Won’t You Be My Neighbor?

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Nós somos seres gregários e que gostamos de nos comunicar. Ao menos, na maior parte do tempo. Quando nos comunicamos, podemos investir em algo bom, propagar os melhores valores. Como o amor, o respeito, a empatia e a solidariedade. Mas nem sempre é isso que acontece quando nos comunicamos ou nos aproximamos. Por isso é tão bom conhecer uma história maravilhosa como a contada pelo documentário Won’t You Be My Neighbor? Por muitos anos e para milhares – ou milhões – de crianças, Fred Rogers foi uma referência. Para a gente, no Brasil, não. Mas conhecer a sua história nos enche de esperança e de reflexão. Um grande filme.

A HISTÓRIA: Fred Rogers está sentido em um piano e pede para que o cinegrafista se aproxime. Ele está falando com cada um de nós, os seus expectadores. Ele comenta que tem tido algumas ideias sobre modulação. Ele comenta que existem diferentes temas na vida. Vemos a Fred Rogers em 1967. Ele comenta que uma de suas principais missões é, através dos meios de comunicação de massa, ajudar as crianças com as modulações difíceis das suas vidas.

Rogers então comenta como é fácil passar de algumas notas para outras, enquanto que outras variações são bem mais difíceis. Então ele comenta sobre a importância de ter alguém que lhe ajude a passar pelos momentos mais difíceis. Essa é a história sobre este apresentador de programas feitos para o público infantil, em especial, e que também trabalhou em um programa para o público adulto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Won’t You Be My Neighbor?): Depois que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de produções que avançaram em busca de uma vaga em nove categorias do Oscar 2019, algo que comentei neste post, fui atrás de tentar assistir aos filmes pré-indicados em Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Documentário.

Antes mesmo dessa lista ser divulgada, eu já tinha visto muitos especialistas no Oscar e críticos apontando Won’t You Be My Neighbor? como um dos fortes concorrentes do ano na categoria de Melhor Documentário. Eu não sabia sobre o que o filme tratava, mas foi uma grata surpresa perceber que ele abordava a trajetória de um ícone da TV infantil para o público americano. Fred Rogers marcou a cultura dos Estados Unidos a partir de 1968.

E que trajetória impressionante a dele! Uma trajetória narrada com perfeição pelo diretor Morgan Neville em Won’t You Be My Neighbor?. Para contar a história de Fred Rogers, Neville intercala diversos trechos de entrevistas do apresentador com trechos de seus programas, assim como trechos de animação e entrevistas com pessoas da família dele, pessoas que trabalharam com ele, amigos ou especialistas em sua história.

Para mim, o maior ganho de Won’t You Be My Neighbor? e da trajetória de Rogers é nos mostrar a infância sob uma outra perspectiva. Da minha parte, de quem nem sempre tem “paciência” com as crianças, provavelmente porque eu não consigo entendê-las como eu deveria ou poderia, Won’t You Be My Neighbor? foi uma lição e um aprendizado.

Rogers tinha um olhar profundo, compreensivo e amoroso para as crianças. Elas eram o foco de seu trabalho e de sua preocupação. Ao conhecer a sua história e a sua proposta para um programa de TV, passei a repensar a minha própria forma de olhar e, quem sabe, até de agir em relação às crianças. Como Neville busca também elementos na infância de Rogers para explicar o seu estilo e personalidade, somos motivados a fazer isso a respeito de nós mesmos.

Assim, Won’t You Be My Neighbor? se revela um filme muito humano e sensível. Ele conta não apenas a história de um ídolo para muitas crianças americanas mas, também, nos faz refletir sobre as nossas próprias infâncias e sobre o universo das crianças. Um universo muito mais complexo e amplo do que a imagem que estamos acostumados a imaginar ou pensar. Essa reflexão e esse outro olhar sobre a infância e as crianças foram dois dos pontos que mais me marcaram deste filme. Mas não foram os únicos.

Como profissional formada na área de Comunicação, Won’t You Be My Neighbor? me fez lembrar o que me motivou a estudar essa área. A crença que a comunicação pode ser usada para o bem, para melhorar a nossa realidade. Rogers fez isso durante toda a sua vida. Ele batalhou por uma televisão pública de qualidade e por apresentar questões importantes para as crianças. E um ponto fundamental para ele buscar isso foi respeitando a inteligência e os sentimentos das crianças – e não as tratando como pessoas que ainda não cresceram, como muitos de nós fazemos.

