Roma

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Um filme simples com diversas camadas de interpretação e pequenas pérolas de informações espalhadas aqui e ali. Roma, por muitos considerado como um dos fortes concorrentes do Oscar 2019 – ao menos na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira -, realmente tem muitas qualidades. Mas eu não sei… ao término da produção, fiquei com aquele gostinho de que falaram tanto do filme e que ele entrega menos do que eu esperava. Grandes expectativas costumam resultar nessa conclusão. Mas uma obra-prima, realmente, teria satisfeito e superado as expectativas. Esse não é o caso de Roma.

A HISTÓRIA: Sobre um piso, alguns baldes de água são derramados. O reflexo que a água faz mostra em parte o céu, por onde passa um avião. Depois de limpar o piso, Cleo (Yalitza Aparicio) recolhe o material utilizado e conversa com o cachorro, Borras. Ela vai até um banheiro, colocado do lado externo da casa, e entra na residência dos patrões. No piso superior, ela recolhe as roupas de cama utilizadas e coloca as novas. Faz tudo com agilidade, levando o fiel rádio consigo em cada cômodo.

Em seguida, Adela (Nancy García García) chama a atenção de Cleo de que é quase 13h e que ela precisa se apressar. Cleo corre pela calçada e vai até o colégio para buscar o caçula dos patrões. Na volta, Adela comenta que Fermín (Jorge Antonio Guerrero) está ao telefone para falar com Cleo. As duas falam no dialeto mixteco, idioma que Pepe (Marco Graf) desconhece. Aos poucos, vamos acompanhando as histórias dessa família e de seus empregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Roma): Eu gosto muito do Sr. Alfonso Cuarón. E não é de hoje. Gosto do estilo do diretor muito antes dele ser reconhecido pelo trabalho extremamente técnico de Gravity (comentado por aqui). Eu acompanho o trabalho desde há exatos 20 anos, desde Great Expectations, filme com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow e anterior a Y Tu Mamá También – que o tornou mais conhecido e admirado.

Dito isso, comento que fiquei feliz que um filme dele, Roma, é considerado um dos favoritos – se não o maior favorito – para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Como quem acompanha o blog há mais tempo sabe, essa é a minha categoria preferida do Oscar. Especialmente pelas obras interessantes e diversificadas que esta categoria me apresenta a cada ano da premiação.

Assim, devo admitir, fui assistir a Roma com grandes expectativas. Não apenas por seu favoritismo, mas porque conheço o talento de Cuarón. Nascido na Cidade do México em 1961, Cuarón fez uma releitura muito particular sobre os anos de 1970 e 1971 – quando se passa a história desse filme. Pensando na produção, me parece que o personagem de Pepe, interpretado pelo carismático Marco Graf, representa o pequeno Cuarón.

Assim, nos debruçamos sobre a realidade do México naqueles anos conturbados. Para isso, Cuarón nos apresenta uma visão bastante intimista e próxima de uma família da classe média, onde duas realidades muito diferentes são retratadas. A das pessoas com recursos e que podem se dar ao luxo de ter até três empregados – o que é o caso da família de Sofía (Marina de Tavira) e de Antonio (Fernando Grediaga).

Enquanto o casal, que vive uma crise no matrimônio, tem condições de viver bem, educar os quatro filhos em bons colégios e ter uma empregada, uma cozinheira e um motorista à sua disposição, os empregados da família vivem em função dos chefes e à espera de uma folga para ir namorar no cinema – ao menos Cleo e Adela.

A narrativa desta produção, linear e focada no cotidiano da família e de seus empregados, apresenta diversas sutilezas e temas que fazem pensar. Mas sem grandes “choques” narrativos ou inovações na forma de contar essa história. Cuarón faz um excelente trabalho na direção, valorizando o trabalho dos atores, focando no cotidiano da Cidade do México no início dos anos 1970 e com planos de câmera que valorizam os movimentos contínuos.

De forma acertada, ele foca em poucos personagens e foca a narrativa sob a ótica da empregada da família, Cleo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela é uma garota simples, que não tem contato com a própria família (ouvimos falar apenas da mãe dela, na realidade) e que dedica a sua vida para os patrões – especialmente para os filhos de Sofía. Ela é especialmente apegada aos menores, Pepe e Sofi (Daniela Demesa).

A principal reflexão de Roma, para mim, é justamente as desigualdades sociais e de oportunidades que marcaram o México e outros países latinos nos anos 1970 e até hoje. No fundo, Cleo abre mão da própria vida para dedicar-se 100% à família dos patrões. No momento mais angustiante do filme, quando Cleo salva Paco (Carlos Peralta) e Sofi na praia, ela confessa que não queria que a filha que teve com Fermín nascesse.

Em outro momento importante do filme, Sofía comenta que não importa o que digam para elas, mas as mulheres estão sempre sozinhas. Esse é outro aspecto muito interessante e relevante do filme. Como mulheres com histórias tão diferentes, níveis de educação e oportunidades tão diversas, no fundo, podem ser vítimas da mesma sociedade machista. O México, assim como o Brasil e outros países, sofre com esta cultura em que todas as decisões e as principais oportunidades são decididas pelos homens.

Assim, com bastante facilidade, Antonio abandona a família ao mesmo tempo em que Fermín não assume o seu compromisso com Cleo. Para eles, fazer isso é muito fácil. Ninguém os questiona, ninguém acha absurdo o abandono e desprezo que eles promovem. Ao mesmo tempo, Cuarón revela uma fase da história em que as mulheres começam a assumir o controle de suas próprias vidas.

Desta forma, Roma também nos mostra o início de um maior “empoderamento” feminino na sociedade mexicana. Seja com Sofía mudando o foco de sua atividade para conseguir um emprego que lhe ajude a pagar as contas e sustentar a sua família, seja com Cleo revelando abertamente que não gostaria de ter a sua filha. Claro, podemos debater as razões dela não querer a sua própria filha. Seria por que ela está focada demais em ajudar a criar e cuidar das filhas da patroa ou será mesmo que, a exemplo de outras mulheres, ela não sente a necessidade em ter uma herdeira e colocar uma criança à mais no mundo?

