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Ford v Ferrari – Ford vs Ferrari

Um filme emocionante, com algumas imagens incríveis, com uma direção impecável e um bom trabalho de atores. Apesar disso, Ford v Ferrari incomoda um pouco por sua versão dos fatos que trabalha apenas o lado americano da história. Para quem gosta de Fórmula 1 e de outras competições de alta velocidade, certamente este filme será um deleite. Para os demais, Ford v Ferrari é um filme interessante sobre fatos históricos curiosos e sobre uma história de amizade que marcou as corridas de carro. Curioso, mas não é um dos melhores do ano.

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The Wolf of Wall Street – O Lobo de Wall Street

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Todos os tipos de drogas, bebidas, sexo, orgias e exageros que o dinheiro pode comprar. Imagine tudo isso, potencialize por 10 e terás pela frente o inesquecível The Wolf of Wall Street. Martin Scorsese, um dos maiores gênios que o cinema ainda tem o prazer de ver trabalhar, fez o filme definitivo sobre os homens sem limites que um dia fizeram a fama da rua que simboliza a riqueza efêmera da bolsa de valores e do mercado financeiro dos Estados Unidos – e, por consequência, uma alegoria de tudo o que há de similar no mundo. Destes raros filmes em que três horas não passam devagar.

A HISTÓRIA: Um leão ruge na propaganda da Stratton Oakmont, Inc. Em seguida, a identificação da Wall Street, com um narrador argumentando que o mundo é um grande negócio e uma selva. Porque há perigo em toda a parte é que teria sido criada a Stratton Oakmont, composta por vendedores privados preparados para serem os melhores do mercado. Termina a propaganda, e aqueles homens respeitáveis estão jogando com um anão. O líder da trupe, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), oferece US$ 25 mil para quem jogar o anão e acertar o alvo. Ele próprio tenta a sorte. E começa a se apresentar. Jordan Belfort é um ex-integrante da classe média criado por dois contadores no Queens. Aos 26 anos, ele já era o chefe de sua própria empresa de investimentos. Neste filme, mergulhamos em sua trajetória até tornar-se um homem milionário e encrencado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wolf of Wall Street): Ouvi alguns dizendo que Scorsese tinha “enlouquecido” por entregar uma produção destas. Que ela era uma loucura, e por aí vai. E para quem conhece a filmografia de Scorsese, pensar em uma produção dele que pudesse ser considerada exagerada dentro deste histórico, exigia muita imaginação. Além disso, eu sabia que o filme tinha três horas… mas apesar destas informações, que não favoreciam o filme antes de assisti-lo, me joguei na experiência. E que experiência!

Scorsese entrega para o público um de seus filmes mais contundentes. Exagerado em quase todos os sentidos mas, por isso mesmo, bastante corajoso. Para contar a história de Jordan Belfort, não dava para fazer de outra maneira, com o risco de estragar o material original. Fazer um filme definitivo sobre um assunto não é algo nada simples. Mas Scorsese conseguiu, mais uma vez – como havia feito, antes, com os filmes sobre gângster.

Mesmo afirmado isto, não custa dar um conselho: esta produção não é indicada para quem não gosta de ver a decadência humana, corpos nus e exageros por todas as partes. Porque é deste material que é feito The Wolf of Wall Street. E então, qual é a moral da história? Que alguns dos homens mais admirados do coração financeiro dos EUA e que encarnavam, de maneira exagerada, o “sonho americano”, eram os piores escroques de que já tivemos notícia.

Agora, antes de falar da moral do filme, acho que vale voltar um pouco a fita. Lembro bem da polêmica que Jordan Belfort levantou quando lançou o livro de “memórias” e começou a dar entrevistas como esta para o The Telegraph em 2008. O que muitos desconfiavam sobre a rotina dos corretores de Wall Street se confirmou com a obra de Jordan. Eles viviam ganhando e gastando milhões de dólares, esbanjando dinheiro em carros, iates, mansões, ternos caros e, principalmente, com gastos diários (ou quase) com prostitutas e os mais diversos tipos de drogas – sendo a rainha de todas elas, a cocaína.

A máscara daquele estilo de vida cobiçado de Wall Street tinha começado a cair. Inclusive antes do livro de Jordan aparecer (falarei disto logo abaixo, após a crítica do filme). Ainda assim, ele conseguiu fazer barulho. Afinal, contava o que outros sabiam “por dentro”, como uma das figuras que fez tudo aquilo – e, possivelmente, muito mais. Então, meus caros leitores, como contar aquela história?

Outros filmes sobre Wall Street já tinham sido feitos. O próprio Jordan, que aparenta ter uma ironia sem limites, comenta na entrevista dada para o The Telegraph em 2008 que ele se “inspirou” no personagem de Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, no clássico de 1987 dirigido por Oliver Stone Wall Street. Outra figura em quem Jordan teria se inspirado: o personagem de Edward Lewis, vivido por Richard Gere em outro clássico, Pretty Woman. Mas esta última referência, convenhamos, é muito “bonitinha” para os padrões de Jordan.

Quando foi escrever as próprias memórias, já preso, Jordan disse que se inspirou em uma cópia do livro que inspirou o filme The Bonfire of the Vanities – também, vocês devem lembrar, ambientado em Wall Street. Mas nenhum dos personagens destes e de outros filmes baseados na meca do dinheiro nos EUA pode superar os exageros de Jordan. E isso fica muito evidente naquela entrevista que ele deu quando estava lançando a própria história – porque agora, com o sucesso do filme, há quem questione o trabalho de Scorsese. Cá entre nós, o trabalho deste grande diretor poucas vezes foi tão realista.

E corajoso, como eu disse antes e vou repetir depois. Afinal, logo nos primeiros minutos de The Wolf of Wall Street, o roteiro de Terence Winter baseado no livro de Jordan nos lança nos ingredientes principais do personagem e do filme: dinheiro, muito dinheiro, drogas, belas mulheres, e tudo o mais que milhões de dólares podem proporcionar para um homem ganancioso, exibicionista e sem limites.

A lógica do trabalho de Winter é a de muitos outros filmes: o roteiro primeiro apresenta o personagem em seu “melhor” momento. No auge. Depois, volta no tempo para contar como ele chegou aí. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E no final, revela como ele caiu em “desgraça”. Ainda que para um sujeito como Jordan, cheio de malícia e com nenhuma ética, nunca existe o fundo do poço. Quando se vê encurralado e sem saída pelo agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), ele não pensa duas vezes em delatar os “amigos” e parceiros de golpe para conseguir uma importante redução de pena.

