Green Book – Green Book: O Guia

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Um filme sobre pessoas comuns, que normalmente não conviveriam, compartilhando uma viagem para dentro de um país segregado. Green Book é um filme singelo, sem muita inovação, mas que nos mostra, com muita simplicidade, como atitudes e crenças podem mudar com a convivência com o “diferente”. Em um país ainda marcado pelo preconceito racial, Green Book serve como um bom exemplo real de quebra de preconceitos sem grandes esforços ou firulas. Filme bacana, mas longe de ser excepcional.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em uma história real. Na cidade de Nova York, em 1962, vemos a movimentação em frente ao clube Copacabana. Lá dentro, o cantor Bobby Rydell (Von Lewis) saúda o público e afirma que está feliz de estar ali. Na noite de sábado no Copa, um dos seguranças do local, Tony Lip (Viggo Mortensen), acomoda um casal em um local privilegiado do salão e recebe uma “gorjeta” por isso. Na chapelaria, Sr. Loscudo (Joe Cortese) pede para a funcionária guardar o chapéu dele como se fosse a própria vida. Tony faz o chapéu desaparecer e, com a confusão que se forma no final da noite, o clube fecha por dois meses. Nesse período, Tony deve encontrar um outro trabalho, e é assim que ele vira motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Green Book): Estava com uma expectativa boa antes de começar a assistir a esse filme. Primeiro, pelos atores envolvidos no projeto. Gosto muito de Viggo Mortensen e de Mahershala Ali. Depois, pelas premiações que assisti até agora, fiquei sabendo um pouco sobre a história e ela me parecia interessante.

O filme não decepciona. A história é simples, como eu imaginava, mas relevante. Afinal, nunca é demais para os Estados Unidos e para todo nós lembrarmos da época em que havia locais para negros e para brancos. Esse passado é ainda recente e traz divisões para aquele país – e em outros locais, ainda que a segregação neles não tenha sido calçada por leis ou normas.

O filme está focado em um personagem e na sua “aventura” para o interior do país trabalhando como motorista de um músico conhecido e renomado. O protagonista é o “simplório” italiano vivido por Mortensen, Tony, que sempre viveu e continuará vivendo no bairro do Bronx, em Nova York. Ele não tem muitos estudos ou cultura, mas é o típico italiano grande, esperto e bom de briga. Por ter essas características, ele é sempre chamado para alguns “trabalhos”.

Não fica evidente no filme, mas sugerido, que Tony está cercado de vários “carcamanos”, homens que gostam de cobrar dívidas e de usar a violência para conseguirem o respeito para os seus chefões. Tony conhece essa realidade de perto, cresceu nela, mas não parece tão afeito a aceitar empregos que podem lhe levar até a crimes. Ele respeita todos esses italianos, mas não se deixa levar – ao fechar o clube em que trabalha para cair nas graças de um “chefão”, ele cogita voltar a dirigir caminhões de lixo antes de cair nos “trabalhos” de uma das máfias locais.

Como ficará dois meses “desempregado” e precisando arranjar qualquer dinheiro para pagar as contas da casa – especialmente o aluguel semanal -, ele aceita a sugestão de fazer a entrevista para ser o motorista de um médico. Chegando no local, ele conhece o diferenciado e um tanto extravagante Dr. Don Shirley que, logo ele vai descobrir, não é nenhum médico, mas um músico reconhecido e aclamado.

Gostei do roteiro simples de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly. Eles apresentam o nosso “herói” de maneira muito simples, sem floreios ou tentando transformá-lo em um cara maior do que ele é. Tony é um sujeito simples, e é isso o que vemos em cena. Inicialmente, ele tinha preconceito com os negros – como parece que a maioria dos italianos do Bronx e/ou da família dele. Tony e os familiares dão a entender que não gostam de negros dentro de casa, trabalhando para eles, mas que aceitam se for necessário.

Precisando de dinheiro, ele topa trabalhar para Shirley. Por grande parte do filme, ele não entende o porquê do músico aceitar o preconceito que ele recebe na região Sul do país. Os músicos que formam o trio com Shirley, Oleg (Dimiter D. Marinov) e George (Mike Hatton), tentam explicar para ele as razões dele ter pedido por aquela turnê pelo território segregacionista do país.

Para mudar a realidade, não basta alguém ter talento, ele precisa ter coragem. Ou seja, enfrentar o preconceito e mostrar, com o seu talento e elegância, que um negro pode ser genial e único, inigualável em relação ao que faz. Além disso, acredito, Shirley queria experimentar na pele o que várias outras pessoas também vivenciavam. Como ele mesmo comenta, em certo trecho do filme – única parte um tanto “exagerada” da produção, já que não vejo como tão necessário o pedido dele de parar o carro e sair dele -, ele não se encaixava em nenhum grupo.

Para os brancos, ele era talentoso, até genial, mas não era branco suficiente para ser reconhecido desta forma; para os negros, ele vivia em um círculo de pessoas inacessível, ganhando dinheiro que eles nunca ganhariam na vida e sendo, desta forma, menos “negro” do que deveria. Em resumo, Shirley não era exatamente aceito entre os brancos e os negros e, por isso, ele se sentia sempre deslocado – e solitário.

A queda de preconceitos serve para o protagonista desta produção também. Tony acaba apreciando e admirando o talento de Shirley, enquanto o músico, com dois doutorados e um nível cultural muito maior que o do motorista, também aprende com o seu jeito simples e franco. Os dois olham verdadeiramente um para o outro e, na convivência diária, aprendem com as suas realidades diferentes e com as suas maneiras diversas de lidar com os problemas e com os desafios.

Interessante como Tony tem uma opinião bastante formada sobre o que os negros comem ou a música que eles escutam. Sim, de fato Shirley não fazia parte do “negro padrão” daqueles dias. Ele não tinha uma vida comum, não era um homem que trabalhava nos campos ou em um subemprego, como tantos outros daquela época. Então Tony aprende que não existe apenas um gosto por raça, assim como Shirley percebe como pode comer um frango frito com as mãos e sentir prazer com algo tão simples.

Naquela discussão no carro, Tony também fala como todos tem uma visão sobre os italianos – que todos comem pizza e falam alto. Bem, ele não parece fugir do padrão, mas isso não o impede de aprender com o diferente. Mesmo sem muita educação ou cultura, ele aprende com Shirley e também ensina algo para ele.

Mesmo Tony fazendo parte do padrão dos italianos do Bronx daquela época, certamente havia italianos que não seguiam aquele padrão, e isso acontece em qualquer parte, com qualquer cor de pele ou cultura. E mesmo quem segue um padrão, certamente se diferencia em algum aspecto. Eis um dos ensinamentos “naturais” desta produção. Nunca simplifique ou generalize demais.

Uma viagem vale sempre pelo que encontramos pelo caminho. Em Green Book, temos mais um exemplo sobre isso. O roteiro simples e honesto, baseado em uma história relativamente simples também, é uma das maiores qualidades da produção. Agradeço pelo trio Vallelonga, Currie e Farrelly não terem floreado muito a história, tentando torná-la mais complexa ou “comovente” do que ela é naturalmente. Isso é um ponto positivo. Por outro lado, a narrativa linear e a viagem um tanto “previsível” de Lip e Shirley prejudicam um pouco o filme, que acaba não mostrando nenhuma grande “inovação” ou reviravolta.

