Kiki, El Amor Se Hace – Kiki Love to Love – Kiki: Os Segredos do Desejo

O sangue latino representado em uma profusão de desejos, de libido e de algumas taras. Kiki, El Amor Se Hace resgata um cinema espanhol que há tempos não tínhamos o prazer de assistir. Um filme que fala sobre tesão, sobre sexo e sobre amor através de várias histórias cheias de humor, irreverência e com uma mistura de origens que representa bem o nosso tempo. Um filme delicioso, picante e um bocado provocador. Uma delícia, destas que quem conheceu Almodóvar em sua fase inicial tinha saudade de assistir.

A HISTÓRIA: O casal Natalia (Natalia de Molina) e Alejandro (Álex García) se devoram em várias sequências provocadoras. Algumas partes das cenas de sexo são substituídas por reações de animais e por outros objetos. No final, Alejandro pergunta como foi o sexo. O quanto ele foi bom. Natalia parece um pouco irritada com o questionamento e fala que estava pensando na semana passada, quando foi assaltada no posto de gasolina. Ela fala para o namorado que gozou quando foi rendida pelo assaltante. Alejandro fica perturbado quando ela diz que aquele foi o maior orgasmo que ela já teve. Nesta história, conhecemos não apenas a harpaxofilia (excitação causada ao ser vítima de um roubo), mas outras “filias” (excitações e maneiras de chegar ao orgasmo) apresentadas por outros casais que vivem em Madrid.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desta produção, por isso recomendo que só continue a assistir quem já viu a Kiki, El Amor Se Hace): Que saudades de filmes como este! Produções que não tem pudor ao tratar de algo tão natural para a nossa raça humana – e para todas as raças, na verdade, como bem demonstra as cenas de abertura desta produção – como é o sexo e a nossa sexualidade. O desejo faz parte da vida e esta produção, acima de tudo, trata de pessoas comuns – certo que algumas com alguns “gatilhos” de excitação bem diferenciados, mas isso faz parte da diversidade que Kiki, El Amor Se Hace quer retratar.

Sexo e desejo são temas onipresentes, assim como o orgasmo, o casamento e o encantamento. Sou suspeita para falar, por ter morado por alguns anos em Madrid, mas esta produção me fez voltar para a capital espanhola por causa de toda a sua verdade. Sim, aquelas pessoas que você está assistindo em cena você encontra em Madrid facilmente. Incrível. Os personagens são ótimos, e os atores… sem eles este filme não teria a qualidade que tem.

Porque fazer comédia não é algo realmente fácil. Especialmente quando falamos de sexo e de sexualidade, o limiar entre fazer algo engraçado e apresentar algo exagerado, machista ou sexista é muito pequeno. É mais fácil errar nas comédias que tratam sobre o tema do que acertar. Ícone do cinema espanhol, Pedro Almodóvar em seu início de carreira soube acertar na comédia e no fetichismo. Mesmo quando exagerava, fazia isso funcionar. Pois bem, como eu comentei lá no início, há muito tempo eu não assistia a um filme com as características de Almodóvar e tão bem feito.

Os espanhóis tem uma maneira de levar a vida e de encarar a vida muito típica. Toda essa “essência latina”, muito espanhola, está presente em Kiki. Isso é uma das qualidades do filme que mais me impressionaram. Os personagens em cena, os seus sotaques, maneiras de agir e de encarar as relações e a vida são muito verdadeiros – como eu citei antes, você realmente encontra pessoas como as que vemos neste filme na Espanha. Com um bocado de facilidade. Por conhecer bem aquela realidade, me deliciei com cada sotaque e com cada personagem.

Sei que a nota máxima abaixo pode parecer um pouco exagerada. Especialmente se você não conheceu muito bem os espanhóis. Mas independente deste fato, acredito que para todos que assistirem este filme o roteiro de Paco León e Fernando Pérez, baseados no filme de Josh Lawson (que escreveu o roteiro e dirigiu The Little Death, lançado em 2014), será uma experiência interessante e divertida em diversos momentos. Afinal, estamos tratando do que é humano, demasiado humano, e sempre que o foco de uma produção é essa, o material rende interesse e inclusive alguns debates.

