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Amanda

As crianças têm muito a nos ensinar. Da sua forma singela, meiga e diferente da nossa. Amanda nos conta uma destas histórias de aprendizado. Um filme simples, bastante franco e que nos faz pensar sobre a crueza, a brutalidade, a beleza e a simplicidade da vida. Estas questões que nos passam desapercebidas, muitas vezes, porque estamos correndo mais de um lado para o outro do que observando o que realmente se passa ao nosso redor.

A HISTÓRIA: Algumas árvores, locais vazios e o sinal de uma escola. Os estudantes saem, conversam e se despedem. Aos poucos, todos vão embora, menos Amanda (Isaure Multrier), que fica esperando sozinha alguém. Em outro lugar, David (Vicente Lacoste) comenta que as pessoas que ele estava esperando estão atrasadas. A família acaba chegando, e David os recepciona, levando o grupo até o apartamento onde ficarão hospedados. Na escola, Amanda diz que está esperando que David a busque, e uma das responsáveis pelo local pede para ela entrar. David corre para buscá-la e, mais tarde, receberá uma bronca da irmã, Sandrine (Ophélia Kolb).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Amanda): O cinema francês é sempre delicioso. Franco, humano, sensível. Amanda é mais um filme no melhor estilo francês. Por isso, vale assisti-lo com atenção e com tempo. Com o cuidado que a própria história oferece.

De forma tranquila, sem “fogos de artifício” ou momentos planejados para fisgar o espectador pela surpresa, Amanda nos apresenta uma história cheia de elementos do nosso tempo. (SPOILER – não continue lendo se você não assistiu ao filme ainda). Para começar, a constituição da família que temos no centro da história e a vida de seus personagens. Amanda é filha de uma mãe solteira. A relação dela com a mãe é maravilhosa, mas Sandrine, ainda jovem, não deixa de “curtir a vida” e de buscar o amor.

Apesar disso, não existe a presença masculina de forma visível na vida da mãe ou da filha. A presença masculina na vida de Amanda é do tio, que ela não chama de tio, mas de irmão da mãe. Aliás, eles tem uma relação interessante a esse respeito. Quando os irmãos falam dos pais, geralmente citam eles como referência da outra pessoa também. Um exemplo: quando David fala da mãe dele, cita Alison (Greta Stacchi) como a mãe de Sandrine. Volta e meia os próprios irmãos se chamam pelo nome, assim como Amanda os chama pelo nome. Interessante.

Ainda que esta forma de se referirem uns aos outros pareça um tanto impessoal, David, Sandrine e Amanda tem uma relação muito próxima e afetuosa. Os irmãos claramente cresceram juntos e se mantém unidos apesar das diferenças de gênio ou de vida que possam ter. Acompanhamos eles pela cidade, especialmente David – que é o narrador desta história. Os irmãos circulam por Paris de bicicleta, então temos muitas chances de ver a bela cidade durante esta produção – aliás, esta é uma das qualidades do filme.

Outra qualidade é a forma honesta e simples de conduzir esta história do diretor Mikhaël Hers. Ele é também o roteirista do filme, juntamente com Maud Ameline. Ambos conduzem o roteiro de forma franca, honesta e simples. Assim, nem parece que estamos vendo a uma ficção na nossa frente, e sim quase um documentário. Tudo é contado sob a ótica de David, que é surpreendido pelos fatos como se nós mesmos estivéssemos envolvidos por aquelas situações.

O personagem de David também nos fornece alguns elementos interessantes da vida típica dos nossos dias. Aos 24 anos, o jovem não tem exatamente uma vida segura. Como tantos outros jovens europeus – e de outras partes do mundo – ele não tem um emprego fixo. David vive em um apartamento que não é seu em troca de seu trabalho de administrar um prédio para o seu proprietário. Assim, ele tem que se desdobrar para receber hóspedes e inquilinos e, em troca deste trabalho, ele tem um local para morar.

Algumas vezes, quando é necessário, ele também trabalha para a prefeitura podando árvores. Mas esse trabalho não é regular, então não é algo com o que ele possa contar no seu dia a dia. Além disso, ele vive o seu cotidiano próximo da irmã e da sobrinha e saindo com os amigos. Uma vida bastante normal, por assim dizer, até que um fato chocante acontece e muda as suas perspectivas.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em um dia de folga, Sandrine marca de fazer um encontro com amigos em um parque da cidade e, justamente naquele local e naquele dia, ocorre um ataque terrorista. Ela e várias outras pessoas são mortas, e isso muda a vida de Amanda, de David e de vários outros. Eis outro tema bastante contemporâneo. A partir deste momento, vemos como um ato terrorista tem um efeito devastador e marcante na vida de pessoas comuns.