A história de Jordan é a clássica sobre a corrupção humana. Quase impossível acreditar que o mesmo sujeito que paga para uma funcionária raspar o cabelo na frente dos demais funcionário de sua empresa em troca de US$ 5 mil é o mesmo que chegou para trabalhar em Wall Street aos 22 anos, recém-casado, sem beber álcool no almoço ou mesmo “dar um tapa” em um pouco de cocaína.

A diferença de The Wolf of Wall Street para outras produções que seguem a linha de começar com o auge do personagem e depois retomar o passado para contar como ele chegou lá é o tipo de “herói” que o roteiro foca. Não estamos vendo a nenhum herói de guerra, ou cidadão que deixou a miséria para trás para erguer um grande império. Acompanhamos a evolução de um sujeito que “gasta os tubos” com orgias, drogas e tudo o mais que o dinheiro pode comprar e que, para conseguir este dinheiro, se diverte muito enganando “os trouxas”. Sabendo-se que estes trouxas são, muitas vezes, pessoas ricas, despreocupadas, e outras vezes sujeitos comuns que apenas acreditam que podem ganhar dinheiro com ações.

O que eu achei mais bacana neste filme é que o roteiro de Winter e a direção “avant-garde industrial” (inovadora, mas que também faz parte do mainstream) de Scorsese não aliviam e nem cedem em momento algum ao “politicamente correto”. É para fazer um filme sobre o descontrole do homem “pós-moderno” fascinado pelas promessas do dinheiro fácil de Wall Street? Então vamos fazer isso da maneira mais fiel e livre possível. Parece que esta foi a ordem no projeto comandado por Scorsese que, há tempos, devia para o seu público um filme “tresloucado” (no bom sentido) como este.

Daí que mergulhamos na história de Jordan em uma tresloucada narrativa em primeira pessoa – afinal, o material original no qual o filme se baseia é uma autobiografia. Nada melhor que explorar o ego do personagem principal também na forma com que ele conta a própria história. Desde o início, Scorsese apresenta uma direção ágil, que percorre os locais explorando os ícones da riqueza até se deparar com uma cena dantesca. E há várias delas. Seja no sexo com prostitutas ou no uso de drogas, o diretor parece desacelerar o tempo para formar quadros de decadência para o espectador.

O texto de Belfort é outro ponto forte da produção. Além dos comentários de Jordan sobre a própria vida, temos diálogos afiados, cheios de linguagem coloquial e de palavrões, em uma verborragia que lembra o melhor de Tarantino em algumas ocasiões. Ajuda muito na produção a excelente edição de Thelma Schoonmaker e a ótima e envolvente trilha sonora da equipe de Jennifer L. Dunnington.

Pensando de forma fria, Belfort acerta na mosca em optar pelo velho “chamariz” de mostrar o auge de Jordan antes de contar a história dele. Afinal, que homem não gostaria de ter aquela Ferrari branca, aquela mansão e a estonteante Naomi Lapaglia (a revelação Margot Robbie) como mulher, além dos outras “propriedades” que Jordan elenca no início da produção? Então você primeiro “fisga” o imaginário do público para, depois, revelar como tudo aconteceu. Sempre funciona, especialmente quando o “tudo” tem tanta ação e loucura.

Para funcionar da forma com que funciona, além de um diretor convicto de que deve explorar ao máximo aquele contexto sem fronteiras dos ricos de Wall Street, o filme precisa de um elenco afiado. E é isso que Scorsese consegue ao tirar o melhor de cada ator envolvido – com especial destaque para Leonardo DiCaprio que tem, neste filme, provavelmente o melhor desempenho de sua vida até o momento. Mas ele não está sozinho no bom trabalho.

Após o espectador ser fisgado por aquela figura sem moral chamada Jordan Belfort, voltamos no tempo e acompanhamos ele desde a chegada em Wall Street. Tentando conhecer de perto o trabalho de corretor para um dia tornar-se um deles, Jordan entra em uma empresa como tantas outras daquela rua e começa a ganhar dinheiro para fazer ligações para o corretor da mesa ao lado.

Logo no primeiro dia de trabalho ele é chamado para o almoço com Mark Hanna (o sempre ótimo Matthew McConaughey em um papel que dura apenas o primeiro trecho do filme). Rapidamente Hanna ensina o bê-à-bá daquela vida para Jordan. E assistimos, junto com o ainda inocente Jordan, o início de um comportamento de loucura que será visto depois em muitos dos personagens do filme.

Os acontecimentos vão se desenrolando no tempo certo e com agilidade. Rapidamente conhecemos os personagens secundários do filme e acompanhamos a lógica de Jordan em tirar o maior proveito possível das situações. Como explica este e outros textos sobre os homens de Wall Street, eles não se importam com o dinheiro de seus clientes. O importante, para eles, era retirar dinheiro de clientes ricos e embolsá-lo. Isso vale tanto para casas de investimento quanto para os grandes bancos.

Como informa o texto indicado no parágrafo anterior e publicado no The New York Times, muitos se escandalizaram com os bônus de até US$ 60 milhões que muitos executivos receberam naquele ano, final de 2006. Mas afinal, como Jordan e seus comparsas ganhavam tanto dinheiro. Como aquele texto do The Telegraph explica, Jordan e seu grupo – que, de fato, recebeu um texto com um passo-a-passo de como convencer as pessoas a investir em ações feito por Jordan para seguir – convenciam os investidores a desembolsar boas quantias em dinheiro.

Depois que eles tinham feito isso, os papéis se valorizavam e Jordan e seus sócios vendiam a grande quantidade de ações daquele papel que eles tinham. Com esta venda, Jordan e Cia. ganhavam grande quantidade de dinheiro, enquanto os clientes que eles tinham atendido perdiam os recursos na mesma proporção – já que, ao vender os papéis que tinham, Jordan e Cia. faziam com que aquela ação tivesse queda acentuada de valor.