Para mim, o roteiro de Kiki é delicioso. Ao focar a história em quatro casais – Natalia e Alejandro, Paco e Ana, Candela e Antonio, Paloma e José Luis – e ainda em uma garota solteira que parece meio “deslocada” do padrão (só parece, depois vamos entender a razão dela estar em cena), Kiki consegue fazer um quadro bem interessante das relações humanas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Natalia e Alejandro estão namorando e ela acredita que ele vai pedir ela em casamento em breve – o que de fato acontece conforme a história avança.

Paco (Paco León, também roteirista e diretor) e Ana (Ana Katz) estão há vários anos juntos e estão em crise. Como eles se gostam, ante de se separarem, eles decidem fazer terapia de casal. E é aí que eles começam um longo processo para reavivar a relação. Candela (Candela Peña) e Antonio (Luis Callejo) estão há bastante tempo juntos, caíram um bocado na rotina, especialmente porque ela tenta engravidar há algum tempo e não consegue. Paloma (Mari Paz Sayago) e José Luis (Luis Bermejo) estão casados também há bastante tempo, mas o casamento mudou – e o sexo terminou – quando ela passou a se locomover em uma cadeira de rodas.

Todos os casais tem momentos ótimos. Honestamente, não consigo dizer qual é o mais interessante – achei todos muito bem interpretados e cada um deles com um nível de profundidade e característica diferente. Sem dúvida alguma o casal Paloma e José Luis é o mais “lírico” e com uma pegada menos divertida e mais sensível. Paco e Ana vivem as situações mais inusitadas porque são mais jovens e estão mais “abertos” a experimentar. Candela e Antonio são muito interessantes porque eles tem um pouco mais de idade e se parecem muito com os espanhóis do interior e/ou que vivem nas “afueras” da capital.

Ainda que todos os casais sejam humanos, demasiado humanos, e, também por isso, bastante interessantes, e ainda que eles vivam situações cômicas em pelo menos uma parte da história, a sequência que me fez rir de dar gargalhada foi a de Sandra (Alexandra Jiménez) quando ela entrevista Javier (Javier Rey). Essa situação é bastante comum em Madrid, de alguém buscar um companheiro para “compartir piso”. Existem situações como aquela, de fazer “uma entrevista” com o candidato. Então não é difícil se colocar no lugar de Javier ou de Sandra naquela situação. Para mim, o grande momento do filme – ainda que existam várias outras sequências muito boas.

Gosto de filmes que tratam de questões do dia a dia de forma tão franca e natural. E olha que em Kiki existem várias “filias” inusitadas – muito bem apresentadas pelo diretor, aliás. Então temos a parte curiosa da sexualidade e do comportamento humano e temos também situações e/ou pessoas com as quais nos identificamos. Seja porque temos algo em comum com elas, seja porque já encontramos pessoas parecidas ou vivenciamos situações com algumas daquelas características. Um filme de comédia que consegue criar empatia tem meio caminho andado para o sucesso.

O bacana deste filme é que ele demonstra aquilo que aprendemos na música Paula e Bebeto, do grande Milton Nascimento: qualquer maneira de amor vale a pena/ qualquer maneira de amor vale amar. Kiki mostra justamente a parte divertida e bacana do amor. Não importa os teus gostos, fetiches, o que te dá ou não tesão: todo mundo tem o direito de amar e de ser amado – desde que não agrida ninguém, é claro. Respeitando o outro, tudo vale o esforço e a tentativa. Se as duas pessoas envolvidas estão de acordo, bacana.

Desta maneira que este filme, além de divertir e de informar sobre algumas “filias”, ainda nos mostra que “all you need is love”, como cantavam The Beatles. Ninguém é tão esquisito – e que o diga Sandra – que não merece ser visto com atenção e verdadeiro interesse por alguém. Também existe a história de cada um dos casais que demonstra, bem ao estilo de cada “pareja”, como o amor é capaz de entender e aceitar o que lhe é estranho – novamente, desde que não agrida o outro e que haja sentimento verdadeiro em jogo. No fim das contas, Kiki é um belo filme de amor – com um bocado de “picante” e sem sexo explícito.

