The Founder – Fome de Poder


Persistência, ambição e falta de escrúpulos. Esta pode ser a fórmula de “sucesso” de muitos homens. The Founder conta uma destas histórias. Mostra como um conglomerado global foi criado e como ele teve como uma figura chave do processo justamente um sujeito que seguiu esta fórmula. Com um ótimo roteiro, um grande elenco e uma direção afinada de John Lee Hancock, temos neste filme a história da rede de lanchonetes McDonald’s. Querendo uma não, uma “bela” história da cultura americana.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que este filme é baseado em uma história real. Ray Kroc (Michael Keaton) lança o seu discurso para mais um potencial comprador. Ele fala que o cliente vai vender muito mais milk-shake se ele comprar a máquina que ele está vendendo. Aumentando a oferta, ele também vai aumentar a demanda, seguindo a lógica do ovo e da galinha, garante Kroc. Ele vive visitando drive-thrus tentando vender a sua máquina de cinco eixos para acelerar o processamento de milk-shakes, mas sem sucesso.

A história começa em Saint Louis, cidade do Missouri, em 1954. Kroc não tem sucesso em suas investidas, até que fica sabendo de uma empresa que ligou para o escritório dele pedindo seis máquinas. Ele não acredita, liga para o local, e acaba falando com Dick McDonald (Nick Offerman). Curioso para saber quem teria “bala na agulha” para comprar tantas máquinas de uma vez, Kroc viaja até San Bernardino, na Califórnia, para ver de perto o negócio dos McDonald’s.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Founder): Eu fui assistir a este filme sem muitas expectativas. Bem, eu sabia que se tratava da história do McDonald’s, claro. Mas eu não sonhava que The Founder seria uma crônica mordaz sobre o pior lado do “sonho americano”. O filme se debruça como poucos nos desdobramentos de um homem que é ambicioso e que passa como uma patrola sobre todos para conseguir tudo o que deseja.

Como o bom cinema pede para qualquer realizador, The Founder vai crescendo em narrativa e em interesse pouco a pouco. Francamente, eu não sabia nada sobre a história do conglomerado McDonald’s até assistir ao filme. Acredito que a impressão sobre esta produção será diferente para pessoas que já conheciam bastante a história. Para mim, foi uma grande surpresa tudo que The Founder revelou.

Não há dúvidas que o protagonista Ray Kroc (Michael Keaton) teve muita ousadia. Para começo de história, claro. Ao mesmo tempo, Dick (Nick Offerman) e Mac McDonald (John Carroll Lynch) eram o contrário dele. Pessoas simples, daquelas que acreditam na palavra dos outros e não tem malícia, eles contavam para quem quisesse ouvir como eles haviam revolucionado o setor de lanchonetes nos anos 1950 – o filme começa em 1954, para ser mais exata. E foi assim que, encontrando um “espertalhão” como Kroc pela frente, eles se deram mal.

O roteiro de Robert D. Siegel é um primor. Como o cartaz mesmo do filme sugere, esta produção conta a história de Kroc, sob a perspectiva dele. É assim que o acompanhamos desde que ele vendia máquinas de milkshake e até ele encontrar os irmãos McDonald e o seu modelo revolucionário de fazer e vender hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes. Como a narrativa de Siegel é bem construída, no início você pode até pensar, como eu, que sem Kroc nós jamais teríamos um McDonald’s a cada esquina.

Ele realmente soube construir e encarnar muito bem o “espírito americano” ao negócio, fazendo o McDonald’s ser tão ianque e colonizador quanto o próprio país. A sacada dele foi realmente preciosa. Sem dúvida alguma o McDonald’s original jamais teria se tornado o que se tornou sem esta figura. Até aí, tudo bem, se ele tivesse feito tudo com respeito aos criadores do conceito e proprietários do nome. Mas não, ele não teve respeito nenhum por eles.

Conforme foi ganhando dinheiro e espalhando lanchonetes do McDonald’s pelos Estados Unidos, os “olhos” de Kroc “cresceram”. Com o ego bem alimentado e se sentindo poderoso, inteligente, capaz de tudo, ele foi passando como uma patrola sobre quem aparecesse pela frente. Este é o problema da ambição, do gosto pelo poder e pelo dinheiro. As pessoas que se deixam “encantar” por todos estes ingredientes ou por um deles se perdem.

