Visages Villages – Faces Places


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Uma viagem pelo interior da França que ajuda a mostrar não apenas um pouco das “entranhas” daquele país, mas que também mergulha um pouco na vida e na arte dos seus realizadores. Eu não sabia muito bem o que esperar do documentário Visages Villages, mas certamente o que eu assisti não era o que eu esperava. Um filme interessante, revelador, especialmente sobre a cineasta Agnès Varda, que em maio de 2018 completa 90 anos. Acompanhamos ela e o codiretor JR em uma viagem bastante pessoal e particular. E eles são muito generosos em nos levar junto.

A HISTÓRIA: Agnès Varda e JR se encontram e se “desencontram” em diversas sequências de uma animação. Depois, novamente em uma estrada, eles estão caminhando para um possível encontro quando JR pega uma carona com um agricultor. JR diz que eles não se encontraram em uma estrada do interior; Varda afirma que não se encontraram em um ponto de ônibus de Paris; JR comenta que não se viram em uma padaria; e os dois complementam que não se encontraram em uma danceteria.

Cada um deles fala da admiração de um pelo trabalho do outro, antes de contarem como eles se conheceram. Foi quando JR procurou Varda para fazer fotos dela. Depois, ela visitou o artista no atelier dele. Fez algumas fotos do jovem artista que nunca tira os óculos escuros. Isso fez ela se lembrar de um velho amigo, o também diretor Godard. Conversando com JR, Varda decidiu que tinha chegado a hora deles fazerem um projeto. E esse projeto é o que descobrimos nesse documentário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Visages Villages): A primeira qualidade desse filme, e percebemos isso logo de cara, é o bom gosto de seus realizadores. Observamos isso por dois aspectos: pela animação que introduz e que faz o fechamento dessa história, feita por Oerd Van Cuijlenborg, e pela trilha sonora marcante de Matthieu Chedid.

Esses dois elementos, conjugados no início da produção, assim como aquela gigante lista de nome de agradecimentos dos realizadores na introdução do filme já apresenta algumas credenciais dessa produção. Esse filme tem humor, tem charme, tem arte e tem generosidade.

Tudo isso vamos percebendo do primeiro até o último minuto no trabalho de Agnès Varda e JR. Uma dupla inusitada, inclusive, mas que ajuda a mostrar como os veteranos e os jovens podem ser generosos um com os outros e fazer um grande trabalho juntos, não importa a trajetória que construíram até o seu primeiro encontro.

Varda e JR brincam com a forma com que eles se conheceram, no início da produção. Depois, JR explica que ele procurou Varda, para fazer algumas fotos dela, e depois a diretora foi procurá-lo em seu estúdio, onde conheceu a equipe que trabalha com o fotógrafo e artista especializado em intervenções urbanas. Eles logo se identificaram, e já admiravam a produção um do outro. Aí surgiu a ideia de fazerem um trabalho juntos.

Dessa iniciativa é que surgiu Visages Villages. A proposta de Varda e de JR foi viajar para o interior da França sempre que lhes sobrava um tempo. Eles iam no veículo adaptado por JR, um tipo de estúdio fotográfico móvel, onde ele fazia retrato das pessoas e imprimia as suas fotos em tamanho grande.

A graça de Visages Villages, além de todo o estilo de seus realizadores, é a forma com que eles nos conduzem pelo interior da França, nos apresentando alguns personagens que fazem parte da história e do presente do país. Assim, temos os mineiros que se sacrificaram por suas famílias e pelo país e que nunca foram realmente valorizados.

Conhecemos Jeannine Carpentier, a filha de um mineiro que resiste em uma rua de prédios abandonados. Ela não quer sair dali, porque ali viveu toda a vida. A sua história, homenageada pelos diretores, revela a resistência de uma senhora simples da França contra os “especuladores imobiliários”. Esse é o começo do “manifesto” de Varda e de JR no filme. Porque que ninguém se engane, qualquer diretor de cinema, especialmente os que fazem documentários e os mais autorais, estão sempre deixando claro em suas obras o que eles acreditam e pensam.

Visages Villages, assim, realmente mostra uma França que muitos turistas desconhecem, homenageia as pessoas simples e marca posição de Varda e de JR sobre questões importantes da vida. Eles são contra o produtivismo e os danos que a busca sem reflexão pelo dinheiro podem provocar nas pessoas, nas comunidades e nas cidades.