Sim, isso é compreensível para um filme com este perfil. Esse fato não desqualifica a produção, mas também não a torna inesquecível. Para resumir, Green Book é um belo filme, com ótimas interpretações e um trabalho bastante honesto dos roteirista e do diretor Peter Farrelly.

Dentre os concorrentes deste ano, sem dúvida alguma é o filme que apresenta a mensagem mais bacana e uma das mais importantes. Isso fará com que ele ganhe o Oscar de Melhor Filme? Talvez. Em um ano com uma safra meio fraca, como este, não seria ruim Green Book levar o prêmio principal da noite. Afinal, ele trata de americanos comuns, de um grande talento e de um país que ainda precisa resolver os seus problemas de divisão. Para os Estados Unidos, esta produção é especialmente importante. E, para todos nós, que não nascemos lá, ela nos faz pensar e valorizar bons exemplos. Apenas por isso, o filme merece o seu destaque e ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mahershala Ali tem recebido alguns dos principais prêmios por seu trabalho como Dr. Don Shirley. Ele realmente faz um belo trabalho, sem grandes rompantes, mas muito condizente com o personagem no qual ele deve se inspirar. A interpretação de Ali é elegante, cheia de pequenos detalhes e de imersão no personagem. Não podemos pedir nada mais para um grande ator como ele.

Ainda que menos premiado, Viggo Mortensen faz uma parceria perfeita com Ali. O personagem dele, do italiano que não para de falar e comer, é mais “espalhafatoso”, mas Mortensen também mergulha muito bem nos trejeitos e no jeito de falar dele. Interpretações realmente incríveis. Os personagens não poderiam ser mais diferentes, um do outro e, ainda assim, eles encontram pontos em comum e de convivência. Um exemplo para todos nós.

Não achei o roteiro de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly excepcional, mas o trabalho deles é muito coerente com a história que lhes inspirou. Achei quase todo o material muito bem acertado, com o desconto de um ou dois trechos um tanto exagerados demais – especialmente aquele em que Shirley pede para o motorista parar em uma noite de chuva em que ele está falando como é mais “negro” que o músico porque vive em contato com as ruas. De fato, ele pode ter pedido para Tony parar o carro, mas achei a cena um tanto exagerada na versão final.

Os grandes nomes da produção são Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Grande parte da história está centrada neles e na relação que ambos estabelecem durante a turnê do músico. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Linda Cardellini como Dolores, esposa de Tony; Sebastian Maniscalco como Johnny Venere, irmão de Tony; Dimiter D. Marinov como Oleg, que toca violoncelo no trio de Shirley; Mike Hatton como George, que toca baixo no trio; Joe Cortese em uma ponta como o mafioso Gio Loscudo; Maggie Nixon como a garota que guarda o chapéu de Loscudo no Copacabana; Von Lewis em uma ponta como o cantor Bobby Rydell; e os garotos Hudson Galloway e Gavin Lyle Foley como Nick e Frankie Vallelonga, filhos de Tony. Completam a família de Tony os atores Rodolfo Vallelonga e Louis Venere, respectivamente os avós Nicola e Anthony; e Frank Vallelonga como Rudy Vallelonga. Da família Venere, sobrenome de solteira da esposa de Tony, aparecem ainda Don DiPetta como Louie Venere; Jenna Laurenzo como Fran Venere; e Suehyla El-Attar como Lynn Venere.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaco a trilha sonora de Kris Bowers; a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Patrick J. Don Vito; o design de produção de Tim Galvin; a direção de arte de Scott Plauche; a decoração de set de Selina van den Brink; e os figurinos de Betsy Heimann.

Green Book estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros 21 festivais em diversos países pelo mundo até janeiro de 2019. Na sua trajetória até aqui, o filme ganhou 46 prêmios e foi indicado a outros 90 – incluindo a indicação em cinco categorias do Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali e Melhor Filme – Musical ou Comédia no Globo de Ouro 2019; para o de Melhor Ator Coadjuvante para Maheshala Ali no Prêmio BAFTA; para o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali no Screen Actors Guild Awards; e para outros 12 prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali em diferentes premiações; 11 prêmios de Melhor Filme; 4 prêmios de Melhor Roteiro; 1 prêmio de Melhor Elenco e 4 prêmio de Melhor Ator para Viggo Mortensen.

Antes de filmar, Viggo Mortensen foi convidado para conhecer a família de Nick Vallelonga durante um jantar de seis horas. Ele passou mal porque ainda não tinha começado a engordar e a expandir o estômago. Durante o jantar, ele se sentiu “obrigado” a terminar cada prato, e a família não parava de servir para ele um prato novo. Depois de sair do jantar, ele andou um pouco com o carro e teve que se deitar no banco de trás para lidar com toda a comida que tinha ingerido. Realmente, os Vallelonga parece apreciarem muito a comida.

Agora, algo curioso sobre esta produção. Quando Green Book foi lançado, a família de Shirley se opôs à mensagem da produção dizendo que Tony e Shirley nunca tinham sido amigos, alegando que eles tiveram apenas uma relação “empregador-empregado”. Em janeiro de 2019, gravações de uma entrevista com Shirley surgiram em que ele fala sobre a relação com Tony: “Confiei nele implicitamente. Você vê, não era só o meu motorista, nunca tivemos uma relação empregador/empregado. Você não tem tempo para esta besteira. Minhas vidas estava na mão desse homem! Então você tem que ser amigável um com o outro”.

A peça de piano que Shirley toca no bar e emociona a todos é Etude Op. de Chopin 25 nº 11, “Vento de Inverno”, uma das peças mais difíceis de serem tocadas, com nota 9 (mais alta) na escala de Níveis de Dificuldade de Henle. Quando eu escutei, no filme, achei que fosse uma obra de um dos compositores clássicos, mas não sabia exatamente de quem ou qual. Foi bom ter essa informação de que era Chopin. 😉

Kris Bowers, o compositor do filme, foi o pianista de Mahershala Ali. A exemplo de Shirley, ele também só toca em pianos Steinway, todos feitos à mão. Segundo o pianista, porque esses pianos projetam o som como nenhum outro instrumento.

A cena da pizza é inspirada na vida real. Nick Vallelonga disse que Tony costumava pedir uma torta inteira de pizza, dobrá-la e comê-la. Ao ouvir sobre isso, Mortensen pediu para a cena ser incluída no filme, mas o diretor e roteirista Farrelly disse que já haviam cenas “alimentares engraçadas” demais na produção. Mas quando eles incluíram a cena e todos da produção começaram a rir, o diretor resolveu deixar ela no filme.

O filme é dedicado a “Larry the Crow”, um pássaro que pairava em torno do local das filmagens. O ator Viggo Mortensen cuidou dele depois que ele foi atropelado por um carro.

O título do filme é uma referência ao “Livro Negro dos Motoristas Negros”, conhecido também como “Livro Verde dos Viajantes Negros”. Publicado entre 1936 e 1966, o guia ajudava viajantes afro-americanos a encontrar locais em que eles poderiam dormir, comer e outros estabelecimentos comerciais que eles poderiam frequentar em locais que segregavam brancos e negros. Esse livro acabou cobrindo não apenas a América do Norte, mas também Bermudas e o Caribe.

