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The Danish Girl – A Garota Dinamarquesa

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Esse filme será difícil de ser assistido por alguns, será uma verdadeira revelação para outros e, para um terceiro grupo, ele pode parecer uma redenção. Tudo vai depender sob que ótica você irá assistir a The Danish Girl. Da minha parte, ele foi difícil de ser visto, ao mesmo tempo que ele foi um eficaz cartão de visitas para uma realidade até agora desconhecida. Com atores de primeiríssima linha, especialmente com mais uma atuação inspirada de Eddie Redmayne, The Danish Girl se revela um filme necessário. Especialmente para ajudar a quebrar preconceitos ainda existentes.

A HISTÓRIA: Um conjunto de belas paisagens. Elas servem de inspiração para Einar Wegener (Eddie Redmayne). Gerda (Alicia Vikander), mulher dele, observa um de seus quadros. Perto dela, Einar é paparicado pela forma com que ele retrata Vejle. Os dois se olham, enquanto o agente dele, Rasmussen (Adrian Schiller) tenta exaltar o talento do artista. Essa história começa em Copenhagen em 1926. No dia seguinte Gerda acorda Einar, que a chama para a cama novamente. O casal de artistas é uma inspiração, ainda que eles tenham apelos muito diferentes. Em breve, contudo, Einar deixará aflorar a verdade sobre si mesmo, o que vai mudar a vida do casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Danish Girl): Este filme não é fácil de ser visto. Pelo menos pela maioria das pessoas, eu aposto. Para mim não foi fácil. Primeiro porque é sempre duro ver o sofrimento alheio. E em The Danish Girl há bastante sofrimento. Mas ele não é tudo nesta história, é claro. Neste filme também há muito amor e a busca pela própria verdade. Ainda que esta verdade seja dura de aceitar, algumas vezes.

Serei franca em dizer que este filme mexeu com os meus preconceitos – ou com a minha dificuldade de entender o que é diferente de mim. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Assistindo a The Danish Girl percebi que é muito mais simples entender um homem que se apaixona por um homem e uma mulher que se apaixona por uma mulher do que me colocar no lugar de quem não aceita o próprio corpo e faz cirurgias arriscadas para ter o outro sexo – que, evidentemente, é o que ele entende como sendo o seu.

Em outras palavras, para mim foi muito mais simples me identificar com Gerda do que com Einar/Lili. E neste ponto reside uma das belezas desta produção com roteiro de Lucinda Coxon baseado no livro de David Ebershoff. Ela provoca quem não compartilha com a visão de mundo e de realidade de Lili a conhecer mais de perto a intimidade dos transexuais/transgêneros.

Agora, o contato não é delicado. Pelo contrário. Não estamos do lado de fora, conhecendo a mudança de Einar para Lili como simples espectadores. Estamos dentro do quarto do casal Gerda e Einar. “Estamos” presentes no estúdio em que Gerda está trabalhando no retrato da amiga do casal, Ulla (Amber Heard), quando a modelo se atrasa e ela pede para o marido vestir as meias e a sapatilha para se passar pela amiga, momento em que Einar sente a sua verdadeira identidade começar a aflorar.

O filme não demora para mostra esta ruptura na vida do casal e a evolução deste quadro. Ainda assim, temos tempo de conhecer um Einar antes da mudança. Ele era um artista talentoso e sensível, se vestia bem e não tinha, aparentemente, nenhuma atração por homens ou vontade de se passar por mulher. Pelo menos até aceitar a provocação de Gerda e se vestir como mulher para acompanhá-la em mais um dos eventos chatos com artista que ele odiava.

Inicialmente eles pareciam estar apenas brincando e “jogando”. Afinal, no início, Einar continuava atraído pela esposa. Mas conforme ele foi dando espaço para Lili, tudo começou a mudar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma maravilhosa o grande ator Eddie Redmayne foi deixando claro que Einar se sentia muito mais vivo e “inteiro” sendo Lili. Não demorou muito para que ele só quisesse dar espaço para ela – e para que Einar praticamente desaparecesse.

A beleza de The Danish Girl é nos mostrar essa autodescoberta de Einar como Lili com muita franqueza. Mas a honestidade não torna tudo mais simples. De qualquer forma, para quem nunca tinha realmente se interessado ou tido a oportunidade de se colocar na ótica de um transgênero, este filme é um verdadeiro achado. Em The Danish Girl fica muito evidente o que se passa com um homem que passou uma parte considerável da vida escondendo o que realmente sentia sobre si mesmo e que, em determinado momento, resolve ser verdadeiro consigo mesmo.

A descoberta e a transição são dolorosas. Ainda assim, em diversos momentos, dá para perceber a liberdade e a alegria que Einar sente ao caminhar naquela direção de se assumir. Isso tudo é verdade e um desafio para quem não é transgênero. Me colocando no lugar deles, também entendo que este filme seja uma verdadeira redenção e uma inspiração. Mas serei franca em dizer que me coloquei demais no lugar de Gerda. Impossível não ficar assustada, como ela, com a primeira noite em que Lili saiu de casa e com o que viria depois.

A interpretação de Alicia Vikander é perfeita neste sentido. Ela fica assustada com as mudanças pelas quais passa Einar. Até porque ela não demora muito para perceber que, finalmente, ela está conhecendo de verdade a pessoa com quem ela se casou. Na medida em que a verdade não consegue mais ser escondida, o casal passa por um doloroso processo de aceitação e de mudança. Não tem como não sentir a dor de Gerda ao ver que ela está perdendo o seu marido.

Daí também, serei franca, um pouco da minha dificuldade também de entender Einar/Lili. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como até ele experimentar as roupas e se sentir uma mulher ele tinha tanta atração e parecia apaixonado por Gerda? Entendo quem faça isso para “acobertar” a própria identidade enquanto tem uma vida dupla, por pressão social, mas alguém que parece realmente eliminar parte fundamental da própria identidade e viver uma outra persona por tanto tempo me parece algo incrível. Sei que os psicólogos podem explicar e que o fato da história se passar nos anos 1920 ajuda nesta explicação, mas ainda assim me parece incrível.

Por causa disso Gerda acredita que se casou com uma certa pessoa e que a conhecia, mas não. E o processo de descoberta de Einar e de Gerda é complicado. Primeiro ele mesmo parece não entender pelo que está passando. Muito menos ela. No início, me incomodou também o fato dele não ter coragem de falar a verdade para Gerda e sair escondido para se encontrar com Henrik (Ben Whishaw). Sempre sou à favor das pessoas jogarem aberto. A verdade deveria prevalecer. Bueno, isso acaba acontecendo mas, até lá, é duro ver o que acontece com Einar/Lili e Gerda.

Também não é nada fácil ver todas as soluções malucas e absurdas que diferentes médicos e “especialistas” dão para o caso de Lili. É de cortar o coração. Ninguém, por mais que a maioria não entenda pelo que está passando, dever ser sujeito àquelas dores e torturas. Mas todos sabemos como a sociedade lidava com este e com outros “problemas” há diversas décadas atrás.

Nestas horas – e em outras também – percebemos como sim, evoluímos com o passar do tempo. Mas algo que parece ainda não ter evoluído muito, e aí está a importância de The Danish Girl, é a aceitação e entendimento dos transgêneros pela maioria da sociedade. Ainda falta mais falarmos do assunto e conhecermos histórias como a de Lili. Talvez, com o tempo, elas se tornem tão naturais quanto as histórias de amor entre homossexuais.

