Green Book – Green Book: O Guia

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Um filme sobre pessoas comuns, que normalmente não conviveriam, compartilhando uma viagem para dentro de um país segregado. Green Book é um filme singelo, sem muita inovação, mas que nos mostra, com muita simplicidade, como atitudes e crenças podem mudar com a convivência com o “diferente”. Em um país ainda marcado pelo preconceito racial, Green Book serve como um bom exemplo real de quebra de preconceitos sem grandes esforços ou firulas. Filme bacana, mas longe de ser excepcional.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em uma história real. Na cidade de Nova York, em 1962, vemos a movimentação em frente ao clube Copacabana. Lá dentro, o cantor Bobby Rydell (Von Lewis) saúda o público e afirma que está feliz de estar ali. Na noite de sábado no Copa, um dos seguranças do local, Tony Lip (Viggo Mortensen), acomoda um casal em um local privilegiado do salão e recebe uma “gorjeta” por isso. Na chapelaria, Sr. Loscudo (Joe Cortese) pede para a funcionária guardar o chapéu dele como se fosse a própria vida. Tony faz o chapéu desaparecer e, com a confusão que se forma no final da noite, o clube fecha por dois meses. Nesse período, Tony deve encontrar um outro trabalho, e é assim que ele vira motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Green Book): Estava com uma expectativa boa antes de começar a assistir a esse filme. Primeiro, pelos atores envolvidos no projeto. Gosto muito de Viggo Mortensen e de Mahershala Ali. Depois, pelas premiações que assisti até agora, fiquei sabendo um pouco sobre a história e ela me parecia interessante.

O filme não decepciona. A história é simples, como eu imaginava, mas relevante. Afinal, nunca é demais para os Estados Unidos e para todo nós lembrarmos da época em que havia locais para negros e para brancos. Esse passado é ainda recente e traz divisões para aquele país – e em outros locais, ainda que a segregação neles não tenha sido calçada por leis ou normas.

O filme está focado em um personagem e na sua “aventura” para o interior do país trabalhando como motorista de um músico conhecido e renomado. O protagonista é o “simplório” italiano vivido por Mortensen, Tony, que sempre viveu e continuará vivendo no bairro do Bronx, em Nova York. Ele não tem muitos estudos ou cultura, mas é o típico italiano grande, esperto e bom de briga. Por ter essas características, ele é sempre chamado para alguns “trabalhos”.

Não fica evidente no filme, mas sugerido, que Tony está cercado de vários “carcamanos”, homens que gostam de cobrar dívidas e de usar a violência para conseguirem o respeito para os seus chefões. Tony conhece essa realidade de perto, cresceu nela, mas não parece tão afeito a aceitar empregos que podem lhe levar até a crimes. Ele respeita todos esses italianos, mas não se deixa levar – ao fechar o clube em que trabalha para cair nas graças de um “chefão”, ele cogita voltar a dirigir caminhões de lixo antes de cair nos “trabalhos” de uma das máfias locais.

Como ficará dois meses “desempregado” e precisando arranjar qualquer dinheiro para pagar as contas da casa – especialmente o aluguel semanal -, ele aceita a sugestão de fazer a entrevista para ser o motorista de um médico. Chegando no local, ele conhece o diferenciado e um tanto extravagante Dr. Don Shirley que, logo ele vai descobrir, não é nenhum médico, mas um músico reconhecido e aclamado.

Gostei do roteiro simples de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly. Eles apresentam o nosso “herói” de maneira muito simples, sem floreios ou tentando transformá-lo em um cara maior do que ele é. Tony é um sujeito simples, e é isso o que vemos em cena. Inicialmente, ele tinha preconceito com os negros – como parece que a maioria dos italianos do Bronx e/ou da família dele. Tony e os familiares dão a entender que não gostam de negros dentro de casa, trabalhando para eles, mas que aceitam se for necessário.

Precisando de dinheiro, ele topa trabalhar para Shirley. Por grande parte do filme, ele não entende o porquê do músico aceitar o preconceito que ele recebe na região Sul do país. Os músicos que formam o trio com Shirley, Oleg (Dimiter D. Marinov) e George (Mike Hatton), tentam explicar para ele as razões dele ter pedido por aquela turnê pelo território segregacionista do país.