Claro que Kroc não teria conseguido tudo o que conseguiu se ele não tivesse cruzado com Harry J. Sonneborn (B.J. Novak). Foi ele que mostrou de onde, realmente, sairia o dinheiro da companhia. Não seria de uma pequena porcentagem da vendas de combos baratos, mas da compra de terrenos que dariam depois renda permanente através da cobrança dos franqueados. E foi assim que a rede McDonald’s cresceu e multiplicou resultados.

Até um certo momento do filme, você fica admirado(a) pela história dos irmãos McDonald e pela ousadia de Kroc em abraçar aquela ideia e crescer com ela. Mas depois, quando percebemos como ele vai mudando de postura conforme ganha fama e dinheiro, logo presumimos que essa história não pode acabar bem. E não acaba, realmente. Ao menos para os irmãos que criaram todo o conceito do negócio. Por tudo isso, o trabalho de Siegel e de Hancock é exemplar.

Eles tem a ousadia de fazer um retrato mordaz sobre o homem que fez o conceito McDonald virar um conglomerado global. Não é para poucos. É preciso coragem e talento para contar uma história como esta sem querer tapar o sol com uma peneira. Em The Founder não temos isso. Somos apresentados a uma história interessante, com muitas lições sobre empreendedorismo e sobre como um negócio pode ser deturpado pelas mãos de alguém que tem pouco ou nenhum escrúpulo.

Como eu disse antes, The Founder acaba sendo um retrato impressionante sobre muitas e muitas empresas gigantes e que são vistas como “importantes” pelo mundo. Certamente em quase todos esses casos alguma história obscura sobre tanto poder e dinheiro foi escondida. Pois bem, The Founder nos revela uma destas histórias escondidas, ajudando a lançar luz também sobre o pior lado da ambição e do capitalismo como sistema que permite a premiação deste tipo de gente sem escrúpulos.

Quer dizer, a Humanidade ainda não criou um sistema econômico em que os valores estão no centro das trocas e das relações. Infelizmente. O capitalismo fomenta histórias bacanas e histórias podres como esta contada por este filme. Ainda não inventamos nada melhor, possivelmente porque nós, como coletivo, também não sejamos melhores. Afinal, quantas pessoas, após assistir a este filme, farão escolhas melhor de consumo? Imagino que pouquíssimas. Quantas abririam mão de fortuna e de sucesso para manter os seus valores éticos? Este filme nos levanta todas estas questões. Por tudo isso, achei ele brilhante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fascinante a reconstrução de época orquestrada pela equipe do diretor John Lee Hancock. Voltamos realmente aos anos 1950 nos Estados Unidos. Além da direção muito bem feita de Hancock, que sabe valorizar os ambientes e as interpretações de seus atores, este filme se destaca pelo excelente roteiro de Robert D. Siegel e, claro, pelo elenco escolhido à dedo. Cada elemento técnico do filme funciona à perfeição, junto com o roteiro, a direção e o elenco. Nada a criticar negativamente.

Algo que eu gostei neste filme é como ele mostra a genialidade dos irmãos McDonald’s. Eles realmente revolucionaram o setor das lanchonetes. Muito interessante como The Founder mostra como eles chegaram lá e de que forma eles construíram o conceito de lanchonete enxuta e eficiente. Ray Kroc teve ousadia, sem dúvida, mas não foi ele que teve nenhuma sacada para o negócio propriamente dito.

Tive curiosidade de saber o quanto o filme foi fidedigno com a história original, e ao ler este texto da Time, eu diria que a grande sacada de Kroc foi de marketing. Afinal, ele soube explorar o nome McDonald’s e criar a figura de Ronald McDonald para vender muito para um público fundamental para a marca, as crianças. No mais, ele foi tudo o que esta produção conta. Fui obrigada também a pesquisar como o próprio McDonald’s hoje conta a sua história. Lendo esta explicação fica claro que a empresa incluiu uma linha sobre os grandes responsáveis pelo modelo da empresa mas que tudo o mais gira em torno de Kroc. Acho que nem preciso dizer mais nada, não é mesmo?