Então analisando o roteiro, muito bem escrito, com situações e diálogos interessantes e a comédia no ponto certo, e analisando o elenco, que tem um trabalho irretocável – e isso é bastante raro -, não consigo ver pontos negativos nesta produção. O filme não é brilhante, daqueles que você vai lembrar daqui a 20 anos – quer dizer, acho que não. Mas ele é muito bem acabado. Atento aos detalhes, funciona bem do início ao fim. Não deixa pontas soltas e convence o espectador. Dá para pedir mais? Para o meu gosto, não. Se você quer rir e se divertir, esta é uma boa pedida.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Serei redundante. Para mim, o roteiro e o trabalho dos atores acima da média são o ponto forte de Kiki, El Amor Se Hace. Não é tão simples quando gostaríamos encontrar belos roteiros e atuações todas boas em um filme, especialmente de comédia. Por isso mesmo eu me surpreendi tanto com esta produção. Há tempos eu não via um filme tão bom vindo da Espanha – de qualquer gênero, mas especialmente de comédia.

Enquanto eu assistia ao filme eu não sabia que um dos roteirista e o diretor da produção eram o ator que interpreta o personagem Paco na história. Com uma carreira maior como ator, Paco León também se aventura como roteirista e como diretor. A estreia dele nas duas funções foi feita com a série de TV Ácaros, com seis episódios escritos por ele e exibidos em 2006 e 2007. A estreia no cinema como roteirista e diretor ocorreu em 2012 com Carmina o Revienta. Depois ainda vieram dois curtas e o longa Carmina y Amén. Ou seja, Kiki é o terceiro longa de León como diretor e roteirista. Fiquei curiosa para ver os trabalhos anteriores. Acho que depois de Kiki vale ficar de olho nele.

Também acho que vale conferir o trabalho do roteirista e diretor (e também ator) Josh Lawson que inspirou Kiki. The Little Death tem uma avaliação maior que Kiki no IMDb – 7,1 para o filme de Lawson, enquanto Kiki tem 6,6. Fiquei curiosa para ver o original – que parece ser bem diferente. Falando em avaliações, Kiki recebeu 11 críticas positivas e apenas duas negativas pelos críticos do site Rotten Tomatoes – o que garantiu para o filme uma aprovação de 85% e uma nota média 6. No Rotten Tomatoes o filme The Little Death tem apenas 60% de aprovação – minha vontade de assistir ele já diminuiu um pouquinho. 😉

Gostei do trabalho de todos os atores, mas acho que alguns se destacaram nesta produção. Gostei, especialmente, do trabalho de Alexandra Jiménez, de Natalia de Molina, de Paco León, de Ana Katz e de Candela Peña. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além deles e dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores coadjuvantes Eduardo Recabarren, que interpreta o terapeuta do casal Paco e Ana; Belén Cuesta, que interpreta Belén, amiga de Paco e que acaba fazendo um triângulo amoroso com ele e Ana; Maite Sandoval ótima como Maite, empregada de Paloma e José Luis; e David Mora como Rubén, surdo-mudo que vive de olho em Sandra.

Da parte técnica do filme, destaco a direção de fotografia de Kiko de la Rica; a edição de Alberto de Toro; os figurinos de Javier Bernal e de Pepe Patatín; e a direção de arte de Vicent Díaz e Montse Sanz.

Kiki El Amor Se Hace estreou no dia 1º de abril de 2016 na Espanha. Depois, o filme participou de cinco festivais. Em sua trajetória, o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Filme Comédia e o de Melhor Trailer no Prêmio Feroz, na Espanha; e o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña dado pela Spanish Actors Union.

A história de Kiki se passa inteira em Madrid. O filme, de fato, foi rodado na capital espanhola e em locais que fazem parte da comunidade madrilenha, como Navalcarnero, Alcorcón, Torrejón de la Calzada, Villanueva del Pardillo e Las Rozas. Também foram rodadas algumas cenas em Valsaín, que faz parte de Segóvia, distrito de Castilla y León.

Ah, e acho que vale uma curiosidade sobre esta produção. Eu fiquei me perguntando porque o filme se chama Kiki – afinal, não há nenhum personagem com esse nome. Pois bem, ao acessar o site oficial da produção eu fiquei sabendo o porquê deste nome. Segundo o site, “Um bom ‘kiki’ é uma relação sexual sem mais reflexão ou impedimento que fazer o que se gosta, quando, como e com quem lhe interesse para quem o faz: genital, oral, rindo, temendo, cheirando, chupando, apalpando, sem roupa, disfarçados, de pé, deitados, contra uma árvore… qualquer forma que se goste e que se comparta”. Entenderam? Kiki é um bom sexo, sem culpas, sem análise, feito com liberdade. Kiki também é como o site define as “filias”, e dá uma lista delas (algumas vemos no filme): harpaxofilia, erotolalia, dacrifilia, dendrofilia, somnofilia e elifilia.

