Blade Runner 2049

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Um futuro bastante sombrio. Em todos os sentidos. Um mundo pós-catástrofe em que uma nova geração de replicantes é ainda mais obediente e facilmente “escravizada”. Grande parte da Humanidade não vive mais na Terra, e quem ficou para trás vive buscando manter o status quo e a separação entre humanos e não-humanos. Blade Runner 2049 avança na história do clássico original e faz um grande favor para todos nós, fãs de cinema: avança preservando a essência do original e agregando novas e interessantes informações. É um alívio e ao mesmo tempo um deleite ver uma “continuação” de um clássico que não nos decepciona. Pelo contrário. Baita filme. Gigante mesmo.

A HISTÓRIA: Começa com uma grande introdução. Nela, sabemos que após o colapso mundial de 2020, surgiu uma nova geração de replicantes. Estes novos modelos são muito mais “obedientes” que os anteriores. A corporação Wallace assume a frente da nova tecnologia e consegue, com os novos modelos, colocar fim na fome mundial, entre outras conquistas. Os modelos antigos de replicantes, agora, são caçados pelos novos que, a exemplo dos caçadores da geração anterior, também são chamados de Blade Runner’s. Corta. Um olho ocupa toda a tela. Em seguida, um veículo se desloca no céu sobre campos gigantes. Estamos na Califórnia em 1949. E começamos a assistir a mais uma caçada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blade Runner 2049): Antes de mais nada, deixa eu dizer: que filme fantástico! Como é bom assistir à sequência de um grande filme que consegue, com toda a dificuldade que esta tarefa significa, manter o grande nível. Isso não é nada fácil, e a história do cinema está aí para nos comprovar. Normalmente um grande filme, quando ganha uma sequência, tem o seu legado jogado por terra. Para a nossa sorte, dos amantes do cinema, não é isso que acontece com Blade Runner.

Devo dizer que é difícil ir no cinema e assistir a Blade Runner 2049 e não ficar arrepiado e/ou emocionado. Não, eu não cheguei a chorar. Mas sim, por dentro, fiquei muito emocionada. Porque, ainda que faz um tempo que eu assistir ao Blade Runner de 1982, algumas das cenas marcantes daquele filme – e a essência da sua história – continuam bem vivas na minha memória. Então eu vi a este novo filme, brilhantemente conduzido por Denis Villeneuve, entendendo todos os paralelos e toda a homenagem que o diretor fez para o original. E, ainda assim, apesar de todas as referências que o diretor faz para a produção de Ridley Scott (outro gênio do cinema), Villeneuve também consegue deixar a sua marca.

Amigos e amigas, isso não é nada fácil. Tão difícil quanto manter o grande nível de um clássico é você homenageá-lo na medida certa e conseguir, também, deixar o seu próprio estilo na nova obra. E isso é o que esse grande diretor Villeneuve consegue com Blade Runner 2049. Bem, como vocês podem ver, realmente eu gostei muito do filme. hahahahahaha. Porque estou primeiro me derretendo em elogios e nas sensações que eu tive ao assistir a este filme antes de falar propriamente do que eu vi na telona de um cinema praticamente lotado.

Então, após rasgar bastante a seda para Blade Runner 2049, vamos falar sobre a produção. Afinal, é para isso que estamos, não é mesmo? 😉 Primeiro de tudo, achei brilhante a introdução e o cartão-de-visitas do filme. Logo percebemos toda a proposta visual do novo Blade Runner – proposta esta que foi fundamental na primeira produção e que é tão importante quanto nesta nova. O futuro que temos pela frente, exatamente 30 anos depois do que se passa no primeiro filme – que é ambientado em 2019 -, é um futuro pós-apocalíptico.

Ou seja, ainda que moderno, com muitas luzes e publicidades “invasivas” nas grandes cidades, este futuro é ainda mais sombrio e desolado que o que vimos anteriormente. E faz sentido, convenhamos. Qualquer história pós-apocalíptica costuma mostrar os lugares que sucumbiram na mesma medida em que apresenta parte de cidades “reconstruídas”/reordenadas. Então a parte visual de Blade Runner 2049, algo fundamental para a história, é apresentada com muita coerência e de forma muito, muito interessante.

O diretor Villeneuve, juntamente com o grande diretor de fotografia Roger Deakins, mostram toda a sua experiência neste grande desafio de apresentar um filme que busque ser tão marcante quanto o original de Ridley Scott. E, volto a dizer, para a nossa sorte, eles conseguem. O visual de Blade Runner 2049 é fantástico. Convence pelos detalhes e evita o exagero. O que vemos em cena é coerente com a história, com o tempo que passou e com os fatos que aconteceram nos 30 anos que separam uma narrativa da outra.

Mas, como vocês sabem, e eu repito isso um bocado por aqui no blog, tão importante quanto as qualidades técnicas de um filme – e, na verdade, mais importante que isso – é o roteiro da produção. Então vamos falar sobre a história de Blade Runner 2049. Os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green, que trabalharam sobre uma história de Hampton Fancher, inspirado nos personagens de Philip K. Dick, foram “tradicionalistas”. Ou seja, eles não fugiram do óbvio – e, ainda assim, conseguiram nos apresentar uma produção bastante instigante e cheia de grandes momentos.

Por que eu digo que eles não fugiram do óbvio? Porque esta nova produção segue um bocado a fórmula do Blade Runner de 1982. Novamente nós temos um policial como protagonista. E a investigação que ele empreende é o que vai determinar o ritmo da história. Mas para filmes como este, agradecemos o caminho tradicional. Porque ele funciona muito, muito bem. Então, mais uma vez, nós temos um policial – desta vez o policial K interpretado por Ryan Gosling – que se depara com uma série de informações inesperadas quando ele vai cumprir mais uma missão normal.

Como o filme explica de forma sucinta naquela introdução que eu comentei acima, o policial K, que faz parte da nova geração de replicantes, tem como uma de suas missões “caçar” e eliminar/aposentar os modelos antigos de replicantes, os “revolucionários” (e por isso “falhos”) Nexus 8. O filme começa quando K vai executar uma destas missões. Ele encontra, em uma fazenda de proteínas, o “renegado” Sapper Morton (Dave Bautista), que sobreviveu à guerra travada em Calantha (um outro planeta em que replicantes guerreiam contra replicantes).

Sapper sabe que não vai sobreviver ao confronto com K, mas ele resiste o quanto pode. E, naquele momento, temos a primeira “pílula” de filosofia da produção – como bem manda o figurino de Blade Runner. Sapper comenta que K está matando os seus semelhantes porque ele acredita que só pode fazer aquilo. E ele só acredita no que lhe ordenam porque ele nunca viu a um milagre. Esta é uma ótima introdução. Porque, evidentemente, o que o filme nos propõe é a, justamente, nos falar deste milagre.

Blade Runner 2049, assim, nos apresenta logo de cara a sua essência. Ele é sim uma evolução do clássico Blade Runner. Uma continuação. Os fatos que vemos agora estão totalmente ligados – e são dependentes – do filme anterior. Então, meus caros, nem preciso dizer que é essencial você ter visto o primeiro filme para realmente entender o que se passa neste segundo filme, não é mesmo?

A impressão que eu tive no cinema, onde algumas pessoas saíram antes do fim do filme – seja de forma definitiva, seja volta e meia para comprar pipoca e afins – é que nem todos tiveram o cuidado de saber onde estavam “se metendo”. Ora, você não deveria ir no cinema sem ao menos saber que a produção que você vai assistir é uma continuidade de outra, não é verdade? Quanto desperdício de tempo e de entendimento… Certamente aquelas pessoas poderiam estar se deliciando com o filme tanto quanto eu – mas não. Enfim. Minha recomendação é que você realmente assistia a continuações depois de ter assistido à primeira (ou segunda, ou terceira, etc.) parte e que antecedem o que você está vendo.

Dito isso, voltemos para Blade Runner 2049. Algo que eu achei brilhante no filme é que Villeneuve não cede à ânsia da geração “filmes de HQ” e não acelera com a história. Muito pelo contrário. A exemplo do Blade Runner original, Villeneuve apresenta a sua nova história com um ritmo cadenciado e preciso, sem pressa e sem exageros. Tudo é apresentado com esmero, com cuidado, em uma narrativa que lembra mais os filmes europeus do que a profusão de efeitos especiais da era “Hollywood-HQs”. Francamente? Não poderia ser diferente.

Caso Villeneuve tivesse exagerado na dose dos efeitos especiais e apresentado uma narrativa acelerada, não teríamos algumas das melhores qualidades do Blade Runner original – e da sua “segunda parte”. Então o roteiro de Fancher e de Green e a condução segura de Villeneuve preservam o essencial do primeiro filme, que é focar em uma boa construção de um protagonista carismático e abrir frente para alguns questionamentos filosóficos. Verdade que o Blade Runner original era mais filosófico sobre a essência do que é ser humano e do que é “verdade”, sobre o que foi criado e o que foi gerado, mas neste novo filme temos novamente estas questões pela frente.

Então, a exemplo da produção de 1982, novamente é um policial – um Blade Runner – que nos conduz pela história. No original, Deckard (interpretado por Harrison Ford naquela primeira produção e agora) tem a missão de caçar um grupo de replicantes rebeldes e eliminá-los. Nesta sua busca, ele questiona a separação entre humanos e replicantes – que não são androides, como bem explica este vídeo do Sr. Elegante – e a própria sociedade em que esta divisão é baseada.

Pois bem, em Blade Runner 2049 várias questões similares são apresentadas. Para começar, um tema que me pareceu “gritar” no filme é o perigo de uma grande corporação como a Wallace dominar a sociedade. Assunto fundamental, eu diria, não apenas para o nosso tempo, mas para a possibilidade de futuro que temos. Hoje, cada vez mais grandes corporações se juntam/se compram e viram conglomerados gigantes que ameaçam “dominar o mundo”. E isso é algo muito presente em Blade Runner 2049.

A questão do papel de cada um – humanos e replicantes – também é novamente colocada em cena. Realmente uma civilização pode se sentir feliz e com a “consciência tranquila” sabendo que está novamente escravizando milhões de seres? Em Blade Runner 2049, a exemplo de Blade Runner, aparentemente está “tudo bem” porque os replicantes, no fim das contas, “não são humanos”. Então, como eles foram “criados” e não foram “gerados”, eles podem ser usados e descartados. Mas é isso mesmo?

Interessante que Blade Runner 2049, ao mesmo tempo que preserva a essência do clássico de 1982, também subverte uma questão importante da produção de Scott. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No Blade Ranner de 1982 – na versão final do diretor, atenção! -, descobrimos que Deckard é um replicante apenas no final. Até então, segundo a história, eramos levados a crer que ele era humano – e, por isso, estava “tranquilo” em caçar o que era diferente dele. No final, contudo, temos aquela reviravolta brilhante do roteiro de Hampton Fancher e de David Webb Peoples.