Por falar em amor, uma das grandes mensagens de The Danish Girl é o imenso amor que existe entre Gerda e Einar/Lili. Enquanto Lili luta por sobreviver e por ser cada vez mais coerente consigo mesma, Gerda segura as pontas e enfrenta toda a dor de perder o marido para que Lili possa ganhar a vida. Impressionante a entrega de Gerda e o amor verdadeiro que ela sentia por Einar/Lili. Francamente, não sei se eu conseguiria fazer o mesmo. Provavelmente não. Mas Gerda nos ensina isso, que o mais bonito amor é aquele que quer que a outra pessoa seja feliz, que se sinta inteira e viva. Não há amor aonde o outro tem que mentir para si mesmo.

Claro que junto com esse amor gigante de Gerda por Einar/Lili está o amor de Lili pela própria verdade. A busca incessante de Einar para dar lugar para a sua verdadeira identidade é comovente e, certamente, inspirador para quem passa pelo menos. The Danish Girl consegue demonstrar isso mesmo para quem não faz parte deste grupo. Este, sem dúvida, é um grande mérito da produção. Conquista dos ótimos atores envolvidos no projeto, especialmente Eddie Redmayne e Alicia Vikander, e também da ótima direção de Tom Hooper.

O roteiro de Coxon e a direção de Hooper não embelezam a pílula. Pelo contrário. E isso é mais um ato corajoso dos realizadores deste filme. Francamente, gostei muito do resultado. Mas acho que o filme peca um pouco por não nos contextualizar mais na história de Einar. Talvez algum flashback do passado ou ele contando mais para Gerda sobre a sua trajetória, sentimentos e dificuldades poderia tornar o filme mais completo. De qualquer forma, é uma bela produção. E muito necessária, já que pouco ainda se fala, e de forma tão franca e humana, dos transgêneros no cinema. Sem contar que este é um trabalho exemplar dos atores principais. Maravilhosos, os dois.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eddie Redmayne realmente é um ator diferenciado. Ele consegue dar vida para Lili de uma forma genuína e que convence – quantos atores que você acompanha conseguiriam fazer o mesmo? Quantos não pareceriam forçados? Sei que ele tem Leonardo DiCaprio no papel da vida dele para enfrentar no Oscar, mas não dá para ignorar o excelente trabalho de Redmayne neste filme. Se ele seguir inspirado como agora, não tenho dúvida que outros prêmios virão.

Muito importante para The Danish Girl que o filme tenha, além de um Redmayne inspirado, uma Alicia Vikander igualmente em ótima forma. A atriz interpreta com maestria Gerda, fazendo muitas pessoas se sensibilizarem pelo que ela está passando na história. Francamente, o papel dela é muito diferente do de Rooney Mara em Carol, quando a interpretação é muito mais contida e nos detalhes – como na troca de olhares. No caso de Vikander a interpretação é muito mais direta, franca e entregue porque a personagem dela pede isso. Mara, por outro lado, faz uma entrega perfeita também, mas de outra forma.

Complicado escolher entre as duas. Assim como é complicado escolher entre Redmayne e DiCaprio. Para mim, todos estão perfeitos. A diferença talvez seja na classificação de “interpretação da vida” dos atores. DiCaprio realmente faz o melhor papel da carreira. Não conheço muito da trajetória de Vikander para dizer o mesmo dela, mas me parece que ela ganhou outro status a partir deste filme. Então, se formos olhar por esta ótica, talvez Vikander tenha uma vantagem sobre Mara. Agora, é preciso ainda ver a Kate Winslet em Steve Jobs – falo mais do Oscar logo abaixo.

Eu gosto muito do que Redmayne faz, mas tenho que confessar algo: me irrita um pouco o cacoete dele de piscar os olhos como se o personagem de Lili/Einar tivesse uma certa timidez que algumas vezes deve ser administrada através daquela piscada. Não sei, isso me faz lembrar de outros papéis dele. Acho que ele poderia utilizar outros recursos para variar um pouco.

A direção de Tom Hooper me pareceu soberba. Ele acerta ao estar atento a cada detalhe da interpretação dos atores na mesma medida em que ele valoriza a beleza dos lugares – afinal, este filme, ao ter dois protagonistas que são pintores, exige um apreço pelo visual diferenciado. Neste sentido, contribui para o bom trabalho visto no filme o diretor de fotografia Danny Cohen. Belo trabalho o dos dois.

Falando nas qualidades técnicas do filme, é preciso ressaltar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; a edição competente de Melanie Oliver; o design de produção requintado e certeiro de Eve Stewart; a direção de arte de Grant Armstrong e Tom Weaving; a decoração de set de Michael Standish; os figurinos perfeitos e muito bem pesquisados/criados por Paco Delgado; e o excelente trabalho de maquiagem dos 10 profissionais liderados por Caroline Case, Annette Field e Pari Khadem. Exemplar também o trabalho do departamento de arte que conta com 32 profissionais talentosos.

Este filme é capitaneado e tem na interpretação de Redmayne e Vikander uma de suas fortalezas. Mas é preciso enaltecer também o bom trabalho dos coadjuvantes. Destaque para Adrian Schiller como Rasmussen, que representa Einar e, rapidamente, entende o novo talento que aflora em Gerda a partir dos quadros inspirados em Lili; Amber Heard linda e com interpretação convincente como Ulla; Ben Whishaw ótimo como Henrik; Pip Torrens um tanto assustador como o Dr. Hexler, o primeiro a “tratar” Einar; Matthias Schoenaerts perfeito e maravilhoso como Hans Axgil, amigo de infância de Einar e grande parceiro de Gerda e Lili; e o grande Sebastian Koch muito bem como o médico Warnekros, o primeiro a entender os transexuais e fazer cirurgias de readequação genital.

Para quem ficou interessado pelo tema, assim como eu, recomendo a leitura de algumas perguntas e respostas sobre transgêneros e transexuais disponíveis aqui no site iGay.

The Danish Girl estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais de cinema. Em sua trajetória, até agora, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 63, incluindo quatro indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 10 premiações para Alicia Vikander como Melhor Atriz Coadjuvante, como “Performance Arrebatadora” de uma Atriz ou Atriz do Ano (prêmio que ela normalmente recebeu junto com a interpretação em outros filmes); e para um prêmio para Eddie Redmayne como Melhor Ator e outro para Tom Hooper como Melhor Diretor – além de um Queer Lion para ele no Festival de Cinema de Veneza.

Esta produção teria custado US$ 25 milhões e faturado, até ontem, dia 20 de janeiro, pouco mais de US$ 9,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 13 milhões. No total, quase US$ 22,2 milhões. Ou seja, ele está longe ainda de se pagar – levando em conta que qualquer estúdio gasta muito mais do que apenas os recursos para a produção do filme. É preciso adicionar ainda os gastos com distribuição e publicidade. The Danish Girl precisa melhorar o desempenho para conseguir pagar o investido.

The Danish Girl foi filmado em Copenhagem, na Dinamarca; em Bruxelas, na Bélgica; em Londres e Hertfordshire, no Reino Unido; em Vigra Island e em Mount Mannen, na Noruega; e em Berlim, na Alemanha. Diversos lugares, não? Sem dúvida uma boa parte do orçamento foi nestes deslocamentos da equipe e elenco.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. The Danish Girl é baseado no livro homônimo de David Ebershoff que, na verdade, recria de forma ficcional a vida de Einar Wegener/Lili Elbe. Ou seja, não se trata de uma biografia real. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relatos históricos apontam que Gerda Wegener era lésbica e que preferia a feminilidade de Lili do que a masculinidade de Einar. Além disso, eles teriam um relacionamento aberto e, quando o casamento deles terminou, cada um foi para um lado. Ou seja, uma história beeeeem diferente do filme. E, cá entre nós, que faz mais sentido. É bacana pensar em um amor de entrega tão grande quanto o que vemos de Gerda no filme, mas me parece que a história real é mais plausível.

