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Rampart

Um policial fora de controle. Que se enrola cada vez mais em seus próprios erros. Rampart revela os bastidores da polícia de Los Angeles no final dos anos 1990. Como estrela da produção, Woody Harrelson faz um de seus melhores trabalhos. Além de honesto, este filme se destaca por algumas sequências inventivas do diretor. Entretenimento com levada autoral e alguma inovação.

A HISTÓRIA: O policial David Douglas Brown (Woody Harrelson) faz várias rondas na Los Angeles de 1999. Em um certo dia, ele aparece ao lado da estagiária Jane (Stella Schnabel) e do policial Dan Morone (Jon Bernthal). Jane escuta os conselhos dos dois policiais, especialmente de Dan, que afirma que ela deve aprender logo a diferença entre os diferentes tipos de latinos que vivem na jurisdição deles. Afinal, quanto antes ela aprender a identificar suas diferentes origens, mais rapidamente ela perceberá quem odeia quem. Segundo David, todos traficam, todo o tempo, e estão armados para atacar a polícia. Ela pergunta sobre o escândalo, e os dois policiais desprezam este tema. David diz que dois policiais fizeram besteira e mancharam o restante da corporação. Mas logo mais veremos que esta não é toda a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Rampart): O roteiro de James Ellroy e do diretor Oren Moverman acerta no começo do filme. O texto planta dúvidas na cabeça dos espectadores, que não sabem até que ponto David Brown é apenas um policial um pouco exagerado, cansado da rotina de rondas e problemas, mas que tem uma preocupação ética e de conduta, ou se ele é um louco fardado.

Aquela conversa dele com colegas no início do filme mostra as duas facetas do protagonista: por um lado, ele acredita que todos os latinos são traficantes e estão preparados para ferrar a ele e seus colegas quando tiverem a primeira oportunidade e, por outro, ele revela ter um grande respeito pela disciplina e de que é capaz de voltar atrás em um gesto exagerado.

Em seguida, ele quer mostrar força para a colega iniciante, e tem outro gesto idiota, que não parece ser próprio de alguém que está há muito tempo nas ruas. Na delegacia de polícia, mais uma vez, ele exagera com um preso que havia batido em um colega. Não parece que o escândalo envolvendo a Rampart, divisão da polícia de Los Angeles que atende a bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, foi realmente um equívoco de dois policiais.

O protagonista desta produção serve de exemplo de uma polícia contaminada pela brutalidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Das ruas, passamos rapidamente para a intimidade dele. Para complicar o enredo daquela vida conturbada, ele tem duas ex-mulheres, que são irmãs, e duas filhas com as quais ele não sabe lidar. Aliás, ele tem dificuldade em lidar com mulheres em geral. Não parece ter muito respeito por elas. Bom de cama, ele pula de uma relação para a outra. Parece não gostar de dormir sozinho – como tantos e tantos outros. Mas algo de positivo (e é preciso dizer, diante de tantos defeitos desse personagem): ele não bate em mulher. Pode insultá-las, desprezá-las, mas não levanta a mão para elas.

Evidente, mesmo sem sabermos quase nada sobre o passado de David, que ele respeita muito a “superioridade” dos homens. Mesmo que de uma maneira torta, ele tenta também preservar o valor da “família”. Claro que nenhum destes conceitos estão limpos, sem contaminação. Nada na vida de David, e isso vamos percebendo aos poucos, parece não estar manchado pela violência ou pela corrupção.

Ainda assim, é interessante como Ellroy e o diretor Oren Moverman conseguem adentrar de forma sutil na vida do personagem, mostrando várias de suas facetas. Há o homem de família, que não consegue conciliar ninguém em casa – não resgata o romance com nenhuma das ex e nem consegue muito afeto das filhas. Há o policial, que está cansado de ver o mesmo e perde a cabeça facilmente, seja com um imigrante ou com um superior – nestas horas, a hierarquia parece importar pouco. Existe também o David garanhão e festeiro, que bebe em serviço, fuma sem parar, frequenta bares e boates em busca de sexo sem compromissos. E há ainda o homem corrupto, com contatos suspeitos com Hartshorn (Ned Beatty), o homem que conhece o submundo da jogatina.

Rampart é complexo por isso, por focar todas estas facetas de um homem que ganhou os noticiários por um momento de violência. Mas a condução do filme inova pouco. Se o roteiro é bem amarrado e interessante, a direção segue o caminho tradicional. Exceto por duas sequências que valem quase pelo restante da produção: aquela do “confronto” entre David e os superiores Joan Confrey (Sigourney Weaver) e Bill Blago (Steve Buscemi), uma roleta russa de pressões e egos; e a que foca uma das noites mais alucinantes do protagonista, em uma boate onde rolam sexo e drogas e onde predomina a cor vermelha. A visão distorcida que o personagem naquela noite pode sintetizar toda a perda de foco que ele está vivenciando naquela momento da vida.