Para mudar a realidade, não basta alguém ter talento, ele precisa ter coragem. Ou seja, enfrentar o preconceito e mostrar, com o seu talento e elegância, que um negro pode ser genial e único, inigualável em relação ao que faz. Além disso, acredito, Shirley queria experimentar na pele o que várias outras pessoas também vivenciavam. Como ele mesmo comenta, em certo trecho do filme – única parte um tanto “exagerada” da produção, já que não vejo como tão necessário o pedido dele de parar o carro e sair dele -, ele não se encaixava em nenhum grupo.

Para os brancos, ele era talentoso, até genial, mas não era branco suficiente para ser reconhecido desta forma; para os negros, ele vivia em um círculo de pessoas inacessível, ganhando dinheiro que eles nunca ganhariam na vida e sendo, desta forma, menos “negro” do que deveria. Em resumo, Shirley não era exatamente aceito entre os brancos e os negros e, por isso, ele se sentia sempre deslocado – e solitário.

A queda de preconceitos serve para o protagonista desta produção também. Tony acaba apreciando e admirando o talento de Shirley, enquanto o músico, com dois doutorados e um nível cultural muito maior que o do motorista, também aprende com o seu jeito simples e franco. Os dois olham verdadeiramente um para o outro e, na convivência diária, aprendem com as suas realidades diferentes e com as suas maneiras diversas de lidar com os problemas e com os desafios.

Interessante como Tony tem uma opinião bastante formada sobre o que os negros comem ou a música que eles escutam. Sim, de fato Shirley não fazia parte do “negro padrão” daqueles dias. Ele não tinha uma vida comum, não era um homem que trabalhava nos campos ou em um subemprego, como tantos outros daquela época. Então Tony aprende que não existe apenas um gosto por raça, assim como Shirley percebe como pode comer um frango frito com as mãos e sentir prazer com algo tão simples.

Naquela discussão no carro, Tony também fala como todos tem uma visão sobre os italianos – que todos comem pizza e falam alto. Bem, ele não parece fugir do padrão, mas isso não o impede de aprender com o diferente. Mesmo sem muita educação ou cultura, ele aprende com Shirley e também ensina algo para ele.

Mesmo Tony fazendo parte do padrão dos italianos do Bronx daquela época, certamente havia italianos que não seguiam aquele padrão, e isso acontece em qualquer parte, com qualquer cor de pele ou cultura. E mesmo quem segue um padrão, certamente se diferencia em algum aspecto. Eis um dos ensinamentos “naturais” desta produção. Nunca simplifique ou generalize demais.

Uma viagem vale sempre pelo que encontramos pelo caminho. Em Green Book, temos mais um exemplo sobre isso. O roteiro simples e honesto, baseado em uma história relativamente simples também, é uma das maiores qualidades da produção. Agradeço pelo trio Vallelonga, Currie e Farrelly não terem floreado muito a história, tentando torná-la mais complexa ou “comovente” do que ela é naturalmente. Isso é um ponto positivo. Por outro lado, a narrativa linear e a viagem um tanto “previsível” de Lip e Shirley prejudicam um pouco o filme, que acaba não mostrando nenhuma grande “inovação” ou reviravolta.

Sim, isso é compreensível para um filme com este perfil. Esse fato não desqualifica a produção, mas também não a torna inesquecível. Para resumir, Green Book é um belo filme, com ótimas interpretações e um trabalho bastante honesto dos roteirista e do diretor Peter Farrelly.

Dentre os concorrentes deste ano, sem dúvida alguma é o filme que apresenta a mensagem mais bacana e uma das mais importantes. Isso fará com que ele ganhe o Oscar de Melhor Filme? Talvez. Em um ano com uma safra meio fraca, como este, não seria ruim Green Book levar o prêmio principal da noite. Afinal, ele trata de americanos comuns, de um grande talento e de um país que ainda precisa resolver os seus problemas de divisão. Para os Estados Unidos, esta produção é especialmente importante. E, para todos nós, que não nascemos lá, ela nos faz pensar e valorizar bons exemplos. Apenas por isso, o filme merece o seu destaque e ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mahershala Ali tem recebido alguns dos principais prêmios por seu trabalho como Dr. Don Shirley. Ele realmente faz um belo trabalho, sem grandes rompantes, mas muito condizente com o personagem no qual ele deve se inspirar. A interpretação de Ali é elegante, cheia de pequenos detalhes e de imersão no personagem. Não podemos pedir nada mais para um grande ator como ele.

