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Honeyland


A história de Honeyland é tão impressionante que não parece um documentário. Quando pensamos no que acontece durante a produção, seria mais fácil acreditar que trata-se de uma ficção. Só que não. Um lugar distante, meio que “abandonado” e uma história simples que ganha contornos de um resumo deste mundão em que vivemos. Com este documentário, vemos claramente vários aspectos da vida universal em cena, como diferentes formas de tratar a vida, a natureza e a família, cobiça, simplicidade, doação, ganância e a vontade de sempre continuar.

A HISTÓRIA

Em um campo semidesértico, uma pessoa caminha passo após passo. A câmera se aproxima e vemos a Hatidze Muratova com saia longa, meias, blusa comprida, lenço na cabeça e uma sacola nas costas. Ela sobe morro, encosta e anda em um local de difícil acesso até chegar a um ponto determinado. Ela tira pedaços de uma cobertura em uma pedra e retira, de dentro, um favo de mel com diversas abelhas. Com cuidado e afeto, ela vai retirando os favos e as abelhas, levando parte delas para outro local. Esse filme conta a história de Hatidze, de sua relação com as abelhas e a mãe idosa, Nazife.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Honeyland): Como vocês que acompanham o blog aqui sabem, não consegui manter o padrão de publicações regulares nos últimos meses de 2019 e, consequentemente, não consegui dar a velocidade que eu gostaria na análise dos filmes indicados ao Oscar 2020.

Nestes dias, consegui assistir a esse Honeyland, um dos fortes concorrentes ao Oscar de Melhor Documentário deste ano. Essa produção, juntamente com American Factory (comentado neste link) e com For Sama, que eu ainda preciso assistir, forma o trio de filmes favoritos a levar a estatueta dourada.

Como vocês sabem, eu tinha gostado de American Factory, especialmente pelo tipo de profundidade que o filme conseguiu ao mostrar a realidade de uma fábrica chinesa nos Estados Unidos. Mas esse Honeyland, meus amigos, é de outro nível.

Acho esta produção muito mais no estilo de “estado da arte”. Ou seja, ele tem um aspecto muito mais profundo, contemplativo e poético do que o seu concorrente direto American Factory. Além disso, como eu disse no início desta crítica, ele impressiona pela história que nos apresenta. Não parece que o filme é um documentário. Muitas vezes, parece que se trata de uma ficção, de tão incrível que são os fatos que vemos pela frente.

Achei o trabalho dos diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov simplesmente incrível. Eles fazem um “documentário raiz”, sem muitas explicações de tempo, local ou contexto do que estamos assistindo. Assim, inicialmente, o espectador apenas percebe que a história se desenvolve em um local ermo, isolado, onde uma mulher muçulmana vive com a mãe idosa, que não sai mais de casa, e com alguns gatos, cachorros e criações de abelhas.

Esse é o início da produção. Acompanhamos Hatidze em um cotidiano aparentemente simples mas que já está carregado de valores e de significados. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, chama a atenção uma certa “falta de paciência” de Hatidze com a mãe, que diz que não consegue esticar as pernas. Pouco a pouco vemos que esta “implicância” que a filha tem com a mãe é algo natural de um convívio de muito tempo – e que exige muita dedicação.

Mas há muito amor, carinho e afeto naquela relação. E isso fica evidente pouco a pouco, conforme os diretores acompanham o cotidiano das duas. Além desta relação de mãe e filha, chama muito a atenção o respeito com que Hatitdze tem pela fonte do sustento dela e da família. Ela agradece por cada mel que ela retira das colmeias e tem um respeito, inclusive afeto, pelas abelhas que propiciam os recursos para ela, a mãe e seus animais viverem.

Até este ponto, de contemplação daquela vida simples, mas de grande respeito pelo próximo – seja a mãe idosa, seja os comerciantes que compram ou que negam a compra no mercado da cidade, seja as abelhas ou os demais animais que cercam Hatidze -, Honeyland parece um documentário “comum”. Mas aí entra em cena um elemento imprevisível e que muda tudo – e que torna o filme algo realmente diferenciado.

Um certo dia, a vida de Hatidze muda completamente com a chegada de uma família na vizinhança. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de ver a tantas histórias no cinema e na vida fora da telona, logo de cara pensei: “Esse pessoal aí vai trazer problemas”. Mas eu não conseguia, ainda, imaginar de que natureza.

A família de nômades, que cria gado e faz o que mais for possível para conseguir dinheiro, chega para mudar a rotina de Hatidze. No início, ela gosta da novidade, do casal de vizinhos e, principalmente, de seus filhos. Se aproxima, em especial, de um dos meninos, que passa a aprender com ela a forma certa de produzir mel – especialmente de respeitar os tempos e as necessidades das abelhas, não apenas explorar o que elas são capazes de produzir.