Pois bem, vejam que genial… em Blade Runner 2049 nós temos claro que o protagonista é um replicante desde o início. Não há dúvidas quanto a isso – percebam, ele acaba sendo o “inverso” do Deckard de Blade Runner, quando acreditamos que o protagonista é humano desde o princípio. Conforme Blade Runner 2049 se desenrola, contudo, tudo parece nos levar a crer que o replicante K não foi criado e sim gerado. Mas como ele é filho de dois replicantes – Deckard e Rachael (interpretada, no original, por Sean Young), o que ele ser gerado e não criado o torna?

Brilhante, não? Afinal, o que torna os replicantes diferentes dos humanos, na essência, é que eles são criados. Como aquele vídeo do Sr. Elegante bem nos lembra, os replicantes não são androides e não são clones. Ou seja, eles tem pele, carne, osso e órgãos como um humano. A diferença deles para nós é que eles são incapazes de sentir – ao menos era isso que acreditava e o que o Blade Runner de 1982 questiona – e que eles são criados e não gerados. Mas aí surge o Blade Runner 2049 com o seu “milagre”: um replicante que foi gerado.

Novamente, pois, temos o questionamento sobre uma civilização que é construída sobre a separação de duas espécies e sobre a supremacia de uma sobre a outra. Consequentemente, claro, temos o debate sobre a humanidade querendo fazer o papel de Deus. A partir do momento que avançamos tanto o nosso conhecimento científico ao ponto de podermos criar seres inteligentes e capazes até de sentir, o que fazemos com tudo isso? Viramos um Deus que escraviza e que subjuga ou um Deus que acolhe e que dá oportunidades para todos?

Os questionamentos do Blade Runner de 1982 seguem atuais e ganham novas perspectivas com o filme Blade Runner 2049. A escravidão é um dos fatos mais lamentáveis da história da humanidade. Mas esses filmes futuristas mostram que pouco aprendemos com o passado. Não importa se estamos falando de semelhantes ou de diferentes, já deveríamos ter aprendido que não podemos subjugar ninguém. Sobre estas questões, assim como o que nos faz humanos, é sobre o que os dois Blade Runner tratam.

A exemplo da produção de 1982, o novo filme também trata de uma investigação policial que, no fundo, é uma desculpa para uma jornada de autoconhecimento. O protagonista deste novo filme, muito bem interpretado por Ryan Gosling – que já é um dos grandes nomes de sua geração -, novamente acaba se descobrindo em um processo de saber quem ele é de verdade. E as respostas que ele alcança – incluindo aí uma bela reviravolta na história – são maravilhosas. Afinal, o que é uma lembrança de verdade? Afinal, o que é sentir de verdade? Todas estas questões filosóficas são levantadas pelo filme – e respondidas com esmero.

Todos nós somos “programados” a sentir e a pensar. Podemos ser “programados” a sentir ódio ou amor. Um replicante também, segundo os dois Blade Runner, pode ser programado a sentir estas e outras coisas – como nós, diga-se. Então o que nos diferenciaria, de verdade? Em Blade Runner 2049 uma pergunta fundamental que K faz é se as lembranças que ele tem de infância são reais ou foram criadas. E é assim que ela acaba conhecendo a Dra. Ana Stelline (Carla Juri) – a grande “surpresa” da produção.

Sim, a memória que ele tem da infância é real. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, você já sabe). Nós nos emocionamos quando algo é real. A Dra. Ana se emociona ao ver a memória de K, e ele afirma que sabe que aquilo é real. O que vamos descobrir depois é que aquela memória é real, mas não é dele. Mas na reta final da produção, K se questiona – e ele não precisa verbalizar isso – se era real o que ele sentia por Joi (Ana de Armas) e o que, afinal, é real para ele. Sim, o sentimento dele por Joi era real, assim como é real a neve que ele sente cair sobre o seu corpo no final.

Então, se os replicantes sentem/vivem da mesma forma com que os humanos, que direito esta segunda civilização tem de subjugar a primeira? Estas são questões levantadas pelos dois filmes e que continuam atuais, muito atuais. Também achei importantíssima a forma com que Blade Runner 2049 questiona uma sociedade em que uma grande corporação manda mais do que as autoridades – com bastante facilidade Luv (Sylvia Hoeks) mata quem estiver pela frente, seja humano, seja replicante. Daí nos perguntamos: em que tipo de sociedade com grandes corporações vigiando a quase tudo e todos nós mesmos estamos nos metendo?

Além de tudo isso, este filme sabe valorizar muito bem a construção da narrativa. Sabemos por onde a história vai e, mesmo assim, o roteiro nos reserva algumas surpresas interessantes. Também é importante que Blade Runner 2049 sabe valorizar muito bem o “grande encontro” tão esperado entre K e Deckard. Esse encontro demora para acontecer, e isso é positivo.

Quando finalmente chegamos no “face to face”, é quase impossível não se emocionar. É maravilhoso! Além disso, o filme sabe render muitas homenagens bacanas. Primeiramente, para o próprio Blade Runner de Scott. E, depois, para vários elementos da cultura humana que marcaram época e que são devidamente reverenciados neste filme – como Elvis e Frank Sinatra, entre outros.

Enfim, não importa sob que ótica olhemos para este filme. Se analisamos a sua história e a forma com que ela está ligada de forma umbilical com o Blade Runner de 1982; ou se analisamos a construção visual, a direção detalhista e dinâmica de Villeneuve; a construção dos personagens e da narrativa; o gostinho de “quero mais” e a expectativa que o filme deixa para uma continuação… enfim, qualquer aspecto do filme, tanto técnico quanto narrativo, funciona com perfeição.

Quando eu sai do cinema, fiquei pensando sobre que nota eu daria para a produção – depois de ficar um tanto “perplexa” e “maravilhada” com o que eu tinha visto. Pensei, pensei muito, e me questionei se não seria um “exagero” dar a nota máxima para Blade Runner 2049. Afinal, este filme é uma continuação de um dos grandes clássicos de todos os tempos. Mas daí refleti sobre tudo que eu comentei acima, de como este novo filme faz jus e homenageia de maneira perfeita o anterior… de como ele continua bem a história. Pensei em todas as qualidades citadas e conclui: sim, ele merece a nota abaixo. Com louvor. Dificilmente eu assisti a um filme mais de uma vez. Mas acho que vou colocar Blade Runner 2049 nesta seleta lista. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é um filme que, facilmente, rende um texto gigantesco. Como vocês viram acima. 😉 E isso porque eu nem vou esgotar o assunto de Blade Runner 2049 aqui neste texto. Decidi apenas focar nos pontos principais – do contrário, realmente este texto ficaria gigante demais. E, sou franca, tenho me policiado um pouco nisso. Não quero me estender demais…

Esta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de 92 países que estão concorrendo a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira da premiação que será entregue em 2018. Ou seja, já comecei a ir atrás destas produções para começar, logo mais, a sequência de críticas aqui no blog com vistas ao Oscar 2018. Mas aí que veio a surpresa de assistir a Blade Runner 2049… e, claro, é ainda cedo para fazer apostas para o próximo Oscar, mas eu desconfio que este filme será lembrado.

Sendo assim, meus caros, começo com este maravilhoso Blade Runner 2049 a seção “Oscar 2018” aqui do blog. 😉 Estamos muito longe ainda da premiação da Academia. Então não dá para saber quais são todos os favoritos e se Blade Runner 2049 terá fôlego de chegar com força até o Oscar. Mas, da minha parte, acho sim que seria uma grande falha da Academia se eles não indicassem este filme em algumas categorias. Para começar, pelas óbvias, técnicas. Acho que Blade Runner 2049 tem boas chances de concorrer como Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Diretor e, quem sabe, podendo concorrer até 10 produções, como Melhor Filme. Ou seja, não seria difícil o filme receber a partir de seis ou oito indicações – podendo superar este número.

Tudo vai depender do lobby que será feito para esta produção e sobre a capacidade de Blade Runner 2049 chegar com força no próximo Oscar. Poderiam rolar algumas indicações para elenco? Certamente. A conferir.

Bem, sobre as qualidades técnicas do filme, já dei uma prévia acima ao citar as categorias para as quais esta produção pode se credenciar no Oscar. Para começar, a direção de fotografia de Roger Deakins é algo espetacular. Ele faz um trabalho primoroso, assim como Denis Villeneuve ao valorizar cada elemento que ele tinha em cena. Assisti Blade Runner 2049 em um cinema 3D. Este recurso foi bem usado, ainda que ele apareça mais para ajudar na profundidade das cenas e de forma pontual em alguns detalhes – mas não é algo realmente exuberante. A parte bela fica realmente com a construção visual da produção. Ou seja, precisamos tirar o chapéu para Deakins e para o design de produção de Dennis Gassner. Brilhante o trabalho dos dois.

Desta parte técnica e visual do filme, vale ainda comentar o ótimo trabalho de David Doran, Bence Erdelyi, Lydia Fry, Paul Inglis, Tibor Lázár, Gergely Rieger, Stefan Speth e Zsolt Tarnok na direção de arte; o de Alessandra Querzola com a decoração de set; o de Renée April nos figurinos; o trabalho dos 109 profissionais do departamento de arte; os 38 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; e o trabalho excepcional do impressionante número de 381 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Um outro aspecto que eu achei maravilhoso no filme é a trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch e de Hans Zimmer. Francamente? Acho que ela também poderia ser indicada ao Oscar. Ainda que eu acho que, por ser mais “experimental” e quase cirúrgica, a trilha sonora de Blade Runner 2049 tenha uma certa “dificuldade” de cair no gosto da Academia ao ponto de ser indicada. Mas não seria surpreendente se o fosse.

Este filme é todo feito com esmero. Dá para perceber isso. Cada aspecto visual foi bem pensado e planejado, assim como cada elemento que compõe a produção – da trilha sonora até a escolha do elenco feita à dedo. Também é muito bacana ver que Hampton Fancher, responsável pelo ousado roteiro da primeira produção, voltou a assumir este papel de liderança neste novo filme. Importante.

Harrison Ford é Harrison Ford. Ele é um dos atores mais carismáticos e com uma trajetória das mais incríveis da história do cinema. Mas, guardadas as devidas proporções, Ryan Gosling consegue ser tão carismático quanto Ford ao protagonizar, como este grande ator, um Blade Runner. Villeneuve, claro, ajuda muito Gosling neste processo – assim como Scott ajudou, na sua época, Ford. Enfim, quem assistiu ao clássico não sofre muito com um novo protagonista. Muito pelo contrário. Gosling consegue com louvor despertar um real interesse pelo seu personagem.

