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The Daughter – A Filha

É comum que ainda muito cedo nos ensinem a amar, perseguir, desejar e cuidar para que a verdade esteja sempre presente. O problema é que quando a vida avança e diversas situações complicadas acontecem, nem sempre a verdade é assim tão desejada. Com o tempo, em realidade, percebemos que algumas vezes a verdade pode ser fatal – e nem sempre por uma escolha racional ou mesmo nossa. The Daughter é um filme contundente que, no fim das contas, questiona justamente a necessidade de todos contarem a verdade e de persegui-la com tanto desejo.

A HISTÓRIA: Começa com uma floresta encoberta de névoa e o som de dois tiros. No chão, um pato olha para o seu algoz. Henry (Geoffrey Rush) mira no animal, deitado e ferido, e acaba decidindo não dar o tiro final. Retornando para o carro, Henry pede para Peterson (Nicholas Hope) terminar com o sofrimento do animal. Acompanhamos o pato, que é levado por Peterson dentro de uma gaiola. Corta.

Em uma fábrica, troncos de árvores são transformados em tábuas de madeira. É lá que trabalha Oliver (Ewen Leslie), um de tantos empregados de Henry que ficarão sem emprego com o fechamento da empresa. Em breve Oliver vai reencontrar o antigo amigo de infância, Christian (Paul Schneider), filho de Henry e que retorna para a cidade para o casamento do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Daughter): Eis um filme que não é nada simples. Especialmente por causa de seu final, mas também graças a uma boa parte do desenvolvimento da história. The Daughter não é simples por ser tão carregado de verdade. E sim, justamente a noção de verdade é o que o diretor e roteirista Simon Stone coloca à prova, rejuvenescendo uma história criada por Henrik Ibsen há mais de um século.

Não deixa de ser revelador que The Daughter comece com dois disparos e com um pato ferido. Esta é a história de diversas pessoas feridas, na verdade. Uma delas, um personagem central para que tudo aconteça como de fato acaba acontecendo, está ferido e sabe disso. A exemplo do pato, que sabe que está ferido e que deve lutar para se recuperar e tentar voltar a voar e sobreviver. Outros estão ou serão feridos e ainda nem sonham com isso.

Como comentei lá no início, este é um filme contundente sobre como a defesa sob todas as circunstâncias da verdade pode causar muitos estragos na vida de uma ou de mais de uma pessoa. Christian aparece em cena como uma bomba que está próxima a explodir. Aos poucos vamos percebendo isso, assim como vamos sabendo detalhes sobre o passado dele e de sua família. Uma conversa com pontas soltas ao redor de uma fogueira entre Christian e o seu amigo de infância Oliver deixa o perigo mais iminente.

Christian é o animal ferido que sabe que foi atingido de forma mortal. O suicídio da mãe e todo o contexto que o envolveu, algo que ele nunca resolveu realmente, acabou afetando o resto da vida dele. Alcoólatra, ele está jogando as últimas fichas para manter o casamento com Grace (Ivy Mak) quando viaja para acompanhar o próprio casamento do pai – algo que parece incrível, já que ele não tem nenhum afeto/apreço em relação ao pai e muito menos qualquer interesse em ver ele se casando novamente.

Ainda assim, ele vai até a cidade onde cresceu e para a casa onde ele encontrou a mãe morta após se matar para ver Henry correr com os preparativos finais para se casar com Anna (Anna Torv). Ela, a exemplo de Charlotte (Miranda Otto), foi empregada de Henry antes dele começar a ter um caso com elas. E esta é a verdade incômoda que começa a aparecer naquela conversa ao redor da fogueira entre Christian e a família de Oliver.

Não existe amor e sim uma carga pesada de ressentimento e de rancor entre Christian e Henry. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Grace finalmente oficializa o fim do relacionamento com Christian, ele realmente perde o controle e acaba falando para o grande amigo Oliver a verdade que ele desconhecia: Charlotte era amante do pai dele quando a mãe se matou na banheira de casa. Ou seja, ela teria sido a “culpada” pela desgraça familiar – ou ao menos é isso que Christian acredita que aconteceu.