Grande “vendedor”, Jordan chegou a ganhar US$ 50 milhões por ano. E como o filme mostra bem, ele teve a oportunidade de saltar do barco antes dele afundar, mas não quis fazer isso para continuar se sentindo importante na empresa que ele tinha criado. Fica evidente o gosto do protagonista não apenas pelo dinheiro e pelo poder que ele traz, mas principalmente pela admiração que as outras pessoas passaram a dedicar por ele.

Algo que me surpreendeu neste filme, além de um roteiro e de uma direção impecáveis, foi o humor que The Wolf of Wall Street acaba destilando. Em meio a tanto exagero, há cenas verdadeiramente dantescas. A que me fez rir sem parar, para a minha surpresa, foi aquela em que DiCaprio é abatido pela droga Lemmon-714, comprada por Donnie Azoff (Jonah Hill) em uma farmácia perto de casa e que estava esperando para ser vendida há 15 anos. A sequência faz lembrar a filmes menores, como Hangover, mas de forma muito mais exagerada e divertida. A melhor parte, para mim, vai do colapso de Jordan até a saída dele com o carro. Inacreditável!

Mas afinal, qual é a razão para o filme ser tão bom? Além do roteiro envolvente e da direção de Scorsese que consegue tirar o melhor de cada sequência e de cada ator, gostei muito do “espírito” da história de The Wolf of Wall Street. Sem “papas na língua”, os realizadores deste filme nos mostram o cotidiano de uma daquelas figuras “míticas” de Wall Street. Um dos “rapazes jovens de terno” ambiciosos que serviram de “inspiração” para mais de uma geração de norte-americanos.

Quantos não queriam ser um Jordan Belfort? Quantos não fora como ele ou ainda piores? Esse personagem, assim tão sem limites e ambicioso, acaba sendo o ídolo torto de um sistema cruel e interessado apenas nas cifras bancárias. O extremo do capitalismo, onde se vende e se compra apenas o valor estimado e muitas vezes equivocado de coisas reais, palpáveis.

The Wolf of Wall Street, desta forma, é uma importante crítica sobre a sociedade que criamos e ajudamos a manter. Onde a lógica do dinheiro fala mais alta e ignora todos os outros valores – especialmente os mais importantes, como a ética, a compaixão e a solidariedade. Na selva plasmada por este filme, sobrevive quem sabe enganar mais e melhor.

O herói é um escroque, um lixo – como lhe dizem no início da carreira -, mas também um símbolo de ascensão social que é vendido no “sonho americano”. Não por acaso, ele é tão aplaudido, paparicado e admirado no meio de Wall Street. E em todos os meios que derivam a partir dali. Contar a história de Jordan e das pessoas que o cercaram sem aliviar a dose é uma forma de bater no estômago deste sistema e de chacoalhar quem segue admirando aquela realidade. Ou deveria ser, pelo menos. Grande filme! Scorsese em sua melhor fase.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei interessante, e por isso não me canso de citar, aquela matéria do The Telegraph. Especialmente porque o texto de Tom Leonard foi escrito quando Jordan estava lançando a própria autobiografia – antes de qualquer polêmica ou crítica negativa derivada do filme de Scorsese. O texto não apenas comprova que grande parte de The Wolf of Wall Street é legítima e fiel às memórias de Jordan como também traz informações sobre ele após a saída da prisão.

De acordo com o texto de Leonard, publicado em 2008, Jordan, na época com 45 anos, vivia em uma casa “modesta” de três quartos em Manhattan Beach e tinha que repassar metade do que ganhava por mês para pagar as dívidas que contraiu com os investidores que ele tinha fraudado. Em cinco anos, Jordan havia pago US$ 14 milhões dos US$ 110 milhões que ele devia. Uau!

Procurando mais sobre esta figura tresloucada que inspirou o filme de Scorsese, encontrei a página oficial de Jordan. Como o filme sugere, ele segue ganhando dinheiro ensinando as pessoas os seus “segredos de persuasão”. Até porque, segundo o site, através desta persuasão qualquer pessoa pode se tornar o “número 1 em vendas”, ganhando muito dinheiro. Certo, certo. Desta forma, Jordan oferece 10 módulos de seus “valiosos” segredos pelo valor de US$ 1.997.

Agora, talvez você esteja se perguntando o que o verdadeiro Jordan achou do filme que retrata parte da vida dele… Pois bem, este texto do Huffington Post ajuda a nos responder esta pergunta. Jordan considera Leonardo DiCaprio brilhante, assim como Martin Scorsese. Ao mesmo tempo que ele afirma que o filme não o está ajudando – será que é porque ele não continuou pagando a dívida citada acima? Os advogados de Jordan dizem que a obrigação dele de repassar metade do que ganha terminou em 2010, quando ele saiu em liberdade condicional. Mas há quem questione o dinheiro que ele está ganhando com os livros e com o filme que narram de que forma ele cometeu diferentes crimes.

Da parte técnica do filme, tiro o meu chapéu para a direção impecável de Scorsese. Que bom ver a este gênio do cinema voltando a fazer um filme da maneira que ele acha mais legítima, sem pensar no sucesso que a produção possa ter. Afinal, com tantos exageros, The Wolf of Wall Street poderia ter se saído apenas razoável nas bilheterias. Mas Scorsese não se importou com isso e nos entregou um dos melhores filmes que levam a sua assinatura em muuuuuuito tempo.

Também é ótimo o texto de Terence Winter, um dos roteiristas de The Sopranos e criador da série Boardwalk Empire. Além dos outros aspectos técnicos já destacados na crítica, importante destacar o excelente trabalho do diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto, que ajuda a manter a qualidade da imagem em cada tomada da produção; assim como o bom trabalho da direção de arte de Chris Shriver, do design de produção de Bob Shaw e da decoração de set de Ellen Christiansen.

Todos os atores envolvidos no projeto estão bem. Ninguém destoa do conjunto da obra. Mas o grande destaque, sem dúvida, é Leonardo DiCaprio. Além de estrelar esta produção e prender o interesse do público do início até o final, o astro de Hollywood é um dos produtores do filme – junto com Scorsese e outros nomes. Depois dele, me impressionou o trabalho de Margot Robbie, que se destaca como a mulher “perfeita” de Jordan. Para mim, ela é a revelação do filme.