As respostas para estas questões não são simples e nem devem ser dadas com base no que acreditamos ou fazemos. As questões sociais são complexas mesmo, seja no México do início dos anos 1970, seja nos dias atuais. Roma nos apresenta histórias muito humanas e com um olhar sensível e muito cuidadoso de Cuarón – além de dirigir o filme, ele é o responsável pelo roteiro de Roma.

Além destas questões muito particulares e humanas de Roma, o filme trata, em pequenas pérolas espalhadas aqui e ali, questões sociais importantes para o México daquela época. Como no início do filme Paco narra uma cena em que um menino foi morto por um militar por ter jogado um balão cheio de água nele, inicialmente eu achei que o México também vivia uma fase de regime militar – como era o caso do Brasil, na mesma época. Mas não. Buscando mais informações sobre o período, descobri que quem governava o México na época era o PRI (Partido Revolucionário Institucional).

Ainda assim, mesmo que o regime na época no México não fosse ditatorial, o exército e a polícia desempenharam um papel decisivo no que alguns chamaram de “guerra suja” contra a oposição ao PRI nos anos 1960 e 1970. Isso é o que vemos em cena em dois momentos contundentes da produção. Primeiro, no “treinamento” de Fermín, que acaba sendo flagrado por Cleo – que, inocente, acredita que o ex-namorado está treinando para as Olimpíadas.

Ele diz que foi “salvo” pelas artes marciais, mas de que tipo de salvação ele está falando? Órfão de mãe ainda criança e criado em uma favela, Fermín acredita que não caiu na criminalidade por causa das artes marciais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, depois, ele acaba sendo utilizado como um criminoso pelo próprio regime para matar estudantes que protestavam contra o governo. Ele não atira em Cleo, apesar de ter tido vontade, mas o efeito que ele causa naquela situação é o mesmo praticamente se ele tivesse realmente apertado o gatilho.

Apenas jogando os “fatos” na nossa frente, Cuarón nos faz refletir sobre os efeitos daninhos da desigualdade de oportunidades e de acesso à educação. No fundo, Cleo e Fermín fazem parte de um mesmo sistema injusto no qual eles não tem perspectiva praticamente nenhuma de sair de seus “destinos”. A ignorância faz Cleo engravidar sem ao menos saber como poderia ter evitado aquilo, enquanto Fermín serve de massa de manobra para crimes sem que ele realmente tenha percebido alguma outra alternativa para si mesmo.

Com isso, claro, não estou dizendo que todos são produto apenas do seu meio. Claro que, no final das contas, somos responsáveis pelos nossos atos e podemos escolher o que fazer dos nossos dias, mesmo que alguns tenham mais opções do que outros – e isso não pode ser ignorado. De forma muito direta, Cuarón nos fala sobre isso nessa produção. Um filme bastante humano, intimista, mas também com uma grande carga de debate social.

Algumas pérolas espalhadas pelo diretor aqui e ali também nos fazem refletir sobre outra questão. Seja pela narrativa de Paco sobre o garoto que levou um tiro do militar por jogar um balão cheio de água, seja pela criança que morre empalada em uma incubadora no hospital, Roma parece nos sugerir que as crianças são as principais vítimas de uma sociedade injusta e que apresenta diversos riscos que nem sempre podem ser calculados. Isso também nos faz pensar sobre a finitude da vida e sobre a falta de controle que temos sobre diversos fatos.

O momento alto da produção, sem dúvida alguma, é a sequência derradeira na praia. Extremamente angustiante a forma com que Cleo não pensa na própria vida e se entrega para salvar as crianças que ela ama – e que não são dela. Ela tem um altruísmo e uma entrega que impressionam. Naquele momento, impossível não pensar no pior cenário da situação, e justamente isso que cria a angústia muito bem planejada pelo diretor/roteirista. Sequência brilhante – especialmente por nos mostrar apenas parte do que está acontecendo, o que aumenta a angústia.

Cleo vai continuar dedicando a sua vida para aquela família. Apesar disso, ela nunca realmente vai fazer parte daquela realidade. Isso talvez seja o incômodo que perdura mais após o fim dessa produção. Um filme bem planejado, interessante e delicado mas que, apesar de todas as suas qualidades, não cria realmente um grande impacto.

Roma não surpreende ou provoca o desconforto que outras produções mais “potentes” deste ano e que buscavam uma vaga entre os finalistas do Oscar causam. É um belo filme, mas não o considero o melhor desta categoria neste ano. Ainda assim, algo eu tenho que admitir: o filme faz uma bela apresentação da cultura e dos valores mexicanos – inclusive a força de vontade das mulheres, as desigualdades sociais e algumas superstições e costumes. Mas acho que a produção poderia ser um pouco mais curta. Acho que Roma tem trechos realmente dispensáveis – como o incêndio aparentemente provocado após a festa de Réveillon e a cantoria que se segue. Alguns minutos a menos, retirados daqui e dali, fariam bem para a produção.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de Roma, sem dúvida alguma, é a direção de fotografia de Alfonso Cuarón. Além de ter uma direção primorosa, Cuarón também teve um trabalho irretocável na fotografia – valorizada pelo preto e branco. Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar também a edição de Alfonso Cuarón e Adam Gough. Outro item importante para o sucesso de Roma.

Certamente existem diversos textos e materiais que falam sobre o cenário político e social do México no início dos anos 1970. Mas para quem deseja uma leitura rápida, recomendo este texto do site Público e esse artigo sobre o papel dos intelectuais frente àquele cenário repressivo do regime do PRI.

A grande estrela desta produção, sem dúvida alguma, é a atriz Yalitza Aparicio. Ela está perfeita como a protagonista Cleo, uma garota simples, singela, mas muito amorosa e dedicada. Ela simboliza muito bem a mulher “comum” do México. Está perfeita. E o mais interessante: segundo o site IMDb, Roma marca a estreia de Yalitza Aparicio no cinema. Um belo, belo achado do diretor Cuarón, sem dúvida. Ela simboliza muito bem a delicadeza, a simplicidade e a origem indígena de uma parte considerável das mulheres mexicanas.

