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Ocean’s Eight – Ocean’s 8 – Oito Mulheres e um Segredo

Sim, você já viu essa história antes. Não há novidade por aqui. Mas algo que não é tão comum de se ver é um elenco estelar e talentoso de atrizes desse naipe reunido em uma mesma produção. Assim, Ocean’s Eight se garante pelo seu elenco. Sem dúvida o ponto alto da produção. Mas não o único, como manda a cartilha da “grife” iniciada com Ocean’s Eleven – no já distante ano de 2001. Os figurinos, a edição ágil, a direção de fotografia e a direção também são pontos de destaque. O roteiro… bem, é mais do mesmo do gênero – e com menos criatividade que outros que o precederam.

A HISTÓRIA: Em um presídio, Debbie Ocean (Sandra Bullock) é entrevistada antes de ter direito a sair em condicional. Ela admite que teve um irmão criminoso e que parte da sua família também aderiu à vida de crimes. Mas ela garante que não é assim, que apenas errou ao se apaixonar pela pessoa errada. Ela parece se emocionar, e diz que saindo da prisão, tudo que ela quer é uma vida normal. Mas essa “vida normal” para ela não é nada comum. Durante o tempo que ficou presa, tudo que ela fez foi planejar um roubo ousado. Para colocar ele em pé, ela procura grandes parceiras, começando por Lou (Cate Blanchett).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desse filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ocean’s Eight): Ufa amigos e amigas! Finalmente coloco, com esta crítica, os meus comentários atrasados em dia! Assisti a Ocean’s Eight ainda em junho, mas como saí de férias por 15 dias e tive uns dias de correria pré e pós férias, estou conseguindo falar dele só agora. Depois desta crítica, bóra lá voltar ao cinema e retomar algumas pesquisas aqui para o blog. Bóra correr atrás porque já começamos o segundo semestre do ano!

Então, como eu disse antes, Ocean’s Eight é um filme divertido, com um grande elenco e bom ritmo. É puro entretenimento. Você se diverte, especialmente, com a entrega das atrizes e com as “embaixadinhas” e a troca de passes que elas fazem. Todas sabem dominar a bola muito bem, e entregam o que a audiência espera – viram que aproveite o último dia da Copa 2018 para usar umas “tiradas” futebolísticas, não é mesmo?

Mas a história em si, é bastante previsível. O roteiro de Gary Ross e Olivia Milch, que trabalharam sobre uma história de Ross e com base nos personagens criados por George Clayton Johnson e Jack Golden Russell, segue totalmente a cartilha dos outros filmes da grife. Ou seja, temos a uma protagonista – mulher, desta vez – que planeja um roubo incrível e que, para conseguir executá-lo, conta com vários outros especialistas – todas mulheres, nesse caso.

Então o início, o meio e o fim de Ocean’s Eight não fogem da cartilha e do que é previsto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mesmo a “surpresinha” no final, o roubo dentro do roubo, não é exatamente uma graaande surpresa. Isso já foi utilizado antes. O que surpreende sempre, nestes filmes com “crimes perfeitos”, é como a segurança de eventos/locais que deveriam ser quase impossíveis de serem ultrapassados podem falhar tanto.

No caso deste filme especificamente, parece um tanto difícil de engolir a trapalhada dos seguranças que acompanham Daphne Kluger (Anne Hathaway) e tudo que se segue após o sumiço e o “encontro” da joia mega valiosa. Ok, a edição ajuda, assim como o carisma das atrizes, mas é um tanto difícil de engolir todo aquele desenrolar envolvendo esse colar especificamente. Mas ok, ninguém quer ser muito exigente em um filme assim – até porque sabemos qual é a sua “pegada”.

Também achei um tanto “forçada” a aparição de Daphne no KG das mulheres e como todas aceitaram com tanta facilidade dividir a fortuna incluindo ela também. A pequena vingança particular de Debbie Ocean contra o ex, Claude Becker (Richard Armitage) também pareceu uma saída um tanto preguiçosa – afinal, praticamente elemento nenhum corroborava aquela teoria. Mas beleza, vamos acreditar que Debbie e Cia. são realmente geniais e conseguiram enganar a todo mundo.

Como este é um filme de puro entretenimento, o importante é nos focarmos menos na história – que, de fato, é fraquinha por ser previsível e com uns “exageros” para que tudo se encaixe e dê certo apesar de parte da história ser bastante improvável – e mais nos outros elementos que compõem uma produção do gênero. Assim, o elenco faz um ótimo trabalho; temos uma ótima e envolvente direção e edição; uma bela direção de fotografia e trilha sonora. Tudo isso junto nos entrega um filme tecnicamente bem acabado e que passa “rápido”.

Um outro ponto interessante e que não pode ser ignorado é que vivemos uma era de valorização crescente do talento feminino. Nesse cenário, Ocean’s Eight coloca em primeiro plano papéis que há tempos atrás eram masculinos. Hoje, mulheres estão cada vez mais filmes de ação como líderes da narrativa. E isso é muito bacana e interessante. Afinal, muitas vezes, elas tem um traquejo e uma sensualidade que não vemos nos homens.

Com isso, não defendo que todos os filmes de ação devam ser protagonizados por mulheres. Não, não! Mas quem sabe pode ser interessante termos mais um tipo de equilíbrio entre filmes estrelados por homens e mulheres nesse gênero? Isso pode ser bastante enriquecedor para o cinema – e fazer sentido para o público, cada vez mais preocupado com a questão da igualdade entre os gêneros.

O que podemos ver, com esse Ocean’s Eight, é que ótimas atrizes sim podem dedicar o seu talento para filmes mais descompromissados e que tem um propósito bastante específico. Filmes de ação, policiais e cheios de trama sempre são bem-vindos para “refrescar” o cinema – e dar uma pausa nas produções mais sérias e filosóficas.