Este filme tem alguns belos atores em seu elenco. Claro que a história orbita totalmente ao redor do personagem de Gosling. Ele é o protagonista e a pessoa que dita a narrativa. Mas outros atores também fazem um belo trabalho sempre que aparecem em cena. Neste sentido, claro, impossível não elogiar o excelente trabalho de Harrison Ford – que aparece menos do que gostaríamos, mas está maravilhoso. Tem uma presença maior e estão muito bem a ótima Robin Wright como a chefe de polícia Joshi; Ana de Armas encantadora como Joi, namorada virtual de K; Sylvia Hoeks como a vilã perfeita como Luv; Jared Leto enigmático como o mega empresário Niander Wallace; e Mackenzie Davis ótima como Mariette, uma garota de programa que se revela mais do que isso no final.

Além destes atores, que tem uma relevância maior na história, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Dave Bautista como Sapper Morton; Lennie James (conhecido por The Walking Dead) como Mister Cotton, explorador de crianças no orfanato; Barkhad Abdi como Doc Badger, contrabandista que ajuda o protagonista a identificar a origem do cavalo de madeira; Tómas Lemarquis que recebe K e o ajuda no início da investigação sobre a “replicante que foi mãe”; Edward James Olmos novamente como Gaff; e Hiam Abbass como Freysa.

Honestamente, eu espero que surja uma sequência de Blade Runner 2049 logo. Afinal, esta nova produção terminou com um gostinho de quero mais e levantando uma lebre super interessante de ser explorada em um novo filme. Torço para que a dupla Fancher e Villeneuve voltem a trabalhar juntas… e logo. 😉

Por falar no Villeneuve. Este diretor canadense tem 16 produções no currículo, entre curtas e longas e, para mim, é um dos diretores mais interessantes do mercado atualmente. Eu não assisti a todos os filmes dele, mas gostei de tudo que eu vi até agora. Aqui no blog eu tenho comentados, de Villeneuve, os filmes Prisoners, Enemy e Arrival. Todos acima, bem acima da média. E agora ele nos entrega este brilhante Blade Runner 2049… realmente precisamos ficar de olho em Villeneuve e no que ele nos apresenta.

Vou aproveitar que acabo de falar do diretor para começar a minha lista de curiosidades sobre esta produção com um comentário de Villeneuve. Ele falou sobre a enorme pressão que ele estava sentindo para fazer Blade Runner 2049: “Eu sei que cada fã (do filme original) vai entrar no cinema com bastão de beisebol. Estou ciente disso, e respeito isso. Estou bem com isso porque isso é arte. E a arte é um risco, e eu tenho que correr riscos. Este será o maior risco da minha vida, mas eu estou bem com isso. Para mim, é muito emocionante… é tão inspirador! Estou muito inspirado. Sonho em fazer ficção científica desde os 10 anos de idade e eu disse ‘não’ para muitas sequências (de filmes). Mas eu não podia dizer ‘não’ para Blade Runner 2049. Eu amo demais o filme e então eu disse ‘Tudo bem, vou fazer este filme e dar tudo de mim ao fazê-lo”. Como não admirá-lo?

A primeira escolha de Villeneuve para o personagem de Wallace foi David Bowie. Mas o artista faleceu antes do início das filmagens. Realmente teria sido incrível Bowie como Wallace…

A cena que dá início para a produção, do confronto de K com Sapper Morton, é uma filmagem praticamente exata de uma sequência escrita e com storyboard feito para o Blade Runner original mas que nunca foi rodada.

Inicialmente, Villeneuve resistiu à ideia de fazer uma sequência para Blade Runner porque ele achou que poderia “estragar” a visão que as pessoas tinham do original. Mas quando ele leu o roteiro que, segundo Villeneuve e Harrison Ford, foi um dos melhores que eles já leram, o diretor resolveu embarcar no projeto. Antes mesmo do diretor aceitar o desafio, Harrison Ford já tinha se comprometido com o filme – assim como Ridley Scott, que é um dos produtores executivos da produção.

Existem três curtas planejados para “preencher” a lacuna temporal entre o primeiro Blade Runner e o segundo filme, Blade Runner 2049. O primeiro curta, comentado neste post, é Black Out 2022 – aliás, interessante ver aquele link porque ele traz uma cronologia importante dos fatos entre 2019 e 2049. O segundo curta, 2036: Nexus Dawn, e o terceiro, 2048: Nowhere to Run, completam a trilogia com fatos importantes da história. O primeiro dos curtas é dirigido por Shinichirô Watanabe, e o segundo e o terceiro, por Luke Scott.

O papel do novo Blade Runner, K, foi escrito tendo o ator Ryan Gosling em mente. E ele foi sempre a primeira e única opção do diretor Villeneuve.

Blade Runner teve várias versões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas na última lançada é que fica claro que Deckard é um replicante. Nas demais, a dúvida sobre ele ser humano ou um replicante fica no ar – e depende de cada espectador chegar a uma resposta. O diretor Denis Villeneuve disse que ele tentou deixar esta questão sobre Deckard no ar também no novo filme. “Eu amo o mistério. Adoro sombras. Adoro dúvidas. Gostaria apenas de dizer para os fãs que cuidamos deste mistério”, comentou o diretor.

Falando nas diferentes versões de Blade Runner, Villeneuve disse que ele sempre foi marcado pela primeira versão – aquela da qual Ridley Scott não gosta – e, depois, ficou impressionado também com o “Final Cut” (a versão final de Scott). Então ele desenvolveu o seu próprio filme se inspirando nestas duas versões de Blade Runner.

Para fazer o papel do cego Niander Wallace, o ator Jared Leto utilizou lentes de contato opacas que, de fato, faziam com que ele não enxergasse nada.

Agora, uma curiosidade pessoal sobre esta produção. Eu fui para o cinema crente que Blade Runner 2049 tinha poucos minutos além de duas horas. Vi mal a duração… e por mais que eu achei a produção um pouco longa, enquanto estava no cinema – não parei para ver a hora em momento algum -, eu não senti que o filme tem realmente as 2h43 que ele tem. Curioso, não? Sim, enquanto estamos assistindo a esta produção, achamos ela um pouco longa… mas, ela acaba passando mais rápida do que o tempo que ela realmente tem.

Faço uma pausa aqui para publicar esta crítica e depois volto para mais curiosidades sobre a produção… 😉

Voltando… 😉 Olhem que curioso… Joi sugere para K, que pode estar descobrindo uma nova origem para si mesmo, o nome de Joe. Joe vem de Joseph. O personagem Josef K é o protagonista de um dos romances de Kafka, onde este protagonista é acusado de um crime. Mas nunca fica claro, exatamente, qual seria este crime que ele teria cometido. Essa pode ser uma metáfora para a própria vida do K de Blade Runner 2049. Afinal, ele tem toda a sua existência questionada e não sabe muito bem como isso acontece.

A data escrita no cavalo, e uma peça importante da história, 6.10.21, marca quatro anos no futuro em relação à data de estreia de Blade Runner 2049 – que teve a estreia mundial em 6 do 10 de 2017. 😉

Ridley Scott pensou em, inicialmente, dirigir Blade Runner 2049. Mas como Alien: Covenant acabou ocupando grande tempo do diretor e simultaneamente, Scott resolveu atuar apenas como produtor executivo e consultor criativo do novo Blade Runner.

Falando sobre uma possível continuação deste filme, achei uma declaração interessante de Ridley Scott. Segundo o diretor do primeiro Blade Runner e produtor deste segundo filme, Harrison Ford vai retomar mais uma vez o personagem de Deckard. “Conversamos por um longo tempo sobre como poderia ser esta continuação, e surgiu uma história de três atos muito forte. Tudo faz sentido em como estas histórias se relacionam com a primeira”, comentou. Ou seja, provavelmente teremos ainda uma terceira parte – e Blade Runner seria, assim, uma trilogia. Estou na expectativa já. 😉

Blade Runner 2049 estreou no dia 4 de outubro no Festival de Cinema de Zurique e em dois países, a França e a Bélgica. No Brasil e em outros países ele estreou no dia 5 de outubro e, nos Estados Unidos, apenas no dia 6.

Esta produção foi rodada em diferentes locais da Hungria e teve algumas cenas rodadas na Espanha e na Islândia – estes dois últimos países foram utilizados apenas para cenas aéreas.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Blade Runner 2049 também pode fazer uma bela trajetória de prêmios. Para começar a sua coleção, ele já abocanhou dois: Melhor Teaser no Golden Trailer Awards e “Most Anticipated of 2017” segundo o Indiewire Critic’s Poll.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Canadá.

Blade Runner 2049 recebeu a nota 8,6 dos usuários do site IMDb – uma nota excepcional para os padrões do site, devo dizer – e ganhou 212 críticas positivas e 27 negativas segundo os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Esse nível de aprovação acaba sendo de 89% no Rotten Tomatoes, com uma nota média de 8,2.

Não tenho dúvidas que Blade Runner 2049 será uma das maiores bilheterias do ano. Dá para sentirmos isso com o resultado do filme no seu final de semana de estreia: ele entrou em cartaz no dia 6 de outubro nos Estados Unidos e faturou, até o domingo, dia 8, US$ 31,52 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 50,2 milhões. Ou seja, em poucos dias, faturou US$ 81,7 milhões. O custo de Blade Runner foi de US$ 150 milhões. Ou seja, pelo andar da carruagem, facilmente ele vai obter um belo lucro. Sem contar que esta produção tem grandes chances de levar as pessoas para uma segunda vez no cinema – será o meu caso. Então a trajetória dele será de belo lucro por semanas.

CONCLUSÃO: Blade Runner, o original, marcou época, inspirou vários outros filmes e se tornou um dos grandes filmes do gênero. Como outras produções, pensar em um filme que seja a continuidade de algo tão bom sempre dá medo. Mas aí vem o diretor Denis Villeneuve, um dos grandes de sua geração, e nos apresenta algo coerente, interessante, marcante. Claro, não é revolucionário como o original. E, cá entre nós, para este gênero, acho improvável que algo revolucionário ainda surja. Mas um filme não precisa ser revolucionário para ser ótimo. E este é o caso de Blade Runner 2049. Agora, para você saber exatamente tudo que este filme agrega, importante ter visto o primeiro Blade Runner. Esta continuação está à altura do original, mas com alguns elementos que fazem os fãs delirarem. Um grande deleite. Marcante e, para mim, inesquecível.

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Le Congrès – The Congress – O Congresso Futurista

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O cinema é feito de imaginação. Alguns filmes sabem e/ou preferem usar mais este recurso que outros. Le Congrès é um destes exemplares que mergulha fundo na imaginação. Dos realizadores e, consequentemente, do espectador. A exemplo de Sen to Chihiro no Kamikakushi (A Viagem de Chihiro) e outros filmes “viajandões”, Le Congrès exige um pensamento menos apegado à realidade e mais livre. Porque ele nos leva por lugares surpreendentes.

