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Dylda – Beanpole – Uma Mulher Alta


O que pode ser simples para a maioria das pessoas é algo complicado – ou impossível – para outras. Essa afirmação é especialmente válida para sobreviventes de guerra. Seja ela qual for. Beanpole nos traz uma história cheia de nuances, camadas, cicatrizes e uma ou outra bofetada. Um filme marcante por diversos aspectos, começando pela interpretação impecável das atrizes principais, por uma direção inspiradora, um roteiro diferente e uma direção de fotografia incrível.

A HISTÓRIA

É ambientada em Leningrado, no primeiro outono após a guerra. Uma mulher, que está com o rosto suado, parece paralisada. Ela não pisca e parece ter um movimento involuntário no pescoço. Nos fundos, mulheres aparecem trabalhando. Alguém chama a mulher pelo nome: Iya (Viktoria Miroshnichenko). Em seguida, Katya (Alisa Oleynik) mexe no ombro de Iya, aperta sua bochecha, mas desiste ao ser chamada por uma colega – que diz que Iya está assim há horas. Quando sai de seu torpor, Iya fica sabendo que está sendo procurada pelo médico Nikolay Ivanovich (Andrey Bykov).

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Beanpole): Um filme instigante, provocador e muito contundente sobre os efeitos devastadores de uma guerra. Poucas produções trataram tão bem sobre os escombros, os feridos, os “seres quebrados” que “sobrevivem” ao final de um conflito.

E o mais interessante deste filme: ele faz tudo isso focando em duas personagens pouco usuais em produções do gênero. As protagonistas desta história são duas mulheres. Que não foram escolhidas de forma aleatória. Ambas estiveram no campo de batalha. Viveram na pele os efeitos que bombas e estilhaços podem causar. Sobreviveram apesar dos pesares e para seguir uma vida com limitações, dores e pequenos lampejos de felicidade.

Beanpole tem na escolha e na “construção” de suas personagens principais um de seus maiores trunfos. Verdade que o roteiro escrito pelo diretor Kantemir Balagov junto com Aleksandr Terekhov se destaca também por algumas quebras importantes de ritmo e por algumas sequências impactantes. Mas o filme não se resume a isso. Muito pelo contrário.

O que realmente marca nesta produção é a forma com que ela apresenta o pós-guerra de forma contundente através de “pessoas quebradas”. Muitas aparecem em cena, mas o destaque fica mesmo com as protagonistas Iya Sergueeva e Masha, interpretadas pelas fantásticas atrizes Viktoria Miroshnichenko e Vasilisa Perelygina.

Aos poucos vamos mergulhando na história engenhosamente traçada pro Balagov e Terekhov. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Conforme Beanpole avança, percebemos em cada olhar e em cada gesto toda a timidez e a ingenuidade de Iya ao mesmo tempo em que fica evidente a sensualidade e a manipulação aprendida na luta pela sobrevivência por Masha. A junção das duas é algo realmente muito interessante, ainda que um bocado angustiante, já que vemos claramente como Iya é enredada por Masha em sua manipulação.

Sobreviventes dos campos de batalha, tanto Iya quanto Masha sabem como se defender. A primeira, pela força física. A segunda, pela dissimulação/manipulação. Uma é tímida, enquanto a outra é envolvente. Uma se sente em dívida e vive um amor platônico, enquanto a outra procura sempre caminhos para sobreviver e ter os seus desejos atendidos.

Mas o que é simples para alguns é impossível para outros. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Assim, enquanto para algumas mulheres é muito fácil engravidar e ter filhos, para Masha isso se tornou algo impossível após ela ser operada após ser atingida por um fragmento de artilharia. Em uma das cenas mais impactantes do filme – a primeira de três, a meu ver -, Iya acaba matando o filho da amiga por asfixia.

Foi um acidente. Iya também tem uma condição perigosa causada por um ferimento de guerra. Apesar disso, o que acontece com Pashka (Timofey Glazkov) acaba sendo decisivo para o restante do filme e para a relação de Iya e Masha. Além de amar a amiga, Iya se sente em dívida com ela. Por isso, acaba cedendo ao apelo de Masha e protagoniza a segunda cena mais impactante da produção – aquela que coloca, na mesma cama, Iya, Masha e o médico Nikolay Ivanovich.

A terceira cena mais impactante da produção, para mim, foi aquela em que Masha experimenta um vestido verde no quarto com Iya presente. Aquela sequência… (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mim, aquela sequência resume esta produção. Masha vivencia, por um breve momento, o que qualquer garota “comum” sentiria ao experimentar um lindo vestido. Mas o problema é que ela não é uma simples garota. Ela passou por situações e viu cenas que não permitem que ela tenha a inocência de se divertir com um vestido lindo.

