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You Were Never Really Here – Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Conhecemos os “monstros” apenas pelo que falam sobre eles. Mas dificilmente conhecemos as suas histórias, famílias, sacrifícios e “preparativos” para que eles consigam fazer o que fazem. You Were Never Really Here fala de mais de um tipo de monstro, mas sempre aproximando as câmeras (e, por consequência, os espectadores) por uma ótica com a qual não estamos acostumados. É um filme que faz pensar, inclusive sobre o que achamos dessa história, no final das contas. Eu gostei, mas é inevitável ficar com um certo “gosto amargo” no final.

A HISTÓRIA: Contagem regressiva e palavras de repressão. A necessidade de fazer melhor. Escuro e algumas pequenas luzes aqui e ali. Alguém respira com esforço com um saco plástico na cabeça. A lembrança de um garoto que diz que precisa fazer melhor. A foto de uma garota e a voz em um rádio. A foto é queimada e jogada em uma lata de lixo. Em seguida, ela é acompanhada por uma Bíblia.

Diversos preparativos, como o plástico no detector de fumaça, a limpeza do martelo ensanguentado e o papel com o sangue jogado no vaso sanitário. O quarto é limpo, e só depois Joe (Joaquin Phoenix) sai do local cuidando para não ser visto. Ele está envolvido com histórias de violência, mas só com o tempo vamos descobrir qual é o papel dele nesse contexto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a You Were Never Really Here): Não sei para vocês, mas para mim este ano está passando de forma extremamente rápida. Eu não consegui ver a todos os filmes que eu queria, nem no cinema, nem em casa. Não consegui, por exemplo, voltar no tempo para ver os clássicos – mas pretendo fazer isso em breve.

Refletindo sobre os filmes que eu perdi em 2018, até o momento, resolvi dar uma olhada nas listas que diversos sites especializados – especialmente os estrangeiros – fazem sobre os melhores filme do ano “até aqui”. Cruzando essas listas, cheguei a alguns títulos que “me escaparam”. E foi aí que eu cheguei nesse You Were Never Really Here.

Não vou mentir para vocês. Esse filme é diferenciado. Pela forma, com uma narrativa pouco afeita à explicações e mais centrada em mostrar os fatos e os sentimentos dos personagens – assim como as suas lembranças -, e pelo conteúdo. O nosso protagonista não é nenhum herói. Não é um justiceiro. É um sujeito que está mais para sobrevivente do que para herói.

No final das contas, quem é o Joe que vemos em cena? (SPOILER – não leia esse trecho se você ainda não assistiu ao filme). Ele é o filho único (parece, ao menos) de uma senhora idosa, matador de aluguel especializado em localizar e resgatar garotas sequestradas e/ou desaparecidas e que, por tudo que é sugerido nessa história, também passou por abusos na infância. Ou seja, temos em cena um personagem complexo e que, geralmente, é encarado como um “monstro” pela frieza com que ele mata as pessoas.

Para fazer o que ele faz, Joe se prepara de forma constante. Treina para enfrentar a dor e a asfixia. Parece, mesmo nos momentos mais “calmos” e em casa, ter um certo “instinto” violento. Vide como ele lida com a mãe idosa e que tem as suas próprias dificuldades e dilemas para enfrentar. Achei muito interessante como a diretora e roteirista Lynne Ramsay encara esse personagem controverso.

Começamos a acompanhá-lo sem saber exatamente quem temos na nossa frente. O espectador de You Were Never Really Here fica um bom tempo perdido, apenas observando, até que a história se desenrola o suficiente para sabermos um pouco mais sobre aquele sujeito. E algo importante desse filme: Lynne Ramsay nos mostra apenas o necessário sobre o personagem. Ele não é dissecado ou explicado. E isso é uma das razões que fazem esse filme provocar um certo “desconforto”. Falarei mais sobre isso adiante.

No início da produção, cheguei a pensar que ele poderia ser um estuprador, pedófilo e/ou assassino comum. Um cara violento que tem “vida dupla”: cuida da mãe idosa, quando está em casa, mas viaja para dar vasão para os seus instintos sexuais e violentos. Essa foi a dúvida inicial desta produção. Mas, conforme a história avança, entendemos qual é o papel verdadeiro do personagem.

No final das contas, ele é apenas o “peão” de John McCleary (John Doman), um sujeito que é procurado pelas pessoas que tem dinheiro – muito delas, poderosas – e que precisam de alguém que as ajude a recuperar as suas filhas ou filhos sequestrados, fujões e toda a diversidade de variáveis entre esses dois extremos. Joe se especializou em procurar essas pessoas e em acabar com os envolvidos nesses “desvios” dos filhos de alguém que pode pagar pelo resgate.

Ele próprio é filho, e viu a mãe sofrer nas mãos do pai. Agora, ele procura os filhos de outras pessoas para resgatá-los. Ele mesmo, talvez, precisasse ter sido resgatado. Mas ninguém fez isso por ele. You Were Never Really Here cria angústia porque nos mostra o dia a dia desse “monstro”. Acompanhamos as suas angústias, a sua forma de encarar o cotidiano e, dentro disso, os seus preparativos para enfrentar a dor – como passar por sessões de asfixia. Também acompanhamos as suas lembranças fragmentadas. Nada ali é simples, ou fácil. Existe dor e existe angústia.

Por tudo isso, não vou mentir para vocês: fiquei um bom tempo pensando sobre o que eu tinha achado sobre esse filme. You Were Never Really Here não é uma produção simples. Por ser complexa e por nos fazer pensar em muitos pontos e sentir um bocado de angústia, essa produção não é simples de analisar. Mas, talvez por tudo isso, ela seja tão interessante. Inicialmente, eu não a colocaria entre as melhores do ano. Mas pela proposta diferenciada que ela apresenta, talvez ela até esteja nessa lista, realmente.

Por jogar luzes nos tipos de personagens diferenciados focados nessa produção, pela narrativa fragmentada – que mistura linearidade e também fragmentos de memória e sentimentos -, pela ótima atuação de Joaquin Phoenix e por detalhes como a excelente trilha sonora, You Were Never Really Here revela-se uma produção diferenciada. Não é nada comum encontrar um filme que foca pela perspectiva do personagem um sujeito “maldito” como Joe.