Muito interessante e potente a forma com que este filme nos mostra o “day after” da tragédia. A cidade está bastante vazia, alguns locais estão fechados para visitação turística mas, no demais, tudo parece seguir “normal”. E isso é o que Amanda nos mostra com muita franqueza. Enquanto a vida de algumas pessoas muda radicalmente, como a da própria Amanda, que nunca mais terá a mãe por perto e não sabe bem com quem ela seguirá vivendo, para a cidade e seus habitantes a vida continua praticamente igual.

Isso nos mostra a particularidade dos acontecimentos. No nosso microcosmo particular, tudo pode mudar, enquanto no resto do mundo, do país, da cidade e até da sua rua tudo pode continuar praticamente igual. Chama a atenção, nesse filme, como muitas vezes os locais estão vazios. Seria uma reflexão sobre a vida normal na cidade extremamente turística de Paris ou uma forma do diretor simbolizar para o vazio das cidades e como a vida realmente acontece no interior das famílias?

Independente da resposta que esta produção desperte em você, algo é fato: Amanda nos mostra como a vida continua e como é sempre possível sorrir e ser grato à vida como a menina que dá nome a este filme nos ensina. Na sua inocência, delicadeza e franqueza, Amanda acaba não falando da mãe que perdeu e de tudo que mudou na sua vida, mas sempre tem um sorriso para dar ao cumprimentar uma pessoa. Ela está aberta ao que lhe acontece e segue adiante, mesmo sem saber todas as respostas. Inspirador, não é mesmo?

Quem dera que a gente preservasse esse olhar de Amanda por grande parte da nossa vida. Quando viramos adultos, temos muitas responsabilidades, contas para pagar, tarefas que fazer… e nos esquecemos de algumas das emoções e dos olhares mais importantes. Esse filme nos ensina que sim, é importante amadurecer (vide David e suas escolhas), mas que é fundamental também preservar o olhar e os sentimentos de quando éramos crianças (vide Amanda).

A vida acontece enquanto fazemos planos… quanto antes nos damos conta disso, menos acreditaremos na ilusão de que temos tudo sob o nosso controle. Importante sim fazer planos, sonhar, buscar realizar esses planos e sonhos, mas é preciso saber que muito pode acontecer no caminho e que precisamos nos adaptar às mudanças. Como Darwin já nos ensinou há muito tempo, sobrevivem os que conseguem se adaptar. Amanda nos conta muito bem sobre isso, de forma franca, sincera e direta. Um belo filme.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme com poucos personagens no centro da trama e atores muito competentes em cena. A produção dirigida com delicadeza e atenção aos detalhes por Mikhaël Hers nos mostra, mais uma vez, que não é preciso pirotecnia ou muitos personagens para contar uma bela história. Se você quer se aproximar das pessoas, dos seus sentimentos e de sua vida, não pode olhar para muitos lados ao mesmo tempo, mas manter o foco em uma ou duas pessoas por vez. Esse olhar atento e próximo faz parte do DNA de Amanda.

Gostei da direção de Mikhaël Hers e do roteiro que ele escreveu junto com Maud Ameline. Eles conseguiram um texto e uma condução muito verdadeiros, como se estivessem acompanhando uma história real e capturando os seus fatos. Um trabalho como este não pode ser feito “sob encomenda” ou de forma paralela a vários outros roteiros. Certamente eles se debruçaram nesta história e a lapidaram até que ela tivesse o tom verdadeiro que vemos em cena. Um presente para quem gosta de uma boa história e simpatiza com o cinema francês.

Como comentei antes, Amanda é focado em poucos personagens. Assim, impossível escapar de um belo trabalho como intérprete. Grande parte do filme está focado em David e Amanda. Assim, sem dúvida alguma, os atores Vincent Lacoste e Isaure Multrier são o destaque da produção. Especialmente a menina, que é realmente encantadora e que garante muita legitimidade para a produção. Lacoste também se sai muito bem nisso.