A HISTÓRIA: Robin Wright está sentada, e chora. O olhar fixo dela para a frente muda de direção quando Al (Harvey Keitel) chama a atenção da atriz. Ele diz que a ama, e que sempre esteve com ela. Em todas as situações, mesmo quando ela, com medo, tentava desistir de um projeto. Muitas vezes, Robin usava o filho Aaron (Kodi Smit-McPhee) como “desculpa” para fugir dos compromissos, acusa Al. Que continua dizendo que a história da vida dela foram as escolhas ruins. Mas que agora ela não deve errar novamente e ceder em um contrato que a afastará definitivamente da profissão de atriz. Robin deve pensar bem a respeito, colocando na balança suas crenças e aspirações.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Le Congrès): Foi com certo choque que eu assisti aos primeiros minutos deste filme. Isso porque, estimulada pelo cartaz de Le Congrès, eu esperava um filme inteiro animado. Mas não. Uma boa parte desta produção é de cenas filmadas, com atores reais. Nada que impeça que lá pelas tantas a história mergulhe no terreno que o diretor Ari Folman sabe tão bem explorar: o da animação.

Outro elemento que me impressionou, logo no início deste filme, foi o realismo da produção. Pelo título original – e mesmo pela adaptação dele no mercado brasileiro -, eu estava esperando tudo, menos uma história que começasse tratando de algo tão realista quando a supremacia dos grandes estúdios sobre o trabalho dos atores e dos demais profissionais que fazem o cinema.

O roteiro escrito por Folman, uma adaptação do romance The Futurological Congress do escritor Stanislaw Lem, acaba sendo mais crítico do que eu esperava. Se bem que nada disso é totalmente surpreendente vindo de Folman, a figura responsável pelo ótimo Vals Im Bashir (comentado aqui no blog). Pensando no histórico do diretor, seria impossível não imaginar que o novo filme dele teria uma pegada crítica.

Desta vez o alvo de Folman é o cinema e a necessidade das pessoas saírem cada vez mais de sua própria realidade para conseguirem sobreviver. Nesta crítica, ele mistura a realidade com a fantasia, exagerando nas cores sem, contudo, tornar o cenário futurista descolado da realidade atual. É como se tivéssemos um futuro com uma pegada de realidade exagerada. Ou, para o gosto de alguns, um futuro possível – mas com algumas lacunas lógicas que precisariam ser explicadas.

Há algum tempo a lógica do cinema dos grandes estúdios foi suplantada por uma outra lógica: a dos atores e diretores sindicalizados e melhor organizados, com poder suficiente para bancar os seus próprios projetos e/ou conseguir convencer os estúdios para embarcar em um determinado filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda assim, em Le Congrès o diretor e roteirista Folman defende o argumento que nada mudou tanto assim.

No fundo, para os executivos dos estúdios, os atores e seus “gênios” (leia-se personalidade, aquilo que faz com que eles não cumpram os prazos ou digam “amém” como os executivos gostariam) são um atraso de vida. Eles apenas prejudicam a eficiência em conseguir cada vez mais dinheiro. E ainda que este filme seja exagerado na dose, é evidente que os executivos – e não apenas do cinema – pensam assim. Personalidade não é algo que facilite a vida deles.

Não sabemos exatamente em que momento a história de Le Congrès começa. Mas os realizadores dão a entender que seria em um futuro próximo. Nesta fase da “evolução” humana, a tecnologia relacionada ao cinema avançou ao ponto de que é possível escanear um ator, seus gestos e expressões ao ponto de que histórias inteiras poderão ser criadas depois, em computador, utilizando aqueles dados para conseguir uma “interpretação” daquele ator/atriz.

O que está em jogo, então, não é o talento, e sim o direito de imagem. E é neste ponto em que encontramos a personagem/atriz Robin Wright. O agente que a acompanha nos últimos 24 ou 25 anos, Al, está tentando convencê-la a assinar um contrato com o grande estúdio para o qual ela trabalha no qual ela abre mão de sua imagem. Faz parte das regras ela abandonar a carreira – não poderá mais atuar como atriz em parte alguma, nem na TV, no teatro, ou em qualquer outro lugar.

Robin vai ganhar tanto dinheiro com isso que não precisará se preocupar mais com trabalhar. Por um lado, a perspectiva parece boa. Afinal, ela tem um filho com uma doença grave, Aaron, com quem ela quer passar mais tempo e se dedicar mais. Mas por outro, e aí a dúvida da personagem, ela terá que abrir mão do próprio talento. Sem contar a capacidade de escolher em que projetos a sua “personagem” (ela mesma, mas virtual) poderá se envolver.

A premissa é muito louca mas, se pararmos para analisar, bastante coerente com os desejos de algumas corporações. Para as quais pouco importa o talento ou a vontade humana. O que interessa mesmo é o dinheiro e o lucro. O cinema atual utiliza tanto a tecnologia em alguns filmes, com vários personagens sendo criados totalmente por CGI – vide a grife The Lord of the Rings ou Avatar), que não seria uma surpresa, em breve, alguém cogitar de abrir mão totalmente dos atores.

Claro que a possibilidade de toda a categoria se render a essa ideia me parece exagerada. Sempre haverá atores mais “engajados” em dar voz ao próprio talento e que não vão abrir mão disso por causa de outras prioridades – como a família. Mas aí que Folman toca em um ponto interessante: a indústria dizendo que aqueles que não entrarem no jogo vão não apenas perder dinheiro, mas serem totalmente esquecidos.

E essa lógica é a mesma de qualquer indústria forte mundo afora. Quem domina um mercado – de canais de TV até jornais, grupos editoriais, estúdios de cinema e por aí afora – acaba colocando as cartas na mesa e pressionando os “peões de chão de fábrica”. O trabalhador é pressionado com “se você não quer aceitar isso, há quem queira”. E daí as pessoas cedem. Sempre e quando não se unem, evidentemente.

Pois bem, Robin acaba sendo pressionada por todos os lados e cede. Como outros atores. Ela negocia o próprio contrato – um dos pontos mais interessantes do filme, quando o próprio cinema é questionado. O advogado especialista em contratos de escaneio, Steve (Michael Stahl-David), orienta Robin sobre os detalhes do que eles devem propor para o estúdio – o nome do estúdio, Miramount, aliás, brinca com o real estúdio Paramount – falarei mais desta escolha mais abaixo.

No fim das contas, Robin, taxada como uma atriz que só fez escolhas ruins na carreira – uma paródia sobre a própria atriz e, através dela, de muitas outras intérpretes que nunca “decolaram” pra valer ou demoraram para fazer isso -, acaba cedendo à pressão. Assina um contrato por 20 anos – que, depois, deve ser renovado, podendo mudar as regras estabelecidas.

E é então que o filme dá um salto para o futuro. Robin Wright, até então, interpreta a sua personagem em carne e osso. Quando o contrato termina, ela é chamada para o Congresso Futurista da Miramount. O local: um hotel paradisíaco planejado para encantar as pessoas alucinadas por viver os seus personagens e/ou encarnar os seus atores preferidos do cinema. Em mais uma crítica à própria indústria, a história só aí mergulha na animação.

E aí, meus amigos e amigas, é quando Folman destila toda a sua liberdade “poética”. O filme faz uma guinada poderosa pela psicodelia, com o característico excesso de cores e de trocas de cenários e personagens. No hotel, Robin se depara com frequentadores que vivem tomando suas poções de “escape”. E daí entra outra crítica poderosa da produção: desta vez, o foco não é o cinema, mas o público dele (e da TV, e outros meios), cada vez mais sedento por viver a vida do outro e não a própria vida.

Ah, meus caros, é aí que o filme entra em uma “bad trip”. Porque, e isso você só vai pensar melhor depois, já que a narrativa entra em uma velocidade mais acelerada, como apenas a animação poderia permitir, nada mais chocante do que vermos a nossa realidade atual potencializada em um futuro alucinógeno literalmente. Convidadas pelo estúdio Miramount que, como é o sonho de qualquer “indústria do entretenimento” atual, virou muito mais que um estúdio, as pessoas passam a embarcar em uma vivência totalmente deslocada da realidade.

E não é isso o que muitas drogas fazem com os indivíduos atualmente? Levá-las para um “mundo” de prazer e êxtase no qual elas esquecem da própria vida? O problema das drogas atuais é que elas provocam isso por apenas alguns instantes e, nem sempre, deslocando a pessoa totalmente da realidade. Mas em Le Congrès, no futuro da Miramount, eles chegaram ao ponto de conseguirem substâncias que podem fazer as pessoas acreditarem que são o que elas querem ser.

A personagem de Robin fica chocada com o que vê. E tenta falar, para uma multidão, o que qualquer pessoa sã falaria: de fato vale se descolar da própria realidade para viver a vida de outra pessoa que, no fim das contas, também é feita de carne e osso? Isso sim eu chamo de dar um tapa na cara da sociedade! Mesmo sem ir para o futuro, falando dos tempos atuais, quantas pessoas passam horas, dias, meses de suas vidas lendo notícias sobre artistas e sonhando em ser igual a eles/as? E para que, no final? Na realidade não somos todos feitos das mesmas substâncias?

O duro é as pessoas perceberem isso e passarem a viver a própria vida, dedicando a sua energia, tempo e talento para mudar a própria realidade e o mundo ao redor para o bem. Le Congrès argumenta que é mais “fácil” e/ou convidativo as pessoas viverem a vida dos personagens e/ou astros preferidos e não a própria e “ordinária” vida. Com a ajuda de Dylan Truliner (com a voz de Jon Hamm), o desenhista que trabalhou com a imagem de Robin escaneada nos últimos 20 anos,  a atriz consegue se despedir daquele mundo animado e de ilusão e voltar para o mundo real.

O objetivo dela é procurar o filho, que ficou sozinho enquanto ela era mantida congelada após passar por uma forte crise de “descolamento” da realidade com a invasão do paraíso onde o Congresso Futurista estava sendo realizado. Robin não sabe se vai conseguir encontrar Aaron, mas ela se agarra à última oportunidade que ela tem para encontrar o filho.

Na reta final da produção, Folman não deixa o espectador sem uma resposta. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Ele poderia ter feito isso, ter deixado a história em aberto – no estilo “uma mãe que segue procurando o seu filho”. Mas não. Ele não quer nos dar falsas esperanças. Os dois filhos de Robin, movidos por razões diferentes, se entregam àquela vida de ilusão da qual a atriz queria escapar.

Qual pode ser a saída de Robin para reencontrar o filho? O médico e amigo da atriz, Dr. Barker (Paul Giamatti) aponta para a única direção possível: ela também deve entrar naquela mundo de ilusão. Mas como todas as outras pessoas que abraçaram aquela realidade, ela deve escolher que “personagem” ela quer encarnar. E daí vem o golpe de mestre final de Folman: Robin escolhe “viver” a vida do filho, Aaron.

Passando por tudo que o garoto passou, da infância até a vida adulta, ela consegue, finalmente, encontrá-lo no mundo de fantasia. Afinal, ela vivenciou tudo que ele passou e pensava como ele. Um final lindo, poético e aconchegante. Ainda que Robin tenha, no final, se entregado para aquela realidade que ela combatia. Tudo, afinal, por causa do amor. Existe algum motivo mais nobre?

