Blade Runner 2049

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Um futuro bastante sombrio. Em todos os sentidos. Um mundo pós-catástrofe em que uma nova geração de replicantes é ainda mais obediente e facilmente “escravizada”. Grande parte da Humanidade não vive mais na Terra, e quem ficou para trás vive buscando manter o status quo e a separação entre humanos e não-humanos. Blade Runner 2049 avança na história do clássico original e faz um grande favor para todos nós, fãs de cinema: avança preservando a essência do original e agregando novas e interessantes informações. É um alívio e ao mesmo tempo um deleite ver uma “continuação” de um clássico que não nos decepciona. Pelo contrário. Baita filme. Gigante mesmo.

A HISTÓRIA: Começa com uma grande introdução. Nela, sabemos que após o colapso mundial de 2020, surgiu uma nova geração de replicantes. Estes novos modelos são muito mais “obedientes” que os anteriores. A corporação Wallace assume a frente da nova tecnologia e consegue, com os novos modelos, colocar fim na fome mundial, entre outras conquistas. Os modelos antigos de replicantes, agora, são caçados pelos novos que, a exemplo dos caçadores da geração anterior, também são chamados de Blade Runner’s. Corta. Um olho ocupa toda a tela. Em seguida, um veículo se desloca no céu sobre campos gigantes. Estamos na Califórnia em 1949. E começamos a assistir a mais uma caçada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blade Runner 2049): Antes de mais nada, deixa eu dizer: que filme fantástico! Como é bom assistir à sequência de um grande filme que consegue, com toda a dificuldade que esta tarefa significa, manter o grande nível. Isso não é nada fácil, e a história do cinema está aí para nos comprovar. Normalmente um grande filme, quando ganha uma sequência, tem o seu legado jogado por terra. Para a nossa sorte, dos amantes do cinema, não é isso que acontece com Blade Runner.

Devo dizer que é difícil ir no cinema e assistir a Blade Runner 2049 e não ficar arrepiado e/ou emocionado. Não, eu não cheguei a chorar. Mas sim, por dentro, fiquei muito emocionada. Porque, ainda que faz um tempo que eu assistir ao Blade Runner de 1982, algumas das cenas marcantes daquele filme – e a essência da sua história – continuam bem vivas na minha memória. Então eu vi a este novo filme, brilhantemente conduzido por Denis Villeneuve, entendendo todos os paralelos e toda a homenagem que o diretor fez para o original. E, ainda assim, apesar de todas as referências que o diretor faz para a produção de Ridley Scott (outro gênio do cinema), Villeneuve também consegue deixar a sua marca.

Amigos e amigas, isso não é nada fácil. Tão difícil quanto manter o grande nível de um clássico é você homenageá-lo na medida certa e conseguir, também, deixar o seu próprio estilo na nova obra. E isso é o que esse grande diretor Villeneuve consegue com Blade Runner 2049. Bem, como vocês podem ver, realmente eu gostei muito do filme. hahahahahaha. Porque estou primeiro me derretendo em elogios e nas sensações que eu tive ao assistir a este filme antes de falar propriamente do que eu vi na telona de um cinema praticamente lotado.

Então, após rasgar bastante a seda para Blade Runner 2049, vamos falar sobre a produção. Afinal, é para isso que estamos, não é mesmo? 😉 Primeiro de tudo, achei brilhante a introdução e o cartão-de-visitas do filme. Logo percebemos toda a proposta visual do novo Blade Runner – proposta esta que foi fundamental na primeira produção e que é tão importante quanto nesta nova. O futuro que temos pela frente, exatamente 30 anos depois do que se passa no primeiro filme – que é ambientado em 2019 -, é um futuro pós-apocalíptico.

Ou seja, ainda que moderno, com muitas luzes e publicidades “invasivas” nas grandes cidades, este futuro é ainda mais sombrio e desolado que o que vimos anteriormente. E faz sentido, convenhamos. Qualquer história pós-apocalíptica costuma mostrar os lugares que sucumbiram na mesma medida em que apresenta parte de cidades “reconstruídas”/reordenadas. Então a parte visual de Blade Runner 2049, algo fundamental para a história, é apresentada com muita coerência e de forma muito, muito interessante.

O diretor Villeneuve, juntamente com o grande diretor de fotografia Roger Deakins, mostram toda a sua experiência neste grande desafio de apresentar um filme que busque ser tão marcante quanto o original de Ridley Scott. E, volto a dizer, para a nossa sorte, eles conseguem. O visual de Blade Runner 2049 é fantástico. Convence pelos detalhes e evita o exagero. O que vemos em cena é coerente com a história, com o tempo que passou e com os fatos que aconteceram nos 30 anos que separam uma narrativa da outra.

Mas, como vocês sabem, e eu repito isso um bocado por aqui no blog, tão importante quanto as qualidades técnicas de um filme – e, na verdade, mais importante que isso – é o roteiro da produção. Então vamos falar sobre a história de Blade Runner 2049. Os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green, que trabalharam sobre uma história de Hampton Fancher, inspirado nos personagens de Philip K. Dick, foram “tradicionalistas”. Ou seja, eles não fugiram do óbvio – e, ainda assim, conseguiram nos apresentar uma produção bastante instigante e cheia de grandes momentos.

Por que eu digo que eles não fugiram do óbvio? Porque esta nova produção segue um bocado a fórmula do Blade Runner de 1982. Novamente nós temos um policial como protagonista. E a investigação que ele empreende é o que vai determinar o ritmo da história. Mas para filmes como este, agradecemos o caminho tradicional. Porque ele funciona muito, muito bem. Então, mais uma vez, nós temos um policial – desta vez o policial K interpretado por Ryan Gosling – que se depara com uma série de informações inesperadas quando ele vai cumprir mais uma missão normal.

Como o filme explica de forma sucinta naquela introdução que eu comentei acima, o policial K, que faz parte da nova geração de replicantes, tem como uma de suas missões “caçar” e eliminar/aposentar os modelos antigos de replicantes, os “revolucionários” (e por isso “falhos”) Nexus 8. O filme começa quando K vai executar uma destas missões. Ele encontra, em uma fazenda de proteínas, o “renegado” Sapper Morton (Dave Bautista), que sobreviveu à guerra travada em Calantha (um outro planeta em que replicantes guerreiam contra replicantes).

Sapper sabe que não vai sobreviver ao confronto com K, mas ele resiste o quanto pode. E, naquele momento, temos a primeira “pílula” de filosofia da produção – como bem manda o figurino de Blade Runner. Sapper comenta que K está matando os seus semelhantes porque ele acredita que só pode fazer aquilo. E ele só acredita no que lhe ordenam porque ele nunca viu a um milagre. Esta é uma ótima introdução. Porque, evidentemente, o que o filme nos propõe é a, justamente, nos falar deste milagre.

Blade Runner 2049, assim, nos apresenta logo de cara a sua essência. Ele é sim uma evolução do clássico Blade Runner. Uma continuação. Os fatos que vemos agora estão totalmente ligados – e são dependentes – do filme anterior. Então, meus caros, nem preciso dizer que é essencial você ter visto o primeiro filme para realmente entender o que se passa neste segundo filme, não é mesmo?

A impressão que eu tive no cinema, onde algumas pessoas saíram antes do fim do filme – seja de forma definitiva, seja volta e meia para comprar pipoca e afins – é que nem todos tiveram o cuidado de saber onde estavam “se metendo”. Ora, você não deveria ir no cinema sem ao menos saber que a produção que você vai assistir é uma continuidade de outra, não é verdade? Quanto desperdício de tempo e de entendimento… Certamente aquelas pessoas poderiam estar se deliciando com o filme tanto quanto eu – mas não. Enfim. Minha recomendação é que você realmente assistia a continuações depois de ter assistido à primeira (ou segunda, ou terceira, etc.) parte e que antecedem o que você está vendo.