Won’t You Be My Neighbor? nos faz pensar ainda mais sobre que tipo de televisão e de sociedade da informação nós temos hoje em dia. Para nós, adultos, e para as nossas crianças também. Que tipo de informação e lazer estamos consumindo? E as crianças do nosso país e de outras nações, que tipo de programas e de informações elas estão tendo? Won’t You Be My Neighbor? é um aprendizado também para quem ama a comunicação e atua nessa área.

Além de tudo isso, Won’t You Be My Neighbor? me impressionou por abordar e reforçar constantemente os valores e a “missão” que Rogers acreditava que tinha pela frente. Ele falava de amor, de valorizar o olhar compreensivo e compassivo, de perdão, de compreensão e de respeitarmos a todas as pessoas – especialmente as crianças. Falava sobre a importância de protegermos e apoiarmos as crianças. Abordava uma série de valores fundamentais e que nem sempre são lembrados com a constância e a força com que deveriam.

Por tudo isso, achei esse filme excepcional. Não apenas por nos contar uma história inspiradora, mas por nos mostrar que sim, podemos fazer mais e melhor do que estamos fazendo. Que é possível sempre buscar o bem, mesmo quando fatos ao nosso redor nos mostram retrocessos. Além disso, apesar de Won’t You Be My Neighbor? ser claramente uma homenagem para Rogers, Neville não foge de alguns temas controversos do personagem retratado.

Ou seja, diferente de outras produções que eu já comentei por aqui e que sofriam por serem apenas uma homenagem para a pessoa retratada, Won’t You Be My Neighbor? aborda os questionamentos feitos sobre Rogers. Temos tanto os programas que o parodiavam quanto os questionamentos sobre ele ser gay ou apoiar/não apoiar os gays – sendo que um ator de sua equipe, François Scarborough Clemmons, era gay e foi incentivado a se “esconder” por Rogers. Neville poderia ter “ignorado” estes fatos mas, acertadamente, ele não fez isso.

No fim das contas, Won’t You Be My Neighbor? é um filme bastante profundo. Que nos faz refletir sobre diversos valores e atitudes. Que nos faz pensar sobre o nosso próprio processo de amadurecimento e sobre como enfrentar as dificuldades e os temas difíceis e delicados da vida. Um documentário que estimula o olhar generoso e atento, que nos estimula a ser melhores ou a incentivar essa procura.

Bem conduzido, envolvente, apresentando uma narrativa profunda e, ao mesmo tempo, pontuada com diversos momentos de ternura e engraçados, Won’t You Be My Neighbor? é um filme inesquecível. Impressiona por sua humanidade, por sua sensibilidade e por sua capacidade de nos fazer refletir. Sou franca em dizer que ele também me emocionou. A narrativa segue em um crescente que pode levar muitos às lágrimas no final – algo que aconteceu comigo. Veja de coração aberto e se deixe levar. É uma bela, bela produção. Das melhores do gênero.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu nunca vi alguém tratar as crianças com tanto respeito e sensibilidade. Para Fred Rogers, não havia assunto que não pudesse ser tratado com as crianças. E ele estava certo sobre isso. Desde os anos 1960 ele sabia que as crianças eram bombardeadas pelos fatos bons e ruins da vida. Por causa da televisão, nos anos em que ele atuou e, mais recentemente, por causa da internet, as crianças não estão alheias a nada que acontece no mundo. Mas como tratar assuntos difíceis com as crianças? Rogers tem ensinamentos importantes para qualquer pai e mãe ou para qualquer pessoa interessada nesse tema e que seguem muito válidos até hoje.

Gostei muito do trabalho do diretor Morgan Neville. Ele constrói a narrativa de Won’t You Be My Neighbor? de maneira primorosa, não apenas pelos elementos que ele intercala para contar essa história mas, especialmente, pela forma com que ele vai se aprofundando no seu “personagem”. Esse filme é, no fundo, um grande estudo de personalidade. Por isso o filme é tão humano e sensível. Porque ele não apenas conta uma trajetória, mas também se aprofunda na personalidade, nos sentimentos e nas intenções do biografado.