Os atores e atrizes que embarcam nesta produção é algo que impressiona. Além dos já citados, vale destacar a atuação de Ben Foster como o general Terry, preso à uma cadeira-de-rodas; Cynthia Nixon como Barbara, irmã de Catherine, interpretada por Anne Heche, ambas ex-mulheres de David; Brie Larson como Helen, filha mais velha do protagonista, e Sammy Boyarsky como Margaret, a caçula da família; Robert Wisdom como o capitão da divisão Rampart; Robin Wright como Linda Fentress, uma advogada que acaba se relacionando com David em seu pior momento; e Ice Cube como Kyle Timkins, investigador do Ministério Público que não sai da cola do protagonista. Baita elenco, não? E todos estão bem, ninguém destoando muito do ótimo trabalho de Harrelson.

Rampart tem dois momentos de explosão do protagonista que marcam erros importantes e difíceis de serem contornados. Fora estes “rompantes”, nenhum dos dois muito surpreendentes – afinal, o espectador já está “armado” para aquelas sequências -, o restante do filme é bastante cerebral, e tenta mostrar as diferentes facetas do protagonista. Essa busca é interessante, e torna esta produção densa.

Mas por outro lado, deixa pouco espaço para surpresas. E em um filme policial, elas são importantes. Com tantas linhas e histórias para contar, Rampart perde um pouco de ritmo para abrir espaço para uma leitura mais completa daquela realidade. É um filme louvável, ainda que pouco provocador. Faz refletir, mas inova em poucas cenas. Está bem acima da média, mas não chega a ser excepcional.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O estilo de direção de Oren Moverman segue a lógica dos documentários. Câmera na mão, estilo de interpretação dos atores cheia de improvisos, Rampart vende a ideia de que o espectador está acompanhando uma história real, enquanto ela acontece. Uma escolha acertada, para este tipo de história. Fora aquelas duas sequências que eu comentei antes, o restante da produção segue uma lógica limpa, linear, sem inovações.

A direção de fotografia de Bobby Bukowski explora, evidencia e potencializa a luminosidade de Los Angeles. Uma decisão acertada, e que muitas vezes deixa o filme um pouco “over” na luz. A impressão é que o sol queima, e que não é possível para ninguém conseguir proteção suficiente contra ele. Assim como os personagens, que não conseguem ficar incólumes em meio àquele cenário de insegurança e violência crescente.

De todos os atores citados, os que apresentaram o melhor trabalho foram, claro, o protagonista Woody Harrelson, Jon Foster – em uma ponta -, Brie Larson (ainda que ela irrite, alguma vezes) e Robin Wright. Outros atores, talentosos, aparecem tão pouco que não conseguem se destacar. Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho do editor Jay Rabinowitz.

Gostei de ter visto o ator Jon Bernthal, que faz um trabalho excelente na série The Walking Dead, em um filme. Mas senti falta de vê-lo nesta produção mais do que em uma ponta.

Fiquei curiosa por saber mais sobre a divisão Rampart. Neste link da Wikipédia (em inglês), é possível saber que ela integra a polícia de Los Angeles e atende as regiões oeste e noroeste do Centro da cidade. Como eu disse antes, faz parte desta região bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, conhecidos por abrigar muitos latinos. O nome da divisão surgiu a partir do Boulevard Rampart, uma das principais ruas da área de patrulha dos policiais que a integram. A população de Rampart chega a 300 mil pessoas, e é considerada a área mais populosa da cidade.

No mesmo texto da Wikipédia é possível saber um pouco mais sobre o escândalo que envolveu a divisão Rampart. No final dos anos 1970, foi criado ali um programa anti-gangues. Ele teria funcionado bem nos primeiros anos, mas entre 1998 e o ano 2000, vários policiais e detetives do esquadrão foram acusados de má conduta. Um deles, Rafael Perez, foi acusado de participar de um assalto à banco e por roubar seis quilos de cocaína de um armário de provas policiais.

O ato mais notório de Perez foi ele ter sido gravado espancando o membro de uma gangue que estava desarmado – história parecida com a do protagonista de Rampart, não? Ele teria confessado o roubo da cocaína e trocou esta possível condenação pelo gesto de delatar colegas corruptos – Perez teria apontado 70 deles por má conduta.

Rampart estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. No mesmo mês, ele participou do festival de cinema de San Sebastian, na Espanha. Até agora, o filme foi indicado a dois prêmios, ambos para o ator Woody Harrelson, mas não ganhou nenhum deles.