Essa produção tem várias qualidades que fazem a experiência valer a pena. Só talvez poderia ter tido um roteiro um pouco mais inovador – as referências à grife foram bacanas, mas a história poderia ter tido alguns temperos e/ou surpresas mais interessantes ou convincentes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, assisti a esse filme há cerca de um mês. Por isso me perdoem por não lembrar de todos os detalhes, mas apenas do essencial. Desconfio que o roteiro de Ocean’s Eight teve outros pontos frágeis que eu não lembrei agora, mas tentei passar o que me marcou mais desta produção. A partir de agora, prometo, pretendo escrever as próximas críticas mais próximas da minha experiência de ter visto aos filmes. 😉

Como disse antes e repito, o elenco desta filme é o seu ponto forte. Mulheres poderosas, talentosas, carismáticas e que todos tem interesse de ver na telona. O grande destaque vai para Sandra Bullock, Cate Blanchett e Sarah Paulson. Para mim, elas estão acima da média nesse filme – e as suas personagens, melhor exploradas pelos roteiristas, ajudam nisso. Sem contar os talentos das três, que realmente brilham em cena. Depois, em papéis ligeiramente menores, estão muito bem também Helena Bonham Carter, Rihanna, Mindy Kaling e Awkwafina. Destas quatro, gostei especialmente de Mindy Kaling e de Awkwafina. Para mim, elas tem personagens mais interessantes (e engraçadas).

A lista citada acima é apenas o “núcleo duro” da produção. A equipe formada pela personagem de Sandra Bullock para viabilizar o seu plano do grande roubo. Mas, além destas atrizes, vale ainda comentar o trabalho de Anne Hathaway, outra atriz com destaque na trama, assim como o papel um pouco mais relevante de Richard Armitage, e as quase “pontas” de outros nomes, como Elliott Gould, Dakota Fanning, Damian Young e Dana Ivey. Vários outros famosos aparecem apenas de relance, no tal baile de gala, mas sem nenhuma fala, nem considero interessante citá-los aqui.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a boa direção de Gary Ross. Ele segue a cartilha de Steven Soderbergh, mas não apresenta nada inovador. Ainda assim, faz um bom trabalho orquestrando todos os talentos em volta do filme. Também vale destacar a competente direção de fotografia de Eigil Bryld; a trilha sonora de Daniel Pemberton; a ótima edição de Juliette Welfling; os figurinos superinteressantes de Sarah Edwards; o design de produção de Alex DiGerlando; a decoração de set de Rena DeAngelo; e a direção de arte de Henry Dunn, Kim Jennings e Chris Shriver.

Ocean’s Eight foi exibido no dia 5 de junho em uma première em Nova York. Dois dias depois, o filme estreou em oito países – incluindo o Brasil. Até o momento, esta produção participou de apenas um festival, o Biografilm Festival, na Itália. Apesar de ter participado apenas deste festival, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a um terceiro no Golden Trailer Awards. Os prêmios que ele recebeu são o de Melhor Spot de Comédia para a TV e Melhor Teaser Poster.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Ocean’s Eight começa da mesma forma que Ocean’s Eleven, o filme que inaugurou a grife de produções dirigidas por Steven Soderbergh e estreladas, entre outros, por George Clooney. A exemplo do filme de 2001, no filme estrelado por mulheres uma Ocean – a personagem de Sandra Bullock é a irmã do personagem de Clooney – é questionada sobre o que ela fará após sair da prisão. O mesmo é feito com o Ocean interpretado por Clooney no filme de 2001.

Existe uma outra referência escancarada para a produção de 2001. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na cena final de Ocean’s Eight, a personagem de Sandra Bullock aparece na frente do túmulo do irmão vestindo um smoking preto e uma gravata borboleta aberta – a mesma roupa usada pelo irmão dela, Danny, na saída da prisão em Ocean’s Eleven.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 84 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 67%.

Ocean’s Eight teria custado cerca de US$ 70 milhões, segundo o site Box Office Mojo, e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 132,2 milhões. Nos outros países em que o filme estreou, ele faturou outros US$ 119,2 milhões. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 251,4 milhões – conseguiu, pelo visto, pagar os custos e ainda dar algum lucro para os produtores.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra para a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Elas são poderosas e são talentosas. E desfilam os seus carismas e talentos na nossa frente. Ocean’s Eight tem no “girl power” de um elenco escolhido à dedo o seu melhor trunfo. Esse filme, evidentemente, é puro entretenimento. Não dá para esperar muito dele e nem levar a história muito a sério. Comentado isso, é preciso dizer que Ocean’s Eight tem também uma ótima edição, trilha sonora e figurinos. Aqui e ali, ele também tem boas tiradas e algumas risadas. Para um dia qualquer no cinema, ele é diversão garantida. Sem você exigir muito da história, é claro.

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Les Misérables – Os Miseráveis

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Me perdoem, mas vou começar este texto dizendo algo óbvio. Os clássicos são chamados clássicos por uma boa razão. E esta boa razão se chama qualidade extrema. Na escola, eu lembro, crianças e jovens têm preguiça de ler os clássicos. Muitas vezes, de fato, porque eles são difíceis. Por isso mesmo, é sempre um prazer quando alguém como o diretor Tom Hooper resolve resgatar um clássico e jogá-lo nos cinemas, utilizando uma linguagem muito mais acessível. Les Misérables é uma produção intocável. E que me surpreendeu. Admito que, no início, eu estava com um pouco de “preguiça” de assistir a um musical adaptado da obra de Victor Hugo. Achei que poderia ficar pedante demais. Mas que fantástico presente! Quebre qualquer preconceito que você puder ter com musicais. Vai valer a pena.