Ainda que menos premiado, Viggo Mortensen faz uma parceria perfeita com Ali. O personagem dele, do italiano que não para de falar e comer, é mais “espalhafatoso”, mas Mortensen também mergulha muito bem nos trejeitos e no jeito de falar dele. Interpretações realmente incríveis. Os personagens não poderiam ser mais diferentes, um do outro e, ainda assim, eles encontram pontos em comum e de convivência. Um exemplo para todos nós.

Não achei o roteiro de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly excepcional, mas o trabalho deles é muito coerente com a história que lhes inspirou. Achei quase todo o material muito bem acertado, com o desconto de um ou dois trechos um tanto exagerados demais – especialmente aquele em que Shirley pede para o motorista parar em uma noite de chuva em que ele está falando como é mais “negro” que o músico porque vive em contato com as ruas. De fato, ele pode ter pedido para Tony parar o carro, mas achei a cena um tanto exagerada na versão final.

Os grandes nomes da produção são Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Grande parte da história está centrada neles e na relação que ambos estabelecem durante a turnê do músico. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Linda Cardellini como Dolores, esposa de Tony; Sebastian Maniscalco como Johnny Venere, irmão de Tony; Dimiter D. Marinov como Oleg, que toca violoncelo no trio de Shirley; Mike Hatton como George, que toca baixo no trio; Joe Cortese em uma ponta como o mafioso Gio Loscudo; Maggie Nixon como a garota que guarda o chapéu de Loscudo no Copacabana; Von Lewis em uma ponta como o cantor Bobby Rydell; e os garotos Hudson Galloway e Gavin Lyle Foley como Nick e Frankie Vallelonga, filhos de Tony. Completam a família de Tony os atores Rodolfo Vallelonga e Louis Venere, respectivamente os avós Nicola e Anthony; e Frank Vallelonga como Rudy Vallelonga. Da família Venere, sobrenome de solteira da esposa de Tony, aparecem ainda Don DiPetta como Louie Venere; Jenna Laurenzo como Fran Venere; e Suehyla El-Attar como Lynn Venere.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaco a trilha sonora de Kris Bowers; a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Patrick J. Don Vito; o design de produção de Tim Galvin; a direção de arte de Scott Plauche; a decoração de set de Selina van den Brink; e os figurinos de Betsy Heimann.

Green Book estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros 21 festivais em diversos países pelo mundo até janeiro de 2019. Na sua trajetória até aqui, o filme ganhou 46 prêmios e foi indicado a outros 90 – incluindo a indicação em cinco categorias do Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali e Melhor Filme – Musical ou Comédia no Globo de Ouro 2019; para o de Melhor Ator Coadjuvante para Maheshala Ali no Prêmio BAFTA; para o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali no Screen Actors Guild Awards; e para outros 12 prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali em diferentes premiações; 11 prêmios de Melhor Filme; 4 prêmios de Melhor Roteiro; 1 prêmio de Melhor Elenco e 4 prêmio de Melhor Ator para Viggo Mortensen.

Antes de filmar, Viggo Mortensen foi convidado para conhecer a família de Nick Vallelonga durante um jantar de seis horas. Ele passou mal porque ainda não tinha começado a engordar e a expandir o estômago. Durante o jantar, ele se sentiu “obrigado” a terminar cada prato, e a família não parava de servir para ele um prato novo. Depois de sair do jantar, ele andou um pouco com o carro e teve que se deitar no banco de trás para lidar com toda a comida que tinha ingerido. Realmente, os Vallelonga parece apreciarem muito a comida.

Agora, algo curioso sobre esta produção. Quando Green Book foi lançado, a família de Shirley se opôs à mensagem da produção dizendo que Tony e Shirley nunca tinham sido amigos, alegando que eles tiveram apenas uma relação “empregador-empregado”. Em janeiro de 2019, gravações de uma entrevista com Shirley surgiram em que ele fala sobre a relação com Tony: “Confiei nele implicitamente. Você vê, não era só o meu motorista, nunca tivemos uma relação empregador/empregado. Você não tem tempo para esta besteira. Minhas vidas estava na mão desse homem! Então você tem que ser amigável um com o outro”.