Além deles, me impressionou a entrega de Matthew McConaughey, que está em grande fase, e a coerência do desempenho de Kyle Chandler. Jonah Hill que, me perdoem os fãs, sempre achei medíocre, está um pouco acima da média que ele costuma entregar. Ainda assim, agora posso dizer: foi um exagero da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter indicado Hill ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este filme. Ele supera a mediocridade que está acostumado a apresentar, mas ainda assim… não merecia concorrer ao Oscar.

Outras figuras importantes aparecem em papéis secundários nesta produção. Entre outros, destaque para o diretor Rob Reiner como Max Belfort, pai de Jordan; Jon Bernthal, que ficou conhecido pelo papel de Shane na série The Walkind Dead, como Brad, um dos “funcionários” de Jordan – e peça fundamental para o protagonista levar vários milhões de dólares para fora dos Estados Unidos; o ganhador do Oscar Jean Dujardin como Jean Jacques Saurel, o francês que aceita o dinheiro fraudulento de Jordan em Genebra; Joanna Lumley interpreta a tia de Naomi, Emma, peça interessante da trama; Cristin Milioti está bem como Teresa Petrillo, a primeira esposa de Jordan; P.J. Byrne encarna Nicky Koskoff, conhecido também pelo apelido de Rugrat, um dos “fundadores” da empresa de Jordan e que era um dos mais malucos do grupo.

Os outros “fundadores” da empresa do protagonista que começou em uma garagem de uma antiga oficina foram Sea Otter, interpretado por Henry Zebrowski; Chester Ming, que ganha vida no trabalho do ótimo Kenneth Choi; e Robbie Feinberg, conhecido pelo apelido de Pinhead, interpretado por Brian Sacca. Hilários, todos. Eles ajudam DiCaprio na missão de carregar o filme de forma convincente.

The Wolf of Wall Street estrou no dia 25 de dezembro nos cinemas dos Estados Unidos, do Canadá e da França. Depois, pouco a pouco, ele foi entrando nos outros mercados. Segundo o site Box Office Mojo, até agora o filme conseguiu pouco mais de US$ 92,4 milhões apenas nos EUA, e outros US$ 77,1 milhões nos outros mercados em que está em cartaz. Detalhe: o filme teria custado aproximadamente US$ 100 milhões. Ou seja, deve ter algum lucro, mas ainda lhe falta um bom caminho para poder ser considerado um sucesso de bilheteria.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Wolf of Wall Street foi filmado, principalmente, em Nova York, mas teve cenas ainda em New Jersey e nas Bahamas.

Até o momento, The Wolf of Wall Street ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 49. Entre os que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Leonardo DiCaprio; e para dois prêmios como Melhor Roteiro Adaptado para Terence Winter, incluindo o respeitado National Board of Review. Além deles, The Wolf of Wall Street foi indicado a cinco Oscar’s.

E para quem ficou interessado sobre o tema dos “desmandos” e exageros de Wall Street, encontrei alguns textos interessantes. Para começar, esta entrevista bacana com Jonathan Alpert, psicoterapeuta dos “malucos” de Wall Street e que foi publicada pela Alfa em 2011. Depois, este texto sobre o carioca Murilo dos Santos, um dos atores descobertos pelo filme Cidade de Deus e que acabou sendo engraxate dos executivos de Wall Street – no link com o texto publicado na IstoÉ Dinheiro em 2007 há informações sobre o que ele encontrou por lá e que contou em um livro. E para finalizar, este novo texto sobre o “real” Jordan Belfort, publicado em janeiro deste ano, após o lançamento de The Wolf of Wall Street, pela The Telegraph.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para o filme. Uma bela avaliação, levando em conta os concorrentes diretos do filme no Oscar e o próprio padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais “comedidos”: eles dedicaram 171 críticas positivas e 50 negativas para The Wolf of Wall Street, o que garante 77% de aprovação para o filme e uma nota média de 7,7.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na minha lista de críticas que satisfazem uma das três votações aqui no blog.

Ah sim, e agora vou adicionar alguns comentários que eu não pude fazer antes, pela correria de publicar este texto. Francamente, a interpretação de Matthew McConaughey merecia mais uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante do que Jonah Hill. Mesmo McCounaughey tendo um papel bem menor que o do outro. Mas o importante é que ele arrasa em The Wolf of Wall Street – aliás, McConaughey está em grande fase. Ele faz por The Wolf of Wall Street o que Viola Davis fez por Doubt. Em poucos minutos, McConaughey é tão importante para o filme quanto os primeiros minutos de Jennifer Lawrence em American Hustle – ou seja, os dois roubam a cena.

CONCLUSÃO: Eu já tinha lido algo sobre os exageros de todas as espécies cometidos pelos homens engravatados que fizeram Wall Street ser a meca do dinheiro volátil no mundo. Mas por mais que eu tivesse lido algo a respeito, The Wolf of Wall Street me surpreendeu. E olha que eu vinha com certa expectativa para ver o filme. O que geralmente é ruim. Mas Scorsese conseguiu mais uma vez. Ele entrega, aqui, um filme ousado, exagerado, mas que precisava ser assim para respeitar o material original. The Wolf of Wall Street mergulha fundo na ambição e na falta de controle dos homens cheios de dinheiro e sem nenhuma moral de Wall Street.

Para a minha surpresa, as três horas passaram leves, porque o roteiro é envolvente e a condução de Scorsese, soberba. Leonardo DiCaprio tem a interpretação de sua vida, e é bem acompanhado pelo elenco de apoio. No final das contas, Scorsese mais uma vez debate a sociedade da qual ele faz parte, com o admirado Jordan Belfort sendo um símbolo da ambição que ajuda a explicar o “sonho americano”. Enquanto houver gente faminta por riqueza, existirão lobos para enganar os pastores e comer o rebanho. Mas um aviso: esta produção não é indicada para quem tem problemas em ouvir palavrões, ver gente sem moral e muitas, infindáveis cenas de sexo e drogas. Se você não tiver problema com isso, terás pela frente uma obra que faz pensar, além de um grande entretenimento. E para não deixar dúvidas: The Wolf of Wall Street deixa American Hustle no chinelo!

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Se há um filme com capacidade para surpreender na entrega das estatuetas douradas de Hollywood no próximo dia 2 de março, este filme se chama The Wolf of Wall Street. Porque apesar do favoritismo moral de 12 Years a Slave (comentado aqui no blog) e do favoritismo técnico de Gravity (com crítica aqui), The Wolf of Wall Street se revela um filme com muitas qualidades para deixar de ser o “azarão” da categoria de Melhor Filme e levar a estatueta.

