esta produção foi rodada em diversos lugares de Nova York, incluindo o Ruby’s Bar & Grill, em Coney Island; o Deno’s Wonder Wheel Amusement Park, também em Coney Island; o Richmond Hill Flea Market, em Richmond Hill; o Snug Harbor Cultural Center, em Staten Island; a South Beach e a Chinese Scholars Garden, em Staten Island; o Freak Bar, em Coney Island; o Rye Playland, em Rye; e o St. George Theatre, em Staten Island.

De acordo com o Box Office Mojo, Wonder Wheel fez US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 5,9 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Ou seja, no total, cerca de US$ 7,3 milhões. Bilheteria bastante baixa e que sinaliza, provavelmente, prejuízo para os produtores – não temos certeza disso porque não encontrei o valor de custo do filme, mas provavelmente ele está no vermelho.

Wonder Wheel é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 104 textos negativos e 45 positivos para Wonder Wheel, o que garante para a produção um nível de aprovação de apenas 30% e uma nota média 5.

CONCLUSÃO: Quem assistiu a um par de filmes do diretor e roteirista Woody Allen já conhece a sua assinatura como realizador. A mesma assinatura vemos aqui, em Wonder Wheel, mas sem a mesma qualidade que vimos anteriormente. Não assisti a todos os filmes do diretor para dizer se este faz parte da lista dos mais fracos, mas algo tenho certeza: Wonder Wheel não é um de seus melhores filmes. Ainda que a produção toque em questões importantes, como a decadência humana e o descolamento entre os sonhos e o ideal de uma pessoa e o que ela verdadeiramente consegue realizar, esse filme realmente não decola em momento algum.

Os protagonistas tem alguns bons momentos, mas o filme em si parece “mais do mesmo”. Nem a direção feita com esmero e a busca pelo tom teatral e por uma certa homenagem à Fellini aqui e ali tornam este filme relevante. Assista apenas se você não perde a um filme de Woody Allen. Se você não tem tanta fidelidade ao diretor assim, procure uma opção melhor nos cinemas e/ou em casa. Porque há opções bem melhores por aí – inclusive do próprio Woody Allen.

Anúncios

Lovelace

lovelace2

A história de uma mulher que marcou o debate público dos Estados durante uma década, aproximadamente, entre o início dos anos 1970 e dos anos 1980. E ela não fez isso de forma planejada. Mas quando se viu frente aos holofotes, resolveu tomar uma atitude e mudar a rota previsível. Usando literalmente a garganta, seja para ganhar dinheiro ou para denunciar, Linda Lovelace chocou a opinião pública norte-americana, dividiu opiniões, criou furor no setor da pornografia e, agora, rendeu a cinebiografia que leva o seu nome artístico. Lovelace conta a história desta mulher, trazendo uma Amanda Seyfried um pouco mais ousada do que o seu público está acostumado a presenciar.

A HISTÓRIA: Sonzeira e um retroprojetor de um cinema qualquer. Na frente dos espectadores, o início do filme Deep Throat, de 1972. Após aplausos, uma voz apresenta a protagonista do filme: Linda Lovelace (Amanda Seyfried). Corta. Ela aparece fumando em uma banheira, pensativa. Junto com a música alta, um trecho de uma entrevista de Linda, quando lhe perguntam qual é a história dela antes de tornar-se uma estrela de filme pornô e a garota-propaganda da revolução sexual nos Estados Unidos. Corta. Na televisão, o apresentador constata que Deep Throat tornou-se um dos filmes de maior êxito do cinema e que um tribunal de Manhattan havia considerado a produção obscena e exigido que ela saísse de cartaz dos cinemas de Nova York. A pergunta sobre quem é a real Linda Lovelace conta a história da mulher na banheira, protagonista de um dos filmes pornô mais polêmico de todos os tempos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lovelace): Eu perdi o filme Deep Throat, mas tinha ouvido falar dele. Francamente, os filmes pornô nunca foram o meu forte. 🙂 Sempre preferi outras opções nas videolocadoras, quando elas eram a minha alternativa mais frequente para assistir a filmes diferentes – antes da proliferação dos cinemas e de outras formas de conseguir produções de todos os tipos. Mas interessada pela história do cinema mundial, impossível não ter ouvido falar da conhecida Garganta Profunda.