A peça de piano que Shirley toca no bar e emociona a todos é Etude Op. de Chopin 25 nº 11, “Vento de Inverno”, uma das peças mais difíceis de serem tocadas, com nota 9 (mais alta) na escala de Níveis de Dificuldade de Henle. Quando eu escutei, no filme, achei que fosse uma obra de um dos compositores clássicos, mas não sabia exatamente de quem ou qual. Foi bom ter essa informação de que era Chopin. 😉

Kris Bowers, o compositor do filme, foi o pianista de Mahershala Ali. A exemplo de Shirley, ele também só toca em pianos Steinway, todos feitos à mão. Segundo o pianista, porque esses pianos projetam o som como nenhum outro instrumento.

A cena da pizza é inspirada na vida real. Nick Vallelonga disse que Tony costumava pedir uma torta inteira de pizza, dobrá-la e comê-la. Ao ouvir sobre isso, Mortensen pediu para a cena ser incluída no filme, mas o diretor e roteirista Farrelly disse que já haviam cenas “alimentares engraçadas” demais na produção. Mas quando eles incluíram a cena e todos da produção começaram a rir, o diretor resolveu deixar ela no filme.

O filme é dedicado a “Larry the Crow”, um pássaro que pairava em torno do local das filmagens. O ator Viggo Mortensen cuidou dele depois que ele foi atropelado por um carro.

O título do filme é uma referência ao “Livro Negro dos Motoristas Negros”, conhecido também como “Livro Verde dos Viajantes Negros”. Publicado entre 1936 e 1966, o guia ajudava viajantes afro-americanos a encontrar locais em que eles poderiam dormir, comer e outros estabelecimentos comerciais que eles poderiam frequentar em locais que segregavam brancos e negros. Esse livro acabou cobrindo não apenas a América do Norte, mas também Bermudas e o Caribe.

Depois da viagem de dois meses que vemos em cena em Green Book, Tony e Shirley continuaram em contato. Depois da experiência que vemos no filme, eles entraram em uma turnê que durou quase um ano. Além disso, o músico pediu a Tony que se tornasse o seu motorista e guarda-costas durante a sua turnê europeia, mas Tony recusou o trabalho para não ficar mais tempo longe da sua família. Para Nick Vallelonga, Shirley era amigo da família.

Depois de assistir ao filme, o jazzista Quincy Jones comentou: “Eu tive o prazer de me familiarizar com Don Shirley enquanto eu trabalhava como arranjador em Nova York nos anos 1950, e ela era, sem dúvida, um dos maiores pianistas da América. Tão habilidoso músico como Leonard Bernstein ou Van Cliburn. Portanto, é maravilhoso que sua história esteja finalmente sendo contada e celebrada. Mahershala, você fez um trabalho absolutamente fantástico interpretando-o, e eu acho que a performance de Viggo Mortensen e dele se transformaram em uma grande amizade que foi capturada pelo filme”.

Viggo Mortensen realmente comeu os cachorros-quentes na cena da aposta. A equipe de produção forneceu para ele um balde no qual ele poderia cuspir as partes mastigadas após as tomadas, mas ele achou melhor engolir a comida, simplesmente. Nessa história, ele realmente comeu 15 cachorros-quente.

Este é o primeiro Drama dirigido por um dos irmãos Farrelly, mais conhecidos por sua carreira de comédias.

Existe pouca informação sobre Don Shirley. Embora alguns detalhes de sua trajetória sejam contraditórios, o que se afirma como mais seguro é que ele teria se juntado ao Conservatório Rimsky-Korsakov de São Petesburgo aos 9 anos de idade e que teria feito o seu primeiro concerto aos 18 anos de idade na Orquestra Boston Pops. Depois, ele conseguiu vários diplomas, doutorados e aprendeu diversas línguas. O primeiro álbum dele, Tonal Expressions, foi lançado em 1955. Stravinsky, um pianista legendário, disse que o “virtuosismo (de Shirley) era digno dos deuses”. Apesar de ter estudado todos os clássicos, Shirley foi dissuadido pelos líderes da indústria fonográfica a seguir esta carreira dos clássicos porque ele não seria bem aceito pelo público branco.