É preciso admitir que Christian dá oportunidade para Charlotte contar a verdade, mas ela não faz isso. Como em quase todas as situações de “vida real”, no qual as pessoas evitam de contar verdades que podem abalar ou acabar com o relacionamento que elas prezam tanto. Mas Christian, aparentemente intoxicado pela sua própria frustração, por não ter conseguido ser feliz no casamento como o amigo Oliver, resolve destroçar a felicidade que ele vê perto de si.

Daí começa a desconstrução da importância e beleza da verdade sob a releitura de Ibsen segundo Stone. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Christian sabe que a verdade que ele vai contar para Oliver tem grande potencial de destruir o casamento do amigo. Mas ele não se importa com isso. O problema é que todos são “contaminados” com essa certa urgência de sinceridade extrema. É desta forma que Oliver não fica apenas sabendo que a esposa dele teve um caso no passado com Henry, mas também que deste caso surgiu a tão “amada” por ele Hedvig (Odessa Young).

A sinceridade extrema não termina por aí. Christian acaba contando a verdade sobre a paternidade da garota para Hedvig que, por sua vez, ao procurar por Oliver, acaba ouvindo algumas “verdades” cheias de amargura dele. E aí o filme acelera e termina da pior maneira possível. Daí surgem as perguntas: por que Charlotte tinha que falar toda a verdade para Oliver? Se ela tivesse contado apenas a “meia verdade”, nada do que viria na sequência teria acontecido.

Claro que se Oliver não estivesse alcoolizado e descontrolado, se tivesse um pouco mais a cabeça no lugar, ele também não teria protagonizado a cena mais cruel da produção. Sequência definitiva para o derradeiro final da trama. Enfim, como acontece muitas vezes na vida real, nós vemos em The Daughter uma sequência de erros que termina em tragédia. E, como sempre, sem qualquer necessidade.

A parte mais frágil e sensível da história acabou sofrendo mais que todos os outros e, ao se desesperar, cometendo o pior ato que poderia ter cometido. Claro que achei o final chocante e que não gostei dele. Por isso mesmo, como comento abaixo, acho que este filme tem sim que ser visto mas com reticências.

The Daughter deve ser acompanhado de debates e de reflexões. Não apenas o drama visto em cena poderia ter sido resolvido de outra forma – com Oliver aceitando a verdade com mais equilíbrio e tendo em mente que a filha era dele de qualquer maneira -, como o final poderia ter sido outro.

Hedvig também poderia ter tido outra atitude, ainda que o contexto dela explica muita coisa – ela perdeu o namorado, Adam (Wilson Moore) e vários amigos da escola porque os pais deles se mudaram de cidade atrás de emprego, ao mesmo tempo que teve a “iniciação amorosa” frustrada de forma repetida. Este cenário prévio de ruptura e de rejeição atinge o auge com a atitude de Oliver. Sabemos que muitos adolescentes hoje estão enfrentando os seus dramas pessoais tirando a própria vida, então é preciso debater o assunto e mostrar que os problemas tem fim, mas que a vida deve sempre continuar.

Enfim, achei este filme muito atual e bem construído. A narrativa é crescente e rejuvenesce os temas levantados por Ibsen com muita sabedoria. Acho que a verdade é sempre bem-vinda, desde que ela seja tratada com o devido cuidado. Se o “culpado” conta a verdade na hora certa e, principalmente, da forma correta, este pode ser o melhor caminho. Mas há também “verdades” que não precisam ser conhecidas, porque não tem maior significado do que apenas o seu potencial destruidor.

Concordo com Ibsen de que a verdade deve ser tratada com muito cuidado. Quando isso não é feito, o resultado pode ser trágico. Aprendi, depois de muito tempo, que entre fazer o que é certo e fazer o que é bom, sempre devemos preferir a segunda fórmula. Nem sempre o que é certo também é bom, e o nosso objetivo deve ser procurar sempre o bem, mesmo que ele não seja exatamente sempre “correto”. Claro que esta fórmula vale quando não fazemos mal para os outros, que este deve ser sempre o nosso limite. Enfim, The Daughter levanta discussões longas e importantes. Apenas por isso, ele vale ser visto.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Minha gente, que elenco é esse? Fiquei impressionada com os nomes envolvidos em The Daughter. É um realmente deleite ver a vários nomes conhecidos nesta produção, como Geoffrey Rush, Sam Neill (que interpreta o pai de Oliver, o ex-presidiário Walter), Paul Schneider, Anna Torv (saudade dela de Fringe) e Miranda Otto. Todos estão muito bem no filme. Mas, além deles, vale destacar os excelentes Ewen Leslie e Odessa Young. Eles dão um show em seus respectivos papéis. A discussão final entre pai e filha é de cortar o coração. Um dos grandes momentos deste duro filme.