Além dos dois, merecem destaque, neste comentário, os atores Stacy Martin, que interpreta a Léna, uma inquilina que é recepcionada por David e que acaba se relacionando com ele; Ophélia Kolb como Sandrine Sorel, uma atriz também inspirada e que, infelizmente, por causa da história, acaba aparecendo menos em cena do que gostaríamos; Marianne Basler como Maud Sorel, tia de David; Jonathan Cohen como Axel, amigo de David que também é atingido no parque; Nabiha Akkari como Raja, companheira de Axel; Greta Scacchi como Alison, mãe de David e Sandrine.

Fazem pontas na produção os atores Bakary Sangaré, diretor do orfanato/casa de abrigo que é visitado por David; Claire Tran como Lydia, amiga de David e de Sandrine que volta para Paris sem saber do que aconteceu; Elli Medeiros como Eve, mãe de Léna; Zoé Bruenau como a assistente social que orienta David após a perda da irmã; e Lily Bensliman como a repórter que tenta fazer uma reportagem sobre o perfil das vítimas e encontra David em um café.

A história de Léna e de David tem o seu toque de complicação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vejamos. Léna só estava no parque porque conheceu David e porque ele a convidou para estar na confraternização com a irmã. Assim, ela quase morreu por ter conhecido ele, indiretamente. Abalada com o atentado – e como não estar? – ela acaba voltando para a casa da mãe. Percebe-se que ela não sabe lidar muito bem com o que aconteceu e com a relação que tem com David. Mas como o tempo ajuda a curar tudo e como David procura por ela, eles voltam a se reaproximar. Gostei da forma com que a história deles foi conduzida.

Entre os elementos técnicos da produção, destaque para a sensível e bastante presente trilha sonora de Anton Sanko, para a direção de fotografia de Sébastien Buchmann e para a edição de Marion Monnier. Também vale comentar o design de produção de Charlotte de Cadeville e os figurinos de Caroline Spieth.

Amanda estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou de festivais em Bordeaux, Tokyo, no Canadá e na Polônia. Em sua trajetória, Amanda ganhou três prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme e Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Tokyo e o Magic Lantern Award no Festival de Cinema de Veneza.

O diretor francês Mikhaël Hers estreou na direção em 2006 com o curta Charell. Depois, ele dirigiu mais dois curtas antes de estrear na direção de longas com Memory Lane, em 2010. Antes de Amanda, ele dirigiu a outro longa, Ce Sentiment de L’Été, lançado em 2015. Pelos outros longas, ele foi indicado a prêmios, mas os primeiros prêmios que recebeu foram dados por seu trabalho com Amanda. Um diretor jovem, de 44 anos, que merece ser acompanhado. Pode render ainda belas produções.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas. Como não há críticas negativas no site, Amanda conseguiu, por enquanto, uma aprovação de 100% no Rotten Tomatoes – e uma nota média de 6,75.

Amanda é um filme 100% francês.

CONCLUSÃO: Um filme que nem parece uma produção de cinema. Amanda lembra mais a um documentário, apesar de ser uma obra de ficção. Mérito, especialmente, dos roteiristas e do diretor Mikhaël Hers, que contam essa história com muita franqueza e com um olhar cuidadoso e sem pressa. A história é forte e faz pensar. Sobre a vida, a morte, a família, a necessidade que todos nós temos de nos adaptarmos e de seguirmos adiantes. Um filme singelo mas muito bacana e sensível. Um trabalho muito bem conduzido por todos, com destaque para os atores principais. Mais um belo exemplar do sempre diferenciado cinema francês. Vale ser visto.

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Il Racconto Dei Racconti – Tale of Tales – O Conto dos Contos

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Você deve sempre cuidar com o que você deseja. Essa parece ser a máxima ou a “moral da história” de diversos contos escritos em diferentes épocas da História. E esse parece ser o cerne do filme Il Racconto Dei Racconti. Esta é uma superprodução, com locações e paisagens fantásticas, figurinos deslumbrantes e um elenco de atores conhecidos. Pena que a história em si – na verdade, pelo menos três histórias centrais em um filme – não seja tão interessante ou envolvente assim. Lá pelas tantas você continua vendo o filme não porque ele esteja muito interessante, mas essencialmente porque ele é belo.