Como eu disse lá no princípio, sabemos que pessoas extremamente machucadas e violentas como o protagonista deste filme existem, mas poucas vezes paramos para pensar em como é o dia a dia dessas pessoas. You Were Never Really Here também ajuda a desmontar um pouco a ideia que temos do “monstro” – afinal, pelo que ele passou para chegar até ali? Que elementos fizeram ele se moldar e construir daquela forma? A que “propósito” ele serve e que tipo de papéis ele desempenha? Ele é apenas um monstro ou também alguém capaz de bons gestos?

Tudo isso é muito complexo, e essa complexidade vemos em cena nesse filme. Tanto é verdade que o caso central dessa história, o resgate da filha do senador Albert Votto (Alex Manette), também se revela mais complexo do que inicialmente ele parecia ser. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nada fica totalmente explicitado, mas tudo indica, pela narrativa de Lynne Ramsay, que o pai “concordou” – até um certo momento – na garota ser explorada sexualmente por diversas pessoas poderosas (do governador Williams, interpretado por Alessandro Nivola, até outros homens).

O quanto o pai da garota estava envolvido nos abusos que ela sofreu, nunca saberemos – o filme sugere muitos elementos, mas não deixa todos os pormenores claros. Mas algo é fato: o senador não era um pai apenas “preocupado” com a filha e inocente na história. Existiam muitos interesses envolvidos no “sequestro” de Nina Votto (Ekaterina Samsonov).

Tanto é verdade que Joe passa a ser perseguido, inclusive por agentes corruptos. Ele consegue, por todo o preparo que tinha, escapar vivo, e ainda manter Nina a salvo mesmo não tendo mais o “compromisso” – ao menos do contratante – para fazer isso. Para ele, a resolução daquele caso passa a ser uma questão de honra porque ele reconhece a si mesmo na garota. Ambos passaram por abusos e por violência ainda muito jovens. São inocentes que nunca mais serão os mesmos porque tiveram essa inocência roubada.

Claro, alguém vai dizer: “Mas nada justifica o que Joe faz. Matar tantas pessoas com sangue frio e violência”. Não estou justificando o que ele faz, mas apenas observando o que a narrativa de You Were Never Really Here nos apresenta. Pessoas submetidas a determinadas situações na vida não podem sair incólumes de tudo aquilo. Marcas, cicatrizes, feridas que nunca cicatrizam… tudo isso cobrará um preço e terá as suas consequências. Apesar disso, as pessoas não são apenas um personagem. Ninguém é liso como uma tábua. Somos mais complexos do que gostaríamos de admitir, muitas vezes.

A beleza desse filme é justamente essa. Nos mostrar que a vida é mais complexa do que parece. Até procuramos simplificá-la, muitas vezes. Mas sim, a complexidade faz parte do dia a dia. Esse filme é duro. Mostra pessoas e cenários que nem sempre estamos dispostos a encarar. Mas, justamente por focar isso de forma tão franca, You Were Never Really Here se revela diferenciado e interessante. Não é fácil, não é simples, e cria um bocado de desconforto. Mas é uma experiência interessante de cinema.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que eu não estou bem certa, ainda, sobre o que eu penso sobre esse filme e sobre tudo o que eu escrevi por aqui. E esse indicador já mostra como You Were Never Really Here é interessante. Normalmente, um filme me faz pensar de forma clara depois que ele termina e/ou me faz experimentar determinados sentimentos enquanto eu o estou assistindo. Mas nada disso se revela tão complexo, no final das contas.

Não foi isso que aconteceu com esta produção. Ela é complexa sim, e bem acima da média nesse quesito. O que é interessante e exige mais do espectador. Exigiu mais de mim. Até agora estou na dúvida sobre o que eu vi, senti e pensei. Poucos filmes me provocaram isso.

Com You Were Never Really Here eu começo a focar na lista de produções que muitos críticos e publicações relacionaram como as melhores do ano até julho. Esse filme apareceu em várias listas, por isso comecei com ele. Mas vou focar em outros também – e vou sinalizando sempre quais são essas produções bem elogiadas pelos especialistas na área.

Algo que me chamou a atenção nesse filme logo no início: a excelente e importantíssima trilha sonora de Jonny Greenwood. O trabalho dele é um dos diferenciais e um dos personagens de You Were Never Really Here. A trilha sonora do filme, bastante pontual, ajuda a criar os sentimentos e o incômodo que esse filme desperta.

Além da trilha sonora, merece aplausos a direção de fotografia de Thomas Townend. Outro elemento feito com esmero e que casa muito bem com as exigências da detalhista diretora Lynne Ramsay. O roteiro dela, bastante focado no protagonista, suas ideias, sentimentos e cotidiano, também merece aplausos. Algo que You Were Never Really Here apresenta é uma narrativa diferenciada, nada preocupada com a expectativa do público acostumado com narrativas simplistas dos “blockbusters”.

Lynne Ramsay nos apresenta um filme com uma marca própria e com muita personalidade. Apesar de muito violento, You Were Never Really Here também é belo. Mais uma “contradição” que reforça como este filme aborda a complexidade da vida, dos fatos e do ser humano. Vale lembrar que Lynne Ramsay escreveu esse roteiro baseada no livro de Jonatham Ames – fiquei curiosa, aliás, para ler essa obra. Deve ser muito interessante.

Como diretora, Lynne Ramsay tem apenas oito trabalhos, sendo três deles curtas. Ela estrou na direção de longas em 1999, com Ratcatcher. Depois, lembro dela ter ficado conhecida por We Need to Talk About Kevin, de 2011. Muitos falaram daquele filme, mas eu acabei “perdendo” ele em meio às outras produções lançadas naquele ano. Depois de We Need to Talk About Kevin, You Were Never Really Here é o primeiro longa da diretora. Gostei do que eu vi aqui, ainda que eu achei o filme um tanto “hermético” demais para o meu gosto. Mas ele é bom.

Os grandes destaques técnicos desta produção são a trilha sonora, a direção e a direção de fotografia, todas já mencionadas. Mas vale destacar, ainda, o ótimo trabalho feito pelos 23 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – outro elemento bastante importante para o filme; a ótima edição de Joe Bini; e o design de produção de Tim Grimes; a direção de arte de Eric Dean e a decoração de set de Kendall Anderson.