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de John Schwartzman, muito coerente com a época e elemento importante para nos situar nos anos 1950; a ótima edição de Robert Frazen; a música bem pontual e bacana de Carter Burwell; o design de produção de Michael Corenblith; a decoração de set de Susan Benjamin; os figurinos de Daniel Orlandi; e o ótimo trabalho dos 34 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis desde a construção de cenários e até o design gráfico da produção.

O elenco é fantástico. Outro ponto fortíssimo do filme – eu diria que tão fundamental quanto o roteiro e a direção. Michael Keaton está soberbo. Ele convence em cada cena e humaniza a figura sem escrúpulos que vemos em cena. Apenas perto do final conseguimos ter “ódio” dele. 😉 Os atores Nick Offerman e John Carroll Lynch, que vivem os irmãos McDonald, também estão soberbos. Fazem um grande trabalho. O filme não seria o mesmo sem eles.

Além deste trio de atores soberbo, vale citar o elenco de coadjuvantes que também faz um grande trabalho: B.J. Novak se sai muito bem como Harry J. Sonneborn; Laura Dern está bem como Ethel Kroc, esposa do protagonista; Patrick Wilson como Rollie Smith, dono de restaurante que acaba virando um dos franqueados da rede; Linda Cardellini como Joan Smith, mulher de Rollie; Justin Randell Brooke como Fred Turner, funcionário de Kroc e que acaba se transformando em um dos seus sócios; Kate Kneeland como June Martino, secretária de Kroc; e Adam Rosenberg como o funcionário do McDonald’s original que rouba a cena quando atende Kroc. Há vários outros coadjuvantes, mas nenhum sem grande destaque para a narrativa.

No texto da Time que eu citei, eles falam sobre o livro que Kroc escreveu e sobre a matéria que a própria Time fez sobre ele. No texto, eles comentam que diferente do que o filme mostra, os irmãos McDonald’s já tinham algumas franquias antes de Kroc aparecer na vida deles. Ora, o filme fala sobre isso. Eles deixam claro que os McDonald’s já tinham franquias, mas que não queriam mais seguir com este modelo de negócios porque achavam complicado garantir a mesmo qualidade que eles queriam em franquias que não estivessem próximas. Kroc acaba os convencendo, mas o filme é bastante preciso nesta informação.

O diretor texano John Lee Hancock tem oito filmes em seu currículo. Antes, eu assisti dele The Blind Side (comentado aqui) e Saving Mr. Banks (com crítica neste link). Não tenho dúvida alguma ao afirmar que The Founder é o melhor filme do diretor até agora.

The Founder teria custado US$ 7 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 12,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase US$ 7,6 milhões. Ou seja, no acumulado, tem pouco mais de US$ 20 milhões. Já se pagou e está obtendo lucro. Ainda que pequeno, comparado com outros filmes. Como ele não tem uma propaganda massiva, certamente fará sucesso na propaganda boca a boca.

Até o momento The Founder ganhou um prêmio e foi indicado a outros três. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Ator para Michael Keaton no Capri – ele dividiu o prêmio com Andrew Garfield por seu trabalho Hacksaw Ridge (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 150 críticas positivas e 32 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são bons, mas para o meu gosto eles poderiam ser um pouco maiores. Talvez o pessoal que gosta do McDonald’s não gostou muito de saber a história por trás da marca. 😉

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso ela entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que mostra bem o “espírito americano”. Uma sociedade baseada no ideário do sucesso, da persistência que leva o homem ou a mulher até o êxito que, geralmente, significa dinheiro. The Founder nos conta a impressionante e pouco comentada história por trás da rede McDonald’s. Como as pessoas que realmente criaram a fórmula foram passadas para trás. Um grande filme sobre o pior lado do capitalismo e da ambição humana. Este é um “case” do gênero famoso, mas quantos mais do mesmo tipo não teremos por aí? Certamente muitos. E o que tudo o que o protagonista desta história lhe garantiu? Certamente não a vida eterna. Grande filme. Muito bem realizado e que nos faz pensar.

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