Depois da viagem de dois meses que vemos em cena em Green Book, Tony e Shirley continuaram em contato. Depois da experiência que vemos no filme, eles entraram em uma turnê que durou quase um ano. Além disso, o músico pediu a Tony que se tornasse o seu motorista e guarda-costas durante a sua turnê europeia, mas Tony recusou o trabalho para não ficar mais tempo longe da sua família. Para Nick Vallelonga, Shirley era amigo da família.

Depois de assistir ao filme, o jazzista Quincy Jones comentou: “Eu tive o prazer de me familiarizar com Don Shirley enquanto eu trabalhava como arranjador em Nova York nos anos 1950, e ela era, sem dúvida, um dos maiores pianistas da América. Tão habilidoso músico como Leonard Bernstein ou Van Cliburn. Portanto, é maravilhoso que sua história esteja finalmente sendo contada e celebrada. Mahershala, você fez um trabalho absolutamente fantástico interpretando-o, e eu acho que a performance de Viggo Mortensen e dele se transformaram em uma grande amizade que foi capturada pelo filme”.

Viggo Mortensen realmente comeu os cachorros-quentes na cena da aposta. A equipe de produção forneceu para ele um balde no qual ele poderia cuspir as partes mastigadas após as tomadas, mas ele achou melhor engolir a comida, simplesmente. Nessa história, ele realmente comeu 15 cachorros-quente.

Este é o primeiro Drama dirigido por um dos irmãos Farrelly, mais conhecidos por sua carreira de comédias.

Existe pouca informação sobre Don Shirley. Embora alguns detalhes de sua trajetória sejam contraditórios, o que se afirma como mais seguro é que ele teria se juntado ao Conservatório Rimsky-Korsakov de São Petesburgo aos 9 anos de idade e que teria feito o seu primeiro concerto aos 18 anos de idade na Orquestra Boston Pops. Depois, ele conseguiu vários diplomas, doutorados e aprendeu diversas línguas. O primeiro álbum dele, Tonal Expressions, foi lançado em 1955. Stravinsky, um pianista legendário, disse que o “virtuosismo (de Shirley) era digno dos deuses”. Apesar de ter estudado todos os clássicos, Shirley foi dissuadido pelos líderes da indústria fonográfica a seguir esta carreira dos clássicos porque ele não seria bem aceito pelo público branco.

A família de Shirley questionou o filme, dizendo que o músico nunca teria sido amigo de Tony.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 228 críticas positivas e 59 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3. No site Metacritic, o filme ostenta o “metascore” 69, fruto de 37 críticas positivas, 13 medianas e 2 negativas. Interessante como a avaliação do público é bem melhor que a da crítica. Talvez porque as pessoas queiram mais histórias de pessoas comuns.

Segundo o site Box Office Mojo, Green Book faturou US$ 61,5 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 44,6 milhões nos cinemas dos outros países em que a produção estreou. Assim, o filme que teria custado cerca de US$ 23 milhões faturou, até o momento, pouco mais de US$ 106,1 milhões. Um sucesso de bilheteria, sem dúvida.

Green Book é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Uma parceria em cena incrível, entre dois atores, e uma história simples mas cheia de valor. Isto foi o que eu exprimi de Green Book. A história, evidentemente, faz uma homenagem a dois homens, um gênio da música e o outro uma pessoa simples que era boa em “resolver problemas”, que se aproximaram para uma viagem ao Sul segregacionista dos Estados Unidos. O contato entre eles e a amizade que surgiu em dois meses de viagem demonstram como todas as pessoas podem se entender e aprender uma com as outras, se assim o desejarem. Filme bacana, com uma história simples e envolvente e grandes interpretações, Green Book tem uma narrativa linear e previsível. Isso não chega a atrapalhar o filme, mas também não o transforma em uma obra acima da média.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Green Book concorre em cinco categorias no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para começar, o filme concorre com Mahershala Ali na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

Pelas premiações vistas até aqui, ele é o favoritíssimo para levar esse prêmio. E avaliando o trabalho dele nesta produção, com um desempenho equilibrado, honesto e bastante elegante, Ali realmente merece o prêmio. Falta assistir ainda a Richard E. Grant em Can You Ever Forgive Me?, mas entre Ali, Adam Driver, Sam Elliott e Sam Rockwell – já assisti a Vice, o próximo que vou comentar por aqui -, realmente fico com Ali. Considero quase impossível, pelo histórico conquistado pelo ator até aqui, ele perder nessa categoria. Então, temos 1 Oscar já para Green Book.

Depois, o filme concorre na categoria Melhor Edição. Um páreo duríssimo, mesmo sem First Man na disputa. Apesar da edição de Green Book ser boa, gostei mais do trabalho de Vice e The Favourite – ou até mesmo de BlacKkKlansman. Ainda preciso ver a Bohemian Rhapsody, mas acho que Green Book corre por fora nesta disputa.

Parceiro constante de Ali nesta produção, Viggo Mortensen foi indicado como Melhor Ator. Ele faz um belo trabalho, sem dúvida, mas terá um páreo duríssimo com Christian Bale, que está ótimo em Vice, e com Rami Malek, que já ganhou alguns prêmios por seu desempenho em Bohemian Rhapsody. Como acredito que a grande disputa está entre Bale e Malek, Mortensen corre por fora nesta categoria também.

Green Book também foi indicado como Melhor Filme. Não é impossível a produção vencer, porque este ano não existe, me parece, um franco favorito. Caso a Academia escolher Green Book, no lugar de BlacKkKlansman, por exemplo, seria a premiação de um bom filme, que trata de pessoas comuns e que critica o racismo nos Estados Unidos de forma mais branda do que a produção de Spike Lee. Francamente, até o momento, nenhum filme ainda realmente me convenceu de ser o melhor do ano, mas me parece que Vice e The Favourite são obras mais complexas e com maior ousadia – não sei se isso lhes torna melhores filmes, mas é um fato.

Finalmente, Green Book concorre também na categoria Melhor Roteiro Original. Parada duríssima também, já que a produção concorre com roteiros bastante complexos e interessantes, como Vice e The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia e no filme que querem consagrar nesta edição. Podem até premiar Roma nesta categoria – não seria uma surpresa. Gosto de Green Book, mas não sei se ele terá força para ganhar.

Em resumo, Green Book pode levar um prêmio para casa, o de Melhor Ator Coadjuvante, ou até 3, me parece – adicionando Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia. Difícil prever. O filme é bom e não seria um desperdício consagrá-lo, especialmente em um ano com uma safra relativamente fraca como é o caso deste ano.

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Hidden Figures – Estrelas Além do Tempo

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Algumas histórias precisam ser contadas. Não apenas porque elas demonstram a capacidade humana para o impossível, mas também porque são inspiradoras sob todas as óticas. Hidden Figures é um destes filmes que nos traz estas histórias. Considero esta uma das produções mais contundentes contra o racismo e o machismo. De quebra, o filme nos fala sobre superação e sobre como todos nós, independente do sexo ou da cor de pele, temos o potencial de fazer o extraordinário. Filmão.

A HISTÓRIA: Começa avisando que o filme é baseado em eventos reais. Katherine Coleman (Lidya Jewett) caminha por uma estrada de terra e vai cotando os números, mas não de uma forma comum. Além da contagem normal, ela também enumera os números primos. A história começa na cidade de White Sulphur Springs, em West Virginia, em 1926, quando os professores de Katherine explicam para os pais dela que o melhor colégio para negros da região está oferecendo uma bolsa completa para a menina.