Ainda assim, até Lovelace, eu não sabia nada sobre a história da protagonista do conhecido filme do cinema pornô. Não sabia, por exemplo, que ela tinha virado uma inusitada ídola de parte do movimento feminista. Algo difícil de acreditar se pensarmos em uma estrela do cinema pornô – já que este tipo de filme, originalmente, guardada as devidas exceções, plasma um tipo de degradação da mulher difícil de ser aceita por quem defende a valorização do “sexo frágil”.

Pois bem, tudo em Lovelace foi novidade para mim. E admito, me fez mergulhar na história da mulher “homenageada” com a produção depois que o filme terminou. E foi aí, vendo a vídeos originais dela, que eu percebi com toda a clareza o que tinha apenas desconfiado antes: Lovelace fica muito aquém do que poderia ter sido se os realizadores tivessem sido um pouco mais ousados.

O primeiro elemento que chama a atenção nesta cinebiografia sobre a estrela de Deep Throat é a trilha sonora. Excelente, por sinal. Em seguida, ganha destaque a direção de fotografia e a ambientação de Lovelace nos anos 1970. Não por acaso, esta produção me lembrou demais a Boogie Nights. E, guardada a devida proporção, Amanda Seyfried me lembrou bastante a Julianne Moore no filme de 1997 que tem a mesma “identidade” deste novo filme. Menos puritano e simplista que Lovelace, Boogie Nights, contudo, é melhor.

Aliás, Amanda Seyfried caminha para o aprimoramento da própria carreira. Ela claramente está selecionando papéis de gêneros muito diversos e, como fez antes a própria Julianne Moore, incluiu nesta diversificação papéis mais “ousados” na mescla entre violência e sexo. Para os fãs da atriz, o importante é que ela se sai bem em Lovelace e passa no teste. Ela e o experiente e normalmente acima da média ator Peter Sarsgaard são o melhor deste filme dirigido pela dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman.

A direção deles também vai bem. Eles focam as atenções no trabalho dos atores e confiam em uma equipe técnica que sabe o que está fazendo. Mas o problema de Lovelace é realmente o roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Andy Bellin procurou a via do exagero no drama, especialmente no “resgate familiar” que Linda procura no final da produção. Mas ao valorizar as lágrimas de crocodilo dos pais da protagonista, a roteirista deixou de fora uma contextualização sobre a protagonista que faz falta para o filme. Teria sido muito mais interessante, por exemplo, explicar melhor porque Linda Lovelace foi tão importante para o debate da pornografia nos Estados Unidos. Uma forma de fazer isso seria reencenar debates na televisão com ela, assim como a exposição de Chuck (Peter Sarsgaard) na imprensa.

Mas não. A roteirista prefere o caminho do sentimentalismo barato e previsível. Com isso, o filme perde em informações e também no impacto. Fica mais superficial do que poderia, e torna a história de Linda Lovelace menos interessante. Para solucionar este problema, só mesmo partindo para uma pesquisa por sua própria conta. Há alguns vídeos no YouTube com a personagem principal desta trama e com o marido bandido dela que valem ser vistos.

Sobre a narrativa de Lovelace, gostei do roteiro ter começado nas vésperas da mudança definitiva na vida da protagonista, mais precisamente em 1970, quando Linda tinha 21 anos. O filme foca a casa em que ela residia com os pais, Dorothy (Sharon Stone) e John Boreman (Robert Patrick) e, na sequência, apresenta a melhor amiga de Linda, Patsy (Juno Temple), e o primeiro encontro delas com Chuck. Até aí tudo muito bem, com algumas ressalvas – sobre as quais falarei em seguida.

Um acerto do roteiro de Bellin foi contar a história de Linda sob a ótica “otimista”, que é a que o grande público conheceu e predominou em um primeiro momento, para depois retornar no tempo histórico para contar os outros matizes do que havia acontecido – e em tons muito mais obscuros. Esta foi uma escolha interessante e que dá fôlego para a produção chegar até o final despertando interesse. Ainda assim, o desfecho de Lovelace carece de impacto. No lugar do melodrama, sem dúvida, teria sido mais interessante refilmar os debates televisionados, como eu comentei antes.