Francamente, acho difícil a zebra ganhar. Mas se há uma zebra este ano, esta é o filme de Martin Scorsese. Indicado em cinco categorias (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator – Leonardo DiCaprio, Melhor Ator Coadjuvante – Jonah Hill, Melhor Roteiro Adaptado), The Wolf of Wall Street tem menos chances de estatuetas que seis de seus concorrentes principais.

As chances do filme são extremas. Ou ele surpreende e leva estatuetas que ninguém espera, ou sai de mãos vazias. Para mim, não seria surpreendente a segunda opção. Mas como o Oscar tem as suas surpresas… The Wolf of Wall Street tem menos chances que 12 Years a Slave e Gravity como Melhor Filme. Outros favoritos: Alfonso Cuarón como Melhor Diretor; Matthew McCounaughey (ou Chiwetel Ejiofor) como Melhor Ator; 12 Years a Slave ou Before a Midnight como Melhor Roteiro Adaptado; e Jared Leto como Melhor Ator Coadjuvante. Para ganhar alguma estatueta, The Wolf of Wall Street terá que derrotar estes nomes e produções. Difícil, mas não impossível.

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Rampart

Um policial fora de controle. Que se enrola cada vez mais em seus próprios erros. Rampart revela os bastidores da polícia de Los Angeles no final dos anos 1990. Como estrela da produção, Woody Harrelson faz um de seus melhores trabalhos. Além de honesto, este filme se destaca por algumas sequências inventivas do diretor. Entretenimento com levada autoral e alguma inovação.

A HISTÓRIA: O policial David Douglas Brown (Woody Harrelson) faz várias rondas na Los Angeles de 1999. Em um certo dia, ele aparece ao lado da estagiária Jane (Stella Schnabel) e do policial Dan Morone (Jon Bernthal). Jane escuta os conselhos dos dois policiais, especialmente de Dan, que afirma que ela deve aprender logo a diferença entre os diferentes tipos de latinos que vivem na jurisdição deles. Afinal, quanto antes ela aprender a identificar suas diferentes origens, mais rapidamente ela perceberá quem odeia quem. Segundo David, todos traficam, todo o tempo, e estão armados para atacar a polícia. Ela pergunta sobre o escândalo, e os dois policiais desprezam este tema. David diz que dois policiais fizeram besteira e mancharam o restante da corporação. Mas logo mais veremos que esta não é toda a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Rampart): O roteiro de James Ellroy e do diretor Oren Moverman acerta no começo do filme. O texto planta dúvidas na cabeça dos espectadores, que não sabem até que ponto David Brown é apenas um policial um pouco exagerado, cansado da rotina de rondas e problemas, mas que tem uma preocupação ética e de conduta, ou se ele é um louco fardado.

Aquela conversa dele com colegas no início do filme mostra as duas facetas do protagonista: por um lado, ele acredita que todos os latinos são traficantes e estão preparados para ferrar a ele e seus colegas quando tiverem a primeira oportunidade e, por outro, ele revela ter um grande respeito pela disciplina e de que é capaz de voltar atrás em um gesto exagerado.

Em seguida, ele quer mostrar força para a colega iniciante, e tem outro gesto idiota, que não parece ser próprio de alguém que está há muito tempo nas ruas. Na delegacia de polícia, mais uma vez, ele exagera com um preso que havia batido em um colega. Não parece que o escândalo envolvendo a Rampart, divisão da polícia de Los Angeles que atende a bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, foi realmente um equívoco de dois policiais.

O protagonista desta produção serve de exemplo de uma polícia contaminada pela brutalidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Das ruas, passamos rapidamente para a intimidade dele. Para complicar o enredo daquela vida conturbada, ele tem duas ex-mulheres, que são irmãs, e duas filhas com as quais ele não sabe lidar. Aliás, ele tem dificuldade em lidar com mulheres em geral. Não parece ter muito respeito por elas. Bom de cama, ele pula de uma relação para a outra. Parece não gostar de dormir sozinho – como tantos e tantos outros. Mas algo de positivo (e é preciso dizer, diante de tantos defeitos desse personagem): ele não bate em mulher. Pode insultá-las, desprezá-las, mas não levanta a mão para elas.

Evidente, mesmo sem sabermos quase nada sobre o passado de David, que ele respeita muito a “superioridade” dos homens. Mesmo que de uma maneira torta, ele tenta também preservar o valor da “família”. Claro que nenhum destes conceitos estão limpos, sem contaminação. Nada na vida de David, e isso vamos percebendo aos poucos, parece não estar manchado pela violência ou pela corrupção.

Ainda assim, é interessante como Ellroy e o diretor Oren Moverman conseguem adentrar de forma sutil na vida do personagem, mostrando várias de suas facetas. Há o homem de família, que não consegue conciliar ninguém em casa – não resgata o romance com nenhuma das ex e nem consegue muito afeto das filhas. Há o policial, que está cansado de ver o mesmo e perde a cabeça facilmente, seja com um imigrante ou com um superior – nestas horas, a hierarquia parece importar pouco. Existe também o David garanhão e festeiro, que bebe em serviço, fuma sem parar, frequenta bares e boates em busca de sexo sem compromissos. E há ainda o homem corrupto, com contatos suspeitos com Hartshorn (Ned Beatty), o homem que conhece o submundo da jogatina.

Rampart é complexo por isso, por focar todas estas facetas de um homem que ganhou os noticiários por um momento de violência. Mas a condução do filme inova pouco. Se o roteiro é bem amarrado e interessante, a direção segue o caminho tradicional. Exceto por duas sequências que valem quase pelo restante da produção: aquela do “confronto” entre David e os superiores Joan Confrey (Sigourney Weaver) e Bill Blago (Steve Buscemi), uma roleta russa de pressões e egos; e a que foca uma das noites mais alucinantes do protagonista, em uma boate onde rolam sexo e drogas e onde predomina a cor vermelha. A visão distorcida que o personagem naquela noite pode sintetizar toda a perda de foco que ele está vivenciando naquela momento da vida.