You Were Never Really Here estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, o filme participou de outros 18 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros nove. You Were Never Really Here ganhou os prêmios de Melhor Ator para Joaquim Phoenix e de Melhor Roteiro para Lynne Ramsay no Festival de Cinema de Cannes; o de Melhor Ator para Joaquim Phoenix no Film Club’s The Lost Weekend; o de Melhor Filme não lançado em 2017 e o de Melhor Diretora para Lynne Ramsay no International Cinephile Society Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. You Were Never Really Here foi inscrito no Festival de Cannes quando ainda não estava finalizado. A produção foi concluída apenas alguns dias antes do festival estrear, e a diretora Lynne Ramsay disse que ele foi exibido no evento em uma versão inacabada. Mesmo assim, ele venceu em duas categorias. Interessante.

Em uma entrevista para a Rolling Stone, Joaquim Phoenix disse que a diretora Lynne Ramsay deu para ele ouvir um áudio que misturava fogos de artifício com tiros para exemplificar para o ator o que se passava na cabeça de Joe.

Na obra que originou esse filme, o personagem Joe utiliza muitos “adereços”, como luvas de látex e gadgets. A diretora Lynne Ramsay revelou que foi o ator Joaquim Phoenix quem sugeriu que eles se livrassem desses “adereços” para que o personagem parecesse mais autêntico.

Na estreia em Cannes, You Were Never Really Here chegou a ser aplaudido durante sete minutos após a sua exibição.

O título do filme é explicado no livro original pelas habilidades de Joe. Ele emprega as habilidades adquiridas em sua experiência anterior no FBI e como militar para nunca deixar vestígios nas suas “novas missões”. Entre outras estratégias, ele utiliza identidades falsas, luvas cirúrgicas e esconde o rosto das câmeras para simular essa ideia de que ele “nunca esteve” em um determinado local.

Falando no personagem de Joaquim Phoenix, sem dúvida alguma o ator é o centro das atenções e um dos destaques desta produção. E não poderia ser para menos, já que toda a história orbita em torno de seu personagem. Phoenix faz um trabalho excepcional – quem sabe, digno de uma indicação ao Oscar? Ainda é cedo para saber, porque falta assistir a muita gente ainda. Mas ele está, de fato, muito bem nesse filme.

Além dele, vale contar outros trabalhos secundários, como Ekaterina Samsonov como Nina Votto; John Doman como John McCleary; Frank Pando como Angel, um dos pontos de “pagamento” dos trabalhos de Joe; Judith Roberts ótima como a mãe de Joe; Vinicius Damasceno em uma super ponta como Moises, o filho de Angel que acaba vendo Joe em um local em que ele não deveria e que coloca fim na “parceria” de Joe com Angel; Dante Pereira-Olson como Joe quando criança; Alex Manette em uma ponta também como o senador Albert Votto; Scott Price como o matador de aluguel que morre na cozinha de Joe; e Alessandro Nivola em uma super ponta como o senador Williams – ele literalmente entra mudo e sai calado do filme.

Mudou um pouco a minha leitura sobre esse filme depois que escrevi a crítica acima e fui procurar mais informações sobre You Were Never Really Here. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como eu não li a obra que deu origem a esse filme, só lendo a respeito da produção é que fiquei sabendo que Joe era um veterano de guerra – a cena que vemos de um garoto sendo morto foi no Afeganistão – e que ele chegou a trabalhar no FBI. Ou seja, possivelmente fatos traumáticos dele como veterano pesaram mais para a formação da personalidade dele do que o pai abusivo. Também fiquei na dúvida a respeito dele ter sido abusado sexualmente – talvez as cicatrizes dele tivessem mais a ver com torturas, preparativos para a guerra e tudo o mais do que para a questão de abuso sexual. Isso realmente dá uma outra perspectiva para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 25 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 8,1. Especialmente a opinião dos críticos chama a atenção – não é fácil um filme receber uma nota tão alta no Rotten Tomatoes.

O mesmo podemos falar sobre a avaliação de You Were Never Really Here no site Metacritic. O filme apresenta o “metascore” 84 e o selo de “Must-see”, ou seja, a recomendação de que ele deve ser visto. Esse metascore é fruto de 38 críticas positivas e de três medianas. Alguns críticos de sites conhecidos, como Variety, RogerEbert.com e Time deram a nota máxima para o filme.

De acordo com o site Box Office Mojo, You Were Never Really Here faturou US$ 2,53 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, o que demonstra como esse filme repercutiu mais nos festivais e entre os críticos do que entre o público. É um filme alternativo e de “nicho”, certamente.

You Were Never Really Here é uma coprodução do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Difícil pensar nessa produção e não lembrar do título “Os Brutos Também Amam”. Nem tanto pelas produções serem próximas, mas porque este You Were Never Really Here tem um protagonista que pode ser considerado “bruto”, mas não insensível. Pessoas machucadas, feridas e traumatizadas podem se encontrar e se ajudar nas mais diferentes (e inusitadas) situações.

A beleza desse filme talvez seja colocar luz sobre essas histórias e mostrar, mesmo em meio à tanta violência e dor, que há sim uma saída para todos. Um filme com uma narrativa diferenciada e bons atores, que só peca um pouco por nos “requentar” uma história conhecida. A novidade está realmente na ótica da narrativa, que passa para o lado de um personagem um tanto “maldito” e pouco retratado no cinema. Interessante, provocador e um tanto incômodo. Nem tanto pela forma, neste caso, mas mais pelo conteúdo mesmo. Vale ser visto, mas eu não o colocaria na lista dos grandes filmes deste ano.

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Disobedience – Desobediência

Um dos filmes mais contundentes sobre liberdade de escolha que eu já vi. Disobedience trata, com um bocado de coragem e uma boa dose de espaço para discussão, temas tão importantes e controversos quanto a liberdade individual, a religião, o senso de comunidade, a constituição familiar e a sexualidade. Bem, com todos esses elementos misturados, vocês já podem ter uma ideia da potência desta produção.

Mais um belo trabalho do diretor Sebastián Lelio, que vem se consolidando, pouco a pouco, filme a filme, como um dos nomes mais interessantes do “novo cinema” chileno – e, quem sabe, até mundial. Excelentes interpretações também dos protagonistas. Se você não tem muitas amarras ideológicas – ou uma “religiosidade” exacerbada/extremista -, assista. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Um rabino, Rav Krushka (Anton Lesser), fala para um grupo de homens sobre os seres que foram criados por Deus. Os anjos, que procuram fazer tudo o que Deus deseja; os animais, que seguem apenas os seus desejos; e os homens, que foram criados após seis dias da Criação. Segundo a Torá, comenta Krushka, Deus pegou um punhado de terra e criou o homem e a mulher, os únicos seres que são capazes de desobedecer. Como homens e mulheres tem ao mesmo tempo a clareza dos anjos e o desejo dos animais, Deus deu como um fardo e um privilégio a estes seres o livre-arbítrio, ou seja, o poder de escolher.