Por um tempo, ela até consegue. Roda com aquele vestido, ri e se deleita com a sensação macia da seda roçando sua pelo. Masha segue rodando, e rindo; e rodando, e rindo; e rodando, e rindo… até que a graça dá lugar à angústia. Ou à desolação. Naquele momento sabemos, sem precisarmos de qualquer palavra, que aquela linda, graciosa e jovem mulher não poderá ter nunca o que ela mais deseja.

O mesmo parece acontecer com Iya, apesar dela não se dar conta. Até o final ela tem as ilusões alimentadas por Masha. Mas nenhuma das duas conseguirá o que realmente deseja. Porque o mundo, após a guerra, não deixou espaço para elas conseguirem realizar os seus sonhos. No máximo, elas terão momentos de empatia, de ilusão, de troca de afeto que nem sempre será honesto.

Ao redor delas, também encontramos um cenário de desolação. Soldados feridos, muitos deles sem nenhuma perspectiva de melhora, são chamados de heróis e ganham alguns presentes como “agradecimento”. Mas isso será tudo que eles terão de espólio.

Alguns, como Stepan (Konstantin Balakirev), podem até buscar por uma “ajuda” em forma de injeção letal. Iya é a pessoa que segue as ordens de Nikolay nestes momentos – que foram vários, como a produção revela. Desta forma, apesar de ser alta e forte, Iya claramente é a pessoa frágil da história que acaba sendo manipulada e usada – primeiro por Nikolay e, depois, por Masha.

Então o que temos em cena com Beanpole? Um cenário de pós-guerra cheio de feridos, “incapacitados”, pessoas feridas e “quebradas” no aspecto físico ou na alma. Existe cura ou remédio para elas? A impressão que temos com esta produção é que ninguém realmente conseguirá ser o que deseja. Ninguém conseguirá realizar seus sonhos.

O que resta daquele cenário são escombros e peças de pessoas e de “almas” que podem ser “coladas” e, em algumas ocasiões, que podem experimentar lampejos de felicidade, de graça e de amor. Podem vivenciar empatia e ter esperanças, assim como ilusões. Enquanto os corações seguem batendo, eles seguem experimentando. Mas as marcas da guerra não desaparecem.

NOTA

9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Por tudo que eu comentei antes, achei esta produção bem acima da média. Um dos pontos altos do filme é o roteiro de Kantemir Balagov e de Aleksandr Terekhov. O texto deles é muito bem construído, desenvolve bem as personagens centrais e envolve o espectador pouco a pouco. Os roteiristas também se preocuparam em nos apresentar momentos marcantes que contrastam com uma narrativa que, durante boa parte do tempo, parece um tanto singela e “comum”.

Claro que muito neste filme, como parecer ser mesmo a alma dos russos, está baseado em uma certa dicotomia. O que vemos na superfície não transparece, na verdade, o que está passando no interior. As intenções costumam estar bem camufladas, e a aparente calma e sutileza nada mais é que o verniz de algo duro que está escondido. Isso tanto na narrativa de Beanpole quanto na essência de alguns personagens. Algo muito russo – ou, ao menos, do que acreditamos ser típico dos russos.

Ainda que o roteiro seja um dos pontos fortes desta produção, vejo que é nele também que Beanpole fraqueja. Afinal, há algumas sequências e escolhas que parecem ter sido feitas para “chocar” e que, de fato, não contribuem tanto para a história ou a escolha dos personagens. Como a história envolvendo Stepan e a esposa (Alyona Kuchkova) ou mesmo a forma com que o personagem Nikolay Ivanovich é apresentado. Em outras palavras, o roteiro funciona muito bem e é exemplar com as protagonistas, mas desenvolve mal os personagens secundários e as histórias paralelas.

Vale destacar também a direção de Kantemir Balagov. O jovem diretor russo, com 29 anos de idade, tem apenas cinco produções no currículo como diretor. Ele estreou em 2014 com o curta Pervyy Ya e, no ano seguinte, lançou o curta documentário Andryukha e o seu primeiro longa, Molodoy Eschyo. Antes de Beanpole, ele lançou o longa Tesnota em 2017. Com esta trajetória, ainda curta, Balagov conquistou 26 prêmios. Um jovem talento do cinema russo que merece ser acompanhado.

Com Beanpole, Balagov nos apresentou um trabalho com muito cuidado estético e com uma ótima direção de atores. Ele sabe explorar muito bem a dinâmica das protagonistas ao mesmo tempo em que valoriza os lugares e o trabalho dos coadjuvantes. Nos apresenta, assim, um trabalho feito com esmero e que nos convida a seguir acompanhando o diretor em sua trajetória.

Entre os aspectos técnicos desta produção, preciso bater palmas para a excelente direção de fotografia de Kseniya Sereda e para os impecáveis design de produção de Sergey Ivanov e figurinos de Olga Smirnova. Estes três elementos fazem de Beanpole um filme realmente lindo de ser ver – apesar de toda a sua desolação narrativa. Trabalhos realmente admiráveis e que servem de exemplo para quem gosta da área.

