Kiki, El Amor Se Hace – Kiki Love to Love – Kiki: Os Segredos do Desejo

O sangue latino representado em uma profusão de desejos, de libido e de algumas taras. Kiki, El Amor Se Hace resgata um cinema espanhol que há tempos não tínhamos o prazer de assistir. Um filme que fala sobre tesão, sobre sexo e sobre amor através de várias histórias cheias de humor, irreverência e com uma mistura de origens que representa bem o nosso tempo. Um filme delicioso, picante e um bocado provocador. Uma delícia, destas que quem conheceu Almodóvar em sua fase inicial tinha saudade de assistir.

A HISTÓRIA: O casal Natalia (Natalia de Molina) e Alejandro (Álex García) se devoram em várias sequências provocadoras. Algumas partes das cenas de sexo são substituídas por reações de animais e por outros objetos. No final, Alejandro pergunta como foi o sexo. O quanto ele foi bom. Natalia parece um pouco irritada com o questionamento e fala que estava pensando na semana passada, quando foi assaltada no posto de gasolina. Ela fala para o namorado que gozou quando foi rendida pelo assaltante. Alejandro fica perturbado quando ela diz que aquele foi o maior orgasmo que ela já teve. Nesta história, conhecemos não apenas a harpaxofilia (excitação causada ao ser vítima de um roubo), mas outras “filias” (excitações e maneiras de chegar ao orgasmo) apresentadas por outros casais que vivem em Madrid.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desta produção, por isso recomendo que só continue a assistir quem já viu a Kiki, El Amor Se Hace): Que saudades de filmes como este! Produções que não tem pudor ao tratar de algo tão natural para a nossa raça humana – e para todas as raças, na verdade, como bem demonstra as cenas de abertura desta produção – como é o sexo e a nossa sexualidade. O desejo faz parte da vida e esta produção, acima de tudo, trata de pessoas comuns – certo que algumas com alguns “gatilhos” de excitação bem diferenciados, mas isso faz parte da diversidade que Kiki, El Amor Se Hace quer retratar.

Sexo e desejo são temas onipresentes, assim como o orgasmo, o casamento e o encantamento. Sou suspeita para falar, por ter morado por alguns anos em Madrid, mas esta produção me fez voltar para a capital espanhola por causa de toda a sua verdade. Sim, aquelas pessoas que você está assistindo em cena você encontra em Madrid facilmente. Incrível. Os personagens são ótimos, e os atores… sem eles este filme não teria a qualidade que tem.

Porque fazer comédia não é algo realmente fácil. Especialmente quando falamos de sexo e de sexualidade, o limiar entre fazer algo engraçado e apresentar algo exagerado, machista ou sexista é muito pequeno. É mais fácil errar nas comédias que tratam sobre o tema do que acertar. Ícone do cinema espanhol, Pedro Almodóvar em seu início de carreira soube acertar na comédia e no fetichismo. Mesmo quando exagerava, fazia isso funcionar. Pois bem, como eu comentei lá no início, há muito tempo eu não assistia a um filme com as características de Almodóvar e tão bem feito.

Os espanhóis tem uma maneira de levar a vida e de encarar a vida muito típica. Toda essa “essência latina”, muito espanhola, está presente em Kiki. Isso é uma das qualidades do filme que mais me impressionaram. Os personagens em cena, os seus sotaques, maneiras de agir e de encarar as relações e a vida são muito verdadeiros – como eu citei antes, você realmente encontra pessoas como as que vemos neste filme na Espanha. Com um bocado de facilidade. Por conhecer bem aquela realidade, me deliciei com cada sotaque e com cada personagem.

Sei que a nota máxima abaixo pode parecer um pouco exagerada. Especialmente se você não conheceu muito bem os espanhóis. Mas independente deste fato, acredito que para todos que assistirem este filme o roteiro de Paco León e Fernando Pérez, baseados no filme de Josh Lawson (que escreveu o roteiro e dirigiu The Little Death, lançado em 2014), será uma experiência interessante e divertida em diversos momentos. Afinal, estamos tratando do que é humano, demasiado humano, e sempre que o foco de uma produção é essa, o material rende interesse e inclusive alguns debates.

