Green Book – Green Book: O Guia

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Um filme sobre pessoas comuns, que normalmente não conviveriam, compartilhando uma viagem para dentro de um país segregado. Green Book é um filme singelo, sem muita inovação, mas que nos mostra, com muita simplicidade, como atitudes e crenças podem mudar com a convivência com o “diferente”. Em um país ainda marcado pelo preconceito racial, Green Book serve como um bom exemplo real de quebra de preconceitos sem grandes esforços ou firulas. Filme bacana, mas longe de ser excepcional.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em uma história real. Na cidade de Nova York, em 1962, vemos a movimentação em frente ao clube Copacabana. Lá dentro, o cantor Bobby Rydell (Von Lewis) saúda o público e afirma que está feliz de estar ali. Na noite de sábado no Copa, um dos seguranças do local, Tony Lip (Viggo Mortensen), acomoda um casal em um local privilegiado do salão e recebe uma “gorjeta” por isso. Na chapelaria, Sr. Loscudo (Joe Cortese) pede para a funcionária guardar o chapéu dele como se fosse a própria vida. Tony faz o chapéu desaparecer e, com a confusão que se forma no final da noite, o clube fecha por dois meses. Nesse período, Tony deve encontrar um outro trabalho, e é assim que ele vira motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Green Book): Estava com uma expectativa boa antes de começar a assistir a esse filme. Primeiro, pelos atores envolvidos no projeto. Gosto muito de Viggo Mortensen e de Mahershala Ali. Depois, pelas premiações que assisti até agora, fiquei sabendo um pouco sobre a história e ela me parecia interessante.

O filme não decepciona. A história é simples, como eu imaginava, mas relevante. Afinal, nunca é demais para os Estados Unidos e para todo nós lembrarmos da época em que havia locais para negros e para brancos. Esse passado é ainda recente e traz divisões para aquele país – e em outros locais, ainda que a segregação neles não tenha sido calçada por leis ou normas.

O filme está focado em um personagem e na sua “aventura” para o interior do país trabalhando como motorista de um músico conhecido e renomado. O protagonista é o “simplório” italiano vivido por Mortensen, Tony, que sempre viveu e continuará vivendo no bairro do Bronx, em Nova York. Ele não tem muitos estudos ou cultura, mas é o típico italiano grande, esperto e bom de briga. Por ter essas características, ele é sempre chamado para alguns “trabalhos”.

Não fica evidente no filme, mas sugerido, que Tony está cercado de vários “carcamanos”, homens que gostam de cobrar dívidas e de usar a violência para conseguirem o respeito para os seus chefões. Tony conhece essa realidade de perto, cresceu nela, mas não parece tão afeito a aceitar empregos que podem lhe levar até a crimes. Ele respeita todos esses italianos, mas não se deixa levar – ao fechar o clube em que trabalha para cair nas graças de um “chefão”, ele cogita voltar a dirigir caminhões de lixo antes de cair nos “trabalhos” de uma das máfias locais.

Como ficará dois meses “desempregado” e precisando arranjar qualquer dinheiro para pagar as contas da casa – especialmente o aluguel semanal -, ele aceita a sugestão de fazer a entrevista para ser o motorista de um médico. Chegando no local, ele conhece o diferenciado e um tanto extravagante Dr. Don Shirley que, logo ele vai descobrir, não é nenhum médico, mas um músico reconhecido e aclamado.

Gostei do roteiro simples de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly. Eles apresentam o nosso “herói” de maneira muito simples, sem floreios ou tentando transformá-lo em um cara maior do que ele é. Tony é um sujeito simples, e é isso o que vemos em cena. Inicialmente, ele tinha preconceito com os negros – como parece que a maioria dos italianos do Bronx e/ou da família dele. Tony e os familiares dão a entender que não gostam de negros dentro de casa, trabalhando para eles, mas que aceitam se for necessário.

Precisando de dinheiro, ele topa trabalhar para Shirley. Por grande parte do filme, ele não entende o porquê do músico aceitar o preconceito que ele recebe na região Sul do país. Os músicos que formam o trio com Shirley, Oleg (Dimiter D. Marinov) e George (Mike Hatton), tentam explicar para ele as razões dele ter pedido por aquela turnê pelo território segregacionista do país.

Para mudar a realidade, não basta alguém ter talento, ele precisa ter coragem. Ou seja, enfrentar o preconceito e mostrar, com o seu talento e elegância, que um negro pode ser genial e único, inigualável em relação ao que faz. Além disso, acredito, Shirley queria experimentar na pele o que várias outras pessoas também vivenciavam. Como ele mesmo comenta, em certo trecho do filme – única parte um tanto “exagerada” da produção, já que não vejo como tão necessário o pedido dele de parar o carro e sair dele -, ele não se encaixava em nenhum grupo.

Para os brancos, ele era talentoso, até genial, mas não era branco suficiente para ser reconhecido desta forma; para os negros, ele vivia em um círculo de pessoas inacessível, ganhando dinheiro que eles nunca ganhariam na vida e sendo, desta forma, menos “negro” do que deveria. Em resumo, Shirley não era exatamente aceito entre os brancos e os negros e, por isso, ele se sentia sempre deslocado – e solitário.

A queda de preconceitos serve para o protagonista desta produção também. Tony acaba apreciando e admirando o talento de Shirley, enquanto o músico, com dois doutorados e um nível cultural muito maior que o do motorista, também aprende com o seu jeito simples e franco. Os dois olham verdadeiramente um para o outro e, na convivência diária, aprendem com as suas realidades diferentes e com as suas maneiras diversas de lidar com os problemas e com os desafios.