Há poucas informações sobre o resultado desta produção nas bilheterias. Segundo o site IMDb, nos Estados Unidos, o filme teria arrecadado pouco mais de US$ 663,3 mil até o dia 11 de março. Sim, mil, não milhões. Uma bilheteria minúscula, para os padrões do cinema norte-americano. Em sua melhor época, o filme foi exibido em 106 cinemas, nos Estados Unidos. Em um cenário muito restrito, o que ajuda a explicar a baixa bilheteria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Rampart. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 92 críticas positivas e 29 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

O crítico Andre Barcinski, da Folha, escreveu aqui que ele considera Rampart o melhor filme americano de 2011. Respeito a opinião dele, é claro. Gostei de Rampart. Mas não achei esta produção a melhor do ano passado. Nem de perto. O filme não é tão surpreendente, nem na forma ou no conteúdo, quanto poderia ser.

Rampart é o segundo filme do diretor e roteirista Oren Moverman. Antes, ele dirigiu a The Messenger, filme bem interessante e que tem no elenco, outra vez, Woody Harrelson, Ben Foster, Steve Buscemi, entre outros. Atualmente, ele está trabalhando na pré-produção de Berlin, I Love You, com previsão para ser lançado em 2013.

Woody Harrelson entrou na minha lista de ótimos atores com Natural Born Killers. Depois daquele filme de Oliver Stone, de 1994, ele fez outros trabalhos excelentes. Vale citar (e assistir) a The People vs. Larry Flynt, de Milos Forman; The Walker, de Paul Schrader; Transsiberian, de Brad Anderson; e o já citado The Messenger.

CONCLUSÃO: Um vilão nunca é apenas um vilão, por mais que tantos filmes de Hollywood tenham tentado simplificar estes personagens repetidas vezes. Um sujeito errado sempre tem uma história pessoal para contar, assim como ele sofre com uma certa contaminação originada na sociedade e identificável em seu comportamento. Rampart mergulha na história de um homem que deveria ser o mocinho de uma determinada realidade – replicável para qualquer parte, mas que aparece como um reflexo mal acabado das falhas deste coletivo. Acreditando ser intocável, o protagonista abusa de sua autoridade e ajuda a disseminar o caos na realidade que deveria contribuir para controlar. O filme acerta ao acompanhar ele de perto pouco antes do trem de sua vida descarrilhar, até para que o espectador possa ver de perto como os problemas sempre podem aumentar e uma pessoa perder o controle da própria vida. Há chance de redenção para o personagem de Rampart? Dificilmente. E essa crueza talvez seja o melhor do filme.

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Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Movie

Rampart – Um Tira Acima da Lei

Um policial fora de controle. Que se enrola cada vez mais em seus próprios erros. Rampart revela os bastidores da polícia de Los Angeles no final dos anos 1990. Como estrela da produção, Woody Harrelson faz um de seus melhores trabalhos. Além de honesto, este filme se destaca por algumas sequências inventivas do diretor. Entretenimento com levada autoral e alguma inovação.

A HISTÓRIA: O policial David Douglas Brown (Woody Harrelson) faz várias rondas na Los Angeles de 1999. Em um certo dia, ele aparece ao lado da estagiária Jane (Stella Schnabel) e do policial Dan Morone (Jon Bernthal). Jane escuta os conselhos dos dois policiais, especialmente de Dan, que afirma que ela deve aprender logo a diferença entre os diferentes tipos de latinos que vivem na jurisdição deles. Afinal, quanto antes ela aprender a identificar suas diferentes origens, mais rapidamente ela perceberá quem odeia quem. Segundo David, todos traficam, todo o tempo, e estão armados para atacar a polícia. Ela pergunta sobre o escândalo, e os dois policiais desprezam este tema. David diz que dois policiais fizeram besteira e mancharam o restante da corporação. Mas logo mais veremos que esta não é toda a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Rampart): O roteiro de James Ellroy e do diretor Oren Moverman acerta no começo do filme. O texto planta dúvidas na cabeça dos espectadores, que não sabem até que ponto David Brown é apenas um policial um pouco exagerado, cansado da rotina de rondas e problemas, mas que tem uma preocupação ética e de conduta, ou se ele é um louco fardado.

Aquela conversa dele com colegas no início do filme mostra as duas facetas do protagonista: por um lado, ele acredita que todos os latinos são traficantes e estão preparados para ferrar a ele e seus colegas quando tiverem a primeira oportunidade e, por outro, ele revela ter um grande respeito pela disciplina e de que é capaz de voltar atrás em um gesto exagerado.

Em seguida, ele quer mostrar força para a colega iniciante, e tem outro gesto idiota, que não parece ser próprio de alguém que está há muito tempo nas ruas. Na delegacia de polícia, mais uma vez, ele exagera com um preso que havia batido em um colega. Não parece que o escândalo envolvendo a Rampart, divisão da polícia de Los Angeles que atende a bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, foi realmente um equívoco de dois policiais.