A HISTÓRIA: Uma bandeira tremula na água. O ano é 1815, exatamente 26 anos após o início da Revolução Francesa. Novamente a França tem um rei ocupando o seu trono. Um navio de guerra retorna para o porto e é puxado por dezenas de homens com grossas cordas. Eles são prisioneiros. Entre eles, Jean Valjean (Hugh Jackman). O grupo canta a sua pobreza, com ódio na voz, e são observados pelo policial Javert (Russell Crowe). Depois de ajudar a puxar o navio, Valjean é convocado por Javert a pegar o mastro com a bandeira francesa. E recebe a notícia que está saindo em condicional. Mas que terá que carregar uma carta que lhe apresenta como um homem perigoso. Uma condenação para o resto da vida. Livre, contudo, Valjean recebe uma única oportunidade de recomeçar a vida, e acaba escolhendo este caminho, que significa ignorar o próprio nome, para tentar trilhar um caminho distinto do que aquela carta de condicional lhe determinava.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Miseràbles): Para gostar deste filme, em primeiro lugar, é preciso aceitar algo que nem sempre as pessoas parecem estar dispostas a aceitar: de que todos nós somos falhos. É estranho ouvir Russell Crowe em um musical? Certamente. Ele parece sofrer para cantar? Um pouco. Mas nem esta primeira constatação, logo no início do filme, e nem a mesma constatação feita com outros atores que, diferente de Hugh Jackman e Anne Hathaway são menos afeitos a cantar, diminuem a força dramática desta história e as suas várias qualidades.

Logo que terminei de assistir a Les Misérables, eu sabia que deveria dar uma nota muito alta para ele. Talvez, até, a máxima. De verdade, fiquei emocionada com a entrega da equipe envolvida e, evidentemente, com o respeito deles com a obra máxima de Victor Hugo. E que obra! Há muito tempo eu não chegava perto deste clássico e de toda a sua profundidade. E esta leitura, com levada muito popular, rejuvenesceu a tão examinada história de Jean Valjean.

Sou da opinião, e a cada dia mais, que as pessoas devem abandonar os preciosismos. Deixar para lá um pouco da “erudição” e do apego ao original, como se ele fosse imutável – quando toda obra carrega, em sua própria essência, a capacidade de ser mutável -, para “abrir a mente” para as releituras. Claro que não defendo as adaptações que violentam o original. Mas este não é o caso deste Les Misérables. A essência do original está toda aqui. Mas vestida de uma roupagem para este século 21 que se parece, em muito, com a parte final do século anterior.

Sendo assim, e voltando um parágrafo, comento que eu sabia, logo depois de terminar de ver a este filme, que lhe daria uma nota muito boa. Primeiro, porque Les Misérables tem um cuidado com os aspectos técnicos irretocável. É um filme que investe nos detalhes, desde o trabalho do ator, os figurinos, direção de fotografia, até os efeitos visuais e especiais. Depois, porque o roteiro respeita a essência do original. E finalmente, porque ele inova ao investir na dramaticidade da música para supervalorizar o lado afetivo do original sem torná-lo piegas.

Ainda que eu tivesse uma nota em mente, resolvi dar uma olhada nas avaliações dos usuários dos sites IMDb e Rotten Tomatoes. Como vocês, meus caros leitores, sabem que eu sempre faço. E como em qualquer outra crítica, não tive a minha nota modificada por estas análises. Mas admito que fiquei surpresa ao ver que, desta vez, mais que em outras, minhas impressões não acompanhavam a da maioria.

Observei muitas críticas pesadas para este filme. E daí notei o seguinte: Les Misérables é, provavelmente, a produção mais “ame ou odeie” que está concorrendo ao Oscar deste ano. Basta olhar as críticas espalhadas por aí. Muita gente não gostou desta produção porque um ou outro ator não sabe cantar. Ou porque eles não cantam tão bem assim. Ah, convenhamos. De fato isto é o mais importante?

Sim, como eu disse antes, Russell Crowe não parece totalmente à vontade cantando. Por isso mesmo, desde a primeira vez que ele aparece em cena, ele parece “comedido”. Melhor para ele. Se você não tem potência vocal e/ou não se sente tão confiante cantando, se comparado com outros colegas, melhor fazer a sua parte dentro de certas limitações.

Da minha parte, como alguém sem preconceitos, acho que vale se lançar para assistir a um filme sem a postura primária de que musicais são chatos, de que alguém vai cantar mal, e de que clássicos estão vencidos. Até porque sempre busco o mais importante de um filme: ele convence? Ele me emocionou? Ele pareceu legítimo em sua proposta?

Pois eu acho que Les Misérables consegue, sim, emocionar. Ele convence com a história de Jean Valjean e de uma França que se decepcionou com a Revolução Francesa. Esta produção, além disto, também parece legítima em sua proposta de revisitar um clássico e vestí-lo com nova roupagem. Para o meu gosto, tudo funcionou bem nesta produção. Com uma pequena ressalva: o estereótipo irritante do casal Thénardier, interpretado pela dupla Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter.

Certo, é evidente que os Thénardier são os personagens com maior levada estereotipada de Les Misérables. Que eles são mesmo caricatos, e tudo o mais. Na primeira aparição de Cohen e Carter, não me irritei com a caricatura deles. Mas depois… Tom Hooper teria nos poupado de uma certa e restrita chatice da história se tivesse diminuído a participação dos dois atores na trama. Para mim, Cohen não consegue deixar para traz Borat, e Carter lembra sempre uma personagem qualquer de Tim Burton. Eles são a parte frágil do filme, e me impedem de dar a nota máxima para esta produção.

Porque, para o meu gosto, Les Misérables funciona muito bem, exceto pelos excessos de Cohen e Carter. Além das qualidades já comentadas, achei impressionante a entrega dos atores. Eles emocionam, assim como a história. E agora, voltemos ao início desta crítica. Les Misérables trata de algo fundamental: a compreensão de que todos nós somos falhos. O grande embate entre Valjean e Javert está de que o segundo se acha totalmente cheio de moral. Em certo momento, ele fala que veio da mesma origem de Valjean… não completa a sua linha de pensamento, mas fica evidente que ele se acha superior.