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não foi por acaso que Le Congrès brinca com o nome da Paramount. Este estúdio, criado em 1912, foi um dos maiores e um dos mais lucrativos da Hollywood dos anos 1920, 1940 e 1970. Ou seja, participou ativamente de uma era em que os estúdios ditavam todas as regras – antes dos atores e diretores começarem a ter mais voz. Além disso, a Paramount soube investir no apelo de estrelas, da animação e, mais recentemente, na alta tecnologia. Elementos importantes para a história de Le Congrès.

Este é um filme que mistura fantasia, realidade, ficção e animação. Por isso mesmo, não dá para cobrar lógica na história o tempo todo. Mesmo sabendo disso, devo comentar alguns “detalhes” que chegaram a me incomodar no filme ao ponto de não considerá-lo irretocável. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Me incomodou, especialmente, a falta de viabilidade daquele futuro em que todas as pessoas vivem em ilusão permanente – após Robin voltar da hibernação “congelada”. Quando ela “cai na realidade”, vê um monte de gente suja, que parece em transe, andando pra cá e para lá – ou parada.

Certo. (ALERTA – o SPOILER continua neste parágrafo). Mas se todos vivem em uma realidade de fantasia, quando elas fazem as necessidades básicas – tipo comer, ir no banheiro, dormir, etc. Não me digam que estas necessidades vitais passam a não valer mais… porque, no fim das contas, as pessoas seguem tendo corpos, correto? E se existe carne e osso, existem as necessidades básicas para manter os corpos saudáveis. Não parece que estes cuidados faziam parte daquela realidade, o que me parece totalmente irreal. E beleza se não tivéssemos saído da vida fantasiosa, mas ir para aquela realidade sem que ela fizesse sentido, me pareceu um descuido dos realizadores de Le Congrès. Esse é o único problema da produção.

Gostei do trabalho de todos os atores envolvidos neste projeto. Mas é impossível não destacar o excelente desempenho de Robin Wright que, digamos assim, se “auto-interpreta”. Claro que o diretor e roteirista Ari Folman soube explorar alguns dados reais da atriz para construir esta personagem de Le Congrès – tornando ainda mais evidente a brincadeira e mistura entre ficção e realidade.

Vejamos: Robin Wright, a atriz na vida real, também teve dois filhos, a exemplo da Robin Wright de Le Congrès. No filme, ela também está educando os dois filhos sozinha – Robin Wright foi casada duas vezes, primeiro com Dane Whiterspoon (entre 1986 e 1988) e, depois, com Sean Penn (entre 1996 e 2010). Com o segundo, teve dois filhos: Dylan e Hooper – a garota tem 22 anos e o rapaz, 20. Eles aparecem juntos nesta matéria da Daily Mail. Mas diferente do garoto de Le Congrès, Hooper não tem uma doença grave e já começou a trilhar o caminho dos pais, atuando como ator. A irmã, Dylan, também está começando a experimentar na profissão.

Para muitos críticos, Robin Wright foi a típica promessa que nunca se cumpriu. Na vida real, a atriz de fato recusou papéis importantes – seja porque descobriu que estava grávida, a exemplo dos papéis que deixou para trás em The Firm ou Robin Hood: Prince of Thieves, seja porque não acreditava nos projetos, como em Batman Forever ou Sabrina, entre outros. Da minha parte, sempre achei ela uma ótima atriz, mas que nem sempre foi valorizada. Por isso mesmo, fico feliz com o acerto dela com a ótima série House of Cards. Finalmente Robin Wright parece estar tendo o reconhecimento merecido. E em Le Congrès ela dá um show, mais uma vez.

Todos os atores de Le Congrès estão bem. Além dos já citados na crítica, vale comentar o bom trabalho de Danny Huston como o executivo Jeff, aquele que está sempre negociando com Robin no filme; e Christopher B. Duncan como Christopher Ryne, o responsável por escanear os atores que aderiram ao projeto da Miramount. Além deles, fazem pontas na produção Michael Landes como Maxi, que “contracena” já no novo modelo de produções com a imagem da atriz Michelle, interpretada por Sarah Shahi; e Evan Ferrante dá a voz para o Tom Cruise que encontra Robin no Congresso Futurista. Durante o filme eu não reconheci a voz de Jon Hamm, conhecido pela série Mad Men, para o personagem Dylan. Mas ele faz um bom trabalho na dublagem.

Da parte técnica do filme, destaco a sensibilidade e o estilo do diretor Ari Folman. Ele tem claro qual é a proposta que quer consolidar e como conseguir passar a sua mensagem. Conhece sobre cinema e sabe explorar seus diferentes recursos, das cenas dramáticas reais até a animação, para envolver o público em sua história crítica e cheia de fantasia. Muito bom! Também gostei da direção de fotografia de Michal Englert, que soube valorizar bem a luz da parte filmada de Le Congrès. Vale citar ainda a trilha sonora de Max Richter e a ótima edição de Nili Feller.

Menção especial para a equipe de 20 profissionais coordenados por Yoni Goodman e que foram responsáveis pela parte de animação do filme. Ótimo trabalho – ainda que eu tenha achado menos potente que o feito em Vals Im Bashir (comentado aqui).

Le Congrès estreou em maio de 2013 no Cannes Director’s Fortnight. Depois, o filme participou de 13 festivais mundo afora. Nesta trajetória, recebeu cinco prêmios e foi indicado a um sexto. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Filme de Animação no Festival de Cinema Europeu.

Antes de Robin Wright ser confirmada para o papel de protagonista de Le Congrès, Cate Blanchett foi sondada para o filme.

Le Congrès foi rodado em Los Angeles.

Esta é uma produção de Israel com co-produção da Alemanha, Polônia, Luxemburgo, França e Bélgica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para Le Congrès. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 textos positivos e dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 6,8 – uma rara coincidência de nota entre público e crítica.

CONCLUSÃO: Este não é um filme para quem não sabe viajar. Tanto na história quanto na interpretação dela. Le Congrès exige uma mente desapegada do materialismo e que possa viajar como a pipa de um dos personagens centrais. Ainda assim, este filme não deixa de ter algumas âncoras bem fincadas na realidade. Tanto que chega a ironizá-la e exagerá-la. Há crítica nesta produção, assim como um desejo profundo de falar de valores que são fundamentais – e nem sempre lembrados. Uma bela produção, que vai ganhando contornos e interpretações conforme vamos pensando nela. Le Congrès, como vários outros filmes, não termina quando acaba.

The Conspirator – Conspiração Americana

Uma nação forte pode ser consolidada sobre uma mentira? A justiça pode ser massacrada em momentos de conflito com a justificativa de que isso será feito para um “bem maior”? Robert Redford segue a sua jornada em busca de uma visão crítica dos Estados Unidos ao retomar uma história pouco conhecida de seu país neste The Conspirator. O filme mistura crime, drama, política e conflitos de tribunal. É uma história interessante, curiosa, e que ajuda a fazer uma revisão histórica das origens dos EUA.

A HISTÓRIA: Soldados mortos, caídos no chão. Um sobrevivente daquele campo de batalhas conta para um outro sobre a história de dois homens que chegaram às portas do Paraíso. O capitão Frederick Aiken (James McAvoy) está ferido, mas tenta distrair o amigo Nicholas Baker (Justin Long), que está tendo convulsões. Quando o socorro chega, Frederick ordena que Nicholas seja levado primeiro. Dois anos depois, no dia 14 de abril de 1865, os amigos estão juntos para comemorar a vitória dos estados do Norte dos Estados Unidos na Guerra Civil Americana. William Hamilton (James Badge Dale) questiona se o grupo não está comemorando antes do tempo, mas Nicholas afirma que o general Lee rendeu-se ao general Grant, e que isso deveria ser comemorado. Naquela noite, no Teatro Ford, o presidente Abraham Lincoln (Gerald Bestrom) sofreria um atentado. Mais tarde, Frederick, que é advogado, seria chamado pelo senador Johnson (Tom Wilkinson) a defender uma das acusadas pela conspiração contra o presidente, a dona de um albergue Mary Surratt (Robin Wright).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Conspirator): Robert Redford é conhecido pelo olhar crítico. Ele não apenas fez alguns filmes com esta levada, como também criou um festival – o Sundance – para fomentar olhares múltiplos sobre a realidade dos Estados Unidos e de outros países. Tentando fugir um pouco das “cartas marcadas” de Hollywood.

Em The Conspirator o diretor narra, junto com os roteiristas, um episódio pouco conhecido da história dos Estados Unidos. Ele mostra como as leis, constituições e valores defendidos por um país podem ser modificados e deturpados dependendo da interpretação de quem está no comando.

Situações de guerra e conflito são diferentes daquelas vividas em um ambiente de paz, é verdade. Mas The Conspirator sugere – e c0m razão – que estes argumentos não são suficientes para legitimar injustiças. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A mensagem mais bacana do filme, além de uma revisão histórica rara, é de que o caso de uma mulher, apenas, pode ser suficiente para que mudanças importantes aconteçam. Algumas vezes alguns justos precisam ser sacrificados para que paradigmas equivocados que foram estabelecidos sejam modificados.

The Conspirator acerta no início, ao ir direto ao que interessava. Mas não deixa de ser um pouco curioso o corte seco que Redford faz do campo de batalha para a noite do atentado ao presidente dos EUA. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Parece que ele não quer perder tempo com o conflito. Talvez para não dar pano pra manga. Para que não haja espaço para justificar o absurdo que vamos assistir, que é o julgamento forjado de uma mulher que, efetivamente, não contribuiu para o assassinato do presidente.

Normalmente, Redford é mais cuidado no contexto histórico. Isso é algo em que The Conspirator falha. O roteiro de James D. Solomon, inspirado em uma história escrita por ele e por Gregory Bernstein, ignora o clima tenso e de divisão entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Sabemos que há um conflito, que o Norte está ganhando e que há insatisfeitos no Sul, mas a insatisfação ou o apoio das ruas para Lincoln, por exemplo, não é mostrado neste filme.

A história gasta mais tempo no desinteressante relacionamento do protagonista com Sarah Weston (Alexis Bledel) do que mostrando o ambiente que cercava aquela decisão judicial. Ok, entendo que os roteiristas queriam mostrar todas as “pressões” e oportunidades que Frederick poderia perder ao insistir em defender Mary Surratt, mas a escolha deste foco não ajuda o filme. Pelo contrário, acaba tornando ele mais raso do que ele poderia ser.

O espectador também fica um pouco confuso sobre o atentado ao presidente e tem dificuldade de identificar os seus culpados. Eles aparecem apenas no momento da ação e, depois, não tem as suas histórias contextualizadas. O “vilão” principal, por exemplo, o ator responsável por atirar em Lincoln, John Wilkes Booth (Toby Kebbell) aparece poucas vezes e, normalmente, de forma tão obscura que até fica difícil identificá-lo depois, quando ele está sendo perseguido.