A família de Shirley questionou o filme, dizendo que o músico nunca teria sido amigo de Tony.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 228 críticas positivas e 59 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3. No site Metacritic, o filme ostenta o “metascore” 69, fruto de 37 críticas positivas, 13 medianas e 2 negativas. Interessante como a avaliação do público é bem melhor que a da crítica. Talvez porque as pessoas queiram mais histórias de pessoas comuns.

Segundo o site Box Office Mojo, Green Book faturou US$ 61,5 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 44,6 milhões nos cinemas dos outros países em que a produção estreou. Assim, o filme que teria custado cerca de US$ 23 milhões faturou, até o momento, pouco mais de US$ 106,1 milhões. Um sucesso de bilheteria, sem dúvida.

Green Book é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Uma parceria em cena incrível, entre dois atores, e uma história simples mas cheia de valor. Isto foi o que eu exprimi de Green Book. A história, evidentemente, faz uma homenagem a dois homens, um gênio da música e o outro uma pessoa simples que era boa em “resolver problemas”, que se aproximaram para uma viagem ao Sul segregacionista dos Estados Unidos. O contato entre eles e a amizade que surgiu em dois meses de viagem demonstram como todas as pessoas podem se entender e aprender uma com as outras, se assim o desejarem. Filme bacana, com uma história simples e envolvente e grandes interpretações, Green Book tem uma narrativa linear e previsível. Isso não chega a atrapalhar o filme, mas também não o transforma em uma obra acima da média.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Green Book concorre em cinco categorias no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para começar, o filme concorre com Mahershala Ali na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

Pelas premiações vistas até aqui, ele é o favoritíssimo para levar esse prêmio. E avaliando o trabalho dele nesta produção, com um desempenho equilibrado, honesto e bastante elegante, Ali realmente merece o prêmio. Falta assistir ainda a Richard E. Grant em Can You Ever Forgive Me?, mas entre Ali, Adam Driver, Sam Elliott e Sam Rockwell – já assisti a Vice, o próximo que vou comentar por aqui -, realmente fico com Ali. Considero quase impossível, pelo histórico conquistado pelo ator até aqui, ele perder nessa categoria. Então, temos 1 Oscar já para Green Book.

Depois, o filme concorre na categoria Melhor Edição. Um páreo duríssimo, mesmo sem First Man na disputa. Apesar da edição de Green Book ser boa, gostei mais do trabalho de Vice e The Favourite – ou até mesmo de BlacKkKlansman. Ainda preciso ver a Bohemian Rhapsody, mas acho que Green Book corre por fora nesta disputa.

Parceiro constante de Ali nesta produção, Viggo Mortensen foi indicado como Melhor Ator. Ele faz um belo trabalho, sem dúvida, mas terá um páreo duríssimo com Christian Bale, que está ótimo em Vice, e com Rami Malek, que já ganhou alguns prêmios por seu desempenho em Bohemian Rhapsody. Como acredito que a grande disputa está entre Bale e Malek, Mortensen corre por fora nesta categoria também.

Green Book também foi indicado como Melhor Filme. Não é impossível a produção vencer, porque este ano não existe, me parece, um franco favorito. Caso a Academia escolher Green Book, no lugar de BlacKkKlansman, por exemplo, seria a premiação de um bom filme, que trata de pessoas comuns e que critica o racismo nos Estados Unidos de forma mais branda do que a produção de Spike Lee. Francamente, até o momento, nenhum filme ainda realmente me convenceu de ser o melhor do ano, mas me parece que Vice e The Favourite são obras mais complexas e com maior ousadia – não sei se isso lhes torna melhores filmes, mas é um fato.

Finalmente, Green Book concorre também na categoria Melhor Roteiro Original. Parada duríssima também, já que a produção concorre com roteiros bastante complexos e interessantes, como Vice e The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia e no filme que querem consagrar nesta edição. Podem até premiar Roma nesta categoria – não seria uma surpresa. Gosto de Green Book, mas não sei se ele terá força para ganhar.

