Mother! – Mãe!

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Um dos filmes mais “malucos” e controversos que eu assisti em um longo tempo. Na verdade, se eu fosse fazer uma lista com estes predicados, provavelmente Mother! estaria no Top 5 avaliando todas as produções que eu vi até hoje na vida. Darren Aronofsky, de quem eu gosto tanto, desta vez foi um pouco longe demais. Claro que o diretor dá um show na condução da trama mas, no final, nos perguntamos para que tanto esforço. Dele e de quem assiste a este filme. Sim, há um objetivo claro nesta produção. Aronofsky, mais uma vez, alcança o seu objetivo. Mas isso não significa, exatamente, uma grande experiência para quem se lança no cinema para assistir à sua mais nova “peça de arte”.

A HISTÓRIA: Uma pessoa está pegando fogo. Enquanto as chamas queimam, uma lágrima cai pelo seu rosto. Um homem (Javier Bardem) coloca uma grande pedra transparente – que se assemelha à uma pedra preciosa – sobre um pedestal. Logo após ele fazer isso, tudo que estava queimado e que foi destruído pelas chamas volta a se regenerar e a voltar ao ponto anterior ao da destruição. A casa volta ao normal, cada detalhe, inclusive a mulher que está sobre a cama (Jennifer Lawrence). Ela acorda e caminha pela casa procurando por algo. Logo chama por “amor”, e descobrimos que ela é casada com o homem que conseguiu regenerar tudo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mother): Eu gosto muito do diretor Darren Aronofsky, como eu comentei antes. Ele é um dos diretores que eu gosto de acompanhar. Destes raros que eu procuro assistir a todos os filmes que ele já fez. Algumas das produções criadas por ele estão entre as minha preferidas de todos os tempos – com destaque para Requiem for a Dream.

Depois de falar sobre este contexto pessoal, como fã de cinema e de Aronofsky, devo dizer que fiquei chocada com Mother!. Mais que nada, porque achei este filme como um dos piores – se não o pior – da filmografia do diretor. E digo isso por várias razões. Mother! é pretensioso, é cansativo, e por mais que ele faça sentido se pensarmos na história dele de trás para a frente, ele me pareceu mais “sem pé e nem cabeça” do que o desejado. Desta vez, como falei lá no início, parece que Aronofsky quis dar vasão para a sua criatividade de uma forma mais visceral e “maluca” e acabou passando um pouco do limite.

Sei bem, assim como vocês, que cinema – e qualquer outro consumo artístico e cultural – é uma questão muito pessoal. O entendimento sobre cada filme e cada obra depende muito da nossa ótica, nossas experiências, crenças, valores e um longo etc. Mas, como sempre – e isso é chover no molhado -, falo por aqui sobre os filmes sob a minha ótica. Respeito as diferenças, as outras visões além da minha, mas meu papel aqui é falar sobre o que eu vi tendo como base o meu arcabouço de conhecimento e a minha ótica.

Pois bem, afinal de contas, sobre o que fala Mother!? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início do filme e por um bom período dele, pensamos que esta produção trata de um casal que passa por uma certa crise e/ou que tem buscado coisas diferentes. Ainda que esta seja a aparência, alguns elementos – especialmente a direção muito bem feita de Aronofsky – nos fazem ter, permanentemente, uma certa sensação de estranheza e até de mal estar. Algo parece estar muito errado, apesar de toda a beleza que vemos na nossa frente – não apenas da protagonista, mas da casa e do cenário em que ela se move.

Então, evidentemente, aqui – e na vida mesmo -, as aparências enganam. Sim, sabemos que há algo de “muito podre no Reino da Inglaterra”. E aí passamos por um longo período de certa estranheza e angústia e, perto do fim, por uma viagem louca e frenética de cenas diversas de destruição e violência para, no fim das contas, entender o que? No final, finalmente, chegamos ao cerne da questão. Entendemos a razão deste filme existir. Ou seja, como eu disse antes, o estranhíssimo e um tanto pretensioso novo filme de Aronofsky tem sim um significado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, bem no final, entendemos que a protagonista é a “musa inspiradora”, literalmente as lembranças de casa/das origens do poeta – e, claro, entendemos quem é aquele sujeito que está no comando de tudo o tempo todo. Assim, a personagem de Jennifer Lawrence, que nos créditos do filme recebe o nome de “Mother” – mas que durante o desenrolar da história é chamada de “meu amor”, “musa”, entre outros nomes – é, no fim das contas, as memórias que o protagonista tem da sua própria casa, do seu lar, de um lugar que não existe mais mas que o inspira para escrever a sua obra.

Em outras palavras, a personagem de Jennifer Lawrence é a “musa inspiradora” do poeta. Por isso mesmo que ela, após uma noite de paixão com o protagonista, consegue engravidar e, depois, dá a luz à “obra-prima” do protagonista. O personagem central de tudo isso, contudo, é o escritor/poeta interpretado por Javier Bardem. Ainda que a câmera de Aronofsky esteja permanentemente “colada” em Lawrence, acompanhando cada passo dela, toda aquela realidade e tudo que acontece com o “casal” só existe porque o personagem de Bardem existe.

No final das contas, parece que Aronofsky também brinca de ter em Lawrence a sua musa inspiradora. Afinal, é nela que a câmera dele está sempre focada ou próxima. Ela dita os movimentos do diretor. É como se ele não pudesse nunca perder de vista a sua inspiração – diferente do protagonista, que se encanta com vários outros elementos além da sua noção de “lar”. Encantado com o sucesso, muitas vezes ele se esquece da sua fonte de inspiração e dá as costas para ela.

Por sua parte, como a câmera está sempre acompanhando Lawrence, percebemos sob a ótica da inspiração os efeitos do desamor, do abandono e do esquecimento. Aquele sensação de estranheza e de certa angústia é provocada justamente pela falta de sintonia entre o que a inspiração do poeta deseja – apenas ele – e o que o próprio escritor lhe apresenta como resposta para os seus apelos.

Ou seja, para resumir, ao contrário do que pode parecer no início, este filme é uma grande reflexão sobre como as lembranças de um lar, as recordações da origem (e do amor) servem de inspiração fundamental para um artista/poeta e para a sua obra. E como este escritor/poeta/artista pode ser cruel, infiel ou inconstante em relação à sua fonte de inspiração quando começa a fazer sucesso e/ou volta a ser endeusado.

Mother!, no fim das contas, é uma viagem pessoal de Aronofsky sobre a fonte de inspiração de todo artista e de como esta fonte pode incomodar ou ser violentada/atacada de formas muito diversas em regimes totalitários, durante guerras, perseguições e uma bela variedade de conflitos. A inspiração e a arte estão sendo atacadas e sempre foram atacadas em diferentes lugares durante muitos períodos da História. E Aronofsky parece ter resolvido falar disso de uma forma bastante inusitada. Com Mother! o próprio diretor resolve fazer um trabalho mais “artístico”, mas será mesmo que ele conseguiu fazer esta entrega de forma perfeita?