Uma fonte mais fidedigna do que aconteceu com Einar/Lili está no livro Man into Woman, assinado por Niels Hoyer. Esse nome, Niels Hoyer, na verdade é o pseudônimo para Ernst Ludwig Hathorn Jacobson, editor de Lili que reuniu as cartas e o que ela escreveu em seu diário para que este material fosse transformado no livro autobiográfico. Este sim deve ser interessante de ler.

A verdadeira origem de Gerda Wegener não é americana e sim dinamarquesa. Gerda Gottlieb Wegener Porta nasceu no dia 15 de março de 1886 e faleceu no dia 28 de julho de 1940. Ela foi “tranformada” por Ebershoff em americana para agradar aos leitores dos Estados Unidos. A história real aponta para que Gerda era lésbica e tinha um relacionamento aberto com Einar/Lili. Na verdade, o relacionamento delas tinha mais a ver com o de irmãs do que de amantes ou cônjuges. No livro/filme Gerda aparece como uma esposa fiel que nunca deixou Lili. Bem, a história real não foi bem essa. Mais uma razão para eu deixar a nota do filme aonde ela está.

No início, Nicole Kidman queria estrelar e produzir o filme, com ela interpretando Einar/Lili. Para o papel de Gerda foram escaladas e depois pularam fora do projeto Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cotillard e Rachel Weisz. Tenho certeza que um projeto envolvendo Kidman e qualquer uma destas atrizes teria sido interessante mas, francamente, eu acho que foi muito mais justo com a história e interessante termos um homem passando pela experiência de Einar/Lili. Me parece muito mais lógico.

Einar/Lili não foi a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de redefinição de sexo, mas esteve entre as primeiras. Carla van Crist, Toni Ebel e Dorchen Ritcher tinham feito a cirurgia antes de Lili. Magnus Hirschfeld fundou em Berlim em 1919 o Instituto Sexual de Berlim, nos mesmos moldes do Instituto Kinsey. Os nazistas destruíram os arquivos do instituto em 1933, por isso não é possível saber exatamente quem foi a primeira pessoa a fazer a cirurgia de redefinição de sexo.

Os personagens de Hans Axgil e Henrik não existiram na vida real. Eles foram inventados pelo autor do romance (e, consequentemente, aparecem no filme). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O namorado de Lili quando ela morreu era um negociar de arte chamado Claude Lejeune, com quem ela esperava casar e ter um filho. Gerda também não estava perto de Lili quando ela morreu e sim estava casada com um oficial italiano chamado Fernando Porta. Ela se casou com ele em 1931 e os dois foram morar juntos na Itália. Dez anos depois, no Marrocos, Gerda soube da morte de Lili. Fernando Porta acabou com as economias da artista que, em 1936, resolveu se divorciar dele. Ela não teve filhos e não se casou novamente. Voltando para a Dinamarca, Gerda começou a beber muito e morreu pobre em 1940.

O casamento de Einar e Gerda durou 26 anos, entre os anos 1904 e 1930. Ele tinha 22 anos e ela 18 quando se casaram. Lili tinha 47 anos quando fez a cirurgia para redefinir o seu sexo e morreu aos 48 anos graças à rejeição de órgãos após fazer um transplante de útero. Gerda tinha 44 anos durante os eventos retratados no filme e morreu aos 54 anos vítima de um ataque cardíaco.

The Danish Girl inspirou mais pesquisas sobre o período retratado, assim como uma exposição das obras de Gerda que retratam Lili que será feita em Copenhage.

Dois atores transgêneros fazem duas super pontas neste filme. A atriz Rebecca Root interpreta a uma das enfermeiras de Lili e Jake Graf, um homem transgênero, faz uma ponta ao lado de Matthias Schoenaerts na galeria de arte em que estão sendo expostas as obras de Gerda.

No dia 23 de novembro a Casa Branca promoveu o evento Champions of Change em que foram homenageadas as pessoas por trás de The Danish Girl, Tangerine e da série Transparent.

Os quadros mostrados no filme são uma adaptação da obra de Gerda feitas pelo designer de produção Eve Stewart e pela artista britânica Susannah Brough. Não foram utilizada réplicas do trabalho de Gerda porque eles quiseram fazer quadros que parecessem com Redmayne e com Amber Heard.

Muitos estranharam (como eu) que Alicia Vikander foi nomeada como Melhor Atriz Coadjuvante. Isso porque ela acaba aparecendo mais até que Eddie Redmayne no filme. Mas há uma razão para isso: os produtores de The Danish Girl quiseram que ela fosse indicada a Melhor Atriz Coadjuvante porque acharam que ela teria mais chances de ganhar o Oscar. A atriz acabou não comentando esta polêmica.

O nome pós-transição adotado por Einar foi o de Ilse Elvenes. Quem deu o nome de Lili Elbe para ele foi a jornalista de Copenhagen Louise Lassen. Esta é uma de várias imprecisões da história de Einar.

No livro e na primeira versão do roteiro deste filme a personagem de Amber Heard era uma cantora de ópera chamada Anna Fonsmark. Mas no final, para o filme, a personagem passou a ser a bailarina Ulla Paulson. O personagem é inspirado em duas amigas de Einar: a atriz dinamarquesa Anna Larssen Bjorner e a bailarina do mesmo país Ulla Poulsen Skou.

Outra fantasia que não tem a ver com a história real. Lili e Gerda se mudaram para Paris em 1912 – detalhe que o filme começa em 1926. Paris foi uma cidade bastante liberal nos anos 1910 e 1920 e, justamente por isso, as duas se mudaram para lá. Na capital francesa Gerda vivia abertamente como lésbica. Por isso mesmo a cena em que Einar é espancado por dois homens em Paris não teria acontecido realmente.

Um fato interessante que foi deixado fora do roteiro do filme – assim como o transplante de útero que matou Lili e que foi a quinta cirurgia dela: o terceiro médico que ela consultou a diagnosticou como intersexual e afirmou que ela teria órgãos sexuais femininos rudimentares. As análises hormonais feitas pouco antes da primeira cirurgia dela indicaram que ela tinha mais hormônios femininos que masculinos no corpo – o que sugere que ela tivesse o cromossomo XXY, da Síndrome de Klinefelter, algo que seria reconhecido pela Medicina apenas a partir de 1942.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos, a Bélgica, a Dinamarca e a Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Provavelmente uma das menores notas entre os filmes indicados ao Oscar 2016. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 118 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,6. Também uma das avaliações mais baixas entre os filmes bem cotados nesta sequência de premiações em Hollywood.

CONCLUSÃO: Uma grande, imensa história de amor, e um filme que fala sobre a coragem de alguém que resolve assumir a sua própria identidade, mesmo que ela afronte o que a sociedade considere natural. The Danish Girl é um filme corajoso e duro, mas importante. Ele questiona a nossa própria capacidade de entender o que é diferente. Não é exatamente fácil assisti-lo. Mas isso pouco importa. Com grandes atuações e uma direção sensível e cuidadosa, é um belo filme na aparência e na mensagem.  E as premiações que deram destaque para ele até agora, como o Oscar, estão de parabéns por colocar um título tão diferente em evidência. Importante.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Danish Girl está concorrendo em quatro categorias da premiação máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Design de Produção e Melhor Figurino.

A melhor chance do filme, me parece, está na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander enfrenta Kate Winslet, que já foi premiada por Steve Jobs, e Rooney Mara, que está espetacular também em Carol (comentado aqui). Francamente, se eu votasse no Oscar, eu ficaria em dúvida entre Vikander e Mara. São interpretações com tonalidades muito diferentes, mas acha que as duas estão impecáveis. Não assisti ainda a Winslet. Preciso ver Steve Jobs para opinar definitivamente sobre esta categoria.