Depois de fazer esta pregação, Krushka cai no chão, sendo imediatamente socorrido por Dovid Kuperman (Alessandro Nivola) e por outros homens que estavam ouvindo o que ele falava. Corta. Em outra cidade, Ronit Krushka (Rachel Weisz) faz fotos de um senhor já com certa idade e cheio de tatuagens. Ela insiste nos cliques, esperando pela melhor foto. No meio da sessão, uma garota que faz parte da sua equipe lhe chama para falar com um homem. A fotógrafa para a sessão, sai dali e, na sequência, vemos a várias cenas dela que demonstram como ela parece estar um tanto “perdida”. Em breve, ela voltará para a cidade que deixou para trás para se despedir do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Disobedience): Um filme que começa com a pregação e a reflexão que Disobedience apresenta não pode ser ruim. Sem delongas, o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu o roteiro desse filme ao lado de Rebecca Lenkiewicz, ambos inspirados no livro de Naomi Alderman – nos introduz o tema da liberdade de escolha (ou livre-arbítrio, como alguns gostam de chamar).

Esse tema, evidentemente, é a espinha dorsal desta produção. Mas que ninguém se engane que a narrativa que veremos depois se torna menos potente ou provocativa porque temos esta leve “introdução” nos primeiros minutos do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que seja verdade que o cartaz de Disobedience já entregue parte do “segredo” dessa produção, aquele beijo que vemos no cartaz poderia ser explicado de muitas maneiras diferentes. Então o que veremos depois não perde a potência por causa desse “spoiler”.

Algo que gostei muito no roteiro de Lelio e de Lenkiewicz é que eles sabem, muito, mas muito bem, valorizar as palavras e o silêncio. Ah, como isso faz diferença em um filme! Disobedience tem muitos momentos de silêncio em cena, ou de poucos diálogos ditos em voz baixa. E isso tem um efeito maravilhoso na narrativa. Fora os gemidos de prazer de uma Rachel McAdams em grande momento, não temos nada que “suba o tom” nesta produção. E isso já nos diz muito sobre Disobedience.

Esse filme trata de maneira muito interessante a questão da fé, da família, do contexto em que nascemos e somos criados e das escolhas que fazemos ao longo da nossa vida. Afinal de contas, o quanto as pessoas com muita fé estão realmente dispostas a abrir mão de suas “convicções”, dos dogmas ou da “tradição” da sua religião para encontrar a parte realmente essencial da fé que elas professam – ou delas mesmas?

Isso não é simples, e nem eu e nem Disobedience temos todas as respostas para estas e outras perguntas. Como eu já disse em outras ocasiões aqui no blog, esse espaço não é destinado para discutir a religião ou a fé das pessoas. Não, não. Se você quer fazer isso por aqui, este não é o espaço. Mas por este ser um blog sobre cinema, e por eu falar sobre os filmes conforme eu os vou vendo, inevitável falar sobre estes temas quando eles fazem parte da narrativa da produção comentada.

Além disso, especificamente em Disobedience, não tem como eu falar sobre o filme sem tratar de temas nevrálgicos apresentados pelo roteiro. E as questões citadas antes fazem parte destes temas. Então vamos lá. Disobedience trata de uma comunidade judaica mas, certamente, poderia tratar de várias outras religiões – inclusive as cristãs. A maioria delas, ao menos as que professam um único Deus “criador”, tratam sobre questões essenciais envolvendo esse Deus.

Estas religiões afirmam que Deus criou tudo que existe e que Ele nos deu como maior presente a liberdade de escolha – o tal livre-arbítrio. Não foi abordado muito nesse filme, mas estas mesmas religiões também falam que Deus é misericordioso e amoroso. Essas questões centrais são abordadas em Disobedience, assim como outras leituras sobre o papel do ser humano no mundo – casar e ter filhos – e outras regras que devem ser respeitadas segundo a tradição judaica.

A grande questão levantada por Disobedience é: quais são as questões fundamentais da fé? Será, por exemplo, que a recomendação de que todas as mulheres deveriam se casar com bons homens e ter filhos não vai de encontro à questão da liberdade de escolha? Quantas regras os judeus e os cristãos seguem e que foram “impostas” com o passar do tempo e com as interpretações dos seus respectivos livros sagrados? Na essência, o que realmente importa em uma crença ou em outra?

Se Deus é misericordioso e amoroso, quem é o ser humano para julgar um semelhante? Podemos nos encher de regras e interpretar os livros sagrados como bem entendermos mas, no final, para quem tem fé, não é realmente Deus que irá nos julgar? Então por que não respeitar um de seus melhores – e maiores – presentes para o ser humano, que foi o poder de escolher o seu próprio caminho? Nesse sentido, achei esse filme muito potente.

Agora, claro, Disobedience não é apenas discurso e reflexão. O filme envolve o espectador em um jogo intenso de desejo e de dilemas vividos pelos personagens principais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como eu disse antes, o beijo entre as personagens das duas Rachel poderia ter diversas interpretações e contextos. No início, achamos sim que poderia existir algo entre elas. Mas aos poucos descobrimos que o que existe ali não é “algo”, mas muito.

Esti Kuperman quase enlouqueceu quando Ronit Krushka abandonou a comunidade deles e partiu para Nova York. E agora, que ela conseguiu que Ronit voltasse para se despedir do pai recém-falecido, o desejo pela amiga e “primeiro amor” volta a ser irrefreável. Quando elas finalmente ficam juntas, no filme, eu pensei: “Como Esti vai conseguir viver a sua vida normalmente depois disso?”.

Claro que voltar para a “vida normal” com o marido Dovid era impossível. Gostei muito do roteiro, que inicialmente deixa muitos elementos “no ar” e, depois, nos atropela com os sentimentos das duas protagonistas – especialmente da personagem Esti. As duas Rachel estão de parabéns, assim como o diretor, por nos fazer embarcar na história delas de forma tão intensa. Basta um pouco de empatia para conseguir colocar-se no lugar delas.

O que eu achei muito interessante em Disobedience é que esse filme fala, com todas as letras, que ninguém deveria ser obrigado a ser – ou fingir ser – o que não é. Se Deus realmente nos deu a liberdade da escolha, ninguém mais nos deveria obrigar a nada. Quem, afinal, criou tantas caixinhas para as pessoas entrarem dentro? Isso realmente faz sentido? No fim das contas, nada é mais potente – e difícil – do que ser um “espírito livre”, como diria Nietzsche. Mas nada também é mais prazeroso.