Won’t You Be My Neighbor? se apresenta como uma produção muito envolvente, com uma edição primorosa de Jeff Malmberg e de Aaron Wickenden e que, acertadamente, mescla momentos de humor, narrativa, drama e emoção. As diferentes impressões das pessoas sobre Fred Rogers, o contexto que eles ajudam a montar sobre ele e o próprio trabalho e opiniões do biografado montam um perfil bastante completo sobre o homenageado.

Além da direção de Neville e da edição de Malmberg e Wickenden, vale destacar, nesta produção, o trabalho da direção de fotografia de Graham Willoughby; a trilha sonora de Jonathan Kirkscey; o departamento de arte comandado pelo designer gráfico Scott Grossman; e o departamento de animação comandado pelos animadores Ariel Costa e Rodrigo Miguel Rangel.

Algo interessante sobre Won’t You Be My Neighbor? é que o filme, apesar de ter uma narrativa quase toda linear – fora os momentos em que o filme fazia rápidas imersões na infância do retratado -, foge um pouco do modelo “clássico” de documentário focado em um biografado.

Comento isso porque, apesar de ouvirmos os depoimentos da esposa e de dois filhos de Rogers, o documentário não conta propriamente a história deste núcleo familiar. Não sabemos quando eles se casaram, como eles se conheceram e quando nasceram os filhos. Essa “ausência” de informações, para mim, tem um propósito: nos deixar focados na mensagem e na missão de Rogers e nem tanto na sua vida privada ou em particularidades da sua vida que acrescentariam pouco para entendermos as suas intenções. Interessante essa escolha de Neville.

Um outro detalhe que eu pensei sobre a história de Rogers: como ele soube aproveitar as condições especiais que ele teve pela frente para tirar o melhor proveito possível de seus recursos. Comento isso porque justamente em Pittsburgh foi nascer uma TV pública que poderia dar espaço para ele desenvolver um programa infantil com aquela preocupação social e com a psicologia das crianças e onde também foi feito um trabalho importante (eu diria fundamental) sobre as fase de desenvolvimento humano e sobre o aprendizado infantil. Dois fatores importantes para que ele tivesse tanta qualidade no seu trabalho.

Durante a sua trajetória, Fred Rogers ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 57 – inclusive a indicação a três prêmios Emmy. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os Emmy’s recebidos em 1980, em 1985, em 1997 e em 1999; para o Peabody Awards recebido em 1993 e para o seu nome colocado na Calçada da Fama em 1998. A estrela dele na Walk of Fame está na 6600 Hollywood Blvd. com a inscrição “To Mister Rogers”.

Como sempre, você pode entender ou não uma mensagem. Quando Rogers disse que todas as pessoas são especiais e perfeitas como elas são, ele não quis dizer que você terá tudo fácil e que não precisará fazer nada para se aperfeiçoar. Ele quis relembrar conceitos cristãos de que Deus ama a todos e que todos são perfeitos para Ele. Tem pessoas que conseguem entender isso, e tem outras que preferem não entender. E beleza sobre isso. Mas Rogers dizer isso repetidamente para as crianças, foi algo maravilhoso e muito corajoso.

Fred Rogers nasceu na cidade de Latrobe, no Estado da Pennsylvania, no dia 20 de março de 1928. Ou seja, no ano passado, quando Won’t You Be My Neighbor? foi lançado, se ele estivesse vivo, ele teria 90 anos de idade. Rogers comandou o programa Mister Roger’s Neighborhood entre 1967 e 2001 – no primeiro ano, em uma emissora de Pittsburgh e, a partir de 1968, na PBS, com transmissão em nível nacional. Rogers morreu em 2003 após uma rápida batalha contra um câncer no estômago. Ele se casou com Joanne Rogers em 1952 – eles ficaram casados até a morte dele. Com ela, ele teve dois filhos – os dois aparecem no documentário, John e Jim Rogers.