Para mim, o roteiro de Kiki é delicioso. Ao focar a história em quatro casais – Natalia e Alejandro, Paco e Ana, Candela e Antonio, Paloma e José Luis – e ainda em uma garota solteira que parece meio “deslocada” do padrão (só parece, depois vamos entender a razão dela estar em cena), Kiki consegue fazer um quadro bem interessante das relações humanas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Natalia e Alejandro estão namorando e ela acredita que ele vai pedir ela em casamento em breve – o que de fato acontece conforme a história avança.

Paco (Paco León, também roteirista e diretor) e Ana (Ana Katz) estão há vários anos juntos e estão em crise. Como eles se gostam, ante de se separarem, eles decidem fazer terapia de casal. E é aí que eles começam um longo processo para reavivar a relação. Candela (Candela Peña) e Antonio (Luis Callejo) estão há bastante tempo juntos, caíram um bocado na rotina, especialmente porque ela tenta engravidar há algum tempo e não consegue. Paloma (Mari Paz Sayago) e José Luis (Luis Bermejo) estão casados também há bastante tempo, mas o casamento mudou – e o sexo terminou – quando ela passou a se locomover em uma cadeira de rodas.

Todos os casais tem momentos ótimos. Honestamente, não consigo dizer qual é o mais interessante – achei todos muito bem interpretados e cada um deles com um nível de profundidade e característica diferente. Sem dúvida alguma o casal Paloma e José Luis é o mais “lírico” e com uma pegada menos divertida e mais sensível. Paco e Ana vivem as situações mais inusitadas porque são mais jovens e estão mais “abertos” a experimentar. Candela e Antonio são muito interessantes porque eles tem um pouco mais de idade e se parecem muito com os espanhóis do interior e/ou que vivem nas “afueras” da capital.

Ainda que todos os casais sejam humanos, demasiado humanos, e, também por isso, bastante interessantes, e ainda que eles vivam situações cômicas em pelo menos uma parte da história, a sequência que me fez rir de dar gargalhada foi a de Sandra (Alexandra Jiménez) quando ela entrevista Javier (Javier Rey). Essa situação é bastante comum em Madrid, de alguém buscar um companheiro para “compartir piso”. Existem situações como aquela, de fazer “uma entrevista” com o candidato. Então não é difícil se colocar no lugar de Javier ou de Sandra naquela situação. Para mim, o grande momento do filme – ainda que existam várias outras sequências muito boas.

Gosto de filmes que tratam de questões do dia a dia de forma tão franca e natural. E olha que em Kiki existem várias “filias” inusitadas – muito bem apresentadas pelo diretor, aliás. Então temos a parte curiosa da sexualidade e do comportamento humano e temos também situações e/ou pessoas com as quais nos identificamos. Seja porque temos algo em comum com elas, seja porque já encontramos pessoas parecidas ou vivenciamos situações com algumas daquelas características. Um filme de comédia que consegue criar empatia tem meio caminho andado para o sucesso.

O bacana deste filme é que ele demonstra aquilo que aprendemos na música Paula e Bebeto, do grande Milton Nascimento: qualquer maneira de amor vale a pena/ qualquer maneira de amor vale amar. Kiki mostra justamente a parte divertida e bacana do amor. Não importa os teus gostos, fetiches, o que te dá ou não tesão: todo mundo tem o direito de amar e de ser amado – desde que não agrida ninguém, é claro. Respeitando o outro, tudo vale o esforço e a tentativa. Se as duas pessoas envolvidas estão de acordo, bacana.

Desta maneira que este filme, além de divertir e de informar sobre algumas “filias”, ainda nos mostra que “all you need is love”, como cantavam The Beatles. Ninguém é tão esquisito – e que o diga Sandra – que não merece ser visto com atenção e verdadeiro interesse por alguém. Também existe a história de cada um dos casais que demonstra, bem ao estilo de cada “pareja”, como o amor é capaz de entender e aceitar o que lhe é estranho – novamente, desde que não agrida o outro e que haja sentimento verdadeiro em jogo. No fim das contas, Kiki é um belo filme de amor – com um bocado de “picante” e sem sexo explícito.

Então analisando o roteiro, muito bem escrito, com situações e diálogos interessantes e a comédia no ponto certo, e analisando o elenco, que tem um trabalho irretocável – e isso é bastante raro -, não consigo ver pontos negativos nesta produção. O filme não é brilhante, daqueles que você vai lembrar daqui a 20 anos – quer dizer, acho que não. Mas ele é muito bem acabado. Atento aos detalhes, funciona bem do início ao fim. Não deixa pontas soltas e convence o espectador. Dá para pedir mais? Para o meu gosto, não. Se você quer rir e se divertir, esta é uma boa pedida.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Serei redundante. Para mim, o roteiro e o trabalho dos atores acima da média são o ponto forte de Kiki, El Amor Se Hace. Não é tão simples quando gostaríamos encontrar belos roteiros e atuações todas boas em um filme, especialmente de comédia. Por isso mesmo eu me surpreendi tanto com esta produção. Há tempos eu não via um filme tão bom vindo da Espanha – de qualquer gênero, mas especialmente de comédia.