O mesmo acontece com os outros acusados pela conspiração, David Herold (Marcus Hester), Lewis Payne (Norman Reedus), George Atzerodt (John Michael Weatherly), Michael O’Laughlen, Edman Spangler (James Kirk Sparks), Samuel Mudd e Samuel Arnold (Jeremy Tuttle). Não percebemos qual foi a participação deles nos crimes porque tudo acontece muito rápido, e sem explicar a origem do plano ou o desenvolvimento dele. Algo que não ajuda o filme.

Claro que um bom embate de tribunal é sempre interessante. O duelo entre Frederick, que acaba assumindo o caso quando o senador percebe que será pior se ele continuar defendendo a dona da pensão, e o promotor Joseph Holt (Danny Huston) tem alguns bons momentos, mas o melhor deles – e que realmente vale todo aquele jogo de cena – só acontece na argumentação final. Até lá, o filme parece um pouco arrastado.

A ideia de resgatar um episódio importante para os Estados Unidos e pouco conhecido tem o seu mérito. Assim como os cuidados com a reprodução daquela época, tanto nos figurinos como na direção de arte e tudo o mais. Mas o problema de The Conspirator é que ele fica mais no discurso morno do que na ação ou no drama que provoquem o espectador, que façam ele reagir à história que está assistindo.

O resultado é que ficamos perplexos em saber que os Estados Unidos, que orgulha-se tanto de sua Constituição e da preservação dos direitos dos cidadãos, começou a sua história como nação unida contradizendo tudo isso. Mas isso é tudo. E essa perplexidade ganha força na parte final do filme. Antes, há confusão, um repasse rápido da conspiração que não ajuda a contar a história, e muitas sequências de tribunal – e seus bastidores.

Um elemento que deveria ajudar na tensão do filme é a de Frederick estar “dividido”. Afinal, ele é um herói de guerra, que defendia, justamente, aquela ideia de nação perfeita, mas também um advogado que é chamado a honrar o juramento que fez. Aos poucos, e ao defender Mary Surratt, ele percebe o que todos nós aprendemos com o passar dos anos: que a vida não é tão preto & branco como imaginávamos quando éramos crianças, ou adolescentes.

Ele percebe, isso sim, que há muitos nuances de cinza. E que há graus decisórios que estão além do nosso alcance. Ainda assim, não devemos desistir. E mesmo que tudo mostre que a derrota é inevitável, é preciso continuar defendendo os valores que nos ensinaram e que são justos, corretos.

Por isso, e pelo resgate histórico de um episódio pouco conhecido, é que dedico a nota abaixo. Como filme, The Conspirator mereceria uma avaliação mais baixa. Mas pelas intenções dele… sejamos um pouco “generosos”. Sempre vale assistir a um diretor e seu trabalho feitos para provocar reflexão nas pessoas. Este é um caso destes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores estão bem, mas nenhum deles merece uma reverência. Algumas vezes, James McAvoy parece um pouco deslocado, assim como Justin Long. Kevin Kline, figura importante no filme e para a história, porque ele interpreta ao secretário de guerra Edwin Stanton, aparece pouco, e parece sempre estar desconfortável. Desempenho abaixo do desejável, para resumir. Robin Wright tem uma interpretação linear, conseguindo destacar-se da média geral apenas algumas vezes. Outros que estão bem são Evan Rachel Wood, que interpreta a Anna Surratt, filha de Mary; Tom Wilkinson, acima da média; e o veterano John Cullum como o juiz Wylie, em uma superponta.

A produção de The Conspirator é uma das maiores qualidades do filme. Um ótimo trabalho de pesquisa de figurinos de Louise Frogley, da direção de arte de Mark Garner e do design de produção de Kalina Ivanov. Ajuda a “climatizar” a história a direção de fotografia “terral” que dá a impressão de “envelhecida” de Newton Thomas Sigel. Um estilo previsível, é verdade, mas, ainda assim, eficaz.

O veterano Mark Isham faz mais um bom trabalho na trilha sonora, que segue uma linha clássica, reforçando o drama e alguns momentos de “suspense”. Mas o melhor do filme, em termos de música, está reservado para os créditos finais: Empty, canção de Ray Lamontagne. Bela escolha. E, para mim, uma bela descoberta. O refrão dela resume bastante do que Redford quer expressar com este filme: “Will I always feel this way/ so empty, so estranged”. Aqui, um vídeo com a canção.

Segundo este texto, a Guerra da Secessão, como ficou conhecida a guerra civil entre “nortistas e sulistas” nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, teria provocado pelo menos 600 mil mortes. Um número impressionante – especialmente para um conflito civil do século 19. Ainda de acordo com o texto, esta teria sido a primeira guerra moderna da história, na qual foram utilizados fuzis de repetição e trincheiras, recursos que marcariam, depois, a Primeira Guerra Mundial.

Quem tem interesse de saber mais sobre o episódio contra Lincoln, este é um texto interessante para começar a pesquisa. Curto, direto e com algumas curiosidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lincoln foi o primeiro presidente dos EUA morto enquanto exercia a sua função como maior mandatário do país. Depois dele, seriam assassinados os presidentes James Garfield (por Charles Guiteau, em 1881), William McKinley (por Leon Czolgosz, em 1901) e John Kennedy (por Lee Harvey Oswald, em 1963).

Vale dar uma conferida nesta página da Veja com informações e fotos históricas da Guerra Civil Americana. E neste link, um resumo sobre alguns personagens importantes daquele momento histórico.

The Conspirator estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles para casa.

O filme foi mal nas bilheterias. Para uma produção que custou cerca de US$ 25 milhões, faturar pouco mais de US$ 11,5 milhões nos Estados Unidos é muito pouco. Redford fracassou, desta vez, apesar das boas intenções.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela é a primeira da The American Film Company. A produtora foi criada com o objetivo de viabilizar filmes que façam um resgate crítico do passado dos Estados Unidos. Agora, outro detalhe histórico (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): Mary Suratt foi a primeira mulher da história a ser executada pelo governo dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para The Conspirator. Uma boa avaliação, levando em conta o histórico do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não gostaram tanto da produção. Eles dedicaram 92 críticas positivas e 73 negativas para The Conspirator, o que lhe garante uma aprovação de 56% e uma nota média de 6,1.

CONCLUSÃO: Algo que o cinema dos Estados Unidos tem, como qualidade, é a coragem de focar episódios polêmicos de sua história sem puritanismo. O diretor Robert Redford contribui para a saudável revisão histórica do cinemão de seu país com este The Conspirator. Faz um filme bem dirigido e narrado, mas The Conspirator perde um pouco de força conforme avança porque as dúvidas sobre a protagonista não duram muito tempo. Logo o público sabe o que está acontecendo, e a tensão resume-se apenas à disputa de tribunal. E daí surge o segundo problema: fica evidente, e muito cedo, qual será o resultado daquela queda de braços com cartas marcadas. O resgate histórico crítico é bacana, mas faltou alimentar um pouco mais de dúvidas e tensão durante a história. Um bom filme, ainda que pouco vigoroso. Mas que vai agradar aos que gostam de saber um pouco mais sobre episódios históricos pouco conhecidos.

Rampart

Um policial fora de controle. Que se enrola cada vez mais em seus próprios erros. Rampart revela os bastidores da polícia de Los Angeles no final dos anos 1990. Como estrela da produção, Woody Harrelson faz um de seus melhores trabalhos. Além de honesto, este filme se destaca por algumas sequências inventivas do diretor. Entretenimento com levada autoral e alguma inovação.

A HISTÓRIA: O policial David Douglas Brown (Woody Harrelson) faz várias rondas na Los Angeles de 1999. Em um certo dia, ele aparece ao lado da estagiária Jane (Stella Schnabel) e do policial Dan Morone (Jon Bernthal). Jane escuta os conselhos dos dois policiais, especialmente de Dan, que afirma que ela deve aprender logo a diferença entre os diferentes tipos de latinos que vivem na jurisdição deles. Afinal, quanto antes ela aprender a identificar suas diferentes origens, mais rapidamente ela perceberá quem odeia quem. Segundo David, todos traficam, todo o tempo, e estão armados para atacar a polícia. Ela pergunta sobre o escândalo, e os dois policiais desprezam este tema. David diz que dois policiais fizeram besteira e mancharam o restante da corporação. Mas logo mais veremos que esta não é toda a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Rampart): O roteiro de James Ellroy e do diretor Oren Moverman acerta no começo do filme. O texto planta dúvidas na cabeça dos espectadores, que não sabem até que ponto David Brown é apenas um policial um pouco exagerado, cansado da rotina de rondas e problemas, mas que tem uma preocupação ética e de conduta, ou se ele é um louco fardado.

Aquela conversa dele com colegas no início do filme mostra as duas facetas do protagonista: por um lado, ele acredita que todos os latinos são traficantes e estão preparados para ferrar a ele e seus colegas quando tiverem a primeira oportunidade e, por outro, ele revela ter um grande respeito pela disciplina e de que é capaz de voltar atrás em um gesto exagerado.

Em seguida, ele quer mostrar força para a colega iniciante, e tem outro gesto idiota, que não parece ser próprio de alguém que está há muito tempo nas ruas. Na delegacia de polícia, mais uma vez, ele exagera com um preso que havia batido em um colega. Não parece que o escândalo envolvendo a Rampart, divisão da polícia de Los Angeles que atende a bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, foi realmente um equívoco de dois policiais.

O protagonista desta produção serve de exemplo de uma polícia contaminada pela brutalidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Das ruas, passamos rapidamente para a intimidade dele. Para complicar o enredo daquela vida conturbada, ele tem duas ex-mulheres, que são irmãs, e duas filhas com as quais ele não sabe lidar. Aliás, ele tem dificuldade em lidar com mulheres em geral. Não parece ter muito respeito por elas. Bom de cama, ele pula de uma relação para a outra. Parece não gostar de dormir sozinho – como tantos e tantos outros. Mas algo de positivo (e é preciso dizer, diante de tantos defeitos desse personagem): ele não bate em mulher. Pode insultá-las, desprezá-las, mas não levanta a mão para elas.

Evidente, mesmo sem sabermos quase nada sobre o passado de David, que ele respeita muito a “superioridade” dos homens. Mesmo que de uma maneira torta, ele tenta também preservar o valor da “família”. Claro que nenhum destes conceitos estão limpos, sem contaminação. Nada na vida de David, e isso vamos percebendo aos poucos, parece não estar manchado pela violência ou pela corrupção.