Interessante como Tony tem uma opinião bastante formada sobre o que os negros comem ou a música que eles escutam. Sim, de fato Shirley não fazia parte do “negro padrão” daqueles dias. Ele não tinha uma vida comum, não era um homem que trabalhava nos campos ou em um subemprego, como tantos outros daquela época. Então Tony aprende que não existe apenas um gosto por raça, assim como Shirley percebe como pode comer um frango frito com as mãos e sentir prazer com algo tão simples.

Naquela discussão no carro, Tony também fala como todos tem uma visão sobre os italianos – que todos comem pizza e falam alto. Bem, ele não parece fugir do padrão, mas isso não o impede de aprender com o diferente. Mesmo sem muita educação ou cultura, ele aprende com Shirley e também ensina algo para ele.

Mesmo Tony fazendo parte do padrão dos italianos do Bronx daquela época, certamente havia italianos que não seguiam aquele padrão, e isso acontece em qualquer parte, com qualquer cor de pele ou cultura. E mesmo quem segue um padrão, certamente se diferencia em algum aspecto. Eis um dos ensinamentos “naturais” desta produção. Nunca simplifique ou generalize demais.

Uma viagem vale sempre pelo que encontramos pelo caminho. Em Green Book, temos mais um exemplo sobre isso. O roteiro simples e honesto, baseado em uma história relativamente simples também, é uma das maiores qualidades da produção. Agradeço pelo trio Vallelonga, Currie e Farrelly não terem floreado muito a história, tentando torná-la mais complexa ou “comovente” do que ela é naturalmente. Isso é um ponto positivo. Por outro lado, a narrativa linear e a viagem um tanto “previsível” de Lip e Shirley prejudicam um pouco o filme, que acaba não mostrando nenhuma grande “inovação” ou reviravolta.

Sim, isso é compreensível para um filme com este perfil. Esse fato não desqualifica a produção, mas também não a torna inesquecível. Para resumir, Green Book é um belo filme, com ótimas interpretações e um trabalho bastante honesto dos roteirista e do diretor Peter Farrelly.

Dentre os concorrentes deste ano, sem dúvida alguma é o filme que apresenta a mensagem mais bacana e uma das mais importantes. Isso fará com que ele ganhe o Oscar de Melhor Filme? Talvez. Em um ano com uma safra meio fraca, como este, não seria ruim Green Book levar o prêmio principal da noite. Afinal, ele trata de americanos comuns, de um grande talento e de um país que ainda precisa resolver os seus problemas de divisão. Para os Estados Unidos, esta produção é especialmente importante. E, para todos nós, que não nascemos lá, ela nos faz pensar e valorizar bons exemplos. Apenas por isso, o filme merece o seu destaque e ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mahershala Ali tem recebido alguns dos principais prêmios por seu trabalho como Dr. Don Shirley. Ele realmente faz um belo trabalho, sem grandes rompantes, mas muito condizente com o personagem no qual ele deve se inspirar. A interpretação de Ali é elegante, cheia de pequenos detalhes e de imersão no personagem. Não podemos pedir nada mais para um grande ator como ele.

Ainda que menos premiado, Viggo Mortensen faz uma parceria perfeita com Ali. O personagem dele, do italiano que não para de falar e comer, é mais “espalhafatoso”, mas Mortensen também mergulha muito bem nos trejeitos e no jeito de falar dele. Interpretações realmente incríveis. Os personagens não poderiam ser mais diferentes, um do outro e, ainda assim, eles encontram pontos em comum e de convivência. Um exemplo para todos nós.

Não achei o roteiro de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly excepcional, mas o trabalho deles é muito coerente com a história que lhes inspirou. Achei quase todo o material muito bem acertado, com o desconto de um ou dois trechos um tanto exagerados demais – especialmente aquele em que Shirley pede para o motorista parar em uma noite de chuva em que ele está falando como é mais “negro” que o músico porque vive em contato com as ruas. De fato, ele pode ter pedido para Tony parar o carro, mas achei a cena um tanto exagerada na versão final.

Os grandes nomes da produção são Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Grande parte da história está centrada neles e na relação que ambos estabelecem durante a turnê do músico. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Linda Cardellini como Dolores, esposa de Tony; Sebastian Maniscalco como Johnny Venere, irmão de Tony; Dimiter D. Marinov como Oleg, que toca violoncelo no trio de Shirley; Mike Hatton como George, que toca baixo no trio; Joe Cortese em uma ponta como o mafioso Gio Loscudo; Maggie Nixon como a garota que guarda o chapéu de Loscudo no Copacabana; Von Lewis em uma ponta como o cantor Bobby Rydell; e os garotos Hudson Galloway e Gavin Lyle Foley como Nick e Frankie Vallelonga, filhos de Tony. Completam a família de Tony os atores Rodolfo Vallelonga e Louis Venere, respectivamente os avós Nicola e Anthony; e Frank Vallelonga como Rudy Vallelonga. Da família Venere, sobrenome de solteira da esposa de Tony, aparecem ainda Don DiPetta como Louie Venere; Jenna Laurenzo como Fran Venere; e Suehyla El-Attar como Lynn Venere.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaco a trilha sonora de Kris Bowers; a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Patrick J. Don Vito; o design de produção de Tim Galvin; a direção de arte de Scott Plauche; a decoração de set de Selina van den Brink; e os figurinos de Betsy Heimann.

Green Book estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros 21 festivais em diversos países pelo mundo até janeiro de 2019. Na sua trajetória até aqui, o filme ganhou 46 prêmios e foi indicado a outros 90 – incluindo a indicação em cinco categorias do Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali e Melhor Filme – Musical ou Comédia no Globo de Ouro 2019; para o de Melhor Ator Coadjuvante para Maheshala Ali no Prêmio BAFTA; para o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali no Screen Actors Guild Awards; e para outros 12 prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali em diferentes premiações; 11 prêmios de Melhor Filme; 4 prêmios de Melhor Roteiro; 1 prêmio de Melhor Elenco e 4 prêmio de Melhor Ator para Viggo Mortensen.