Afinal, apesar de vir da mesma origem ordinária e carente, Javert seguiu “o caminho da lei”, venceu os desafios da vida e trilhou “o caminho certo”, enquanto Valjean roubou alguns pães para dar para a irmã e o filho dela que estavam com fome. Este pensamento de Javert é o mesmo de 99% das pessoas, talvez. Essa massa de gente que, muitas vezes, quando há uma matéria de polícia, argumenta que “bandido bom é bandido morto”, e que esta história de direitos humanos é uma grande bobagem, já que os “bandidos” não tem esta mesma postura ao fazer as suas vítimas.

Quanta dureza de princípios, não? Eis, para mim, o último grau de desumanização. Para estas pessoas que defendem a pena capital, não importa o ser humano e suas histórias. O importante são os números. X bandidos mortos é o que interessa. Quantos mais, melhor. Mas será mesmo que cada um de nós estamos isentos de dúvida? Quanto tempo você já gastou para refletir como seria a sua vida se você não tivesse nascido no local em que você nasceu? No berço da família da qual vieste? E se você tivesse nascido em outra parte, com uma família muito diferente?

Não quero relativizar tudo e dizer que todos os “bandidos” tem as suas justificativas e que são todos “tadinhos”. Mas peço calma em qualquer andor. Les Misérables é uma história tão incrível porque nos fala sobre estas coisas… de como a sociedade pode excluir as pessoas, tirarem as suas oportunidades de desenvolverem os seus próprios potenciais. De como o coletivo pode estigmatizar e interromper vidas que poderiam ser produtivas e maravilhosas.

Vide Valjean. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De fato, e muitos devem ter tido uma reação impressionante quando, na primeira oportunidade, ele sai roubando ao Bispo (Colm Wilkinson) que lhe ajudou, ele erra feio ao seguir bandido logo que tem a chance de escolher que caminho seguir. Mas daí, e eu também fiquei indignada a princípio, vem a história para nos dar o primeiro tapa na cara.

Quanto do que fazemos e do que tantas pessoas fazem é por automatismo? Valjean, até aquele momento, estava acostumado a que? Depois de 19 anos preso, penando como um diabo, ele sai da detenção e é tratado como um cachorro. Em seu íntimo, tudo que ele tinha era raiva e revolta. De forma automática, ele segue sendo um marginal – à margem da sociedade. Até que, para surpresa geral – especialmente dele -, ele recebe um segundo gesto seguido de ajuda. É perdoado e incentivado a recomeçar a vida. E este gesto solene de generosidade chega fundo ao coração endurecido de Valjean.

Quantos de nós não sentimos o coração sendo endurecido com o passar do tempo, depois de ter recebido tantos golpes? Um certo Renato Russo, certo, dia, cantou: “… não vou me deixar embrutecer/ eu acredito nos meus ideais/ Podem até maltratar o meu coração/ que o meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”. Certo, mas quantas pessoas se mantém fortes apesar dos golpes? Conseguem manter a suavidade, apesar de tantos golpes para que se tornem brutas?

Valjean aprende com o gesto do Bispo e muda a sua vida para sempre. Ganha uma oportunidade de recomeçar que 99% dos presos libertos do nosso país não recebem. Com apenas um candelabro de prata – perto da morte percebemos que ele ainda preserva o outro -, ele multiplica os recursos, vira um homem de negócios, dá oportunidade de emprega para muitas pessoas e se torna um homem respeitado pela sociedade.

Até que Javert volta a lhe assombrar. E ele estará perseguindo o personagem até o final. Porque os dois são a mesma pessoa, apesar da sociedade vê-los de forma tão diferente. E eis uma das forças deste clássico de Victor Hugo. Nos mostrar que papéis contrários da mesma sociedade podem ser, mais que nada, duas faces da mesma moeda. Javert não suporta “ficar devendo” nada para o homem que ele abomina porque, no fim das contas, é incapaz de perceber que eles são tão parecidos. Por ter sido um homem “da lei” a vida toda, Javert não era melhor que Valjean. Pelo contrário. Já que Valjean foi capaz de se arriscar mais de uma vez pela vida de outra pessoa. Foi capaz de amar e de se doar sem esperar nada em troca. Enquanto Javert apenas “cumpria o seu dever”. E quem tem mais mérito: aquele que faz algo por obrigação, porque assim lhe cobra o “dever”, ou aquele que se doa por livre e expontânea vontade?

Um filme que trata de todas estas coisas já é algo fora do comum. E por isso mesmo, merece ser visto. Porque faz pensar, porque emociona. Mas além disso, Les Misérables trata sobre o espírito da mudança. Aborda a força inspirada de uma França que nunca desistiu de lutar por liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo que estes ideiais não tenham sido vitoriosos após a Revolução Francesa, eles perduram. No tempo. Passam gerações, vencem fronteiras. Seguem inspirando.

Mas nem por isso, deixa de valer a crítica de que os anos seguintes à Revolução não trouxeram melhora para o povo. Que seguiu cada vez mais miserável. E que um certo levante não chegou a ser popular, mas apenas serviu de tema para registros históricos de uma covardia que aconteceu e se repete em diferentes sociedades até hoje. Mesmo que transfigurada com outras roupagens.

Enquanto Les Misérables trata destes e de outros temas tão magnifícos e raros, há quem se apegue apenas a uma falta de musicalidade de um ou outro ator. Que pena. Mas a história está lá. Nos mostrando como uma pessoa nunca é apenas um determinado personagem. Um ladrão não precisa ser, sempre, um ladrão. Um homem da lei, idem. Cada pessoa é responsável por suas próprias escolhas, e elas nos determinam. O mágico da vida é que esta reinvenção é constante. Só não muda quem não quer – ou acha que não precisa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Les Misérables teve a sua premiere no dia 5 de dezembro, em Londres. Depois desta data, pouco a pouco, ele foi sendo lançado nos mercados de diferentes países. Até o momento, a produção está confirmada para participar de apenas um festival, o de Belgrado, no dia 23 de fevereiro.