O ator Eddie Redmayne está ótimo, mais uma vez, nesta produção, mas ele tem um páreo duríssimo ao concorrer com Leonardo DiCaprio. O favorito é o protagonista de The Revenant (com crítica neste link). Redmayne só leva a estatueta para casa se a Academia demonstrar, mais uma vez, que tem bronca com DiCaprio.

Agora, as duas indicações técnicas do filme. Na categoria Melhor Figurino The Danish Girl tem uma parada dura. Para mim, o favorito nesta categoria é Mad Max: Fury Road (comentado aqui), seguido de Cinderella e de Carol. Como não assisti a Cinderella, pessoalmente o meu voto iria para Carol, mas acho que Mad Max: Fury Road pode faturar. The Danish Girl corre um pouco por fora.

A categoria Melhor Design de Produção também está bem concorrida. The Danish Girl e Bridge of Spies concorrem por fora, com a decisão nesta categoria tendo Mad Max: Fury Road, The Revenant e The Martian (com crítica aqui) como as produções que estão se digladiando pela estatueta. Pessoalmente, eu ficaria dividida entre Mad Max e The Martian. Ou seja, The Danish Girl tem sérias chances de não levar nenhuma estatueta para casa. As melhores chances, se for levar algo, estão nas categorias dos atores. Veremos.

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Les Misérables – Os Miseráveis

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Me perdoem, mas vou começar este texto dizendo algo óbvio. Os clássicos são chamados clássicos por uma boa razão. E esta boa razão se chama qualidade extrema. Na escola, eu lembro, crianças e jovens têm preguiça de ler os clássicos. Muitas vezes, de fato, porque eles são difíceis. Por isso mesmo, é sempre um prazer quando alguém como o diretor Tom Hooper resolve resgatar um clássico e jogá-lo nos cinemas, utilizando uma linguagem muito mais acessível. Les Misérables é uma produção intocável. E que me surpreendeu. Admito que, no início, eu estava com um pouco de “preguiça” de assistir a um musical adaptado da obra de Victor Hugo. Achei que poderia ficar pedante demais. Mas que fantástico presente! Quebre qualquer preconceito que você puder ter com musicais. Vai valer a pena.

A HISTÓRIA: Uma bandeira tremula na água. O ano é 1815, exatamente 26 anos após o início da Revolução Francesa. Novamente a França tem um rei ocupando o seu trono. Um navio de guerra retorna para o porto e é puxado por dezenas de homens com grossas cordas. Eles são prisioneiros. Entre eles, Jean Valjean (Hugh Jackman). O grupo canta a sua pobreza, com ódio na voz, e são observados pelo policial Javert (Russell Crowe). Depois de ajudar a puxar o navio, Valjean é convocado por Javert a pegar o mastro com a bandeira francesa. E recebe a notícia que está saindo em condicional. Mas que terá que carregar uma carta que lhe apresenta como um homem perigoso. Uma condenação para o resto da vida. Livre, contudo, Valjean recebe uma única oportunidade de recomeçar a vida, e acaba escolhendo este caminho, que significa ignorar o próprio nome, para tentar trilhar um caminho distinto do que aquela carta de condicional lhe determinava.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Miseràbles): Para gostar deste filme, em primeiro lugar, é preciso aceitar algo que nem sempre as pessoas parecem estar dispostas a aceitar: de que todos nós somos falhos. É estranho ouvir Russell Crowe em um musical? Certamente. Ele parece sofrer para cantar? Um pouco. Mas nem esta primeira constatação, logo no início do filme, e nem a mesma constatação feita com outros atores que, diferente de Hugh Jackman e Anne Hathaway são menos afeitos a cantar, diminuem a força dramática desta história e as suas várias qualidades.

Logo que terminei de assistir a Les Misérables, eu sabia que deveria dar uma nota muito alta para ele. Talvez, até, a máxima. De verdade, fiquei emocionada com a entrega da equipe envolvida e, evidentemente, com o respeito deles com a obra máxima de Victor Hugo. E que obra! Há muito tempo eu não chegava perto deste clássico e de toda a sua profundidade. E esta leitura, com levada muito popular, rejuvenesceu a tão examinada história de Jean Valjean.

Sou da opinião, e a cada dia mais, que as pessoas devem abandonar os preciosismos. Deixar para lá um pouco da “erudição” e do apego ao original, como se ele fosse imutável – quando toda obra carrega, em sua própria essência, a capacidade de ser mutável -, para “abrir a mente” para as releituras. Claro que não defendo as adaptações que violentam o original. Mas este não é o caso deste Les Misérables. A essência do original está toda aqui. Mas vestida de uma roupagem para este século 21 que se parece, em muito, com a parte final do século anterior.

Sendo assim, e voltando um parágrafo, comento que eu sabia, logo depois de terminar de ver a este filme, que lhe daria uma nota muito boa. Primeiro, porque Les Misérables tem um cuidado com os aspectos técnicos irretocável. É um filme que investe nos detalhes, desde o trabalho do ator, os figurinos, direção de fotografia, até os efeitos visuais e especiais. Depois, porque o roteiro respeita a essência do original. E finalmente, porque ele inova ao investir na dramaticidade da música para supervalorizar o lado afetivo do original sem torná-lo piegas.

Ainda que eu tivesse uma nota em mente, resolvi dar uma olhada nas avaliações dos usuários dos sites IMDb e Rotten Tomatoes. Como vocês, meus caros leitores, sabem que eu sempre faço. E como em qualquer outra crítica, não tive a minha nota modificada por estas análises. Mas admito que fiquei surpresa ao ver que, desta vez, mais que em outras, minhas impressões não acompanhavam a da maioria.

Observei muitas críticas pesadas para este filme. E daí notei o seguinte: Les Misérables é, provavelmente, a produção mais “ame ou odeie” que está concorrendo ao Oscar deste ano. Basta olhar as críticas espalhadas por aí. Muita gente não gostou desta produção porque um ou outro ator não sabe cantar. Ou porque eles não cantam tão bem assim. Ah, convenhamos. De fato isto é o mais importante?

Sim, como eu disse antes, Russell Crowe não parece totalmente à vontade cantando. Por isso mesmo, desde a primeira vez que ele aparece em cena, ele parece “comedido”. Melhor para ele. Se você não tem potência vocal e/ou não se sente tão confiante cantando, se comparado com outros colegas, melhor fazer a sua parte dentro de certas limitações.

Da minha parte, como alguém sem preconceitos, acho que vale se lançar para assistir a um filme sem a postura primária de que musicais são chatos, de que alguém vai cantar mal, e de que clássicos estão vencidos. Até porque sempre busco o mais importante de um filme: ele convence? Ele me emocionou? Ele pareceu legítimo em sua proposta?

Pois eu acho que Les Misérables consegue, sim, emocionar. Ele convence com a história de Jean Valjean e de uma França que se decepcionou com a Revolução Francesa. Esta produção, além disto, também parece legítima em sua proposta de revisitar um clássico e vestí-lo com nova roupagem. Para o meu gosto, tudo funcionou bem nesta produção. Com uma pequena ressalva: o estereótipo irritante do casal Thénardier, interpretado pela dupla Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter.