Além dela, fazem um bom trabalho nesta produção a “patroa” de Cleo, interpretada por Marina de Tavira; a colega de Cleo, responsável pela cozinha da família, interpretada por Nancy García García; o elenco infanto-juvenil que dá vida para os filhos de Sofía, interpretados por Diego Cortina Autrey (Toño), Carlos Peralta (Paco), Marco Graf (Pepe) e Daniela Demesa (Sofi); e a atriz Verónica García, que interpreta à Teresa, mãe de Sofía.

Outros atores fazem papéis menores, mas que também tem a sua relevância – ainda que eles, a meu ver, ficam em um nível de entrega menor que o dos outros atores. Integram esse grupo os atores Fernando Grediaga, que interpreta a Antonio, chefe da família que emprega Cleo; Jorge Antonio Guerrero, que interpreta ao “desajustado” Fermín; José Manuel Guerrero Mendoza como Ramón, “namoradinho” de Adela e parente de Fermín; e Latin Lover como o Profesor Zovek – uma figura que simboliza alguns ídolos mexicanos mas que, francamente, não sei se precisaria estar nesta produção. Talvez a razão dele estar lá é de nos questionarmos quem são os nossos “ídolos” e o que eles representam ou significam.

Roma estreou no final de agosto no Festival de Cinema de Veneza. Depois, até novembro, o filme participou de outros 28 festivais em diversos países antes de estrear na internet em dezembro – Roma é distribuído pela Netflix.

Fiquei me perguntando, por um bom tempo, o porquê do nome Roma para esta produção. Depois é que eu fui descobrir que a história se passa, predominantemente, na vizinhança da “colônia” Roma, na Cidade do México. Aí sim, faz sentido. 😉

Roma é dedicado a Libo, que era a empregada doméstica da família do diretor e na qual ele se baseou para escrever a protagonista desta produção.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. A razão de vários aviões serem vistos na produção é que Cuarón decidiu filmar na Cidade do México e não em um estúdio – e, atualmente, segundo o diretor, um avião passa a cada cinco minutos pelo céu da cidade.

Vale citar algumas falas de Cuarón sobre Roma: “Há períodos na história que cicatrizam as sociedades e momentos na vida que nos transformam como indivíduos. O tempo e o espaço podem nos constranger, mas também nos definem, criando vínculos inexplicáveis com os outros que fluem junto conosco no mesmo tempo e nos mesmos lugares. Roma é uma tentativa de capturar a memória de eventos que eu experimentei há quase cinquenta anos. É uma exploração da hierarquia social do México, onde classe e etnia foram perversamente entrelaçadas nesta data, acima de tudo. Tudo é um retrato íntimo de duas mulheres que me criaram em um reconhecimento do amor como um mistério que transcende o espaço, a memória e o tempo”.

O diretor e roteirista era a única pessoa que conhecia todo o roteiro e a direção que o filme teria. A cada dia ele chegava nas filmagens para entregar para o elenco as linhas do roteiro que seriam filmadas naquele dia. A intenção de Cuarón era surpreender os atores e provocar choque e emoção em cada um deles. Além disso, cada ator recebia orientações e explicações contraditórias, para que houvesse algum “caos” no set a cada dia. Essa ação de Cuarón é explicada com a seguinte frase do diretor: “A vida é exatamente assim: caótica, e você não pode realmente planejar como reagirá sempre em cada situação que ela apresenta”.

Segundo Cuarón, 90% das cenas de Roma representam imagens que ele guardou na sua própria memória. Ou seja, um filme bastante “autobiográfico” ou bastante inspirado nas memórias do diretor, bem ao gosto de Fellini.

Ao apresentar Roma no Festival de Cinema de Nova York, o diretor Guillermo Del Toro disse que o filme de Cuarón é um de seus cinco filmes favoritos de todos os tempos. Deve influenciar bastante para isso o fato de Del Toro ser mexicano também – certamente o filme “bate” diferente para quem nasceu naquele país. Esse mesmo efeito, guardada as devidas proporções, Benzinho (comentado aqui) causou em mim neste ano.

O distrito Roma fica localizado na região Oeste a partir do centro histórico da Cidade do México – caso alguém um dia for para lá e quiser conhecer o local. 😉

Para o filme, Cuarón reuniu 70% dos móveis da sua casa e da residência de familiares para que esses objetivos aparecessem em cena.

De acordo com Cuarón, Roma é o filme “mais essencial” da sua carreira. Cada cena do filme foi gravada no local onde os eventos aconteceram ou em sets que procuraram reproduzir os locais com o maior grau de exatidão possível.

Nos créditos finais do filme, além de agradecer a membros de sua família, Cuarón agradece a nomes do cinema de origem mexicana, como Gael García Bernal, Guillermo Del Toro, Alejandro G. Inãrritu e Emmanuel Lubezki.

Parte da linguagem do filme está no dialeto mixtec. Curioso que o dialeto é falado, essencialmente, pelas mulheres que aparecem na produção – não apenas as empregadas, mas também Sofía.

Pedro Almodòvar considerou Roma como o melhor filme de 2018. A revista TIME também escolheu Roma como o melhor filme do ano, descrevendo ele como “uma ode ao poder da memória, tão íntimo quanto um sussurro e tão vital quanto o rugido do mar”.

De acordo com o roteiro de Roma, a história transcorre entre os dias 3 de setembro de 1970 e 28 de junho de 1971.

Segundo Cuarón, a simbologia de abrir o filme com um avião refletido na água era o de tratar da situação transitória da vida, declarando também que o universo é mais amplo que a vida que os personagens da produção apresentam.

A atriz Yalitza Aparicio, a exemplo de sua personagem Cleo – e da empregada na qual ela é inspirada -, também não sabia nadar.

Dos aspectos técnicos do filme, além da maravilhosa direção de fotografia de Cuarón e da edição dele e de Gough, vale destacar o design de produção de Eugenio Caballero; a direção de arte de Carlos Benassini e Oscar Tello; a decoração de set de Barbara Enriquez; os figurinos de Anna Terrazas e o Departamento de Arte formado por Marcela Arenas, Gabriel Cortes, Ziuhtei Erdmann, Eliud López, Ana Carolina Sánchez Mendoza, Raisa Torres e Marcos Demián Vargas.