CONCLUSÃO: Possivelmente a nota que eu dei acima para Kiki, El Amor Se Hace, seja um tanto exagerada. Pode ser. Mas a verdade é que há tempos eu não assistia a um filme espanhol tão bom. Para quem lembra da fase inicial de Almodóvar, como eu disse lá no início, e gostava desta fase, este será um belo achado. Um filme envolvente, bem escrito, com personagens muito bem desenvolvidos e com um grupo de atores escolhido à dedo – e muito competente. Só consegui ver qualidades nesta produção. Até porque ela trata de sexo e amor, dois temas universais, com muita franqueza e sem preconceitos. Uma bela comédia que trata sobre muitos elementos dos nossos dias. Divertido, cumpre bem o seu papel.

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Una Pistola en Cada Mano – O Que os Homens Falam

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As pessoas são uma coisa e normalmente falam sobre si mesmas de outra maneira. Esta é uma das reflexões deste Una Pistola en Cada Mano, um filme recheado de diálogos, descobertas e um bocado de conflito. Quando me refiro ao choque, não se trata apenas de desentendimentos entre pessoas, mas também sobre as ideias de umas fazem das outras – e, algumas vezes, de si mesmas. Um filme diferente e interessante, e que provavelmente fará você pensar sobre que imagem passa para os outros e a respeito do que os outros escondem de você.

A HISTÓRIA: Chove forte. Protegido por um jornal, E. (Eduard Fernández) chega devagar em um prédio. Olha as caixas de correspondência, larga o jornal e aperta o botão chamando o elevador. Quando o elevador chega, E. vê pelo espelho J. (Leonardo Sbaraglia) chorando. Os dois se cumprimentam, e E. pergunta se ele mudou tanto assim. Só então J. o reconhece. Eles foram colegas no colégio e estão se encontrando 10 anos depois da última vez em que esbarraram. A conversa sem muita graça começa a se tornar mais profunda, até que os dois desabafam sobre as próprias vidas. Conversas francas assim vão surgir em diferentes relações entre os personagens desta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Una Pistola en Cada Mano): Filmes como este são cada vez mais difíceis de encontrar. Os arrasa-quarteirões (blockbusters) que forram os estúdios e seus realizadores de dinheiro seguem a mesma fórmula: muitos efeitos especiais, atores de renome interpretando personagens rasos e uma história recheada de ação e/ou suspense. Una Pistola en Cada Mano é a antítese de tudo isso. Os atores são conhecidos em seus países de origem, mas não podem ser considerados astros mundiais. Os outros dois quesitos nem fazem parte do enredo.

Como vários outros filmes, esta produção dirigida e com roteiro de Cesc Gay (que escreveu a história junto com Tomàs Aragay) junta vários personagens com histórias que parecem isoladas em uma colcha de retalhos – exemplos de filmes assim remontam a Short Cuts, Magnolia e Babel, apenas para citar alguns. Mesmo que parte dos personagens que vemos em duetos que parecem isolados se conheçam, cada história particular pode ser vista isoladamente, o que dá um caráter de confessionário para o filme.

Aliás, este caráter dos personagens contarem um para os outros o que eles não tem coragem de verbalizar para mais (ou quase) ninguém é o que chamar a atenção desde o encontro dos primeiros a entrar em cena, os atores Eduard Fernández e Leonardo Sbaraglia. A conversação entre eles lembra a de tantos outros encontros de “bons” ou “grandes” amigos que por diversas contingências da vida ficam muito tempo sem se falar e que, quando se esbarram, vivem aquele misto de estranheza, culpa e vontade de tirar o atrasado.

Os diálogos são ótimos. E os trocados por E. e J. vão do constrangedor até o legitimamente confessional. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que a sensação que ficamos – pelo menos eu fiquei – do início ao fim da cena é que E. parecia estar enrolando J.. Ou ele poderia apenas estar se desfazendo para que o amigo se sinta melhor. Ainda que o final ajude a ampliar a leitura sobre E., não fica totalmente claro o quanto do que foi trocado por ele e J. era, de fato, 100% legítimo.