Certo, é evidente que os Thénardier são os personagens com maior levada estereotipada de Les Misérables. Que eles são mesmo caricatos, e tudo o mais. Na primeira aparição de Cohen e Carter, não me irritei com a caricatura deles. Mas depois… Tom Hooper teria nos poupado de uma certa e restrita chatice da história se tivesse diminuído a participação dos dois atores na trama. Para mim, Cohen não consegue deixar para traz Borat, e Carter lembra sempre uma personagem qualquer de Tim Burton. Eles são a parte frágil do filme, e me impedem de dar a nota máxima para esta produção.

Porque, para o meu gosto, Les Misérables funciona muito bem, exceto pelos excessos de Cohen e Carter. Além das qualidades já comentadas, achei impressionante a entrega dos atores. Eles emocionam, assim como a história. E agora, voltemos ao início desta crítica. Les Misérables trata de algo fundamental: a compreensão de que todos nós somos falhos. O grande embate entre Valjean e Javert está de que o segundo se acha totalmente cheio de moral. Em certo momento, ele fala que veio da mesma origem de Valjean… não completa a sua linha de pensamento, mas fica evidente que ele se acha superior.

Afinal, apesar de vir da mesma origem ordinária e carente, Javert seguiu “o caminho da lei”, venceu os desafios da vida e trilhou “o caminho certo”, enquanto Valjean roubou alguns pães para dar para a irmã e o filho dela que estavam com fome. Este pensamento de Javert é o mesmo de 99% das pessoas, talvez. Essa massa de gente que, muitas vezes, quando há uma matéria de polícia, argumenta que “bandido bom é bandido morto”, e que esta história de direitos humanos é uma grande bobagem, já que os “bandidos” não tem esta mesma postura ao fazer as suas vítimas.

Quanta dureza de princípios, não? Eis, para mim, o último grau de desumanização. Para estas pessoas que defendem a pena capital, não importa o ser humano e suas histórias. O importante são os números. X bandidos mortos é o que interessa. Quantos mais, melhor. Mas será mesmo que cada um de nós estamos isentos de dúvida? Quanto tempo você já gastou para refletir como seria a sua vida se você não tivesse nascido no local em que você nasceu? No berço da família da qual vieste? E se você tivesse nascido em outra parte, com uma família muito diferente?

Não quero relativizar tudo e dizer que todos os “bandidos” tem as suas justificativas e que são todos “tadinhos”. Mas peço calma em qualquer andor. Les Misérables é uma história tão incrível porque nos fala sobre estas coisas… de como a sociedade pode excluir as pessoas, tirarem as suas oportunidades de desenvolverem os seus próprios potenciais. De como o coletivo pode estigmatizar e interromper vidas que poderiam ser produtivas e maravilhosas.

Vide Valjean. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De fato, e muitos devem ter tido uma reação impressionante quando, na primeira oportunidade, ele sai roubando ao Bispo (Colm Wilkinson) que lhe ajudou, ele erra feio ao seguir bandido logo que tem a chance de escolher que caminho seguir. Mas daí, e eu também fiquei indignada a princípio, vem a história para nos dar o primeiro tapa na cara.

Quanto do que fazemos e do que tantas pessoas fazem é por automatismo? Valjean, até aquele momento, estava acostumado a que? Depois de 19 anos preso, penando como um diabo, ele sai da detenção e é tratado como um cachorro. Em seu íntimo, tudo que ele tinha era raiva e revolta. De forma automática, ele segue sendo um marginal – à margem da sociedade. Até que, para surpresa geral – especialmente dele -, ele recebe um segundo gesto seguido de ajuda. É perdoado e incentivado a recomeçar a vida. E este gesto solene de generosidade chega fundo ao coração endurecido de Valjean.

Quantos de nós não sentimos o coração sendo endurecido com o passar do tempo, depois de ter recebido tantos golpes? Um certo Renato Russo, certo, dia, cantou: “… não vou me deixar embrutecer/ eu acredito nos meus ideais/ Podem até maltratar o meu coração/ que o meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”. Certo, mas quantas pessoas se mantém fortes apesar dos golpes? Conseguem manter a suavidade, apesar de tantos golpes para que se tornem brutas?

Valjean aprende com o gesto do Bispo e muda a sua vida para sempre. Ganha uma oportunidade de recomeçar que 99% dos presos libertos do nosso país não recebem. Com apenas um candelabro de prata – perto da morte percebemos que ele ainda preserva o outro -, ele multiplica os recursos, vira um homem de negócios, dá oportunidade de emprega para muitas pessoas e se torna um homem respeitado pela sociedade.

Até que Javert volta a lhe assombrar. E ele estará perseguindo o personagem até o final. Porque os dois são a mesma pessoa, apesar da sociedade vê-los de forma tão diferente. E eis uma das forças deste clássico de Victor Hugo. Nos mostrar que papéis contrários da mesma sociedade podem ser, mais que nada, duas faces da mesma moeda. Javert não suporta “ficar devendo” nada para o homem que ele abomina porque, no fim das contas, é incapaz de perceber que eles são tão parecidos. Por ter sido um homem “da lei” a vida toda, Javert não era melhor que Valjean. Pelo contrário. Já que Valjean foi capaz de se arriscar mais de uma vez pela vida de outra pessoa. Foi capaz de amar e de se doar sem esperar nada em troca. Enquanto Javert apenas “cumpria o seu dever”. E quem tem mais mérito: aquele que faz algo por obrigação, porque assim lhe cobra o “dever”, ou aquele que se doa por livre e expontânea vontade?

Um filme que trata de todas estas coisas já é algo fora do comum. E por isso mesmo, merece ser visto. Porque faz pensar, porque emociona. Mas além disso, Les Misérables trata sobre o espírito da mudança. Aborda a força inspirada de uma França que nunca desistiu de lutar por liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo que estes ideiais não tenham sido vitoriosos após a Revolução Francesa, eles perduram. No tempo. Passam gerações, vencem fronteiras. Seguem inspirando.

Mas nem por isso, deixa de valer a crítica de que os anos seguintes à Revolução não trouxeram melhora para o povo. Que seguiu cada vez mais miserável. E que um certo levante não chegou a ser popular, mas apenas serviu de tema para registros históricos de uma covardia que aconteceu e se repete em diferentes sociedades até hoje. Mesmo que transfigurada com outras roupagens.

Enquanto Les Misérables trata destes e de outros temas tão magnifícos e raros, há quem se apegue apenas a uma falta de musicalidade de um ou outro ator. Que pena. Mas a história está lá. Nos mostrando como uma pessoa nunca é apenas um determinado personagem. Um ladrão não precisa ser, sempre, um ladrão. Um homem da lei, idem. Cada pessoa é responsável por suas próprias escolhas, e elas nos determinam. O mágico da vida é que esta reinvenção é constante. Só não muda quem não quer – ou acha que não precisa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Les Misérables teve a sua premiere no dia 5 de dezembro, em Londres. Depois desta data, pouco a pouco, ele foi sendo lançado nos mercados de diferentes países. Até o momento, a produção está confirmada para participar de apenas um festival, o de Belgrado, no dia 23 de fevereiro.

Como comentei antes, este filme é todo bem acabado. Além do ótimo trabalho dos atores – um melhores que outros -, vale destacar alguns aspectos técnicos da produção. Começando pela ótima direção de Tom Hooper. O diretor inglês consegue, ao mesmo tempo, explorar belos cenários da França do século 19, os detalhes dramáticos das interpretações de seus principais atores, e a convulsão social/divisão de classes tão explorada pela obra de Victor Hugo. Hooper se utiliza de um jogo de câmeras importante, dando ritmo visual para a produção, em sintonia com a música. Tudo deve fluir nesta produção, e ele consegue fazer com que isso aconteça na prática.