Ainda assim, é interessante como Ellroy e o diretor Oren Moverman conseguem adentrar de forma sutil na vida do personagem, mostrando várias de suas facetas. Há o homem de família, que não consegue conciliar ninguém em casa – não resgata o romance com nenhuma das ex e nem consegue muito afeto das filhas. Há o policial, que está cansado de ver o mesmo e perde a cabeça facilmente, seja com um imigrante ou com um superior – nestas horas, a hierarquia parece importar pouco. Existe também o David garanhão e festeiro, que bebe em serviço, fuma sem parar, frequenta bares e boates em busca de sexo sem compromissos. E há ainda o homem corrupto, com contatos suspeitos com Hartshorn (Ned Beatty), o homem que conhece o submundo da jogatina.

Rampart é complexo por isso, por focar todas estas facetas de um homem que ganhou os noticiários por um momento de violência. Mas a condução do filme inova pouco. Se o roteiro é bem amarrado e interessante, a direção segue o caminho tradicional. Exceto por duas sequências que valem quase pelo restante da produção: aquela do “confronto” entre David e os superiores Joan Confrey (Sigourney Weaver) e Bill Blago (Steve Buscemi), uma roleta russa de pressões e egos; e a que foca uma das noites mais alucinantes do protagonista, em uma boate onde rolam sexo e drogas e onde predomina a cor vermelha. A visão distorcida que o personagem naquela noite pode sintetizar toda a perda de foco que ele está vivenciando naquela momento da vida.

Os atores e atrizes que embarcam nesta produção é algo que impressiona. Além dos já citados, vale destacar a atuação de Ben Foster como o general Terry, preso à uma cadeira-de-rodas; Cynthia Nixon como Barbara, irmã de Catherine, interpretada por Anne Heche, ambas ex-mulheres de David; Brie Larson como Helen, filha mais velha do protagonista, e Sammy Boyarsky como Margaret, a caçula da família; Robert Wisdom como o capitão da divisão Rampart; Robin Wright como Linda Fentress, uma advogada que acaba se relacionando com David em seu pior momento; e Ice Cube como Kyle Timkins, investigador do Ministério Público que não sai da cola do protagonista. Baita elenco, não? E todos estão bem, ninguém destoando muito do ótimo trabalho de Harrelson.

Rampart tem dois momentos de explosão do protagonista que marcam erros importantes e difíceis de serem contornados. Fora estes “rompantes”, nenhum dos dois muito surpreendentes – afinal, o espectador já está “armado” para aquelas sequências -, o restante do filme é bastante cerebral, e tenta mostrar as diferentes facetas do protagonista. Essa busca é interessante, e torna esta produção densa.

Mas por outro lado, deixa pouco espaço para surpresas. E em um filme policial, elas são importantes. Com tantas linhas e histórias para contar, Rampart perde um pouco de ritmo para abrir espaço para uma leitura mais completa daquela realidade. É um filme louvável, ainda que pouco provocador. Faz refletir, mas inova em poucas cenas. Está bem acima da média, mas não chega a ser excepcional.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O estilo de direção de Oren Moverman segue a lógica dos documentários. Câmera na mão, estilo de interpretação dos atores cheia de improvisos, Rampart vende a ideia de que o espectador está acompanhando uma história real, enquanto ela acontece. Uma escolha acertada, para este tipo de história. Fora aquelas duas sequências que eu comentei antes, o restante da produção segue uma lógica limpa, linear, sem inovações.

A direção de fotografia de Bobby Bukowski explora, evidencia e potencializa a luminosidade de Los Angeles. Uma decisão acertada, e que muitas vezes deixa o filme um pouco “over” na luz. A impressão é que o sol queima, e que não é possível para ninguém conseguir proteção suficiente contra ele. Assim como os personagens, que não conseguem ficar incólumes em meio àquele cenário de insegurança e violência crescente.

De todos os atores citados, os que apresentaram o melhor trabalho foram, claro, o protagonista Woody Harrelson, Jon Foster – em uma ponta -, Brie Larson (ainda que ela irrite, alguma vezes) e Robin Wright. Outros atores, talentosos, aparecem tão pouco que não conseguem se destacar. Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho do editor Jay Rabinowitz.

Gostei de ter visto o ator Jon Bernthal, que faz um trabalho excelente na série The Walking Dead, em um filme. Mas senti falta de vê-lo nesta produção mais do que em uma ponta.

Fiquei curiosa por saber mais sobre a divisão Rampart. Neste link da Wikipédia (em inglês), é possível saber que ela integra a polícia de Los Angeles e atende as regiões oeste e noroeste do Centro da cidade. Como eu disse antes, faz parte desta região bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, conhecidos por abrigar muitos latinos. O nome da divisão surgiu a partir do Boulevard Rampart, uma das principais ruas da área de patrulha dos policiais que a integram. A população de Rampart chega a 300 mil pessoas, e é considerada a área mais populosa da cidade.

No mesmo texto da Wikipédia é possível saber um pouco mais sobre o escândalo que envolveu a divisão Rampart. No final dos anos 1970, foi criado ali um programa anti-gangues. Ele teria funcionado bem nos primeiros anos, mas entre 1998 e o ano 2000, vários policiais e detetives do esquadrão foram acusados de má conduta. Um deles, Rafael Perez, foi acusado de participar de um assalto à banco e por roubar seis quilos de cocaína de um armário de provas policiais.

O ato mais notório de Perez foi ele ter sido gravado espancando o membro de uma gangue que estava desarmado – história parecida com a do protagonista de Rampart, não? Ele teria confessado o roubo da cocaína e trocou esta possível condenação pelo gesto de delatar colegas corruptos – Perez teria apontado 70 deles por má conduta.

Rampart estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. No mesmo mês, ele participou do festival de cinema de San Sebastian, na Espanha. Até agora, o filme foi indicado a dois prêmios, ambos para o ator Woody Harrelson, mas não ganhou nenhum deles.

Há poucas informações sobre o resultado desta produção nas bilheterias. Segundo o site IMDb, nos Estados Unidos, o filme teria arrecadado pouco mais de US$ 663,3 mil até o dia 11 de março. Sim, mil, não milhões. Uma bilheteria minúscula, para os padrões do cinema norte-americano. Em sua melhor época, o filme foi exibido em 106 cinemas, nos Estados Unidos. Em um cenário muito restrito, o que ajuda a explicar a baixa bilheteria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Rampart. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 92 críticas positivas e 29 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

O crítico Andre Barcinski, da Folha, escreveu aqui que ele considera Rampart o melhor filme americano de 2011. Respeito a opinião dele, é claro. Gostei de Rampart. Mas não achei esta produção a melhor do ano passado. Nem de perto. O filme não é tão surpreendente, nem na forma ou no conteúdo, quanto poderia ser.

Rampart é o segundo filme do diretor e roteirista Oren Moverman. Antes, ele dirigiu a The Messenger, filme bem interessante e que tem no elenco, outra vez, Woody Harrelson, Ben Foster, Steve Buscemi, entre outros. Atualmente, ele está trabalhando na pré-produção de Berlin, I Love You, com previsão para ser lançado em 2013.

Woody Harrelson entrou na minha lista de ótimos atores com Natural Born Killers. Depois daquele filme de Oliver Stone, de 1994, ele fez outros trabalhos excelentes. Vale citar (e assistir) a The People vs. Larry Flynt, de Milos Forman; The Walker, de Paul Schrader; Transsiberian, de Brad Anderson; e o já citado The Messenger.

CONCLUSÃO: Um vilão nunca é apenas um vilão, por mais que tantos filmes de Hollywood tenham tentado simplificar estes personagens repetidas vezes. Um sujeito errado sempre tem uma história pessoal para contar, assim como ele sofre com uma certa contaminação originada na sociedade e identificável em seu comportamento. Rampart mergulha na história de um homem que deveria ser o mocinho de uma determinada realidade – replicável para qualquer parte, mas que aparece como um reflexo mal acabado das falhas deste coletivo. Acreditando ser intocável, o protagonista abusa de sua autoridade e ajuda a disseminar o caos na realidade que deveria contribuir para controlar. O filme acerta ao acompanhar ele de perto pouco antes do trem de sua vida descarrilhar, até para que o espectador possa ver de perto como os problemas sempre podem aumentar e uma pessoa perder o controle da própria vida. Há chance de redenção para o personagem de Rampart? Dificilmente. E essa crueza talvez seja o melhor do filme.

Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo

O cinema de Hollywood gosta de mostrar os bastidores de alguns dos esportes mais populares das terras do Tio Sam. E ele faz isso bem, geralmente. Mais uma vez, temos com Moneyball uma história que mostra os bastidores de um esporte. Desta vez, do beisebol. Mas eis que esta não é apenas uma história de superação – todos os filmes de esporte vão por esta onda, não é mesmo? -, envolvendo técnicos e jogadores. Moneyball trata sobre uma forma totalmente diferente de encarar a eficiência no esporte, de como é possível mudar a lógica estrutural de algo quando se aplicam conceitos de economia no meio. Surpreendente.

A HISTÓRIA: O filme começa com uma frase de Mickey Mantle: “É inacreditável o quanto você não sabe sobre o jogo que você esteve jogando durante toda a sua vida”. Em seguida, cenas de um rebatedor de beisebol concentradíssimo – e nervoso. As cenas são do dia 15 de outubro de 2001, em um jogo decisivo da Liga Americana de Beisebol. De um lado do campo, um orçamento de US$ 114,46 milhões, do famoso New York Yankees. E do outro, US$ 39,72 milhões do Oakland Athletics. Em um estádio vazio, Billy Beane (Brad Pitt) está sentado sozinho. Ele liga e desliga o rádio que transmite o jogo. O time que ele administra, o Oakland Athletics, perde a disputa. Mas ele será capaz, em um movimento arriscado, a entrar para a história com um grande feito e, de quebra, mudar a lógica do tradicional esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Moneyball): Infelizmente não é todo mundo que gosta de números. No Brasil e em tantos outros países, o que faz sucesso são as “ciências humanas”. Fundamentais, elas, aliás. Eu mesma busquei este caminho, e o admiro. Mas a cada dia eu acho a lógica da matemática e dos números fundamental. Para tudo. Moneyball mostra a importância desta lógica e de uma escola econômica para o esporte. Mas essa mesma lógica pode ser aplicada em várias outras partes. Com eficácia.

Antes que alguém entenda errado o que eu escrevi, esclareço: não acho que a vida inteira se explique com números. Mas há uma dinâmica e uma repetição cíclica de fatos, uma previsibilidade no desempenho humano – seja ele aplicado no que for – que fascina. E que pode nos ajudar a buscar mais eficiência evitando erros conhecidos. Ainda assim, é claro, existe também o imprevisível. Verdade. Mas ele é apenas o contraponto de toda a previsibilidade calculável. Moneyball trata disso. E de muito mais.