Enquanto eu assistia ao filme eu não sabia que um dos roteirista e o diretor da produção eram o ator que interpreta o personagem Paco na história. Com uma carreira maior como ator, Paco León também se aventura como roteirista e como diretor. A estreia dele nas duas funções foi feita com a série de TV Ácaros, com seis episódios escritos por ele e exibidos em 2006 e 2007. A estreia no cinema como roteirista e diretor ocorreu em 2012 com Carmina o Revienta. Depois ainda vieram dois curtas e o longa Carmina y Amén. Ou seja, Kiki é o terceiro longa de León como diretor e roteirista. Fiquei curiosa para ver os trabalhos anteriores. Acho que depois de Kiki vale ficar de olho nele.

Também acho que vale conferir o trabalho do roteirista e diretor (e também ator) Josh Lawson que inspirou Kiki. The Little Death tem uma avaliação maior que Kiki no IMDb – 7,1 para o filme de Lawson, enquanto Kiki tem 6,6. Fiquei curiosa para ver o original – que parece ser bem diferente. Falando em avaliações, Kiki recebeu 11 críticas positivas e apenas duas negativas pelos críticos do site Rotten Tomatoes – o que garantiu para o filme uma aprovação de 85% e uma nota média 6. No Rotten Tomatoes o filme The Little Death tem apenas 60% de aprovação – minha vontade de assistir ele já diminuiu um pouquinho. 😉

Gostei do trabalho de todos os atores, mas acho que alguns se destacaram nesta produção. Gostei, especialmente, do trabalho de Alexandra Jiménez, de Natalia de Molina, de Paco León, de Ana Katz e de Candela Peña. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além deles e dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores coadjuvantes Eduardo Recabarren, que interpreta o terapeuta do casal Paco e Ana; Belén Cuesta, que interpreta Belén, amiga de Paco e que acaba fazendo um triângulo amoroso com ele e Ana; Maite Sandoval ótima como Maite, empregada de Paloma e José Luis; e David Mora como Rubén, surdo-mudo que vive de olho em Sandra.

Da parte técnica do filme, destaco a direção de fotografia de Kiko de la Rica; a edição de Alberto de Toro; os figurinos de Javier Bernal e de Pepe Patatín; e a direção de arte de Vicent Díaz e Montse Sanz.

Kiki El Amor Se Hace estreou no dia 1º de abril de 2016 na Espanha. Depois, o filme participou de cinco festivais. Em sua trajetória, o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Filme Comédia e o de Melhor Trailer no Prêmio Feroz, na Espanha; e o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña dado pela Spanish Actors Union.

A história de Kiki se passa inteira em Madrid. O filme, de fato, foi rodado na capital espanhola e em locais que fazem parte da comunidade madrilenha, como Navalcarnero, Alcorcón, Torrejón de la Calzada, Villanueva del Pardillo e Las Rozas. Também foram rodadas algumas cenas em Valsaín, que faz parte de Segóvia, distrito de Castilla y León.

Ah, e acho que vale uma curiosidade sobre esta produção. Eu fiquei me perguntando porque o filme se chama Kiki – afinal, não há nenhum personagem com esse nome. Pois bem, ao acessar o site oficial da produção eu fiquei sabendo o porquê deste nome. Segundo o site, “Um bom ‘kiki’ é uma relação sexual sem mais reflexão ou impedimento que fazer o que se gosta, quando, como e com quem lhe interesse para quem o faz: genital, oral, rindo, temendo, cheirando, chupando, apalpando, sem roupa, disfarçados, de pé, deitados, contra uma árvore… qualquer forma que se goste e que se comparta”. Entenderam? Kiki é um bom sexo, sem culpas, sem análise, feito com liberdade. Kiki também é como o site define as “filias”, e dá uma lista delas (algumas vemos no filme): harpaxofilia, erotolalia, dacrifilia, dendrofilia, somnofilia e elifilia.