Dito isso, voltemos para Blade Runner 2049. Algo que eu achei brilhante no filme é que Villeneuve não cede à ânsia da geração “filmes de HQ” e não acelera com a história. Muito pelo contrário. A exemplo do Blade Runner original, Villeneuve apresenta a sua nova história com um ritmo cadenciado e preciso, sem pressa e sem exageros. Tudo é apresentado com esmero, com cuidado, em uma narrativa que lembra mais os filmes europeus do que a profusão de efeitos especiais da era “Hollywood-HQs”. Francamente? Não poderia ser diferente.

Caso Villeneuve tivesse exagerado na dose dos efeitos especiais e apresentado uma narrativa acelerada, não teríamos algumas das melhores qualidades do Blade Runner original – e da sua “segunda parte”. Então o roteiro de Fancher e de Green e a condução segura de Villeneuve preservam o essencial do primeiro filme, que é focar em uma boa construção de um protagonista carismático e abrir frente para alguns questionamentos filosóficos. Verdade que o Blade Runner original era mais filosófico sobre a essência do que é ser humano e do que é “verdade”, sobre o que foi criado e o que foi gerado, mas neste novo filme temos novamente estas questões pela frente.

Então, a exemplo da produção de 1982, novamente é um policial – um Blade Runner – que nos conduz pela história. No original, Deckard (interpretado por Harrison Ford naquela primeira produção e agora) tem a missão de caçar um grupo de replicantes rebeldes e eliminá-los. Nesta sua busca, ele questiona a separação entre humanos e replicantes – que não são androides, como bem explica este vídeo do Sr. Elegante – e a própria sociedade em que esta divisão é baseada.

Pois bem, em Blade Runner 2049 várias questões similares são apresentadas. Para começar, um tema que me pareceu “gritar” no filme é o perigo de uma grande corporação como a Wallace dominar a sociedade. Assunto fundamental, eu diria, não apenas para o nosso tempo, mas para a possibilidade de futuro que temos. Hoje, cada vez mais grandes corporações se juntam/se compram e viram conglomerados gigantes que ameaçam “dominar o mundo”. E isso é algo muito presente em Blade Runner 2049.

A questão do papel de cada um – humanos e replicantes – também é novamente colocada em cena. Realmente uma civilização pode se sentir feliz e com a “consciência tranquila” sabendo que está novamente escravizando milhões de seres? Em Blade Runner 2049, a exemplo de Blade Runner, aparentemente está “tudo bem” porque os replicantes, no fim das contas, “não são humanos”. Então, como eles foram “criados” e não foram “gerados”, eles podem ser usados e descartados. Mas é isso mesmo?

Interessante que Blade Runner 2049, ao mesmo tempo que preserva a essência do clássico de 1982, também subverte uma questão importante da produção de Scott. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No Blade Ranner de 1982 – na versão final do diretor, atenção! -, descobrimos que Deckard é um replicante apenas no final. Até então, segundo a história, eramos levados a crer que ele era humano – e, por isso, estava “tranquilo” em caçar o que era diferente dele. No final, contudo, temos aquela reviravolta brilhante do roteiro de Hampton Fancher e de David Webb Peoples.

Pois bem, vejam que genial… em Blade Runner 2049 nós temos claro que o protagonista é um replicante desde o início. Não há dúvidas quanto a isso – percebam, ele acaba sendo o “inverso” do Deckard de Blade Runner, quando acreditamos que o protagonista é humano desde o princípio. Conforme Blade Runner 2049 se desenrola, contudo, tudo parece nos levar a crer que o replicante K não foi criado e sim gerado. Mas como ele é filho de dois replicantes – Deckard e Rachael (interpretada, no original, por Sean Young), o que ele ser gerado e não criado o torna?

Brilhante, não? Afinal, o que torna os replicantes diferentes dos humanos, na essência, é que eles são criados. Como aquele vídeo do Sr. Elegante bem nos lembra, os replicantes não são androides e não são clones. Ou seja, eles tem pele, carne, osso e órgãos como um humano. A diferença deles para nós é que eles são incapazes de sentir – ao menos era isso que acreditava e o que o Blade Runner de 1982 questiona – e que eles são criados e não gerados. Mas aí surge o Blade Runner 2049 com o seu “milagre”: um replicante que foi gerado.

Novamente, pois, temos o questionamento sobre uma civilização que é construída sobre a separação de duas espécies e sobre a supremacia de uma sobre a outra. Consequentemente, claro, temos o debate sobre a humanidade querendo fazer o papel de Deus. A partir do momento que avançamos tanto o nosso conhecimento científico ao ponto de podermos criar seres inteligentes e capazes até de sentir, o que fazemos com tudo isso? Viramos um Deus que escraviza e que subjuga ou um Deus que acolhe e que dá oportunidades para todos?

Os questionamentos do Blade Runner de 1982 seguem atuais e ganham novas perspectivas com o filme Blade Runner 2049. A escravidão é um dos fatos mais lamentáveis da história da humanidade. Mas esses filmes futuristas mostram que pouco aprendemos com o passado. Não importa se estamos falando de semelhantes ou de diferentes, já deveríamos ter aprendido que não podemos subjugar ninguém. Sobre estas questões, assim como o que nos faz humanos, é sobre o que os dois Blade Runner tratam.

A exemplo da produção de 1982, o novo filme também trata de uma investigação policial que, no fundo, é uma desculpa para uma jornada de autoconhecimento. O protagonista deste novo filme, muito bem interpretado por Ryan Gosling – que já é um dos grandes nomes de sua geração -, novamente acaba se descobrindo em um processo de saber quem ele é de verdade. E as respostas que ele alcança – incluindo aí uma bela reviravolta na história – são maravilhosas. Afinal, o que é uma lembrança de verdade? Afinal, o que é sentir de verdade? Todas estas questões filosóficas são levantadas pelo filme – e respondidas com esmero.

Todos nós somos “programados” a sentir e a pensar. Podemos ser “programados” a sentir ódio ou amor. Um replicante também, segundo os dois Blade Runner, pode ser programado a sentir estas e outras coisas – como nós, diga-se. Então o que nos diferenciaria, de verdade? Em Blade Runner 2049 uma pergunta fundamental que K faz é se as lembranças que ele tem de infância são reais ou foram criadas. E é assim que ela acaba conhecendo a Dra. Ana Stelline (Carla Juri) – a grande “surpresa” da produção.

Sim, a memória que ele tem da infância é real. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, você já sabe). Nós nos emocionamos quando algo é real. A Dra. Ana se emociona ao ver a memória de K, e ele afirma que sabe que aquilo é real. O que vamos descobrir depois é que aquela memória é real, mas não é dele. Mas na reta final da produção, K se questiona – e ele não precisa verbalizar isso – se era real o que ele sentia por Joi (Ana de Armas) e o que, afinal, é real para ele. Sim, o sentimento dele por Joi era real, assim como é real a neve que ele sente cair sobre o seu corpo no final.

Então, se os replicantes sentem/vivem da mesma forma com que os humanos, que direito esta segunda civilização tem de subjugar a primeira? Estas são questões levantadas pelos dois filmes e que continuam atuais, muito atuais. Também achei importantíssima a forma com que Blade Runner 2049 questiona uma sociedade em que uma grande corporação manda mais do que as autoridades – com bastante facilidade Luv (Sylvia Hoeks) mata quem estiver pela frente, seja humano, seja replicante. Daí nos perguntamos: em que tipo de sociedade com grandes corporações vigiando a quase tudo e todos nós mesmos estamos nos metendo?

Além de tudo isso, este filme sabe valorizar muito bem a construção da narrativa. Sabemos por onde a história vai e, mesmo assim, o roteiro nos reserva algumas surpresas interessantes. Também é importante que Blade Runner 2049 sabe valorizar muito bem o “grande encontro” tão esperado entre K e Deckard. Esse encontro demora para acontecer, e isso é positivo.

Quando finalmente chegamos no “face to face”, é quase impossível não se emocionar. É maravilhoso! Além disso, o filme sabe render muitas homenagens bacanas. Primeiramente, para o próprio Blade Runner de Scott. E, depois, para vários elementos da cultura humana que marcaram época e que são devidamente reverenciados neste filme – como Elvis e Frank Sinatra, entre outros.