Antes de filmar, Viggo Mortensen foi convidado para conhecer a família de Nick Vallelonga durante um jantar de seis horas. Ele passou mal porque ainda não tinha começado a engordar e a expandir o estômago. Durante o jantar, ele se sentiu “obrigado” a terminar cada prato, e a família não parava de servir para ele um prato novo. Depois de sair do jantar, ele andou um pouco com o carro e teve que se deitar no banco de trás para lidar com toda a comida que tinha ingerido. Realmente, os Vallelonga parece apreciarem muito a comida.

Agora, algo curioso sobre esta produção. Quando Green Book foi lançado, a família de Shirley se opôs à mensagem da produção dizendo que Tony e Shirley nunca tinham sido amigos, alegando que eles tiveram apenas uma relação “empregador-empregado”. Em janeiro de 2019, gravações de uma entrevista com Shirley surgiram em que ele fala sobre a relação com Tony: “Confiei nele implicitamente. Você vê, não era só o meu motorista, nunca tivemos uma relação empregador/empregado. Você não tem tempo para esta besteira. Minhas vidas estava na mão desse homem! Então você tem que ser amigável um com o outro”.

A peça de piano que Shirley toca no bar e emociona a todos é Etude Op. de Chopin 25 nº 11, “Vento de Inverno”, uma das peças mais difíceis de serem tocadas, com nota 9 (mais alta) na escala de Níveis de Dificuldade de Henle. Quando eu escutei, no filme, achei que fosse uma obra de um dos compositores clássicos, mas não sabia exatamente de quem ou qual. Foi bom ter essa informação de que era Chopin. 😉

Kris Bowers, o compositor do filme, foi o pianista de Mahershala Ali. A exemplo de Shirley, ele também só toca em pianos Steinway, todos feitos à mão. Segundo o pianista, porque esses pianos projetam o som como nenhum outro instrumento.

A cena da pizza é inspirada na vida real. Nick Vallelonga disse que Tony costumava pedir uma torta inteira de pizza, dobrá-la e comê-la. Ao ouvir sobre isso, Mortensen pediu para a cena ser incluída no filme, mas o diretor e roteirista Farrelly disse que já haviam cenas “alimentares engraçadas” demais na produção. Mas quando eles incluíram a cena e todos da produção começaram a rir, o diretor resolveu deixar ela no filme.

O filme é dedicado a “Larry the Crow”, um pássaro que pairava em torno do local das filmagens. O ator Viggo Mortensen cuidou dele depois que ele foi atropelado por um carro.

O título do filme é uma referência ao “Livro Negro dos Motoristas Negros”, conhecido também como “Livro Verde dos Viajantes Negros”. Publicado entre 1936 e 1966, o guia ajudava viajantes afro-americanos a encontrar locais em que eles poderiam dormir, comer e outros estabelecimentos comerciais que eles poderiam frequentar em locais que segregavam brancos e negros. Esse livro acabou cobrindo não apenas a América do Norte, mas também Bermudas e o Caribe.

Depois da viagem de dois meses que vemos em cena em Green Book, Tony e Shirley continuaram em contato. Depois da experiência que vemos no filme, eles entraram em uma turnê que durou quase um ano. Além disso, o músico pediu a Tony que se tornasse o seu motorista e guarda-costas durante a sua turnê europeia, mas Tony recusou o trabalho para não ficar mais tempo longe da sua família. Para Nick Vallelonga, Shirley era amigo da família.

Depois de assistir ao filme, o jazzista Quincy Jones comentou: “Eu tive o prazer de me familiarizar com Don Shirley enquanto eu trabalhava como arranjador em Nova York nos anos 1950, e ela era, sem dúvida, um dos maiores pianistas da América. Tão habilidoso músico como Leonard Bernstein ou Van Cliburn. Portanto, é maravilhoso que sua história esteja finalmente sendo contada e celebrada. Mahershala, você fez um trabalho absolutamente fantástico interpretando-o, e eu acho que a performance de Viggo Mortensen e dele se transformaram em uma grande amizade que foi capturada pelo filme”.

Viggo Mortensen realmente comeu os cachorros-quentes na cena da aposta. A equipe de produção forneceu para ele um balde no qual ele poderia cuspir as partes mastigadas após as tomadas, mas ele achou melhor engolir a comida, simplesmente. Nessa história, ele realmente comeu 15 cachorros-quente.

Este é o primeiro Drama dirigido por um dos irmãos Farrelly, mais conhecidos por sua carreira de comédias.

Existe pouca informação sobre Don Shirley. Embora alguns detalhes de sua trajetória sejam contraditórios, o que se afirma como mais seguro é que ele teria se juntado ao Conservatório Rimsky-Korsakov de São Petesburgo aos 9 anos de idade e que teria feito o seu primeiro concerto aos 18 anos de idade na Orquestra Boston Pops. Depois, ele conseguiu vários diplomas, doutorados e aprendeu diversas línguas. O primeiro álbum dele, Tonal Expressions, foi lançado em 1955. Stravinsky, um pianista legendário, disse que o “virtuosismo (de Shirley) era digno dos deuses”. Apesar de ter estudado todos os clássicos, Shirley foi dissuadido pelos líderes da indústria fonográfica a seguir esta carreira dos clássicos porque ele não seria bem aceito pelo público branco.