Em resumo, Green Book pode levar um prêmio para casa, o de Melhor Ator Coadjuvante, ou até 3, me parece – adicionando Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia. Difícil prever. O filme é bom e não seria um desperdício consagrá-lo, especialmente em um ano com uma safra relativamente fraca como é o caso deste ano.

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The Founder – Fome de Poder

Persistência, ambição e falta de escrúpulos. Esta pode ser a fórmula de “sucesso” de muitos homens. The Founder conta uma destas histórias. Mostra como um conglomerado global foi criado e como ele teve como uma figura chave do processo justamente um sujeito que seguiu esta fórmula. Com um ótimo roteiro, um grande elenco e uma direção afinada de John Lee Hancock, temos neste filme a história da rede de lanchonetes McDonald’s. Querendo uma não, uma “bela” história da cultura americana.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que este filme é baseado em uma história real. Ray Kroc (Michael Keaton) lança o seu discurso para mais um potencial comprador. Ele fala que o cliente vai vender muito mais milk-shake se ele comprar a máquina que ele está vendendo. Aumentando a oferta, ele também vai aumentar a demanda, seguindo a lógica do ovo e da galinha, garante Kroc. Ele vive visitando drive-thrus tentando vender a sua máquina de cinco eixos para acelerar o processamento de milk-shakes, mas sem sucesso.

A história começa em Saint Louis, cidade do Missouri, em 1954. Kroc não tem sucesso em suas investidas, até que fica sabendo de uma empresa que ligou para o escritório dele pedindo seis máquinas. Ele não acredita, liga para o local, e acaba falando com Dick McDonald (Nick Offerman). Curioso para saber quem teria “bala na agulha” para comprar tantas máquinas de uma vez, Kroc viaja até San Bernardino, na Califórnia, para ver de perto o negócio dos McDonald’s.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Founder): Eu fui assistir a este filme sem muitas expectativas. Bem, eu sabia que se tratava da história do McDonald’s, claro. Mas eu não sonhava que The Founder seria uma crônica mordaz sobre o pior lado do “sonho americano”. O filme se debruça como poucos nos desdobramentos de um homem que é ambicioso e que passa como uma patrola sobre todos para conseguir tudo o que deseja.

Como o bom cinema pede para qualquer realizador, The Founder vai crescendo em narrativa e em interesse pouco a pouco. Francamente, eu não sabia nada sobre a história do conglomerado McDonald’s até assistir ao filme. Acredito que a impressão sobre esta produção será diferente para pessoas que já conheciam bastante a história. Para mim, foi uma grande surpresa tudo que The Founder revelou.

Não há dúvidas que o protagonista Ray Kroc (Michael Keaton) teve muita ousadia. Para começo de história, claro. Ao mesmo tempo, Dick (Nick Offerman) e Mac McDonald (John Carroll Lynch) eram o contrário dele. Pessoas simples, daquelas que acreditam na palavra dos outros e não tem malícia, eles contavam para quem quisesse ouvir como eles haviam revolucionado o setor de lanchonetes nos anos 1950 – o filme começa em 1954, para ser mais exata. E foi assim que, encontrando um “espertalhão” como Kroc pela frente, eles se deram mal.

O roteiro de Robert D. Siegel é um primor. Como o cartaz mesmo do filme sugere, esta produção conta a história de Kroc, sob a perspectiva dele. É assim que o acompanhamos desde que ele vendia máquinas de milkshake e até ele encontrar os irmãos McDonald e o seu modelo revolucionário de fazer e vender hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes. Como a narrativa de Siegel é bem construída, no início você pode até pensar, como eu, que sem Kroc nós jamais teríamos um McDonald’s a cada esquina.

Ele realmente soube construir e encarnar muito bem o “espírito americano” ao negócio, fazendo o McDonald’s ser tão ianque e colonizador quanto o próprio país. A sacada dele foi realmente preciosa. Sem dúvida alguma o McDonald’s original jamais teria se tornado o que se tornou sem esta figura. Até aí, tudo bem, se ele tivesse feito tudo com respeito aos criadores do conceito e proprietários do nome. Mas não, ele não teve respeito nenhum por eles.