A HISTÓRIA: Um artista anda por uma rua de chão batido. Ele olha a movimentação da cidade e outros artistas que se preparam para uma apresentação para o rei e a rainha. Dentro do palácio, todos riem da graça dos artistas, menos a Rainha de Longtrellis (Salma Hayek). Séria, ela fica desconcertada quando vê que uma das artistas está grávida. O Rei de Longtrellis (John C. Reilly) corre logo atrás dela para pedir perdão, dizendo que ele não sabia que a mulher estava grávida. A rainha sempre quis ter um filho, mas nunca conseguiu engravidar. Isso muda quando um Necromancer (Franco Pistoni) visita o rei e a rainha e lhes ensina uma fórmula para que a rainha concretize o seu desejo. A partir daí, três histórias se desenvolvem no filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Il Racconto Dei Racconti): Para quem gosta de “conto de fadas” com requintes de crueldade este é um prato cheio. Francamente eu não sabia o que esperar deste filme e, como faço normalmente, não tinha lido nada a respeito antes de assistir a esse filme. Por isso, não sabia que se tratava de “contos de fada” com inspiração em “Contos da Cripta”. 😉

Claro que estou exagerando. Il Racconto Dei Racconti não chega a ser tão macabro ou sinistro quanto o seriado Contos da Cripta, mas ele tem, de fato, muitos momentos sinistros e de estranheza. Basicamente, o filme com roteiro de Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso, baseado no livro de Giambattista Basile, tem como foco três reinados diferentes.

O primeiro e, acredito, o de maior destaque é o que abre o filme, centrado no reinado de Longtrellis. O desejo da rainha em ter um filho leva ela e o marido até as últimas consequências. Depois, temos o Rei de Highhills (Toby Jones), uma figura um tanto estranha que se deixa encantar por uma pulga e que acaba entregando a filha Violet (Bebe Cave) para um Ogro (Guillaume Delaunay). Finalmente, temos o Rei de Strongcliff (Vincent Cassel), um mulherengo que acaba ficando fascinado por uma mulher idosa que, por interferência de uma Bruxa (Kathryn Hunter) acaba rejuvenescendo e se transformando em rainha.

Para quem gosta do gênero fantasia e não se importa muito com a história ser boa ou apenas mediana, este pode ser um bom filme. Da minha parte, normalmente gosto de histórias com mais “substância”, por assim dizer. O que eu vejo em comum entre as três histórias apresentadas por Il Racconto Dei Racconti é a força do desejo e as suas consequências. O ponto positivo desta produção, como comentei no início e na conclusão, sem dúvida alguma é o visual do filme dirigido por Matteo Garrone. As paisagens e os castelos são maravilhosos, assim como os figurinos e a maquiagem. O visual é o ponto forte. Mas o roteiro deixa a desejar.

Falando em desejo, a Rainha de Longtrellis faz de tudo para ter um filho. Ele acaba nascendo com um tipo de “irmão gêmeo da magia”, filho da virgem (Laura Pizzirani) que cozinhou o coração da besta do mar para a rainha comer. Elias (Christian Lees), o filho da rainha, não consegue ficar longe de Jonah (Jonah Lees), mas a rainha não quer dividir o amor do filho e não aceita essa aproximação. Claro que isso não pode terminar bem, não é? A moral da história, para mim, deste conto no filme, é que o amor extremado nos leva à tragédia, e que o amor de mãe realmente pode ser superior a qualquer outro. O exagero, de qualquer forma, nunca é positivo.

No caso da história dos Longtrellis, todos poderiam ser “felizes” e se darem bem se a Rainha não tivesse aquela obsessão por ser a “dona” do filho. Ela queria sempre demonstrar que o seu amor era maior que o dos outros e isso, claro, não poderia levar eles para um lugar muito bacana. Para começar, eu já achava a concordância do rei e da rainha para ter um filho por vias sinistras algo que não poderia acabar bem. Afinal, um Necromancer jamais trataria a vida sem ter a morte como fator inerente – e quem mais deveria morrer para sanar aquele cálculo macabro? Enfim, o desejo pode levar as pessoas a alternativas realmente sombrias.

O segundo conto, do Rei de Highhills, avança no segmento sinistro, mas com um pouco mais de humor. Muito centrado em si mesmo, o Rei dava mais atenção para os seus próprios desejos e curiosidades do que para a filha. Prova disso é quando Violet faz um belo concerto e o pai dela está mais preocupado com o “controle” que acredita ter com uma pulga que, depois, ele pega como seu “animal” de estimação. Sinistro. Como em outros contos, o Rei faz um concurso para encontrar o marido para a filha e ela acaba caindo nos braços de um ogro.