CONCLUSÃO: Possivelmente a nota que eu dei acima para Kiki, El Amor Se Hace, seja um tanto exagerada. Pode ser. Mas a verdade é que há tempos eu não assistia a um filme espanhol tão bom. Para quem lembra da fase inicial de Almodóvar, como eu disse lá no início, e gostava desta fase, este será um belo achado. Um filme envolvente, bem escrito, com personagens muito bem desenvolvidos e com um grupo de atores escolhido à dedo – e muito competente. Só consegui ver qualidades nesta produção. Até porque ela trata de sexo e amor, dois temas universais, com muita franqueza e sem preconceitos. Uma bela comédia que trata sobre muitos elementos dos nossos dias. Divertido, cumpre bem o seu papel.

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Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados – Viver é Fácil com os Olhos Fechados

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Ter sonhos e persegui-los é algo fundamental. Especialmente em tempos duros e complicados. Vivir es Facil con los Ojos Cerrados se passa em uma época difícil para a Espanha, de ditadura, quando a liberdade de sonhar não era um artigo comum. Além de tratar daquela época e de uma Espanha pouco difundida mundo afora, esta produção aborda um momento cultural único, dos The Beatles e dos questionamentos que John Lennon levantou em sua época. Especialmente sobre o que de fato é importante na vida.

A HISTÓRIA: Um rádio antigo é sintonizado. Nas notícias de uma emissora, a apresentadora comenta que muitas pessoas se perguntam o que estaria acontecendo com John Lennon. Havia, na época, rumores de que ele iria acabar com a banda The Beatles. Em uma reportagem de jornal, aparece a notícia de que Lennon está em Almería, na Espanha, para participar de um filme.

A notícia segue contextualizando a época, comentando sobre a histeria que circunda os Beatles, trata das ameaças que começam a surgir pelas declarações de Lennon e sobre como pode ser desagradável para eles se apresentarem em países com ditaduras como a Espanha. É neste país que o professor Antonio (Javier Cámara) ensina inglês para os seus alunos com músicas dos Beatles. Fã da banda e de Lennon, ele decide viajar para Almería para se encontrar com o ídolo. No caminho, ele encontra Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesc Colomer) em suas peregrinações pessoais.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vivir es Facil con los Ojos Cerrados): Tinha ouvido falar desse filme, há tempos, mas não tinha conseguido assisti-lo até agora. Gosto do cinema espanhol e de filmes que se debruçam sobre uma certa época na história. Especialmente quando esta época é delicada para o país.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados é ambientado em 1966, durante a ditadura do general Francisco Franco – que esteve no poder entre 1939 e 1976. Interessante um filme falar sobre falta de liberdade e pobreza nas ruas naquela época já que a imagem que o regime franquista sempre procurou passar foi de um país unido e aonde tudo ia bem. Não é apenas no Brasil, infelizmente, que muita gente se diz saudosista da época da ditadura. Na Espanha há muita gente que ainda diz ter saudade de Franco, enquanto outros simplesmente não viveram aquela época e não tem lembrança dos horrores da ditadura – a exemplo do que acontece no país.

Mas voltemos ao filme. Vivir (tratarei do filme assim, desta forma abreviada) é um filme interessante por unir dois temas importantes: a falta de liberdade individual e a falta de liberdade coletiva versus a busca por essas liberdades. Ao mesmo tempo que esta produção fala de uma época bem específica em um país, a Espanha, ela também aborda um fenômeno cultural que ultrapassou todas as barreiras de território, que foi a beatlemania.

O filme, em si, é bem simplista. A história gira em torno de três personagens que buscam, cada uma sua maneira, o seu próprio caminho. O professor Antonio ensina inglês para crianças através das letras das músicas do The Beatles. Belén é uma jovem que não tem muitas perspectivas e que está procurando reencontrar a mãe em um momento delicado de sua vida. Enquanto isso, Juanjo sai de casa porque não aguenta a repressão paterna e quer experimentar a experiência de viver por conta própria.

Ao saber que John Lennon está rodando um filme em Almería, Antonio decide viajar de Albacete até a pequena cidade na Andalucía, no Sul da Espanha, para tentar se encontrar com o líder da sua banda preferida. A primeira parte do filme mostra a vida de Antonio e a sua viagem até lá. No caminho, ele encontra Belén em um posto de gasolina e Juanjo na estrada. Acaba dando carona para os dois, e os três acabam juntos em Almería.