Até perto do final, Disobedience nos fala muito bem sobre isso. Achei muito potentes as trocas entre os três atores principais – e uma das cenas mais fortes da produção é quando Esti fala com Dovid na cozinha. Falar a verdade pode ser duríssimo, mas também é muito libertador. O filme ia muito bem nestas discussões e na forma com que ele abordou a busca de liberdade e de realização de Esti até que os realizadores optaram por aquela reviravolta no final.

Francamente, eu não esperava por aquilo. Verdade que nem sempre as histórias terminam bem, mas a decisão de Esti de ficar não fez muito sentido por tudo que tínhamos visto antes. Ela era muito intensa e estava “perdidamente” apaixonada por Ronit.

Mesmo sabendo da gravidez, pediu pela liberdade para Dovid – alegando, de forma inteligente, que o filho (ou filha) deles deveria nascer em outro local, onde poderia ter a liberdade de ser quem gostaria de ser, diferente dela. E aí, na reta final, aparentemente incentivada pela questão da gravidez, ela decide não partir para ter uma vida com Ronit?

Não sei, para mim esse final foi bastante frustrante. Especialmente porque ele voltou a privilegiar a “família tradicional” e a segurança de Esti criar o seu filho (ou filha) naquela comunidade judaica e não tudo o que ela tinha defendido até então. Pela narrativa que vimos antes, nunca Esti conseguiria ser feliz realmente com Dovid – mesmo ela dormindo no sofá. Ela também não se sentiria plena vivendo naquela comunidade que não daria escolha para o filho (ou filha) dela.

Claro que eu entendo essa “reviravolta” final da produção. Com ela, os roteiristas quiseram nos dizer que o poder de escolha pode, muitas vezes, fazer a pessoa decidir pela segurança e pelo tradicional ao invés de optar pelo risco. Sim, isso é verdade. Mesmo que a gente torça pelo “final feliz”, no final das contas vai prevalecer a escolha do indivíduo – e não o que um ou outro deseja para ele. A nossa capacidade de escolher é então novamente valorizada pela produção, ainda que o desfecho aponte para uma certa frustração de expectativas.

Um outro ponto muito relevante desta produção e sobre o qual eu gostei muito é a questão da presença potente dos “pais” nesse história. Por um lado, Ronit quer honrar e demonstrar o amor que tinha pelo pai, um rabino tradicional que não aceitava que a filha fosse uma “ovelha negra”. Por outro lado, Ronit, Esti e Dovid, entre outros, vivem o dilema de fazer a vontade do “Pai”, ou seja, de fazer o que é bom para os “olhos de Deus”.

Assim, Disobedience fala sobre esses dois sentimentos que muitas vezes dividem as pessoas que tem fé: fazer as escolhas certas segundo os seus próprios critérios, valores, pensamentos e desejos, e fazer as escolhas certas segundo o “desejo de Deus” – que, muitas vezes, é tão difícil de “adivinhar”. Por termos toda esse complexidade e dualidade, que eu acho – e defendo – que deveríamos ser muito mais generosos uns com os outros. E deixar o julgamento, o senso de justiça e o “tira-teima” sobre o que é bom e verdadeiro para Deus – e mais ninguém.

Voltando para o que é, afinal de contas, essencial para qualquer religião, acredito que para os cristãos o essencial seria os dois mandamentos sobre os quais Jesus falou. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” ou o “próximo como Eu vos amei”. Se as pessoas realmente acreditassem nisso, elas até poderiam discordar uma das outras, mas jamais julgariam ou hostilizariam a um semelhante.

Porque, no final das contas, somos todos mortais, falhos, buscando o equilíbrio entre o comportamento de anjos e de animais e tendo apenas o poder de escolha como uma das nossas principais “armas” – para o bem e para o mal. Para quem tem fé, será inevitável buscar “agradar ao Pai”. Essa busca é válida mas, no fim das contas, apenas Ele poderá nos dizer o quanto acertamos ou erramos na tentativa. O que Disobedience nos mostra, por A+B, é que o amor não pode ser um erro nessa equação. Não importa o que algumas interpretações dos livros sagrados nos digam.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Francamente, eu estava muito perto de dar uma nota 10 para este filme. Sério mesmo. Só que aí aconteceu o que aconteceu… Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz resolveram dar uma reviravolta para o “tradicional” no final que eu achei um tanto “decepcionante”. Simplesmente porque eu acho que o que vemos nos últimos minutos de filme não casa com o restante da narrativa. Até entendo as razões deles fazerem isso – levar a compreensão do “livre-arbítrio” ao extremo -, mas, ainda assim, para mim, o filme perdeu um ponto por causa daquela escolha.

Disobedience tem muitas qualidades. Para começar, um roteiro quase irrepreensível. Apesar da reviravolta um tanto questionável no final, algo precisa ser dito: Lelio e Lenkiewicz souberam conduzir a história com maestria, seguindo alguns passos da cartilha do cinema com esmero.

O filme vai nos apresentando os personagens, seus gostos, valores e contexto social pouco a pouco, até que mergulhamos em uma realidade em que nem tudo pode ser dito ou demonstrado – muito pelo contrário. Esconder-se, manifestar o que se sente sem que outros possam ver, tudo isso é um belo gatilho de sensações e de angústia para os personagens e para quem assiste ao filme.

Adicionando a esse roteiro competente o belo trabalho do trio de protagonistas, como comentei antes, fica quase impossível o espectador não se colocar no lugar deles – e sempre que isso acontece o filme ganha em potência. Na direção, Sebastián Lelio demonstra, a exemplo do que vimos em Una Mujer Fantástica (comentado por aqui), pleno domínio do “jogo de cena”, uma bela e segura condução dos atores e um olhar atento para as nuances das suas interpretações. Mais um belo trabalho desse diretor que merece ser acompanhado.