Para ajudar Hooper neste processo, é fundamental o trabalho do diretor de fotografia Danny Cohen. Ele faz um trabalho impecável, tanto nas cenas abertas, com muitos figurantes ou com ajuda de efeitos especiais, quanto e, principalmente, nos planos mais dramáticos com os atores principais em interpretações solitárias. Muito bom o trabalho da dupla de editores Chris Dickens e Melanie Oliver. Eles são peças-chave para que o diretor consiga dar o ritmo adequado para as cenas.

E depois, vem a turma responsável pela linguagem visual desta produção. Merecem ser elogiados os trabalhos da designer de produção Eve Stewart; a direção de arte da equipe Hannah Moseley, Grant Armstrong, Gary Jopling e Su Whitaker; os figurinos de Paco Delgado, bárbaros; a decoração de set de uma equipe de nove profissionais; o departamento de arte, que faz um trabalho impressionante; os efeitos especiais da equipe de James Davis III; os efeitos visuais da equipe de Sandra Chocholska, Edson Williams e Thomas Nittmann; e a ótima maquiagem da equipe comandada por Audrey Doyle, Nikita Rae e Malwina Suwinska.

Como qualquer musical exige, a trilha sonora e todos os demais aspectos sonoros desta produção são impecáveis. Claro, alguns atores como Russell Crowe, Eddie Redmayne e até Amanda Seyfried não se saem tão bem cantando quanto outros nomes da produção, mas isso não impede que o filme funcione bem na parte musical. Vale, portanto, elogiar o departamento de som desta produção, assim como o departamento musical comandado por Claude-Michel Schönberg, com direção musical de Stephen Brooker.

Les Misérables tem roteiro de William Nicholson, Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, já que é uma adaptação do musical homônomo baseado na obra original de Victor Hugo. Segundo os próprios produtores deste filme, ele segue o musical que já foi assistido por mais de 60 milhões de pessoas em teatros de 42 países e adaptado para 21 idiomas. Há 27 anos o musical está em cartaz perigrinando por diferentes nações. Segundo os produtores, Les Misérables é o musical há mais tempo em cartaz no mundo.

Tiro o meu chapéu para Hugh Jackman. Ele faz, em Les Misérables, um de seus grandes papéis até hoje. Grande interpretação, digna de prêmios. Os demais atores são coadjuvantes. Ainda assim, impressiona a interpretação de Anne Hathaway, que rouba a cena como Fantine. Amanda Seyfried está bem como Cosette, assim como Isabelle Allen, que interpreta a personagem quando criança. Pena que Seyfried, por mais carismática que ela seja, não consiga se destacar tanto quanto Hathaway e nem cantar como ela. O mesmo se pode dizer de Eddie Redmayne, que perde na comparação com Jackman tanto na interpretação quanto ao cantar.

Dos atores secundários, vale destacar o trabalho de Samantha Barks como Éponine, a jovem apaixonada por Marius e que, mesmo assim, tem uma postura correta e não canalha com Cosette; o jovem Daniel Huttlestone como Gavroche, o menino emblemático da história; e Aaron Tveit como Enjolras, o líder dos revolucionários.

Les Misérables teria custado cerca de US$ 61 milhões. Até o momento, o filme faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 137,5 milhões. Nada mal para um musical – ainda mais baseado em um clássico.

Esta produção foi totalmente rodada no Inglaterra, em cidades como Winchester, Kettering, Kent e Londres.

Uma curiosidade sobre esta produção: Paul Bettany havia sido considerado para o papel de Javert antes de Russell Crowe. Talvez ele tivesse se saído melhor. Para o papel de Fantine, foram consideradas as atrizes Amy Adams, Jessica Biel, Marion Cotillard, Katie Winslet e Rebecca Hall. Geoffrey Rush, que interpretou a Javert na versão de Les Misérables para o teatro, foi considerado para o papel de Monsier Thenardier.

Inicialmente, Les Misérables teria quatro horas de duração. Ainda bem que fizeram uma versão bem mais curta.

Até o momento, Les Misérables recebeu 31 prêmios e foi indicado para outros 79, além de ter recebido oito indicações para o Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para dois como o Filme do Ano no AFI Awards; para os Globos de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Hugh Jackman, e Melhor Música para Suddenly; Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway no Screen Actors Guild; além de figurar no Top Films da National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Les Misérables. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 150 textos positivos e 65 negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média 7. A pior nota entre os filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano.

CONCLUSÃO: Uma história emocionante, adaptada de um clássico. E que da forma com que foi adaptada, faz refletir sobre vários valores e posturas que seguem válidas e, me arrisco a dizer, seguirão válidas enquanto existir a humanidade. Les Misérables provavelmente não vai agradar a todos. Primeiro, porque não é qualquer um que tem paciência para os musicais. Assim como nem todos tem paciência com os clássicos. Junte ambos, musical e clássico, e terás muitos insatisfeitos. Mas com a ousadia de adaptar o texto de Victor Hugo para o formato musical, o drama dos personagens deste clássico são colocados em negrito e sublinhado. Les Misérables nos fala, com estes tons dramáticos ressaltados pela música, da fantástica capacidade humana da reinvenção. E de como o amor pode ter um papel fundamental neste processo. Com uma produção impecável, um trabalho apaixonado do diretor e de seus comandados, Les Misérables é um dos belos filmes desta safra. Desde que você ignore seus pequenos pecados.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Les Misérables recebeu o mesmo número de indicadores que o recentemente comentado por aqui, Silver Linings Playbook. Mas diferente do filme de David O. Russell, de fato eu acho que a produção de Tom Hooper mereceu cada uma de suas indicações.

Curioso que Les Misérables concorre, basicamente, em categorias técnicas, mas foi ignorado em Melhor Roteiro Adaptado. Não que uma produção que, como ele, concorre como Melhor Filme do ano precise estar, obrigatoriamente, indicada como roteiro. Mas é estranho ele não estar ali. Assim como Hooper ter ficado de fora da lista de Melhor Diretor.

Então o que sobrou para Les Misérables? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Canção Original para Suddenly, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som e, finalmente, Melhor Filme, Melhor Ator para Hugh Jackman e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway.

Mesmo não tendo assistido a todos os filmes que estão concorrendo com Les Misérables, não seria uma surpresa ver ele ganhando em algumas destas categorias. Principalmente nas de Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som e, quem sabe, até como Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway. De fato, ela merece. Se o filme ganhar nestas categorias – Melhor Ator parece ser uma barbada para Daniel Day-Lewis -, ele terá conseguido quatro ou cinco Oscar’s. E deve estar satisfeito com isso.

Francamente, apesar de saber que Day-Lewis é o favorito e que, de fato, ele ganhando não será uma injustiça, mas eu prefiro a Hugh Jackman. Acho que ele, como Anne Hathaway, tiveram uma entrega muito maior para os seus papéis.

Independente das expectativas, claro que acidentes de percurso sempre acontecem. E Les Misérables pode sair de mãos vazias. Pode ocorrer. Mas acredito que não. Até porque seria uma boa injustiça.

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The King’s Speech – O Discurso do Rei

Os bastidores de um dos discursos mais emocionantes e importantes da história. O que seria de um rei se ele fosse mudo? The King’s Speech conta a fascinante, surpreendente e interessante história da chegada do Rei George VI ao poder. Mais que isso, a sua luta em conseguir comunicar-se com as pessoas e, através de suas palavras, inspirar uma nação. Este é um destes filmes que surpreende pelo ineditismo da história, pela condução feita pelo diretor, pelas interpretações e pelo cuidado que todos os envolvidos na produção tiveram com os detalhes. Não por acaso o filme vem colecionando prêmios e é um dos grandes cotados para o Oscar deste ano. Ele enfrenta o até há pouco considerado imbatível The Social Network. Provavelmente ele continua sendo o Davi da história. Mas quem sabe, mais uma vez, o mais forte da história não poderá sair perdendo para o mais fraco? Ainda que, cá entre nós, The King’s Speech ter a força da Weinstein Company como distribuidora do filme nos Estados Unidos não o transforma, exatamente, em um concorrente fraco. Pelo contrário.