Nos créditos finais de The Daughter, vi que esta produção era inspirada na peça The Wild Duck (O Pato Selvagem) do famoso Henrik Ibsen. Como o final de The Daughter deixa certa “dúvida” no ar, fui obrigada a procurar o original para tirar esta dúvida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de dar um tiro em seu próprio peito, Hedvig chega com vida no hospital. A última cena do filme sugere, mas não deixa totalmente claro, que ela morreu. Pois bem, segundo Ibsen não há dúvida alguma sobre isso. Hedvig dá um tiro em seu próprio coração e morre no ato. Então, como sugere a Hedvig do filme, que parece não estar respirando, a garota realmente morreu após aquela “avalanche de verdades”.

The Wild Duck foi escrita e publicada em 1884 e estreou no teatro no ano seguinte. Para muitos críticos, esta é a obra mais emblemática de Ibsen. Claro que ela já foi encenada e interpretada milhares de vezes depois de 1885, mas achei impressionante como Simon Stone conseguiu fazer uma versão muito atual da história. Muitos elementos que vemos em cena, desde o desemprego causado por Henry, os problemas familiares de Christian, o “machismo” de Oliver e do contexto em que ele vive e a dificuldade de Hedvig e de outros adolescentes de lidarem com os seus medos e frustrações, são muito, muito atuais.

Além do roteiro, muito bem escrito, o grande destaque do filme é o elenco envolvido no projeto. Além destes elementos, Stone faz um bom trabalho ao valorizar o trabalho dos atores e ao mostrar bem o contexto social um tanto “agreste” e sem muitas oportunidades em que eles vivem.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Andrew Commis e da trilha de sonora que amplia o teor dramático da produção e que é assinada por Mark Bradshaw. Vale também comentar a edição de Veronika Jenet; o design de produção de Steven Jones-Evans; a direção de arte de Maxine Dennett; a decoração de set de Sara Mathers; e os figurinos de Margot Wilson.

The Daughter foi rodado em 2014 e estreou no Festival de Cinema de Sydney em junho de 2015. Independente, o filme passou por outros festivais naquele ano e em 2016, estreando em alguns mercados, como o do Brasil, apenas agora, em 2017.

Esta produção foi totalmente rodada na cidade australiana de Sydney.

The Daughter marca a estreia do jovem ator Simon Stone na direção de um longa. Antes, ele tinha dirigido um segmento do filme The Turning, de 2013. The Daughter também foi o primeiro filme com roteiro dele. Vale acompanhar Stone para ver se ele segue com esta boa levada.

Antes de escrever o roteiro e filmar The Daughter, Stone dirigiu uma versão para o teatro de The Wild Duck. Nesta produção para o teatro, o ator Ewen Leslie interpreta ao personagem Hjalmar, no qual o personagem Oliver do filme é baseado.

Hedvig é o único personagem entre o grupo principal que tem o mesmo nome em The Daughter e no original que inspirou o filme, The Wild Duck. O nome de Peterson também permanece o mesmo, ainda que ele teve uma pequena mudança ortográfica.

The Daughter é um filme 100% australiano.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicada a outros 18. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Odessa Young, Melhor Atriz Coadjuvante para Miranda Otto e de Melhor Roteiro Adaptado para Simon Stone no “Oscar australiano” conferido pela Academia de Artes do Cinema e da Televisão Australiana; e para os de Melhor Atriz para Odessa Young, Melhor Ator Coadjuvante para Sam Neill e de Melhor Roteiro para Simon Stone no prêmio da Associação de Críticos de Cinema Australiano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para The Daughter, enquanto que os críticos que tem os seus textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e 13 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,8. Não há informações sobre o resultado nas bilheterias do filme, e nem mesmo sobre o custo de produção dele.