Como comentei antes, este filme é todo bem acabado. Além do ótimo trabalho dos atores – um melhores que outros -, vale destacar alguns aspectos técnicos da produção. Começando pela ótima direção de Tom Hooper. O diretor inglês consegue, ao mesmo tempo, explorar belos cenários da França do século 19, os detalhes dramáticos das interpretações de seus principais atores, e a convulsão social/divisão de classes tão explorada pela obra de Victor Hugo. Hooper se utiliza de um jogo de câmeras importante, dando ritmo visual para a produção, em sintonia com a música. Tudo deve fluir nesta produção, e ele consegue fazer com que isso aconteça na prática.

Para ajudar Hooper neste processo, é fundamental o trabalho do diretor de fotografia Danny Cohen. Ele faz um trabalho impecável, tanto nas cenas abertas, com muitos figurantes ou com ajuda de efeitos especiais, quanto e, principalmente, nos planos mais dramáticos com os atores principais em interpretações solitárias. Muito bom o trabalho da dupla de editores Chris Dickens e Melanie Oliver. Eles são peças-chave para que o diretor consiga dar o ritmo adequado para as cenas.

E depois, vem a turma responsável pela linguagem visual desta produção. Merecem ser elogiados os trabalhos da designer de produção Eve Stewart; a direção de arte da equipe Hannah Moseley, Grant Armstrong, Gary Jopling e Su Whitaker; os figurinos de Paco Delgado, bárbaros; a decoração de set de uma equipe de nove profissionais; o departamento de arte, que faz um trabalho impressionante; os efeitos especiais da equipe de James Davis III; os efeitos visuais da equipe de Sandra Chocholska, Edson Williams e Thomas Nittmann; e a ótima maquiagem da equipe comandada por Audrey Doyle, Nikita Rae e Malwina Suwinska.

Como qualquer musical exige, a trilha sonora e todos os demais aspectos sonoros desta produção são impecáveis. Claro, alguns atores como Russell Crowe, Eddie Redmayne e até Amanda Seyfried não se saem tão bem cantando quanto outros nomes da produção, mas isso não impede que o filme funcione bem na parte musical. Vale, portanto, elogiar o departamento de som desta produção, assim como o departamento musical comandado por Claude-Michel Schönberg, com direção musical de Stephen Brooker.

Les Misérables tem roteiro de William Nicholson, Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, já que é uma adaptação do musical homônomo baseado na obra original de Victor Hugo. Segundo os próprios produtores deste filme, ele segue o musical que já foi assistido por mais de 60 milhões de pessoas em teatros de 42 países e adaptado para 21 idiomas. Há 27 anos o musical está em cartaz perigrinando por diferentes nações. Segundo os produtores, Les Misérables é o musical há mais tempo em cartaz no mundo.

Tiro o meu chapéu para Hugh Jackman. Ele faz, em Les Misérables, um de seus grandes papéis até hoje. Grande interpretação, digna de prêmios. Os demais atores são coadjuvantes. Ainda assim, impressiona a interpretação de Anne Hathaway, que rouba a cena como Fantine. Amanda Seyfried está bem como Cosette, assim como Isabelle Allen, que interpreta a personagem quando criança. Pena que Seyfried, por mais carismática que ela seja, não consiga se destacar tanto quanto Hathaway e nem cantar como ela. O mesmo se pode dizer de Eddie Redmayne, que perde na comparação com Jackman tanto na interpretação quanto ao cantar.

Dos atores secundários, vale destacar o trabalho de Samantha Barks como Éponine, a jovem apaixonada por Marius e que, mesmo assim, tem uma postura correta e não canalha com Cosette; o jovem Daniel Huttlestone como Gavroche, o menino emblemático da história; e Aaron Tveit como Enjolras, o líder dos revolucionários.

Les Misérables teria custado cerca de US$ 61 milhões. Até o momento, o filme faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 137,5 milhões. Nada mal para um musical – ainda mais baseado em um clássico.

Esta produção foi totalmente rodada no Inglaterra, em cidades como Winchester, Kettering, Kent e Londres.

Uma curiosidade sobre esta produção: Paul Bettany havia sido considerado para o papel de Javert antes de Russell Crowe. Talvez ele tivesse se saído melhor. Para o papel de Fantine, foram consideradas as atrizes Amy Adams, Jessica Biel, Marion Cotillard, Katie Winslet e Rebecca Hall. Geoffrey Rush, que interpretou a Javert na versão de Les Misérables para o teatro, foi considerado para o papel de Monsier Thenardier.

Inicialmente, Les Misérables teria quatro horas de duração. Ainda bem que fizeram uma versão bem mais curta.

Até o momento, Les Misérables recebeu 31 prêmios e foi indicado para outros 79, além de ter recebido oito indicações para o Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para dois como o Filme do Ano no AFI Awards; para os Globos de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Hugh Jackman, e Melhor Música para Suddenly; Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway no Screen Actors Guild; além de figurar no Top Films da National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Les Misérables. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 150 textos positivos e 65 negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média 7. A pior nota entre os filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano.

CONCLUSÃO: Uma história emocionante, adaptada de um clássico. E que da forma com que foi adaptada, faz refletir sobre vários valores e posturas que seguem válidas e, me arrisco a dizer, seguirão válidas enquanto existir a humanidade. Les Misérables provavelmente não vai agradar a todos. Primeiro, porque não é qualquer um que tem paciência para os musicais. Assim como nem todos tem paciência com os clássicos. Junte ambos, musical e clássico, e terás muitos insatisfeitos. Mas com a ousadia de adaptar o texto de Victor Hugo para o formato musical, o drama dos personagens deste clássico são colocados em negrito e sublinhado. Les Misérables nos fala, com estes tons dramáticos ressaltados pela música, da fantástica capacidade humana da reinvenção. E de como o amor pode ter um papel fundamental neste processo. Com uma produção impecável, um trabalho apaixonado do diretor e de seus comandados, Les Misérables é um dos belos filmes desta safra. Desde que você ignore seus pequenos pecados.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Les Misérables recebeu o mesmo número de indicadores que o recentemente comentado por aqui, Silver Linings Playbook. Mas diferente do filme de David O. Russell, de fato eu acho que a produção de Tom Hooper mereceu cada uma de suas indicações.