Existe um momento bastante “duro” de assistir nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Ronit decide realmente ir embora. Claro que o que muitos podiam estar esperando é que ela ficasse, para ajudar Enit a se encontrar, ou que convidasse ela a ir embora junto. Mas não. Dá para entender Ronit, ainda que seja complicado, porque, afinal de contas, cada um deve ser “dono” de seus próprios caminhos. Enit tinha que decidir por conta própria o que fazer. Ainda assim, achei que Ronit foi um pouco “covarde” por simplesmente ir embora e deixar todo aquele “estrago” para Enit resolver sozinha. Quando vemos a Enit na farmácia, não é difícil imaginar que ela comprou um monte de remédio para suicidar-se em um quarto de hotel. Ainda bem que a história não foi para esse caminho – ainda que, na vida real, isso não seria difícil de acontecer naquele contexto. Infelizmente. Por isso, é preciso ter muito cuidado e zelo com aqueles que amamos e em quem despertarmos amor. Não adianta apenas virar as costas, muitas vezes, e sair de perto. É preciso encontrar outras saídas.

O nome que mais me chamou a atenção, nessa produção, inicialmente, foi o de Rachel Weisz. Ela é uma grande atriz, e sempre aprecio vê-la em cena. E ainda que seja verdade que ela está muito bem em Disobedience, quem me chamou mesmo a atenção foi Rachel McAdams. Para mim, ela faz um trabalho impecável e potente, nos apresentando uma personagem com maior complexidade do que o vivenciado por Rachel Weisz. A meu ver, o trabalho de Rachel McAdams está alguns degraus acima dos outros protagonistas desse filme. Ainda assim, é preciso tirar o chapéu para Rachel Weisz, Alessandro Nivola e Rachel McAdams da mesma forma. Eles estão excelentes nesse filme.

Disobedience é um grande filme por causa do roteiro, da direção e do trabalho dos protagonistas. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas vale comentar também o bom trabalho de um time relativamente pequeno de coadjuvantes. Entre outros nomes, vale destacar o belo trabalho de Anton Lesser como Rav Krushka, pai de Ronit; Allan Corduner como Moshe Hartog, tio de Ronit; Bernice Stegers como Fruma Hartog, tia de Ronit; Nicholas Woodeson como Rabbi Goldfarb; e Liza Sadovy como Rebbetzin Goldfarb. Todos estão muito bem.

Esse filme tem diversas sutilezas. Por exemplo, o diálogo entre Ronit e o homem tatuado que ela está fotografando no início da produção. O homem, com o corpo cheio de tatuagens, comenta que a primeira que ele, o rosto de Jesus, ele fez quando tinha 15 anos. “Essa doeu”, ele comenta. Para quem logo vai voltar a “mergulhar” em uma comunidade judaica, essa introdução não me parece desprovida de sentido. E o filme tem muito disso. Pequenas sutilezas.

Entre os aspectos técnicos do filme, além do roteiro e da direção muito acima da média já comentados, vale destacar a direção de fotografia de Danny Cohen; a edição de Nathan Nugent; a trilha sonora de Matthew Herbert; o design de produção de Sarah Finlay; os figurinos de Odile Dicks-Mireaux; e a direção de arte de Jimena Azula e Bobbie Cousins.

Disobedience estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois desta data, o filme participou de outros 12 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme foi indicado a cinco prêmios – mas não levou nenhum para casa.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Sebastián Lelio comentou sobre como foi trabalhar com as atrizes Rachel Weisz e Rachel McAdams, que são bastante diferentes entre si. Para ele, Weisz parece uma “força da natureza”, uma atriz com “personalidade vulcânica”. Por outro lado, McAdams é meticulosa, uma espécie de “especialista disfarçada” que se esconde atrás de uma peruca e de maquiagem. Para o diretor, os estilos diferentes das duas atrizes se encaixaram perfeitamente nas personagens principais do filme, que são também diferentes e, ao mesmo tempo, complementares. Faz sentido.

Segundo a história de Disobedience, as personagens de Weisz e McAdams tem a mesma idade, mas fora da tela Weisz é oito anos mais velha que McAdams.

Disobedience marca a estreia em filme falados em língua inglesa do diretor Sebastián Lelio. Para mim, foi uma bela estreia. Vejo muito futuro para ele – seja no cinema latino, seja no cinema dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 106 críticas positivas e 20 negativas para Disobedience – o que garante para o filme uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,3. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” de 74 para esta produção – fruto de 32 críticas positivas e de quatro medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Disobedience faturou cerca de US$ 3,5 milhões nos Estados Unidos e US$ 2,4 milhões nos outros mercados em que estreou. Ou seja, no total, o filme fez cerca de US$ 5,9 milhões. Pouco, para os padrões de Hollywood, mas um resultado razoável para um filme “independente”. O problema é que, segundo o site IMDb, esse filme teria custado cerca de US$ 6 milhões para ser feito. Somando a isso os custos de produção e de divulgação, esse filme não está nem conseguindo se pagar. Uma pena.

Disobedience é uma coprodução do Reino Unido, da Irlanda e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme potente. Provocativo, instigante, sensual e que nos faz refletir sobre algumas questões fundamentais. Não é todo dia que a gente pode se deparar com um filme como Disobedience. Com um roteiro bem acima da média, uma direção cuidadosa e ótimas interpretações dos atores principais, esse filme só não é perfeito porque ele “cede” no final.

Ok, a vida nem sempre tem finais felizes. Mas nesta produção, em especial, a escolha de Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz para o desfecho do filme parece um tanto estranha – se levarmos em conta o restante da trama. Ainda assim, como comentei lá no início, se você está aberto(a) à novas ideias, esta pode ser uma produção bastante instigante. Vale pelo debate e pela reflexão que levanta. Um filme porreta, por assim dizer.

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The Neon Demon – Demônio de Neon

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Nem sempre a gente acerta. Mas tentar é o que importa. As falhas fazem parte do jogo. Como em outras ocasiões, procurei acompanhar um jovem diretor que me parecia promissor. E como já aconteceu antes, me decepcionei com o segundo trabalho que vi de um diretor em ascensão. The Neon Demon não traz absolutamente nada de novo e ainda excede nas intenções com pouco resultado prático interessante. Verdade que o filme mergulha na superficialidade, no jogo de aparências, cobiça e alta competitividade do mundo da moda – clima que está presente em outros segmentos também, diga-se. Mas apesar de uma ou duas boas ideias, que não tem nada de realmente inovadoras, este filme apenas gasta o nosso bom e precioso tempo sem apresentar nada além de uma crítica ligeira e um tanto over.