Ela é um fenômeno precoce. E será um fenômeno na vida adulta. Ao lado de Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e de Mary Jackson (Janelle Monáe), Katherine (Taraji P. Henson) se tornará uma peça muito importante para a conquista do espaço pelos americanos. Este filme conta a história destas figuras extraordinárias.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hidden Figures): Eu não era contemporânea dos fatos narrados por esta história. Então, certamente, tenho uma visão um tanto “distanciada” da história, diferente de quem viveu os anos 1960.

Ainda assim, a competência do diretor Theodore Melfi e do saboroso, inteligente e envolvente roteiro de Allison Schroeder e Theodore Melfi me fez viajar no tempo e no espaço. Consegui, e imagino que isso aconteça com qualquer espectador, viver aqueles dias e aquela realidade tão diferente da NASA. Aliás, já vi a alguns filmes sobre a corrida espacial e sobre a guerra fria, mas não lembro de outra produção que tenha me colocado tão dentro da tensão, das dúvidas e do receio daqueles dias.

Claro que esta história conta apenas um lado da história. Hidden Figures é um filme americano com todo o seu coração e espírito. Nas entrelinhas desta produção estão alguns princípios que são o pilar daquele país, vendido – e nem sempre na história realizado como tal – como a “nação das oportunidades” e onde o talento e a superação sempre serão premiados.

Pois bem, Hidden Figures acerta em cheio ao mostrar como estas intenções nem sempre foram universais dentro daquele (e de outros) país(es). Como outras produções que estão concorrendo ao Oscar neste ano, a exemplo dos documentários 13th (comentado aqui) e O.J.: Made in America (com crítica neste link), Hidden Figures mostra que apesar da escravidão ter sido abolida nos Estados Unidos, negros continuaram sendo tratados de forma muito diferente naquele país. E até hoje, infelizmente.

Algumas produções tratam da segregação racial e/ou dos conflitos envolvendo a discriminação racial nos Estados Unidos de forma mais contundente. Mas é na sutileza dos exemplos de vida cotidiana apresentados em Hidden Figures que o tema ganha um outro nível de indignação e de potência. Não tem como assistir às cenas que tratam deste tema em Hidden Figures sem ficar balançado(a).

As protagonistas desta histórias eram mulheres brilhantes, extremamente inteligentes – muito mais do que eu ou a maioria de quem puder ler este texto – e muito, muito valentes. Por causa de tudo isso e movidas pelo sonho de fazerem a diferença, de colocaram os seus talentos à serviço da ciência e de seu país, é que elas engoliram tantos sapos, injúrias e venceram tantos absurdos para vencer.

Não vou mentir que eu adoro filmes que valorizam as mulheres. Histórias que mostram como elas vencem tudo e todos para “apenas” conseguirem realizar ao máximo o talento que elas tem. Seja eles qual forem. As protagonistas de Hidden Figures são mulheres maravilhosas, feministas que não precisam levantar esta ou aquela bandeira para fazerem a diferença. Não. Com o exemplo delas, elas inspiram a qualquer mulher.

Uma grande mensagem passada pelo exemplo delas é a da igualdade. Elas não querem ter mais direitos que os demais, apenas querem ir e vir e ter acesso ao mesmo que qualquer outra pessoa, seja homem, branco ou branca, qualquer um. Igualdade racial parece algo óbvio nestes dias, por isso é de arrepiar pensar que há pouco mais de 50 anos uma sociedade como os Estados Unidos poderia viver uma segregação como a que vemos neste filme. Ultrajante. E hoje, quando há racismo, seja velado, seja explícito, é igualmente ultrajante.

Hidden Figures, para mim, fala sobre este ultraje e fala também sobre a força e a capacidade inegável de Katherine G. Johnson, de Dorothy Vaughan e de Mary Jackson. Elas são exemplo para qualquer mulher, independente da nossa cor – e, claro, devem encher de orgulhos, especialmente, às mulheres negras. Como diz uma certa música, vendo este filme, eu quis também ser negra para ter ainda mais orgulho e empatia com estas mulheres.

Além da questão da segregação racial e também do preconceito contra as mulheres – porque sim, claramente a NASA é um ambiente muito, muito masculino – Hidden Figures ainda trata de uma forma muito humana e interessante um capítulo da história que a maioria de nós conhece apenas pelos noticiários, sem todos os detalhes que vemos no filme. Esta é uma outra faceta interessantíssima desta produção.

Neste sentido, Hidden Figures me fez lembrar um pouco The Imitation Game (comenta aqui), produção que, igualmente, nos apresentou uma ótica muito diferente sobre um capítulo muito conhecido da história, a Segunda Guerra Mundial. Da mesma forma que The Imitation Game, Hidden Figures trata de forma diferenciada um capítulo conhecido e, mais que isso, nos apresenta “pessoas comuns” envolvidas naqueles fatos, tornando a História ainda mais humana.

Afinal, e algumas vezes podemos esquecer disso, a História com H maiúsculo é feita, como a história de todos os dias, por pessoas comuns. Muitas vezes algumas obras, seja no cinema, seja em outras partes, simplificam estes personagens e fazem a gente esquecer disso, que todos são pessoas de carne e osso, acertos e falhas. Bom encontrar filmes como Hidden Figures e The Imitation Game que nos mostram outra perspectiva.

Agora, claro, como tantas outras produções, este filme também tem um propósito bem definido. Ele quer ressaltar os valores e o talento das protagonistas e, para isso, ofusca uma boa parte das pessoas que faziam parte da realidade delas. Inicialmente, eu pensei até em dar uma nota ainda maior que a abaixo para este filme, mas daí comecei a refletir sobre a forma com que o roteiro, baseado no livro de Margot Lee Shetterly, simplifica vários personagens e relações.

Em geral, o roteiro de Hidden Figures enaltece as protagonistas e transforma praticamente todos os colegas delas na NASA em idiotas, preconceituosos ou invejosos (este último parece ser o caso de Paul Stafford, chefe de pesquisa interpretado por Jim Parsons). Sim, imagino que muitas pessoas naquele ambiente eram preconceituosas e menos talentosas que as protagonistas, mas achei um pouco exagerada a simplificação que o filme faz da maioria.

Fiquei um pouco com o “pé atrás” com Hidden Figures por causa disso. Durante a experiência de ver o filme no cinema, me apaixonei pela história e pela forma com que ela é contada. Achei o filme potente, inspirador. Mas, depois, fui refletindo sobre a forma com que roteiro retratou aos personagens secundários, e me pareceu que ele exagerou um pouco na dose da simplificação e estigmatização deles sem necessidade. Acho um pouco difícil acreditar que os fatos aconteceram exatamente como aconteceram, por isso acabei “reduzindo” um pouco a avaliação do filme. Ainda assim, volto a dizer, este é um filmaço. Merece ser visto.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do estilo do diretor Theodore Melfi. Ele sabe valorizar as boas imagens, quando ele tem cenários interessantes para valorizar, mas, sobretudo, ele sabe valorizar o trabalho das atrizes que protagonizam esta produção e a sintonia que elas desenvolvem em cena. Ele captura muito bem estes momentos e sabe trabalhar para torná-los bastante comuns neste filme. O que é um presente para o espectador.

Engraçado que o roteiro de Melfi e de Allison Schroeder é uma das grandes qualidades de Hidden Figures se também o seu único roteiro. O filme tem três atrizes maravilhosas e escolhidas à dedo como protagonistas e um elenco de apoio muito interessante – também com grandes nomes -, uma direção interessante e cuidadosa de Melfi e um roteiro quase o tempo todo brilhante.