Até hoje, nos Estados Unidos, 305 dos 895 episódios de Mister Roger’s Neighborhood continuam sendo reprisados. Que sorte dos americanos por terem tido um programa como esse para as suas crianças! Os valores transmitidos por ele e plasmados neste Won’t You Be My Neighbor? são, para mim, pura preciosidade.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para esta produção. Não encontrei a página sobre este documentário no Rotten Tomatoes, mas no site Metacritic o filme é classificado com o “metascore” 85, fruto de 39 críticas positivas e de duas medianas, e com o selo “Metacritic Must-see”.

Won’t You Be My Neighbor? estreou em janeiro de 2019 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, até outubro do mesmo ano, ele participaria de outros 17 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou 33 prêmios e foi indicado a outros 28. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 25 prêmios de Melhor Documentário conferidos por diferentes associações de críticos. Além disso, ele foi considerado, ao lado de Minding the Gap, Free Solo, Crime + Punishment e Three Identical Srangers, um dos cinco melhores documentários do ano pela National Board of Review – mas quem venceu nesta categoria foi outro filme, RBG.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Em determinado momento do filme, vemos a um encontro de Rogers e o gorila Koko. Mas aquela situação do gorila tirar os sapatos de Rogers não é explicada no documentário. Quando Koko morreu, em junho de 2018, vários detalhes sobre a sua vida vieram à tona. Por exemplo, o fato de que o gorila assista ao programa de Rogers todos os dias e que ele tirou os sapatos do apresentador porque isso era o que ele fazia no começo de cada programa.

O diretor Morgan Neville foi parcialmente inspirado a contar a história de Rogers quando, ao entrevistar Yo-Yo Ma sobre como ele tinha lidado com a sua fama, ele ter respondido que aprendeu com Rogers que ele poderia usar a sua fama para o bem.

Betty Aberlin, que vemos contracenando com Rogers em muitos momentos do programa dele, foi convidada para participar do documentário, mas ela se recusou porque fazia muito tempo que ela não dava entrevistas e se sentiu insegura de aparecer novamente frente às câmeras.

Além de ser um sucesso de crítica, Won’t You Be My Neighbor? teve um ótimo resultado nos cinemas americanos. O filme fez US$ 22,6 milhões nas bilheterias segundo o site Box Office Mojo, um ótimo resultado para um documentário, sem dúvida. Certamente esse resultado foi puxado pela popularidade do apresentador.

Se vocês ficaram interessados sobre saber mais sobre os estudos a respeito do desenvolvimento humano e infantil, vale dar uma olhada no trabalho de Erik Erikson. Uma boa introdução pode ser esse texto do site Pensar Contemporâneo. #ficaadica

O diretor Morgan Neville tem 25 trabalhos no currículo como diretor, incluindo documentários, filmes para a TV e episódios de séries de documentário feitas para a TV. Em 2014 ele ganhou o Oscar de Melhor Documentário por Twenty Feet from Stardom (comentado neste link).

Não tenho dúvidas que esse filme “bate” de maneira muito diferente para nós, que não crescemos assistindo a Fred Rogers, e para o público americano, que teve um contato muito mais próximo e afetivo com ele. Ainda assim, acho que Won’t You Be My Neighbor? tem uma linguagem universal e pode tocar a qualquer pessoa que acredite nos mesmos valores que o biografado – e que esteja aberto a observar as crianças de uma outra maneira. Fascinante.

Won’t You Be My Neighbor? é um filme 100% dos Estados Unidos, por isso ele entra na relação de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme, para ser grande, deve nos envolver, nos surpreender, nos fazer pensar e nos emocionar. Uma produção que consiga tudo isso é algo difícil de encontrar. Mas é exatamente isso que o documentário Won’t You Be My Neighbor? proporciona. Esse filme resgata uma história inspiradora que precisa ser mais difundida, especialmente para que repensemos a forma com que olhamos e com que tralhamos a nossa relação com as crianças. Sejam as que nos rodeiam, sejam as crianças que ainda podem estar nos habitando. Um filme imprescindível, especialmente para os dias atuais, em que, muitas vezes, nos perguntamos para onde estamos indo enquanto coletivos. Impecável, muito bem narrado e conduzido, não nos faz apenas pensar, mas também sentir.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Won’t You Be My Neighbor? foi um dos 15 filmes que avançaram na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Documentário, conforme comentei neste post. Ou seja, cada um dos filmes que avançaram na disputa vão deixar outros dois para trás – afinal, apenas cinco produções realmente serão indicadas nesta categoria.