O interessante dessa produção é que, além deles fazerem isso, eles são francos em nos mostrar sobre a construção dessa trajetória, as escolhas que eles fazem e a maneira com que eles refletem sobre o que eles estão produzindo. No final das contas, conhecemos um pouco mais sobre Varda e sobre JR. Afinal, eles estão se conhecendo também – seja um ao outro, seja introspectivamente enquanto viajam. Como nós mesmo fazemos quando viajamos e conhecemos outras pessoas.

O segundo personagem do filme que eles conhecem é um agricultor que cuida sozinho dos 200 hectares de sua propriedade e que, ainda, cuida de outros 600 hectares de vizinhos. Para isso, ele utiliza a mais alta tecnologia, todo tipo de maquinário. Claramente Varda e JR questionam essa substituição das pessoas pelas máquinas, consideram muito solitário quando alguém substitui pessoas com quem trabalhava junto por um grupo de maquinários.

Seguindo em sua viagem, os diretores contam uma história de amor; fazem homenagem a uma garçonete que consideram fotogênica e bonita em um vilarejo; visitam uma fábrica, onde homenageiam funcionários de diversos turnos e posições dentro da hierarquia da empresa; passam por uma vila abandonada antes mesmo de ser inaugurada, onde reúnem pessoas que conheciam o local para passar uma tarde divertida por lá; homenageiam um carteiro que é um velho conhecido de Varda; visitam um vilarejo onde conhecem Pony-Soleil-Air-Sauvage-Nature; refletem sobre a produção de cabras com ou sem chifres; visitam a avó de JR e terminam valorizando as mulheres de estivadores do Porto de Havre – ou seja, a parte final do filme se debruça mais nas relações pessoais dos diretores.

Em cada lugar, eles deixam claro os seus posicionamentos e, sobretudo, mostram grande respeito por cada pessoa que eles conhecem. Gostam de contar histórias e apreciam valorizar as pessoas simples da França, aquelas que eles acreditam que representam uma parte importante da população.

O filme passa rápido e de forma fluída, porque Varda e JR acertam na forma condensada com que eles contam o essencial de cada história. Eles mostram um pouco da rotina das pessoas, deixam elas contarem o que lhes é importante, e sempre aparece em cena o resgate de suas origens. Assim, conhecemos um pouco mais da França, do estilo das pessoas comuns e também dos artistas que são Varda e JR, sempre com um olhar atento e cuidadoso.

No final, como Visages Villages parece ter servido para Varda pensar em sua própria finitude, o documentário acaba resultando no resgate de algumas memórias da diretora. Ela fala da praia de Saint-Aubin-Sur-Mer, onde JR também já vivenciou alguns momentos interessantes da vida. Lá, eles homenageiam um antigo amigo de Varda, Guy Bourdin, que já morreu. Por sugestão de Varda, eles visitam também o túmulo simples do ícone da fotografia Henri Cartier-Bresson.

Finalmente, nos minutos finais dessa produção, Varda resolve fazer uma “surpresa” para JR e viaja com ele para visitar o amigo Jean-Luc Godard. Ela diz que não fala com ele há uns cinco anos, e que eles perderam contato. Apesar de marcarem horário, Godrad não os recebe, mas deixa um recado cifrado para a amiga. Assim, o filme termina de uma maneira um tanto frustrada, saudosista e com JR finalmente mostrando os olhos para Varda.

Acho que tanto Varda quanto JR procuraram fazer exatamente o que eles queriam nesse filme, nem mais, nem menos. Mas como proposta de cinema, acho que teria feito mais sentido eles seguirem contando a história de pessoas simples do interior e não terem, no final, “descambado” para uma busca pessoal de Varda por inserir alguns de seus amigos famosos e que fizeram parte da arte na história.

Ok, dá para entender a busca da diretora que, quase com 90 anos de idade, pensa em seu próprio legado e no fim de sua vida. Sem dúvida ela está pensando sobre o que deixará de mensagem para os outros, e com as homenagens para os amigos ela quer valorizar essa ligação tão fundamental e bonita na vida de qualquer pessoa. Só que a realidade nem sempre é mágica e bacana, por isso a frustração com Godard. Faz parte.