Vou dividir esta resposta em duas partes. Em relação à direção, sem dúvidas Aronofsky faz mais uma entrega exemplar. Ele tem uma dinâmica interessante de câmera, cuidando de valorizar sempre a personagem de Jennifer Lawrence. Toda a narrativa está sob a ótica dela. Afinal, ela é a protagonista, a peça-chave de toda a produção. Ela inspira o artista, o poeta, e sem ela nada existiria. A musa inspiradora do protagonista e deste filme fica realmente no centro do “tablado” o tempo inteiro, e o esforço da direção de Aronofsky não é apenas de seguirmos de perto o que ela faz, mas também de sentir o mesmo que ela – incluindo bastante estranheza, confusão e mal estar.

Neste sentido, tanto a direção quanto boa parte do roteiro de Aronofsky fazem sentido e são coerentes – especialmente se pensamos no filme do final para o início. Porque, desta forma, tudo faz um pouco mais de sentido. Mas e o roteiro? Aronofsky também acerta no roteiro? É nesta parte fundamental de qualquer filme – para mim, sempre a parte central de uma produção – que o diretor/roteirista derrapa. É justamente em várias escolhas do roteiro que ele sugere ter uma obra pretensiosa demais. Vejamos.

Se a intenção do diretor era mostrar o quanto uma “musa inspiradora” é fundamental para um artista e o quanto ele pode se deixar levar pela fama, pelos fãs, pelo “circo” todo que envolve uma obra aclamada e, ao fazer isso, esquecer a sua musa e maltratá-la com esta indiferença, era preciso mesmo tanto ir-e-vir de personagens estranhos na história? O fã que chega sozinho e depois é seguido pela mulher e pelos filhos… eles realmente precisavam ocupar tanto tempo da história?

E, depois, quando o diretor vai inserindo outras pessoas em cena que “invadem” o espaço da “musa inspiradora” e que tornam a angústia dela cada vez maior, até que somos arrebatados por uma sequência maluca de diversos episódios da História em que a arte/a musa inspiradora foram atacadas, nos perguntamos: toda aquela “verborragia” cênica era realmente necessária? Ou foi apenas uma forma do diretor mostrar a sua capacidade? Da minha parte, tudo isso me pareceu o esforço de um artista de mostrar que ele sabe pintar com cores fortes e de forma “mais livre”. Mas isso nem sempre resulta em uma obra de arte como ele gostaria.

Sim, Aronofsky é um grande diretor. Ele sabe conduzir bem uma trama e os atores envolvidos neste projeto fazem um belo trabalho. Mas no final das contas Mother! se apresenta um filme longo demais, um bocado repetitivo e arrastado. E tudo para nos contar uma história sobre um artista e a sua musa inspiradora, e sobre como o mundo e os seus exageros corrompem esta relação que poderia ser perfeita. Enfim, lembrando uma obra de William Shakespeare, achei este filme “muito barulho por nada”. Ou quase isso.

Quando sai do cinema, fiquei um bom tempo pensando sobre a nota que eu daria para esta produção. Admito que, por gostar tanto de Aronofsky, eu comecei dando uma nota mais alta do que esta que vocês podem conferir abaixo. Se compararmos este filme com outros muito medianos que eu comentei aqui no blog e que, por alguma razão ou outra, acabaram recebendo um 8 ou um 8,5, provavelmente concordaríamos que estes outros filmes medianos são “menores” do que Mother!. Mas a nota abaixo foi dada apenas na perspectiva deste filme, sem tentar compará-lo muito com outros.

Pensei, na verdade, mais na obra de Aronofsky e no que eu acho que ele poderia ter apresentado em uma nova produção. E tendo isto como critério, mais do que o que eu tenho visto de outros diretores, é que eu resolvi dar uma nota mais baixo. Admito, sim, que eu esperava mais de Aronofsky. Até pelo que ele já nos apresentou. E se você começou a ver este diretor com Mother!, saiba que ele é muito melhor. Da minha parte, gosto muito de Requiem for a Dream, Pi e Black Swan (comentado aqui). Procure assisti-los, caso ainda não o tenha feito.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti este filme no cinema. E achei interessante a reação das pessoas. Algumas desistiram do filme antes mesmo dele acabar. Notei isso, primeiro, com algumas pessoas abaixo de mim na sala acessando o tempo todo o smartphone, pouco interessadas naquela trama “circular” e repetitiva que estava passando na telona. Depois, algumas pessoas simplesmente saíram do cinema antes do final da trama. Respeito todas as opiniões, sempre, mas isso é algo que eu me recuso a fazer. Não importa o quanto o filme seja ruim ou me desagrade. Eu fico até o final.

Outras reações foram interessantes quando eu sai da sala de cinema. Na minha sessão haviam muitos jovens. Possivelmente pessoas que conheceram Aronofsky com o seu maravilhoso Black Swan, lançado em 2010. Estas pessoas saíram insatisfeitas do cinema. Algumas não entenderam a “moral da história”, o que o filme quis dizer. Outras – e dou razão para estas pessoas -, reclamaram do filme ser classificado como “horror” e “mistério”. Realmente, nada a ver ele estar na categoria “horror”. No fundo, Mother! é um drama sobre um artista e a sua busca incansável pela “fonte” de sua inspiração – a sua própria noção/lembrança de lar. Então, meus caros, é essencialmente um drama. Entendo a frustração de parte do público.

Ao fazer Mother!, Darren Aronofsky saiu muito da curva de tudo que um fã dele poderia esperar do diretor. Sim, ele é um sujeito criativo. Grande diretor, que domina muito bem os recursos e as técnicas do cinema. Mas com este filme ele caminhou em uma direção “artística” (entre aspas mesmo) muito diferente do que tínhamos assistido até então. Para mim, Mother! se assemelha muito a The Tree of Life (com crítica neste link), de Terrence Malick. Os dois filmes são controversos e dividem opiniões. São, ambos, do estilo “ame ou odeie”. E os dois sofrem do mesmo mal: tentam ser melhores do que realmente são.

Mas, admito, ainda que Mother! se assemelhe a The Tree of Life, eu ainda prefiro o primeiro. E isso tem tudo a ver com a minha admiração muito maior para Aronofsky do que para com Malick. Agora, como fã do diretor, o que eu espero é que ele nos apresente algo melhor na próxima vez.

Durante grande parte do filme, Mother! tem um grupo pequeno de atores em cena. Depois, o diretor descamba para uma “enxurrada” de pessoas que aparecem em cena como uma “invasão bárbara”. Muitos nomes, assim, aparecem quase como figurantes. De todos os atores envolvidos no projeto, sem dúvida o destaque principal vai para Jennifer Lawrence, que está linda e que faz um grande trabalho, repassando todo o desconforto e a paixão que a sua personagem pede. Em seguida, vale destacar o bom trabalho – ainda que não excepcional – de Javier Bardem como o escritor/poeta que tem uma relação profunda de amor com a sua musa inspiradora – mas que não cuida dela como deveria.