O protagonista desta produção serve de exemplo de uma polícia contaminada pela brutalidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Das ruas, passamos rapidamente para a intimidade dele. Para complicar o enredo daquela vida conturbada, ele tem duas ex-mulheres, que são irmãs, e duas filhas com as quais ele não sabe lidar. Aliás, ele tem dificuldade em lidar com mulheres em geral. Não parece ter muito respeito por elas. Bom de cama, ele pula de uma relação para a outra. Parece não gostar de dormir sozinho – como tantos e tantos outros. Mas algo de positivo (e é preciso dizer, diante de tantos defeitos desse personagem): ele não bate em mulher. Pode insultá-las, desprezá-las, mas não levanta a mão para elas.

Evidente, mesmo sem sabermos quase nada sobre o passado de David, que ele respeita muito a “superioridade” dos homens. Mesmo que de uma maneira torta, ele tenta também preservar o valor da “família”. Claro que nenhum destes conceitos estão limpos, sem contaminação. Nada na vida de David, e isso vamos percebendo aos poucos, parece não estar manchado pela violência ou pela corrupção.

Ainda assim, é interessante como Ellroy e o diretor Oren Moverman conseguem adentrar de forma sutil na vida do personagem, mostrando várias de suas facetas. Há o homem de família, que não consegue conciliar ninguém em casa – não resgata o romance com nenhuma das ex e nem consegue muito afeto das filhas. Há o policial, que está cansado de ver o mesmo e perde a cabeça facilmente, seja com um imigrante ou com um superior – nestas horas, a hierarquia parece importar pouco. Existe também o David garanhão e festeiro, que bebe em serviço, fuma sem parar, frequenta bares e boates em busca de sexo sem compromissos. E há ainda o homem corrupto, com contatos suspeitos com Hartshorn (Ned Beatty), o homem que conhece o submundo da jogatina.

Rampart é complexo por isso, por focar todas estas facetas de um homem que ganhou os noticiários por um momento de violência. Mas a condução do filme inova pouco. Se o roteiro é bem amarrado e interessante, a direção segue o caminho tradicional. Exceto por duas sequências que valem quase pelo restante da produção: aquela do “confronto” entre David e os superiores Joan Confrey (Sigourney Weaver) e Bill Blago (Steve Buscemi), uma roleta russa de pressões e egos; e a que foca uma das noites mais alucinantes do protagonista, em uma boate onde rolam sexo e drogas e onde predomina a cor vermelha. A visão distorcida que o personagem naquela noite pode sintetizar toda a perda de foco que ele está vivenciando naquela momento da vida.

Os atores e atrizes que embarcam nesta produção é algo que impressiona. Além dos já citados, vale destacar a atuação de Ben Foster como o general Terry, preso à uma cadeira-de-rodas; Cynthia Nixon como Barbara, irmã de Catherine, interpretada por Anne Heche, ambas ex-mulheres de David; Brie Larson como Helen, filha mais velha do protagonista, e Sammy Boyarsky como Margaret, a caçula da família; Robert Wisdom como o capitão da divisão Rampart; Robin Wright como Linda Fentress, uma advogada que acaba se relacionando com David em seu pior momento; e Ice Cube como Kyle Timkins, investigador do Ministério Público que não sai da cola do protagonista. Baita elenco, não? E todos estão bem, ninguém destoando muito do ótimo trabalho de Harrelson.

Rampart tem dois momentos de explosão do protagonista que marcam erros importantes e difíceis de serem contornados. Fora estes “rompantes”, nenhum dos dois muito surpreendentes – afinal, o espectador já está “armado” para aquelas sequências -, o restante do filme é bastante cerebral, e tenta mostrar as diferentes facetas do protagonista. Essa busca é interessante, e torna esta produção densa.

Mas por outro lado, deixa pouco espaço para surpresas. E em um filme policial, elas são importantes. Com tantas linhas e histórias para contar, Rampart perde um pouco de ritmo para abrir espaço para uma leitura mais completa daquela realidade. É um filme louvável, ainda que pouco provocador. Faz refletir, mas inova em poucas cenas. Está bem acima da média, mas não chega a ser excepcional.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O estilo de direção de Oren Moverman segue a lógica dos documentários. Câmera na mão, estilo de interpretação dos atores cheia de improvisos, Rampart vende a ideia de que o espectador está acompanhando uma história real, enquanto ela acontece. Uma escolha acertada, para este tipo de história. Fora aquelas duas sequências que eu comentei antes, o restante da produção segue uma lógica limpa, linear, sem inovações.

A direção de fotografia de Bobby Bukowski explora, evidencia e potencializa a luminosidade de Los Angeles. Uma decisão acertada, e que muitas vezes deixa o filme um pouco “over” na luz. A impressão é que o sol queima, e que não é possível para ninguém conseguir proteção suficiente contra ele. Assim como os personagens, que não conseguem ficar incólumes em meio àquele cenário de insegurança e violência crescente.

De todos os atores citados, os que apresentaram o melhor trabalho foram, claro, o protagonista Woody Harrelson, Jon Foster – em uma ponta -, Brie Larson (ainda que ela irrite, alguma vezes) e Robin Wright. Outros atores, talentosos, aparecem tão pouco que não conseguem se destacar. Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho do editor Jay Rabinowitz.