Os diretores passam então a acompanhar as duas famílias de perto. Hussein Sam, o patriarca da família, usa aquele argumento clássico de que precisa sustentar os filhos e dar um futuro para eles para fazer o que bem entende. Nesta parte é que o documentário parece até um filme de ficção. Ao saber quanto Hatidze consegue lucrar com a venda do mel, Hussein também resolve comprar caixas e abelhas e começar a sua própria produção.

Ou seja, do nada, ele resolve ser concorrente da mulher que vive a vida inteira no local, que é sua vizinha e que ajuda a cuidar, com afeto e carinho, de seus filhos. Evidente que aquilo não poderia dar certo. Nem mesmo Hatidze, muitas vezes, conseguia vender toda a sua produção, quanto mais ter um outro produtor tão perto… mas isso não foi o pior.

Experiente na criação das abelhas e respeitando a natureza, Hatidze avisa o vizinho que ele deve retirar apenas metade do mel das colmeias e deixar o restante para as abelhas. Ele deve, também, respeitar o tempo de produção e evitar tirar antes da hora ou acima do ideal o mel para que as abelhas dele não ataquem as do cultivo dela – pelo visto a espécie que ele comprou era mais agressiva.

Mas aí temos a grande lição – e sem um discurso de apoio que seja necessário para nos explicar isso – deste filme: a diferença, para um lugarejo ou para o mundo, entre alguém que respeita a natureza e a vida e alguém que tem apenas cobiça travestida de preocupação com os filhos como desculpa. Será mesmo que tudo pode ser justificado pela preocupação de um cidadão pelo “futuro” de seus filhos? E o restante das pessoas, que se lixem?

Nesse sentido, muito interessante o posicionamento de um dos filhos do vizinho ambicioso. Ele percebe que o que o pai fala e o que ele faz não combinam, que não há coerência entre discurso e prática. O garoto então critica o pai, o questiona, algumas vezes é bem duro com ele – e chega a sair de casa para passar um tempo com Hatidze.

Mas quando um comerciante oferece comprar 200 quilos de mel de Hussein pagando 10 euros por cada quilo, o vizinho desnaturado não pensa duas vezes e topa a investida. O resultado é o pior possível – e algo previsto por Hatidze já. Depois de perder quase todas as abelhas, ela ainda consegue levar algumas sobreviventes para outro local, e Hussein tem o desplante de, junto com o comerciante que fez negócio com ele, roubar essa produção de Hatidze. Inacreditável!

Assim, uma produtora de mel que tinha uma vida espartana, que respeitava todos e a natureza e que vivia em paz tem a sua realidade colocada de pernas para o ar por causa de vizinhos que chegam sem se importar com nada disso. Honeyland, para mim, neste momento, falou muito sobre o mundo em que vivemos, tão desigual no tipo de pessoas que vivem sobre ele.

Incrível como alguns são como Hatidze, com o coração no lugar certo e procurando fazer o que é melhor sempre, enquanto outros são como Hussein, com o seu egoísmo e sua cobiça como baluartes. Assim, totalmente sem querer, e acredito que surpreendendo até mesmo os seus realizadores, Honeyland nos fala sobre a própria humanidade e suas desigualdades e características.

No fim, como nem o que é bom e nem o que é ruim dura para sempre, Hatidze acaba encontrando a sua paz. Pena que, em seguida, ela também passa pela maior dor que alguém pode sentir. Mas Honeyland termina com uma imagem de esperança. Afinal, a vida sempre persiste. A vida é teimosa. Para a nossa alegria. No final, a esperança permanece. E a protagonista desta história seguirá a sua vida onde ela deseja, de forma simples mas cheia de significado.

NOTA

10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Vocês sabem – ou acho que vocês sabem – o quanto eu reluto para dar uma nota 10 aqui no blog. Quando eu dou a avaliação máxima para um filme é porque eu acho, realmente, que ele atingiu um grau de excelência que não é tão comum de encontrarmos por aí. Logo que eu assisti a Honeyland, pensei em dar um 10 para o filme. Depois, diminui a nota mas, ao escrever sobre ele, resolvi novamente voltar para a ideia inicial. Acho as ideias que o filme apresenta e a forma com que ele faz isso realmente impressionantes, de uma delicadeza e de um cuidado ímpar.

Gostei muito do trabalho dos diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov. Eles tem uma atenção e um olhar diferenciados para os detalhes e para as cenas marcantes. Há muitos momentos neste filme de pura delicadeza e de uma imersão na vida íntima das pessoas que não é muito fácil de encontrarmos. Há cenas belíssimas, assim como há calma para apresentar o tempo da história da forma correta – e não necessariamente para agradar o público.

Esse é o primeiro longa da carreira de Tamara Kotevska. Ela estreou na direção em 2014 com o curta Games e, depois, dirigiu o curta Free Hugs antes de fazer este Honeyland. Ou seja, logo no seu primeiro longa, ela já foi indicada ao Oscar. Eis uma pessoa a ser acompanhada. Segundo o site IMDb, Honeyland marca a estreia de Ljubomir Stefanov na direção. Incrível.