A família de Shirley questionou o filme, dizendo que o músico nunca teria sido amigo de Tony.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 228 críticas positivas e 59 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3. No site Metacritic, o filme ostenta o “metascore” 69, fruto de 37 críticas positivas, 13 medianas e 2 negativas. Interessante como a avaliação do público é bem melhor que a da crítica. Talvez porque as pessoas queiram mais histórias de pessoas comuns.

Segundo o site Box Office Mojo, Green Book faturou US$ 61,5 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 44,6 milhões nos cinemas dos outros países em que a produção estreou. Assim, o filme que teria custado cerca de US$ 23 milhões faturou, até o momento, pouco mais de US$ 106,1 milhões. Um sucesso de bilheteria, sem dúvida.

Green Book é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Uma parceria em cena incrível, entre dois atores, e uma história simples mas cheia de valor. Isto foi o que eu exprimi de Green Book. A história, evidentemente, faz uma homenagem a dois homens, um gênio da música e o outro uma pessoa simples que era boa em “resolver problemas”, que se aproximaram para uma viagem ao Sul segregacionista dos Estados Unidos. O contato entre eles e a amizade que surgiu em dois meses de viagem demonstram como todas as pessoas podem se entender e aprender uma com as outras, se assim o desejarem. Filme bacana, com uma história simples e envolvente e grandes interpretações, Green Book tem uma narrativa linear e previsível. Isso não chega a atrapalhar o filme, mas também não o transforma em uma obra acima da média.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Green Book concorre em cinco categorias no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para começar, o filme concorre com Mahershala Ali na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

Pelas premiações vistas até aqui, ele é o favoritíssimo para levar esse prêmio. E avaliando o trabalho dele nesta produção, com um desempenho equilibrado, honesto e bastante elegante, Ali realmente merece o prêmio. Falta assistir ainda a Richard E. Grant em Can You Ever Forgive Me?, mas entre Ali, Adam Driver, Sam Elliott e Sam Rockwell – já assisti a Vice, o próximo que vou comentar por aqui -, realmente fico com Ali. Considero quase impossível, pelo histórico conquistado pelo ator até aqui, ele perder nessa categoria. Então, temos 1 Oscar já para Green Book.

Depois, o filme concorre na categoria Melhor Edição. Um páreo duríssimo, mesmo sem First Man na disputa. Apesar da edição de Green Book ser boa, gostei mais do trabalho de Vice e The Favourite – ou até mesmo de BlacKkKlansman. Ainda preciso ver a Bohemian Rhapsody, mas acho que Green Book corre por fora nesta disputa.

Parceiro constante de Ali nesta produção, Viggo Mortensen foi indicado como Melhor Ator. Ele faz um belo trabalho, sem dúvida, mas terá um páreo duríssimo com Christian Bale, que está ótimo em Vice, e com Rami Malek, que já ganhou alguns prêmios por seu desempenho em Bohemian Rhapsody. Como acredito que a grande disputa está entre Bale e Malek, Mortensen corre por fora nesta categoria também.

Green Book também foi indicado como Melhor Filme. Não é impossível a produção vencer, porque este ano não existe, me parece, um franco favorito. Caso a Academia escolher Green Book, no lugar de BlacKkKlansman, por exemplo, seria a premiação de um bom filme, que trata de pessoas comuns e que critica o racismo nos Estados Unidos de forma mais branda do que a produção de Spike Lee. Francamente, até o momento, nenhum filme ainda realmente me convenceu de ser o melhor do ano, mas me parece que Vice e The Favourite são obras mais complexas e com maior ousadia – não sei se isso lhes torna melhores filmes, mas é um fato.

Finalmente, Green Book concorre também na categoria Melhor Roteiro Original. Parada duríssima também, já que a produção concorre com roteiros bastante complexos e interessantes, como Vice e The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia e no filme que querem consagrar nesta edição. Podem até premiar Roma nesta categoria – não seria uma surpresa. Gosto de Green Book, mas não sei se ele terá força para ganhar.

Em resumo, Green Book pode levar um prêmio para casa, o de Melhor Ator Coadjuvante, ou até 3, me parece – adicionando Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia. Difícil prever. O filme é bom e não seria um desperdício consagrá-lo, especialmente em um ano com uma safra relativamente fraca como é o caso deste ano.

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Captain Fantastic – Capitão Fantástico

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Uma história para dar bastante pano para manga. Na verdade, algumas teses poderiam ser escritas sobre Captain Fantastic. Mas eu vou me eximir desta tarefa e fazer apenas alguns comentários sobre o filme. Com um roteiro corajoso, que leva uma ideia até o extremo em alguns momentos ao mesmo tempo em que nos apresenta uma proposta bastante realista sobre um conceito, este filme é uma aula de cinema. Primeiro, pelo roteiro. Depois, pelo elenco escolhido a dedo e com ótimo desempenho e, finalmente, com algumas mensagens que a produção deixa no ar.

A HISTÓRIA: Uma imensa e linda floresta com belas árvores. Em meio à mata, vemos um cervo. Ele está tranquilo, perto de um riacho. O animal se alimenta de flores. Ele olha para um lado e vemos a uma pessoa camuflada. O cervo não se assusta. Bo (George MacKay) espera ele chegar perto e ataca. Ele corta a garganta do animal. Lentamente os irmãos dele chegam perto, e Ben (Viggo Mortensen) marca o filho mais velho com sangue e lhe dá uma parte do animal para comer. Esse foi o rito de passagem do garoto. Em seguida, a família tira a camuflagem no riacho e leva a caça para casa. Todos sabem o que fazer na sequência. A família vive em meio à floresta e tem o seu próprio modo de vida alternativo à civilização.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Captain Fantastic): Uma característica importante para assistir a este filme é desarmar-se. Deixar em segundo plano as suas opiniões, crenças e valores e acompanhar essa história e seus argumentos sem julgar. Ben e os seus filhos tem uma maneira de encarar a vida e a realidade muito diferente da maioria.