Agora, as ressalvas que faço do início do filme e de alguns trechos posteriores. Para começar, vamos combinar que é beeeem exagerada a versão de que Linda era quase uma puritana, não é mesmo? Logo no início do filme, ela fica um tanto “escandalizada” com a amiga Patsy falando de boquete e querendo, no quintal da casa de Linda, liberar o laço do biquíni para que elas não ficassem com o bronzeado perfeito comprometido. Daí, depois, ela abraça todas as fantasias sexuais de Chuck e vira uma especialista no boquete? Difícil de acreditar, não é mesmo?

Essas cinebiografias que procuram “santificar” o homenageado me cansam. Um filme do gênero fica realmente interessante se tenta abarcar todas as facetas de quem é retratado. Além de falhar neste quesito no início da produção, tornando Linda puritana demais, Lovelace exagera nos tons dos pais da protagonista, displicentes até quase o exagero, assim como na exigência de “redenção” deles no final. Certo que ela se reaproximasse dos pais, mas daquela forma tão “perfeitinha”? Outros pontos da história real de Linda também ficam de fora, como a relação forçada que ela acaba desenvolvendo com Sammy Davis Jr. (interpretado por Ron Pritchard em uma ponta).

Além disso, o filme apenas cita a guerra entre o lado mais puritanista e o “safado” da cultura e da política norte-americana. Nixon até aparece em algum vídeo, aqui e ali, mas o filme nem esboça uma contextualização sobre a importância que Deep Throat teve na derrocada do presidente norte-americana. Não foi por acaso que Walter Mark Felt, informante-chave dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein no Caso Watergate recebeu o apelido de Deep Throat. O filme era sensação na época.

Mesmo com estas falhas e desperdícios do roteiro, Lovelace retoma uma história interessante. E que me fez lembrar outro tipo de comparação extremista. Afinal, como o Capitão Nascimento de Tropa de Elite um dia criticou as pessoas que compram drogas por alimentar a violência e os mais diferentes crimes, quem gasta dinheiro com pornografia está, da mesma forma, promovendo a degradação humana nas mais diferentes formas. Muitos podem argumentar que esta é uma visão exagerada e que a base de comparação não é a mesma.

Bueno… cada um pensa de uma forma e encaminha a vida de uma maneira. Da minha parte, acho estes argumentos extremistas válidos. No caso das drogas, acho muito mais válido quem planta o seu próprio pé de maconha para consumo do que quem paga para ter o produto para um traficante – que sim, está envolvido nos mais diferentes tipos de crime. Da mesma forma, vejo como legítimo o estilo “galinha” de ser, dos eternos insatisfeitos pelo prazer e que pulam de galho em galho atrás de sexo. Melhor do que aqueles que pagam por sexo ou que consomem pornografia porque há muitas pessoas por trás destas práticas que vivem de violência dos mais diferentes tipos.

Não compartilho, pessoalmente, de nenhuma destas práticas, mas entendo quem faça algumas delas – exceto as da pornografia e do patrocínio dos traficantes. Alguém pode dizer que há mulheres que gostam de sexo ao ponto de que elas se prostituem ou fazem filmes pornô (existe, realmente, diferença entre uma coisa e outra? não vejo…) para ter o número de parceiros desejados e/ou ainda ganhar um bom dinheiro com o que curtem fazer. Até pode ser. Mas para quantas mulheres como estas existem aquelas que são exploradas, seja por não terem outra alternativa de renda (realmente?) ou pela coerção ou violência de parceiros ou outras pessoas com as quais se envolveram?

Da minha parte, acho a pornografia, seja ela qual for, uma grande fonte de degradação humana. Por que se as pessoas gostam de se expor desta forma, para que precisariam ganhar dinheiro por isso? Fariam de graça, não é mesmo? Fariam apenas porque gostam, e não porque precisam de dinheiro, ou porque acham que estas práticas são a única forma que elas tem de seguirem vivas. Linda Lovelace chamou a atenção para isso. E ainda que eu não ache que ela fosse tão puritana quanto o filme sugere, ou que ela mesma tenha dito, acredito sim que ela foi explorada e que, de forma muito corajosa, decidiu dar um basta para aquela vida e chamar a atenção do mundo para esta situação.