Até o momento, Roma ganhou 90 prêmios e foi indicado a outros 122 prêmios – números realmente impressionantes. Entre as indicações, estão incluídas as indicações aos Globos de Ouro de Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que o filme já recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme e o SIGNIS Award para Alfonso Cuarón no Festival de Cinema de Veneza; e para 34 prêmios de Melhor Filme ou de Melhor Filme em Língua Estrangeira e 20 de Melhor Diretor para Alfonso Cuarón conferidos por diferentes círculos e associações de críticos de cinema dos Estados Unidos e de outros países. Ou seja, esse filme chega super premiado já tanto para o Globo de Ouro quanto para o Oscar em 2019.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Roma, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 287 críticas positivas e 13 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 9,1. As notas dos dois sites para o filme são altas se considerarmos o padrão dos sites. O site Metacritic apresenta o “metascore” 96 para esta produção – fruto de 50 críticas positivas -, assim como o selo “Metacritic Must-see”.

Roma é uma coprodução do México com os Estados Unidos.

No caso de vencer em uma ou mais categorias do Oscar, será que Cuarón fará um discurso político? Com os Estados Unidos sendo governado, atualmente, por um senhor que deseja erguer um muro entre o México e o seu país, acredito que sim. De qualquer forma, seria interessante ver a mais um latino sendo consagrado pelo Oscar. Veremos.

Última crítica de 2018, aproveito esse post para desejar um maravilhoso 2019 para todos vocês, meus queridos leitores e minhas queridas leitoras aqui do blog. Espero que vocês tenham um ano incrível, com muitas alegrias, ótimos filmes e realizações! Abraços e até as críticas de 2019! 😉

CONCLUSÃO: Um filme que nos apresenta duas realidades muito diferentes e que, ao mesmo tempo, se mostram similares em diversos pontos. Roma traz no seu pano de fundo questões fortes do período de ditadura no México, ao mesmo tempo em que retrata com muito cuidado e atenção a intimidade de pessoas de classes sociais muito diferentes que convivem sob o mesmo teto. Essa produção acerta ao retratar uma época de início de empoderamento feminino, assim como de mudança de comportamentos, mas acaba sendo menos impactante ou inovador do que eu esperava.

Uma bela produção, mas que me pareceu um tanto longa demais e sem a carga de novidade de outros filmes que disputam com ela uma vaga no Oscar. Não achei o melhor filme desta categoria até o momento. Está entre as boas pedidas do ano, mas não me impactou como outras produções que buscavam (ou ainda buscam) uma vaga entre os finalistas da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cinema, para mim, é mais que competência técnica. Um filme tem que apresentar emoção, mexer com o espectador ou inovar. Roma apresenta o primeiro elemento, mas com uma carga menor do que o esperado. Bom, competente, interessante e belo, mas não é excepcional.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Roma parece ter uma forte campanha para chegar forte no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Sim, o filme tem muitas qualidades, mas não acho ele poderoso ou inovador o suficiente para ser considerado o favorito deste ano – que é como ele tem sido apontado até agora.

Dos filmes pré-indicados que eu assisti até o momento, sem dúvida alguma eu achei The Guilty (comentado aqui) mais impactante e inovador. É o meu preferido na disputa, até agora. Burning (com crítica neste link) é menos detalhista e bem acabado que Roma, mas também me pareceu mais impactante e inovador. Apenas Cold War (comentado aqui) pode ser comparado com o filme de Cuarón – não apenas pela fotografia em preto-e-branco mas, em especial, pela história central um tanto “conservadora”.

Conforme comentei neste artigo sobre os filmes que avançaram em nove categorias do Oscar 2019, estou especialmente curiosa para assistir aos filmes da Colômbia, da Alemanha e do Líbano. Quem sabe alguma destas produções ou mesmo o filme dinamarquês na disputa não surpreenda e ganhe do “favorito” Roma? O filme de Cuarón tem o seu valor, mas não me conquistou como eu esperava.

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Gravity 3D – Gravidade 3D

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A corrida para o Oscar do próximo ano está aquecida desde já. Mas alguns filmes que podem surpreender ainda não estrearam nos Estados Unidos, o que pode alterar as bolsas de apostas feitas até agora porque estes títulos podem surpreender aos críticos e votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ainda assim, ouvi falar tanto de Gravity que eu me vi obrigada a ver ao filme agora, enquanto ele ainda está nos cinemas.

Honestamente, eu gosto do Alfonso Cuarón. Mas esta nova produção dele não tinha me atraído tanto assim para que eu fosse nos primeiros dias a algum cinema. Só que com tanto burburinho sobre a produção e com os especialistas afirmando que ele tem grandes chances de ganhar um monte de estatuetas douradas em 2014, me vi obrigada a ir atrás.

A HISTÓRIA: Se passa a 600 quilômetros acima da superfície da Terra, onde não há oxigênio, não há água e nem atmosfera por onde o som possa se propagar. Logo aparece o nosso planeta, naquela imagem clássica, todo azul, mas agora em alta definição e profundidade. Logo ouvimos o comando da Nasa pedindo para a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) confirmar se ela está bem. Ela, que é a figura mais distante entre os três astronautas que aparecem na telona, afirma que sim, que apenas está um pouco enjoada. Mas segue trabalhando para instalar um novo sistema de comunicação no telescópio Hubble.

Algo está errado com os componentes, e para passar o tempo, o astronauta Matt Kowalski (George Clooney) segue “caminhando” no espaço para tentar bater o recorde do russo Anatoly Slovyev enquanto conta histórias. Mas não demora muito para que os destroços de um satélite russo destruído por um míssil acertem outros satélites e criem uma verdadeira onda de destruição, fazendo os astronautas que estão na operação do Hubble correrem para tentar se salvar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Gravity 3D): Não é por acaso que eu defendo sempre a ignorância em relação aos filmes. Ou, dizendo em outras palavras, que quanto menos você souber sobre uma história, melhor. Falei algumas vezes por aqui, em outros textos, de como as expectativas são ruins para qualquer experiência. Ainda que a gente se esforce para “ser neutro/a” na hora de ver uma produção, quando ouvimos falar bastante dela, é quase impossível não se contaminar com a expectativa de ver algo bom.