Alguns podem achar a história utópica, ou exagerada. Sem dúvida a forma de pensar de Ben e dos filhos é utópica. Eles acreditam em uma sociedade diferente da que os cerca e daquela que nos rodeia. Captain Fantastic também é um pouco exagerado, sem dúvida. O roteirista e diretor Matt Ross exagera em algumas cores para justamente comprovar os seus argumentos. Um recurso bem conhecido na literatura e nas artes e um tanto em “desuso” no cinema, que anda bastante padronizado.

Não vou mentir que alguns exageros da história me pareceram um tanto desnecessários. A forma com que Ben tenta tocar a vida de forma “normal” após a perda da esposa e mãe de seus filhos me pareceu um tanto exagerada. Certo que ele parecia estar um pouco em choque também e que era um grande defensor do estilo “sobrevivência”, mas me pareceu um pouco forçada a frieza dele tanto na hora de contar para os filhos sobre a morte da mãe deles quanto o episódio seguinte de treinamento na montanha.

Também achei um tanto infantil a sequência da “missão libertar comida”, que nada mais foi do que roubar alimentos de um supermercado. Ora, se a filosofia de Ben e da esposa era criar os filhos tendo como base a verdade acima de tudo, parece um tanto incoerente ensinar para eles a manipulação de um ataque cardíaco fictício para cometer um crime, não? (sem contar a sequência do cemitério, que por mais que fosse cheia de “boas intenções”, novamente se trata de um crime e de um grande desrespeito aos pais da mãe dos garotos). Mas ok, Ross exagera nas tintas para mostrar uma família anti-sistema, alternativa ao extremo.

Entendo as intenções do diretor e roteirista, mas só acho algumas cenas um tanto “pesadas” demais. Ver crianças, algumas inclusive pequenas, agindo em conjunto para cometer crimes não me caiu bem. Descontada esta parte, acho bacana a forma com que Captain Fantastic mostra uma realidade possível de uma família que resolve apostar em uma forma alternativa de viver a vida. A exemplo de Into the Wild (comentado aqui), sempre é bacana ver um filme que questiona a realidade de “piloto-automático” e consumismo em que vivemos.

Mas, ainda que pareça bonita a ideia de procurar uma sociedade alternativa, não acredito que alguém se realize sozinho ou de forma isolada. Então ok, Ben e a esposa Leslie (Trin Miller) tentaram preparar os filhos da melhor forma possível. Conseguiram ensinar para eles não apenas técnica de sobrevivência, de luta, o valor de conhecer a origem do que nos alimenta e a pensar por sua própria conta e de argumentar cada pensamento e teoria, mas não ensinaram para eles a importância de viver em um coletivo. Acredito que a gente só aprenda para valer no contato com o outro, com o estranho e o diferente, e não vivendo em uma bolha e na realidade que nos parece mais conveniente.

De forma crítica o filme mostra a realidade das cidades e o seu consumismo e padrão de vida sem reflexão. As pessoas se alimentam sem nenhum contato com a origem do alimento e estão mais conectadas com os eletrônicos do que com o raciocínio lógico, a argumentação e o conhecimento. Esse é um extremo que não serve. E o extremo da família de Ben, que vê o mundo apenas de uma forma e sem contato com o diferente, também não serve.

O bacana deste filme é que ele vai expondo os seus argumentos de forma linear e crescente, com algumas surpresas no caminho, e termina mostrando que os extremos não deveriam nos servir. Tanto que no final Ben cede um pouco ao estilo de vida que eles vinham levando e percebe a importância de não isolar os filhos na educação que ele acredita ser certa.

Eles precisam ser integrados à sociedade e é isso que acontece. Certamente eles estarão muito bem preparados para enfrentar a vida pensando por conta própria, mas agora mais abertos a aprender também com os outros. Porque não basta apostar em uma forma diferente de enxergar o mundo e ensinar literatura e música de qualidade para os seus filhos. Tão importante quanto é ensiná-los a respeitar os outros, especialmente quem pensa diferente. O equilíbrio sempre é a resposta.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro e a direção de Matt Ross são exemplares. Especialmente o roteiro, que é inteligente e que exagera algumas tintas de forma proposital. Mas, descontados os pontos que eu já tratei antes, achei o trabalho dele exemplar. Soube apresentar essa história com muita competência e, o mais importante, não apenas com ótimas linhas de roteiro, mas valorizando o trabalho de cada ator.

Aliás, o elenco é outro ponto forte da produção. Viggo Mortensen lidera o grupo por ser o intérprete mais experiente em cena na maior parte do tempo, mas todos estão ótimos. Mortensen mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Ator, mas acho que George MacKay merecia, também, uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. Ele realmente é um dos destaques desta produção.

Além deles, vale citar os outros atores que compõem a família e que se saem muito bem: Samantha Isler como Kielyr; Annalise Basso como Vespyr; Nicholas Hamilton como Rellian, o filho que se rebela contra o pai; Shree Crooks como a esperta Zaja; e Charlie Shotwell como Nai, uma fofa. A despedida da família de Leslie, bem perto do fim da produção, com as irmãs Kielyr e Vespyr soltando a voz, é um dos momentos mais especiais e bonitos do filme. Todos esses atores que interpretam os filhos de Ben e Leslie estão incríveis.