De qualquer forma, a esbarrada dos dois começa a introduzir um dos temas do filme, que é o de como encontros “casuais” podem despertar conversas de profunda intimidade – ao ponto de algumas delas flutuarem sempre entre o constrangedor e o surpreendente. Consequentemente, nos faz refletir sobre as razões que fazem algumas pessoas terem tanta dificuldade de serem honestas consigo mesmas e com as pessoas com quem elas convivem diariamente ao mesmo tempo em que são capazes de destilar honestidade com pessoas que não são próximas.

Para mim, essa dificuldade em ser honesto com quem está mais próximo é uma forma de defesa. Afinal, abrir-se com um quase desconhecido faz as vezes de uma confissão ao mesmo tempo que afasta o risco de ser cobrado ou julgado por alguém que estará presente no cotidiano e que poderá “cobrar um preço” pela honestidade. Esta também é a vantagem da confissão dos pecados, porque o padre não vai lembrar do que foi dito e nem poderá contar para ninguém sobre a confissão. Mas a sensação de ter sido honesto e de ter se revelado, além de conseguir o perdão, será importante para quem buscou este consolo.

Outra reflexão que a conversa inicial nos faz desenvolver é como a leitura de que “tudo está mal” depende da perspectiva. Para J. ele tem vários motivos para envergonhar-se, até que E. confessa que a vida dele toda está mal. Os “níveis” são diferentes, segundo E., mas ambos tem problemas. E quem não os tem? Mas o quanto estes problemas devem ser valorizados, servindo inclusive como agentes paralisantes, ou quanto eles devem ser superados, esquecidos, sublimados? Esta é a escolha que cada um deve fazer sozinho.

A introdução do filme é potente. Até porque percebemos como é fácil ajudar alguém. Basta querer. Ainda que uma ajuda mais profunda depende de uma abertura mútua, de quem está sofrendo também querer mudar a própria realidade. E isso sim, é mais difícil. Mas vale a pena o contato quando abrimos a guarda. Depois, cada um dos personagens vai para o seu lado e J., de forma bem simbólica, se encaminha para atravessar a “passagem da paz”. Ele saiu do encontro mais reconfortado, de fato.

Aliás, muito bom rever Barcelona pelas lentes de Gay. Em seguida, S. (Javier Cámara) aparece com o filho em um dos bares tradicionais da cidade, o Pintin Bar, que fica bem próximo ao Parc de la Ciutadella. Em seguida, S. também vai passar por uma “humilhação” ao declarar-se para a ex-mulher Elena (Clara Segura).

Evidente, logo no encontro deles na porta, que as intenções de S. eram muito diferentes da de Elena. Mesmo sem sabermos sobre a história deles – e vamos ser apresentados a ela em seguido -, dá para presumir que Elena não quer mais nada com ele. Mas S. não lê os sinais e abre o coração, apenas para ser rechaçado e ver que a vida da ex-mulher avançou para a frente, sem possibilidade de volta.

E isso acontece muito entre homens e mulheres, não é mesmo? Eles tendem a levar as relações de forma muito mais “frugal”, sem tanto apego e preocupação. Enquanto isso as mulheres se apegam, se entregam. O resultado? Muitas vezes o que percebemos em diversas histórias contadas em Una Pistola en Cada Mano: homens vendo as vidas que eles fizeram dar errado, sentindo-se miseráveis, quando eles são os atores da própria tragédia ao terem se entregado a relações sem sentido que apenas lhe fizeram perder o que gostariam de preservar.

A troca de Cámara e Segura é uma das mais hilárias do filme. Junto com as confissões de “cornudo” de G. (Ricardo Darín), sem dúvida as respostas dela para as investidas do ex-marido são a parte cômica da produção. Outras trocas são mais dramáticas, como a que abre o filme e a última, na qual as mulheres de A. e M. expõe de forma cruzada os segredos do matrimônio. De perto, já dizia o sábio, ninguém é muito normal – ou todo mundo, algumas vezes, é normal demais.

Ainda que seja engraçada a troca entre S. e Elena, não dá para evitar uma certa irritação com a cara-de-pau dele ao “filosofar” que a vida é feita de casualidades… e que se não tivesse chovido, e ele não tivesse por isso entrado em um bar, não teria traído ela apesar de uma história de 10 anos juntos. Ah, vamos! Os homens realmente arranjam desculpa para tudo, quando querem.