Sobre este filme, especificamente, tentei ouvir pouco antes de assisti-lo. Como costumo fazer com todos os demais. Mas foi impossível. Pesquisando em sites gringos sobre as apostas para o próximo Oscar, vi Gravity bem cotado em praticamente todas as categorias. Isso, por si só, alimenta bastante a expectativa. Além disso, não lembro o porquê, mas li em algum lugar que o diretor James Cameron disse que Gravity é o melhor filme sobre o espaço da história. Daí impossível ir até o cinema e não esperar por um grande filme, não é mesmo?

Foi desta maneira que, logo de cara, achei forçado o humor do roteiro escrito pelo diretor Alfonso Cuarón e pelo filho dele, Jonás Cuarón. A dupla teria, ainda, tido a colaboração do ator George Clooney no texto – uma ajuda não creditada, segundo o site IMDb. Entendo que a intenção dos roteiristas foi “desmistificar” um pouco a figura “sisuda” do astronauta. Assim, vemos ao especialista Shariff (com voz de Phaldut Sharma) fazendo uma “dancinha” no espaço depois de saber que tiraria férias no retorno para a Terra, e ouvimos várias histórias sem graça de Kowalski.

Ainda que eu entenda a intenção dos roteiristas, não acho que a técnica tenha funcionado. As falas de Kowalski, exceto aquelas em que ele tenta saber um pouco mais de Stone quando eles estão sozinhos tentando sobreviver, parecem forçadas. As histórias de Kowalski, contadas para quem quisesse ouvir na Nasa e para uma especialista com quem ele não tinha contato algum até então, que era Stone, me fizeram lembrar aquelas pessoas que você mal conhece e que começam a contar todos os detalhes estranhos e/ou sórdidos de suas vidas quando bebem demais.

Pois bem, fora esse início forçado do roteiro, com confissões estranhas de Kowalski, como os “maus pressentimentos” dele com a missão porque ela fazia ele lembrar de quando foi deixada pela mulher em outra ocasião em que estava no espaço, achei que Cuarón fez uma boa escolha em abrir mão da tradicional edição de cortes de cena para fazer um longo plano de aproximação dos personagens no espaço.

Então partimos de um quadro mais amplo, em que vemos a Terra ao longe e o telescópio Hubble com os astronautas, até que chegamos perto da protagonista, Stone. Este jogo de cena é feito como se estivéssemos flutuando no espaço, acompanhando a dinâmica da cena. Uma proposta interessante e que vai ditar o ritmo de grande parte da produção.

Também achei acertada a escolha para que a ação não demorasse muito para acontecer. Verdade que o filme dá bastante espaço para o silêncio, e para sequências de busca dos astronautas sem muita ação. Gravity é uma história de ação no espaço ao mesmo tempo em que escolhe ser um drama, com todas as suas pausas e momentos em que se espera que a audiência “sinta” o que os atores estão passando.

Pena que o roteiro não deixe praticamente espaço algum para surpresas. E isso é ruim em um filme de ação – também em um drama, claro, mas em um filme de ação a surpresa é ainda mais vital. Assim, quando ouvimos a Nasa falar que os astronautas não precisam se preocupar com a explosão do satélite russo, não é preciso ter grande imaginação para saber que justamente aí estará o grande problema da trama. E o risco para os personagens.

Assim, não é nenhuma surpresa quando a Nasa explica que o trio em órbita deve fazer a reentrada no telescópio e, na sequência, uma evacuação de emergência. Mesmo a virada da narrativa sendo esperada, é preciso admitir que Gravity ganha força e mostra quase todas as suas armas com a chegada dos escombros até aquele cenário “tranquilo”.

Interessante a escolha de Cuarón em acompanhar Stone o tempo inteiro. A estrutura em que ela está se desprende e a médica é lançada longe. Por bastante tempo, o espectador fica “perdido no espaço” junto com a especialista que se preparou pouco para a viagem espacial – o que, cá entre nós, é bem difícil de acreditar.

Pelo menos no mundo real uma pessoa, não importa da especialidade que ela fosse, dificilmente iria para uma missão como aquela tão despreparada. (SPOILER – não leia se você ainda não viu o filme). Mas voltando ao filme… funciona bem o recurso de colocar um “tique-taque” na história. E esse contador de tempo, claro, é o oxigênio baixo de Stone. As rodopiadas dela no espaço, a solidão inerente e o desespero da falta de controle são reforçadas com a trilha sonora de Steven Price.

Kowalski acaba encontrando Stone. Agora, ele não deve se preocupar apenas com a nova onda de destroços que deve chegar até eles, mas também com o tempo limitado que a dupla tem até chegar a uma alternativa que dê oxigênio para a médica e possibilidade de fuga para a Terra para os dois. Agora, fora estas escolhas acertadas do diretor e os ótimos recursos técnicos que ele utiliza, pouco sobra de interessante no filme.

Há algumas sequências realmente estranhas e/ou dispensáveis. Por exemplo, para que afinal eles se esforçaram tanto para buscar o corpo de Shariff? Claro que alguém vai argumentar que a ideia era levá-lo para os familiares na Terra… mas tanto que esta ideia é absurda que quando eles se aproximam da nave Explorer, eles soltam Shariff que vai, desculpem a expressão, para o espaço. 🙂 Também achei muito fake a cena em que Stone olha para o rosto destruído de Shariff.

Como nem todas as escolhas deste filme são estranhas, gostei de duas cenas que valem menção. Primeiro, a bela sacada de Kowalski parar de contar as próprias histórias para tentar saber um pouco mais de Stone e, assim, acalmá-la – afinal, ela praticamente não tem mais oxigênio quando eles decidem ir da Explorer para a estação espacial. Quando ela diz que a filha dela de quatro anos morreu e que, fora trabalhar em um hospital, Stone ficava vagando sem rumo de carro, ele olha para ela, que está presa a ele por um cabo, através de um espelho. Bela, bela imagem. Aliás, as cenas da Terra vistas no espaço e do nascer e do pôr-do-sol são lindíssimas.

