20 Feet from Stardom – A Um Passo do Estrelato


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Algumas das vozes mais marcantes do rock, do soul e do rhythm and blues (R&B) finalmente saem do papel de coadjuvantes e assumem o protagonismo. 20 Feet from Stardom resgata a história de backing vocals (vocais de apoio) marcantes da história da música e revela novos talentos que estão em busca de reconhecimento. Um filme delicioso, que acaba sendo também um repasse interessante por ótima música e uma desculpa para reunir gente boa para falar sobre a sua profissão.

A HISTÓRIA: A câmera acompanha uma mulher caminhando pelas ruas, de costas. Em seguida, aparece Bruce Springsteen comentando que é uma bela caminhada aquela que se faz do baterista até a frente do palco. Ao mesmo tempo, ele explica, estes passos são complicados. Cantar atrás, na opinião de Springsteen, ainda é uma posição que não é notada. Por isso, muitas pessoas dão aquele salto entre as duas posições.

Enquanto ele fala, várias cantoras aparecem em cena. E Springsteen explica que este salto é mais mental que o ato mesmo de cantar. Esse salto conceitual foi feito por algumas backing vocals, mas elas são minoria. O desafio da carreira destas grandes cantoras e a história da evolução delas na música é o foco deste documentário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 20 Feet from Stardom): O diretor Morgan Neville soube como poucos começar bem um filme. Primeiro, ele deu uma palhinha de algumas das backing vocals mais interessantes que ele conseguiu reunir para 20 Feet from Stardom. E antes mesmo delas aparecerem juntas, está lá o grande Bruce Springsteen fazendo uma avaliação precisa sobre algumas das qualidades que separam aquele tipo de cantora daquela que assume o vocal principal e grava seus próprios discos.

Inicialmente, achei que este documentário tratava de aspirantes ao sucesso. Cantoras que buscam um lugar ao sol de diferentes formas – inclusive participando de concursos como o The Voice. Mas para a minha surpresa, 20 Feet from Stardom faz muito mais que isso. Ele resgata a figura histórica da backing vocal, revelando não apenas como elas ganharam “corpo” na história da música, mas como elas foram usadas e souberam usar esta máquina de fazer dinheiro.

Springsteen é um dos principais entrevistados do filme. Por isso foi inteligente o diretor colocá-lo logo no início. Mas ele não é o único. Depois, teremos o grande Mick Jagger fazendo comentários engraçados e interessantes, além de ídolos como Stevie Wonder, Sting e Bette Midler. Sheryl Crow também aparece, mas muito pouco. Outro nome de destaque que dá o seu depoimento é o produtor Lou Adler, que ganhou um Grammy. De qualquer forma, apenas citando estes entrevistados, fica evidente como as personagens principais, as backing vocals, foram e são importantes para todos os gêneros musicais.

Este resgate delas e das canções que elas ajudaram a consagrar é o que diferencia 20 Feet from Stardom de outros documentários que focaram a música como tema central. Muito bom rever alguns rostos conhecidos e conhecer tantos outros que fizeram parte da música e que há muito tempo não ganhavam destaque. Entre os destaques, estão Darlene Love, Merry Clayton, Claudia Lennear, Gloria Jones, Lisa Fischer, Táta Vega, The Waters Family, Edna Wright e Judith Hill (esta última, uma promessa mais recente, e que participou também do The Voice USA).

O bacana de filmes assim é que eles voltam no passado musical de muita gente e nos fazem viajar pelo tempo, revisitando canções que embalaram (e muitas seguem embalando) muitas gerações de diferentes nacionalidades. Da minha parte, gostei em especial de rever sucessos do rock, especialmente do Rolling Stones e de David Bowie. Mas há exemplares de canções com marcante presença das backing vocals de quase todos os gêneros.

Depois da música de Lou Reed e dos primeiros depoimentos, o filme mergulha no ambiente dos corais das igrejas, a origem de tudo. Neville opta por um recorrido histórico, com uma narrativa linear pontuada de diversos depoimentos. Darlene Love explica, por exemplo, como no início elas eram dubladas e de como as primeiras backing vocals se restringiam a ler as canções. Só depois elas começaram a se soltar e a interpretar as emoções das músicas.

Entre os resgates estão o grupo vocal The Blossoms, um dos mais prolíficos dos anos 1960. Neville acaba reunindo, novamente, as integrantes do grupo, que escutam músicas que elas gravaram no passado – entre outras, a That’s Life, de Frank Sinatra.

20 Feet from Stardom saca da cartola histórias importantes. Entre as mais surpreendentes, ao menos para mim, foi a de como um dos produtores musicais mais importantes dos anos 1960, Phil Spector, não apenas ajudou muitas backing vocals a serem descobertas, como principalmente as explorou – fazendo, por exemplo, que os nomes delas nunca aparecessem ou ganhassem destaque.

A história de Darlene Love, “presa” por Phil Spector e eclipsada por ele, acaba sendo uma das mais fascinantes da produção. O filme ganha pontos por, além de fazer este recorrido histórico, também dar voz para aquelas artistas com vozes impressionantes falarem sobre os seus sonhos, frustrações e anseios. E a história segue acontecendo em figuras como Judith Hill – ainda que, como bem pondera a produção, muitos acreditem que a tecnologia pode, atualmente, substituir as vozes das backing vocals.

Agora, devo dizer que mesmo o filme tendo muitos acertos – incluindo a duração excelente de 1h30min -, senti falta de um pouco mais de profundidade. Acho que Neville deixa alguns fios soltos. Por exemplo: senti falta das cantoras que tiveram mais experiência de estrada falarem sobre os bastidores das turnês e gravações. Quanto havia de flerte com as estrelas e os demais músicos? Que intrigas este meio guarda? Também senti falta de saber um pouco mais sobre a rotina delas… de como conseguem um trabalho novo, se a grana que recebem é suficiente para pagar as contas, o quanto este mercado é concorrido e por aí vai.