A proposta deste filme me surpreendeu positivamente. Achei perfeito Visages Villages também ter 1h30 de duração – para mim, essa deveria ser a duração de quase todos os filmes. Só senti um pouco mais de falta de saber mais sobre a trajetória de Varda e de JR – acho que eles poderiam ter repassado mais de suas histórias nessa produção, refletindo mais sobre o que fizeram ou deixaram de fazer. Mas foi bacana ver como homenagearam pessoas simples e nos convidaram a viajar com eles pelo interior francês. Isso foi muito generoso e bacana por parte deles.

Varda e JR lançam muitas reflexões nessa produção. Sobre que tipo de vida levamos, qual tipo de legado vamos deixar quando nos formos e que escolhas fazemos enquanto andamos por aí. Procuramos o maior rendimento possível, não importa se vamos contra o interesse das outras pessoas ou dos outros seres vivos, ou fazemos tudo da forma mais consciente possível e procurando favorecer ao máximo a todos? Construímos juntos ou separados, ou ao invés de construir, ajudamos com a deterioração ou a destruição de algo?

As reflexões levantadas por essa produção e a forma cuidadosa com que os realizadores olham para as pessoas – inclusive para eles próprios – são os pontos fortes de Visages Villages. O único problema dessa produção é que eu acho que ela abandona o conceito principal na reta final, caindo nas reminiscências de Varda e deixando para trás as pessoas simples.

Admito que eu não gostei tanto disso. Mas a dinâmica de Varda e de JR é muito interessante. Ela mostra como podemos desenvolver relações inter-geracionais em que todos ganham e em que todos aprendem. Varda e JR fazem um belo trabalho juntos, e é um deleite ver eles atuando. É um filme bacana, com bons princípios e uma levada suave e gostosa. Gostei de Visages Villages, ainda que eu prefira documentários com uma pegada mais contundente, mais crítica e mais dinâmica. Mas é bom ver uma produção com outra proposta, para variar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme tem uma dinâmica bastante interessante, com Agnès Varda e JR se destacando pela visão diferenciada dos lugares e das pessoas que eles conhecem em suas viagens. A direção é o ponto forte, sem dúvida, assim como as reflexões que os realizadores vão pincelando aqui e ali no documentário. Sem dúvida alguma eles entendem de cinema e de contar a história de pessoas comuns, seus hábitos e mostrar os seus ambientes.

As questões da passagem do tempo e da finitude da vida estão presentes nesse filme conforme ele avança. Sem dúvida alguma são questões especialmente importantes para Varda, e que JR respeita e sobre as quais também passa a pensar. Vale para nós, que devemos sempre estar atentos a isso. Afinal, ninguém sabe por quanto tempo estará por aqui. Essa é a única certeza que temos, que um dia a nossa vida vai acabar, e também a única grande dúvida que temos, porque não sabemos quando isso vai acontecer. Visages Villages trata disso com muito carinho e sutileza.

Entre os aspectos técnicos do filme, além da direção de Varda e de JR, destaco novamente a excelente trilha sonora de Matthieu Chedid; as animações feitas por Oerd Van Cuijlenborg; a direção de fotografia de Roberto De Angelis, Claire Duguet, Julia Fabry, Nicolas Guicheteau, Romain Le Bonniec, Raphaël Minnesota e Valentin Vignet – grupo que, na maior parte das vezes, é quem fica responsável pelas imagens captadas e que vemos no filme; e a edição cuidadosa de Maxime Pozzi-Garcia e de Agnès Varda.

Todos os personagens são interessantes, mas aqueles que mostram a evolução da agricultura e do trabalho com os animais foram os que mais me chamaram a atenção. Realmente um retrato interessante dos nossos tempos.

Visages Villages estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até março de 2018, o filme percorreu – e está percorrendo ainda – uma trajetória de outros 25 festivais de cinema. Nessa caminhada, ele conquistou 26 prêmios e foi indicado ainda a outros 35 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Documentário.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 14 prêmios de Melhor Documentário; para os prêmios Golden Eye e Palme de Whiskers no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Haifa; para dois prêmios de Melhor Filme de Não-Ficção e para 1 prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como esse filme é feito de viagens, vale comentar todos os lugares pelos quais a dupla Varda e JR passa na França: Paris; Bruay-La-Bussière, em Pas-de-Calais; Sainte-Marguerite-sur-Mer, em Seine-Maritime; Château-Arnoux-Saint-Auban, em Alpes-de-Haute-Provence; Bonnieux, em Vaucluse; Reillanne, em Alpes-de-Haute-Provence; Goult, em Vaucluse; Chérence, em Val-d’Oise; Terminal de France, no Port du Havre, em Seine-Maritime; e Pirou, em Manche. Caso alguém quiser fazer o mesmo caminho deles, aí está a lista para fazer o trajeto certo. 😉