A HISTÓRIA: Começa em 1925, quando o Rei George V era responsável por um território que equivalia a um quarto do mundo. Naquele ano, o Rei pediu a seu segundo filho, o Duque de York, para que ele fizesse o discurso de encerramento da tradicional Exibição do Império, em Wembley, Londres. Equipamentos à postos, uma multidão à espera do discurso, e o Duque de York (Colin Firth) repassa, silenciosamente, as palavras que deverá falar para este grande público em seguida. Ao seu lado, Elizabeth (Helena Bonham Carter) tenta acalmar o marido. Após uma extensa preparação do locutor, o Duque aparece em cena e, gaguejando, consegue falar apenas algumas palavras. O desastre comprova o que todos já sabiam: um dos herdeiros do Rei não consegue comunicar-se com as pessoas fora do ambiente privado e familiar. Cansado de procurar soluções para o seu problema, o Duque de York ordena que a mulher pare de buscar alternativas. Mas ela encontra uma pessoa que poderá ajudá-lo: Lionel Logue (Geoffrey Rush), um civil com um método nada ortodoxo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The King’s Speech): Poucas vezes a intimidade de um rei e de sua família foi tão maravilhosamente desnudada quanto nesta produção. O Rei não está morto, viva o Rei! Mas o que acontece com o seu substituto, quando ele não consegue comunicar-se com as pessoas de forma adequada? O discurso pausado do Rei George VI, o primeiro depois que a Inglaterra entrou em guerra contra a Alemanha, parecia ser justificado pela gravidade daquele momento. Mas não. The King’s Speech revela os bastidores daquele discurso e, principalmente, desnuda a intimidade da realeza inglesa antes daquele episódio.

O primeiro grande acerto do diretor Tom Hooper foi o de buscar os ângulos mais sugestivos para cada cena. Assim como Orson Welles ensinou no clássico dos clássicos Citizen Kane, Hooper utiliza a câmera para mostrar profundidade de sentimentos, isolamento do personagem principal, seus sentimentos de pequenez e mesmo a “plasticidade” de momentos um tanto hilários como os preparativos de um discurso. Hooper acerta na técnica, transformando um filme que poderia ter uma narrativa simples, linear, em um apanhado de cenas bem estruturadas e planejadas para despertar nos espectadores o devido sentimento de compaixão com o protagonista.

Se o diretor acerta na escolha de cada cena, sempre privilegiando o desempenho do elenco e os detalhes de suas interpretações, o que dizer do roteiro de David Seidler? Simplesmente brilhante. O autor consegue, com precisão, equilibrar o drama com o humor, com uma certa carga de suspense e de intriga na história. Os bastidores da realeza são desnudados com precisão e talento. Mas mais que isso, Seidler consegue tornar todos os personagens reais. Ou, em outras palavras, traça as suas personalidades como são as personalidade de todas as pessoas: ambíguas, incertas, capazes de gestos de nobreza, de egoísmo, de dúvida e de coragem.

O protagonista desta história, interpretado de maneira soberba por Colin Firth, claramente não sabe o seu “papel no mundo”. Ele parece estar em permanente dúvida ou conflito com duas de suas facetas: do garoto que sempre foi desprezado e caçoado pela gagueira na própria família, carente de afeto e alvo de maus tratos de pessoas subalternas; e do homem que sabe de seu potencial, conhece a responsabilidade de um líder e sabe que é a melhor opção da família na sucessão do patriarca. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Especialmente interessante como Lionel Logue e nós, espectadores desta história, percebemos esta dualidade do personagem principal e, mais que isso, por trás do temor do protagonista em falhar, percebemos uma convicção e ambição inconfundíveis. Firth é brilhante em mostrar fragilidade e firmeza ao mesmo tempo, assim como o roteirista em escrever as suas linhas com precisão – nada sobra nesta história.

Algo fundamental no cinema é a criação de uma aura de empatia entre o espectador e o personagem que se vê na tela. Em alguns casos, esta empatia não é criada em relação ao protagonista. Mas no caso deste filme, ainda que outros personagens também possam despertar este sentimento, sem dúvida o foco está no personagem de Colin Firth. Ele é o centro da história. Tanto que a câmera está preocupada, a todo momento, em narrar os acontecimentos por sua ótica – ou, quando isso não é possível, ela se ocupa em registrar os detalhes de seus gestos e reações.

Além de um roteiro equilibrado e inteligente, The King’s Speech consegue, como poucos filmes anteriores conseguiram, nos transportar para o ambiente anterior à Segunda Guerra Mundial com naturalidade. Há cenas que mostram as ruas de Londres, alguns costumes daquela época – perto ou longe da realeza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há momentos de humor simples e outros de fina ironia. Como quando o Duque de York assiste a um pequeno trecho do discurso de Hitler e percebe que a comunicação é um elemento fundamental para qualquer governo, atividade profissional ou sociedade. E ele, justamente ele, um dos grandes contrapontos à loucura de Hitler, com aquela dificuldade gigante em conseguir falar para o público.

Além de desnudar as relações conflituosas da família real inglesa, The King’s Speech trata de um tema fundamental: a comunicação como elemento fundamental para as sociedades – especialmente as modernas. Mais do que nunca, citando o Chacrinha, quem não se comunica, se estrumbica. E houve momentos na história – e ainda os há – em que isto foi e é especialmente verdadeiro. Aqui temos a narrativa curiosa e saborosa de um destes momentos. Um grande filme, pelo conjunto da obra e pelo diferencial de alguns aspectos, como as interpretações fantásticas do trio de atores principal, a trilha sonora saborosa, a direção mais que precisa e sugestiva e um roteiro que insere novos elementos em um gênero já conhecido. E depois dizem que não é mais possível criar, apenas copiar, na arte. Aqui, mais um exemplo de que é possível sim trazer novidades para terrenos já conhecidos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis aqui mais um exemplo de como um grande filme não precisa custar uma barbaridade. Mesmo com todo o cuidado com vestuário, cenários, objetos, carros e demais elementos utilizados para transportar o espectador para as duas e três primeiras décadas do século passado, The King’s Speech custou aproximadamente US$ 15 milhões. Pouco, comparado com outros filmes produzidos no ano passado – alguns deles concorrentes desta produção no Oscar. Com o burburinho causado pelas 12 indicações do filme para o Oscar e com os elogios e prêmios que ele vinha recebendo antes destas indicações, The King’s Speech está acumulando lucro. Até o dia 30 de janeiro ele havia alcançado pouco mais de US$ 72,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Desde já, um sucesso comercial.

Falando em premiações, até o momento, The King’s Speech ganhou 16 prêmios e recebeu outras 73 indicações. Um numero impressionante, devo dizer. Além disso, esta foi a produção que mais recebeu indicações no Oscar. Dos 16 prêmios que recebeu até o momento, 10 foram para o ator Colin Firth. Por isso mesmo ele é o grande favorito para receber o Oscar de Melhor Ator. Outros prêmios importantes conquistados pela produção foram o de Melhor Filme entregue pela Sociedade dos Críticos de Cinema de Phoenix; o de Melhor Ator Coadjuvante para Geoffrey Rush pela Associação de Críticos de Cinema de Central Ohio; e os de Melhor Filme Britânico Independente, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (Rush) e Melhor Atriz Coadjuvante (Helena Bonham Carter) no British Independent Film Awards. Entre os prêmios que recebeu, é importante citar, Colin Firth levou o Globo de Ouro como Melhor Ator – Drama.