Os atores e atrizes que embarcam nesta produção é algo que impressiona. Além dos já citados, vale destacar a atuação de Ben Foster como o general Terry, preso à uma cadeira-de-rodas; Cynthia Nixon como Barbara, irmã de Catherine, interpretada por Anne Heche, ambas ex-mulheres de David; Brie Larson como Helen, filha mais velha do protagonista, e Sammy Boyarsky como Margaret, a caçula da família; Robert Wisdom como o capitão da divisão Rampart; Robin Wright como Linda Fentress, uma advogada que acaba se relacionando com David em seu pior momento; e Ice Cube como Kyle Timkins, investigador do Ministério Público que não sai da cola do protagonista. Baita elenco, não? E todos estão bem, ninguém destoando muito do ótimo trabalho de Harrelson.

Rampart tem dois momentos de explosão do protagonista que marcam erros importantes e difíceis de serem contornados. Fora estes “rompantes”, nenhum dos dois muito surpreendentes – afinal, o espectador já está “armado” para aquelas sequências -, o restante do filme é bastante cerebral, e tenta mostrar as diferentes facetas do protagonista. Essa busca é interessante, e torna esta produção densa.

Mas por outro lado, deixa pouco espaço para surpresas. E em um filme policial, elas são importantes. Com tantas linhas e histórias para contar, Rampart perde um pouco de ritmo para abrir espaço para uma leitura mais completa daquela realidade. É um filme louvável, ainda que pouco provocador. Faz refletir, mas inova em poucas cenas. Está bem acima da média, mas não chega a ser excepcional.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O estilo de direção de Oren Moverman segue a lógica dos documentários. Câmera na mão, estilo de interpretação dos atores cheia de improvisos, Rampart vende a ideia de que o espectador está acompanhando uma história real, enquanto ela acontece. Uma escolha acertada, para este tipo de história. Fora aquelas duas sequências que eu comentei antes, o restante da produção segue uma lógica limpa, linear, sem inovações.

A direção de fotografia de Bobby Bukowski explora, evidencia e potencializa a luminosidade de Los Angeles. Uma decisão acertada, e que muitas vezes deixa o filme um pouco “over” na luz. A impressão é que o sol queima, e que não é possível para ninguém conseguir proteção suficiente contra ele. Assim como os personagens, que não conseguem ficar incólumes em meio àquele cenário de insegurança e violência crescente.

De todos os atores citados, os que apresentaram o melhor trabalho foram, claro, o protagonista Woody Harrelson, Jon Foster – em uma ponta -, Brie Larson (ainda que ela irrite, alguma vezes) e Robin Wright. Outros atores, talentosos, aparecem tão pouco que não conseguem se destacar. Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho do editor Jay Rabinowitz.

Gostei de ter visto o ator Jon Bernthal, que faz um trabalho excelente na série The Walking Dead, em um filme. Mas senti falta de vê-lo nesta produção mais do que em uma ponta.

Fiquei curiosa por saber mais sobre a divisão Rampart. Neste link da Wikipédia (em inglês), é possível saber que ela integra a polícia de Los Angeles e atende as regiões oeste e noroeste do Centro da cidade. Como eu disse antes, faz parte desta região bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, conhecidos por abrigar muitos latinos. O nome da divisão surgiu a partir do Boulevard Rampart, uma das principais ruas da área de patrulha dos policiais que a integram. A população de Rampart chega a 300 mil pessoas, e é considerada a área mais populosa da cidade.

No mesmo texto da Wikipédia é possível saber um pouco mais sobre o escândalo que envolveu a divisão Rampart. No final dos anos 1970, foi criado ali um programa anti-gangues. Ele teria funcionado bem nos primeiros anos, mas entre 1998 e o ano 2000, vários policiais e detetives do esquadrão foram acusados de má conduta. Um deles, Rafael Perez, foi acusado de participar de um assalto à banco e por roubar seis quilos de cocaína de um armário de provas policiais.

O ato mais notório de Perez foi ele ter sido gravado espancando o membro de uma gangue que estava desarmado – história parecida com a do protagonista de Rampart, não? Ele teria confessado o roubo da cocaína e trocou esta possível condenação pelo gesto de delatar colegas corruptos – Perez teria apontado 70 deles por má conduta.

Rampart estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. No mesmo mês, ele participou do festival de cinema de San Sebastian, na Espanha. Até agora, o filme foi indicado a dois prêmios, ambos para o ator Woody Harrelson, mas não ganhou nenhum deles.

Há poucas informações sobre o resultado desta produção nas bilheterias. Segundo o site IMDb, nos Estados Unidos, o filme teria arrecadado pouco mais de US$ 663,3 mil até o dia 11 de março. Sim, mil, não milhões. Uma bilheteria minúscula, para os padrões do cinema norte-americano. Em sua melhor época, o filme foi exibido em 106 cinemas, nos Estados Unidos. Em um cenário muito restrito, o que ajuda a explicar a baixa bilheteria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Rampart. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 92 críticas positivas e 29 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

O crítico Andre Barcinski, da Folha, escreveu aqui que ele considera Rampart o melhor filme americano de 2011. Respeito a opinião dele, é claro. Gostei de Rampart. Mas não achei esta produção a melhor do ano passado. Nem de perto. O filme não é tão surpreendente, nem na forma ou no conteúdo, quanto poderia ser.

Rampart é o segundo filme do diretor e roteirista Oren Moverman. Antes, ele dirigiu a The Messenger, filme bem interessante e que tem no elenco, outra vez, Woody Harrelson, Ben Foster, Steve Buscemi, entre outros. Atualmente, ele está trabalhando na pré-produção de Berlin, I Love You, com previsão para ser lançado em 2013.

Woody Harrelson entrou na minha lista de ótimos atores com Natural Born Killers. Depois daquele filme de Oliver Stone, de 1994, ele fez outros trabalhos excelentes. Vale citar (e assistir) a The People vs. Larry Flynt, de Milos Forman; The Walker, de Paul Schrader; Transsiberian, de Brad Anderson; e o já citado The Messenger.