Outras sequências que achei muito boas foram as que mostram a destruição no interior da estação espacial. Daí que o 3D faz realmente diferença – especialmente nos momentos em que vemos chamas e água flutuando. Não chegar a ser uma surpresa completa, ainda que seja impactante, a cena em que Kowalski afirma para Stone que a única chance dela é ele se desprender. Sem combustível para seguir dando rumo para o próprio “voo”, Kowalski sabe que não terá resgate. De fato Clooney faz um bom trabalho, ainda que ele seja um pouco irritante. Mas a maior entrega, e que deve render vários prêmios pela frente, é mesmo de Sandra Bullock.

Ela entrou neste projeto para valer e fez sacrifícios físicos para aguentar o tranco das gravações. Mas quando ela entra na nave espacial e tira o traje de astronauta, percebemos que ela está muito bem, fisicamente. Com um corpão, alguns podem dizer. E está mesmo. Só achei dispensável ela “relaxar” e se mover ficando em posição fetal – certo que a referência é clara para o filme, este sim genial, 2001 – A Space Odyssey. Também não gostei da trilha sonora em boa parte do filme – porque, para o meu gosto, Price exagerou na dose, especialmente na reta final de Gravity.

O virtuosismo de Cuarón na direção fica mais evidente quando Stone tem que sair da cápsula Soyuz para desprender o paraquedas que lhe impedia de seguir viagem e se distanciar da estação espacial. Aquela sequência, como outras do filme, podem render ao diretor o seu primeiro Oscar. Palmas também, claro, para a edição de Cuarón e de Mark Sanger, que também pode ser premiada.

Mas na sequência surge outro fato que me decepcionou no roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Stone está vagando sem combustível com a Soyuz da estação chinesa quando consegue fazer contato com a base de comando na China. E daí, entre outros sons, ela ouve latidos de cachorro (WTF??) e um choro de criança. Ah, me desculpem, mas sério mesmo que eles querem fazer a gente acreditar que a “Nasa chinesa” teria um cachorro e um bebê? Ai, ai… Alguém pode argumentar que Stone poderia estar surtando, delirando. Não me pareceu. Depois sim, praticamente sem oxigênio, é compreensível que ela tivesse uma certa “visão”. Mas antes, com condições perfeitas para respirar, não me pareceu que aquilo fosse um delírio.

Bueno, a partir dali, evidentemente, o que acontece também era previsto. Afinal, algum de vocês, por algum momento, duvidou que Stone conseguiria sobreviver? Já imaginaram ela explodindo lá pelas tantas no filme? Não daria certo para uma produção made in Hollywood, não é mesmo? Então a surpresa do final não existe. Gravity passa mais de uma hora nos mostrando como aquela médica com nenhuma experiência no espaço plasmou o instinto de sobrevivência da nossa raça, fazendo tudo que era possível para pisar em terra firme novamente.

Assim, o que vemos é um filme bem acabado tecnicamente, com cenas incríveis de ação no espaço e algumas imagens belíssimas – mérito também do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Adicione-se ao cesto de pontos positivos a entrega da atriz Sandra Bullock. E isso é tudo. Gravity tem um roteiro fraco, com final previsível e um desenrolar da história um bocado previsível também.

Com o problema de ter alguns argumentos difíceis de acreditar – como a Nasa enviar alguém tão despreparado e que poderia colocar em risco a missão como a Stone para o espaço e aquela comunicação absurda com a base chinesa – e várias sequências que beiram a chatice (como a trilha que Kowalski insistia em colocar e as histórias que ele contava). Um filme perfeito para agradar quem está de olho nas inovações do cinema. Mas um bom filme tem que ter muito mais que técnica. Deve ter “coração”, ou um bom “espírito”. Em outras palavras, emocionar ou surpreender. E Gravity, mesmo na versão 3D, não consegue nos arrebatar. Fascina, claro, com a tecnologia. Mas nada além disso.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito já se falou sobre a entrega da atriz Sandra Bullock ao papel. De fato, ela passou por toda a experiência que um astronauta deve passar ao preparar-se para ir para o espaço. Com o adicional de que ela estava sendo filmada para estrelar uma produção milionária e que vai lhe render muitas indicações a prêmios. Para mim, é evidente que ela chegará como favorita ou forte candidata ao Globo de Ouro e ao Oscar do próximo ano. Mas é preciso ver o desempenho de outras concorrentes, incluindo veteranas como Meryl Streep, para saber se ela vai ganhar uma estatueta dourada pelo esforço com Stone.

Há muito tempo eu acompanha ao Oscar. Primeiro, ainda criança e adolescente, por pura curiosidade. Depois, já escrevendo sobre cinema no início da minha carreira como jornalista, passei a acompanhar a maior premiação de Hollywood também com uma expectativa profissional. Desde que comecei este blog, meu interesse por assistir aos favoritos antes da premiação ficou ainda maior. Minha intenção é compartilhar com vocês, caros leitores, minhas impressões sobre os favoritos. Dito isso, achei surpreendente este ano termos um dos favoritos para o Oscar 2014 e, para muitos, o possível grande vencedor da premiação tão cedo nos nossos cinemas.

Afinal, vocês devem lembrar que, normalmente, chega até nós os filmes com maior chance no Oscar no ano em que a premiação será entregue. Normalmente, as produções favoritas ao prêmio entram em cartaz em janeiro ou fevereiro. Desta vez, temos Gravity estreando na primeira quinzena de outubro – e, no mês anterior, o filme passou no Festival Internacional do Rio de Janeiro – e, logo mais, a estreia de outro forte candidato: Captain Phillips. Interessante. E outros devem estrear antes mesmo do início de 2014. Só que me preocupa o outro grande favorito do ano ao lado de Gravity, 12 Years a Slave, ainda não ter data prevista para o Brasil. Sem dúvida o filme do diretor Steve McQueen é o que eu mais estou ansiosa para ver.