The King’s Speech estrou no dia 6 de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, passou por outros oito festivais – nenhum de grande importância, com exceção dos festivais de Toronto e de Londres. A produção estreou no circuito comercial dos Estados Unidos apenas no final de dezembro.

Além dos atores principais já citados, todos perfeitos em suas interpretações, vale a pena mencionar o trabalho de Derek Jacobi como o Arcebispo Cosmo Lang; de Jennifer Ehle como a esposa de Lionel, Myrtle Logue; de Freya Wilson como a Princesa Elizabeth e de Ramona Marquez como a Princesa Margaret; de Michael Gambon como o Rei George V; de Guy Pearce como o Rei Edward VIII; de Claire Bloom como a Rainha Mary; e de Timothy Spall como Winston Churchill.

Na parte técnica, além da direção impecável de Tom Hooper, me impressionou a trilha sonora de Alexandre Desplat. Nem muito rebuscada, nem muito ousada. Apenas, precisa. E envolvente. Depois, a direção de fotografia ajustada de Danny Cohen. E, claro, por ser um filme de época, todos os elementos que compõe uma produção assim ajustados e funcionando em sincronia, do figurino de Jenny Beavan até o design de produção de Eve Stewart, a direção de arte de Netty Chapman e decoração de set de Judy Farr.

Uma curiosidade sobre a produção: o ator Derek Jacobi interpretou, em 1976, um governante com problemas na fala na minissérie I, Claudius. Ele também interpretou a Alan Turing, um homem que era gago e que teve um papel importante pelo lado dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial em uma peça da Broadway e em um filme.

Outro dado interessante: o roteirista, David Seidler, sofreu por ser gago quando era criança. Adulto, ao ouvir o discurso em tom “infantil” do Rei George VI, ele percebeu que aquele era um efeito da fala de um homem gago. Seidler então escreveu para a Rainha pedindo permissão para escrever um roteiro sobre a história do Rei. A Rainha pediu que ele não fizesse isso enquanto ela estivesse viva, porque as memórias que ele citaria ainda eram muito dolorosas. Ele respeito este pedido.

Em várias ocasiões, durante a história, Lionel proíbe o Rei de fumar. De fato, naquela época, o consumo de cigarro foi às alturas como “solução” para o estresse dos tempos pós e pré-guerra. Mesmo com todos os alertas, o Rei George VI continuo fumando e morreu, vítima de um câncer de pulmão, em fevereiro de 1952. Sua filha, Elizabeth II, só assumiria o poder no ano seguinte.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para The King’s Speech. Uma nota boa, para a média do site, mas ainda um pouco baixa para o meu gosto. Os críticos que tem seus textos linkados no site Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 178 críticas positivas e apenas nove negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% dos críticos e uma nota média de 8,6.

Agora, minha opinião sobre o elenco: ainda que todos estejam muito bem, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter lembram a eles mesmos em outras interpretações ou, o que é o mesmo, eles parecem continuar interpretando alguns de seus personagens anteriores. Mas isso não acontece com Colin Firth. Ele consegue aqui um desempenho inédito, diferenciado. Por isso mesmo merece os prêmios que tem recebido e, caso eu votasse, teria o meu voto no Oscar. 🙂

Hoje, com mais tempo, fui colocar os links nos nomes que aparecem nesta crítica e fui me informar um pouco mais sobre o Rei George VI e os burburinhos e comentários sobre o filme. Encontrei neste link, com matéria da BBC, um interessante relato sobre o dia da morte do Rei, em 1952, que deixou todo o Reino Unido chocado. Bastante interessante.

Encontrei também uma matéria que dizia que a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, teria assistido ao filme e gostado do retrato que foi feito de seu pai. Ela teria classificado a história como “muito próxima da realidade” e se divertido com as cenas mais descontraídas. A Rainha teria achado o filme “tocante e agradável”.

Nesta matéria da Veja, uma campanha nos bastidores do Oscar que poderá selar o fracasso do filme na disputa. Estaria circulando um e-mail entre os votantes da Academia que ressalta os documentos e os rumores de que George VI e seu irmão, Edward VIII, seriam antisemitas e, até um certo ponto, simpatizantes de Hitler. Se estes argumentos pegarem, em um ambiente em que existem muitos judeus, certamente o filme será prejudicado.

CONCLUSÃO: Emoção, disputas, formalidades, quebra de decoro, bastidores do poder. The King’s Speech nos transporta para a Inglaterra nos anos que precederam a Segunda Guerra Mundial para desvelar parte da intimidade da família real inglesa e para nos fazer refletir sobre o poder e a importância da comunicação. Equilibrando drama, comédia, grandes interpretações, um roteiro e uma direção que trabalham em permanente busca pelo caráter humano e simbólico dos fatos, The King’s Speech serve de exemplo de como o cinema está sempre em um processo de reinvenção. Utilizando cuidados estéticos conhecidos desde o clássico Citizen Kane, mas com o cuidado de popularizar a história ao despertar a empatia do espectador com a vida do protagonista, este filme cumpre o seu papel com esmero. Desvela os problemas e disputas de uma família tradicional e poderosa, tornando claros os bastidores do poder e o papel figurativo que compete aos reis a partir do século 20. Ainda assim, mesmo sem poder de decisão, estes personagens reais inspiram os seus povos e criam fascínio pelo mundo. Neste filme, ganhamos uma lupa para acompanhar, em detalhes, as fraquezas, a coragem e a bravura de alguns de seus integrantes. Um filme saboroso e bem acabado em cada elemento. Merecedor dos prêmios e indicações que tem recebido. Sim, o Rei está nu. E a desmistificação dele é o que torna esta produção tão interessante.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: A mais badalada e principal premiação de Hollywood leva em conta a qualidade e os méritos dos nomes que estão disputando suas estatuetas. Mas, como ocorre sempre com uma premiação da indústria, conta muito para o resultado o bom e velho lobby. Nem sempre, com isso, ganha o melhor. Mas, tenham certeza, também não vence o pior.

Não deixa de ser bastante sugestivo e significativo o fato de The King’s Speech liderar a lista de filmes que disputam o Oscar deste ano com 12 indicações. Tenham certeza que ele chegou a este número, na frente dos rivais True Grit, The Social Network e Inception, por seus méritos e por uma bela campanha de “conquista dos jurados” feita pela experiente Weinstein Company.

Francamente, difícil calcular as chances reais desta produção. Ela pode surpreender ganhando como Melhor Filme de The Social Network. Teremos indicações se isso vai acontecer ou não conforme a produção for ganhando nas categorias “secundárias”. De qualquer forma, um Oscar é praticamente certo: o de Melhor Ator para Colin Firth. Este ano, será quase inevitável o ator sair da premiação com uma estatueta.

Além dele, vejo que a produção tem chances nas categorias principais, de Melhor Filme até Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Não vejo que os atores coadjuvantes, ainda que eles estejam ótimos, tenham muitas chances este ano – porque há concorrentes melhores na disputa. O filme poderia vencer ainda em categorias técnicas, como Melhor Trilha Sonora para Alexandre Desplat; Direção de Arte para Eve Stewart e Judy Farr e Melhor Figurino para Jenny Beavan.

Mas, como ocorreu em outras ocasiões, o filme mais indicado da noite pode sair da premiação com apenas uma ou duas estatuetas. Agora, eu apostaria apenas em Melhor Ator. Ainda que, como comentei há pouco, ele possa surpreender embolsando até sete prêmios. Logo mais, saberemos.