Aqui talvez esteja a parte mais interessante do filme. Depois de ser entregue para o ogro e virar prisioneira dele em uma caverna no topo de uma montanha, Violet pede ajuda para uma artista circense. No dia seguinte ela volta com o marido e os dois filhos – que, curiosamente, aparecem nas cenas iniciais do filme – para ajudar Violet. Mesmo eles conseguindo escapar e derrubar o ogro da montanha, ele volta para perseguir a sua “propriedade”.

Achei interessante o desfecho desta história porque ele demonstra a “força da mulher”. Mas, novamente, aqui refletimos sobre o desejo de Violet em ter um marido – com um pai “cabeça de vento” como o que ela tinha, esse desejo custou caro para a moça que realmente poderia ter sido feliz de outra forma.

Finalmente, temos a história do Rei de Strongcliff, um fanfarrão que vive entre prostitutas e cortesãs e que acaba sendo enganado por duas irmãs que lembram a história de Elias e Jonah (elas também seria fruto de uma magia de um Necromancer? Isso não fica claro, mas sugerido). Com o tempo das batalhas no passado, o Rei fica fascinado pela voz de uma garota que ele acha que é jovem e que pode ser conquistada por ele – os jogos amorosos são a sua última “batalha” interessante.

As irmãs Dora (Hayley Carmichael) e Imma (Shirley Henderson) acabam enrolando o rei. Especialmente Dora, que fica encantada com a joia que recebe do rei e sonha com as maravilhas que ela pode ter dentro do palácio. Com a ajuda da irmã ela tenta enganar o rei e acaba sendo jogada para fora pela janela, literalmente. Mas uma bruxa encontra ela na floresta e cumpre o seu desejo de tornar-se jovem novamente (fase interpretada por Stacy Martin).

A história das duas irmãs sem dúvida é a mais mal acabada do filme. Dora consegue o que quer, tornar-se rainha, mas por um certo período de tempo. Enquanto isso a irmã Imma, que a exemplo de Elias e Jonah não quer ficar longe de Dora, vai até as últimas consequências para se tornar jovem novamente e ficar perto de Dora. Mas depois de buscar a sua própria saída, o espectador não fica sabendo o que aconteceu com ela – depois que ela sobe a escadaria, não sabemos se ela morreu, foi barrada antes de entrar no palácio, ou qualquer outra saída possível. Uma falha do filme, pois, deixar a história dela inacabada.

Novamente a questão do desejo, desta vez de Dora em se tornar rainha, não termina bem. Porque ela usa de um artifício mentiroso para chegar até ele. Imma também se dá mal ao tentar rejuvenescer. Como diversos “contos de fadas”, Il Racconto Dei Racconti tenta ensinar que a mentira e a busca dos próprios desejos não importa sob que condições nunca podem terminar bem. Tem a sua validade, mas acho que pode interessar mais para um público jovem. Como já tenho uma certa bagagem de cinema, achei apenas mediano. Tecnicamente, muito bem realizado. Mas a história é fraquinha.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme que se destaca pela parte técnica – e pelas interpretações dos atores também. Isso porque, como dito antes, o ponto fraco da produção é o roteiro. Da parte técnica, sem dúvida alguma direção de fotografia de Peter Suschitzky é o ponto mais forte. Belíssimo trabalho, muito, mas muito ajudado pelas locações belíssimas. Sem dúvida alguma este filme é mais um estímulo para alguém fazer turismo na Itália. 😉

Se você ficou, como eu, interessado(a) em saber em que locais Il Racconto Dei Racconti foi filmado, segue a lista de locações: Castelo del Monte, em Andria, na Apulia; Castelo Donnafugata, em Ragusa, na Sicília; Castelo Roccascalegna, em Roccascalegna, em Abruzzo; Palácio Vecchio, em Florence, na Toscana; além de locais em Sovana, Gioia del Colle, Statte, Mottola, Sorano e Reggello, todos na Itália.

Como este é um filme de fantasia, além da direção de fotografia belíssima de Suschitzky, um ponto forte também é a trilha sonora do veterano e premiado Alexandre Desplat. Também merece uma menção especial e aplausos os figurinos assinados por Massimo Cantini Parrini. Fabulosos. A direção de Garrone é competente, sempre valorizando os pontos fortes do filme – locações e atores. A edição de Marco Spoletini; o design de produção de Dimitri Capuani; a direção de arte de Marco Furbatto, Massimo Pauletto e Gianpaolo Rifino; e a decoração de set de Alessia Anfuso também são muito importantes para dar o ritmo da história e torná-la bem ambientada.