Além dos protagonistas, vale citar o bom trabalho de Ed Harris como o fã do poeta que procura o seu ídolo antes de morrer; Michelle Pfeiffer como a mulher dele; Brian Gleeson como o filho mais novo do casal e Domhnall Gleeson como o filho mais velho.

Lá pelas tantas Mother! descamba para uma violência considerável. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta acaba sendo a parte mais “louca” e criativa da produção – e que contrasta tanto com aquele “bucolismo” um tanto irreal anterior e que preenche boa parte do filme. Não é fácil ver a “musa” do poeta sendo agredida ferozmente. Também chega a dar um bocado de arrepios o fim que o “filho” do casal acaba tendo – mas devemos lembrar, nesta parte, que a criança era a nova obra do poeta, gerada pela união dele com a sua “musa inspiradora”. Ou seja, não era uma criança de verdade, e sim uma obra que acabou sendo vilipendiada e “devorada” pelos fãs do artista. Nesta parte, Aronofsky quer nos dizer que todos somos canibais quando se trata de uma obra. Queremos devorá-la e acabar com ela para satisfazer a nossa fome “por algo belo”. O diretor/roteirista está fazendo uma crítica mordaz sobre o consumo cultural e sobre o público que quer ter as suas vontades sempre satisfeitas, não importa como.

Comentei rapidamente, durante a semana, logo após assistir ao filme, que este não era o melhor trabalho de Aronofsky. Algumas pessoas se manifestaram com comentários lá. Agradeço à participação de Thales Salgado, Andressa Barroso Vieira e Enzo Santos. 😉 Por lá, o Thales perguntou o que eu tinha entendido sobre aquele líquido que a personagem de Jennifer Lawrence tomava de tempos em tempos. Respeito outras opiniões e formas de entender aquele trecho do filme, mas vou dizer aqui o que eu achei, beleza?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos olhar a questão de forma um pouco mais ampla. Quando tudo é destruído e volta a se regenerar, a “musa inspiradora” acorda e busca o seu amor, o poeta, correto? Neste começo, e por uma parte do tempo – até as “invasões bárbaras” começarem a acontecer -, a “musa” está sempre buscando o amor do poeta e vive uma certa “tranquilidade” em uma reforma do “lar” que parece ser sem fim. Neste começo pacífico, a musa literalmente sente o lar como um organismo vivo. Mas, conforme a história vai avançando e o poeta vai se distanciando da sua musa, a personagem de Lawrence vai se sentindo cada vez mais e sente que o “organismo vivo” do lar está se deteriorando, como que passando por um tipo de câncer – ou, se olharmos por outra ótica, voltando para o estágio de destruição/carvão após o fogo. A deterioração do sentido de lar – que, no fim das contas, é o que representa a musa do poeta – vai ocorrendo aos poucos e vai se manifestando de diferentes formas.

Cada ameaça para a tranquilidade e a idealização da relação entre a musa e o poeta parece provocar dor e início de perda de sentido para a musa. Sim, ela está sendo ameaçada. Os elementos externos simbolizados pelos fãs do poeta – mas que significam também dinheiro, fama, holofotes e, depois, guerra, perseguição, ditaduras, conflitos variados – representam perigo para a musa. Inicialmente este risco era enfrentado por ela com o tal líquido dourado. O que ele representa? Para mim, qualquer dose de algo que possa tranquilizar a inspiração de um artista. Aquele líquido serve como um “elixir” de inspiração. Alguns se inspiram e/ou se conectam com a sua fonte de inspiração bebendo, enquanto outros conseguem isso com drogas ou outras formas de “religar-se” com o que lhe inspira – no caso do protagonista, com a ideia de “lar” original. Então eu não acho que exista apenas uma resposta para a pergunta. Mas acho que o líquido representava uma forma da inspiração manter-se sólida apesar das ameaças externas.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para a direção de Aronfosky. Ele faz um belo trabalho, especialmente ao decidir sempre ter a câmera perto da protagonista Jennifer Lawrence. Claramente também ele opta por uma direção “fluída”, que faz com que o nosso olhar esteja sempre deslizando pelo espaço daquela casa que é tão protagonista quanto a musa e o poeta. Além disso, o diretor sabe valorizar bem o trabalho dos atores em cena.

Para que o filme tenha a entrega competente que ele tem – pena que o roteiro seja o ponto falho -, foi necessário o bom trabalho de outras pessoas. Destaco, neste sentido, o trabalho de Matthew Libatique na direção de fotografia; de Andrew Weisblum, com um trabalho excepcional na edição; de Philip Messina no design de produção; de Isabelle Guay e de Deborah Jensen na direção de arte; de Danny Glicker nos figurinos; de Larry Dias e Martine Kazemirchuk na decoração de set; assim como o ótimo trabalho dos 14 profissionais envolvidos com a maquiagem; dos 17 profissionais que fazem um trabalho excepcional com um elemento fundamental para a história, que é o som; e o impressionante número de 173 profissionais envolvidos nos efeitos visuais desta produção – que, ok, é um elemento importante no filme, mas que convenhamos… não o torna melhor. Para verem como o roteiro realmente é uma parte fundamental. Mother! é bem acabado, tecnicamente falando, mas não é brilhante ou inesquecível.

Estava pensando agora… alguns podem ter pensado sobre a razão do título deste filme ser “Mother!”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mim, este título faz referência à “mãe” de todas as artes: a inspiração que move o artista. Seja ele poeta, escritor, artista plástico, músico ou cineasta. E a “mãe” de toda a arte, segundo Aronofsky, seria a lembrança de lar que o artista tem. E isso é fato. Várias e várias obras singulares na História da humanidade, se pararmos para pensar, tem a ver com as lembranças que o artista tem e/ou a noção que ele próprio apresenta de lar, daquilo que ele entende como as suas origens e o seu amor mais duradouro.

Mother! estreou no dia 5 de setembro no Festival de Cinema de Veneza. Até outubro, ele terá participado de outros sete festivais. Como estamos partindo já para o final de 2017, impossível não pensar se este filme chegará com fôlego no próximo Oscar. Da minha parte, acho que não. Mas veremos se estou certa ou errada logo mais. 😉

Esta produção teria custado cerca de US$ 33 milhões. Grande parte do recurso gasto, imagino, nos cachês dos protagonistas/elenco e com os efeitos especiais. De acordo com o site Box Office Mojo, Mother! fez cerca de US$ 15,3 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 13 milhões nos outros países em que ele já estreou. Ou seja, até o momento, teria feito cerca de US$ 28,3 milhões. Verdade que esta produção tem uma história recente. Ainda assim, me parece, vai fechar no vermelho. E, francamente, isso não me surpreende.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com as notas de produção de Mother!, este filme tem como as suas inspirações evidentes filmes como Rosemary’s Baby, dirigido por Roman Polanski e lançado em 1968, e Collective Unconscious, dirigido por Dylon Matthews e lançado em 2004. Me chamou a atenção a nota alta deste segundo filme, com nota 9,9 no IMDb.