A HISTÓRIA: Uma garota, que parece mais um manequim, aparece deitada em um sofá clássico, iluminada com luzes de neon, com o pescoço cortado e cheia de sangue. Ela é fotografada por um aspirante a fotógrafo de moda. Em seguida, a modelo, a jovem Jesse (Elle Fanning), aparece limpando o sangue falso. Ruby (Jena Malone) a examina pelo espelho e puxa conversa. Ela diz que está admirando a bela pele de Jesse. Ruby se apresenta e fica conhecendo a modelo que chegou há pouco tempo em Los Angeles. Ela ajuda Jesse a tirar a maquiagem e a convida para uma festa. Pouco a pouco a nova modelo vai mergulhando no cenário da moda de Los Angeles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Neon Demon): Eu tenho essa mania de ficar fascinada com alguns diretores e, depois, “persegui-los” em seus próximos trabalhos. Algumas vezes acompanhar determinados diretores se mostra algo interessante mas, outras vezes, nem tanto. Esta não é a primeira vez que após ver a um belo trabalho de um diretor, me decepciono terrivelmente na experiência seguinte com ele.

Neste blog, já demonstrei essa minha “decepção” antes com Julio Medem, que me deixou fascinada com os filmes Los Amantes del Círculo Polar e Lucía y el Sexo e que, depois, nos apresentou o horripilante Caótica Ana (o único comentado aqui no blog, que pode ser acessado neste link). Muito ruim esse seu novo filme. O mesmo aconteceu agora, com o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn. Gostei muito do que ele apresentou em Drive (com crítica neste link), por isso me interessei por esse The Neon Demon. Também gosto da protagonista, a sempre competente Elle Fanning. Mas não vou enrolar vocês: esse filme é ruim. Nada mais, nada menos.

Vejamos. A história toda gira em torno do competitivo mundo da moda de Los Angeles. Ok, o ambiente fascina o diretor, que também ambiente Drive na cidade que é a meca do cinema nos Estados Unidos. E a história, que desde o início mexe bem com a ideia da superficialidade e até começa bem ao investir novamente em um importante protagonismo da trilha sonora e da ótima fotografia, logo se mostra com pouca criatividade.

O argumento é clássico e um tanto óbvio: uma jovem garota sai do interior e chega à Los Angeles fascinando as pessoas por sua beleza e por não ter nenhum cacoete de quem já está há tempos no mercado. A atriz Elle Fanning se encaixa perfeitamente no estereótipo porque tem um jeito angelical e um perfil maleável que permite que ela tanto pareça uma moça do interior quando não está em uma produção de moda quanto uma garota totalmente no padrão da indústria quando está sob a lente de um fotógrafo ou em um desfile.

Essa mesma garota do interior que acaba fascinando quem é do ramo acaba gerando uma grande antipatia das “concorrentes” do mercado, outras modelos também em busca de sucesso. Logo no início do filme, vemos a protagonista Jesse sendo fotografada por um rapaz que está, como ela, buscando mostrar trabalho em Los Angeles. Eles tem o desejo de crescer em comum, mas é evidente o fascínio que Jesse também desperta no rapaz – que acaba não tendo muitas chances com ela conforme a protagonista vai sendo descoberta.

Algo interessante nos minutos iniciais da produção é o que aquela sequência nos sugere. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O filme de Refn é dúbio do início ao fim. Se nas cenas iniciais temos dúvidas se estamos vendo a uma pessoa de verdade ou a um manequim – algo que se repetirá em outros momentos e com outras atrizes -, também nos questionamos se o fotógrafo Dean (Karl Glusman) é um psicopata que acaba de matar a sua mais recente vítima ou se aquela cena é uma montagem.

Este jogo duplo permanece na história em diversos momentos. Talvez seja a forma do diretor e roteirista (a história original é de Nicolas Winding Refn, que acabou dividindo o roteiro com Mary Laws e Polly Stenham) argumentar que tudo que envolve a moda e Los Angeles seja dúbio e que as aparências enganam. A filosofia é válida, mas o que nos interessa é o produto final de The Neon Demon.

Verdade que o diretor segue em sua “cruzada” para resgatar o espírito de filmes dos anos 1970 – percebemos isso tanto pelo uso “exagerado” das cores quanto pela presença marcante da trilha sonora -, o que é sempre válido. Mas afinal de conta, o que The Neon Demon nos apresenta? Como comentei antes, até que as ideias iniciais do filme são interessantes, assim como o início de sua execução. Mas o que me incomodou, conforme a história foi se desenvolvendo, foi justamente a falta de um desenrolar da história melhor, com a apresentação de argumentos que não fossem “mais do mesmo” ou redundantes e, especialmente, me incomodou o final.

Para resumir, me parece que o diretor está se perdendo no formato e nas intenções, tentando apresentar algo muito mais conceitual do que funcional. Em outra palavras, The Neon Demon me pareceu muito mais presunçoso do que competente. O filme tem algumas participações especiais de atores importantes que valorizaram a produção, mas eles tem papéis relativamente pequenos e desinteressantes na história.

O roteiro realmente é focado na protagonista e, em menor escala, nas outras três atrizes que orbitam em volta dela – a maquiadora que é fascinada pela beleza e pelo potencial da “carne nova no pedaço”, e as duas modelos que são as suas concorrentes diretas. A única atriz com destaque que realmente tem uma interpretação interessante é Elle Fanning. A atriz se esforça, ainda que a personagem de Jesse careça de história, e isso porque ela tem a personagem melhor desenvolvida da trama. As demais personagens são ainda pior desenvolvidas.

Nicolas Winding Refn recorre ao velho recurso de mostrar Jesse em uma e outra conversa – essencialmente com Dean – em que ela revela um pouco mais sobre a própria origem e estilo. Mas é pouco. Os outros personagens, conhecemos menos ainda. Apenas sabemos que todas as modelos e Dean estão lutando bravamente por conseguirem algum tempo nos holofotes. Os outros personagens são secundários e aparecem apenas para fins bem específicos na história.

O ator Desmond Harrington interpreta ao “badalado” fotógrafo Jack que aparece apenas para ajudar a impulsionar a carreira de Jesse; a ótima Christina Hendricks, conhecida por seu trabalho em Mad Men, aparece em uma pequena ponta como Roberta Hoffmann, dona de uma agência de modelos que rapidamente aposta na nova promessa; Keanu Reeves está em um papel estranhíssimo como Hank, gerente do motel em que Jesse está hospedada, e que aparece apenas para trazer tensão para a história da garota; e Alessandro Nivola interpreta o estilista Robert, que só aumenta a tensão ao também apostar um tanto “gratuitamente” na nova beleza do mercado.