Gostei de ter visto o ator Jon Bernthal, que faz um trabalho excelente na série The Walking Dead, em um filme. Mas senti falta de vê-lo nesta produção mais do que em uma ponta.

Fiquei curiosa por saber mais sobre a divisão Rampart. Neste link da Wikipédia (em inglês), é possível saber que ela integra a polícia de Los Angeles e atende as regiões oeste e noroeste do Centro da cidade. Como eu disse antes, faz parte desta região bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, conhecidos por abrigar muitos latinos. O nome da divisão surgiu a partir do Boulevard Rampart, uma das principais ruas da área de patrulha dos policiais que a integram. A população de Rampart chega a 300 mil pessoas, e é considerada a área mais populosa da cidade.

No mesmo texto da Wikipédia é possível saber um pouco mais sobre o escândalo que envolveu a divisão Rampart. No final dos anos 1970, foi criado ali um programa anti-gangues. Ele teria funcionado bem nos primeiros anos, mas entre 1998 e o ano 2000, vários policiais e detetives do esquadrão foram acusados de má conduta. Um deles, Rafael Perez, foi acusado de participar de um assalto à banco e por roubar seis quilos de cocaína de um armário de provas policiais.

O ato mais notório de Perez foi ele ter sido gravado espancando o membro de uma gangue que estava desarmado – história parecida com a do protagonista de Rampart, não? Ele teria confessado o roubo da cocaína e trocou esta possível condenação pelo gesto de delatar colegas corruptos – Perez teria apontado 70 deles por má conduta.

Rampart estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. No mesmo mês, ele participou do festival de cinema de San Sebastian, na Espanha. Até agora, o filme foi indicado a dois prêmios, ambos para o ator Woody Harrelson, mas não ganhou nenhum deles.

Há poucas informações sobre o resultado desta produção nas bilheterias. Segundo o site IMDb, nos Estados Unidos, o filme teria arrecadado pouco mais de US$ 663,3 mil até o dia 11 de março. Sim, mil, não milhões. Uma bilheteria minúscula, para os padrões do cinema norte-americano. Em sua melhor época, o filme foi exibido em 106 cinemas, nos Estados Unidos. Em um cenário muito restrito, o que ajuda a explicar a baixa bilheteria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Rampart. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 92 críticas positivas e 29 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

O crítico Andre Barcinski, da Folha, escreveu aqui que ele considera Rampart o melhor filme americano de 2011. Respeito a opinião dele, é claro. Gostei de Rampart. Mas não achei esta produção a melhor do ano passado. Nem de perto. O filme não é tão surpreendente, nem na forma ou no conteúdo, quanto poderia ser.

Rampart é o segundo filme do diretor e roteirista Oren Moverman. Antes, ele dirigiu a The Messenger, filme bem interessante e que tem no elenco, outra vez, Woody Harrelson, Ben Foster, Steve Buscemi, entre outros. Atualmente, ele está trabalhando na pré-produção de Berlin, I Love You, com previsão para ser lançado em 2013.

Woody Harrelson entrou na minha lista de ótimos atores com Natural Born Killers. Depois daquele filme de Oliver Stone, de 1994, ele fez outros trabalhos excelentes. Vale citar (e assistir) a The People vs. Larry Flynt, de Milos Forman; The Walker, de Paul Schrader; Transsiberian, de Brad Anderson; e o já citado The Messenger.

CONCLUSÃO: Um vilão nunca é apenas um vilão, por mais que tantos filmes de Hollywood tenham tentado simplificar estes personagens repetidas vezes. Um sujeito errado sempre tem uma história pessoal para contar, assim como ele sofre com uma certa contaminação originada na sociedade e identificável em seu comportamento. Rampart mergulha na história de um homem que deveria ser o mocinho de uma determinada realidade – replicável para qualquer parte, mas que aparece como um reflexo mal acabado das falhas deste coletivo. Acreditando ser intocável, o protagonista abusa de sua autoridade e ajuda a disseminar o caos na realidade que deveria contribuir para controlar. O filme acerta ao acompanhar ele de perto pouco antes do trem de sua vida descarrilhar, até para que o espectador possa ver de perto como os problemas sempre podem aumentar e uma pessoa perder o controle da própria vida. Há chance de redenção para o personagem de Rampart? Dificilmente. E essa crueza talvez seja o melhor do filme.