CONCLUSÃO: Um vilão nunca é apenas um vilão, por mais que tantos filmes de Hollywood tenham tentado simplificar estes personagens repetidas vezes. Um sujeito errado sempre tem uma história pessoal para contar, assim como ele sofre com uma certa contaminação originada na sociedade e identificável em seu comportamento. Rampart mergulha na história de um homem que deveria ser o mocinho de uma determinada realidade – replicável para qualquer parte, mas que aparece como um reflexo mal acabado das falhas deste coletivo. Acreditando ser intocável, o protagonista abusa de sua autoridade e ajuda a disseminar o caos na realidade que deveria contribuir para controlar. O filme acerta ao acompanhar ele de perto pouco antes do trem de sua vida descarrilhar, até para que o espectador possa ver de perto como os problemas sempre podem aumentar e uma pessoa perder o controle da própria vida. Há chance de redenção para o personagem de Rampart? Dificilmente. E essa crueza talvez seja o melhor do filme.

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Rampart – Um Tira Acima da Lei

Um policial fora de controle. Que se enrola cada vez mais em seus próprios erros. Rampart revela os bastidores da polícia de Los Angeles no final dos anos 1990. Como estrela da produção, Woody Harrelson faz um de seus melhores trabalhos. Além de honesto, este filme se destaca por algumas sequências inventivas do diretor. Entretenimento com levada autoral e alguma inovação.

A HISTÓRIA: O policial David Douglas Brown (Woody Harrelson) faz várias rondas na Los Angeles de 1999. Em um certo dia, ele aparece ao lado da estagiária Jane (Stella Schnabel) e do policial Dan Morone (Jon Bernthal). Jane escuta os conselhos dos dois policiais, especialmente de Dan, que afirma que ela deve aprender logo a diferença entre os diferentes tipos de latinos que vivem na jurisdição deles. Afinal, quanto antes ela aprender a identificar suas diferentes origens, mais rapidamente ela perceberá quem odeia quem. Segundo David, todos traficam, todo o tempo, e estão armados para atacar a polícia. Ela pergunta sobre o escândalo, e os dois policiais desprezam este tema. David diz que dois policiais fizeram besteira e mancharam o restante da corporação. Mas logo mais veremos que esta não é toda a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Rampart): O roteiro de James Ellroy e do diretor Oren Moverman acerta no começo do filme. O texto planta dúvidas na cabeça dos espectadores, que não sabem até que ponto David Brown é apenas um policial um pouco exagerado, cansado da rotina de rondas e problemas, mas que tem uma preocupação ética e de conduta, ou se ele é um louco fardado.

Aquela conversa dele com colegas no início do filme mostra as duas facetas do protagonista: por um lado, ele acredita que todos os latinos são traficantes e estão preparados para ferrar a ele e seus colegas quando tiverem a primeira oportunidade e, por outro, ele revela ter um grande respeito pela disciplina e de que é capaz de voltar atrás em um gesto exagerado.

Em seguida, ele quer mostrar força para a colega iniciante, e tem outro gesto idiota, que não parece ser próprio de alguém que está há muito tempo nas ruas. Na delegacia de polícia, mais uma vez, ele exagera com um preso que havia batido em um colega. Não parece que o escândalo envolvendo a Rampart, divisão da polícia de Los Angeles que atende a bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, foi realmente um equívoco de dois policiais.

O protagonista desta produção serve de exemplo de uma polícia contaminada pela brutalidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Das ruas, passamos rapidamente para a intimidade dele. Para complicar o enredo daquela vida conturbada, ele tem duas ex-mulheres, que são irmãs, e duas filhas com as quais ele não sabe lidar. Aliás, ele tem dificuldade em lidar com mulheres em geral. Não parece ter muito respeito por elas. Bom de cama, ele pula de uma relação para a outra. Parece não gostar de dormir sozinho – como tantos e tantos outros. Mas algo de positivo (e é preciso dizer, diante de tantos defeitos desse personagem): ele não bate em mulher. Pode insultá-las, desprezá-las, mas não levanta a mão para elas.

Evidente, mesmo sem sabermos quase nada sobre o passado de David, que ele respeita muito a “superioridade” dos homens. Mesmo que de uma maneira torta, ele tenta também preservar o valor da “família”. Claro que nenhum destes conceitos estão limpos, sem contaminação. Nada na vida de David, e isso vamos percebendo aos poucos, parece não estar manchado pela violência ou pela corrupção.

Ainda assim, é interessante como Ellroy e o diretor Oren Moverman conseguem adentrar de forma sutil na vida do personagem, mostrando várias de suas facetas. Há o homem de família, que não consegue conciliar ninguém em casa – não resgata o romance com nenhuma das ex e nem consegue muito afeto das filhas. Há o policial, que está cansado de ver o mesmo e perde a cabeça facilmente, seja com um imigrante ou com um superior – nestas horas, a hierarquia parece importar pouco. Existe também o David garanhão e festeiro, que bebe em serviço, fuma sem parar, frequenta bares e boates em busca de sexo sem compromissos. E há ainda o homem corrupto, com contatos suspeitos com Hartshorn (Ned Beatty), o homem que conhece o submundo da jogatina.

Rampart é complexo por isso, por focar todas estas facetas de um homem que ganhou os noticiários por um momento de violência. Mas a condução do filme inova pouco. Se o roteiro é bem amarrado e interessante, a direção segue o caminho tradicional. Exceto por duas sequências que valem quase pelo restante da produção: aquela do “confronto” entre David e os superiores Joan Confrey (Sigourney Weaver) e Bill Blago (Steve Buscemi), uma roleta russa de pressões e egos; e a que foca uma das noites mais alucinantes do protagonista, em uma boate onde rolam sexo e drogas e onde predomina a cor vermelha. A visão distorcida que o personagem naquela noite pode sintetizar toda a perda de foco que ele está vivenciando naquela momento da vida.

Os atores e atrizes que embarcam nesta produção é algo que impressiona. Além dos já citados, vale destacar a atuação de Ben Foster como o general Terry, preso à uma cadeira-de-rodas; Cynthia Nixon como Barbara, irmã de Catherine, interpretada por Anne Heche, ambas ex-mulheres de David; Brie Larson como Helen, filha mais velha do protagonista, e Sammy Boyarsky como Margaret, a caçula da família; Robert Wisdom como o capitão da divisão Rampart; Robin Wright como Linda Fentress, uma advogada que acaba se relacionando com David em seu pior momento; e Ice Cube como Kyle Timkins, investigador do Ministério Público que não sai da cola do protagonista. Baita elenco, não? E todos estão bem, ninguém destoando muito do ótimo trabalho de Harrelson.