Sempre gostei do Alfonso Cuarón, ainda que eu não tenha ele na minha lista de diretores preferidos. Ainda me lembro do primeiro filme que eu vi dele… Great Expectations, um filme bonzinho, lançado em 1998, com Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow e Robert De Niro. Com aquela produção já tinha ficado claro que ele é um destes diretores que sabe fazer cinema “autoral”, se necessário. Mas que sua praia é mesmo fazer filmes que conquistem grandes bilheterias – nem que para isso seja necessário fazer um cinema bem “industrial”. Diferente de outro diretor mexicano, Alejandro González Iñarritu – a quem eu prefiro, se tivesse que escolher um dos dois.

Autoral mesmo, Cuarón fez apenas Y Tu Mamá También. Os outros filmes foram forjados com a cara de Hollywood. Por isso mesmo é que eu vejo que ele tem muitas chances de ficar entre os cinco finalistas na categoria Melhor Diretor do Oscar 2014 e, talvez, até levar a estatueta. Se conseguir a indicação, esta será a primeira de sua carreira como diretor. Ele foi indicado, antes, a três Oscar’s: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição por Children of Men, em 2007, e Melhor Roteiro Original por Y Tu Mamá También. Não deixa de ser irônico que, justamente agora, seja o roteiro o ponto fraco de Gravity.

Os grandes protagonistas de Gravity 3D não aparecem em cena – são o diretor Cuarón e os efeitos especiais, visuais e o departamento de arte da produção. Este último, contou com 47 profissionais liderados por Heather Noble. Os efeitos especiais foram garantidos por 22 feras, e os efeitos visuais, por centenas – sim, centenas – de profissionais. Parei de contar no 300, para vocês terem uma ideia. Sem dúvida os efeitos visuais e especiais vão render duas estatuetas para este filme – falo de todas as minhas apostas sobre o Oscar logo abaixo.

Muitas vezes um diretor pode até não fazer um grande trabalho em um filme. Ou que é o mesmo que dizer que um filme pode ter uma direção apenas correta e ainda assim ser muito bom. Por isso mesmo, acho tão fundamental para que uma produção seja boa que ela tenha um roteiro ótimo. As estatuetas de Melhor Roteiro Original e Melhor Roteiro Adaptado sempre me interessam – muitas vezes até mais do que as dos intérpretes. E esta é a razão principal para que, desde já, eu não esteja torcendo por Gravity no próximo Oscar. Falta um roteiro melhor para o filme.

Ainda que George Clooney tenha uma participação interessante neste filme, Gravity é um título de uma única atriz: Sandra Bullock. A história gira em torno dela. Bullock, assim, tem todo o espaço para brilhar – junto com as imagens do filme, claro.

Fora os dois atores, vale citar Ed Harris como a voz do contato que os astronautas tem com o controle da Nasa.

Da parte técnica do filme, vale comentar o excelente trabalho de Andy Nicholson no design de produção e de Mark Scruton na direção de arte.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. De acordo com os realizadores, Sandra Bullock passou por um treinamento físico de seis meses antes do filme começar a ser rodado. Neste período, ela trabalhou cada trecho do roteiro com Cuarón. O diretor afirmou que o essencial do trabalho deles foi tratar do tema central de Gravity, “a possibilidade do renascimento após a adversidade”. Mas fez parte do trabalho também a discussão sobre cada cena, e a atriz fez anotações sobre as animações que seriam feitas no filme e o movimento dos robôs que garantiram a dinâmica das cenas. A respiração da personagem Stone foi um ponto central do trabalho do diretor e da atriz.

Lendo as notas da produção é que entendi o elogio de James Cameron… ele é o “melhor amigo” de Cuarón. Claro que os sentimentos dele em relação ao amigo influenciaram no julgamento. 🙂 Mas achei interessante a comparação que ele fez do trabalho de Bullock. Ele disse que a dedicação dela ao filme – incluindo aqueles seis meses de preparo – fazem lembrar o empenho dos bailarinos do Cirque du Soleil.

Nem tudo neste filme foi filmado, como Gravity pode dar a entender. Várias cenas de “caminhada no espaço” foram feitas totalmente por computação gráfica. Para dar mais “realismo” para estas cenas, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki teve que iluminar os rostos dos atores para cada cena conforme o cenário criado digitalmente fosse mudando.

A primeira pessoa a ser cotada para fazer a personagem de Stone foi Angelina Jolie. Mas a atriz desistiu do papel. Depois dela, fizeram teste para o papel ou foram cotadas para ele Rachel Weisz, Naomi Watts, Natalie Portman, Marion Cotillard, Abbie Cornish, Carey Mulligan, Sienna Miller, Scarlett Johansson, Blake Lively, Rebecca Hall e Olivia Wilde. Ufa! Lista grande, e acima do normal para um papel de protagonista. Se Bullock de fato ganhar o Oscar por esse trabalho, várias atrizes vão se perguntar se não deveriam ter pensado melhor no papel.

Este era um projeto para o estúdio Universal que, inicialmente, queria Angelina Jolie no papel principal. Mas a atriz foi descartada, porque tornaria a produção ainda mais cara, e Gravity foi para a gaveta. Daí que a Warner assumiu o projeto e, no final de 2010, Sandra Bullock e Robert Downey Jr. estavam confirmados nos papéis de Stone e Kowalski. Depois, o ator acabou saindo do projeto por causa do famoso “conflito de agenda”, mas Bullock seguiu.

Enquanto filmava uma cena subaquática que depois, em outra tomada, vai aparecer em Gravity, Cuarón prendeu a respiração junto com Sandra Bullock para ter certeza de que não estava exigindo muito da atriz. Mas ele logo descobriu que não poderia igualar o seu fôlego com o de Bullock.

Existe um boato, há muito tempo, de que a Nasa daria pílulas de suicídio para os astronautas no caso deles passarem pelos piores cenários – como aquele que é focado no filme Contact. Mas há décadas a Nasa negou este boato alegando que seria muito mais fácil e confortável para um astronauta reduzir o oxigênio, como é mostrado em Gravity.

Gravity foi totalmente rodado nos Shepperton Studios, na cidade homônima na Inglaterra. Apenas a cena na Terra foi rodada fora do estúdio, mais precisamente no Lake Powell, no estado do Arizona, nos Estados Unidos.