CONCLUSÃO: Um filme que começa com dois tiros e que termina com outro disparo não pode carregar muita paz em seu interior. The Daughter é um filme bem construído, um tanto teatral e que, na reta final, fica um pouco melodramático. Mas a intensidade tem uma propósito, e ele é muito interessante. Claramente esta produção questiona a convicção de quem defende a verdade sobre qualquer outra variável. Ainda que ela seja bem-vinda, é preciso cuidar com ela.

Uma produção com boa narrativa, grandes atores e uma mensagem contundente no final. Só não gostei, para ser franca, do desfecho um tanto “exagerado”, ainda que eu entenda a razão dele existir desta forma. Um bom filme, mas um tanto perigoso. Em muitas situações, é bom vê-lo com um certo apoio, assistência ou discussão, especialmente se ele for apresentado para o público jovem.

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The King’s Speech – O Discurso do Rei

Os bastidores de um dos discursos mais emocionantes e importantes da história. O que seria de um rei se ele fosse mudo? The King’s Speech conta a fascinante, surpreendente e interessante história da chegada do Rei George VI ao poder. Mais que isso, a sua luta em conseguir comunicar-se com as pessoas e, através de suas palavras, inspirar uma nação. Este é um destes filmes que surpreende pelo ineditismo da história, pela condução feita pelo diretor, pelas interpretações e pelo cuidado que todos os envolvidos na produção tiveram com os detalhes. Não por acaso o filme vem colecionando prêmios e é um dos grandes cotados para o Oscar deste ano. Ele enfrenta o até há pouco considerado imbatível The Social Network. Provavelmente ele continua sendo o Davi da história. Mas quem sabe, mais uma vez, o mais forte da história não poderá sair perdendo para o mais fraco? Ainda que, cá entre nós, The King’s Speech ter a força da Weinstein Company como distribuidora do filme nos Estados Unidos não o transforma, exatamente, em um concorrente fraco. Pelo contrário.

A HISTÓRIA: Começa em 1925, quando o Rei George V era responsável por um território que equivalia a um quarto do mundo. Naquele ano, o Rei pediu a seu segundo filho, o Duque de York, para que ele fizesse o discurso de encerramento da tradicional Exibição do Império, em Wembley, Londres. Equipamentos à postos, uma multidão à espera do discurso, e o Duque de York (Colin Firth) repassa, silenciosamente, as palavras que deverá falar para este grande público em seguida. Ao seu lado, Elizabeth (Helena Bonham Carter) tenta acalmar o marido. Após uma extensa preparação do locutor, o Duque aparece em cena e, gaguejando, consegue falar apenas algumas palavras. O desastre comprova o que todos já sabiam: um dos herdeiros do Rei não consegue comunicar-se com as pessoas fora do ambiente privado e familiar. Cansado de procurar soluções para o seu problema, o Duque de York ordena que a mulher pare de buscar alternativas. Mas ela encontra uma pessoa que poderá ajudá-lo: Lionel Logue (Geoffrey Rush), um civil com um método nada ortodoxo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The King’s Speech): Poucas vezes a intimidade de um rei e de sua família foi tão maravilhosamente desnudada quanto nesta produção. O Rei não está morto, viva o Rei! Mas o que acontece com o seu substituto, quando ele não consegue comunicar-se com as pessoas de forma adequada? O discurso pausado do Rei George VI, o primeiro depois que a Inglaterra entrou em guerra contra a Alemanha, parecia ser justificado pela gravidade daquele momento. Mas não. The King’s Speech revela os bastidores daquele discurso e, principalmente, desnuda a intimidade da realeza inglesa antes daquele episódio.

O primeiro grande acerto do diretor Tom Hooper foi o de buscar os ângulos mais sugestivos para cada cena. Assim como Orson Welles ensinou no clássico dos clássicos Citizen Kane, Hooper utiliza a câmera para mostrar profundidade de sentimentos, isolamento do personagem principal, seus sentimentos de pequenez e mesmo a “plasticidade” de momentos um tanto hilários como os preparativos de um discurso. Hooper acerta na técnica, transformando um filme que poderia ter uma narrativa simples, linear, em um apanhado de cenas bem estruturadas e planejadas para despertar nos espectadores o devido sentimento de compaixão com o protagonista.