Enfim, não importa sob que ótica olhemos para este filme. Se analisamos a sua história e a forma com que ela está ligada de forma umbilical com o Blade Runner de 1982; ou se analisamos a construção visual, a direção detalhista e dinâmica de Villeneuve; a construção dos personagens e da narrativa; o gostinho de “quero mais” e a expectativa que o filme deixa para uma continuação… enfim, qualquer aspecto do filme, tanto técnico quanto narrativo, funciona com perfeição.

Quando eu sai do cinema, fiquei pensando sobre que nota eu daria para a produção – depois de ficar um tanto “perplexa” e “maravilhada” com o que eu tinha visto. Pensei, pensei muito, e me questionei se não seria um “exagero” dar a nota máxima para Blade Runner 2049. Afinal, este filme é uma continuação de um dos grandes clássicos de todos os tempos. Mas daí refleti sobre tudo que eu comentei acima, de como este novo filme faz jus e homenageia de maneira perfeita o anterior… de como ele continua bem a história. Pensei em todas as qualidades citadas e conclui: sim, ele merece a nota abaixo. Com louvor. Dificilmente eu assisti a um filme mais de uma vez. Mas acho que vou colocar Blade Runner 2049 nesta seleta lista. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é um filme que, facilmente, rende um texto gigantesco. Como vocês viram acima. 😉 E isso porque eu nem vou esgotar o assunto de Blade Runner 2049 aqui neste texto. Decidi apenas focar nos pontos principais – do contrário, realmente este texto ficaria gigante demais. E, sou franca, tenho me policiado um pouco nisso. Não quero me estender demais…

Esta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de 92 países que estão concorrendo a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira da premiação que será entregue em 2018. Ou seja, já comecei a ir atrás destas produções para começar, logo mais, a sequência de críticas aqui no blog com vistas ao Oscar 2018. Mas aí que veio a surpresa de assistir a Blade Runner 2049… e, claro, é ainda cedo para fazer apostas para o próximo Oscar, mas eu desconfio que este filme será lembrado.

Sendo assim, meus caros, começo com este maravilhoso Blade Runner 2049 a seção “Oscar 2018” aqui do blog. 😉 Estamos muito longe ainda da premiação da Academia. Então não dá para saber quais são todos os favoritos e se Blade Runner 2049 terá fôlego de chegar com força até o Oscar. Mas, da minha parte, acho sim que seria uma grande falha da Academia se eles não indicassem este filme em algumas categorias. Para começar, pelas óbvias, técnicas. Acho que Blade Runner 2049 tem boas chances de concorrer como Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Diretor e, quem sabe, podendo concorrer até 10 produções, como Melhor Filme. Ou seja, não seria difícil o filme receber a partir de seis ou oito indicações – podendo superar este número.

Tudo vai depender do lobby que será feito para esta produção e sobre a capacidade de Blade Runner 2049 chegar com força no próximo Oscar. Poderiam rolar algumas indicações para elenco? Certamente. A conferir.

Bem, sobre as qualidades técnicas do filme, já dei uma prévia acima ao citar as categorias para as quais esta produção pode se credenciar no Oscar. Para começar, a direção de fotografia de Roger Deakins é algo espetacular. Ele faz um trabalho primoroso, assim como Denis Villeneuve ao valorizar cada elemento que ele tinha em cena. Assisti Blade Runner 2049 em um cinema 3D. Este recurso foi bem usado, ainda que ele apareça mais para ajudar na profundidade das cenas e de forma pontual em alguns detalhes – mas não é algo realmente exuberante. A parte bela fica realmente com a construção visual da produção. Ou seja, precisamos tirar o chapéu para Deakins e para o design de produção de Dennis Gassner. Brilhante o trabalho dos dois.

Desta parte técnica e visual do filme, vale ainda comentar o ótimo trabalho de David Doran, Bence Erdelyi, Lydia Fry, Paul Inglis, Tibor Lázár, Gergely Rieger, Stefan Speth e Zsolt Tarnok na direção de arte; o de Alessandra Querzola com a decoração de set; o de Renée April nos figurinos; o trabalho dos 109 profissionais do departamento de arte; os 38 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; e o trabalho excepcional do impressionante número de 381 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Um outro aspecto que eu achei maravilhoso no filme é a trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch e de Hans Zimmer. Francamente? Acho que ela também poderia ser indicada ao Oscar. Ainda que eu acho que, por ser mais “experimental” e quase cirúrgica, a trilha sonora de Blade Runner 2049 tenha uma certa “dificuldade” de cair no gosto da Academia ao ponto de ser indicada. Mas não seria surpreendente se o fosse.

Este filme é todo feito com esmero. Dá para perceber isso. Cada aspecto visual foi bem pensado e planejado, assim como cada elemento que compõe a produção – da trilha sonora até a escolha do elenco feita à dedo. Também é muito bacana ver que Hampton Fancher, responsável pelo ousado roteiro da primeira produção, voltou a assumir este papel de liderança neste novo filme. Importante.

Harrison Ford é Harrison Ford. Ele é um dos atores mais carismáticos e com uma trajetória das mais incríveis da história do cinema. Mas, guardadas as devidas proporções, Ryan Gosling consegue ser tão carismático quanto Ford ao protagonizar, como este grande ator, um Blade Runner. Villeneuve, claro, ajuda muito Gosling neste processo – assim como Scott ajudou, na sua época, Ford. Enfim, quem assistiu ao clássico não sofre muito com um novo protagonista. Muito pelo contrário. Gosling consegue com louvor despertar um real interesse pelo seu personagem.

Este filme tem alguns belos atores em seu elenco. Claro que a história orbita totalmente ao redor do personagem de Gosling. Ele é o protagonista e a pessoa que dita a narrativa. Mas outros atores também fazem um belo trabalho sempre que aparecem em cena. Neste sentido, claro, impossível não elogiar o excelente trabalho de Harrison Ford – que aparece menos do que gostaríamos, mas está maravilhoso. Tem uma presença maior e estão muito bem a ótima Robin Wright como a chefe de polícia Joshi; Ana de Armas encantadora como Joi, namorada virtual de K; Sylvia Hoeks como a vilã perfeita como Luv; Jared Leto enigmático como o mega empresário Niander Wallace; e Mackenzie Davis ótima como Mariette, uma garota de programa que se revela mais do que isso no final.

Além destes atores, que tem uma relevância maior na história, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Dave Bautista como Sapper Morton; Lennie James (conhecido por The Walking Dead) como Mister Cotton, explorador de crianças no orfanato; Barkhad Abdi como Doc Badger, contrabandista que ajuda o protagonista a identificar a origem do cavalo de madeira; Tómas Lemarquis que recebe K e o ajuda no início da investigação sobre a “replicante que foi mãe”; Edward James Olmos novamente como Gaff; e Hiam Abbass como Freysa.

Honestamente, eu espero que surja uma sequência de Blade Runner 2049 logo. Afinal, esta nova produção terminou com um gostinho de quero mais e levantando uma lebre super interessante de ser explorada em um novo filme. Torço para que a dupla Fancher e Villeneuve voltem a trabalhar juntas… e logo. 😉

Por falar no Villeneuve. Este diretor canadense tem 16 produções no currículo, entre curtas e longas e, para mim, é um dos diretores mais interessantes do mercado atualmente. Eu não assisti a todos os filmes dele, mas gostei de tudo que eu vi até agora. Aqui no blog eu tenho comentados, de Villeneuve, os filmes Prisoners, Enemy e Arrival. Todos acima, bem acima da média. E agora ele nos entrega este brilhante Blade Runner 2049… realmente precisamos ficar de olho em Villeneuve e no que ele nos apresenta.