A história de Billy Beane e sua equipe mostra como é preciso ser firme quando se está nadando contra a corrente. Quando existe convicção no que se está fazendo e indícios fortes de que se está apostando na virada certa, na solução necessária, é preciso insistir. E quando quem deveria contribuir para a mudança não faz isso, há alternativas. Esse resumo parece ser aplicável em várias situações, certo? Pois acredito que seja exatamente este tipo de reflexão que torna Moneyball mais interessante do que uma leitura rasa de que este filme aborde apenas os bastidores do beisebol. Não, ele é mais que isso.

Depois de conhecer Peter Brand (Jonah Hill) em uma tentativa de negociação com o time de beisebol de Cleveland, Beane precisa do apoio do técnico Art Howe (Philip Seymour Hoffman) e dos jogadores do próprio time para que as teorias de Brand dêem certo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas Howe, resistente às mudanças, quer seguir com a lógica do beisebol de sempre. Ele não coloca os jogadores que Beane quer. Então o que ele poderia fazer? Pois ele adota medidas radicais, se livra dos jogadores problema e que faziam Howe bater o pé.

Mas por que não demitir, simplesmente, ao técnico? Isso é algo que o filme não explica. Pela história, ninguém diz que Howe seria insubstituível. Mas neste link da Wikipédia é possível perceber que ele era um dos bons técnicos do início dos anos 2000 – ainda assim, por não ser insubstituível, ele saiu da equipe Oakland Athletics em 2003. Em certo momento, Moneyball mostra um comentarista da TV dizendo que o mérito pelas então sete vitórias seguidas do time era de Howe – um erro comum, já que a maioria da imprensa enxerga mais o treinador do que a restante da equipe técnica como responsável por algum resultado. Mesmo assim, acho que o filme não aprofunda muito esta questão, o que torna ele menos interessante. Focado demais no personagem de Brad Pitt, claramente o “herói” da história, Moneyball perde a oportunidade de mostrar um pouco mais das intrigas e confabulações entre técnicos, jogadores, olheiros e demais personagens que fazem parte dos bastidores do esporte.

O filme também apresenta uma reflexão final previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como outras produções, Moneyball defende a ideia de que o dinheiro não é o mais importante. Mesmo que a lógica de Brand seja convincente, de que não está errado aceitar uma proposta milionária quando existe mérito para isso, o protagonista decide ficar onde está. Para continuar próximo da filha Casey (Kerris Dorsey), ele decide recusar o convite para ser o gestor do Red Sox. E também porque ele acredita que um time “menor” pode, um dia, bater a um gigante do esporte. Idealista, pai carinhoso, mas também um sujeito frustrado que, um dia, acreditou no sonho de um futuro fantástico, como esportista, e que viu suas ilusões terminarem sem o êxito pretendido/prometido.

A fórmula adotada pelo diretor Bennett Miller para contar esta história não é inovadora. Outros filmes que recontam fatos históricos, inclusive envolvendo o esporte, já utilizaram a técnica de intercalar imagens de arquivo da TV com a refilmagem com licenças “poéticas” sobre o que aconteceu nos bastidores daquelas histórias. O interessante é que mesmo você já tendo visto isto antes, o roteiro de Steven Zaillian e Aaron Sorkin, que utilizou a história de Stan Chervin como base – e o trabalho dele teve como fonte de inspiração a obra “Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game” de Michael Lewis – consegue manter o interesse do espectador até o final.

Um pré-requisito para isso é a base de muitos e muitos filmes (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Moneyball): depois que o protagonista e seu fiel escudeiro amargaram várias derrotas, eles começam a ter êxito com a estratégia controversa que adotaram. Mas isso será suficiente para que eles obtenham a grande e esperada vitória final? Essa tradicional lógica de altos e baixos com a indefinição sobre o final sempre dá certo para prender o espectador. À parte disto, e é preciso dizer, o elenco está muito bem. Sem muitos exageros, ainda que o Brad Pitt escorregue um pouco no excesso de caras e bocas. Também achei que o filme poderia ter mostrado um pouco mais a história dos jogadores que ajudaram ele a mudar a história do beisebol – afinal, por mais que a maior parte do mérito fosse de Beane, aqueles jogadores colocados nas posições certas foram decisivos para que o time chegasse à marca histórica de 20 vitórias seguidas.

Fora esta falha “estrutural” e de profundidade, gostei muito da reflexão que o filme provoca no foco específico do esporte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei pensando, o tempo todo, na aplicação dos conceitos de Bill James no futebol. Será que teríamos também a extinção da figura do olheiro? Seria possível medir o desempenho dos atletas ao ponto de selecioná-los por sua eficácia em determinados momentos e posições, e não pela super valorização criada pelo mercado? Como no beisebol mostrado em Moneyball, no futebol há muitos jogadores talentosos que ficam esquecidos ou relegados ao anonimato, enquanto poucos atletas bons de bola ganham salários astronômicos. Ver uma mudanças neste cenário e nesta lógica mudaria o esporte para sempre. Como ocorreu com o beisebol. Seria algo interessante de se ver.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Apesar dos “probleminhas” de roteiro comentados antes, é preciso admitir que Sorkin faz mais um belo trabalho com Moneyball, ao lado de Zaillian. O roteirista repete a dose de equilibrar a vida íntima do personagem principal com as “impressões” que o restante das pessoas tem dele, assim como a narrativa simples dos fatos adotada antes em The Social Network.

O diretor Bennett Miller acerta na interpretação do texto de Sorkin e Zaillian. Ele ressalta os trabalhos dos atores e também evidencia belos lances do beisebol, equilibrando imagens de arquivo do time retratado com a narrativa cinematográfica da produção. A edição é um elemento que merece destaque. Belo trabalho de Christopher Tellefsen.

Outros aspectos técnicos do filme seguem o padrão normal de qualidade de Hollywood – em outras palavras, são competentes, mas nada fora do padrão. Como exemplo, a direção de fotografia de Wally Pfister e a trilha sonora de Mychael Danna.

Falando em trilha sonora, claro que merece uma menção especial a interpretação fofíssima da simpática atriz Kerris Dorsey da música The Show, de Lenka. Para quem não conhece a versão original, neste link é possível assistir a artista se apresentando com ela.

Mesmo que o foco do filme seja o personagem de Brad Pitt e toda a história gire em torno dele, vale citar a importância de Jonah Hill para a produção. Ele é o contraponto do personagem principal, a parte “engraçada” e ao mesmo tempo gabaritada para sustentar os argumentos da teoria que estava sendo aplicada pela primeira vez no beisebol. Novamente os “opostos que se complementam” são plasmados pelos dois: de um lado, o esportista bonitão, do outro, o nerd gordo e de óculos que era deixado sempre em segundo plano. Mesmo que um leve vantagem aparente sobre o outro, existe uma admiração mútua entre os dois, e uma complementariedade interessante – o personagem de Pitt sabe negociar e impor-se, o de Hill dá um show nos cálculos e na dedicação para aplicar a teoria de Bill James no beisebol.

Além da dupla de atores principais, merece destaque a já citada simpática Kerris Dorsey. O geralmente ótimo Philip Seymour Hoffman desaparece no roteiro – ele acaba tendo um papel secundário e pouco expressivo. Além deles, vale citar os nomes de Robin Wright como Sharon, ex-mulher de Beane; Chris Pratt como Scott Hatteberg, um dos jogadores desacreditados que é resgatado por Beane – mas que aparece pouco, como Hoffman; Stephen Bishop como David Justice, outro jogador; Brent Jennings como o olheiro técnico auxiliar Ron Washington; Casey Bond como Chad Bradford; e Reed Thompson como o jovem Billy Beane.

Moneyball custou aproximadamente US$ 50 milhões. E arrecadou, nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 1º de janeiro deste ano, pouco mais de US$ 75 milhões. Um resultado 50% superior ao do custo… está bem, mas longe de um arrasa-quarteirão.

O filme que tem Brad Pitt como estrela principal estreou no dia 9 de setembro do ano passado no Festival de Toronto. Depois, ele participou dos festivais de Tokyo e Turin. Até o momento, Moneyball ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo quatro Globos de Ouro. Entre os que ganhou, destaque para os de melhor roteiro segundo as associações de críticos de cinema de Boston, Chicago, Nova York e Toronto. Brad Pitt também ganhou como melhor ator segundo as associações de críticos de Boston, Nova York e o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Moneyball foi rodado inteiramente na Califórnia e apenas uma pequena sequência em Boston, Massachusetts. Entre os locais escolhidos para as filmagens, o estádio do time de beisebol Oakland Athletics, Long Beach e Downtown, em Los Angeles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para o filme. Uma boa nota, para a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 202 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 95% e uma nota média 8. Um sinal muito positivo para o filme – e que serve como termômetro sobre a moral alta da produção pela ótica dos críticos.

Para quem ficou interessado na teoria adotada pela equipe focada no filme, recomendo a leitura deste texto, em inglês, do The Sport Journal que trata do assunto. Também é interessante este artigo da Bloomberg Businessweek que comenta como Bill James encarou o filme que trata sobre a sua teoria.

CONCLUSÃO: Todos gostam de uma história edificante. Destas que mostram superação. Moneyball é uma destas histórias. Mas diferente de outras, ela não evidencia apenas a capacidade humana de passar pelos próprios limites e chegar à vitória apesar deles. Ela revela que, muitas vezes, a vitória pura e simples pouco importa. O bacana é encontrar uma solução criativa para um problema difícil de ser resolvido e, de quebra, inspirar outras pessoas a provocar mudança. Mais que uma história sobre um esporte, Moneyball é a narrativa sobre a aplicação de conceitos econômicos em um cenário que antes era visto como terreno de talento e improviso. Moneyball mostra como há lógica e que é possível prever resultados mesmo em cenários criativos. Bem dirigido e com um roteiro competente, mesclando cenas reais e a recriação de fatos com um elenco competente, é um filme envolvente. Vale o ingresso.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: As indicações do Globo de Ouro sempre são um sinal importante para sabermos o que esperar do Oscar. Moneyball foi indicado em quatro categorias importantes desta “prévia” do Oscar: Melhor Filme – Drama, melhor roteiro, melhor ator (Brad Pitt) e melhor ator coadjuvante (Jonah Hill). Francamente, acho difícil ele ganhar em qualquer uma destas categorias porque ele tem concorrentes muito fortes para vencer. Talvez Brad Pitt teria mais chances, mas mesmo ele eu acho que não deve vencer.

O roteiro de Moneyball já ganhou quatro prêmios da crítica mas, ainda assim, vejo o caminho dele para a vitória no Globo de Ouro e no Oscar como algo muito complicado de se concretizar. Possivelmente Moneyball vai repetir três das quatro indicações que recebeu no Globo de Ouro também no Oscar. Acho que apenas o Jonah Hill poderá ficar de fora do Oscar. Pitt, o roteiro e o filme devem aparecer na premiação mais esperada do ano pela indústria de Hollywood. Mas acho que o filme ficará a ver navios. Não deve ganhar nenhuma estatueta. Talvez surpreenda em roteiro mas, francamente, acho difícil.