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The Messenger – O Mensageiro

Há temas que afetam muito mais a determinados países e/ou coletivos do que outros. Os efeitos da Guerra do Iraque, por exemplo, tem um apelo direto no público dos Estados Unidos porque eles vivem na pele a ausência e a perda de amigos e familiares. O mesmo, claro está, ocorre com os iraquianos (de forma muito mais profunda, eu diria) e demais nacionalidades envolvidas no conflito. Um país que não enfrenta periodicamente os problemas provenientes das guerras não entende todas as dimensões que ela afeta ou as feridas que acarreta. Por isso mesmo, The Messenger não terá o apelo com o público brasileiro como ele consegue ter com o estadunidense. Com dois atores perfeitos e um roteiro com muitos altos e baixos, este filme se debruça sobre os efeitos da guerra na casa e no quintal dos estadunidenses. Ao trazer para a frente das câmeras um olhar mais particular sobre a guerra, The Messenger procura dar nome e rosto para os familiares em luto, tornando cada perda da guerra em algo particular. O resultado é impactante no início, mas depois a produção vai perdendo força e trilhando caminhos previsíveis demais.

A HISTÓRIA: O sargento Will Montgomery (Ben Foster) passa por mais uma consulta médica antes de se encontrar com Kelly (Jena Malone), uma antiga namorada que atualmente está noiva de Alan (Michael Chernus). Atualmente, Montgomery tem que se acostumar com as visitas rotineiras ao médico. Faltando três meses para terminar o seu período de alistamento, ele acaba sendo designado para trabalhar ao lado do capitão Tony Stone (Woody Harrelson) em um tipo de trabalho que ele jamais imaginou desempenhar: o de comunicar os familiares sobre a morte de seus entes queridos na Guerra do Iraque. Depois de vencer a morte e salvar amigos do Exército na guerra, Montgomery acreditava que tinha sido preparado para tudo, mas se surpreende com os desafios que a vida “comum” podem lhe apresentar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Messenger): A primeira parte do roteiro de Alessandro Camon e do diretor Oren Moverman é bastante promissora. The Messenger começa de uma forma diferente do usual, focando o protagonista, considerado um herói, de maneira fria e em atitudes pouco honradas. Afinal, não sabemos em detalhes quem é Kelly, mas logo fica claro que Montgomery está colocando os chifres em alguém. Esta desmistificação do “herói de guerra” parece ser um dos objetivos principais do filme. Os protagonistas de The Messenger parecem tudo, menos modelos a serem seguidos – isso se alguém ainda acredita que existam “modelos” a serem seguidos. 😉

Depois de apresentar um comportamento um bocado antissocial, Montgomery é apresentado a uma missão que considera quase uma “piada”. Ou, talvez, uma espécie de castigo. Até que entra na primeira casa junto a Stone para informar os familiares do primeiro soldado morto, Montgomery considera o trabalho no Grupo de Notificação de Vítimas e seus protocolos um desperdício de tempo para um militar. O espectador, colocado na posição de Montgomery, também não entende muito bem que tipo de missões são aquelas, até que o trabalho começa a ser feito. E daí entra a parte mais interessante de The Messenger: cada comunicado nos transporta para a intimidade das famílias dos soldados mortos, acabando de uma vez com a política dos “números de guerra” e passando a humanizar a barbárie.

Isso funciona por um tempo ou, melhor dizendo, até a segunda visita da dupla Montgomery/Stone aos familiares dos soldados aniquilados. A partir do momento em que o protagonista se encontra com a personagem de Olivia Pitterson (Samantha Morton), o roteiro de The Messenger dá uma guinada fundamental para o desenrolar da história. Pena que ela essa guinada foi feita para o lado errado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, quantos filmes já foram feitos sobre o “difícil que é a vida para um ex-combatente”? Inúmeros, hein? Poderia fazer uma lista deles. Por isso mesmo que a partir do momento em que The Messenger resolve mostrar os “fantasmas” e feridas nunca cicatrizadas da dupla de protagonistas ele se torna praticamente “mais um” na lista. Alcoolismo, falta de tato social, violência exagerada, uma constante falta de paciência e dificuldade de dormir, todos estes sinais que “acompanham” soldados que voltaram de uma guerra já são velhos conhecidos de quem acompanha os filmes do gênero produzidos por Hollywood.

Além disso, o roteiro de The Messenger simplifica demais os seus personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos estão sofrendo, de uma forma ou de outra. Os protagonistas não se adaptam a uma vida normal, enquanto que o luto dos familiares por eles notificados aparece e desaparece de forma muito pontual – com exceção para a personagem de Olivia que acaba virando obsessão para Montgomery. Todos aquelas pessoas parecem um tanto “rasas” demais. Não há sutileza em parte alguma, apenas um permanente tom acima do normal. Nenhum dos personagens parece capaz de sentir algum prazer verdadeiro – o sentimento de perda eterna permeia todas as relações. Até mesmo a aproximação de Olivia e Montgomery está carregada de culpa, remorso e dor.