Como eu disse antes, o texto de Melfi e Schroeder é envolvente, instigante, sabe tratar os diferentes assuntos do contexto social da história muito bem. Maaaasssss… o mesmo roteiro também simplifica algumas relações e personagens da NASA que tornam partes da história um tanto difíceis de acreditar. Vou dar um exemplo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que Stafford tenha sido um boçal, um preconceituoso invejoso como o filme sugere, acho difícil acreditar que ninguém daquela sala, majoritariamente masculina, ou de qualquer outra parte da NASA tenha estendido a mão e tentado ser um pouco mais justo com Katherine. Difícil imaginar que ela não teve apoio de ninguém e que tenha, realmente, inclusive peitado o chefão Al Harrison (Kevin Costner) no corredor como o filme mostra. Enfim, gostaria de ler o depoimento das envolvidas para poder entender melhor o que aconteceu. O filme me deixou com dúvidas.

Falando nos atores envolvidos nesta produção, achei as atrizes Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe brilhantes. Cada uma delas soube construir a sua personagem de forma diferente, trazendo características interessantes e particulares das “personagens reais” para o filme. A interpretação delas é tão envolvente que eu acho que todas mereciam uma indicação ao Oscar. 😉 Como isso não é possível, Octavia Spencer representa as outras duas colegas.

Além das três atrizes, que são um ponto forte do filme, fazem um bom trabalho os atores bem conhecidos que fazem papéis coadjuvantes na produção. Estão bem em seus papéis Kevin Costner, como o chefão Al Harrison; Kirsten Dunst como Vivian Mitchell, que lida com os “computadores” humanos da NASA; Mahershala Ali como o coronel Jim Johnson, que se torna o segundo marido de Katherine; Aldis Hodge como Levi Jackson, marido de Mary; e Glen Powell como o astronauta John Glenn. Jim Parsons está bem como Paul Stafford, mas o personagem “simplista” e maniqueísta que ele precisa interpretar não o ajuda muito.

Estes atores tem um destaque maior na história. Mas vale citar outros que tem uma participação menor, mas que estão muito bem: Lidya Jewett como a encantadora Katherine Coleman quando criança; Donna Biscoe como a mãe de Katherine, Joylette Coleman; e as jovens atrizes Ariana Neal, Saniyya Sidney e Zani Jones Mbayise como as filhas de Katherine, respectivamente Joylette, Constance e Kathy. Também está muito bem Frank Hoyt Taylor como o juiz que dá a permissão para Mary estudar em uma universidade que era só para brancos. Belo elenco.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Mandy Walker e da trilha sonora de Benjamin Wallfisch, Pharrell Williams e Hans Zimmer. Ainda que, eu admito, em alguns momentos a trilha sonora “animadinha” contrastava com momentos em que o público deveria estar indignado, ou perplexo, mas não “animadinho” – como nas cenas em que Katherine tem que ficar correndo para ir no banheiro porque não tem nenhum próximo que seja “adequado”.

Outros elementos interessantes e que funcionam muito bem no filme são a edição de Peter Teschner; o design de produção de Wynn Thomas; a direção de arte de Jeremy Woolsey; a decoração de set de Missy Parker; os figurinos de Renee Ehrlich Kalfus; o ótimo trabalho da equipe de 30 profissionais envolvidos no departamento de arte e o da equipe de 22 profissionais dos efeitos visuais.

Hidden Figures estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 25 de dezembro. Justamente à tempo do filme ser habilitado para concorrer ao Oscar. Espertos. 😉

Esta produção contabiliza 25 prêmios e foi indicado a outros 63, inclusive a indicação para três estatuetas do Oscar 2017. Entre os prêmios recebidos por Hidden Figures, destaque para os seis prêmios que a produção recebeu como Melhor Elenco, inclusive a entregue pelo Screen Actors Guild Awards.

Esta produção teria custado US$ 25 milhões. Certamente boa parte destes recursos foi utilizada para reconstituir as instalações da NASA e os anos 1960, além de pagar o cachê dos atores envolvidos na produção. Apenas nos Estados Unidos Hidden Figures conseguiu uma bilheteria de US$ 119,4 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros
US$ 2,78 milhões. Ou seja, terá um belo lucro no final. Merece.

Hidden Figures foi totalmente rodada no Estado de Georgia, em cidades como East Point, Atlanta, Canton e Monroe.

O diretor e roteirista Theodore Melfi conquistou as duas primeiras indicações ao Oscar de sua trajetória com Hidden Figures – ele é um dos produtores do filme, por isso o seu nome aparece na lista de indicados a Melhor Filme, e foi indicado também por Melhor Roteiro Adaptado.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. O problema com a falta de banheiro para negros não foi vivenciado por Katherine Johnson, com Hidden Figures mostra, e sim por Mary Jackson.

Quando a atriz Taraji P. Henson assinou o contrato para interpretar Katherine Johnson, ela procurou a mulher que inspirou a sua personagem e que estava, na época, com 98 anos de idade. Nas conversas com Johnson a atriz aprendeu que ela tinha terminado o ensino médio aos 14 anos de idade e a faculdade aos 18. Mesmo com 98 anos de idade, ela estava muito lúcida e parecia ter a mesma vitalidade de quando era mais nova. Depois que o filme entrou em cartaz, Katherine aprovou a interpretação de Henson mas comentou que não sabia quem poderia se interessar em conhecer a sua história. Você mal sabe, querida Katherine, o quanto você inspira qualquer mulher em qualquer parte do globo.

Ahá!! E eis uma nota da produção que confirma o que eu tinha comentado antes. Segundo essa nota, a relação de trabalho real entre os engenheiros e as mulheres na NASA não foram tão hostis como aparecem no filme. “Embora houvesse questões claramente raciais em jogo, a maioria dos engenheiros foram capazes de trabalhar com os computadores (como eram chamadas as mulheres responsáveis pelos cálculos) sem problemas”, diz a nota.

O uso das cores foi importante para definir o “humor” do filme. Cores “frias” definem a NASA, onde foram utilizadas as cores branco, cinza e prata, enquanto os conjuntos “quentes” foram utilizados no escritório de Al Harrison e na casa das protagonistas.

Claro que o filme desperta uma série de dúvidas e de interesse sobre a história real daquela mulheres maravilhosas. Por isso mesmo eu fui atrás de algumas reportagens que ajudassem a contar a “história real” por trás do filme. Deixo aqui algumas sugestões de leituras, todas em inglês, mas que podem ser interessantes: esta matéria da Popular Mechanics; esta outra da People e esta terceira da Time.

Interessante no artigo da Popular Mechanics o resgate sobre as mulheres que ajudaram muito a ciência nos Estados Unidos e que, por muito tempo, não foram reconhecidas por isso. Uma das verdades que o filme mostra e que o artigo confirma é que as mulheres faziam tanto ou mais que os colegas do sexo masculino e que recebiam menos que eles. Uma briga da sociedade em diversas áreas até hoje. Interessante também como Hidden Figures, segundo este artigo, retrata bem a segregação das mulheres negras em uma área separada na NASA. Ainda de acordo com o artigo da Popular Mechanics, “a maioria dos eventos do filme são historicamente precisos”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, uma boa avaliação para os padrões do site, mas abaixo de outros concorrentes deste ano do Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 textos positivos e apenas 14 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,6. O nível de avaliação é bom, mas também abaixo dos concorrentes.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra na lista de filmes que atende a uma votação feita por aqui há algum tempo.