A atriz Jennifer Lawrence e o diretor Darren Aronofsky começaram a namorar durante as filmes de Mother!. Realmente ele parece ter achado a sua musa inspiradora. 😉 Espero que ela lhe inspire a apresentar algo melhor da próxima vez.

Para explicar um pouco a “confusão” artística de Mother!, acho interessante citar parte de algumas declarações de Aronofsky sobre o filme. Ele começa comentando que acha incrível como muitas pessoas ainda neguem a destruição do planeta que a humanidade está causando com a sua “pegada” no mundo. E que foi a angústia e o “desamparo” provocado por esta reflexão que fizeram, um certo dia, o diretor acordar de manhã com a ideia de Mother! surgida como um “sonho febril”. Enquanto os filmes anteriores do diretor surgiram após o trabalho dele no roteiro desenvolvido durante alguns anos, a primeira versão de Mother! surgiu em apenas cinco dias – isso explica o porquê deste ser o seu pior roteiro, acredito.

Um ano depois do diretor ter escrito a primeira versão do roteiro de Mother! ele já estava filmando a produção. E, dois anos depois, tinha ela pronta para apresentar para o público. Da minha parte, sempre fui da opinião que o quanto mais você trabalha e se dedica para uma história, melhor ela sai. Mother!, para mim, é o sonho filosófico de um diretor que quer denunciar algo e que apresenta isso de forma visceral. Nem sempre isso quer dizer bom.

De acordo com Aronofsky, Mother! começa como uma história sobre um casamento. No centro desta história está uma mulher que é estimulada a dar, dar, dar até não poder dar mais nada. Eventualmente, comentou o diretor, a câmera que foca esta história não consegue conter a pressão que está “fervendo” dentro desta visão. E daí a história se torna, segundo o próprio Aronofsky, “outra coisa que é difícil explicar ou descrever”. Percebemos. hehehehehe. Aronofsky também diz que não sabe identificar, exatamente, de onde tudo que ele nos apresenta neste filme veio.

Parte teve origem nas “manchetes dos jornais” de cada dia (com as suas notícias ruins), parte veio do “zumbido interminável de notificações dos nossos smartphones”, outra parte veio do apagão provocado pelo furação Sandy no Centro de Manhattan, e outras partes vieram do “coração e do instinto” do diretor. Aronofsky diz que o resultado de tudo isso é algo que ele nunca será capaz de reproduzir novamente, e que tudo acabou sendo “servido” como um bêbado que toma a sua melhor dose em um único “shot” de bebida. E que esta bebida bate no bêbado de volta. Bem, talvez essa seja a explicação, afinal, daquele líquido que a “musa” do filme toma. 😉

A atriz Jennifer Lawrence mergulhou tanto em sua personagem que, na cena do clímax da produção, a atriz começou a hiperventilar e até quebrou uma costela – certamente naquela sequência maluca de agressões que ela passa.

Mother! recebeu uma classificação “F” do CinemaScore. Este é o pior resultado que um filme pode obter. Por isso mesmo, é uma classificação rara. Apenas 19 filmes receberam, antes, a classificação “F”.

Esta produção recebeu tanto vaias quanto aplausos na sua estreia no Festival de Cinema de Veneza. Eu entendo. Como eu disse antes, é um filme controverso. Bem ao estilo “ame” ou “odeie”. Da minha parte, não achei ele tãooooo ruim assim. Mas também não achei ele ótimo. Acho que fico mais sobre o muro – e sim, ele seria melhor com meia hora a menos.

O ponto de exclamação no título do filme, segundo Aronofsky, faz alusão aos últimos 30 minutos “efusivos” da produção.

Esta produção obteve apenas US$ 7,5 milhões de resultado nas bilheterias em seu final de semana de estreia nos Estados Unidos. Este resultado torna Mother! como o pior resultado nas bilheterias para um filme estrelado por Jennifer Lawrence.

Antes de Mother! começar a ser filmado, o elenco ensaiou a produção durante três meses em um armazém para que o diretor pudesse testar os movimentos de câmera e aprender com eles para que, quando as filmagens começassem para valer, tudo estivesse fluindo como ele desejava. Deu certo. O filme realmente tem uma direção incrível.

Hummm… e agora alguns comentários do diretor que desmontam totalmente o que eu tinha entendido do filme. hahahahahaha. Mas faz parte, né? Filmes “artísticos” tem muito isso. Cada um entende de uma forma e todos estão certos sobre as suas compreensões. Mas, vejam bem… Aronofsky acabou falando sobre as intenções dele com esta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o diretor, o título Mother! realmente faz alusão à Mãe Natureza. Jennifer Lawrence interpretaria essa Mãe Natureza, e os demais personagens todos fariam alusão à personagens bíblicos. Por exemplo, Javier Bardem está apenas identificado como Ele e, por isso, ele seria Deus. Ed Harris seria Adão, e Michelle Pfeiffer seria Eva. Os filhos do casal seriam Caim e Abel.

Hummmm… Posso falar e ser franca? Agora sim eu acho que ele pirou. Com todo o respeito. hahahahahaha. Sob esta ótica, a Mãe Natureza só quer saber de Deus, e Este acaba ignorando ela e deixando ela sozinha muitas vezes porque está mais fascinado com a Humanidade e a adulação que as pessoas fazem Dele? Olha, ainda prefiro a minha interpretação do filme. Me parece menos absurda. 😉 E fiquei pensando… sob esta ótica “bíblica” do diretor, quem seria o bebê devorado pelo coletivo? O nosso futuro? Ok, até faz sentido, mas acho ainda mais loucura do que a visão “artística” que eu citei acima.

Até porque, sob esta ótica “bíblica” do diretor, o Deus apresentado por ele seria egoísta, suscetível a ter o ego inflado pela Humanidade e pouco amoroso com grande parte da sua criação, representada pela Mãe Natureza, não? Beleza. Entendo que o diretor esteja bravo e que vá “contra Deus”, mas esta visão é totalmente contra a visão dos cristãos, correto? Enfim, achei, sob esta ótica, a obra ainda mais desnecessária. Mas respeito o diretor. Só acho que ele perdeu uma boa oportunidade de não entrar na seara da fé e de apresentar algo melhor…

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para esta produção. Achei ela muito boa, levando em conta o padrão do site. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,7.