Se o diretor acerta na escolha de cada cena, sempre privilegiando o desempenho do elenco e os detalhes de suas interpretações, o que dizer do roteiro de David Seidler? Simplesmente brilhante. O autor consegue, com precisão, equilibrar o drama com o humor, com uma certa carga de suspense e de intriga na história. Os bastidores da realeza são desnudados com precisão e talento. Mas mais que isso, Seidler consegue tornar todos os personagens reais. Ou, em outras palavras, traça as suas personalidades como são as personalidade de todas as pessoas: ambíguas, incertas, capazes de gestos de nobreza, de egoísmo, de dúvida e de coragem.

O protagonista desta história, interpretado de maneira soberba por Colin Firth, claramente não sabe o seu “papel no mundo”. Ele parece estar em permanente dúvida ou conflito com duas de suas facetas: do garoto que sempre foi desprezado e caçoado pela gagueira na própria família, carente de afeto e alvo de maus tratos de pessoas subalternas; e do homem que sabe de seu potencial, conhece a responsabilidade de um líder e sabe que é a melhor opção da família na sucessão do patriarca. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Especialmente interessante como Lionel Logue e nós, espectadores desta história, percebemos esta dualidade do personagem principal e, mais que isso, por trás do temor do protagonista em falhar, percebemos uma convicção e ambição inconfundíveis. Firth é brilhante em mostrar fragilidade e firmeza ao mesmo tempo, assim como o roteirista em escrever as suas linhas com precisão – nada sobra nesta história.

Algo fundamental no cinema é a criação de uma aura de empatia entre o espectador e o personagem que se vê na tela. Em alguns casos, esta empatia não é criada em relação ao protagonista. Mas no caso deste filme, ainda que outros personagens também possam despertar este sentimento, sem dúvida o foco está no personagem de Colin Firth. Ele é o centro da história. Tanto que a câmera está preocupada, a todo momento, em narrar os acontecimentos por sua ótica – ou, quando isso não é possível, ela se ocupa em registrar os detalhes de seus gestos e reações.

Além de um roteiro equilibrado e inteligente, The King’s Speech consegue, como poucos filmes anteriores conseguiram, nos transportar para o ambiente anterior à Segunda Guerra Mundial com naturalidade. Há cenas que mostram as ruas de Londres, alguns costumes daquela época – perto ou longe da realeza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há momentos de humor simples e outros de fina ironia. Como quando o Duque de York assiste a um pequeno trecho do discurso de Hitler e percebe que a comunicação é um elemento fundamental para qualquer governo, atividade profissional ou sociedade. E ele, justamente ele, um dos grandes contrapontos à loucura de Hitler, com aquela dificuldade gigante em conseguir falar para o público.

Além de desnudar as relações conflituosas da família real inglesa, The King’s Speech trata de um tema fundamental: a comunicação como elemento fundamental para as sociedades – especialmente as modernas. Mais do que nunca, citando o Chacrinha, quem não se comunica, se estrumbica. E houve momentos na história – e ainda os há – em que isto foi e é especialmente verdadeiro. Aqui temos a narrativa curiosa e saborosa de um destes momentos. Um grande filme, pelo conjunto da obra e pelo diferencial de alguns aspectos, como as interpretações fantásticas do trio de atores principal, a trilha sonora saborosa, a direção mais que precisa e sugestiva e um roteiro que insere novos elementos em um gênero já conhecido. E depois dizem que não é mais possível criar, apenas copiar, na arte. Aqui, mais um exemplo de que é possível sim trazer novidades para terrenos já conhecidos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis aqui mais um exemplo de como um grande filme não precisa custar uma barbaridade. Mesmo com todo o cuidado com vestuário, cenários, objetos, carros e demais elementos utilizados para transportar o espectador para as duas e três primeiras décadas do século passado, The King’s Speech custou aproximadamente US$ 15 milhões. Pouco, comparado com outros filmes produzidos no ano passado – alguns deles concorrentes desta produção no Oscar. Com o burburinho causado pelas 12 indicações do filme para o Oscar e com os elogios e prêmios que ele vinha recebendo antes destas indicações, The King’s Speech está acumulando lucro. Até o dia 30 de janeiro ele havia alcançado pouco mais de US$ 72,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Desde já, um sucesso comercial.