Curioso que Les Misérables concorre, basicamente, em categorias técnicas, mas foi ignorado em Melhor Roteiro Adaptado. Não que uma produção que, como ele, concorre como Melhor Filme do ano precise estar, obrigatoriamente, indicada como roteiro. Mas é estranho ele não estar ali. Assim como Hooper ter ficado de fora da lista de Melhor Diretor.

Então o que sobrou para Les Misérables? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Canção Original para Suddenly, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som e, finalmente, Melhor Filme, Melhor Ator para Hugh Jackman e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway.

Mesmo não tendo assistido a todos os filmes que estão concorrendo com Les Misérables, não seria uma surpresa ver ele ganhando em algumas destas categorias. Principalmente nas de Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som e, quem sabe, até como Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway. De fato, ela merece. Se o filme ganhar nestas categorias – Melhor Ator parece ser uma barbada para Daniel Day-Lewis -, ele terá conseguido quatro ou cinco Oscar’s. E deve estar satisfeito com isso.

Francamente, apesar de saber que Day-Lewis é o favorito e que, de fato, ele ganhando não será uma injustiça, mas eu prefiro a Hugh Jackman. Acho que ele, como Anne Hathaway, tiveram uma entrega muito maior para os seus papéis.

Independente das expectativas, claro que acidentes de percurso sempre acontecem. E Les Misérables pode sair de mãos vazias. Pode ocorrer. Mas acredito que não. Até porque seria uma boa injustiça.

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The King’s Speech – O Discurso do Rei

Os bastidores de um dos discursos mais emocionantes e importantes da história. O que seria de um rei se ele fosse mudo? The King’s Speech conta a fascinante, surpreendente e interessante história da chegada do Rei George VI ao poder. Mais que isso, a sua luta em conseguir comunicar-se com as pessoas e, através de suas palavras, inspirar uma nação. Este é um destes filmes que surpreende pelo ineditismo da história, pela condução feita pelo diretor, pelas interpretações e pelo cuidado que todos os envolvidos na produção tiveram com os detalhes. Não por acaso o filme vem colecionando prêmios e é um dos grandes cotados para o Oscar deste ano. Ele enfrenta o até há pouco considerado imbatível The Social Network. Provavelmente ele continua sendo o Davi da história. Mas quem sabe, mais uma vez, o mais forte da história não poderá sair perdendo para o mais fraco? Ainda que, cá entre nós, The King’s Speech ter a força da Weinstein Company como distribuidora do filme nos Estados Unidos não o transforma, exatamente, em um concorrente fraco. Pelo contrário.

A HISTÓRIA: Começa em 1925, quando o Rei George V era responsável por um território que equivalia a um quarto do mundo. Naquele ano, o Rei pediu a seu segundo filho, o Duque de York, para que ele fizesse o discurso de encerramento da tradicional Exibição do Império, em Wembley, Londres. Equipamentos à postos, uma multidão à espera do discurso, e o Duque de York (Colin Firth) repassa, silenciosamente, as palavras que deverá falar para este grande público em seguida. Ao seu lado, Elizabeth (Helena Bonham Carter) tenta acalmar o marido. Após uma extensa preparação do locutor, o Duque aparece em cena e, gaguejando, consegue falar apenas algumas palavras. O desastre comprova o que todos já sabiam: um dos herdeiros do Rei não consegue comunicar-se com as pessoas fora do ambiente privado e familiar. Cansado de procurar soluções para o seu problema, o Duque de York ordena que a mulher pare de buscar alternativas. Mas ela encontra uma pessoa que poderá ajudá-lo: Lionel Logue (Geoffrey Rush), um civil com um método nada ortodoxo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The King’s Speech): Poucas vezes a intimidade de um rei e de sua família foi tão maravilhosamente desnudada quanto nesta produção. O Rei não está morto, viva o Rei! Mas o que acontece com o seu substituto, quando ele não consegue comunicar-se com as pessoas de forma adequada? O discurso pausado do Rei George VI, o primeiro depois que a Inglaterra entrou em guerra contra a Alemanha, parecia ser justificado pela gravidade daquele momento. Mas não. The King’s Speech revela os bastidores daquele discurso e, principalmente, desnuda a intimidade da realeza inglesa antes daquele episódio.

O primeiro grande acerto do diretor Tom Hooper foi o de buscar os ângulos mais sugestivos para cada cena. Assim como Orson Welles ensinou no clássico dos clássicos Citizen Kane, Hooper utiliza a câmera para mostrar profundidade de sentimentos, isolamento do personagem principal, seus sentimentos de pequenez e mesmo a “plasticidade” de momentos um tanto hilários como os preparativos de um discurso. Hooper acerta na técnica, transformando um filme que poderia ter uma narrativa simples, linear, em um apanhado de cenas bem estruturadas e planejadas para despertar nos espectadores o devido sentimento de compaixão com o protagonista.

Se o diretor acerta na escolha de cada cena, sempre privilegiando o desempenho do elenco e os detalhes de suas interpretações, o que dizer do roteiro de David Seidler? Simplesmente brilhante. O autor consegue, com precisão, equilibrar o drama com o humor, com uma certa carga de suspense e de intriga na história. Os bastidores da realeza são desnudados com precisão e talento. Mas mais que isso, Seidler consegue tornar todos os personagens reais. Ou, em outras palavras, traça as suas personalidades como são as personalidade de todas as pessoas: ambíguas, incertas, capazes de gestos de nobreza, de egoísmo, de dúvida e de coragem.