CONCLUSÃO: Não deixa de ser sintomático pensar que a história de Hidden Figures demorou 50 anos para ser contada. Este é um filme que surpreende. Inicialmente, pela premissa da história, você poderia pensar que Hidden Figures é “mais um” filme sobre racismo e preconceito. Mas não, ele é muito mais que isso.

Esta produção nos faz mergulhar na vida real de pessoas que sentiram na pele o apartheid e que contra todos os prognósticos – afinal, eram mulheres e ainda negras! – fizeram diferença para o mundo. Com roteiro ótimo e atuações igualmente inspiradas, é um dos grandes filmes desta temporada do Oscar. Inspirador. Imperdível.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Nem sempre os nossos filmes preferidos ganham algum prêmio ou são indicados no número de vezes que nós achamos que eles mereciam ao Oscar e em outras premiações. Verdade que nesta temporada temos filmes fantásticos na disputa, mas como cinema é, sobretudo, gosto pessoal, admito que esta produção me conquistou.

Hidden Figures foi indicado três vezes ao Oscar. Como Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) e como Melhor Roteiro Adaptado. Mereceu cada uma destas indicações, sem dúvidas – e até merecia algumas outras se não estivéssemos com uma safra tão boa.

Acho difícil o filme levar qualquer um destes prêmios. Sendo sincera. A melhor chance dele, talvez, seria em Melhor Roteiro Adaptado, mas ele tem pela frente Moonlight, Fences e Arrival. Então acho difícil ele derrotar estas produções. A favoritíssima na categoria Melhor Atriz Coadjuvante é Viola Davis, de Fences, e Melhor Filme deve consagrar La La Land – com Moonlight correndo por fora.

Ou seja, Hidden Figures é um ótimo filme, mas provavelmente sairá do Oscar de mãos abanando. A expectativa é que ele consiga, com a visibilidade das indicações para a premiação e com a propaganda boca a boca, chegar a um número expressivo de pessoas. Ele merece.

Moonlight – Moonlight: Sob a Luz do Luar

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Sobrevivência. Ela nem sempre é um processo simples. E sem dúvida alguma ela é menos que o necessário para qualquer pessoa. Moonlight nos revela a história de uma dura luta pela sobrevivência. O filme também nos mostra como os efeitos da ignorância e da violência podem perdurar, ainda que eles nunca sejam o suficiente para realmente mudar aquilo que uma pessoa tem como essência. Grande filme. Mais uma bela descoberta desta temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Juan (Mahershala Ali) chega com o seu carrão e estaciona na calçada. Ele pega um cigarro, coloca sobre a orelha e caminha lentamente até cumprimentar a um de seus “homens”. Ele acompanha a conversa dele com um viciado que não tem dinheiro para comprar a droga. Enquanto o vendedor e o usuário discutem, Juan fica por perto. Ele pergunta como tudo está, e o vendedor diz que tudo está tranquilo.

Juan está fazendo a sua ronda normal pelo bairro que ele controla. Quando ele começa a voltar para o carro, passam por eles alguns moleques. Little/Chiron (Alex R. Hibbert) está na frente, sendo perseguido por alguns garotos. Little acha um local no qual ele pode se proteger. Depois de algum tempo da perseguição, aparece por ali Juan, que oferece comida para o garoto. Neste momento começa uma amizade entre os dois.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Moonlight): Que filme, meus amigos e amigas! Uma produção extremamente sincera e sensível. Que revela, entre outros pontos, como a violência pode ser determinante na vida de uma pessoa sensível e que vira alvo de babacas.

O diretor e roteirista Barry Jenkins, que trabalhou sobre uma história original de Tarell Alvin McCraney, nos apresenta aqui uma narrativa interessantíssima e muito, muito necessária. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A produção começa mergulhada na mais pura realidade, de um local em que as drogas e a violência são elementos presentes. Neste contexto, temos uma palhinha sobre a “desculpa” dos meninos em perseguir Chiron logo no início.

Quando os moleques passam correndo na frente de Juan, eles xingam Chiron de “viado”. O garoto não é forte, mas magro e frágil, e não entra no ciclo de agressões dos outros moleques. Por isso ele vira o saco de pancada dos garotos e logo é taxado de “viado”. Gostei da forma honesta com que a narrativa é construída. Aliás, diferente do favoritíssimo La La Land (comentado por aqui), Moonlight tem como um de seus destaques, justamente, o seu roteiro.

Este filme nos faz refletir por várias razões. Jenkins tem a coragem de quebrar uma série de lugares-comum e de subverter a crença comum e preconceituosa sobre comunidades marginalizadas. Logo no começo ele faz isso ao mostrar o respeito e o cuidado que o traficante Juan tem com um moleque frágil e acossado que cruza o seu caminho.

Enquanto isso, em casa, Chiron não tem nem um pouco deste cuidado. A mãe dele, Paula (Naomie Harris), conhecida no bairro por fazer programas em troca de qualquer trocado ou droga, não consegue dar o exemplo para o filho. E, mais que isso, não consegue dar o apoio ou o cuidado básico que se espera de uma mãe. Então temos, de um lado, o vendedor da “desgraça” que consegue ter sensibilidade com aquela história difícil e a mãe do garoto que é vítima da dependência de drogas – duas pontas de um mesmo problema, pois.

Bacana também como Moonlight é dividido em três atos. O primeiro mostra o protagonista na fase em que ele era conhecido como Little – entendido como “moleque”. Nesta fase, o garoto frágil considerado “esquisito” por muitos, inclusive pelo amigo Kevin (Jaden Piner), vira saco de pancadas dos valentões de sua idade e do colégio.

Cada vez mais ignorado pela mãe, que vai ficando pouco a pouco mais dependente das drogas, Little encontra algum apoio no casal Juan e Teresa (Janelle Monáe). Sem uma figura paterna em quem se espelhar, ele fica fascinado por Juan, que lhe ensina a beleza do mar e lhe conta algumas histórias, como quando ele andava descalço sob a luz do luar (o “moonlight” que dá nome ao filme).

Quando Juan encontra o garoto o esperando em casa, ele não o expulsa ou lhe dá uma bronca. Ele dedica um pouco de seu tempo para Little porque percebe que falta atenção e um pouco de carinho para o garoto. Juan e Teresa fazem isso de forma descompromissada, mostrando que nem sempre o traficante que pensamos ser pura crueldade é apenas isso. Todos tem as suas histórias, e todos deveriam poder contá-las para alguém.

Nesta fase, há uma sequência realmente preciosa – uma das melhores do filme. Ela acontece depois que Little percebe um pouco melhor a realidade que o cerca e, em uma sequência marcante na casa de Juan e Teresa, ele faz uma série de perguntas decisivas. Ele quer saber o que é um viado, se a mãe dele usa drogas e se o seu novo herói/referência, Juan, vende drogas. De arrepiar – e o ponto forte do trabalho de Mahershala Ali.

Na segunda fase do filme, quando o protagonista já é conhecido como Chiron (interpretado aí por Ashton Sanders), pouca coisa muda para ele. Chiron continua sendo perseguido e maltratado pelos garotos de sua idade e escola. Mas é nesta fase, um pouco mais crescido, que Chiron começa a dar uma direção para a vida dele.

