Icarus – Ícaro


icarus

Um documentário que pretende ser algo e que muda totalmente de direção conforme os fatos se desenrolam. Uma história com requintes de suspense e de ação inesperados. Icarus é um filme que dificilmente vai deixar você incólume sobre os Jogos Olímpicos e grande parte do esporte profissional no mundo.

Da minha parte, de quem sempre admitiu ser uma grande fã das Olimpíadas, certamente eu não vou ver mais essa competição da mesma forma. Um documentário diferente e muito interessante que nos desvela teorias que apenas tínhamos esboçadas, mas sem nenhuma prova ou enredo para realmente comprovar as nossas suspeitas.

A HISTÓRIA: Começa apresentando a frase “Em uma época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”, de George Orwell. Em seguida, ouvimos a vários trechos de áudios de vários atletas falando sobre doping, geralmente alegando a própria inocência. Em meio a eles, surge uma narração sobre a vontade de Lance Armstrong em vencer a Volta da França. Junho de 2014, em Boulder, Colorado. O diretor Bryan Fogel comenta que está se preparando para a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo.

Ele comenta que essa prova é uma mini Volta da França “para loucos” – ou seja, tem alguns dos mais difíceis trechos da competição para profissionais. O diretor explica que é ciclista amador há 28 anos, e que recorda de LeMond ganhando a Volta da França quando ele estava na sétima série – LeMond foi o primeiro americano a conseguir isso, o que incentivou Fogel. Amante do ciclismo, ele ficou fascinado por Armstrong, até que o herói se revelou falho ao admitir doping. E aí o diretor resolveu fazer um documentário sobre isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Icarus): Estava com vontade de assistir a esse documentário desde o início do ano, quando vi que Icarus era um dos candidatos fortes ao Oscar 2018 de Melhor Documentário. Foi então que eu soube, de leve, que ele tratava sobre doping, mas isso foi tudo.

Quem me acompanha há algum tempo aqui no blog sabe que eu não gosto de ler sobre os filmes antes de assisti-los. Justamente para não ter a minha leitura afetada por outras análises. Mas foi impossível não saber sobre o tema de Icarus. Isso, no fim das contas, não afetou a minha experiência sobre o filme. Até porque eu não sabia o que esperar, exatamente, sobre uma produção com essa temática.

Por isso mesmo, achei Icarus surpreendente. Primeiro, porque o filme tem uma pegada de suspense e de “intriga policial” que não é muito comum em documentários. Na verdade, Icarus se assemelha mais a um filme de suspense ou policial, em alguns momentos, do que de um filme tradicional de documentário.

Isso acontece por causa da reviravolta que acontece na história. Como eu comentei no resumo da produção, inicialmente a intenção do diretor e ciclista apaixonado Bryan Fogel era demonstrar nele próprio como o doping é feito por atletas sem que eles sejam pegos por isso em exames antidoping. Por ter essa característica, este filme entra na lista de produções do tipo “diretor que faz um experimento” – a exemplo de Super Size Me, de Morgan Spurlock, e de vários outros documentários.

Bem, ao menos essa era a intenção de Fogel. Icarus começa desta forma, com o diretor explicando o seu fascínio sobre o ciclismo, comentando que ele pedala de forma amadora há 28 anos e que ele, após ficar chocado com a história do doping do ídolo Lance Armstrong, resolveu comprovar na prática como os exames antidoping são falhos.

Para isso, ele vai procurar um dos maiores especialistas nesta área, o americano Don Catlin – que aparece em uma das imagens em que Armstrong falou sobre o escândalo do doping envolvendo os ciclistas americanos. Inicialmente, Catlin dá entrevista para Fogel e fala categoricamente que todos os atletas daquela equipe se dopavam. Como ele mesmo diz, “Infelizmente as drogas funcionam”. E complementa afirmando que, com certo conhecimento, dá para passar pelos exames antidoping tranquilamente.