Falando em premiações, até o momento, The King’s Speech ganhou 16 prêmios e recebeu outras 73 indicações. Um numero impressionante, devo dizer. Além disso, esta foi a produção que mais recebeu indicações no Oscar. Dos 16 prêmios que recebeu até o momento, 10 foram para o ator Colin Firth. Por isso mesmo ele é o grande favorito para receber o Oscar de Melhor Ator. Outros prêmios importantes conquistados pela produção foram o de Melhor Filme entregue pela Sociedade dos Críticos de Cinema de Phoenix; o de Melhor Ator Coadjuvante para Geoffrey Rush pela Associação de Críticos de Cinema de Central Ohio; e os de Melhor Filme Britânico Independente, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (Rush) e Melhor Atriz Coadjuvante (Helena Bonham Carter) no British Independent Film Awards. Entre os prêmios que recebeu, é importante citar, Colin Firth levou o Globo de Ouro como Melhor Ator – Drama.

The King’s Speech estrou no dia 6 de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, passou por outros oito festivais – nenhum de grande importância, com exceção dos festivais de Toronto e de Londres. A produção estreou no circuito comercial dos Estados Unidos apenas no final de dezembro.

Além dos atores principais já citados, todos perfeitos em suas interpretações, vale a pena mencionar o trabalho de Derek Jacobi como o Arcebispo Cosmo Lang; de Jennifer Ehle como a esposa de Lionel, Myrtle Logue; de Freya Wilson como a Princesa Elizabeth e de Ramona Marquez como a Princesa Margaret; de Michael Gambon como o Rei George V; de Guy Pearce como o Rei Edward VIII; de Claire Bloom como a Rainha Mary; e de Timothy Spall como Winston Churchill.

Na parte técnica, além da direção impecável de Tom Hooper, me impressionou a trilha sonora de Alexandre Desplat. Nem muito rebuscada, nem muito ousada. Apenas, precisa. E envolvente. Depois, a direção de fotografia ajustada de Danny Cohen. E, claro, por ser um filme de época, todos os elementos que compõe uma produção assim ajustados e funcionando em sincronia, do figurino de Jenny Beavan até o design de produção de Eve Stewart, a direção de arte de Netty Chapman e decoração de set de Judy Farr.

Uma curiosidade sobre a produção: o ator Derek Jacobi interpretou, em 1976, um governante com problemas na fala na minissérie I, Claudius. Ele também interpretou a Alan Turing, um homem que era gago e que teve um papel importante pelo lado dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial em uma peça da Broadway e em um filme.

Outro dado interessante: o roteirista, David Seidler, sofreu por ser gago quando era criança. Adulto, ao ouvir o discurso em tom “infantil” do Rei George VI, ele percebeu que aquele era um efeito da fala de um homem gago. Seidler então escreveu para a Rainha pedindo permissão para escrever um roteiro sobre a história do Rei. A Rainha pediu que ele não fizesse isso enquanto ela estivesse viva, porque as memórias que ele citaria ainda eram muito dolorosas. Ele respeito este pedido.

Em várias ocasiões, durante a história, Lionel proíbe o Rei de fumar. De fato, naquela época, o consumo de cigarro foi às alturas como “solução” para o estresse dos tempos pós e pré-guerra. Mesmo com todos os alertas, o Rei George VI continuo fumando e morreu, vítima de um câncer de pulmão, em fevereiro de 1952. Sua filha, Elizabeth II, só assumiria o poder no ano seguinte.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para The King’s Speech. Uma nota boa, para a média do site, mas ainda um pouco baixa para o meu gosto. Os críticos que tem seus textos linkados no site Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 178 críticas positivas e apenas nove negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% dos críticos e uma nota média de 8,6.

Agora, minha opinião sobre o elenco: ainda que todos estejam muito bem, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter lembram a eles mesmos em outras interpretações ou, o que é o mesmo, eles parecem continuar interpretando alguns de seus personagens anteriores. Mas isso não acontece com Colin Firth. Ele consegue aqui um desempenho inédito, diferenciado. Por isso mesmo merece os prêmios que tem recebido e, caso eu votasse, teria o meu voto no Oscar. 🙂

Hoje, com mais tempo, fui colocar os links nos nomes que aparecem nesta crítica e fui me informar um pouco mais sobre o Rei George VI e os burburinhos e comentários sobre o filme. Encontrei neste link, com matéria da BBC, um interessante relato sobre o dia da morte do Rei, em 1952, que deixou todo o Reino Unido chocado. Bastante interessante.