Como quem acompanha o blog sabe, Won’t You Be My Neighbor? é o primeiro filme da lista de documentários que avançaram na disputa que eu assisto. Não consigo compará-lo ainda com os concorrentes, portanto, mas devo dizer que torço muito para ele chegar entre os cinco finalistas nessa categoria na premiação máxima da indústria cinematográfica norte-americana. Simplesmente porque eu acho que ele é um grande filme, cheio de boas intenções e muito bem narrado e construído.

Por ter tantas qualidades, acho que Won’t You Be My Neighbor? merece chegar entre os finalistas e, quem sabe, inclusive ganhar a estatueta dourada? Claro que precisarei assistir a outros concorrentes para falar melhor a respeito, mas acho que seria muito bacana que esse filme chegasse tão longe. Quem sabe assim, mais gente não se interessa em assisti-lo? E isso seria algo importante, especialmente pelas mensagens que essa produção passa. Acho sim que ele chegará entre os finalistas. Agora, sobre ele ter chances de ganhar, ainda é cedo para dizer.

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20 Feet from Stardom – A Um Passo do Estrelato

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Algumas das vozes mais marcantes do rock, do soul e do rhythm and blues (R&B) finalmente saem do papel de coadjuvantes e assumem o protagonismo. 20 Feet from Stardom resgata a história de backing vocals (vocais de apoio) marcantes da história da música e revela novos talentos que estão em busca de reconhecimento. Um filme delicioso, que acaba sendo também um repasse interessante por ótima música e uma desculpa para reunir gente boa para falar sobre a sua profissão.

A HISTÓRIA: A câmera acompanha uma mulher caminhando pelas ruas, de costas. Em seguida, aparece Bruce Springsteen comentando que é uma bela caminhada aquela que se faz do baterista até a frente do palco. Ao mesmo tempo, ele explica, estes passos são complicados. Cantar atrás, na opinião de Springsteen, ainda é uma posição que não é notada. Por isso, muitas pessoas dão aquele salto entre as duas posições.

Enquanto ele fala, várias cantoras aparecem em cena. E Springsteen explica que este salto é mais mental que o ato mesmo de cantar. Esse salto conceitual foi feito por algumas backing vocals, mas elas são minoria. O desafio da carreira destas grandes cantoras e a história da evolução delas na música é o foco deste documentário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 20 Feet from Stardom): O diretor Morgan Neville soube como poucos começar bem um filme. Primeiro, ele deu uma palhinha de algumas das backing vocals mais interessantes que ele conseguiu reunir para 20 Feet from Stardom. E antes mesmo delas aparecerem juntas, está lá o grande Bruce Springsteen fazendo uma avaliação precisa sobre algumas das qualidades que separam aquele tipo de cantora daquela que assume o vocal principal e grava seus próprios discos.

Inicialmente, achei que este documentário tratava de aspirantes ao sucesso. Cantoras que buscam um lugar ao sol de diferentes formas – inclusive participando de concursos como o The Voice. Mas para a minha surpresa, 20 Feet from Stardom faz muito mais que isso. Ele resgata a figura histórica da backing vocal, revelando não apenas como elas ganharam “corpo” na história da música, mas como elas foram usadas e souberam usar esta máquina de fazer dinheiro.

Springsteen é um dos principais entrevistados do filme. Por isso foi inteligente o diretor colocá-lo logo no início. Mas ele não é o único. Depois, teremos o grande Mick Jagger fazendo comentários engraçados e interessantes, além de ídolos como Stevie Wonder, Sting e Bette Midler. Sheryl Crow também aparece, mas muito pouco. Outro nome de destaque que dá o seu depoimento é o produtor Lou Adler, que ganhou um Grammy. De qualquer forma, apenas citando estes entrevistados, fica evidente como as personagens principais, as backing vocals, foram e são importantes para todos os gêneros musicais.