Além destes aspectos, vale também citar a trilha sonora pontual e marcante de Evgueni Galperine e a edição de Igor Litoninskiy.

Os grandes nomes desta produção são o de Viktoria Miroshnichenko e de Vasilisa Perelygina. As personagens delas são muito diferentes mas igualmente interessantes. Chegam a nos hipnotizar. Fantásticas em suas atuações! Além delas, vale citar o belo trabalho dos atores Andrey Bykov como o médico Nikolay e de Igor Shirokov como Sasha, o rapaz estranho, rico e mimado que acaba se aproximando de Masha.

Entre os coadjuvantes com papéis menores, destaque para Konstantin Balakirev como Stepan, veterano de guerra paralisado do pescoço para baixo; Kseniya Kutepova em um papel pequeno mas marcante como Lyubov Petrovna, mãe de Sasha; Timofey Glazkov perfeito como o angelical Pashka; e Denis Kozinets em uma ponta como o pai de Sasha. Todos muito bem e com atuações marcantes – ainda que alguns com poucas aparições em cena. Aliás, achei acertada a escolha dos roteiristas em focar em poucos personagens e em destacar as protagonistas.

Ainda que o título original desta produção é Dylda, resolvi usar aqui na crítica o título para o mercado internacional, que foi Beanpole.

Esta produção estreou no Festival Internacional de Cinema QCinema em 2019, mesmo ano em que a produção participou do Festival de Cinema de Cannes em maio. Até junho de 2020, Beanpole participou de outros 21 festivais em diversos países. Nesta trajetória, o filme ganhou 27 prêmios e foi indicado a outros 35.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio FIPRESCI e para o prêmio de Melhor Diretor no Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes; e para o prêmio de Melhor Filme no Montréal Festival of New Cinema.

Segundo o diretor Kantemir Balagov, a principal fonte de inspiração dele para Beanpole foi o livro “War Does Not Have a Woman’s Face”, escrito em 1983 por Svetlana Alexievich e vencedor do prêmio Nobel.

Beanpole aparece em diversas listas dos melhores filmes de 2020 mas, apesar disso, essa produção indicada ao Oscar 2020 de Melhor Filme Internacional bateu na trave e não conseguiu chegar na lista dos cinco finalistas. Ainda preciso assistir ao representante da França neste ano, mas acho a disputa estava difícil. Gosto muito dos outros concorrentes deste ano nesta categoria, mas também acho que não foi justo Beanpole ficar de fora na reta final. O que vocês acham a este respeito?

Lembrando que eu comentei sobre outros filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional aqui no blog. Para facilitar a lembrança e o acesso de vocês, deixo por aqui os nomes dos filmes já comentados e o link para vocês acessarem as críticas deles: Honeyland, Dolor y Gloria, Parasite e Corpus Christi. Aliás, falando apenas dos últimos posts aqui no blog, entre Corpus Christi e Beanpole, acho que o segundo merecia mais a indicação do que o primeiro.

Agora, uma curiosidade sobre o local em que esta história está ambientada. Segundo a descrição no início do filme, Beanpole se passa em Leningrado. Este foi o nome que a cidade de São Petersburgo recebeu em 1924 – apenas em 1991, com o fim da União Soviética, a cidade voltou a ter o nome original. Antes de ser batizada de Leningrado, São Petersburgo também foi chamada de Petrogrado entre os anos de 1914 e 1924. Segundo a Wikipédia, São Petersburgo é a segunda maior cidade da Rússia, atrás apenas de Moscou.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 81 críticas positivas e oito negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,78. O site Metacritic apresenta um “metascore” 84 para Beanpole, fruto de 24 críticas positivas e de duas medianas, assim como o selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, Beanpole arrecadou cerca de US$ 196,2 mil nos Estados Unidos – ou seja, um filme pouco visto no país, o que é “normal” para produções estrangeiras sem grande investimento de distribuição – e cerca de US$ 1,4 milhão em outros países em que estreou pelo mundo. Ou seja, um filme muito de festivais e que ainda não chegou no grande público.

Beanpole é uma produção 100% made in Rússia.

CONCLUSÃO

Simplicidade, complexidade, desolação. Beanpole mistura estes três elementos com um certo ritmo. Um filme potente sobre os espólios de uma guerra e sobre as pessoas que restam após o fim da batalha. Produção instigante, com ótimas interpretações e algumas sequências que ficam na memória por muito tempo após o final do filme. Beanpole trata de terra arrasada na mesma medida em que aborda a continuidade, mesmo que esta continuidade esteja longe da perfeição. Um belo filme, possivelmente um dos melhores do ano.

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

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