Para quem, como eu, gosta de saber onde os filmes foram rodados, Mother! foi totalmente filmado na cidade de Montreal, no Canadá. Ainda assim, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos – e, por causa disso, ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

Honestamente? O filme merecia até menos que um 7. Mas como eu gosto do diretor… não consegui abaixar a nota menos que isso. Espero que me perdoem. 😉

CONCLUSÃO: Este é o filme mais ousado, experimental e artístico do interessante diretor Darren Aronofsky. Mas nem por isso, ou por causa de tudo isso, este não é o seu melhor filme. Está bem longe disso, na verdade. Desta vez Aronofsky abriu todas as comportas da sua imaginação para nos apresentar um filme que é um grande libelo sobre a criação artística. Ok, a obra é interessante se entendida do final para o começo. Mas e tudo que passamos até chegar ao momento da “eureca”? Achei esta produção longa demais e com tintas um tanto forçadas para apresentar o conceito que ela apresenta. Não apenas este não é o melhor filme do diretor como ela também não é tão “obra de arte” quanto o diretor gostaria. Deixa o público perplexo, mas não imprimi realmente uma marca na lembrança do cinéfilo. Será esquecido com uma certa facilidade. Uma pena.

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Gravity 3D – Gravidade 3D

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A corrida para o Oscar do próximo ano está aquecida desde já. Mas alguns filmes que podem surpreender ainda não estrearam nos Estados Unidos, o que pode alterar as bolsas de apostas feitas até agora porque estes títulos podem surpreender aos críticos e votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ainda assim, ouvi falar tanto de Gravity que eu me vi obrigada a ver ao filme agora, enquanto ele ainda está nos cinemas.

Honestamente, eu gosto do Alfonso Cuarón. Mas esta nova produção dele não tinha me atraído tanto assim para que eu fosse nos primeiros dias a algum cinema. Só que com tanto burburinho sobre a produção e com os especialistas afirmando que ele tem grandes chances de ganhar um monte de estatuetas douradas em 2014, me vi obrigada a ir atrás.

A HISTÓRIA: Se passa a 600 quilômetros acima da superfície da Terra, onde não há oxigênio, não há água e nem atmosfera por onde o som possa se propagar. Logo aparece o nosso planeta, naquela imagem clássica, todo azul, mas agora em alta definição e profundidade. Logo ouvimos o comando da Nasa pedindo para a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) confirmar se ela está bem. Ela, que é a figura mais distante entre os três astronautas que aparecem na telona, afirma que sim, que apenas está um pouco enjoada. Mas segue trabalhando para instalar um novo sistema de comunicação no telescópio Hubble.

Algo está errado com os componentes, e para passar o tempo, o astronauta Matt Kowalski (George Clooney) segue “caminhando” no espaço para tentar bater o recorde do russo Anatoly Slovyev enquanto conta histórias. Mas não demora muito para que os destroços de um satélite russo destruído por um míssil acertem outros satélites e criem uma verdadeira onda de destruição, fazendo os astronautas que estão na operação do Hubble correrem para tentar se salvar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Gravity 3D): Não é por acaso que eu defendo sempre a ignorância em relação aos filmes. Ou, dizendo em outras palavras, que quanto menos você souber sobre uma história, melhor. Falei algumas vezes por aqui, em outros textos, de como as expectativas são ruins para qualquer experiência. Ainda que a gente se esforce para “ser neutro/a” na hora de ver uma produção, quando ouvimos falar bastante dela, é quase impossível não se contaminar com a expectativa de ver algo bom.

Sobre este filme, especificamente, tentei ouvir pouco antes de assisti-lo. Como costumo fazer com todos os demais. Mas foi impossível. Pesquisando em sites gringos sobre as apostas para o próximo Oscar, vi Gravity bem cotado em praticamente todas as categorias. Isso, por si só, alimenta bastante a expectativa. Além disso, não lembro o porquê, mas li em algum lugar que o diretor James Cameron disse que Gravity é o melhor filme sobre o espaço da história. Daí impossível ir até o cinema e não esperar por um grande filme, não é mesmo?

Foi desta maneira que, logo de cara, achei forçado o humor do roteiro escrito pelo diretor Alfonso Cuarón e pelo filho dele, Jonás Cuarón. A dupla teria, ainda, tido a colaboração do ator George Clooney no texto – uma ajuda não creditada, segundo o site IMDb. Entendo que a intenção dos roteiristas foi “desmistificar” um pouco a figura “sisuda” do astronauta. Assim, vemos ao especialista Shariff (com voz de Phaldut Sharma) fazendo uma “dancinha” no espaço depois de saber que tiraria férias no retorno para a Terra, e ouvimos várias histórias sem graça de Kowalski.

Ainda que eu entenda a intenção dos roteiristas, não acho que a técnica tenha funcionado. As falas de Kowalski, exceto aquelas em que ele tenta saber um pouco mais de Stone quando eles estão sozinhos tentando sobreviver, parecem forçadas. As histórias de Kowalski, contadas para quem quisesse ouvir na Nasa e para uma especialista com quem ele não tinha contato algum até então, que era Stone, me fizeram lembrar aquelas pessoas que você mal conhece e que começam a contar todos os detalhes estranhos e/ou sórdidos de suas vidas quando bebem demais.

Pois bem, fora esse início forçado do roteiro, com confissões estranhas de Kowalski, como os “maus pressentimentos” dele com a missão porque ela fazia ele lembrar de quando foi deixada pela mulher em outra ocasião em que estava no espaço, achei que Cuarón fez uma boa escolha em abrir mão da tradicional edição de cortes de cena para fazer um longo plano de aproximação dos personagens no espaço.

Então partimos de um quadro mais amplo, em que vemos a Terra ao longe e o telescópio Hubble com os astronautas, até que chegamos perto da protagonista, Stone. Este jogo de cena é feito como se estivéssemos flutuando no espaço, acompanhando a dinâmica da cena. Uma proposta interessante e que vai ditar o ritmo de grande parte da produção.

Também achei acertada a escolha para que a ação não demorasse muito para acontecer. Verdade que o filme dá bastante espaço para o silêncio, e para sequências de busca dos astronautas sem muita ação. Gravity é uma história de ação no espaço ao mesmo tempo em que escolhe ser um drama, com todas as suas pausas e momentos em que se espera que a audiência “sinta” o que os atores estão passando.

Pena que o roteiro não deixe praticamente espaço algum para surpresas. E isso é ruim em um filme de ação – também em um drama, claro, mas em um filme de ação a surpresa é ainda mais vital. Assim, quando ouvimos a Nasa falar que os astronautas não precisam se preocupar com a explosão do satélite russo, não é preciso ter grande imaginação para saber que justamente aí estará o grande problema da trama. E o risco para os personagens.

Assim, não é nenhuma surpresa quando a Nasa explica que o trio em órbita deve fazer a reentrada no telescópio e, na sequência, uma evacuação de emergência. Mesmo a virada da narrativa sendo esperada, é preciso admitir que Gravity ganha força e mostra quase todas as suas armas com a chegada dos escombros até aquele cenário “tranquilo”.