Este resgate delas e das canções que elas ajudaram a consagrar é o que diferencia 20 Feet from Stardom de outros documentários que focaram a música como tema central. Muito bom rever alguns rostos conhecidos e conhecer tantos outros que fizeram parte da música e que há muito tempo não ganhavam destaque. Entre os destaques, estão Darlene Love, Merry Clayton, Claudia Lennear, Gloria Jones, Lisa Fischer, Táta Vega, The Waters Family, Edna Wright e Judith Hill (esta última, uma promessa mais recente, e que participou também do The Voice USA).

O bacana de filmes assim é que eles voltam no passado musical de muita gente e nos fazem viajar pelo tempo, revisitando canções que embalaram (e muitas seguem embalando) muitas gerações de diferentes nacionalidades. Da minha parte, gostei em especial de rever sucessos do rock, especialmente do Rolling Stones e de David Bowie. Mas há exemplares de canções com marcante presença das backing vocals de quase todos os gêneros.

Depois da música de Lou Reed e dos primeiros depoimentos, o filme mergulha no ambiente dos corais das igrejas, a origem de tudo. Neville opta por um recorrido histórico, com uma narrativa linear pontuada de diversos depoimentos. Darlene Love explica, por exemplo, como no início elas eram dubladas e de como as primeiras backing vocals se restringiam a ler as canções. Só depois elas começaram a se soltar e a interpretar as emoções das músicas.

Entre os resgates estão o grupo vocal The Blossoms, um dos mais prolíficos dos anos 1960. Neville acaba reunindo, novamente, as integrantes do grupo, que escutam músicas que elas gravaram no passado – entre outras, a That’s Life, de Frank Sinatra.

20 Feet from Stardom saca da cartola histórias importantes. Entre as mais surpreendentes, ao menos para mim, foi a de como um dos produtores musicais mais importantes dos anos 1960, Phil Spector, não apenas ajudou muitas backing vocals a serem descobertas, como principalmente as explorou – fazendo, por exemplo, que os nomes delas nunca aparecessem ou ganhassem destaque.

A história de Darlene Love, “presa” por Phil Spector e eclipsada por ele, acaba sendo uma das mais fascinantes da produção. O filme ganha pontos por, além de fazer este recorrido histórico, também dar voz para aquelas artistas com vozes impressionantes falarem sobre os seus sonhos, frustrações e anseios. E a história segue acontecendo em figuras como Judith Hill – ainda que, como bem pondera a produção, muitos acreditem que a tecnologia pode, atualmente, substituir as vozes das backing vocals.

Agora, devo dizer que mesmo o filme tendo muitos acertos – incluindo a duração excelente de 1h30min -, senti falta de um pouco mais de profundidade. Acho que Neville deixa alguns fios soltos. Por exemplo: senti falta das cantoras que tiveram mais experiência de estrada falarem sobre os bastidores das turnês e gravações. Quanto havia de flerte com as estrelas e os demais músicos? Que intrigas este meio guarda? Também senti falta de saber um pouco mais sobre a rotina delas… de como conseguem um trabalho novo, se a grana que recebem é suficiente para pagar as contas, o quanto este mercado é concorrido e por aí vai.

20 Feet from Stardom é um filme necessário, que precisava ser feito. Narrado de forma elegante, ele faz qualquer pessoa viajar por algumas das músicas mais marcantes de todos os tempos. Ao mesmo tempo, ele perde uma boa oportunidade de se aprofundar um pouco mais na vida destas artistas fascinantes. De qualquer forma, vale ser visto.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A abertura do filme é uma sacada à parte. Os realizadores de 20 Feet from Stardom resgataram imagens antigas e taparam os rostos e/ou apagaram os astros para valorizar as backing vocals enquanto rolava uma canção em homenagem à elas feita por Lou Reed. Sacada esperta e que dá o recado sobre o que o espectador verá na sequência.

Além dos nomes já citados, vale comentar outros que ganham um bom destaque na produção com depoimentos que ajudam a explicar o trabalho das backing vocals: Janice Pendarvis (que cantou com Sting, David Bowie, Blondie, Laurie Anderson, Donovan), Lynn Mabry (Talking Heads), Jo Lawry (Sting), Cindy Mizelle (Bruce Springsteen, Steely Dan), Charlotte Crossley (Luther Vandross, Bette Midler), David Lasley (James Taylor, Bonnie Raitt, Todd Rundgren, Chic, Neil Diamond), Patti Austin (Paul Simon, Steely Dan, Quincy Jones, Michael Jackson, Cat Stevens) e Susaye Greene (The Raelettes, The Supremes, Stevie Wonder, Dionne Warwick). Como se pode ver, há um predomínio total de mulheres em detrimento de vozes masculinas.