Ao mesmo tempo, a reflexão dele tem um certo grau de verdade. A vida é frágil, e são os pequenos desvios, as pequenas e grandes escolhas que fazemos diariamente que nos conduzem para uma direção ou para outra. Claro que a desculpa da chuva não convence. Ele poderia ter entrado no bar e não ter traído a mulher. Mas é o acúmulo de decisões e circunstâncias que definem as nossas vidas. Una Pistola en Cada Mano trata disso e, como deu para vocês perceberem até agora, das relações humanas e dos sentimentos pessoais que algumas vezes demoram para aflorar.

Depois de tentar se justificar, S. de fato confessa que fez besteira e que gostaria de voltar atrás. Mas como os personagens anteriores já esboçaram em dizer, não existe uma borracha para apagar os atos que cometemos. Por isso é tão importante pensar no que fazemos e falamos. Uma palavra dita e um ato desencadeado não podem ser apagados – na melhor das hipóteses, perdoados. Mas nem sempre o perdão quer dizer que tudo pode voltar para o ponto anterior – como em uma recuperação feita no Windows.

Em seguida somos apresentados à história de G., que descobre que está sendo traído pela mulher e que resolve segui-la. Bonita essa parte da história. Diferente dos demais, é G. que não quer se separar. Ele ama a mulher e quer reconquistá-la. Quem dera que mais pessoas acreditassem no amor desta forma. E que bom que o texto de Gay e Aragay resolveu fugir da maioria dos perfis masculinos, que é de cafajestes – ou de figuras que tem a moral bem “flexível”, para dizer o mínimo – para mostrar que existe exceções.

Mesmo que o que G. diz é bonito e sentimental – ele só podia ser argentino, não? – de fato é possível perdoar e reconquistar uma pessoa quando a relação está muito desgastada? Como comenta L. (Luis Tosar), um ótimo parceiro de cena para Darín, é fácil dizer que é preciso perdoar e valorizar a pessoa que sucumbiu à traição, mas o difícil é colocar essa ideia em prática. Acredito que há relações em que isso vale a pena, já em outras… o melhor mesmo é cada um seguir a sua vida.

A surpresa do duelo entre G. e L. demora para aparecer não apenas pelo bom texto dos roteiristas, mas também pelo trabalho competente dos atores. O que apenas reforça estas que são as duas qualidades principais da produção. Chegamos então até o encontro de P. (Eduardo Noriega) e Mamen (Candela Peña). Ele, um cafajeste clássico, que tenta trair a mulher com uma colega do trabalho com quem ele nunca tinha agido direito. Mas o importante é a transa, não é mesmo? Para figuras como ele, com certeza.

Para fechar a produção, outro ponto alto: a troca de confissões entre A. (Alberto San Juan) e María (Leonor Watling) quando ela dá carona para o amigo do marido já que eles vão para o mesmo lugar e, em um encontro casual, uma troca similar entre M. (Jordi Mollà) e Sara (Cayetana Guillén Cuervo) casados com os personagens anteriores.

Por mais que os homens se achem muito amigos e próximos, na conversa com suas respectivas mulheres que as “máscaras caem” e eles ficam sabendo de pormenores que jamais desconfiariam. Daí que surge aquela que é a grande reflexão do filme, para mim, dita por María: “Todos somos uma coisa e parecemos outra, não?”. E a expressão final dos amigos A. e M. quando eles ficam sozinhos diz tudo… quantos de nós olharíamos do mesmo jeito para os nossos amigos e para as demais pessoas que amamos se soubéssemos de todos os seus pecados e do que eles fazem entre as quatro paredes?

O que chama a atenção no filme, além do ótimo texto da dupla Gay e Aragay, são as interpretações dos atores. Só há feras no elenco. Eu conhecia a maioria deles, mas mesmo as “novidades” foram de tirar o chapéu. Todos envolvidos com os seus personagens e convencendo em falar cada linha do roteiro.