A cineasta Agnès Varda nasceu no dia 30 de maio na cidade de Bruxelas, na Bélgica. Ela tem 52 trabalhos como diretora, incluindo longas, curtas e episódios feitos para séries de documentários produzidas para a TV. Ela já ganhou 56 prêmios, mas com Visages Villages ela conseguiu a primeira indicação a um Oscar. Nesse ano, ela também ganhará o Oscar Honorário. Ela foi casada com Jacques Demy, o “Jacques” que ela cita no final desse documentário – Demy morreu em 1990, aos 59 anos de idade, em Paris. Diretor, roteirista e ator, ele foi indicado quatro vezes ao Oscar, mas nunca levou uma estatueta dourada para casa. Possivelmente Varda falará dele caso ganhar o Oscar esse ano.

Visages Villages faturou pouco mais de US$ 842 mil nos cinemas dos Estados Unidos. Ou seja, o filme é pouco conhecido no país. Não encontrei informações sobre o resultado dele na França ou em outros países.

Achei interessante a proposta do artista JR, que dirige esse filme com Varda. Quem ficou interessado(a) por ele também, sugiro a sua página oficial.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 84 textos positivos para essa produção e nenhum negativo – ou seja, um caso raro de aprovação de 100%. A nota média dos críticos também é bastante alta: 8,9. Ou seja, esse filme está com um desempenho excepcional nos dois sites.

Essa é uma produção 100% da França.

Na bolsas de apostas do Oscar 2018, Visages Villages tem uma franca preferência dos apostadores. Ele está muito, mas muito à frente do segundo colocado, o documentário Icarus. Ou seja, pelo menos segundo os apostadores, será uma grande surpresa se o filme de Varda e de JR não levar a estatueta para casa.

CONCLUSÃO: Um filme singelo, simples e complexo ao mesmo tempo. Visages Villages é cheio de camadas interpretativas e cheio de detalhes. Ao mesmo tempo que mergulhamos no interior da França e em histórias bacanas de pessoas simples que fazem o país, também vemos um discurso político e filosófico dos realizadores. Eles deixam claro os valores que admiram e que querem evidenciar. E isso é arte; é cinema.

Varda e JR fazem uma obra com princípios bem claros, que não deixa dúvida nos espectadores, e sabem também abrir o “flanco” para nos aproximar deles na medida exata. É um filme corajoso, especialmente para Varda, que deixa claro como a chegada nos 90 anos exige de qualquer pessoa uma “revisita” de sua própria vida, de seus amores, amizades e de tudo aquilo que ainda lhe dá sentido. Um belo filme, ainda que não tenha a potência que eu normalmente espero de um documentário. Não é a melhor produção do gênero que eu assisti nos últimos anos, mas é um filme simpático, generoso e com algumas reflexões importantes.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Muitos consideram Visages Villages o favorito para ganhar o Oscar 2018 de Melhor Documentário. De fato, o filme tem muitos elementos para isso. Mas, para o meu gosto, ele deveria ganhar? Ainda preciso assistir a outras produções concorrentes desse ano. Pensando em documentários que concorreram a essa mesma estatueta em anos recentes, francamente, eu não daria o prêmio para Visages Villages.

O filme é bacana? Com certeza. Ele é simpático, bastante generoso e bonito. Evidencia as histórias de vários “anônimos” e pessoas simples, além de destacar valores importantes – como a simplicidade, o combate ao consumismo sem crítica, o amor das pessoas por suas histórias e lugares, etc. Há ainda uma revisita bacana sobre a história e a trajetória de Varda e de JR. Mas não sei… para o meu gosto, os documentários devem ser mais “potentes”.

Como eu sempre digo, cinema também é uma questão de gostos pessoais. Preciso ver aos outros concorrentes para bater o martelo, mas não considero esse um dos melhores documentários que eu vi nos últimos tempos. Mas se ganhar, claro, será uma maneira da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood reconhecer também a trajetória de alguém fantástica como Varda, que aos 90 anos de idade segue fazendo filmes. Em resumo, não será injusto – especialmente por esse caráter de reconhecimento da carreira. Veremos.

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3 comentários em “Visages Villages – Faces Places

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