Vou aproveitar que acabo de falar do diretor para começar a minha lista de curiosidades sobre esta produção com um comentário de Villeneuve. Ele falou sobre a enorme pressão que ele estava sentindo para fazer Blade Runner 2049: “Eu sei que cada fã (do filme original) vai entrar no cinema com bastão de beisebol. Estou ciente disso, e respeito isso. Estou bem com isso porque isso é arte. E a arte é um risco, e eu tenho que correr riscos. Este será o maior risco da minha vida, mas eu estou bem com isso. Para mim, é muito emocionante… é tão inspirador! Estou muito inspirado. Sonho em fazer ficção científica desde os 10 anos de idade e eu disse ‘não’ para muitas sequências (de filmes). Mas eu não podia dizer ‘não’ para Blade Runner 2049. Eu amo demais o filme e então eu disse ‘Tudo bem, vou fazer este filme e dar tudo de mim ao fazê-lo”. Como não admirá-lo?

A primeira escolha de Villeneuve para o personagem de Wallace foi David Bowie. Mas o artista faleceu antes do início das filmagens. Realmente teria sido incrível Bowie como Wallace…

A cena que dá início para a produção, do confronto de K com Sapper Morton, é uma filmagem praticamente exata de uma sequência escrita e com storyboard feito para o Blade Runner original mas que nunca foi rodada.

Inicialmente, Villeneuve resistiu à ideia de fazer uma sequência para Blade Runner porque ele achou que poderia “estragar” a visão que as pessoas tinham do original. Mas quando ele leu o roteiro que, segundo Villeneuve e Harrison Ford, foi um dos melhores que eles já leram, o diretor resolveu embarcar no projeto. Antes mesmo do diretor aceitar o desafio, Harrison Ford já tinha se comprometido com o filme – assim como Ridley Scott, que é um dos produtores executivos da produção.

Existem três curtas planejados para “preencher” a lacuna temporal entre o primeiro Blade Runner e o segundo filme, Blade Runner 2049. O primeiro curta, comentado neste post, é Black Out 2022 – aliás, interessante ver aquele link porque ele traz uma cronologia importante dos fatos entre 2019 e 2049. O segundo curta, 2036: Nexus Dawn, e o terceiro, 2048: Nowhere to Run, completam a trilogia com fatos importantes da história. O primeiro dos curtas é dirigido por Shinichirô Watanabe, e o segundo e o terceiro, por Luke Scott.

O papel do novo Blade Runner, K, foi escrito tendo o ator Ryan Gosling em mente. E ele foi sempre a primeira e única opção do diretor Villeneuve.

Blade Runner teve várias versões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas na última lançada é que fica claro que Deckard é um replicante. Nas demais, a dúvida sobre ele ser humano ou um replicante fica no ar – e depende de cada espectador chegar a uma resposta. O diretor Denis Villeneuve disse que ele tentou deixar esta questão sobre Deckard no ar também no novo filme. “Eu amo o mistério. Adoro sombras. Adoro dúvidas. Gostaria apenas de dizer para os fãs que cuidamos deste mistério”, comentou o diretor.

Falando nas diferentes versões de Blade Runner, Villeneuve disse que ele sempre foi marcado pela primeira versão – aquela da qual Ridley Scott não gosta – e, depois, ficou impressionado também com o “Final Cut” (a versão final de Scott). Então ele desenvolveu o seu próprio filme se inspirando nestas duas versões de Blade Runner.

Para fazer o papel do cego Niander Wallace, o ator Jared Leto utilizou lentes de contato opacas que, de fato, faziam com que ele não enxergasse nada.

Agora, uma curiosidade pessoal sobre esta produção. Eu fui para o cinema crente que Blade Runner 2049 tinha poucos minutos além de duas horas. Vi mal a duração… e por mais que eu achei a produção um pouco longa, enquanto estava no cinema – não parei para ver a hora em momento algum -, eu não senti que o filme tem realmente as 2h43 que ele tem. Curioso, não? Sim, enquanto estamos assistindo a esta produção, achamos ela um pouco longa… mas, ela acaba passando mais rápida do que o tempo que ela realmente tem.

Faço uma pausa aqui para publicar esta crítica e depois volto para mais curiosidades sobre a produção… 😉

Voltando… 😉 Olhem que curioso… Joi sugere para K, que pode estar descobrindo uma nova origem para si mesmo, o nome de Joe. Joe vem de Joseph. O personagem Josef K é o protagonista de um dos romances de Kafka, onde este protagonista é acusado de um crime. Mas nunca fica claro, exatamente, qual seria este crime que ele teria cometido. Essa pode ser uma metáfora para a própria vida do K de Blade Runner 2049. Afinal, ele tem toda a sua existência questionada e não sabe muito bem como isso acontece.

A data escrita no cavalo, e uma peça importante da história, 6.10.21, marca quatro anos no futuro em relação à data de estreia de Blade Runner 2049 – que teve a estreia mundial em 6 do 10 de 2017. 😉

Ridley Scott pensou em, inicialmente, dirigir Blade Runner 2049. Mas como Alien: Covenant acabou ocupando grande tempo do diretor e simultaneamente, Scott resolveu atuar apenas como produtor executivo e consultor criativo do novo Blade Runner.

Falando sobre uma possível continuação deste filme, achei uma declaração interessante de Ridley Scott. Segundo o diretor do primeiro Blade Runner e produtor deste segundo filme, Harrison Ford vai retomar mais uma vez o personagem de Deckard. “Conversamos por um longo tempo sobre como poderia ser esta continuação, e surgiu uma história de três atos muito forte. Tudo faz sentido em como estas histórias se relacionam com a primeira”, comentou. Ou seja, provavelmente teremos ainda uma terceira parte – e Blade Runner seria, assim, uma trilogia. Estou na expectativa já. 😉

Blade Runner 2049 estreou no dia 4 de outubro no Festival de Cinema de Zurique e em dois países, a França e a Bélgica. No Brasil e em outros países ele estreou no dia 5 de outubro e, nos Estados Unidos, apenas no dia 6.

Esta produção foi rodada em diferentes locais da Hungria e teve algumas cenas rodadas na Espanha e na Islândia – estes dois últimos países foram utilizados apenas para cenas aéreas.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Blade Runner 2049 também pode fazer uma bela trajetória de prêmios. Para começar a sua coleção, ele já abocanhou dois: Melhor Teaser no Golden Trailer Awards e “Most Anticipated of 2017” segundo o Indiewire Critic’s Poll.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Canadá.

Blade Runner 2049 recebeu a nota 8,6 dos usuários do site IMDb – uma nota excepcional para os padrões do site, devo dizer – e ganhou 212 críticas positivas e 27 negativas segundo os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Esse nível de aprovação acaba sendo de 89% no Rotten Tomatoes, com uma nota média de 8,2.

Não tenho dúvidas que Blade Runner 2049 será uma das maiores bilheterias do ano. Dá para sentirmos isso com o resultado do filme no seu final de semana de estreia: ele entrou em cartaz no dia 6 de outubro nos Estados Unidos e faturou, até o domingo, dia 8, US$ 31,52 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 50,2 milhões. Ou seja, em poucos dias, faturou US$ 81,7 milhões. O custo de Blade Runner foi de US$ 150 milhões. Ou seja, pelo andar da carruagem, facilmente ele vai obter um belo lucro. Sem contar que esta produção tem grandes chances de levar as pessoas para uma segunda vez no cinema – será o meu caso. Então a trajetória dele será de belo lucro por semanas.

CONCLUSÃO: Blade Runner, o original, marcou época, inspirou vários outros filmes e se tornou um dos grandes filmes do gênero. Como outras produções, pensar em um filme que seja a continuidade de algo tão bom sempre dá medo. Mas aí vem o diretor Denis Villeneuve, um dos grandes de sua geração, e nos apresenta algo coerente, interessante, marcante. Claro, não é revolucionário como o original. E, cá entre nós, para este gênero, acho improvável que algo revolucionário ainda surja. Mas um filme não precisa ser revolucionário para ser ótimo. E este é o caso de Blade Runner 2049. Agora, para você saber exatamente tudo que este filme agrega, importante ter visto o primeiro Blade Runner. Esta continuação está à altura do original, mas com alguns elementos que fazem os fãs delirarem. Um grande deleite. Marcante e, para mim, inesquecível.