Bonita a forma com que o diretor e roteirista David Trueba conta essa história. De forma clara ele contrapõe as pessoas mais velhas e sua forma dura de lidar com a realidade com a forma fresca e mais leve dos jovens, ao mesmo tempo que mostra uma Espanha igualmente fechada e cheia de problemas contra uma cultura estrangeira que não tem fronteiras e que fascina a qualquer pessoa. Com isso, Trueba não quer dizer que a grama do vizinho é sempre mais verde, mas que alguns países e pessoas demoram mais tempo para perceber o que é importante e o que simplesmente é a continuação de velhos costumes e modos de agir que não incluem aos demais.

Ainda que praticamente não vejamos Madri ou outra grande cidade maior da Espanha neste filme, parece ficar evidente a intenção de Trueba nos falar da “Espanha profunda”, ou seja, do interior que vai demorar mais para evoluir. Ao mesmo tempo que em Almería temos pessoas simples e sem pompas e circunstâncias, temos figuras que são grosseiras, preconceituosas, e que só aceitam pessoas que sejam iguais a elas.

O exemplo mais claro deste perfil é o valentão da cidade que, gratuitamente, zomba de Juanjo por causa de seu cabelo e agride o adolescente quando tem uma oportunidade. Outros homens da localidade simplesmente não fazem nada. Esse é um comportamento que ainda se vê muito na Espanha – por isso chamei de “Espanha profunda” antes -, aonde “o que vem de fora” não é bem aceito. Talvez, tolerado. Neste sentido, Antonio encarna um modelo de adulto mais moderno, que não tem problemas em admirar o que vem de fora quando o modelo é bom e positivo – como no caso de Lennon e The Beatles. Além disso, fica claro que ele defende sempre Belén e Juanjo. De fato ele se preocupa com os demais.

Mas além deste recorte histórico e comportamental de um país, Vivir trata de questões que independem da fronteira. Ao se debruçar em canções dos The Beatles, o filme repercute o que muitas músicas de Lennon e companhia queriam evidenciar, como a solidão de estar rodeado de pessoas e estar sozinho, os valores que são realmente importantes versus o ouro de tolo que a fama propicia, entre outros questionamentos. Antonio representa um sujeito solitário e libertário que se identifica com as músicas e suas reflexões. Pouco a pouco ele vai contaminando com esperança aos demais personagens desta história.

Falando em personagens, sem dúvida alguma os melhores construídos são os de Antonio e Juanjo. Do primeiro, já falei bastante. O segundo, representa os jovens bem educados e que não se satisfazem com o regime repressor – seja o de casa, seja o de fora de casa. Responsável, amável, ele está pronto para a vida, mas quer mudanças. É o lado corajoso da história. Belén demonstra, para mim, a perda da inocência – seja de uma pessoa em uma época da vida, seja do próprio país, a Espanha. Mas ela, no filme, acaba tendo um papel um pouco controverso.

Ao mesmo tempo que Belén é admirável, pela beleza e pela honestidade, ela parece ser a peça sempre desejável da história. Então ela ainda é vista de forma machista, em uma sociedade que é assim e que, por ser assim, acha que ela deve se casar com alguém e ter filhos – essa é a sua única opção. Ela, por outro lado, parece querer ser dona de si mesma – é libertária e, algumas vezes, me pareceu que até demais. Desejada por Antonio e por Juanjo, ela acaba sendo a peça de um tradicional triângulo amoroso – que, no fundo, não se concretiza.

Desta forma, Vivir fala de muitos temas e tem diversas nuances. Esse emaranhado todo percebemos em parte enquanto o filme está se desenrolando. O restante surge com o tempo e depois que a produção acaba. Mas algo bonito que a história deixa como mensagem é que é possível sonhar e ir atrás dos seus sonhos, independente da idade ou do quanto as outras pessoas possam achar a sua ideia maluca.