Interessante a escolha de Cuarón em acompanhar Stone o tempo inteiro. A estrutura em que ela está se desprende e a médica é lançada longe. Por bastante tempo, o espectador fica “perdido no espaço” junto com a especialista que se preparou pouco para a viagem espacial – o que, cá entre nós, é bem difícil de acreditar.

Pelo menos no mundo real uma pessoa, não importa da especialidade que ela fosse, dificilmente iria para uma missão como aquela tão despreparada. (SPOILER – não leia se você ainda não viu o filme). Mas voltando ao filme… funciona bem o recurso de colocar um “tique-taque” na história. E esse contador de tempo, claro, é o oxigênio baixo de Stone. As rodopiadas dela no espaço, a solidão inerente e o desespero da falta de controle são reforçadas com a trilha sonora de Steven Price.

Kowalski acaba encontrando Stone. Agora, ele não deve se preocupar apenas com a nova onda de destroços que deve chegar até eles, mas também com o tempo limitado que a dupla tem até chegar a uma alternativa que dê oxigênio para a médica e possibilidade de fuga para a Terra para os dois. Agora, fora estas escolhas acertadas do diretor e os ótimos recursos técnicos que ele utiliza, pouco sobra de interessante no filme.

Há algumas sequências realmente estranhas e/ou dispensáveis. Por exemplo, para que afinal eles se esforçaram tanto para buscar o corpo de Shariff? Claro que alguém vai argumentar que a ideia era levá-lo para os familiares na Terra… mas tanto que esta ideia é absurda que quando eles se aproximam da nave Explorer, eles soltam Shariff que vai, desculpem a expressão, para o espaço. 🙂 Também achei muito fake a cena em que Stone olha para o rosto destruído de Shariff.

Como nem todas as escolhas deste filme são estranhas, gostei de duas cenas que valem menção. Primeiro, a bela sacada de Kowalski parar de contar as próprias histórias para tentar saber um pouco mais de Stone e, assim, acalmá-la – afinal, ela praticamente não tem mais oxigênio quando eles decidem ir da Explorer para a estação espacial. Quando ela diz que a filha dela de quatro anos morreu e que, fora trabalhar em um hospital, Stone ficava vagando sem rumo de carro, ele olha para ela, que está presa a ele por um cabo, através de um espelho. Bela, bela imagem. Aliás, as cenas da Terra vistas no espaço e do nascer e do pôr-do-sol são lindíssimas.

Outras sequências que achei muito boas foram as que mostram a destruição no interior da estação espacial. Daí que o 3D faz realmente diferença – especialmente nos momentos em que vemos chamas e água flutuando. Não chegar a ser uma surpresa completa, ainda que seja impactante, a cena em que Kowalski afirma para Stone que a única chance dela é ele se desprender. Sem combustível para seguir dando rumo para o próprio “voo”, Kowalski sabe que não terá resgate. De fato Clooney faz um bom trabalho, ainda que ele seja um pouco irritante. Mas a maior entrega, e que deve render vários prêmios pela frente, é mesmo de Sandra Bullock.

Ela entrou neste projeto para valer e fez sacrifícios físicos para aguentar o tranco das gravações. Mas quando ela entra na nave espacial e tira o traje de astronauta, percebemos que ela está muito bem, fisicamente. Com um corpão, alguns podem dizer. E está mesmo. Só achei dispensável ela “relaxar” e se mover ficando em posição fetal – certo que a referência é clara para o filme, este sim genial, 2001 – A Space Odyssey. Também não gostei da trilha sonora em boa parte do filme – porque, para o meu gosto, Price exagerou na dose, especialmente na reta final de Gravity.

O virtuosismo de Cuarón na direção fica mais evidente quando Stone tem que sair da cápsula Soyuz para desprender o paraquedas que lhe impedia de seguir viagem e se distanciar da estação espacial. Aquela sequência, como outras do filme, podem render ao diretor o seu primeiro Oscar. Palmas também, claro, para a edição de Cuarón e de Mark Sanger, que também pode ser premiada.

Mas na sequência surge outro fato que me decepcionou no roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Stone está vagando sem combustível com a Soyuz da estação chinesa quando consegue fazer contato com a base de comando na China. E daí, entre outros sons, ela ouve latidos de cachorro (WTF??) e um choro de criança. Ah, me desculpem, mas sério mesmo que eles querem fazer a gente acreditar que a “Nasa chinesa” teria um cachorro e um bebê? Ai, ai… Alguém pode argumentar que Stone poderia estar surtando, delirando. Não me pareceu. Depois sim, praticamente sem oxigênio, é compreensível que ela tivesse uma certa “visão”. Mas antes, com condições perfeitas para respirar, não me pareceu que aquilo fosse um delírio.

Bueno, a partir dali, evidentemente, o que acontece também era previsto. Afinal, algum de vocês, por algum momento, duvidou que Stone conseguiria sobreviver? Já imaginaram ela explodindo lá pelas tantas no filme? Não daria certo para uma produção made in Hollywood, não é mesmo? Então a surpresa do final não existe. Gravity passa mais de uma hora nos mostrando como aquela médica com nenhuma experiência no espaço plasmou o instinto de sobrevivência da nossa raça, fazendo tudo que era possível para pisar em terra firme novamente.

Assim, o que vemos é um filme bem acabado tecnicamente, com cenas incríveis de ação no espaço e algumas imagens belíssimas – mérito também do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Adicione-se ao cesto de pontos positivos a entrega da atriz Sandra Bullock. E isso é tudo. Gravity tem um roteiro fraco, com final previsível e um desenrolar da história um bocado previsível também.

Com o problema de ter alguns argumentos difíceis de acreditar – como a Nasa enviar alguém tão despreparado e que poderia colocar em risco a missão como a Stone para o espaço e aquela comunicação absurda com a base chinesa – e várias sequências que beiram a chatice (como a trilha que Kowalski insistia em colocar e as histórias que ele contava). Um filme perfeito para agradar quem está de olho nas inovações do cinema. Mas um bom filme tem que ter muito mais que técnica. Deve ter “coração”, ou um bom “espírito”. Em outras palavras, emocionar ou surpreender. E Gravity, mesmo na versão 3D, não consegue nos arrebatar. Fascina, claro, com a tecnologia. Mas nada além disso.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito já se falou sobre a entrega da atriz Sandra Bullock ao papel. De fato, ela passou por toda a experiência que um astronauta deve passar ao preparar-se para ir para o espaço. Com o adicional de que ela estava sendo filmada para estrelar uma produção milionária e que vai lhe render muitas indicações a prêmios. Para mim, é evidente que ela chegará como favorita ou forte candidata ao Globo de Ouro e ao Oscar do próximo ano. Mas é preciso ver o desempenho de outras concorrentes, incluindo veteranas como Meryl Streep, para saber se ela vai ganhar uma estatueta dourada pelo esforço com Stone.