É neste momento em que, em uma noite de luar, Chiron se encontra com o amigo Kevin (nesta fase, Jharrel Jerome) na praia, sem querer, e os dois tem o primeiro envolvimento amoroso. No fundo, Chiron não tem certeza que é gay, mas para ele é natural e faz sentido o que ele sente por Kevin. Enquanto isso, na escola, se aproxima o momento em que ele vai levar a grande surra da sua vida até então.

Finalmente, após o protagonista parar com a sequência de violências, ele é punido pela lei e aí o filme entra em sua terceira e última fase. Chiron agora é Black (Trevante Rhodes), um cara forte e livremente inspirado em seu ídolo Juan. O mundo foi cruel com Chiron, e ele aprendeu, finalmente, a se defender. Ora, se a melhor forma de ser respeitado seria transformar-se em um traficante temido, é isso que ele faz, ele se torna um deles.

Mas o interessante de Moonlight é que, a partir do momento em que Black recebe o telefonema da mãe, internada em um local que a ajuda a ficar “limpa”, e uma ligação de Kevin, percebemos que ele não deixou de ser aquele garoto sensível do início. Como ele mesmo conta para Kevin, ele não deixou de ser quem ele é, apesar de agora também assumir a figura de um traficante musculoso, rico e respeitado.

Por tudo isso, Moonlight nos mostra como a falta de estrutura e de proteção de uma criança, que é o que acontece com Chiron, pode ajudar a definir a uma vida, mas esta simplificação da narrativa não é tudo. Black é um cara que, a exemplo de Juan, está sempre no alvo, pode virar uma vítima fatal a qualquer momento, mas apesar dele lidar com a violência o tempo inteiro, ele não deixou de ser quem ele era desde o princípio.

Sobre violência, aliás, ele conhece bem. Na infância e na adolescência ele foi vítima dela, não teve escolha. Depois, quando pode revidar, ele escolheu seguir no mesmo círculo de violência, virando a figura de um traficante que, ironicamente, ajudou ele a chegar ali – seja vendendo drogas para a mãe dele, seja lhe dando apoio quando ele mais precisava.

A realidade das drogas é muito complicada. Moonlight mostra isso de forma muito transparente. Falta educação, cuidados médicos e amparo para pessoas que vivem neste círculo do tráfico. Além disso, falta cuidado em casa para que as crianças saibam se respeitar, independente de quem ou do que elas sejam.

Todos merecem receber amor e cuidados, mas quando as pessoas não recebem valores e educação em casa para fazer escolhas certas desde o princípio, temos vítimas como Chiron espalhadas por todos os países do mundo. Por tudo isso este filme é tão necessário, e potente. Ele faz todos pensarem um pouco mais sobre esta realidade complicada que nos cerca.

Precisamos achar soluções para estes cenários, e elas passam por famílias melhor estruturadas, por educação e por mais informações para as pessoas sobre os efeitos daninhos das drogas. Não vejo outra maneira. E essa é uma responsabilidade que deveria ser de todos.

Começando pelas famílias, passando pelas escolas e pelas outras pessoas que tem contatos com pessoas que são marginalizadas. Afinal, a exemplo de Juan, todos podemos estender a mão e ajudar um pouco a quem precisa, nem que for lhes garantindo um pouco de alegria e de afeto. Grande filme, muito bem realizado, com grandes atores e um roteiro impecável.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos elementos deste filme que me chamou a atenção logo no início foi a excelente trilha sonora de Nicholas Britell. Grandes escolhas para a produção, que tem músicas destacadas de forma cirúrgica aqui e ali, valorizando a história e os momentos importantes dela. Muito bacana.

Da parte técnica do filme, também gostei muito da direção de fotografia de James Laxton. Apesar destes elementos funcionarem muito bem, sem dúvida alguma é o roteiro e a direção de Barry Jenkins que tornam este filme especial. O texto é sincero, envolvente e bem direto. Tem algumas sequências surpreendentes e muito potentes, além de um aprofundamento sensível na realidade e nos sentimentos do protagonista de poucas palavras. Na direção, Jenkins procura estar sempre muito próximo dos atores de seu ótimo elenco, com uma câmera atenta e que lembra um pouco a dos documentários, muitas vezes.

Ah, e o elenco desta produção! Nenhum ator extremamente conhecido, mas todos muito bons. Claro que o destaque são os três atores que interpretam o protagonista nas três fases de sua vida. O garoto Alex R. Hibbert, o jovem Ashton Sanders e o ator Trevante Rhodes dão um show em seus respectivos momentos na produção. Difícil destacar apenas um deles, ainda que os garotos tenham um apelo um pouco maior que Rhodes. Mas estão todos muito bem.

Além deles, claro que se destacam na produção os personagens que estão mais próximos dos protagonistas, com destaque para o momento relativamente curto que está na produção para Mahershala Jenkins, para a estonteante e sempre interessante Janelle Monáe e para a esforçada Naomie Harris.

A personagem dela, como mãe de Chiron, é a que menos desperta simpatia, por razões óbvias. Mas ela realmente está muito bem nas diferentes fases da história. De sua maneira muito torta e errática ela tenta “fazer o certo” com o filho, lhe dando teto, comida e insistindo para que ele estude. Mas isso é tudo. Todo o restante necessário para o garoto, especialmente o carinho, o amor, a atenção e o exemplo, ficam de fora.

Em um momento tocante do filme ela se arrepende e pede perdão, mas no caso do filho dela, ficou um pouco tarde para esse arrependimento ter efeito. Por isso mesmo a importância das pessoas pensarem muito bem antes de terem filhos, até para perceberem se tem ou não condições para isso. Nem todos tem.

Vários garotos perseguem o protagonista. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o principal algoz dele, na fase Chiron, é o covarde Terrel (Patrick Decile) que, como muitos perseguidores, não tem coragem dele mesmo encarar a sua vítima. Ele utiliza outros garotos, sobre os quais ele exerce influência através do medo, para fazerem o “serviço”. Claro que a origem do problema está na educação que o jovem recebeu em casa, mas a escola também deveria coibir esse tipo de atitude. Quando o pior acontece e estendem a mão para Chiron, já é tarde. Evidente.

Barry Jenkins acerta ao apostar em um número reduzido de personagens. Desta forma a história pode se concentrar mais no protagonista e na relação dele com as pessoas que lhe cercam e que são importantes para ele. Isso torna a história ainda mais legítima porque sabemos que figuras tímidas e oprimidas como Chiron realmente tem, normalmente, poucas pessoas como as mais próximas.

Da parte técnica do filme, vale destacar, ainda, a edição de Joi McMillon e Nat Sanders, a maquiagem de Doniella Davy e de Gianna Sparacino, e os 18 profissionais envolvidos no departamento de câmera e elétrica. Eles são fundamentais para contar esta história como o diretor e roteirista Barry Jenkins a imaginou e idealizou.

Moonlight estreou no Festival de Cinema de Telluride em setembro de 2016. Depois, o filme participou de outros 15 festivais em vários países no período de dois meses. Em sua trajetória até agora o filme ganhou impressionantes 141 prêmios e foi indicado a outros 222.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e para nada menos que 22 prêmios como Melhor Filme; 19 conquistas de Barry Jenkins como Melhor Diretor; 31 prêmios como Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali; quatro prêmios para Naomie Harris como Melhor Atriz Coadjuvante; 11 prêmios para o conjunto do elenco e 11 prêmios como Melhor Roteiro. Impressionante.