Não por acaso ela foi apoiada por muitas feministas. Pessoas que acham que nenhuma mulher deveria ser explorada. Neste sentido, estou com elas. Acho que toda mulher deve ter a liberdade de fazer o que quiser. Inclusive filmes pornô, fotografias com elas nuas, ou sexo com várias pessoas diferentes todos os dias. Desde que elas não sejam forçadas a estes atos, ou que precisem ganhar dinheiro por eles para sobreviver. Do contrário, estamos apenas falando de degradação.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que Lovelace me despertou foi a curiosidade. Para saber mais sobre a personagem desta cinebiografia e, também, sobre o filme clássico do cinema pornô que ela estrelou. Procurando mais informações sobre ambos, fiquei sabendo de alguns pontos interessantes.

Deep Throat, lançado em 1972, foi dirigido por Gerard Damiano, que teve 51 títulos no currículo de diretor. O filme, que teria custado US$ 20 mil e faturado, apenas nos EUA, US$ 45 milhões. De acordo com Lovelace, a produção acumulou US$ 600 milhões – acredito que este valor é corrigido e contempla o faturamento global da produção. Até porque a diferença é muito grande do resultado bruto nos EUA e essa outra projeção.

No currículo da Linda Lovelace original aparecem dois curtas, anteriores a Deep Throat: Sex for Sale, de 1971, e The Foot, de 1972. Depois do sucesso retumbante de Deep Throat, ela faria Deep Throat Part II, lançado em 1974. Não encontrei informações sobre a bilheteria, mas não tenho dúvidas de que ele faturou muito mais do que custou. Porque está é uma característica dos filmes do gênero: ter um orçamento baixíssimo e conseguir um bom lucro sempre – ou quase sempre.

Em 1978, como bem explica Lovelace, Linda lança Ordeal, livro que questiona o que contaram sobre ela até aquele momento. A obra contou com a ajuda do jornalista Mike McGrady. A partir daí, ela é entrevistada por Bob Langley no Saturday Night at the Mill; aparece nos programas Today, NBC Tonight, entre outros; além de ser foco, em 2001, do documentário para a TV The Real Linda Lovelace.

Assisti a boa parte de The Real Linda Lovelace no YouTube após conferir Lovelace. De acordo com o documentário, quando estreou em 1972, Deep Throat atraiu casais, profissionais dos mais diferentes ramos da economia, assim como muitas celebridades. Entre os defensores do filme, que começou a ser questionado pela Justiça, estavam o apresentador Johnny Carson, o ator Jack Nicholson e o escritor Truman Capote.

No ano seguinte, em 1973, Deep Throat estreou nos cinemas de outros países e virou fenômeno de mídia. Linda Lovelace apareceu em reportagens de jornais e revistas, incluindo a capa da Esquire e um ensaio fotográfico para a Playboy de Hugh Hefner. Johnny Carson a entrevistou em rede nacional, nos EUA. Depois de lançar o livro que contaria o “lado B” do sucesso de Deep Throat, Linda é entrevistada, em 1979, no NBC Tonight. O mesmo programa focaria a ex-atriz pornô em 1981. Trechos destes programas estão no YouTube.

Assistindo a The Real Linda Lovelace, algo achei estranho na comparação com o filme Lovelace. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o documentário feito para a TV, baseado nos livros de Linda, Chuck teria feito ela transar com cinco homens em um quarto de um motel barato em 1971. No filme Lovelace, contudo, este fato teria ocorrido após o sucesso de Deep Throat. Uma falha estranha no roteiro. E dispensável.

Em uma participação de Linda no Sin on Saturdany Night da BBC, em 1981, um homem da plateia pergunta como ela pode dizer que foi obrigada a fazer Deep Throat e tudo o mais por Chuck já que ela sempre aparecia sorrindo. Linda, com certa tranquilidade, responde que ela tinha uma escolha: ou fazia sorrindo, ou morria. E ela escolheu viver. Esse tipo de pergunta e resposta é que seria interessante ver em Lovelace.

Falando em vídeos sobre Linda e Chuck no YouTube, vale dar uma conferida nesta entrevista dada por Chuck em 1976; neste outro vídeo que aborda a polêmica que Deep Throat levantou; e este que reproduz The Real Linda Lovelace.