O protagonista desta história, interpretado de maneira soberba por Colin Firth, claramente não sabe o seu “papel no mundo”. Ele parece estar em permanente dúvida ou conflito com duas de suas facetas: do garoto que sempre foi desprezado e caçoado pela gagueira na própria família, carente de afeto e alvo de maus tratos de pessoas subalternas; e do homem que sabe de seu potencial, conhece a responsabilidade de um líder e sabe que é a melhor opção da família na sucessão do patriarca. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Especialmente interessante como Lionel Logue e nós, espectadores desta história, percebemos esta dualidade do personagem principal e, mais que isso, por trás do temor do protagonista em falhar, percebemos uma convicção e ambição inconfundíveis. Firth é brilhante em mostrar fragilidade e firmeza ao mesmo tempo, assim como o roteirista em escrever as suas linhas com precisão – nada sobra nesta história.

Algo fundamental no cinema é a criação de uma aura de empatia entre o espectador e o personagem que se vê na tela. Em alguns casos, esta empatia não é criada em relação ao protagonista. Mas no caso deste filme, ainda que outros personagens também possam despertar este sentimento, sem dúvida o foco está no personagem de Colin Firth. Ele é o centro da história. Tanto que a câmera está preocupada, a todo momento, em narrar os acontecimentos por sua ótica – ou, quando isso não é possível, ela se ocupa em registrar os detalhes de seus gestos e reações.

Além de um roteiro equilibrado e inteligente, The King’s Speech consegue, como poucos filmes anteriores conseguiram, nos transportar para o ambiente anterior à Segunda Guerra Mundial com naturalidade. Há cenas que mostram as ruas de Londres, alguns costumes daquela época – perto ou longe da realeza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há momentos de humor simples e outros de fina ironia. Como quando o Duque de York assiste a um pequeno trecho do discurso de Hitler e percebe que a comunicação é um elemento fundamental para qualquer governo, atividade profissional ou sociedade. E ele, justamente ele, um dos grandes contrapontos à loucura de Hitler, com aquela dificuldade gigante em conseguir falar para o público.

Além de desnudar as relações conflituosas da família real inglesa, The King’s Speech trata de um tema fundamental: a comunicação como elemento fundamental para as sociedades – especialmente as modernas. Mais do que nunca, citando o Chacrinha, quem não se comunica, se estrumbica. E houve momentos na história – e ainda os há – em que isto foi e é especialmente verdadeiro. Aqui temos a narrativa curiosa e saborosa de um destes momentos. Um grande filme, pelo conjunto da obra e pelo diferencial de alguns aspectos, como as interpretações fantásticas do trio de atores principal, a trilha sonora saborosa, a direção mais que precisa e sugestiva e um roteiro que insere novos elementos em um gênero já conhecido. E depois dizem que não é mais possível criar, apenas copiar, na arte. Aqui, mais um exemplo de que é possível sim trazer novidades para terrenos já conhecidos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis aqui mais um exemplo de como um grande filme não precisa custar uma barbaridade. Mesmo com todo o cuidado com vestuário, cenários, objetos, carros e demais elementos utilizados para transportar o espectador para as duas e três primeiras décadas do século passado, The King’s Speech custou aproximadamente US$ 15 milhões. Pouco, comparado com outros filmes produzidos no ano passado – alguns deles concorrentes desta produção no Oscar. Com o burburinho causado pelas 12 indicações do filme para o Oscar e com os elogios e prêmios que ele vinha recebendo antes destas indicações, The King’s Speech está acumulando lucro. Até o dia 30 de janeiro ele havia alcançado pouco mais de US$ 72,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Desde já, um sucesso comercial.

Falando em premiações, até o momento, The King’s Speech ganhou 16 prêmios e recebeu outras 73 indicações. Um numero impressionante, devo dizer. Além disso, esta foi a produção que mais recebeu indicações no Oscar. Dos 16 prêmios que recebeu até o momento, 10 foram para o ator Colin Firth. Por isso mesmo ele é o grande favorito para receber o Oscar de Melhor Ator. Outros prêmios importantes conquistados pela produção foram o de Melhor Filme entregue pela Sociedade dos Críticos de Cinema de Phoenix; o de Melhor Ator Coadjuvante para Geoffrey Rush pela Associação de Críticos de Cinema de Central Ohio; e os de Melhor Filme Britânico Independente, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (Rush) e Melhor Atriz Coadjuvante (Helena Bonham Carter) no British Independent Film Awards. Entre os prêmios que recebeu, é importante citar, Colin Firth levou o Globo de Ouro como Melhor Ator – Drama.

The King’s Speech estrou no dia 6 de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, passou por outros oito festivais – nenhum de grande importância, com exceção dos festivais de Toronto e de Londres. A produção estreou no circuito comercial dos Estados Unidos apenas no final de dezembro.

Além dos atores principais já citados, todos perfeitos em suas interpretações, vale a pena mencionar o trabalho de Derek Jacobi como o Arcebispo Cosmo Lang; de Jennifer Ehle como a esposa de Lionel, Myrtle Logue; de Freya Wilson como a Princesa Elizabeth e de Ramona Marquez como a Princesa Margaret; de Michael Gambon como o Rei George V; de Guy Pearce como o Rei Edward VIII; de Claire Bloom como a Rainha Mary; e de Timothy Spall como Winston Churchill.

Na parte técnica, além da direção impecável de Tom Hooper, me impressionou a trilha sonora de Alexandre Desplat. Nem muito rebuscada, nem muito ousada. Apenas, precisa. E envolvente. Depois, a direção de fotografia ajustada de Danny Cohen. E, claro, por ser um filme de época, todos os elementos que compõe uma produção assim ajustados e funcionando em sincronia, do figurino de Jenny Beavan até o design de produção de Eve Stewart, a direção de arte de Netty Chapman e decoração de set de Judy Farr.

Uma curiosidade sobre a produção: o ator Derek Jacobi interpretou, em 1976, um governante com problemas na fala na minissérie I, Claudius. Ele também interpretou a Alan Turing, um homem que era gago e que teve um papel importante pelo lado dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial em uma peça da Broadway e em um filme.