Rampart tem dois momentos de explosão do protagonista que marcam erros importantes e difíceis de serem contornados. Fora estes “rompantes”, nenhum dos dois muito surpreendentes – afinal, o espectador já está “armado” para aquelas sequências -, o restante do filme é bastante cerebral, e tenta mostrar as diferentes facetas do protagonista. Essa busca é interessante, e torna esta produção densa.

Mas por outro lado, deixa pouco espaço para surpresas. E em um filme policial, elas são importantes. Com tantas linhas e histórias para contar, Rampart perde um pouco de ritmo para abrir espaço para uma leitura mais completa daquela realidade. É um filme louvável, ainda que pouco provocador. Faz refletir, mas inova em poucas cenas. Está bem acima da média, mas não chega a ser excepcional.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O estilo de direção de Oren Moverman segue a lógica dos documentários. Câmera na mão, estilo de interpretação dos atores cheia de improvisos, Rampart vende a ideia de que o espectador está acompanhando uma história real, enquanto ela acontece. Uma escolha acertada, para este tipo de história. Fora aquelas duas sequências que eu comentei antes, o restante da produção segue uma lógica limpa, linear, sem inovações.

A direção de fotografia de Bobby Bukowski explora, evidencia e potencializa a luminosidade de Los Angeles. Uma decisão acertada, e que muitas vezes deixa o filme um pouco “over” na luz. A impressão é que o sol queima, e que não é possível para ninguém conseguir proteção suficiente contra ele. Assim como os personagens, que não conseguem ficar incólumes em meio àquele cenário de insegurança e violência crescente.

De todos os atores citados, os que apresentaram o melhor trabalho foram, claro, o protagonista Woody Harrelson, Jon Foster – em uma ponta -, Brie Larson (ainda que ela irrite, alguma vezes) e Robin Wright. Outros atores, talentosos, aparecem tão pouco que não conseguem se destacar. Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho do editor Jay Rabinowitz.

Gostei de ter visto o ator Jon Bernthal, que faz um trabalho excelente na série The Walking Dead, em um filme. Mas senti falta de vê-lo nesta produção mais do que em uma ponta.

Fiquei curiosa por saber mais sobre a divisão Rampart. Neste link da Wikipédia (em inglês), é possível saber que ela integra a polícia de Los Angeles e atende as regiões oeste e noroeste do Centro da cidade. Como eu disse antes, faz parte desta região bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, conhecidos por abrigar muitos latinos. O nome da divisão surgiu a partir do Boulevard Rampart, uma das principais ruas da área de patrulha dos policiais que a integram. A população de Rampart chega a 300 mil pessoas, e é considerada a área mais populosa da cidade.

No mesmo texto da Wikipédia é possível saber um pouco mais sobre o escândalo que envolveu a divisão Rampart. No final dos anos 1970, foi criado ali um programa anti-gangues. Ele teria funcionado bem nos primeiros anos, mas entre 1998 e o ano 2000, vários policiais e detetives do esquadrão foram acusados de má conduta. Um deles, Rafael Perez, foi acusado de participar de um assalto à banco e por roubar seis quilos de cocaína de um armário de provas policiais.

O ato mais notório de Perez foi ele ter sido gravado espancando o membro de uma gangue que estava desarmado – história parecida com a do protagonista de Rampart, não? Ele teria confessado o roubo da cocaína e trocou esta possível condenação pelo gesto de delatar colegas corruptos – Perez teria apontado 70 deles por má conduta.

Rampart estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. No mesmo mês, ele participou do festival de cinema de San Sebastian, na Espanha. Até agora, o filme foi indicado a dois prêmios, ambos para o ator Woody Harrelson, mas não ganhou nenhum deles.

Há poucas informações sobre o resultado desta produção nas bilheterias. Segundo o site IMDb, nos Estados Unidos, o filme teria arrecadado pouco mais de US$ 663,3 mil até o dia 11 de março. Sim, mil, não milhões. Uma bilheteria minúscula, para os padrões do cinema norte-americano. Em sua melhor época, o filme foi exibido em 106 cinemas, nos Estados Unidos. Em um cenário muito restrito, o que ajuda a explicar a baixa bilheteria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Rampart. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 92 críticas positivas e 29 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

O crítico Andre Barcinski, da Folha, escreveu aqui que ele considera Rampart o melhor filme americano de 2011. Respeito a opinião dele, é claro. Gostei de Rampart. Mas não achei esta produção a melhor do ano passado. Nem de perto. O filme não é tão surpreendente, nem na forma ou no conteúdo, quanto poderia ser.

Rampart é o segundo filme do diretor e roteirista Oren Moverman. Antes, ele dirigiu a The Messenger, filme bem interessante e que tem no elenco, outra vez, Woody Harrelson, Ben Foster, Steve Buscemi, entre outros. Atualmente, ele está trabalhando na pré-produção de Berlin, I Love You, com previsão para ser lançado em 2013.

Woody Harrelson entrou na minha lista de ótimos atores com Natural Born Killers. Depois daquele filme de Oliver Stone, de 1994, ele fez outros trabalhos excelentes. Vale citar (e assistir) a The People vs. Larry Flynt, de Milos Forman; The Walker, de Paul Schrader; Transsiberian, de Brad Anderson; e o já citado The Messenger.

CONCLUSÃO: Um vilão nunca é apenas um vilão, por mais que tantos filmes de Hollywood tenham tentado simplificar estes personagens repetidas vezes. Um sujeito errado sempre tem uma história pessoal para contar, assim como ele sofre com uma certa contaminação originada na sociedade e identificável em seu comportamento. Rampart mergulha na história de um homem que deveria ser o mocinho de uma determinada realidade – replicável para qualquer parte, mas que aparece como um reflexo mal acabado das falhas deste coletivo. Acreditando ser intocável, o protagonista abusa de sua autoridade e ajuda a disseminar o caos na realidade que deveria contribuir para controlar. O filme acerta ao acompanhar ele de perto pouco antes do trem de sua vida descarrilhar, até para que o espectador possa ver de perto como os problemas sempre podem aumentar e uma pessoa perder o controle da própria vida. Há chance de redenção para o personagem de Rampart? Dificilmente. E essa crueza talvez seja o melhor do filme.