Encontrei também uma matéria que dizia que a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, teria assistido ao filme e gostado do retrato que foi feito de seu pai. Ela teria classificado a história como “muito próxima da realidade” e se divertido com as cenas mais descontraídas. A Rainha teria achado o filme “tocante e agradável”.

Nesta matéria da Veja, uma campanha nos bastidores do Oscar que poderá selar o fracasso do filme na disputa. Estaria circulando um e-mail entre os votantes da Academia que ressalta os documentos e os rumores de que George VI e seu irmão, Edward VIII, seriam antisemitas e, até um certo ponto, simpatizantes de Hitler. Se estes argumentos pegarem, em um ambiente em que existem muitos judeus, certamente o filme será prejudicado.

CONCLUSÃO: Emoção, disputas, formalidades, quebra de decoro, bastidores do poder. The King’s Speech nos transporta para a Inglaterra nos anos que precederam a Segunda Guerra Mundial para desvelar parte da intimidade da família real inglesa e para nos fazer refletir sobre o poder e a importância da comunicação. Equilibrando drama, comédia, grandes interpretações, um roteiro e uma direção que trabalham em permanente busca pelo caráter humano e simbólico dos fatos, The King’s Speech serve de exemplo de como o cinema está sempre em um processo de reinvenção. Utilizando cuidados estéticos conhecidos desde o clássico Citizen Kane, mas com o cuidado de popularizar a história ao despertar a empatia do espectador com a vida do protagonista, este filme cumpre o seu papel com esmero. Desvela os problemas e disputas de uma família tradicional e poderosa, tornando claros os bastidores do poder e o papel figurativo que compete aos reis a partir do século 20. Ainda assim, mesmo sem poder de decisão, estes personagens reais inspiram os seus povos e criam fascínio pelo mundo. Neste filme, ganhamos uma lupa para acompanhar, em detalhes, as fraquezas, a coragem e a bravura de alguns de seus integrantes. Um filme saboroso e bem acabado em cada elemento. Merecedor dos prêmios e indicações que tem recebido. Sim, o Rei está nu. E a desmistificação dele é o que torna esta produção tão interessante.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: A mais badalada e principal premiação de Hollywood leva em conta a qualidade e os méritos dos nomes que estão disputando suas estatuetas. Mas, como ocorre sempre com uma premiação da indústria, conta muito para o resultado o bom e velho lobby. Nem sempre, com isso, ganha o melhor. Mas, tenham certeza, também não vence o pior.

Não deixa de ser bastante sugestivo e significativo o fato de The King’s Speech liderar a lista de filmes que disputam o Oscar deste ano com 12 indicações. Tenham certeza que ele chegou a este número, na frente dos rivais True Grit, The Social Network e Inception, por seus méritos e por uma bela campanha de “conquista dos jurados” feita pela experiente Weinstein Company.

Francamente, difícil calcular as chances reais desta produção. Ela pode surpreender ganhando como Melhor Filme de The Social Network. Teremos indicações se isso vai acontecer ou não conforme a produção for ganhando nas categorias “secundárias”. De qualquer forma, um Oscar é praticamente certo: o de Melhor Ator para Colin Firth. Este ano, será quase inevitável o ator sair da premiação com uma estatueta.

Além dele, vejo que a produção tem chances nas categorias principais, de Melhor Filme até Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Não vejo que os atores coadjuvantes, ainda que eles estejam ótimos, tenham muitas chances este ano – porque há concorrentes melhores na disputa. O filme poderia vencer ainda em categorias técnicas, como Melhor Trilha Sonora para Alexandre Desplat; Direção de Arte para Eve Stewart e Judy Farr e Melhor Figurino para Jenny Beavan.

Mas, como ocorreu em outras ocasiões, o filme mais indicado da noite pode sair da premiação com apenas uma ou duas estatuetas. Agora, eu apostaria apenas em Melhor Ator. Ainda que, como comentei há pouco, ele possa surpreender embolsando até sete prêmios. Logo mais, saberemos.