Alguns podem se perguntar porque eu não dei uma nota 10 para esta produção. Olha, admito que foi por causa de detalhes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E quais foram estes detalhes? Pois bem, acho que o filme evitou de mostrar uma certa violência necessária. Qual é ela? Para Juan e Black se tornarem os chefes do tráfico que eles se tornaram, certamente eles tiveram que se impor de alguma forma. Esta parte da história foi deixada totalmente de lado. A morte de Juan é citada, mas não é explicada. Ok que a intenção do diretor e roteirista era mostrar o lado bacana destes personagens, mas acho que ele ignorou uma parte importante da história e isso fez com que eu não desse uma nota melhor para a produção.

Não comentei antes, mas achei especialmente bonito o final. Quando Kevin e Black se reaproximam, é algo potente e muito belo, especialmente quando Kevin coloca a música para Black ouvir. Quem sabe o amor não possa dar uma nova chance para o protagonista do filme, fazendo ele escolher um caminho diferente a partir deste encontro? Afinal, agora ele é um adulto e não precisa ter mais medo do que ele sente. Cada um pode imaginar o desenrolar do fatos usando a sua imaginação.

Esta produção foi totalmente rodada na Flórida, em locais como Miami, na Liberty City e na Miramar High School, em Miramar.

Moonlight teria custado US$ 5 milhões. Ou seja, é um filme de baixo orçamento se levarmos em conta o padrão de Hollywood. Apenas nos Estados Unidos o filme fez quase Us$ 15,2 milhões nos cinemas. Ou seja, já entrou na lista de filmes que estão fechando com lucro.

Antes de filmar Moonlight, Barry Jenkins tinha apenas sete títulos no currículo como diretor, sendo cinco deles curtas-metragens, um deles um episódio de série de TV e apenas um longa, o filme Medicine for Melancholy, de 2008. Ou seja, é um diretor relativamente “iniciante” e que merece ter o seu trabalho acompanhado, certamente.

Agora, algumas curiosidades sobre Moonlight. Quando Juan ensina Little a nadar, o ator Mahershala Ali realmente está ensinando o jovem Alex R. Hibbert a nadar, porque o garoto não sabia fazer isso até então.

Em uma entrevista, o diretor Barry Jenkins disse que os três atores que interpretam a Chiron não se conheceram durante as filmagens. Essa foi uma determinação do diretor, que queria que cada um deles construísse a sua própria versão do protagonista. A mesma tática foi usada com os atores que interpretam a Kevin. Aliás, não comentei antes, mas todos estes atores que interpretam a Kevin são ótimos – a citar, Jaden Piner, Jharrel Jerome e André Holland, respectivamente aos nove, 16 e na fase adulta.

Em algumas premiações o filme foi reconhecido como tendo o melhor roteiro original, enquanto em outros ele foi reconhecido como roteiro adaptado. Nas notas de produção eu entendi a razão disso. O roteiro original de Barry Jenkins é inspirado na peça que não foi produzida “In Moonlight Black Boys Look Blue” de MacArthur Fellow Tarell Alvin McCraney. Ou seja, o filme teve um material original no qual ele se inspirou mas, ao mesmo tempo, não é uma adaptação, até porque o original não chegou ao mercado. Pode ser, assim, classificado tanto de uma forma quanto de outra, dependendo do entendimento da premiação.

Moonlight foi rodado em apenas 25 dias entre outubro e novembro de 2015. A atriz Naomie Harris filmou toda a sua participação na história em apenas três dias, em um intervalo da divulgação de Spectre.

A exemplo do personagem de Chiron, o diretor Barry Jenkins também tinha uma mãe que era viciada.

Cerca de 80% da produção foi rodada em Liberty City, bairro de Miami que é considerada uma das áreas mais atingidas pela pobreza nos Estados Unidos. Inicialmente, a produção do filme ficou um pouco apreensiva por gravar no bairro, com receio pela segurança da equipe, mas tudo melhorou quando foi espalhado pelo bairro que o diretor Barry Jenkins, a exemplo de Tarell Alvin McCraney, era originário do bairro. A partir daí a comunidade acolheu e recebeu muito bem a equipe do filme.

A inspiração para a estrutura narrativa de Moonlight veio do diretor Hsiao-Hsien Hou em Zui Hao de Shi Guang, de 2005.

Moonlight marca a estreia de Alex R. Hibbert nos cinemas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para a produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 193 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8. Especialmente o nível de avaliação dos críticos surpreende e coloca o filme em um patamar muito difícil de ser batido no Rotten Tomatoes.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra para a lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog há tempos atrás.

CONCLUSÃO: Um filme potente e muito duro. Assim como a realidade de muita gente. Moonlight revela como o acosso de um jovem frágil e que não é protegido por quem ele deveria ser no momento mais importante pode resultar em cicatrizes duradouras. Apesar de ser muito duro, Moonlight também tem uma mensagem muito bonita e importante. De que não importa o que façam contra a gente, se mantivermos o nosso coração protegido, podemos seguir a vida respeitando quem somos apesar de tudo.

Em uma época em que ainda existe muita ignorância e perseguição de homossexuais, Moonlight faz pensar sobre a violência que é praticada contra aqueles que não entendemos. Afinal, para que tanta agressão? Por que para alguns é tão difícil respeitar o que é diferente de si mesmos? Filme sensível, forte e muito interessante. Das boas descobertas do ano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Não tenho dúvidas de que Moonlight vai chegar bem na premiação da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Os indicados para a premiação deste ano vão sair na próxima terça-feira, e acredita que Moonlight tem boas chances de ser indicado em seis categorias.

Ele deve ser indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original, e tem boas chances de emplacar em Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Trilha Sonora. De todas estas categorias, vejo que as melhores chances do filme são mesmo em Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original, ainda que será uma dura tarefa da produção vencer ao favorito La La Land na categoria principal da premiação.

Da minha parte, sei que Moonlight é menos “vistoso” e tecnicamente mais “simples” que La La Land. Mas se vamos falar de história, do trabalho do elenco, de roteiro e da importância do que é contado, Moonlight é mais filme que La La Land. O musical é mais um de seu gênero. Bem feito, mas apenas isso. Moonlight não, ele trata de temas fundamentais e apresenta eles com muita força, tornando o filme um dos melhores entre os que entraram em temas tão áridos antes.

Preciso ainda assistir a Manchester by the Sea e a outras produções cotadas para o Oscar, mas até o momento eu acharia mais interessante e justo Moonlight ou mesmo Fences levar o prêmio de Melhor Filme do que La La Land. Mesmo achando isso, tenho quase certeza que a Academia vai preferir o musical, por tudo que ele representa para a indústria do cinema. Mas o meu voto, sem dúvida, iria para Moonlight.

PEQUENO AVISO: Meus caros leitores aqui do blog, eu vou seguir com as publicações normais até o Oscar 2017, para seguir uma tradição aqui do blog. Mas passada a premiação, se eu não tiver conseguido uma boa adesão na campanha de apoio ao blog, eu vou dedicar mais tempo para outras atividades que me deem retorno financeiro e vou tornar as atualizações aqui mais escassas ou bem mais sucintas. Se você quer ajudar o blog a continuar como ele está agora ou até a ampliar a frequência de publicações, sugiro o apoio a este projeto:

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