Uma prova disso é que o próprio Armstrong, apesar de tomar substâncias proibidas segundo a Wada (Agência Internacional Anti-Doping), nunca foi pego em cerca de 500 exames antidoping em sua carreira. O próprio Catlin fez cerca de 50 exames desse tipo com amostras da urina de Armstrong e nunca detectou nada. E olha que ele é um grande especialista no assunto. Por isso ele falou de maneira tão franca com Fogel que o antidoping não funciona.

Inicialmente, segundo o diretor, Catlin tinha topado ajudar o diretor em seu plano de fazer um doping controlado que visava melhorar o seu desempenho como atleta e, de quebra, passar nos exames antidoping. Assim, Icarus começa com Fogel falando do seu plano e participando, pela primeira vez, da Haute Route, a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo – ela reproduz, basicamente, os sete dias mais difíceis da prova Volta da França.

Pois bem, sem usar doping, Fogel participa da prova em 2014 e consegue um resultado excelente: o 14º lugar entre “440 masoquistas”, como ele mesmo chamou os participantes da disputa. Ele ficou, basicamente, atrás do pelotão de elite desse tipo de competição. Em seguida, a ideia dele era começar o “tratamento” de doping para, no ano seguinte, melhorar ainda mais o seu resultado na Haute Route.

Mas antes de começar a se encher de injeções e de começar a sua programação de doping, o diretor recebe um e-mail e algumas mensagens de Catlin afirmando que ele estava preocupado com o seu legado. Em outras palavras, ele pulou fora do projeto. Mas indicou uma pessoa que poderia ajudar o diretor nesse “plano de doping”: o russo Grigory Rodchenkov. Segundo Catlin, ele era um “velho amigo” e alguém que poderia auxiliar Fogel com conhecimento.

Justamente essa mudança de planos é o que acaba mudando totalmente essa produção. Quando Fogel começa a conversar com Rodchenkov, ele ainda está em Moscou, e vivendo tranquilamente. Mas tudo isso vai mudar de figura conforme o escândalo do doping russo começa a ser revelado. Como o diretor mesmo diz no filme, quando Catlin desembarcou do projeto e indicou Rodchenkov, essa ação “desencadeou toda uma cadeia de eventos”.

E foi verdade. Se, por um lado, as denúncias sobre o doping de atletas russos não foi provocada por Fogel, por outro lado o diretor teve um papel importante no desenrolar dos fatos envolvendo Rodchenkov. Assim, o filme do diretor acaba seguindo dois caminhos diferentes após todo o escândalo russo vir à tona.

Mas, antes, acompanhamos como Fogel trabalha em parceria com Rodchenkov para passar por um programa de doping e melhorar o seu desempenho físico em cerca de 20%. Ele chega também a participar do segundo ano da Haute Route, mas acaba tendo alguns problemas com a bicicleta – algo que não fica bem explicado no filme, na verdade -, o que lhe faz ter um desempenho bem pior do que no ano sem o programa de doping.

O importante, contudo, não era tanto ele se sair melhor na prova, mas apesar de fazer todo o programa de doping, não ser pego por isso. Realmente ele sai ileso. Mas logo estoura a bomba do doping russo. E aí sim o filme passa a ter dois caminhos totalmente diferentes daquele previsto inicialmente pelo diretor.

Por um lado, ele vira uma testemunha privilegiada dos acontecimentos envolvendo as investigações da trama governamental russa em favor do doping – ao menos conhecendo de perto a leitura dos fatos feita por Rodchenkov. Por outro lado, ele acaba sendo um personagem dos fatos a partir do momento que oferece “guarita” para o “amigo” que está se sentindo perseguido e ameaçado. E, assim, Fogel se torna personagem da trama do doping russo ao trazer para os Estados Unidos o controverso Rodchenkov.

Esses são alguns elementos que tornam Icarus tão interessante. Afinal, nunca poderíamos imaginar, no início do documentário, que ele trilharia caminhos tão diferentes. Questões sobre as quais só tínhamos ouvido falar e que pareciam um tanto “fantasiosas” e/ou parte de “teorias da conspiração”, como eram os rumores sobre estratégias de doping orquestradas por países para transformarem os seus atletas em “super-atletas”, a eliminação de desafetos orquestrado pelo governo russo e a vigilância estratégica do FBI sobre tudo que acontece nos Estados Unidos, são confirmadas nesse filme. E quem poderia esperar por isso?