Há muito tempo eu acompanha ao Oscar. Primeiro, ainda criança e adolescente, por pura curiosidade. Depois, já escrevendo sobre cinema no início da minha carreira como jornalista, passei a acompanhar a maior premiação de Hollywood também com uma expectativa profissional. Desde que comecei este blog, meu interesse por assistir aos favoritos antes da premiação ficou ainda maior. Minha intenção é compartilhar com vocês, caros leitores, minhas impressões sobre os favoritos. Dito isso, achei surpreendente este ano termos um dos favoritos para o Oscar 2014 e, para muitos, o possível grande vencedor da premiação tão cedo nos nossos cinemas.

Afinal, vocês devem lembrar que, normalmente, chega até nós os filmes com maior chance no Oscar no ano em que a premiação será entregue. Normalmente, as produções favoritas ao prêmio entram em cartaz em janeiro ou fevereiro. Desta vez, temos Gravity estreando na primeira quinzena de outubro – e, no mês anterior, o filme passou no Festival Internacional do Rio de Janeiro – e, logo mais, a estreia de outro forte candidato: Captain Phillips. Interessante. E outros devem estrear antes mesmo do início de 2014. Só que me preocupa o outro grande favorito do ano ao lado de Gravity, 12 Years a Slave, ainda não ter data prevista para o Brasil. Sem dúvida o filme do diretor Steve McQueen é o que eu mais estou ansiosa para ver.

Sempre gostei do Alfonso Cuarón, ainda que eu não tenha ele na minha lista de diretores preferidos. Ainda me lembro do primeiro filme que eu vi dele… Great Expectations, um filme bonzinho, lançado em 1998, com Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow e Robert De Niro. Com aquela produção já tinha ficado claro que ele é um destes diretores que sabe fazer cinema “autoral”, se necessário. Mas que sua praia é mesmo fazer filmes que conquistem grandes bilheterias – nem que para isso seja necessário fazer um cinema bem “industrial”. Diferente de outro diretor mexicano, Alejandro González Iñarritu – a quem eu prefiro, se tivesse que escolher um dos dois.

Autoral mesmo, Cuarón fez apenas Y Tu Mamá También. Os outros filmes foram forjados com a cara de Hollywood. Por isso mesmo é que eu vejo que ele tem muitas chances de ficar entre os cinco finalistas na categoria Melhor Diretor do Oscar 2014 e, talvez, até levar a estatueta. Se conseguir a indicação, esta será a primeira de sua carreira como diretor. Ele foi indicado, antes, a três Oscar’s: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição por Children of Men, em 2007, e Melhor Roteiro Original por Y Tu Mamá También. Não deixa de ser irônico que, justamente agora, seja o roteiro o ponto fraco de Gravity.

Os grandes protagonistas de Gravity 3D não aparecem em cena – são o diretor Cuarón e os efeitos especiais, visuais e o departamento de arte da produção. Este último, contou com 47 profissionais liderados por Heather Noble. Os efeitos especiais foram garantidos por 22 feras, e os efeitos visuais, por centenas – sim, centenas – de profissionais. Parei de contar no 300, para vocês terem uma ideia. Sem dúvida os efeitos visuais e especiais vão render duas estatuetas para este filme – falo de todas as minhas apostas sobre o Oscar logo abaixo.

Muitas vezes um diretor pode até não fazer um grande trabalho em um filme. Ou que é o mesmo que dizer que um filme pode ter uma direção apenas correta e ainda assim ser muito bom. Por isso mesmo, acho tão fundamental para que uma produção seja boa que ela tenha um roteiro ótimo. As estatuetas de Melhor Roteiro Original e Melhor Roteiro Adaptado sempre me interessam – muitas vezes até mais do que as dos intérpretes. E esta é a razão principal para que, desde já, eu não esteja torcendo por Gravity no próximo Oscar. Falta um roteiro melhor para o filme.

Ainda que George Clooney tenha uma participação interessante neste filme, Gravity é um título de uma única atriz: Sandra Bullock. A história gira em torno dela. Bullock, assim, tem todo o espaço para brilhar – junto com as imagens do filme, claro.

Fora os dois atores, vale citar Ed Harris como a voz do contato que os astronautas tem com o controle da Nasa.

Da parte técnica do filme, vale comentar o excelente trabalho de Andy Nicholson no design de produção e de Mark Scruton na direção de arte.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. De acordo com os realizadores, Sandra Bullock passou por um treinamento físico de seis meses antes do filme começar a ser rodado. Neste período, ela trabalhou cada trecho do roteiro com Cuarón. O diretor afirmou que o essencial do trabalho deles foi tratar do tema central de Gravity, “a possibilidade do renascimento após a adversidade”. Mas fez parte do trabalho também a discussão sobre cada cena, e a atriz fez anotações sobre as animações que seriam feitas no filme e o movimento dos robôs que garantiram a dinâmica das cenas. A respiração da personagem Stone foi um ponto central do trabalho do diretor e da atriz.

Lendo as notas da produção é que entendi o elogio de James Cameron… ele é o “melhor amigo” de Cuarón. Claro que os sentimentos dele em relação ao amigo influenciaram no julgamento. 🙂 Mas achei interessante a comparação que ele fez do trabalho de Bullock. Ele disse que a dedicação dela ao filme – incluindo aqueles seis meses de preparo – fazem lembrar o empenho dos bailarinos do Cirque du Soleil.

Nem tudo neste filme foi filmado, como Gravity pode dar a entender. Várias cenas de “caminhada no espaço” foram feitas totalmente por computação gráfica. Para dar mais “realismo” para estas cenas, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki teve que iluminar os rostos dos atores para cada cena conforme o cenário criado digitalmente fosse mudando.

A primeira pessoa a ser cotada para fazer a personagem de Stone foi Angelina Jolie. Mas a atriz desistiu do papel. Depois dela, fizeram teste para o papel ou foram cotadas para ele Rachel Weisz, Naomi Watts, Natalie Portman, Marion Cotillard, Abbie Cornish, Carey Mulligan, Sienna Miller, Scarlett Johansson, Blake Lively, Rebecca Hall e Olivia Wilde. Ufa! Lista grande, e acima do normal para um papel de protagonista. Se Bullock de fato ganhar o Oscar por esse trabalho, várias atrizes vão se perguntar se não deveriam ter pensado melhor no papel.

Este era um projeto para o estúdio Universal que, inicialmente, queria Angelina Jolie no papel principal. Mas a atriz foi descartada, porque tornaria a produção ainda mais cara, e Gravity foi para a gaveta. Daí que a Warner assumiu o projeto e, no final de 2010, Sandra Bullock e Robert Downey Jr. estavam confirmados nos papéis de Stone e Kowalski. Depois, o ator acabou saindo do projeto por causa do famoso “conflito de agenda”, mas Bullock seguiu.