Conforme foi ganhando dinheiro e espalhando lanchonetes do McDonald’s pelos Estados Unidos, os “olhos” de Kroc “cresceram”. Com o ego bem alimentado e se sentindo poderoso, inteligente, capaz de tudo, ele foi passando como uma patrola sobre quem aparecesse pela frente. Este é o problema da ambição, do gosto pelo poder e pelo dinheiro. As pessoas que se deixam “encantar” por todos estes ingredientes ou por um deles se perdem.

Claro que Kroc não teria conseguido tudo o que conseguiu se ele não tivesse cruzado com Harry J. Sonneborn (B.J. Novak). Foi ele que mostrou de onde, realmente, sairia o dinheiro da companhia. Não seria de uma pequena porcentagem da vendas de combos baratos, mas da compra de terrenos que dariam depois renda permanente através da cobrança dos franqueados. E foi assim que a rede McDonald’s cresceu e multiplicou resultados.

Até um certo momento do filme, você fica admirado(a) pela história dos irmãos McDonald e pela ousadia de Kroc em abraçar aquela ideia e crescer com ela. Mas depois, quando percebemos como ele vai mudando de postura conforme ganha fama e dinheiro, logo presumimos que essa história não pode acabar bem. E não acaba, realmente. Ao menos para os irmãos que criaram todo o conceito do negócio. Por tudo isso, o trabalho de Siegel e de Hancock é exemplar.

Eles tem a ousadia de fazer um retrato mordaz sobre o homem que fez o conceito McDonald virar um conglomerado global. Não é para poucos. É preciso coragem e talento para contar uma história como esta sem querer tapar o sol com uma peneira. Em The Founder não temos isso. Somos apresentados a uma história interessante, com muitas lições sobre empreendedorismo e sobre como um negócio pode ser deturpado pelas mãos de alguém que tem pouco ou nenhum escrúpulo.

Como eu disse antes, The Founder acaba sendo um retrato impressionante sobre muitas e muitas empresas gigantes e que são vistas como “importantes” pelo mundo. Certamente em quase todos esses casos alguma história obscura sobre tanto poder e dinheiro foi escondida. Pois bem, The Founder nos revela uma destas histórias escondidas, ajudando a lançar luz também sobre o pior lado da ambição e do capitalismo como sistema que permite a premiação deste tipo de gente sem escrúpulos.

Quer dizer, a Humanidade ainda não criou um sistema econômico em que os valores estão no centro das trocas e das relações. Infelizmente. O capitalismo fomenta histórias bacanas e histórias podres como esta contada por este filme. Ainda não inventamos nada melhor, possivelmente porque nós, como coletivo, também não sejamos melhores. Afinal, quantas pessoas, após assistir a este filme, farão escolhas melhor de consumo? Imagino que pouquíssimas. Quantas abririam mão de fortuna e de sucesso para manter os seus valores éticos? Este filme nos levanta todas estas questões. Por tudo isso, achei ele brilhante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fascinante a reconstrução de época orquestrada pela equipe do diretor John Lee Hancock. Voltamos realmente aos anos 1950 nos Estados Unidos. Além da direção muito bem feita de Hancock, que sabe valorizar os ambientes e as interpretações de seus atores, este filme se destaca pelo excelente roteiro de Robert D. Siegel e, claro, pelo elenco escolhido à dedo. Cada elemento técnico do filme funciona à perfeição, junto com o roteiro, a direção e o elenco. Nada a criticar negativamente.

Algo que eu gostei neste filme é como ele mostra a genialidade dos irmãos McDonald’s. Eles realmente revolucionaram o setor das lanchonetes. Muito interessante como The Founder mostra como eles chegaram lá e de que forma eles construíram o conceito de lanchonete enxuta e eficiente. Ray Kroc teve ousadia, sem dúvida, mas não foi ele que teve nenhuma sacada para o negócio propriamente dito.

Tive curiosidade de saber o quanto o filme foi fidedigno com a história original, e ao ler este texto da Time, eu diria que a grande sacada de Kroc foi de marketing. Afinal, ele soube explorar o nome McDonald’s e criar a figura de Ronald McDonald para vender muito para um público fundamental para a marca, as crianças. No mais, ele foi tudo o que esta produção conta. Fui obrigada também a pesquisar como o próprio McDonald’s hoje conta a sua história. Lendo esta explicação fica claro que a empresa incluiu uma linha sobre os grandes responsáveis pelo modelo da empresa mas que tudo o mais gira em torno de Kroc. Acho que nem preciso dizer mais nada, não é mesmo?