Não quero dizer, com tudo isso, que estes sentimentos não sejam condizentes com muito da “realidade” explorada pela história. Mas será mesmo que todos os minutos daquelas pessoas todas se resumem a isso ou houve uma exagerada no roteiro para que estes sentimentos de luto e perda estivessem a todo momento na tela? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei um tanto forçada a tentativa do protagonista em se aproximar de Olivia. Inicialmente, ele parecia ter apenas a curiosidade em “desmascarar” aquela mulher que, em sua opinião, não reagiu como deveria com a notícia da morte do marido. Mas depois, ele realmente parece enxergar nela uma alternativa de “felicidade”. Certo que Montgomery e Stone parecem estar permanentemente em busca de alguma sensação de prazer, de compreensão, mas honestamente isto não aparece de forma tão convincente como deveria.

A culpa desta falta de convencimento não está na dedicação dos atores para seus papéis e sim nas linhas de roteiro algumas vezes pouco críveis. Ben Foster e Woody Harrelson tem desempenhos muito bons, bem acima da média – deles próprios e de outros atores em papéis similares. Ainda assim, o trabalho de ambos não é suficiente para evitar que The Messenger caia em lugares comum e desvie seu foco de uma direção inicial que parecia muito promissora. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dar nome e apresentar um contexto para as vítimas das guerras em que os Estados Unidos se envolve colocando o espectador dentro do quintal de quem sofre com o luto sem fazer disso um melodrama foi um acerto da produção. Questionar também a finalidade destas mortes e a noção de “herói de guerra” sem fazer grandes discursos a respeito também é algo sempre interessante de ser feito no cinema. Agora bater na velha tecla das “marcas indeléveis” que uma guerra provoca em quem volta para “casa” sem apresentar a força vista em The Hurt Locker, para citar um exemplo recente, foi um verdadeiro desperdício.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As ironias proferidas pelo personagem de Woody Harrelson são alguns dos pontos altos do roteiro do diretor Oren Moverman e de Alessandro Camon. Pena que a “fina ironia” do personagem se perca depois nas lamentações e algumas frustrações do superior que se sente “abaixo” – ainda que não admita – do subordinado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei especialmente irritada com uma cena: quando Tony Stone chora no sofá de Montgomery depois que ele narra a experiência que teve salvando companheiros de pelotão na guerra. Honestamente? Não era para tanto. Aquele mesmo choro, apresentado de outra forma, teria me convencido, mas não como a cena foi filmada por Moverman. Talvez a cena emocione a muitas pessoas, mas a mim ela apenas me deixou decepcionada.

The Messenger é um filme declaradamente de dois atores: Ben Foster e Woody Harrelson, nesta ordem. Ainda assim, há personagens secundários que roubam a cena quando aparecem. Destaco, em especial, aos atores Steve Buscemi, que interpreta ao enlutado Dale Martin; Eamonn Walker como o coronel Stuart Dorsett, responsável por aproximar Montgomery e Stone; e a Yaya DaCosta como Monica Washington, namorada do soldado Leroy, e Portia, que interpreta a mãe do militar, a primeira dupla a nos emocionar.

Gostei do estilo de direção de Oren Moverman. Ele assume a postura de um documentarista e, geralmente, acompanha os passos de seus atores como um observador “da realidade” que está sendo mostrada. Claro que tudo isso é mais que intencional. The Messenger, com esta idéia de “câmera na mão” e uma narrativa seguindo a ótica dos personagens – especialmente a de Montgomery – busca aprofundar o “mergulho” no cotidiano que a história busca desvelar. Uma escolha acertada, ainda que nada inventiva.

The Messenger caiu nas graças da opinião do público e da crítica. Até mais dos segundos do que dos primeiros. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7,6 para a produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 88 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 90%. Nada mal!

O filme dirigido por Oren Moverman completou mais de um ano de “estrada”. Ele começou sua caminhada no Festival de Sundance em janeiro de 2009 e, de lá para cá, participou de outros 17 festivais pelo mundo. Pouco a pouco The Messenger foi conquistando sete prêmios e acumulando outras 16 indicações. Entre os mais importantes que conquistou estão dois prêmios no Festival de Berlim – o de melhor roteiro e o “Peace Film Award” para Oren Moverman – e dois prêmios como melhor filme (pela crítica e o prêmio principal) no Festival de Cinema de Deauville. O respeitado National Board of Review também entrou os prêmios de melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e o “Spotlight Award” para Moverman. Samantha Morton recebeu, merecidamente, o prêmio de melhor atriz coadjuvante na premiação anual da Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. No Globo de Ouro, The Messenger apareceu apenas em uma categoria: a de melhor ator coadjuvante tendo Woody Harrelson como concorrente. Mas como todos que leram este texto sabem, Harrelson não ganhou o prêmio.

O filme não tem se saído bem nas bilheterias. Pelo menos nos Estados Unidos. Até o dia 7 de fevereiro The Messenger tinha arrecadado pouco mais de US$ 804 mil nas bilheterias. Um valor muito baixo, especialmente porque este tema e, principalmente, o enfoque da produção deveria agradar, especialmente, o público estadunidense.

Para os interessados na parte técnica do filme, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Bobby Bukowski; a edição de Alexander Hall e a trilha sonora de Nathan Larson.