Completando o elenco, mas em papéis menores, estão Kathryn Hahn como Harper, irmã de Ben; Steve Zahn como Dave, marido de Harper; Elijah Stevenson como Justin, um dos filhos de Harper e Dave; Teddy Van Ee como Jackson, o outro filho do casal; Erin Moriarty como Claire, a primeira garota a beijar Bo; Missi Pyle em uma super ponta como Ellen, mãe de Claire; Frank Langella como Jack, pai de Leslie; e Ann Dowd como Abigail, mãe de Leslie.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Stéphane Fontaine; da trilha sonora bem pontual mas também bem bacana de Alex Somers; da edição cuidadosa de Joseph Krings; dos figurinos de Courtney Hoffman; do design de produção de Russell Barnes; da direção de arte de Erick Donaldson; e da decoração de set Tania Kupczak e Susan Magestro.

Captain Fantastic fez quase US$ 5,9 milhões nos Estados Unidos. É uma bilheteria baixa, mas não é um resultado ruim para um filme tão alternativo. Sem dúvida alguma este é um deste filmes que só vai ter público na propaganda boca-a-boca e, provavelmente, entre as pessoas com cabeça “mais aberta”. Afinal, esta não é uma produção simples. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez quase US$ 3 milhões.

Algo bacana neste filme é que os argumentos para defender a proposta de Ben e de Leslie estão certos, assim como os argumentos que criticam o que os dois fizeram. A reta final da produção demonstrou isso, e a saída equilibrada foi sem dúvida um dos grandes acertos de Matt Ross.

Captain Fantastic é o segundo longa-metragem dirigido por Matt Ross. Mais conhecido por seu trabalho como ator, Ross estreou na direção em 1997 com o curta The Language of Love. Depois, ele voltaria a dirigir um curta apenas em 2009, Human Resources. O primeiro longa viria três anos depois, 28 Hotel Rooms. Acho que ele tem um trabalho bastante promissor. Tem talento para escrever e um feeling importante na direção.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros 40, inclusive a indicação de Viggo Mortensen na categoria Melhor Ator do Oscar 2017. Sim, ainda estou na onda do Oscar. 😉 Mas já estou atenta ao que está nos cinemas e estreando nas próximas semanas para acompanhar o que de melhor teremos pela frente neste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 152 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Como este filme é 100% americano, ele entra na categoria de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Captain Fantastic, para mim, leva um pouco além a ideia de Into the Wild. Esta produção leva um pouco além a ideia de sociedade alternativa, mostrando de maneira bastante cruel, em alguns momentos, como é para uma família viver de forma totalmente independente. O bacana da produção é que, apesar dela exagerar em algumas tintas volta e meia, ela tenta ser franca com os conceitos e com a realidade e, no final das contas, busca o que é o ideal da vida: o equilíbrio. A saída é não ser totalmente alternativos, a ponto de viver isolado da sociedade, e nem seguir o pensamento mediano comum. Bem desenvolvido, é um filme que merece ser visto e discutido, certamente.

A Dangerous Method – Um Método Perigoso

Me disseram, certo dia, que qualquer pessoa que quiser ajudar outra a se tratar psicologicamente deve ter, também, um pouco de loucura para resolver. Ou, em outras palavras, que qualquer psicólogo ou psiquiatra deve, em algum momento, precisar de análise também, para enfrentar os seus próprios problemas e/ou demônios. Impossível não admirar a Freud, um dos grandes nomes das ciências de todos os tempos. Mas mesmo admirando-o, nunca entendi muito bem porque da fixação dele com as questões sexuais. Li algumas teorias a respeito, mas nunca me aprofundei sobre as razões que fizeram ele ir tão fundo apenas nesta direção. A Dangerous Method surge para contribuir com estes debates porque ele foca uma amizade entre dois científicos que mudou a história. Fala de Freud e de Jung. Fascinante.

A HISTÓRIA: Dois homens seguram uma mulher descontrolada em uma carruagem. Sabina Spielrein (Keira Knightley) quer sair dali, ela resiste, mas quando a carruagem para, ela é levada para dentro da Clínica Burghölzli na cidade de Zurique, na Suíça, em agosto de 1904. Na manhã seguinte, ela é recepcionada pelo médico Carl Jung (Michael Fassbender), que começa a experimentar com Sabina os métodos de psicanálise de Sigmund Freud (Viggo Mortensen). A proposta de Jung é que ele e a paciente se encontrem quase todos os dias para conversar. Conforme o caso dela vai avançando e o tratamento surte efeito, Jung se arrisca a começar a corresponder-se com Freud. A partir daí, o filme conta a história destes três personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Dangerous Method): O surgimento da psicanálise, momento revolucionário no tratamento dos problemas e dores da mente, é o foco deste filme. A primeira sensação que A Dangerous Method nos provoca é a da angústia, ao ver Keira Knightley se retorcendo, literalmente, para interpretar a personagem de Sabina Spielrein em sua fase de crise e mesmo depois.

A atriz faz um bom trabalho. Mas continuo achando que esse tipo de papel não é para ela. Senti Knightley um pouco deslocada no papel. Quando você sente o esforço do ator, é porque as coisas não vão bem. Quando assistimos a um ator vivenciando o personagem, tornando-o legítimo, aquele personagem faz sentido. Quando o esforço fica evidente… parece que para o espectador é jogada a outra parte do sacrifício.

Isso acontece com os outros dois atores. Eles estão bem, mas parecem se esforçar em assumir um tom sério e intelectual. A Dangerous Method tem menos de duas horas, mas parece ter mais. E isso não se deve apenas à densidade do roteiro de Christopher Hampton, inspirado em sua peça The Talking Cure e no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr. Parte do esforço que o espectador tem que fazer para continuar interessado na história se deve também pelas interpretações, algumas vezes forçadas.