Outro dado interessante: o roteirista, David Seidler, sofreu por ser gago quando era criança. Adulto, ao ouvir o discurso em tom “infantil” do Rei George VI, ele percebeu que aquele era um efeito da fala de um homem gago. Seidler então escreveu para a Rainha pedindo permissão para escrever um roteiro sobre a história do Rei. A Rainha pediu que ele não fizesse isso enquanto ela estivesse viva, porque as memórias que ele citaria ainda eram muito dolorosas. Ele respeito este pedido.

Em várias ocasiões, durante a história, Lionel proíbe o Rei de fumar. De fato, naquela época, o consumo de cigarro foi às alturas como “solução” para o estresse dos tempos pós e pré-guerra. Mesmo com todos os alertas, o Rei George VI continuo fumando e morreu, vítima de um câncer de pulmão, em fevereiro de 1952. Sua filha, Elizabeth II, só assumiria o poder no ano seguinte.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para The King’s Speech. Uma nota boa, para a média do site, mas ainda um pouco baixa para o meu gosto. Os críticos que tem seus textos linkados no site Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 178 críticas positivas e apenas nove negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% dos críticos e uma nota média de 8,6.

Agora, minha opinião sobre o elenco: ainda que todos estejam muito bem, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter lembram a eles mesmos em outras interpretações ou, o que é o mesmo, eles parecem continuar interpretando alguns de seus personagens anteriores. Mas isso não acontece com Colin Firth. Ele consegue aqui um desempenho inédito, diferenciado. Por isso mesmo merece os prêmios que tem recebido e, caso eu votasse, teria o meu voto no Oscar. 🙂

Hoje, com mais tempo, fui colocar os links nos nomes que aparecem nesta crítica e fui me informar um pouco mais sobre o Rei George VI e os burburinhos e comentários sobre o filme. Encontrei neste link, com matéria da BBC, um interessante relato sobre o dia da morte do Rei, em 1952, que deixou todo o Reino Unido chocado. Bastante interessante.

Encontrei também uma matéria que dizia que a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, teria assistido ao filme e gostado do retrato que foi feito de seu pai. Ela teria classificado a história como “muito próxima da realidade” e se divertido com as cenas mais descontraídas. A Rainha teria achado o filme “tocante e agradável”.

Nesta matéria da Veja, uma campanha nos bastidores do Oscar que poderá selar o fracasso do filme na disputa. Estaria circulando um e-mail entre os votantes da Academia que ressalta os documentos e os rumores de que George VI e seu irmão, Edward VIII, seriam antisemitas e, até um certo ponto, simpatizantes de Hitler. Se estes argumentos pegarem, em um ambiente em que existem muitos judeus, certamente o filme será prejudicado.

CONCLUSÃO: Emoção, disputas, formalidades, quebra de decoro, bastidores do poder. The King’s Speech nos transporta para a Inglaterra nos anos que precederam a Segunda Guerra Mundial para desvelar parte da intimidade da família real inglesa e para nos fazer refletir sobre o poder e a importância da comunicação. Equilibrando drama, comédia, grandes interpretações, um roteiro e uma direção que trabalham em permanente busca pelo caráter humano e simbólico dos fatos, The King’s Speech serve de exemplo de como o cinema está sempre em um processo de reinvenção. Utilizando cuidados estéticos conhecidos desde o clássico Citizen Kane, mas com o cuidado de popularizar a história ao despertar a empatia do espectador com a vida do protagonista, este filme cumpre o seu papel com esmero. Desvela os problemas e disputas de uma família tradicional e poderosa, tornando claros os bastidores do poder e o papel figurativo que compete aos reis a partir do século 20. Ainda assim, mesmo sem poder de decisão, estes personagens reais inspiram os seus povos e criam fascínio pelo mundo. Neste filme, ganhamos uma lupa para acompanhar, em detalhes, as fraquezas, a coragem e a bravura de alguns de seus integrantes. Um filme saboroso e bem acabado em cada elemento. Merecedor dos prêmios e indicações que tem recebido. Sim, o Rei está nu. E a desmistificação dele é o que torna esta produção tão interessante.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: A mais badalada e principal premiação de Hollywood leva em conta a qualidade e os méritos dos nomes que estão disputando suas estatuetas. Mas, como ocorre sempre com uma premiação da indústria, conta muito para o resultado o bom e velho lobby. Nem sempre, com isso, ganha o melhor. Mas, tenham certeza, também não vence o pior.

Não deixa de ser bastante sugestivo e significativo o fato de The King’s Speech liderar a lista de filmes que disputam o Oscar deste ano com 12 indicações. Tenham certeza que ele chegou a este número, na frente dos rivais True Grit, The Social Network e Inception, por seus méritos e por uma bela campanha de “conquista dos jurados” feita pela experiente Weinstein Company.

Francamente, difícil calcular as chances reais desta produção. Ela pode surpreender ganhando como Melhor Filme de The Social Network. Teremos indicações se isso vai acontecer ou não conforme a produção for ganhando nas categorias “secundárias”. De qualquer forma, um Oscar é praticamente certo: o de Melhor Ator para Colin Firth. Este ano, será quase inevitável o ator sair da premiação com uma estatueta.

Além dele, vejo que a produção tem chances nas categorias principais, de Melhor Filme até Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Não vejo que os atores coadjuvantes, ainda que eles estejam ótimos, tenham muitas chances este ano – porque há concorrentes melhores na disputa. O filme poderia vencer ainda em categorias técnicas, como Melhor Trilha Sonora para Alexandre Desplat; Direção de Arte para Eve Stewart e Judy Farr e Melhor Figurino para Jenny Beavan.

Mas, como ocorreu em outras ocasiões, o filme mais indicado da noite pode sair da premiação com apenas uma ou duas estatuetas. Agora, eu apostaria apenas em Melhor Ator. Ainda que, como comentei há pouco, ele possa surpreender embolsando até sete prêmios. Logo mais, saberemos.