A maquiagem também é um ponto fundamental desta história. Um grupo de 14 profissionais coordenados por Novella Borghi, Biasi Pierangela, Diego Prestopino e Gino Tamagnini tiveram trabalho nesta produção. Muitos detalhes para tornar os personagens com as características que eles deveriam ter. Um bom trabalho.

Il Racconto Dei Racconti estreou em maio de 2015 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de outros 21 festivais. Nesta trajetória ele acumulou cinco prêmios e sete indicações. No Prêmio David di Donatello ele recebeu os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Figurino; e do Italian National Syndicate of Film Journalists ele recebeu os prêmios de Melhor Design de Produção, Melhor Figurino e Melhor Som.

Como o espectador pode perceber, esta é uma superprodução. Por isso mesmo ela custou cerca de 12 milhões de euros. Nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 52 mil – uma quantidade irrisória. Na Itália o filme acumulou cerca de 2,95 milhões de euros. Ainda assim, bem distante do custo inicial. Até agora, ele deu um belo prejuízo para os realizadores.

Apesar de ser todo falado em inglês – a razão, imagino, seria o elenco internacional, e o foco global da produção -, este filme é uma coprodução da Itália, da França e do Reino Unido. Pelo resultado nas bilheterias que eu citei anteriormente, sem dúvida alguma ele não conseguiu ter a visibilidade entre os filmes de fantasia desejada pelos produtores.

Agora, as tradicionais curiosidades sobre o filme. Ele é baseado no Pentamerone (ou “A Tale of Tales, or Entertainment for Little Ones”), uma coleção de contos escritos no século 17 pelo cortesão e poeta italiano Giambattista Basile.

Este é o primeiro filme falado em inglês do diretor italiano Matteo Garrone. O diretor, aliás, teve que ser inventivo nesta produção. A cena da luta entre o Rei de Longtrellis e o dragão marinho era para ter sido mais dinâmica, mas ele teve que recorrer a outros recursos, como a visão que o rei tinha do fundo do mar, porque o dragão, que foi construído em tamanho real e não é computação gráfica, acabou sendo avariado pelo filho do diretor e alguns amigos quando eles brincavam com o “bichano” em um intervalo das filmagens. Pelo visto eles não tiveram tempo para consertá-lo. 😉 E falando em “monstros” e/ou bichos que aparecem em cena, achei eles bastante toscos… me lembraram um pouco os filmes antigos que tinham essas figuras estranhas.

O italiano Matteo Garrone tem 13 títulos como diretor no currículo, incluindo longas, documentários e curtas. Acredito que o filme mais conhecido dele tenha sido Gomorra (comentado aqui no blog) – ele foi, pelo menos, o único que assisti dele até ver Il Racconto Dei Racconti. O diretor é bem premiado, com 30 prêmios no currículo e outras 41 indicações. Vale acompanhá-lo, pois, e ver o que mais ele entregará a partir de agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção. Bastante ajustada, eu achei, até levando em conta o padrão do site. Eu só dei a nota acima porque gostei muito, realmente, da direção de fotografia, figurinos e das locações. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 47 textos positivos e apenas 12 negativos para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,9.

Para não dizer que eu não falei dos atores, achei a escolha do elenco muito boa. Pena que John C. Reilly apareça tão pouco na produção. Os demais estão bem, sem nenhum grande destaque. Talvez os melhores trabalhos sejam de Salma Hayek e das revelações – ao menos para mim – Christian e Jonah Lees e Bebe Cave. Gostei deles.

CONCLUSÃO: Um filme de fantasia focado em três histórias centrais envolvendo reis, rainhas, príncipes e princesas. O melhor de Il Racconto Dei Racconti é o seu visual, a reconstrução de época, as paisagens, direção de fotografia e figurinos. As histórias em si, bastante parecidas com os contos que escutávamos quando éramos crianças. Nada demais. Como aconteceu recentemente com a revisão dos contos como histórias um tanto cruéis e sombrias, aqui também temos também uma carga macabra e violenta bastante presente. Quase uma história de terror ambientada em época medieval. É interessante, mas não é nem um pouco imprescindível. Se tiveres opção melhor para assistir, opte por ela.