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de John Schwartzman, muito coerente com a época e elemento importante para nos situar nos anos 1950; a ótima edição de Robert Frazen; a música bem pontual e bacana de Carter Burwell; o design de produção de Michael Corenblith; a decoração de set de Susan Benjamin; os figurinos de Daniel Orlandi; e o ótimo trabalho dos 34 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis desde a construção de cenários e até o design gráfico da produção.

O elenco é fantástico. Outro ponto fortíssimo do filme – eu diria que tão fundamental quanto o roteiro e a direção. Michael Keaton está soberbo. Ele convence em cada cena e humaniza a figura sem escrúpulos que vemos em cena. Apenas perto do final conseguimos ter “ódio” dele. 😉 Os atores Nick Offerman e John Carroll Lynch, que vivem os irmãos McDonald, também estão soberbos. Fazem um grande trabalho. O filme não seria o mesmo sem eles.

Além deste trio de atores soberbo, vale citar o elenco de coadjuvantes que também faz um grande trabalho: B.J. Novak se sai muito bem como Harry J. Sonneborn; Laura Dern está bem como Ethel Kroc, esposa do protagonista; Patrick Wilson como Rollie Smith, dono de restaurante que acaba virando um dos franqueados da rede; Linda Cardellini como Joan Smith, mulher de Rollie; Justin Randell Brooke como Fred Turner, funcionário de Kroc e que acaba se transformando em um dos seus sócios; Kate Kneeland como June Martino, secretária de Kroc; e Adam Rosenberg como o funcionário do McDonald’s original que rouba a cena quando atende Kroc. Há vários outros coadjuvantes, mas nenhum sem grande destaque para a narrativa.

No texto da Time que eu citei, eles falam sobre o livro que Kroc escreveu e sobre a matéria que a própria Time fez sobre ele. No texto, eles comentam que diferente do que o filme mostra, os irmãos McDonald’s já tinham algumas franquias antes de Kroc aparecer na vida deles. Ora, o filme fala sobre isso. Eles deixam claro que os McDonald’s já tinham franquias, mas que não queriam mais seguir com este modelo de negócios porque achavam complicado garantir a mesmo qualidade que eles queriam em franquias que não estivessem próximas. Kroc acaba os convencendo, mas o filme é bastante preciso nesta informação.

O diretor texano John Lee Hancock tem oito filmes em seu currículo. Antes, eu assisti dele The Blind Side (comentado aqui) e Saving Mr. Banks (com crítica neste link). Não tenho dúvida alguma ao afirmar que The Founder é o melhor filme do diretor até agora.

The Founder teria custado US$ 7 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 12,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase US$ 7,6 milhões. Ou seja, no acumulado, tem pouco mais de US$ 20 milhões. Já se pagou e está obtendo lucro. Ainda que pequeno, comparado com outros filmes. Como ele não tem uma propaganda massiva, certamente fará sucesso na propaganda boca a boca.

Até o momento The Founder ganhou um prêmio e foi indicado a outros três. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Ator para Michael Keaton no Capri – ele dividiu o prêmio com Andrew Garfield por seu trabalho Hacksaw Ridge (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 150 críticas positivas e 32 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são bons, mas para o meu gosto eles poderiam ser um pouco maiores. Talvez o pessoal que gosta do McDonald’s não gostou muito de saber a história por trás da marca. 😉

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso ela entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que mostra bem o “espírito americano”. Uma sociedade baseada no ideário do sucesso, da persistência que leva o homem ou a mulher até o êxito que, geralmente, significa dinheiro. The Founder nos conta a impressionante e pouco comentada história por trás da rede McDonald’s. Como as pessoas que realmente criaram a fórmula foram passadas para trás. Um grande filme sobre o pior lado do capitalismo e da ambição humana. Este é um “case” do gênero famoso, mas quantos mais do mesmo tipo não teremos por aí? Certamente muitos. E o que tudo o que o protagonista desta história lhe garantiu? Certamente não a vida eterna. Grande filme. Muito bem realizado e que nos faz pensar.