Antonio não era o perfil clássico do cara que parte de uma cidade para outra para falar com o seu ídolo. Mas ele faz isso e dá exemplo para os jovens que parecem ser mais libertários que ele. Buscar os sonhos exige vontade, saída e perseverança. Independe de idade, classe social ou profissão. Apenas essa mensagem já vale o filme. Assim como outros detalhes espalhados aqui e ali. Uma das minhas cenas preferidas é quando Juanjo consegue fazer o gravador de Antonio funcionar na volta para casa. Momento delicado e cheio de esperança. Esse é um filme bacana, mas faltou um pouco mais de emoção, talvez, para que eu o considerasse marcante.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: David Trueba é um nome relativamente conhecido do cinema espanhol. Nascido em Madri em 1969, ele tem 16 prêmios no currículo e outras 24 indicações a prêmios. De sua filmografia com 17 trabalhos como diretor, os destaques, além deste Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados, são La Buena Vida, de 1996; e Soldados de Salamina, de 2003. Ele é o irmão mais novo do Trueba mais conhecido do cinema espanhol, o veterano Fernando Trueba. Fernando, o irmão mais velho de David, tem 29 prêmios e 26 indicações no currículo, incluindo uma indicação ao Oscar em 2012 pelo filme Chico & Rita.

O roteiro deste filme, claramente, está focado no trabalho de três atores. Javier Cámara, mais uma vez, demonstra ser um ótimo ator, sensível e atento aos detalhes. Ele convence no papel que for. Faz o mesmo aqui. Os jovens Natalia de Molina e Francesc Colomer, especialmente o segundo, também demonstram talento e convencem. Além deles, tem um certo destaque o trabalho de Ramon Fontserè, que interpreta a Ramón, o dono do restaurante que acaba sendo um ponto de encontro importante dos viajantes; Rogelio Fernández como Bruno, o filho cadeirante de Ramón; Jorge Sanz como o pai de Juanjo e Ariadna Gil como a mãe do jovem. Os demais tem papeis pouco relevantes.

A direção de David Trueba é bem tradicional, assim como o seu roteiro, que é linear e revisita aspectos conhecidos de road movie e de filmes que mesclam drama e humor. Nada a destacar do trabalho dele como diretor ou roteirista, apenas que ele valoriza o trabalho dos atores. Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho do diretor de fotografia Daniel Vilar e da editora Marta Velasco. A trilha sonora de Pat Metheny também é boa.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados estreou em setembro de 2013 no Festival de Cinema de San Sebastián. Depois, o filme passou por outros 14 festivais de cinema. Nesta trajetória, o filme recebeu 16 prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina pelo Prêmio do Círculo de Roteiristas de Cinema da Espanha; e para os de Melhor Ator para Javier Cámara, Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme no Prêmio Goya.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Vivir foi filmado em duas cidades da Espanha: Madri e Almería.

Esta produção foi a indicação oficial da Espanha para o Oscar 2015.

Agora, pequena curiosidade sobre o filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De acordo com a história criada por Trueba, Lennon mostrou para Antonio uma música nova na qual ele estava trabalhando. Isso aconteceu durante o encontro deles no trailer do compositor nos intervalos das filmagens em Almería. Inicialmente, Antonio achou que a música não tinha sido gravada. Mas depois, voltando para Madri, Juanjo percebe que faltava um ajuste na velocidade do gravador para escutar a música. Quem conhece um pouco de The Beatles e de Lennon sabe que aquela música era uma primeira versão de Strawberry Fields Forever.

Muito bacana essa “tirada” do filme. Afinal, como tantas outras músicas, o filme trata esta música como tendo um título provisório diferente, “Living is Easy with Eyes Closed”, o título do próprio filme e que cai como uma luva para aquela realidade. Afinal, se você ignorar que vive em uma ditadura, ignorar a pobreza e os valores deturpados da sociedade, poderá viver de forma mais fácil. Mas se você se importa com tudo isso, certamente ficará incomodado e terá uma vida mais “difícil”. A escolha é sempre sua/nossa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 textos positivos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 100% e uma nota média de 7,8. Este é um raríssimo caso de um filme com 100% de aprovação dos críticos. Interessante.

Esta é uma produção 100% espanhola.

CONCLUSÃO: Este é um filme simpático, com diversas nuances críticas e de reflexão. Bem dirigido, com atores comprometidos, só não é arrebatador por causa do roteiro, um tanto singelo demais. Ainda assim, Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados tem diversas provocações, seja na análise de uma época, na reflexão sobre a formação de uma identidade nacional, ou na ponderação sobre um fenômeno cultural “invasor”. Um dos acertos do filme é mostrar um pouco da “Espanha” profunda e pouco conhecida, assim como no desejo dos realizadores de valorizar os bons exemplos e a aposta nos jovens. Por outro lado, a história é singela, bacaninha, mas não arrebata e nem surpreende. Um filme simpático, que vale ser conferido em uma tarde ou noite tranquila.