Além da direção de Tamara e de Ljubomir, destaco a edição de Atanas Georgiev e a trilha sonora de Foltin.

Honeyland estreou em janeiro de 2019 no Festival de Cinema de Sundance. Até o final do ano, o filme participou de 48 festivais e mostras em diversos países. Um número impressionante. Nesta trajetória a produção ganhou 32 prêmios e foi indicado a outros 48 – inclusive a indicação em duas categorias do Oscar, as de Melhor Documentário e de Melhor Filme Internacional. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os três conferidos pelo Festival de Cinema de Sundance – incluindo o de Melhor Documentário; para os prêmios de Melhor Documentário e Melhor Filme Internacional no Festival Internacional de Cinema de São Paulo; para dois prêmios no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; e para os prêmios de Melhor Fotografia e de Reconhecimento Criativo dados pela Associação Internacional de Documentários.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A equipe que fez Honeyland passou três anos no local para conseguir todas as cenas do filme. Dedicação incrível, diga-se.

Honeyland é o primeiro filme da história da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood a ser indicado tanto na categoria de Melhor Documentário quanto na categoria de Melhor Filme Estrangeiro – antes, categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os diretores de Honeyland descobriram a história de Hatidze enquanto faziam a pesquisa para um documentário ambiental. Ao ficarem fascinados com a história dela, eles decidiram filmar cerca de 400 horas nas visitas que fizeram para o vilarejo da apicultora.

Segundo a diretora Tamara Kotevska, Honeyland funciona como um espelho. “Algumas pessoas se reconhecem em Hatidze, enquanto que outras pessoas se reconhecem na outra família”, ela comentou. Nem preciso dizer com quem eu simpatizo e me vejo representada, não é? O comentário da diretora só reforça a minha leitura de que o filme acaba resumindo a nossa humanidade no estado da nossa evolução atual.

Honeyland acontece na vila rural de Bekirlijia, cerca de 55 quilômetros a sudeste da capital do norte da Macedônia, Skopje.

Essa é a primeira indicação a um Oscar da Macedônia.

Agora, uma curiosidade que merece um alerta. (SPOILER – não leia, sério mesmo, se você ainda não assistiu ao filme). Depois da morte da mãe, Hatidze saiu da aldeia em que viveu durante toda a vida. Ela agora está morando em uma vila mais próxima da cidade, onde tem eletricidade e água encanada. Mesmo após ter se mudado, ela continua voltando para cuidar das abelhas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Honeyland, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 96 críticas positivas e uma negativa para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 8,4. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 86 para Honeyland, assim como o selo “Metacritic Must-see”. O “metascore” é fruto de 25 críticas positivas e de uma mediana.

De acordo com o site Box Office Mojo, Honeyland faturou US$ 786,7 mil nos cinemas dos Estados Unidos e cerca de US$ 808,8 mil nos outros mercados em que estreou. Bilheterias baixas, claro, mas algo explicado por um filme que não é americano e foi exibido especialmente em festivais.

Honeyland é uma produção 100% da República da Macedônia.

CONCLUSÃO

Uma história que pode não ser familiar para 99% dos espectadores que vão assistir a Honeyland e que, apesar disso, bate fundo para quem consegue se colocar no lugar do outro. Mesmo uma realidade distante pode nos falar muito sobre a humanidade e sobre todos nós. Um filme que impressiona, que faz pensar e refletir. Entre outros aprendizados, nos mostra como somos pequenos, “insignificantes”, mas que podemos também fazer uma grande diferença no lugar em que vivemos. Forte, preciso, delicado e impressionante, Honeyland é inesquecível.

PALPITES PARA O OSCAR 2020

Olha, vou dizer para vocês. Nem assisti ainda a todos os filmes que estão na disputa nas categorias Melhor Documentário e Melhor Filme Estrangeiro, mas já posso dizer que a primeira categoria está entre as mais disputadas e difíceis de acertar deste ano no Oscar.

Diversas categorias já são “cartas marcadas”. Dificilmente teremos surpresas, por exemplo, nas disputas para atores – principais e coadjuvantes. O mesmo podemos dizer em Melhor Filme Estrangeiro, no qual sairá vencedor Parasite (comentado aqui). Mas em Melhor Documentário o buraco é mais embaixo.

Ainda que, para os apostadores, American Factory seja o favorito, devo dizer que Honeyland pode emplacar e surpreender. Assim como For Sama – que ainda preciso assistir. Parece que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fez uma escolha a dedo neste ano e que só temos grandes concorrentes na disputa – o brasileiro Democracia em Vertigem é que corre por fora.

Difícil dizer quem vai levar. Se fosse votar no filme que mais me impressionou até aqui, sem dúvida alguma votaria neste Honeyland. Logo mais saberemos quem vai levar a estatueta pra casa.

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

1 resposta em “Honeyland”

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