20 Feet from Stardom é um filme necessário, que precisava ser feito. Narrado de forma elegante, ele faz qualquer pessoa viajar por algumas das músicas mais marcantes de todos os tempos. Ao mesmo tempo, ele perde uma boa oportunidade de se aprofundar um pouco mais na vida destas artistas fascinantes. De qualquer forma, vale ser visto.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A abertura do filme é uma sacada à parte. Os realizadores de 20 Feet from Stardom resgataram imagens antigas e taparam os rostos e/ou apagaram os astros para valorizar as backing vocals enquanto rolava uma canção em homenagem à elas feita por Lou Reed. Sacada esperta e que dá o recado sobre o que o espectador verá na sequência.

Além dos nomes já citados, vale comentar outros que ganham um bom destaque na produção com depoimentos que ajudam a explicar o trabalho das backing vocals: Janice Pendarvis (que cantou com Sting, David Bowie, Blondie, Laurie Anderson, Donovan), Lynn Mabry (Talking Heads), Jo Lawry (Sting), Cindy Mizelle (Bruce Springsteen, Steely Dan), Charlotte Crossley (Luther Vandross, Bette Midler), David Lasley (James Taylor, Bonnie Raitt, Todd Rundgren, Chic, Neil Diamond), Patti Austin (Paul Simon, Steely Dan, Quincy Jones, Michael Jackson, Cat Stevens) e Susaye Greene (The Raelettes, The Supremes, Stevie Wonder, Dionne Warwick). Como se pode ver, há um predomínio total de mulheres em detrimento de vozes masculinas.

Gostei muito do estilo de 20 Feet from Stardom. Acho que o diretor soube escolher bem a forma de narrar esta história. Contribui muito para o resultado satisfatório do filme o trabalho dos editores Douglas Blush, Kevin Klauber e Jason Zeldes. Eles conseguem dar um bom ritmo para a produção, envolvendo o espectador. Muito bom também o trabalho dos diretores de fotografia Nicola Marsh e Graham Willoughby. A dupla destila algumas cenas incríveis, especialmente ao focar Lisa Fischer – aparentemente, a preferida deles. 🙂

20 Feet from Stardom fez a sua première no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, o filme participaria de outros 12 festivais. Este ano, ele vai ser exibido no Festival de Cinema de Glasgow a partir do próximo dia 22 e, a partir de 8 de março, no Festival de Documentários Tempo.

Na trajetória que fez até aqui, este documentário ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 13, além de ter recebido uma indicação ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Documentário dados pela audiência do Festival Internacional de Cinema de San Francisco e para o júri do Festival Internacional de Cinema de Seattle. Ele também foi considerado o Melhor Documentário do ano pelas associações de críticos de Dallas-Fort Worth e de Phoenix. Mas no Festival de Sundance, por exemplo, o filme perdeu o prêmio de Melhor Documentário para Blood Brother.

Vejam como um orçamento baixo pode render um filme ótimo. 20 Feet from Stardom teria custado cerca de US$ 1 milhão. O filme faturou até ontem, dia 17 de fevereiro, pouco mais de US$ 4,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Estreando nos outros mercados, não tenho dúvida de que ele dará lucro para os produtores.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para a produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 88 textos positivos e apenas um negativo para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média 8,1. Excelente desempenho.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na minha lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog e que pedia por uma série de críticas de filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Este filme me surpreendeu. Inicialmente achei que, pelo título e pelo pôster do filme, ele tratasse da trajetória de jovens talentos ao estrelato. Mas não. Este documentário mistura história e talento para mergulhar na vida de algumas das vozes mais conhecidas da música. Acompanhamos backing vocals que viraram referência para aqueles que acompanham a música além das estrelas que aparecem na frente dos palcos.

Desta forma, 20 Feet from Stardom revela-se uma viagem interessante pela música, com depoimentos importantes e um mergulho relativo nas aspirações destas pessoas que marcaram a vida mesmo dos desatentos. Só faltou um pouco mais de profundidade no resgate da história dos backing vocals, explorando, por exemplo, melhor a vida privada e o envolvimento das cantoras com as estrelas da música. Ainda assim, altamente recomendado para quem gosta de boa música.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: A categoria em que 20 Feet from Stardom está concorrendo no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é sempre uma caixinha de surpresas. Inicialmente, fiquei decepcionada por Stories We Tell (comentado aqui) e Blackfish (com crítica neste link) terem ficado de fora da lista dos cinco finalistas. E ainda que eu ache que estas duas produções deveriam ter chegado lá, admito que gostei de 20 Feet from Stardom e The Square (comentado aqui).

Acho que uma lista em que estes quatro filmes aparecessem seria ótima. Mas só posso afirmar isto com toda a convicção após assistir aos documentários que estão faltando. Outro que assisti, da lista final do Oscar, foi The Act of Killing (comentado aqui). E ainda que muitos apontem esta última produção como a favorita para a estatueta do Oscar, acho ela a menos interessante das quatro – incluindo os dois filmes que ficaram de fora da lista.

Se meu voto valesse alguma coisa – o que não é o caso 🙂 -, provavelmente optaria por The Square. Ainda que 20 Feet from Stardom fique um pouco atrás na minha preferência. Em outras palavras, qualquer um dos dois ganhando, seria uma boa escolha. Mas não devemos nos surpreender com outro resultado. Melhor Documentário sempre guarda surpresas.

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4 comentários em “20 Feet from Stardom – A Um Passo do Estrelato

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