Por tudo isso, Icarus acaba se transformando naquele estilo de filme que eu comentei antes, uma mescla de documentário com trama policial e de suspense. É assustador como Fogel destrincha os bastidores do esporte profissional manchado e corrompido pelo doping, assim como o envolvimento do governo russo no caso desvelado daquele país. Inevitável não imaginar que diversos outros países recorrem àquela mesma estratégia.

E aí sim, chego à reflexão principal que Icarus me despertou. Quem nos garante que grande parte dos resultados que vemos a cada quatro anos nos Jogos Olímpicos não acontecem porque os atletas estão “modificados” pelo doping? Como seguir acreditando na “superação humana” que as Olimpíadas simbolizam se boa parte dos resultados são obtidos através de fraude? Porque não existe outro nome para o doping. Esse é um tipo de corrupção, um tipo de fraude que termina com o princípio da igualdade entre todos.

Francamente, Icarus abalou o meu fascínio sobre as Olimpíadas. Porque desconfio que eu não vi e me emocionei apenas com medalhas fraudulentas de atletas russos, mas que isso ocorreu também com vários atletas de diferentes países. E isso não se restringe apenas às Olimpíadas, mas a diversas outras competições esportivas com atletas profissionais. Quem nos garante que boa parte daquelas pessoas não está atingindo novas marcas e recordes não por mérito e por superação das “limitações” humanas, mas por causa de drogas que não são permitidas pelos esportes?

Por tudo isso, esse filme mereceu o Oscar de Melhor Documentário. Porque apesar de termos muitos filmes importantes e que mexem em temas muito atuais, há tempos eu não assistia a um documentário que mexeu com toda uma estrutura de crenças sobre um determinado tema. Da minha parte, certamente eu vou assistir às Olimpíadas e a outras competições esportivas com outros olhos. Certamente, com muito mais desconfiança.

No geral, Fogel revelou um grande talento como narrador de um história. Ele conduz muito bem esse filme e envolve o espectador em todo o momento – especialmente quando a trama ganha aqueles requintes de filme policial. Muito bem editado, com uma trilha sonora envolvente e uma narrativa bem planejada, Icarus é um documentário que não cansa, apesar do tema um tanto árido.

Serve também de reflexão para o público, já que ele revela, mais do que outros filmes do gênero, o quanto o diretor pode interferir na realidade – todo documentarista faz isso, mas nem todos deixam esta questão tão clara como Fogel. Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que Fogel falha em dois pontos. Primeiro, por não explicar e mostrar as negociações que ele teve com Catlin e, depois, com Rodchenkov, para que eles lhe ajudassem no projeto de fazer um programa de doping.

Depois, como fica evidente no filme, Fogel acaba ajudando Rodchenkov a fugir da Rússia e a se “esconder” nos Estados Unidos. O quanto ele gastou com isso? Fica apenas sugerido, mas não é exatamente explicado no filme, a proximidade que Fogel acabou tendo de Rodchenkov. Tudo indica que eles se tornaram amigos, mas essa foi realmente a única motivação do diretor para ajudar Rodchenkov? Foi por uma questão humanitária, já que realmente havia risco do russo ser morto pelo seu próprio governo?

Acho que o diretor deixa alguns fios soltos importantes. As negociações dele com os especialistas em doping é uma delas. A grana que ele gastou nesse projeto – e deixar claro se havia algum interesse por trás disso, além do interesse pessoal do diretor -, também é outro fator que poderia ter sido explicado.