Entre os críticos que gostaram de The Messenger destaco Rex Reed, do The New York Observer. Ele comenta, neste texto, que muitos filmes que trataram dos conflitos no Oriente Médio se deram mal nas bilheterias e que, agora, surge para o público o “sensível e inteligente” The Messenger. Reed destaca que a produção marca a estréia na direção do roteirista conhecido por I’m Not There. Para o crítico, The Messenger é superior ao filme sobre Bob Dylan, especialmente porque o filme conta com as interpretações espetaculares de Ben Foster, Woody Harrelson e Samantha Morton. Achei especialmente interessante quando o crítico comenta sobre a aproximação de Montgomery e Olivia, afirmando que cada um dos personagens demonstra “os efeitos da fadiga da batalha”, seja ela tendo sido travada “nas trincheiras ou na frente em casa”. Mesmo com todos os elogios, Reed admite que The Messenger sofre com uma série de clichês de produções do gênero.

Outro crítico que aprovou The Messenger foi Michael Phillips, do Chicago Tribune. Ele escreveu, neste texto, que o trabalho desempenhado pelos protagonistas do filme está entre os mais “exaustivos” que um ser humano pode ser chamado a desempenhar. Ainda assim, escreve Phillips, The Messenger não é um filme esgotante, pelo contrário. A produção oferece “uma gama completa de emoções delicada que humaniza os personagens e deixa as polêmicas para um segundo plano”. Comparando esta produção com The Hurt Locker, Phillips afirma que o único ponto em comum dos dois filmes é que ambos são apolíticos e “honram o guerreiro sem colocar a guerra em um trono”. O conflito de The Messenger reside na relação do protagonista com uma viúva de guerra, na visão do crítico. Phillips destaca a interpretação de Foster e Harrelson afirmando que ambos tem um desempenho “sólido como uma rocha e muito comovente”, e que Samantha Morton empresta veracidade e “calor” suficientes para sua personagem. Para o crítico The Messenger não trata de uma guerra específica, mas se apresenta “tranquilamente universal”.

Finalizando a sequência de críticos que aprovaram The Messenger, cito Claudia Puig, do USA Today, que afirma, neste texto, que todos sabem que não devem atirar no mensageiro e, ainda assim, as reações violentas vistas em The Messenger ao que os protagonistas comunicam tem um “sentido trágico”. Ela considera que a história de “cortar o coração” ganha um fascínio especial pelas “performances soberbas” de seus atores, especialmente Ben Foster e Woody Harrelson. Puig também destaca o trabalho de Samantha Morton, classificando seu desempenho de “sutil” e “excelente”. Para a crítica, The Messenger apresenta um “olhar completamente diferente sobre a Guerra do Iraque e os seus efeitos sobre soldados e civis”. A crítica do USA Today classifica a produção como um “retrato de tristeza, amizade e consolo”, e destaca o senso de autenticidade “corajoso” impresso pelos roteiristas Oren Moverman e Alessandro Camon. Para Puig, The Messenger é um companheiro perfeito para The Hurt Locker, o filme mais “poderoso” sobre a Guerra do Iraque e um “dos melhores do ano”.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos efeitos da guerra sem, para isso, mostrar um único combate ou explosão. The Messenger lança um olhar “doméstico” sobre a Guerra do Iraque ao narrar a história de dois militares que tem como missão informar aos familiares de soldados mortos em combate sobre as suas perdas. Filmado com uma levada de documentário, este filme acerta a mão em seu trecho inicial mas, depois, cai em uma série de clichês desnecessários. Além de dar nomes e uma dimensão familiar para os números de uma guerra, The Messenger se lança em uma reflexão natural sobre o sentido do luto reinante. Com atuações convincentes e algumas sequências realmente emocionantes, The Messenger se diferencia de muitas produções do gênero, até um certo ponto, mas depois perde força ao ceder espaço para vários lugares-comum. Infelizmente a “inventividade” do roteiro não se sustenta por muito tempo. Ainda assim, The Messenger não deixa de ser um complemento interessante para o infinitamente superior The Hurt Locker.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Messenger foi indicado em duas categorias no Oscar deste ano: melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e Melhor Roteiro Original. Francamente, não vejo que o filme tenha chances nestas categorias. Por mais que Harrelson esteja muito bem no filme, ele não consegue superar o trabalho realmente impecável e inspirador de Christoph Waltz em Inglourious Basterds. Como roteiro The Messenger também perde para seus concorrentes. The Hurt Locker e Inglourious Basterds são superiores ao resultado final do trabalho de Alessandro Camon e Oren Moverman. Também gosto mais do roteiro dos irmãos Coen para A Serious Man. The Messenger, como eu disse antes, apresenta um roteiro muito irregular. Provavelmente o filme sairá de mãos vazias da premiação – seria uma zebra se ele ganhasse alguma das estatuetas.