Mas a história, por si só, é fascinante. E, evidentemente, não cabe em um filme, em uma peça ou em um livro. O surgimento da psicanálise e as relações amistosas e depois de ruptura entre Freud e Jung estão cheias de detalhes que merecem ser conhecidos e, eu diria, estudados.

A Dangerous Method humaniza os dois ícones da psicanálise e nos faz pensar em como mesmo o mais genial e ousado cientista tem, ele próprio, as suas imperfeições. Se um ícone estivesse alheio a defeitos e problemas, não seria humano, certo? Eu já conhecia um pouco da história de Freud e Jung, mas francamente este filme torna muito mais simples a explicação de pontos fundamentais na vida dos cientista. Para começar, a fixação de Freud pelo que Jung chamou de “interpretação exclusivamente sexual do material clínico” que eles estudavam.

Nunca entendi porque ele limitava as interpretações a essa questão. Devo dizer que sempre concordei com Jung e outros teóricos que afirmavam que havia muito mais em jogo do que apenas a questão sexual. Mas A Dangerous Method torna evidente que esta foi uma escolha pragmática de Freud. Ele preferia manter-se firme à esta leitura do que abrir o foco para outras possibilidades e fazer a psicanálise ser combatida ao ponto de ser desacreditada. Faz sentido. Na época – e até hoje – as ideias dele foram muito combatidas. Se ele tivesse ampliando muito o leque, talvez tivesse todo o seu trabalho, que surtia e continua surtindo efeito, destruído.

Sobre Jung, eu sabia menos… e achei fascinante a escolha do filme em pegá-lo como personagem principal. Interessante as suas fraquezas e a vontade do médico pesquisador em lançar-se na experiência de satisfazer os próprios desejos, independente do efeito que estas suas ações poderia ter na parte frágil da história, Sabina Spielrein. Claro que, posteriormente, ela mesma se tornaria uma teórica e pesquisadora, mas ela era a pessoa que precisa de maior cuidado. Se bem que, se olharmos com um pouco de lupa, toda a relação de admiração e, ao mesmo tempo, competitividade e negação de atitudes de Freud por parte de Jung mostrava que, este último, também precisava de algum cuidado e, quem sabe, ajuda profissional.

Aliás, essa ideia de que mesmo os profissionais precisam de ajuda fica ainda mais evidente com o personagem de Otto Gross (Vincent Cassel). Ele mesmo se classificava como neurótico, e defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir os seus desejos, até porque a monogamia era uma afronta ao indivíduo. Sua racionalidade, mesmo que muitos possam considerá-la equivocada, fez com que Jung se lançasse em direções que ele antes não havia experimentado.

Interessante conhecer os métodos antigos para o tratamento de pessoas doentes, e as primeiras medições relacionadas com os desejos e sentimentos dos pacientes desenvolvidas por Jung. A ciência avançou muito, desde então, mas poucos tiveram uma importância tão decisiva no desenvolvimento de um método inovador quanto Freud com essa ideia de conversar com o paciente – ao invés de tratá-lo com sessões de choque, isolamento, e etc.

A direção de David Cronenberg segue uma linha tradicional, sem que ele seja inventivo. Na verdade, acho que 90% dos diretores norte-americanos poderiam ter feito um filme igual ou muito parecido com esse. O roteiro de Hampton é bom, mas recomendado apenas para as pessoas interessadas nos personagens – duvido muito que este texto, denso como ele é, agrade ao grande público. O diretor de fotografia Peter Suschitzky também faz um belo trabalho.

Outro ponto é fundamental para explicar as diferenças entre Jung e Freud: a diferença social e de origens deles. A mulher de Jung, Emma (a ótima Sarah Gadon), era de uma família rica e tinha dinheiro. Jung trabalhava, mas não tinha que se preocupar tanto com o sustento da casa quanto Freud – que tinha mais filhos que Jung e era o provedor familiar. Há uma cena importante em que Freud comenta que há outro risco para ele e o grupo de Viena que trabalhava a psicanálise: o fato deles serem judeus. Jung pergunta o que isso tem a ver, e Freud comenta que eis uma afirmação típica de um protestante.

Pouco depois, na primeira e, especialmente, na segunda guerra mundial, ficaria evidente que a questão dos judeus era algo importante para aquela época. Foi também na relação entre Jung e Freud, assim como nas convicções deles sobre quais deveriam ser as linhas da psicanálise. Em uma conversa com Freud, Sabina afirma que Jung está preocupado não apenas a explicar aos pacientes que eles são de determinada forma por isso e por aquilo (a proposta de Freud), mas ajudá-los a, a partir desta constatação, encontrar aquilo que eles gostariam de ser. Para Freud, isso era brincar de ser Deus.

Até hoje a divisão entre estas duas correntes existe. E mesmo sem ser uma pesquisadora e, muito menos, uma especialista nesta seara, me arrisco a dizer que eu prefiro a linha de quem vê as questões sexuais como fundamentais, mas não como únicas, e que tenta ir além da constatação do problema para tentar, também, buscar alternativas e caminhos para os pacientes em busca de ajuda. Sempre fui um pouco mais para o lado de Jung. E com este filme, apesar dos equívocos do homem, continuo tendo mais interesse por suas ideias.