Agora, voltando a falar de Lovelace. A parte técnica do filme funciona muito bem. Vale destacar a direção de fotografia que lembra o tipo de imagens dos filmes dos anos 1970 e as imagens vinculadas na TV no início dos anos 1980 feita por Eric Alan Edwards; a trilha sonora com um ótimo resgate pop da época feita por Stephen Trask; os figurinos de Karyn Wagner; e o conjunto que dá a “contextualização ambiental” de época do design de produção de William Arnold, direção de arte de Gary Myers e decoração de set de David Smith.

Esta produção conseguiu reunir alguns nomes de primeira linha em papéis secundários – sim, porque Lovelace é bastante centrado na interpretação de Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard. Sharon Stone e Robert Patrick estão apenas medianos. Além dos protagonistas, destaque para o trabalho de Adam Brody como Harry Reems, estrela de Deep Throat ao lado de Linda e um “astro” do cinema pornô daquela época. Além deles, merecem menção por um trabalho “centrado” os atores Juno Temple; Chris Noth, que interpreta a Anthony Romano, um dos produtores de Deep Throat; Bobby Cannavale, que interpreta a Butchie Peraino, outro produtor do filme de 1972; Hank Azaria como Gerry Damiano, roteirista e diretor de Deep Throat; James Franco como Hugh Hefner e Wes Bentley como o fotógrafo Thomas. Além deles, há superpontas de Chloë Sevigny como uma jornalista feminista e de Eric Roberts como Nat Laurendi, que faz um exame de polígrafo antes de Linda lançar o livro de 1978.

Lovelace teria custado US$ 10 milhões. Para mim, uma verdadeira fortuna para uma produção com este perfil. A produção, que estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 9 de agosto, faturou, até agora, quase US$ 356,6 mil. Ou seja: risco gigantesco deste filme ser um fracasso nas bilheterias. Muito diferente de Deep Throat.

O filme sobre Linda Lovelace estreou em janeiro deste ano no Festival de Sundance. Depois, ele passaria por outros seis festivais, incluindo o de Berlim. Em nenhum deles ele foi premiado.

E agora, algumas curiosidades sobre Lovelace: Kate Hudson e Olivia Wilde foram cogitadas para interpretar a protagonista, mas acabaram pulando fora do projeto. James Franco também foi cogitado para interpreta a Chuck Traynor.

Sobre a bilheteria que Deep Throat deve ter feito, uma explicação sobre aquele inflacionado US$ 600 milhões: de acordo com Roger Ebert, como a máfia tinha a maioria dos cinemas pornôs da época, durante o período de exibição do filme ela inflacionava o caixa dos cinemas com dinheiro vindo da venda de drogas e da prostituição. Uma forma de “lavar” o rendimento do crime organizado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Lovelace. Uma boa avaliação, levando em consideração os padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles dedicaram 55 textos positivos e 50 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% e uma nota média de 5,6.

Adiciono este filme na lista de produções dos Estados Unidos que eu estou comentando após uma votação de vocês, meus caros leitores, aqui no blog.

Lovelace rendeu alguns cartazes muito bacanas. Fiquei muito em dúvida entre dois deles, para colocar aqui no blog. Mas bati martelo no que abre este texto porque achei ele mais estiloso. 🙂

CONCLUSÃO: Linda Lovelace fez parte da vida de muitos homens e mulheres que se renderam a Deep Throat em algum momento de suas vidas. Não foi o meu caso. Ainda assim, sem ter esta “memória afetiva” sobre a protagonista do filme pornô, achei interessante o que eu vi em Lovelace. Mas este é um filme menor e mais “careta” do que poderia ter sido. Achei o trabalho do roteirista e dos diretores um tanto preguiçoso demais. Afinal, estamos falando da figura controversa que mexeu com a libido e com diversos conceitos da sociedade norte-americana há três ou quatro décadas atrás. Essa produção, por esta fraqueza na entrega, acaba sendo interessante por resgatar uma história interessante, mas não mexe tanto com o espectador do que poderia se tivesse sido melhor acabada. De qualquer forma, sempre vale retomar uma história como essa, nem que for para reabrir um debate sobre a pornografia em uma mesa de bar.