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Star Wars Episode IV: A New Hope – Star Wars – Guerra nas Estrelas – Guerra nas Estrelas Episódio IV: Uma Nova Esperança

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Personagens interessantes, atores carismáticos e um enredo recheado de ação e de pitadas de comédia e de filosofia. Star Wars Episode IV: A New Hope (conhecido no ano de lançamento apenas como Star Wars) levou os filmes de ficção científica para um novo patamar – muito mais pop do que o cinema poderia imaginar até então. Assistir ao filme 40 anos depois dele ser lançado mostra que alguns elementos dele ficaram realmente datados – mas estes elementos são muito sutis. O filme continua encantando, mesmo tanto tempo depois, e mostra que sobrevive ao passar do tempo por apresentar muitas qualidades e uma e outra cena que entrou para a história do cinema.

A HISTÓRIA: “A long time ago in a galaxy far, far away…” (Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…”) Star Wars. Em um período de guerra civil, espaçonaves rebeldes, partindo de uma base secreta, atacam e conquistam a sua primeira vitória contra o perverso Império Galáctico. Durante a batalha, espiões rebeldes conseguem roubar os planos secretos da arma definitiva do Império, a Estrela da Morte, uma estação que é capaz de destruir um planeta inteiro.

Perseguida pelos agentes do Império, a princesa Leia (Carrie Fisher) viaja para casa protegendo os planos que podem salvar o seu povo e restaurar a liberdade na galáxia… Após esta introdução, o filme começa a contar a história da perseguição dos rebeldes, a missão dada pela princeia Leia para R2-D2 (Kenny Baker) que, acompanhado de C-3PO (Anthony Daniels), acaba caindo no planeta de Luke Skywalker (Mark Hamill). É lá que o jovem órfão irá, motivado pela mensagem da princesa Leia, procurar o antigo jedi Ben Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) e começar a sua longa aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desta produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars Episode IV): Quem tem 30 anos de idade ou mais dificilmente vai conseguir assistir a este filme sem ter diversas “emoções”. Nossas caixinhas de boas lembranças são acionadas a cada acorde da música fantástica de John Williams, especialmente na introdução clássica feita em Star Wars. Difícil não ficar arrepiado(a) ou levemente excitado(a) com aquela introdução.

A primeira vez que eu assisti a Star Wars Episode IV foi na década de 1980, quando eu era criança – ou seja, provável que eu tenha assistido em meados daquela década. Depois, devo ter assistido nos anos 1990 mais uma vez, e isso foi tudo. Quem tem 30 anos ou mais deve ter tido a mesma experiência – afinal, esta produção passava muito naquelas décadas logo após ela ter sido lançada. O filme que consagrou George Lucas virou um clássico instantâneo e uma produção difícil de ser ignorada.

Como a maioria dos clássicos do cinema, Star Wars também pode ser assistido de duas formas diferentes: fazendo um esforço para situar o filme no contexto de sua época e imaginar o impacto que a produção teve naquele momento e vendo ela com os “olhos atuais”, avaliando o quanto o filme consegue ainda ser “fresco” e/ou o quanto ele consegue provocar impacto. Nestas duas provas Star Wars Episode IV passa com louvor.

Primeiro, pensando neste filme sendo lançado há 40 anos, na segunda metade dos anos 1970. Aquela década foi muito interessante em termos artísticos, especialmente com a música e o cinema, e marcada por diversas guerras, conflitos e por uma crise do petróleo que afetou diversos países – especialmente os Estados Unidos. Ainda que a corrida espacial e armamentista encerraram durante esta década, estes eram assuntos presentes por boa parte do período. As pessoas sonhavam com o que havia além da Terra – afinal, o homem havia chegada à lua apenas oito anos antes de Star Wars ser lançado, em 1969.

Neste contexto é que o primeiro filme de Star Wars foi lançado. A produção é instigante do início ao fim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela começa com ação e com expectativa, com a invasão da nave da princesa Leia, e termina também com uma perseguição eletrizante – com o jovem Luke Skywalker sendo ajudado pela Força na hora de dar um tiro certeiro e destruir a Estrela da Morte. O ritmo desta produção, junto com algumas cenas que viraram clássicas e que foram cuidadosamente planejadas por George Lucas são algumas das grandes qualidades deste filme.

As outras são os personagens, interessantes e interpretados de forma muito carismática pelo ótimo elenco escolhido por Lucas, e as qualidades técnicas de Star Wars em uma época em que os efeitos especiais eram feitos “na unha” e sem a ajuda de computação gráfica. Neste sentido, dão um show os efeitos especiais mecânicos que permitiram as perseguições espaciais – a sequência final do filme, mesmo um tanto “tosca” segundo os critérios atuais, é de tirar o fôlego e cumpre muito bem o seu papel -, os efeitos sonoros e a trilha sonora marcante e fundamental de John Williams.

Se qualquer um destes elementos não tivesse a qualidade que têm em Star Wars, certamente o filme não seria envolvente e interessante como ele de fato é. O roteiro propriamente não é tão excepcional assim. Verdade que ele envolve bem a audiência e consegue entregar de forma cirúrgica apenas o que interessa para Lucas atrair o público para o filme seguinte da saga – e para os outros que ainda viriam. Mas se analisarmos bem o que Episode IV nos apresenta, ele tem um humor um tanto juvenil e simplório. Ele devia combinar bem para a época e para Lucas realizar os seus planos de mostrar a evolução dos personagens, mas não deixa de chamar a atenção este caráter um tanto “pueril” desta primeira história.

Luke Skywalker é um jovem órfão que não sabe praticamente nada de suas origens. Ele está louco para sair do local isolado em que ele vive com o tio Owen (Phil Brown) e a tia Beru (Shelagh Fraser) e buscar as aventuras que tanto deseja fora dali. No fim das contas e de maneira trágica ele consegue realizar este sonho. Ele se torna um herói e, nos filmes seguintes, vai descobrir a verdade sobre o próprio passado. Em Star Wars Episode IV somos apresentados a ele e a outros personagens importantes da saga.

Todos parecem um tanto juvenis nesta produção. E isso parece ter sido meticulosamente calculado por George Lucas. A escolha combinava com a época, podia fazer o filme chegar a todos os públicos (inclusive crianças e jovens) e, claro, abria margem para apresentar uma narrativa mais densa e de amadurecimento destes mesmos personagens no futuro. Na verdade, George Lucas foi muito inteligente em suas escolhas. Este filme funciona bem de forma isolada e consegue, ao mesmo tempo, atrair o interesse para que o público não resista a acompanhar a saga. Não por acaso Star Wars movimentou multidões de “seguidores” e de adeptos com o passar das décadas.

Além de tudo isso, digo que é emocionante ver a grandes atores e personagens em cena. Impossível não ficar arrepiado(a) com a cena em que Luke Skywalker sai da mesa com os tios para encarar o pôr do sol com dois sóis ou aquela em que Ben Obi-Wan Kenobi filosofa com Luke sobre a última vez em que alguém lhe chamou de Obi-Wan. Também é emocionante ver aos carismáticos R2-D2 e C-3PO em suas primeiras trocas de farpas e finas ironias caminhando para cima e para baixo. E quando o jovem Harrison Ford entra em cena? O ator é o mais carismático de todos e mostra neste filme, assim como nos demais da saga e nas produções Indiana Jones, porque é um nome inevitável na história do cinema.

Sim, Star Wars Episode IV é um filme imperdível e inevitável. Se você gosta de cinema, não tem como ignorá-lo. A boa nova sobre isso é que esta produção é fácil de assistir. A narrativa envolvente, com várias sequências de ação e com a apresentação de personagens interessantes torna a experiência fácil – diferente de outros clássicos mais densos. Com um tom um tanto juvenil, este filme também pode ser assistido por todos os públicos sem maiores problemas – outras produções da saga tem uma complexidade maior e não podemos falar delas da mesma forma. De quebra, você tem uma pequena aula de cinema na sua frente.