Um excelente trabalho do elenco, uma direção voltada para estas interpretações e para mostrar, entre uma história e outra, um pouco de Madrid. Dá para pedir mais? Definitivamente o filme agrada e faz pensar. Talvez lhe tenha faltado apenas um “arremate” melhor no final. Por isso a produção não ganha a nota máxima, mas fica perto dela. Ainda que há um sentido para as conversas entre os homens terem voltado a ser vazias: todos estão muito bem escondendo-se uns dos outros. Ou isso eles pensam.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, todos os atores estão ótimos. Mas para mim Javier Cámara consegue superar os demais em uma interpretação muito verdadeira e tocante. Grande ator espanhol. Merece sempre ser acompanhado. E mesmo que os outros estejam todos os ótimos, tanto atores quanto atrizes, gostei muito de rever Eduardo Noriega em cena. Desta vez no papel de crápula da história. Interessante vê-lo nesta posição diferente.

Ainda que as histórias girem em torno, principalmente, do comportamento masculino, as atrizes que contracenam com os protagonistas de Una Pistola en Cada Mano dão o tom exato para o filme funcionar. Teria sido muito chato se todas as pequenas histórias fossem narradas apenas por homens. A interação deles com elas, em especial, enriquece o filme. Todas estão muito bem, mas gostei, em especial, das atuações de Clara Segura e Candela Peña. E foi ótimo rever a diva Leonor Watling.

Una Pistola en Cada Mano estreou em novembro de 2012 no Festival Internacional de Cinema de Roma. Depois, o filme participaria ainda de quatro festivais. Nesta trajetória, ele ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña no Prêmio Goya 2013; para o de Melhor Performance para o elenco inteiro no Festival de Cinema de Miami; e os de Melhor Filme sem ser falado em catalão, Melhor Roteiro, Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña e Melhor Ator Coadjuvante para Eduard Fernández no Prêmio Gaudí.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o ator Leonardo Sbaraglia substituiu o ator Javier Bardem, que inicialmente foi escalado para viver J.; Ricardo Darín procurou o diretor de Una Pistola en Cada Mano consultando ele sobre o papel de G. depois que ele leu o roteiro; e o diretor e roteirista escreveu a personagem de Mamen especialmente para Candela Peña.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Andreu Rebés, bem eficaz; da trilha sonora pontual de Jordi Prats e da edição precisa de Frank Gutiérrez. Além deles, ótimo trabalho do produtor de elenco José Manuel Gómez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Una Pistola en Cada Mano. Achei baixa, mas bem coerente com o tipo de público que tem lotado as salas de cinema mundo afora e que não curtem uma produção neste estilo. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram duas críticas positivas para o filme – ele praticamente não recebeu críticas até o momento.

Fiquei interessada pelo trabalho de Cesc Gay. Natural de Barcelona, Gay tem 47 anos e 10 filmes na carreira como diretor – e 11 como roteirista. Nesta trajetória, ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 17. Ele estreou na direção em 1998 com o filme Hotel Room e ficou mais conhecido pelas produções Krámpack (de 2000) e En La Ciudad (de 2003). O próximo filme dele, previsto para ser lançado no ano que vem, é Truman, que tem Ricardo Darín e Javier Cámara no elenco. Vale acompanhá-lo.

Esse é mais um exemplar do que há de melhor no cinema espanhol. Lembrando que a produção foi toda rodada em Barcelona, terra natal do diretor.

Una Pistola en Cada Mano é um filme de 2012… mas chegou apenas agora, em maio de 2014, no mercado brasileiro. Eis o típico exemplo de “antes tarde do que nunca”.

CONCLUSÃO: Sempre que alguém se sente muito surpreso com a descoberta de uma “faceta” nova de outra pessoa, inevitavelmente reflito sobre o quanto as pessoas conseguem ser honestas consigo mesmas e com as demais. Para mim, cada notícia de pessoas “acima de qualquer suspeita” que cometem alguma barbaridade reforça a teoria que as pessoas são uma coisa na rua e outra muito diferente entre quatro paredes. Alguns filmes já trataram deste tema, mas poucos da forma direta, honesta e interessante como este Una Pistola en Cada Mano. O roteiro e a reunião de atores de primeira linha são as principais qualidades do filme, que reúne diversas histórias de pessoas que se comunicam melhor com desconhecidos do que com pessoas próximas. Cinema de qualidade baseado em duetos de interpretação e muitos diálogos. Fuja se o que lhe interessa são cenas de ação.