Também senti falta de Icarus explorar um pouco mais outros casos e denúncias de doping, e não ficar restrito aos bastidores da denúncia da campanha de doping russa. Enfim, o filme é bem feito, tem um propósito bem claro e é corajoso, mas deixa algumas pontas soltas de forma desnecessária.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nesse ano, infelizmente, eu não consegui assistir a todos os filmes que concorreram na categoria Melhor Documentário do Oscar. Assisti apenas a Visages Villages (comentado aqui) e a esse Icarus. Os dois filmes são interessantes. E muito, muito diferentes entre si. Ainda que eu tenha gostado dos dois e veja que ambos tem a sua importância, sem dúvida alguma Icarus me surpreendeu mais e me pareceu mais relevante pela denúncia que ele faz do que o filme de Agnes Varda e JR.

Falando em filmes que eu vi, devo pedir desculpas para vocês. Na correria das últimas semanas, eu consegui atualizar pouco o blog. Tenho tido menos tempo para ver filmes e para escrever sobre eles. Mas nessa semana eu prometo publicar pelo menos duas críticas por aqui. Essa e mais uma. 😉 E quero ver se consigo voltar a essa boa prática de pelo menos duas publicações por semana. Não desistam de mim, viram? Grazzie!

Gostei da direção de Bryan Fogel. Ele soube conduzir bem a história e tornar a narrativa envolvente do início ao fim. Muda a direção do filme de maneira natural, sem parecer que foi uma mudança forçada. Fogel é um dos roteiristas da produção, que contou, ainda, para essa tarefa, com Jon Bertain, Mark Monroe e Timothy Rode.

Os destaques no filme vão para Fogel e Grigory Rodchenkov. Eles são os “personagens” principais dessa história. Mas também vemos em cena figuras conhecidas, que aparecem em imagens de TV, como Vladimir Putin, Thomas Bach, entre outros. Espero que Fogel ou outro(a) diretor(a) ainda façam um novo filme que mostre o doping de vários países – afinal, duvido muito que a Rússia seja o único a ter uma “política pública” de doping entre os atletas que representam o país nas Olimpíadas e em outras competições internacionais.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco a excelente edição de Jon Bertain, Kevin Klauber e Timothy Rode, e a trilha sonora envolvente e marcante em diversos momentos de Adam Peters. Também vale destacar a direção de fotografia de Timothy Rode e de Jake Swantko; e a direção de arte de Jon Bertain.

Icarus estreou em janeiro de 2017 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, participou de outros quatro eventos e festivais de cinema. Em sua trajetória, o filme ganhou seis prêmios. Vale citar todos: Oscar de Melhor Documentário; prêmio Cinema Eye Honors na categoria The Unforgettables para Grigory Rodchenkov; Melhor Documentário Esportivo no Critic’s Choice Documentary Awards; Prêmio da Audiência no SummerDocs do Festival Internacional de Cinema de Hamptons; Prêmio Especial do Júri como Melhor Documentário no Festival de Cinema de Sundance; e Melhor Documentário dos Estados Unidos pela escolha do público no Festival de Cinema de Sundance em Londres.

Icarus foi o primeiro documentário que ganhou um Oscar e que foi distribuído exclusivamente por um serviço streaming. No caso, a Netflix, que comprou o filme após ele ter sido exibido no Festival de Cinema de Sundance.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 críticas positivas e apenas três negativas para essa produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,2. Os dois níveis de avaliação são muito bons – e acima da média dos dois sites. O site Metacritic apresenta para este filme um “metascore” de 68, com 14 críticas positivas, uma negativa e uma intermediária.

Icarus é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita por aqui há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: A verdade muitas vezes é mais difícil de acreditar do que a ficção. Mas é preciso ter coragem para enfrentar essa verdade. Icarus é um filme potente, que nasce com uma proposta e que depois vira totalmente o foco para não perder a força de uma história que o acaso apresentou para o diretor. Um filme que nasceu com uma proposta particular de mostrar como o antidoping não é confiável, muda para uma intricada trama real de denúncias, negações e ameaças – veladas e subentendidas. Produção potente, dificilmente ela não vai mudar a perspectiva do espectador sobre os atletas profissionais. Merece ser visto e debatido. Bastante debatido.

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