Ah sim, e há tudo aquilo que os fãs da saga gostam de ressaltar. A filosofia por trás da obra de George Lucas começa a ser apresentada neste filme. Bebendo de diferentes fontes históricas, da filosofia e até da religião, Lucas cria a sua própria “religião”. Há diferentes formas de interpretar o trabalho de Lucas que começa a ser apresentado neste Star Wars Episode IV.

Mas claramente ele se inspira em fatos da História, que teve vários casos de ditadura – inclusive naqueles anos 1970 – e de divisão preto versus branco (vide Guerra Fria, capitalistas versus comunistas e tantas outras disputas) assim como bebe em mitologias e religiões para tratar de uma Força (Deus ou a força “universal” que você quiser escolher) que estaria em todas as partes e que, segundo este primeiro Star Wars, emanaria de cada ser vivo e poderia ser usada para o Bem ou para o Mal.

Não é por acaso o uso das cores na produção – o negro simboliza a escolha pelo Mal feita por Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones) e o branco de Luke Skywalker representa o Bem. As roupas de Obi-Wan também lembram a dos jesuítas e mostram um certo “equilíbrio” da Força. E por aí seguem as referências. Star Wars mudou a história do cinema e da ficção científica. Muito do que vemos neste filme inaugural iriam inspirar diversas outras produções e outros tipos de produtos. Aliás, quem lembra dos primeiros jogos legais para computador vai lembrar de diversas sequências deste filme que podiam ser jogadas pelos fãs depois. Enfim, esta produção é um grande deleite, não importa sob que ótica você a analise.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, Star Wars Episode IV tem um certo tom “pueril” que representa bastante a sua época e a estratégia de chegar a todos os públicos de George Lucas. Esse tom pode ser visto no comportamento dos personagens principais da produção e também nos detalhes de todos os personagens – como nas “batalhas” atrapalhadas entre os soldados do Império e os rebeldes. Neste sentido o filme é um pouco datado, mas nada que ofusque as suas qualidades.

Os números do que George Lucas começou com esta produção impressionam. Primeiro que, segundo o site The Numbers, até hoje Star Wars Episode IV consegue ser o filme recordista em bilheteria nos Estados Unidos (se levarmos em conta a inflação desde que a produção foi lançada) com nada menos que US$ 1,42 bilhão como resultado. Star Wars Episode VII: The Force Awakens é o recorde nas bilheterias se não fizermos este reajuste da inflação – ele fez US$ 936,66 milhões apenas nos Estados Unidos. Observando as bilheterias mundiais, contudo, o sucesso da saga é menor – ela perde para Avatar, com US$ 2,02 bilhões.

Mas os números de Star Wars são superlativos também quando comparamos as principais franquias do cinema – e olhando apenas para os filmes, porque se fôssemos analisar os produtos derivados deles, os números seriam muito maiores. A saga Star Wars com 12 filmes lançados e previstos entre 1977 e 2019 contabiliza uma bilheteria ajustada pela inflação de US$ 6,35 bilhões. Este número a coloca à frente da franquia James Bond, que vem em segundo lugar com 25 filmes entre 1963 e 2015 e US$ 5,47 bilhões (corrigidos pela inflação) e dos filmes do Universo Marvel com 22 produções entre 2008 e 2019 e US$ 4,97 bilhões. Certamente a única ameaça para a saga de George Lucas é a dos filmes Marvel.

Entre os atores desta produção, o destaque vai para Harrison Ford como Han Solo; Mark Hamill como Luke Skywalker; Alec Guiness como Ben Obi-Wan Kenobi; e Carrie Fisher como a princesa Leia Organa. Sem mostrar o rosto, mas tendo uma presença marcante e “sentimental” na lembrança dos fãs, vale destacar também Peter Mayhew como Chewbacca; Kenny Baker como R2-D2 e Anthony Daniels como C-3PO. Estes são os inevitáveis. Também não dá para ignorar a presença forte, ainda que com menos destaque neste filme do que no seguinte, do Darth Vader interpretado aqui por David Prowse.

Entre os personagens que perduraram menos tempo na saga e que aparecem neste filme com certa relevância, vale destacar Peter Cushing como o Grande Moff Tarkin, comandante que tenta acabar com os rebeldes usando a Estrela da Morte; Phil Brown como o tio Owen; Shelag Fraser como a tia Beru; Jack Purvis como o chefe Jawa, que pressiona Solo; Denis Lawson como Red Two, amigo de Luke; Drewe Henley como Red Leader, que comanda o grupo que tenta acabar com a Estrela da Morte; e Angus MacInnes como Gold Leader, que comanda o outro grupo no ataque.

Da parte técnica do filme, a menção especial vai para a trilha sonora inesquecível de John Williams. Não por acaso ele se tornou um dos grandes compositores do cinema de todos os tempos. A música de Star Wars é um de seus trabalhos mais icônicos. Mas vale destacar também outros profissionais que fazem um trabalho excepcional neste filme, como o diretor de fotografia Gilbert Taylor; o design de produção de John Barry; os figurinos de John Mollo; a edição de Richard Crew, Paul Hirsch, Marcia Lucas e George Lucas; o departamento de arte que faz um trabalho fundamental em uma época sem computação gráfica e que era composto por 21 profissionais; o departamento de som, sem o qual este filme não teria a qualidade que ele tem, e que era composto por 21 profissionais; os efeitos especiais feitos por John Schoonraad, John Stears, Tony Dyson, Bob Keen, Robert Nugent e Petro Vlahos; os efeitos visuais fundamentais realizados com miniaturas e com efeitos de lentes por 80 profissionais – e mais uma equipe considerável no relançamento do filme em 1997.

Este filme foi dirigido e teve o roteiro escrito por George Lucas. Diferente do que alguns desavisados podem pensar, este foi apenas um dos quatro filmes da saga Star Wars que ele dirigiu. Além desta produção inaugural da saga, ele dirigiu apenas os Episódios I, II e II, lançados, respectivamente, em 1999, 2002 e 2005. Os filmes que seguiram ao clássico Episode IV não foram dirigidos por Lucas e sim por Irvin Kershner e por Richard Marquand, nesta sequência. Antes de se consagrar com Star Wars Episode IV, Lucas havia dirigido, essencialmente, a curtas, e aos longas THX 1138 (lançado em 1971) e American Graffiti (de 1973). Depois vieram os quatro filmes Star Wars e nada mais. Realmente um realizador de uma saga só – a mais lucrativa da História, é preciso dizer. Imagina se as ideias dele para Star Wars não dessem certo? A história de Lucas seria diferente, certamente.

Star Wars Episode IV estreou no dia 25 de maio de 1977 nos Estados Unidos. No mesmo ano o filme estreou em vários países e, em janeiro de 1978, entrou no circuito dos cinemas do Brasil. No dia 31 de janeiro de 1997, quando a produção completou 20 anos, ela foi relançada em uma versão com recursos adicionais de efeitos especiais feitos em computador nos cinemas dos Estados Unidos – e em outros países.

Este primeiro filme da saga Star Wars teria custado US$ 11 milhões. Em sua época, sem aplicar o reajuste inflacionário, a produção fez US$ 289,9 milhões apenas nos Estados Unidos – e outros US$ 410 milhões no restante do mundo. Ou seja, aquela fortuna, para os padrões da época, de US$ 11 milhões de custo, foi multiplicada nos cinemas e garantiu um belo lucro que salvou a Fox da falência – o estúdio estava mal das pernas nos anos 1970 – e que garantiu a aposentadoria de George Lucas (ou quase isso). Além disso, Star Wars foi a primeira saga a obter uma verdadeira fortuna de merchandising e de produtos derivados do filme.

Star Wars Episode IV foi rodado em cinco países. A saber: no Tikal National Park, da Guatemala (Fourth moon of Yavin); em Ajim (Mos Eisley, Tatooine), Chott el Djerid, Sidi Driss Hotel em Matmata e Sidi Bouhlel em Tozeur (Tatooine), na Tunísia; Yuma e no Death Valley National Park (Tatooine), nos Estados Unidos; Calakmul, no México; e nos estúdios Elstree e Shepperton e nos hangares Cardington Airship (base rebelde Yavin 4) na Inglaterra.