O filme de Cuarón estreou em agosto no Festival de Veneza. Depois, ele participou de outros oito festivais. Neste caminho, ganhou dois prêmios: Atriz do Ano para Sandra Bullock no Hollywood Film Festival e o Prêmio Futuro do Cinema Digital no Festival de Veneza.

Gravity custou a bagatela de US$ 105 milhões. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 6 de novembro, o filme havia arrecadado pouco mais de US$ 221,8 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, foram outros US$ 207,5 milhões. Como um filme de Hollywood precisa arrecadar o triplo, mais ou menos, para dar lucro – especialmente quando for um blockbuster -, podemos dizer que Gravity está se dando bem. Apenas na semana de estreia nos EUA o filme conseguiu US$ 55,78 milhões. Entre os filmes de “disastre”, ele é a quinta melhor bilheteria da história segundo o site Box Office Mojo – e o vigésimo entre os filmes 3D.

Algo que Gravity conseguiu, mais que lucro na bilheteria, foi cair no gosto do público e, principalmente, dos críticos. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para o filme – uma excelente avaliação segundo os padrões da página. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 9,1. Sim, meus caros, 9,1! Uma excelente média para o Rotten Tomatoes.

Ah sim, e se não deixei claro antes, deixo agora: se você tiver uma sala de 3D disponível, veja este filme em 3D. Sem dúvida é a melhor experiência.

Anatoly Slovyev foi um astronauta russo e coronel da força aérea soviética e russa que conseguiu dois recordes: o de caminhadas no espaço (16, no total) e o de horas passadas fora de naves em órbita (82 horas). Ele nasceu em 1948 e, aos 31 anos, completou o curso para ser um cosmonauta e foi selecionado para fazer missões com as naves Soyuz T e para passar longos períodos nas estações Salyut e Mir. Ele tinha 40 anos quando fez o primeiro voo espacial. Na segunda missão dele, em 1990, integrando a tripulação da Mir, Slovyev ficou 179 dias no espaço. Ele faria outros dois voos para fora da Terra, sendo que o último, quando tinha 49 anos, fez com que ele ficasse 197 dias em órbita.

Sobre as naves Soyuz, uma curiosidade: elas surgiram no programa homônimo soviético datado da época da corrida espacial pela conquista da Lua travada entre EUA e União Soviética. Esse tipo de nave, com capacidade para até três astronautas, foi precedida pelas naves Vostok (para um tripulante) e Voskhod (para dois). Com o fim da União Soviética, as naves Soyuz passaram a servir o programa espacial russo e nas operações com a Estação Espacial Internacional (ISS) em uma parceria com o ex-rival Estados Unidos.

Este é um filme 100% Estados Unidos. Por isso mesmo, ele passa para a lista de críticas daquele país que atendem a uma votação feita aqui no site.

CONCLUSÃO: O tema da incansável vontade do ser humano em sobreviver sempre rende. Muitos filmes já foram feitos a respeito. E este Gravity se junta a eles. Claro que o diretor Alfonso Cuarón e equipe conseguiram dar um passo a mais no cinema que foca a ação no espaço. As técnicas utilizadas neste filme garantem uma experiência nos cinemas 3D que apenas reforça a ideia de que esta nova fronteira da tecnologia veio para ficar. E que é um grande diferencial para encantar as audiências. Dito isso, sim, Gravity 3D é um filme potente tecnicamente. Mas não emociona ou surpreende como deveria para ser considerado o melhor um dos melhores filmes do ano. Para mim, faltou roteiro que me fizesse sair mais envolvida com a história. É um filme de ação no espaço, mas não é o melhor filme do ano – e, muito menos, como disseram alguns por aí, o melhor filme do gênero. Bom entretenimento. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: De fato, tudo indica que Gravity será indicado para um monte de categorias no maior prêmio do cinema global. Certamente ele merece chegar em toda e qualquer categoria técnica, como as de melhores fotografia, efeitos visuais, mixagem de som, edição de som, edição e design de produção. Se isso se confirmar, temos, por baixo, cinco indicações técnicas, que podem chegar a mais, se acrescentarmos trilha sonora, por exemplo.

Mas e sobre as categorias principais? Inicialmente, sem ver ainda aos outros concorrentes fortes de Hollywood, acho que Alfonso Cuarón pode ser indicado como Melhor Diretor e Sandra Bullock, pelo esforço que teve nesta produção, deve ser indicada a Melhor Atriz. Talvez George Clooney consiga uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. E como as últimas premiações comportaram até 10 indicados na categoria Melhor Filme, sem dúvida Gravity chegará lá.

Agora, ele merece ter, por baixo, oito indicações ao Oscar? Com certeza. É um filme que busca o aprimoramento e avanço técnico do cinema. E Hollywood adora isso. E a gente também, claro, porque é ótimo ver a indústria que faz peças de arte avançar. Ainda que, francamente, este filme tenha um apelo muito mais técnico que narrativo ou emocional. Também concordo com muitas indicações para ele porque, não necessariamente, muitas indicações vão significar muitas estatuetas.

Da minha parte, acho que ele merece alguns Oscar’s técnicos (como efeitos visuais, mixagem de som, edição de som e, talvez, edição, design de produção e fotografia, dependendo estes últimos do que outros filmes vão apresentar) e, talvez, Melhor Diretor. Porque Cuarón realmente fez um grande trabalho.

Melhor Atriz… só se outras possíveis concorrentes, como Meryl Streep, Judi Dench, Cate Blanchett, entre outras, não fizeram um trabalho melhor. Acho bacana como Bullock se esforçou, passou por sacrifícios físicos e tudo o mais, mas eu não daria um Oscar para ela por este trabalho. Para mim, lhe faltou profundidade na interpretação – culpa do roteiro e não da atriz, diga-se. Mas logo mais veremos o que vai sair deste mato. No momento, acredito em cerca de nove indicações para o Oscar e em cinco ou seis prêmios – a maioria deles técnicos. Ainda aguardo 12 Years a Slave, Captain Phillips, The Wolf of Wall Street, Inside Llewyn Davis e August: Osage County para conseguir formar a minha opinião melhor.