Enquanto filmava uma cena subaquática que depois, em outra tomada, vai aparecer em Gravity, Cuarón prendeu a respiração junto com Sandra Bullock para ter certeza de que não estava exigindo muito da atriz. Mas ele logo descobriu que não poderia igualar o seu fôlego com o de Bullock.

Existe um boato, há muito tempo, de que a Nasa daria pílulas de suicídio para os astronautas no caso deles passarem pelos piores cenários – como aquele que é focado no filme Contact. Mas há décadas a Nasa negou este boato alegando que seria muito mais fácil e confortável para um astronauta reduzir o oxigênio, como é mostrado em Gravity.

Gravity foi totalmente rodado nos Shepperton Studios, na cidade homônima na Inglaterra. Apenas a cena na Terra foi rodada fora do estúdio, mais precisamente no Lake Powell, no estado do Arizona, nos Estados Unidos.

O filme de Cuarón estreou em agosto no Festival de Veneza. Depois, ele participou de outros oito festivais. Neste caminho, ganhou dois prêmios: Atriz do Ano para Sandra Bullock no Hollywood Film Festival e o Prêmio Futuro do Cinema Digital no Festival de Veneza.

Gravity custou a bagatela de US$ 105 milhões. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 6 de novembro, o filme havia arrecadado pouco mais de US$ 221,8 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, foram outros US$ 207,5 milhões. Como um filme de Hollywood precisa arrecadar o triplo, mais ou menos, para dar lucro – especialmente quando for um blockbuster -, podemos dizer que Gravity está se dando bem. Apenas na semana de estreia nos EUA o filme conseguiu US$ 55,78 milhões. Entre os filmes de “disastre”, ele é a quinta melhor bilheteria da história segundo o site Box Office Mojo – e o vigésimo entre os filmes 3D.

Algo que Gravity conseguiu, mais que lucro na bilheteria, foi cair no gosto do público e, principalmente, dos críticos. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para o filme – uma excelente avaliação segundo os padrões da página. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 9,1. Sim, meus caros, 9,1! Uma excelente média para o Rotten Tomatoes.

Ah sim, e se não deixei claro antes, deixo agora: se você tiver uma sala de 3D disponível, veja este filme em 3D. Sem dúvida é a melhor experiência.

Anatoly Slovyev foi um astronauta russo e coronel da força aérea soviética e russa que conseguiu dois recordes: o de caminhadas no espaço (16, no total) e o de horas passadas fora de naves em órbita (82 horas). Ele nasceu em 1948 e, aos 31 anos, completou o curso para ser um cosmonauta e foi selecionado para fazer missões com as naves Soyuz T e para passar longos períodos nas estações Salyut e Mir. Ele tinha 40 anos quando fez o primeiro voo espacial. Na segunda missão dele, em 1990, integrando a tripulação da Mir, Slovyev ficou 179 dias no espaço. Ele faria outros dois voos para fora da Terra, sendo que o último, quando tinha 49 anos, fez com que ele ficasse 197 dias em órbita.

Sobre as naves Soyuz, uma curiosidade: elas surgiram no programa homônimo soviético datado da época da corrida espacial pela conquista da Lua travada entre EUA e União Soviética. Esse tipo de nave, com capacidade para até três astronautas, foi precedida pelas naves Vostok (para um tripulante) e Voskhod (para dois). Com o fim da União Soviética, as naves Soyuz passaram a servir o programa espacial russo e nas operações com a Estação Espacial Internacional (ISS) em uma parceria com o ex-rival Estados Unidos.

Este é um filme 100% Estados Unidos. Por isso mesmo, ele passa para a lista de críticas daquele país que atendem a uma votação feita aqui no site.

CONCLUSÃO: O tema da incansável vontade do ser humano em sobreviver sempre rende. Muitos filmes já foram feitos a respeito. E este Gravity se junta a eles. Claro que o diretor Alfonso Cuarón e equipe conseguiram dar um passo a mais no cinema que foca a ação no espaço. As técnicas utilizadas neste filme garantem uma experiência nos cinemas 3D que apenas reforça a ideia de que esta nova fronteira da tecnologia veio para ficar. E que é um grande diferencial para encantar as audiências. Dito isso, sim, Gravity 3D é um filme potente tecnicamente. Mas não emociona ou surpreende como deveria para ser considerado o melhor um dos melhores filmes do ano. Para mim, faltou roteiro que me fizesse sair mais envolvida com a história. É um filme de ação no espaço, mas não é o melhor filme do ano – e, muito menos, como disseram alguns por aí, o melhor filme do gênero. Bom entretenimento. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: De fato, tudo indica que Gravity será indicado para um monte de categorias no maior prêmio do cinema global. Certamente ele merece chegar em toda e qualquer categoria técnica, como as de melhores fotografia, efeitos visuais, mixagem de som, edição de som, edição e design de produção. Se isso se confirmar, temos, por baixo, cinco indicações técnicas, que podem chegar a mais, se acrescentarmos trilha sonora, por exemplo.

Mas e sobre as categorias principais? Inicialmente, sem ver ainda aos outros concorrentes fortes de Hollywood, acho que Alfonso Cuarón pode ser indicado como Melhor Diretor e Sandra Bullock, pelo esforço que teve nesta produção, deve ser indicada a Melhor Atriz. Talvez George Clooney consiga uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. E como as últimas premiações comportaram até 10 indicados na categoria Melhor Filme, sem dúvida Gravity chegará lá.

Agora, ele merece ter, por baixo, oito indicações ao Oscar? Com certeza. É um filme que busca o aprimoramento e avanço técnico do cinema. E Hollywood adora isso. E a gente também, claro, porque é ótimo ver a indústria que faz peças de arte avançar. Ainda que, francamente, este filme tenha um apelo muito mais técnico que narrativo ou emocional. Também concordo com muitas indicações para ele porque, não necessariamente, muitas indicações vão significar muitas estatuetas.

Da minha parte, acho que ele merece alguns Oscar’s técnicos (como efeitos visuais, mixagem de som, edição de som e, talvez, edição, design de produção e fotografia, dependendo estes últimos do que outros filmes vão apresentar) e, talvez, Melhor Diretor. Porque Cuarón realmente fez um grande trabalho.

Melhor Atriz… só se outras possíveis concorrentes, como Meryl Streep, Judi Dench, Cate Blanchett, entre outras, não fizeram um trabalho melhor. Acho bacana como Bullock se esforçou, passou por sacrifícios físicos e tudo o mais, mas eu não daria um Oscar para ela por este trabalho. Para mim, lhe faltou profundidade na interpretação – culpa do roteiro e não da atriz, diga-se. Mas logo mais veremos o que vai sair deste mato. No momento, acredito em cerca de nove indicações para o Oscar e em cinco ou seis prêmios – a maioria deles técnicos. Ainda aguardo 12 Years a Slave, Captain Phillips, The Wolf of Wall Street, Inside Llewyn Davis e August: Osage County para conseguir formar a minha opinião melhor.