O site IMDb apresenta nada menos que 408 curiosidades sobre esta produção. Vou citar por aqui apenas algumas delas. O diretor e roteirista George Lucas estava tão certo de que Star Wars Episode IV seria um fracasso que, ao invés de assistir à estreia da produção, ele viajou para umas férias no Hawaii com o seu bom amigo Steven Spielberg. Foi nesta viagem que eles tiveram a ideia para o filme Raiders of the Lost Ark (um dos meus preferidos de todos os tempos).

Este foi o primeiro filme da História a fazer mais de US$ 300 milhões nos cinemas.

A decisão de George Lucas de receber um salário mais baixo que o normal, para a época, para dirigir Star Wars Episode IV em troca de ter todos os direitos de merchandising de Star Wars foi considerada uma decisão tola na ocasião. Mas ele não poderia ter se dado melhor na vida. Na época, contudo, esta jogada parecia bastante ousada. Afinal, até então, brinquedos baseados em filmes nunca tinham dado muito dinheiro – mas Star Wars mudou esta lógica e abriu frente para várias outras produções fazerem o mesmo.

Quando a 20th Century Fox foi distribuir Star Wars Episode IV nos Estados Unidos, menos de 40 salas de cinema toparam exibir a produção. Para forçar os cinemas a passar o filme, a Fox disse que só liberaria o blockbuster potencial The Other Side of Midnight para quem exibisse, antes, Star Wars. E foi assim que o filme de Lucas chegou ao máximo de salas possível se tornou um fenômeno das bilheterias.

A música temática de John Williams ocupa a primeira posição na na lista AFI’s 100 Years of Film Scores.

Por falar em listas, Star Wars está na lista de filmes que aparecem na obra “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” e que norteia a minha revisão de clássicos feita aqui no blog. O texto de Joanna Berry começa assim: “Ninguém esperava que o filme do roteirista e diretor George Lucas fosse um sucesso. Em se tratando de um ‘faroeste de ficção científica’ cujo elenco principal era essencialmente desconhecido (Harrison Ford, Mark Hamill e Carrie Fisher), os chefões do estúdio estavam tão convencido de que o filme iria fracassar que gentilmente cederam a Lucas, de graça, os direitos de merchandising de qualquer produto relacionado a Guerra nas Estrelas”.

E ela segue: “Obviamente, não perceberam o enorme potencial do filme e jamais esperaram que fosse gerar duas continuações, três capítulos ‘anteriores’, um derivativo baseado nos Ewoks, desenhos animados, jogos de computador, brinquedos, trilhas sonoras, livros, enormes vendas de vídeos e DVDs, doces, roupas, roupa de cama e até mesmo comida. O filme, que custou US$ 11 milhões e rendeu mais de US$ 460 milhões, não parecia ter o potencial para se tornar um enorme sucesso”.

Depois de resumir a história, Joanna Berry continua: “Guerra nas Estrelas poderia ter sido incrivelmente tolo, considerando-se que, em meados dos anos 1970, as pessoas esperavam que ‘ficção científica’ fosse algo similar aos cenários de plástico de Jornada nas Estrelas ou com efeitos como a ‘calota pendurada em um fio’ de Ed Wood em seu Plano 9 do Espaço Sideral. Mas Lucas tinhas ideias mais grandiosas. Duas décadas antes que imagens de computador fossem usadas para criar mundos fantásticos, Lucas, usando modelos ultradetalhados, truques inteligentes e locações bem escolhidas – as cenas que mostram o planeta desértico de Tatooine, onde Luke morava, foram filmadas em cenários construídos na Tunísia (reutilizadas em 1999, em Guerra nas Estrelas: Episódio I – A Ameaça Fantasma) -, conta a história de outro universo, no qual o maligno Império dominado por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones) está no controle. Mas as forças rebeldes estão se reunindo para tentar derrubar os tiranos”.

Vale seguir citando o texto de Joanna Berry – e, claro, você conferir o livro, que é excelente: “Lucas criou uma mitologia que foi abraçada com entusiasmo por pessoas de todas as idades. além de dar origem a várias criaturas de uma galáxia muito, muito distante, sua linha de narrativa do bem contra o mal nos apresentou a pessoas e objetos que, desde então, tornaram-se parte de diversos idiomas de nosso planeta: o Millennium Falcon (a nave espacial de Han Solo, que Lucas originalmente imaginou com o aspecto de um hambúrguer voador), os sabres de luz (a arma similar a uma espada, com seu som característico), os Stormtroopers imperiais e, naturalmente, os cavaleiros Jedi (hoje uma parte tão integral de nosso inconsciente coletivo que uma campanha via internet sugerindo que as pessoas respondessem ‘Jedi’ a um item sobre religião num formulário de recenseamento no Reino Unido teve enorme sucesso). Ao dar vida a Guerra nas Estrelas, Lucas conseguiu criar muito mais do ue apenas um filme: criou um mundo, um novo estilo de cinema e uma ópera espacial inesquecível que jamais foi superada”.

Ela está certíssima. Star Wars supera em muito a capacidade de um filme de encantar e de entreter.

Star Wars Episode IV ganhou 56 prêmios, incluindo seis estatuetas do Oscar. Além disso, esta produção foi indicada a outros 28 prêmios. Os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que o filme recebeu foram de Melhor Direção de Arte-Decoração de Set, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Edição, Melhores Efeitos-Efeitos Especiais e Melhor Trilha Sonora Original. Ainda que tenha recebido este número significativo de estatuetas, Star Wars perdeu nas categorias principais – Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Alec Guiness, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Quem ganhou o Oscar de Melhor Filme em 1978? Annie Hall, de Woody Allen.

Esta produção de Lucas ganhou também o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora; dois Bafta’s, de Melhor Som e o Anthony Asquith Award for Film Music para John Williams; 13 prêmios na Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films entregues em 1978 – incluindo Melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, entre outros; três prêmios Grammy; nove prêmios Guiness World Record.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 críticas positivas e sete negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6. Especialmente a nota recebida pelo filme chama a atenção – muito acima de muitas outras produções. O nível de aprovação, contudo, não é tão alto.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra para a lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um clássico que segue cumprindo bem o seu papel mesmo tanto tempo depois de ter sido lançado. O filme mais rentável da história do cinema americano tem uma série de fãs e, mais que isso, de fanáticos admiradores. Mas não é por isso que eu dei a nota máxima para Star Wars Episode IV: A New Hope. Este filme merece a melhor avaliação porque ele cumpre com maestria o seu papel. Ele entretêm ao mesmo tempo que apresenta alguns dos elementos que tornariam a saga criada por George Lucas como a mais rentável de todos os tempos. Bem conduzido e com cenas que marcam a memória de qualquer um, Star Wars Episode IV revela todo o potencial do cinema quando ele é bem planejado e bem feito. Se você ainda não assistiu – o que é algo difícil -, não pense duas vezes em colocar esta sua dívida particular em dia.

The Expendables 3 – Os Mercenários 3

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Algumas vezes tudo o que você quer buscando um filme nos cinema é a diversão. Neste sentido, The Expendables 3 entrega tudo o que o espectador espera. Isso me surpreendeu. Admito que não vi aos dois filmes anteriores da grife, e conhecendo bem o talento interpretativo do líder da trupe, Sylvester Stallone, não me atraía antes assistir a esta produção. Mas gostei do que eu vi. Os atores envolvidos, e a lista de astros é grande, claramente se divertiram muito fazendo este filme. E de quebra, eles divertem os espectadores.

A HISTÓRIA: Um trem blindado percorre o cenário de forma veloz. Ele segue em direção à prisão de Denzal, carregado de homens armados. Mas logo aparece o helicóptero pilotado por Barney Ross (Sylvester Stallone) e carregado de Mercenários. No grupo, Lee Christmas (Jason Statham), Gunner Jensen (Dolph Lundgren) e Toll Road (Randy Coutere). Eles pegam pesado contra o trem blindado para resgatar Doc (Wesley Snipes), que após oito anos desaparecido e mantido como prisioneiro, está sendo levado para a prisão. Os inimigos são derrotados e Doc resgatado, mas logo o grupo deverá enfrentar desafios bem maiores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Expendables 3): Normalmente eu não assistiria a esse filme. Isso porque vocês, caros leitores, devem ter percebido que normalmente eu gosto de filmes mais “humanos”, “filosóficos”, daquele tipo que nos faz aprender algo, seja com a história, seja com nós mesmos ou com aqueles que nos rodeiam. Porque eles nos provocam a reflexão.