Ainda que o filme seja interessante e tenha bons atores à frente da produção, senti falta de outros personagens, de outros pacientes e casos clínicos tratados por Jung ou algum por parte de Freud para exemplificar um pouco mais os seus métodos e conclusões. Há pouco exemplo prático nesta história, o que eu acho que a tornaria mais fascinante. Claro que foi uma escolha de A Dangerous Method manter o foco na vida pessoal e nos bastidores do trabalho de Jung e Freud. Isso é bacana. Mas alguns discursos teóricos poderiam ter dado lugar para exemplos práticos. Faltou isso.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu admito que a Keira Knightley me irritou um pouquinho, especialmente com aquelas saídas fáceis de arcada dentária para a frente e contorsionismo do início, quando ela estava na fase mais difícil da doença. Sei que a personagem exigia mostrar este descontrole, só achei a forma equivocada. Michael Fassbender está melhor e, em especial, Viggo Mortensen. Eles fazem um bom duelo. Os demais atores, ainda que importantes para a história, se destacam menos. Vale voltar a comentar sobre Vincent Cassel, que está muito bem e charmoso neste filme,  e a talentosa e comedida Sarah Gadon.

Da parte técnica da produção, além do diretor de fotografia, faz um bom trabalho o editor Ronald Sanders. A trilha sonora do veterano Howard Shore tem uma presença pouco marcante, basicamente importante no início e no final do filme. Achei ela bastante previsível, sem grande inventividade. Um trabalho medíocre, apesar de levar a assinatura de um mestre.

Fiquei curiosa para saber se o filme foi rodado nos locais citados, ou se várias cenas foram feitas em estúdio. De fato, A Dangerous Method foi rodado nas cidades de Viena, na Áustria, e em diversas cidades alemãs, a saber: Bodensee, na Bavária, e Constance e Überlingen, ambas em Baden-Württemberg, além do estúdio MMC em Hürth, também Alemanha.

Fiquei admirada com a quantidade de produtores e estúdios envolvidos em A Dangerous Method. Nomes que aparecem na abertura do filme. Para a realização deste projeto, vieram recursos de quatro países: Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suíça.

A Dangerous Method estreou em setembro do ano passado no Festival de Veneza. Depois, o filme passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Zurique, Nova York, Chicago, Rio de Janeiro, Londres e Estocolmo.

Nesta trajetória, o filme recebeu 13 prêmios, foi indicado a outros 13 e ainda ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Viggo Mortensen. Entre os que recebeu, destaque para os recebidos por Michael Fassbender no National Board of Review e pelos críticos de Londres e Los Angeles. Ainda que estes prêmios que ele recebeu não foram dados apenas pelo trabalho em A Dangerous Method, mas por sua performance em outras produções, como Jane Eyre, X-Men: First Class e Shame.

A Dangerous Method teria custado, aproximadamente, US$ 15 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos ele conseguiu um terço disto, arrecadando pouco mais de US$ 5,6 milhões até o dia 22 de março. No mercado internacional ele foi melhor, ainda que nada excepcional – se levarmos em conta os ótimos nomes por trás da produção, especialmente os atores -, arrecadando pouco mais de US$ 17,5 milhões. Por tratar-se de um filme difícil, que não foi feito para cair no gosto do grande público, até que ele não se saiu tão mal quanto poderia ter se saído.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para A Dangerous Method. Para os padrões do site e pela densidade desta produção, podemos considerar esta uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 113 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,9.

Um dos críticos que eu costumo citar, Tom Long, do Detroit News, disse que a história real por trás deste filme é extraordinária, mas que o filme não consegue chegar neste nível. Devo concordar. Outro que eu gosto de citar, Peter Howell, do Toronto Star, afirma que Cronenberg chegou a um patamar na carreira em que não tem mais que satisfazer expectativas. Que, para ele, basta envolver o público. Na opinião de Howell, ele consegue isso neste filme.

Uma curiosidade sobre o filme: a atriz Keira Knightley disse que não sabia como interpretar o momento de histeria de sua personagem. Até que ela leu as anotações de Sabina Spielrein e viu que a mulher se descrevia, quando estava neste estágio, entre as figuras de um demônio ou de um cão. Daí Knightley começou a pensar nas caretas e recebeu a aprovação de Cronenberg.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as diferenças entre Freud e Jung, um bom começo é este texto assinado por Adriana Tanese Nogueira. Gostei da explicação dela, bem didática. Interessante, em especial, a explicação dela para conceitos fundamentais dos dois cientistas. Como a livre associação de Jung, mostrada de forma interessante neste filme. Bacana também a distinção entre a ação dos dois com os seus pacientes, e a forma com que Jung observou como qualquer psicólogo é parte do diálogo com o paciente – não pode ausentar-se do diálogo, como propunha Freud. Achei bacana também este outro texto, que reproduz uma parte do livro Incesto e Amor Humano, de Robert Stein. Finalmente, recomendo este outro texto, de Andrew Samuels, sobre a aproximação e ruptura entre Jung e Freud.

CONCLUSÃO: Eis um filme denso e complexo. Não porque ele seja feito de quebra-cabeças. A Dangerous Method não exige que o espectador descubra uma charada. Mas ele trata de assuntos difíceis, conta parte da trajetória de personagens históricos complexos e remexe em questões densas da psique humana. Possivelmente muitas pessoas se sentirão retratadas na produção. Seja pela dificuldade que alguns tem, mais que outros, de manter a conduta próxima do discurso e de suas crenças. Seja pelas pedras que alguém que pensa fora da curva costuma encontrar pelo caminho. A Dangerous Method acerta em focar a atenção no talento do trio de protagonistas. Mas por ser dirigida por David Cronenberg, que já fez filmes mais ousados e experimentais, esta produção parece menor do que poderia ser. Em alguns momentos, ela chega a ser arrastada. Poderia ter ajudado o filme, neste sentido, focar em outros casos tratados por Jung e Freud, além da personagem de Sabina Spielrein. Mas como filme histórico, ele é interessante. Nos mostra uma parte importante da história até então pouco revelada. Vale ser assistido, especialmente se você gosta do tema psicanálise ou de saber um pouco mais sobre personagens históricos.