Gostei muito do estilo de 20 Feet from Stardom. Acho que o diretor soube escolher bem a forma de narrar esta história. Contribui muito para o resultado satisfatório do filme o trabalho dos editores Douglas Blush, Kevin Klauber e Jason Zeldes. Eles conseguem dar um bom ritmo para a produção, envolvendo o espectador. Muito bom também o trabalho dos diretores de fotografia Nicola Marsh e Graham Willoughby. A dupla destila algumas cenas incríveis, especialmente ao focar Lisa Fischer – aparentemente, a preferida deles. 🙂

20 Feet from Stardom fez a sua première no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, o filme participaria de outros 12 festivais. Este ano, ele vai ser exibido no Festival de Cinema de Glasgow a partir do próximo dia 22 e, a partir de 8 de março, no Festival de Documentários Tempo.

Na trajetória que fez até aqui, este documentário ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 13, além de ter recebido uma indicação ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Documentário dados pela audiência do Festival Internacional de Cinema de San Francisco e para o júri do Festival Internacional de Cinema de Seattle. Ele também foi considerado o Melhor Documentário do ano pelas associações de críticos de Dallas-Fort Worth e de Phoenix. Mas no Festival de Sundance, por exemplo, o filme perdeu o prêmio de Melhor Documentário para Blood Brother.

Vejam como um orçamento baixo pode render um filme ótimo. 20 Feet from Stardom teria custado cerca de US$ 1 milhão. O filme faturou até ontem, dia 17 de fevereiro, pouco mais de US$ 4,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Estreando nos outros mercados, não tenho dúvida de que ele dará lucro para os produtores.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para a produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 88 textos positivos e apenas um negativo para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média 8,1. Excelente desempenho.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na minha lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog e que pedia por uma série de críticas de filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Este filme me surpreendeu. Inicialmente achei que, pelo título e pelo pôster do filme, ele tratasse da trajetória de jovens talentos ao estrelato. Mas não. Este documentário mistura história e talento para mergulhar na vida de algumas das vozes mais conhecidas da música. Acompanhamos backing vocals que viraram referência para aqueles que acompanham a música além das estrelas que aparecem na frente dos palcos.

Desta forma, 20 Feet from Stardom revela-se uma viagem interessante pela música, com depoimentos importantes e um mergulho relativo nas aspirações destas pessoas que marcaram a vida mesmo dos desatentos. Só faltou um pouco mais de profundidade no resgate da história dos backing vocals, explorando, por exemplo, melhor a vida privada e o envolvimento das cantoras com as estrelas da música. Ainda assim, altamente recomendado para quem gosta de boa música.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: A categoria em que 20 Feet from Stardom está concorrendo no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é sempre uma caixinha de surpresas. Inicialmente, fiquei decepcionada por Stories We Tell (comentado aqui) e Blackfish (com crítica neste link) terem ficado de fora da lista dos cinco finalistas. E ainda que eu ache que estas duas produções deveriam ter chegado lá, admito que gostei de 20 Feet from Stardom e The Square (comentado aqui).

Acho que uma lista em que estes quatro filmes aparecessem seria ótima. Mas só posso afirmar isto com toda a convicção após assistir aos documentários que estão faltando. Outro que assisti, da lista final do Oscar, foi The Act of Killing (comentado aqui). E ainda que muitos apontem esta última produção como a favorita para a estatueta do Oscar, acho ela a menos interessante das quatro – incluindo os dois filmes que ficaram de fora da lista.

Se meu voto valesse alguma coisa – o que não é o caso 🙂 -, provavelmente optaria por The Square. Ainda que 20 Feet from Stardom fique um pouco atrás na minha preferência. Em outras palavras, qualquer um dos dois ganhando, seria uma boa escolha. Mas não devemos nos surpreender com outro resultado. Melhor Documentário sempre guarda surpresas.