Mas a verdade é que eu trabalho em um jornal de Florianópolis e recebi, através da editora do caderno de cultura e variedades, um convite que havia sido mandado para ela ou alguém da editoria. E como ninguém se interessou, e ela sabe que tenho um blog de cinema, me perguntou se eu gostaria. E a resposta foi imediata: sim! Isso porque defendo que todo filme merece ser visto, mesmo se for para você achá-lo ruim, lamentável ou deplorável depois. Houve um tempo em que eu assistia a todos os filmes que entravam em cartaz no cinema, independente do tipo ou qualidade.

Hoje, inclusive por causa deste blog, que me obriga a escrever um texto para cada filme que assisto – como explico na apresentação desta página -, tenho que ser mais seletiva. Bueno, feito esta introdução, devo ser direta como no início deste texto: gostei de ter recebido o convite e de ter assistido a este filme que não faria parte da minha seleção normalmente. The Expendables 3 é um filme direto e que apresenta exatamente tudo aquilo que promete.

Para mim, um filme funciona quando faz exatamente isso. Entrega o que o seu público quer. Quem vai conferir The Expendables 3 conhece bem a capacidade interpretativa de Sylvester Stallone, pai desta trilogia da pancadaria e do tiroteio. Então dá para entender e perdoar toda vez que ele faz um grande esforço para repassar emoção, mas não consegue. Afinal, você já está esperando isso.

O que me surpreendeu, justamente porque não assisti aos dois filmes anteriores, foi o número de grandes nomes envolvidos neste projeto. Além dos tradicionais “mestres” da pancadaria, esta produção tem no elenco o “eternamente-com-cara-de-louco” Mel Gibson, que acho divertido a cada novo filme, e também o astro de alguns dos grandes clássicos do cinema nas últimas décadas e “homem mais sério” Harrison Ford. Eles dão um peso importante para o filme.

A comédia, natural em produções deste gênero nos últimos anos, se apresenta principalmente nas interações entre Stallone e Arnold Schwarzenegger e é concentrada no papel interpretado por Antonio Banderas. Este ator, normalmente envolvido em filmes construídos para ele ser o “amante latino”, surpreende neste filme de ação em um papel verborrágico e cheio de tiração de sarro.

Aliás, esta é uma das características desta produção, junto com as tradicionais cenas de ação. The Expendables 3 é cheio de autorreferências, ironizando outras produções do gênero e a própria expectativa envolvendo os atores veteranos. A fórmula desta terceira parte da trilogia é colocar em oposição os veteranos e uma nova turma, liderada pelo ator Kellan Lutz. Ele, em teoria, é a versão mais nova do personagem de Stallone.

Como o ator que assina a história e o roteiro desta produção não dá ponto sem nó, certamente Stallone está preparando o futuro da grife. Tendo uma turma jovem para encabeçar produções futuras, ele pode “matar” alguns personagens interpretados por seus amigos veteranos na interpretação e, quem sabe, daqui a uns três ou quatro filmes, ele mesmo, Stallone, possa ser morto em combate – deixando o ator responsável apenas pelos roteiros, por exemplo.

O desenrolar da história é super previsível. Ainda assim, há diversas cenas de ação surpreendentes. De tirar o chapéu para os responsáveis pelas coreografias de luta e por toda a equipe envolvida nas explosões e cenas de ação filmadas, além dos efeitos visuais e especiais. Logo cedo o espectador prevê que a nova equipe formada por Barney Ross terá que ser socorrida pelo time antigo, dos veteranos. E mesmo que isso seja evidente, quando o resgate acontece, você não fica decepcionado porque a ação é muito bem planejada.

O embate final entre Barney Ross e Stonebanks (Mel Gibson), antigos parceiros e amigos, só poderia terminar em uma disputa “mano a mano”. O desfecho, novamente, é previsível, mas não havia como esperar nada diferente. Sendo assim, esta produção entrega tudo como “combinado”, trazendo um roteiro com desenrolar conhecido, mas com diversas cenas colecionáveis de perseguição e matança.

De quebra, há momentos verdadeiramente engraçados, muita “gozação” entre os veteranos e um desfile de astros. Dá para perceber que eles estão se divertindo muito ao fazer este filme. E de quebra, eles nos divertem também com uma produção tão despretensiosa. Vale assistir a filmes assim, apenas para relaxar, de tempos em tempos. Aqui não há mensagem ou reflexão alguma, apesar do rápido discurso de que “o governo usa assassinos de aluguel para não parecer um vilão”, ou qualquer coisa do gênero. Esse é o máximo de complexidade que Stallone consegue. O que não é ruim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito falaram sobre uma cópia de The Expendables 3 que teria vazado na internet antes mesmo do filme estrear nos cinemas. Da minha parte, assisti ao filme na telona em uma sessão de pré-estreia, na última quinta-feira. E posso dizer que vale a pena conferir o sonzaço e todos os efeitos especiais e visuais na telona. Após a versão vazar na internet, ouvi alguns comentando que o filme teria tido a bilheteria prejudicada por causa disso. Não acredito. E vou falar o porquê na sequência.

The Expendables 3 teve pré-estreia entre os dias 4 e 11 de agosto nas cidades de Londres, Marbella, Cologne, Paris e Los Angeles. A produção estreou no Líbano no dia 7 de agosto, e no dia 15 nos Estados Unidos. Até ontem, dia 22, o filme tinha arrecadado pouco menos de US$ 22,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e mais US$ 21,5 milhões nos demais mercados em que havia estreado. No total, quase US$ 44,3 milhões. Francamente, não acho esses números ruins. O filme deve continuar fazendo bilheteria e chegar, no final, perto dos US$ 80 milhões ou US$ 100 milhões. Acho um bom resultado, levando em conta a fórmula da produção.

Não assisti aos filmes anteriores da grife, mas após sair da sala de cinema, ouvi alguns comentários de quem assistiu a todos esses filmes de que este terceiro é o melhor. Não duvido.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Terry Crews como Caesar, parceiro de Barney Ross e que é atingido de maneira mortal por Stonebanks; Glen Powell como Thorn, o hacker da nova turma de The Expendables; Victor Ortiz como Mars, especialista em armas da nova leva; Ronda Rousey, mulher boa de sopapos e que atua com os anteriores; Kellan Lutz como Smilee, o líder natural da nova turma; Jet Li em quase uma ponta como o apoio de Drummer (Harrison Ford) no momento da ação; e o veterano Robert Davi como Goran Vata, que vai fazer negócios com Stonebanks.

Especialmente engraçada a participação do Schwarze neste filme. Ele aparece quase como a “voz da razão” de Stallone, e muitas vezes brinca com o fato de estar com tédio – como se o protagonista da produção fosse um tanto “mole”, mais que o Schwarze. Engraçado. Mais que a maioria da interpretação exagerada de Banderas – e, por isso mesmo, Stallone acerta ao tirar sarro do ator neste sentido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 93 textos negativos e 48 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 34% e uma nota média 4,9.

Termino por aqui, provisoriamente, os comentários sobre esta produção. Assim que possível, falo de outros aspectos do filme. Abraços e até logo!

CONCLUSÃO: O que esperar de um filme como The Expendables 3? Certamente muitas e variadas cenas de ação, incluindo perseguições, tiroteios sem fim e pancadarias “mano a mano”. Pois bem, esta produção apresenta tudo isso e mais um desfile surpreendente de astros. O roteiro tem diversos momentos de ironia, inclusive autorreferencial, com tiradas relacionadas ao estilo dos atores e de filmes do gênero. Para quem procura este formato de filme, é certeza de diversão e entretenimento. Recomendo.