A história é meio forçada – ainda que conhecemos, claro, histórias de modelos que tiveram carreira meteórica. Mas a impressão que eu tive durante o filme é que apesar de linda e de boa atriz, Elle Fanning não exatamente convenceu como uma grande beldade em quem todos apostariam tão rapidamente. Jovem, com 16 anos recém-completados, e com uma beleza que poderia ser bem moldada, ela tinha argumentos a seu favor. Mas daí a ela sair fascinando a todos com tanta facilidade… é preciso um pouco de generosidade do espectador para acreditar.

O diretor se esforça em mostrar a transformação da jovem modelo. Especialmente na interminável sequência relacionada ao desfile de Robert em que através de imagens de um prisma, vemos Jesse ganhando outras “personas” e se tornando ambiciosa. Isso seria como que uma desculpa para o que aconteceria com ela depois? Afinal, ela foi contaminada por aquele ambiente competitivo, deixou a fama incipiente “subir à cabeça” e, desta forma, justificou o próprio final?

Refn tem diversas ideias estranhas e um desenvolvimento conceitual, é verdade, mas um tanto desgastado – levando em conta Drive, para dar um exemplo – e um bocado excessivo nesta nova produção. Honestamente achei exageradas algumas sequências “conceituais”, especialmente aquela do prisma durante o desfile. Uma boa digital do diretor é sempre bem-vinda, mas ela precisa ajudar a história e não substitui nunca um bom roteiro.

Sem dúvida alguma o ponto fraco de The Neon Demon é justamente o roteiro. Muitos já falaram sobre a superficialidade e a alta competitividade do mundo da moda. Refn não exatamente apresenta uma grande inovação com este filme. Pelo contrário. Ele requenta velhas discussões, exagera nos recursos que ele tem apostado como diretor e cai em velhos estereótipos. Desde a sequência inicial do filme é possível perceber que o interesse de Ruby por Jesse é além do fascínio por sua beleza – há tensão sexual no ar. Por isso não é surpresa o “ataque” dela quando Jesse está em seu território.

Achei o final especialmente decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Refn parece se esforçar para “escandalizar” o espectador. Primeiro, com Ruby “transando” com uma mulher morta após não conseguir ter êxito na investida em Jesse. Na sequência, ela se “vinga” da jovem modelo ao entregá-la para as rivais Gigi (Bella Heathcote) e Sarah (Abbey Lee). Ruby é a algoz principal da história porque Jesse confiava nela e, na hora H, é a maquiadora que atira a garota na piscina.

As duas modelos concorrentes ajudam a perseguir a vítima e, após ela ter sido “abatida”, voltam a atacá-la junto com Ruby. Muitas vezes durante o filme eu não sabia bem “quem era quem” entre as duas modelos loiras. Acredito que a intenção de Refn era realmente esta, mostrar que “todas são iguais”. A maneira de diferencia-las é que a modelo um pouco mais experiente e consagrada, Gigi, é a que tem cabelos curtos e que fez todas as mudanças possíveis no próprio corpo para “emplacar” melhor. Sarah é a modelo de cabelo mais comprido, mais jovem e ambiciosa.

Além de aniquilar a concorrente, as duas modelos acabam “consumindo” ela. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na sequência final e derradeira da história, fica claro que as duas literalmente devoraram a protagonista. Reza a lenda que os adeptos do canibalismo muitas vezes comiam as suas vítimas para “roubar” delas as suas principais qualidades – como força, destreza, etc.

Pois bem, Refn utiliza esta ideia em The Neon Demon. As modelos devoram Jesse para tentar assumir a sua beleza e o diferencial que ela tinha no mercado. Uma ideia, convenhamos, muito estapafúrdia. E no fim das contas, o que o diretor quer nos dizer?

Que o mundo da moda é feito de altíssima carga de ambição, de valorização exagerada e superficial da beleza, do consumo de belas mulheres até a morte – seja através de incontáveis plásticas seja através da puxada de tapete de uma profissional contra a outra (exageradamente representada aqui pelo assassinato e pelo canibalismo)?

Verdade que este ambiente é cruel e cheio de exageros, mas há algo de novo nesta leitura de Refn? Nada, absolutamente nada. Se eu soubesse antes, teria poupado o meu tempo vendo a este filme e, consequentemente, escrevendo sobre ele. Infelizmente o que vimos de “renovação” de um gênero em Drive não encontramos neste novo filme de Nicolas Winding Refn.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como vocês bem sabem, tenho como regra sempre comentar um filme por aqui depois de assisti-lo. Então mesmo não gostando de The Neon Demon, tive que argumentar sobre essa minha frustração por aqui. Quando o filme é bom e inspirador, gasto este tempo com prazer. Afinal, posso estar estimulando outras pessoas a ver uma bela produção. Agora, quando o filme é totalmente dispensável, como é o caso de The Neon Demon, admito que me dá um bocado de preguiça de falar da produção aqui no blog. Minha vontade mesmo era escrever apenas a introdução, dar uma nota baixa e terminar dizendo: “Não assista”. Mas o meu compromisso com vocês não é apenas dizer que não gostei, mas argumentar sobre.

Ao “refrescar” a minha memória sobre Nicolas Winding Refn é que eu percebi que eu perdi o filme que ele lançou após Drive. Não assisti a Only God Forgives. Se alguém que ler este texto assistiu, me digam: vale a experiência?

O diretor de The Neon Demon entende bem de seu ofício. Ele tem um olhar clínico para cada cena e tem um senso estético muito bom. Isso faz com que a nota para este filme não seja menor. Mas o roteiro… para mim, que sempre busco grandes filmes e histórias neles, o roteiro é fundamental. E o calcanhar de Aquiles desta produção é justamente o roteiro. Mas o diretor, sem dúvida, tem um apreço estético e qualidade técnica indiscutíveis.

The Neon Demon estreou em premiere no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois o filme participaria, ainda, de outros cinco festivais. Inclusive um sobre cinema canibal, no México. 😉 Nesta trajetória o filme ganhou dos prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Compositor para Cliff Martinez no Festival de Cinema de Cannes e o de Melhor Time de Locação do Ano – Filme Independente no California on Location Awards. Honestamente, acho incrível este filme ter ganho dois prêmios – e pensar que tantos outros filmes melhores nunca ganharam nada…

Apesar da minha bronca com The Neon Demon, preciso admitir que ele tem algumas qualidades técnicas muito evidentes. Além da boa direção de Refn, que tem uma visão bem definida e estilo próprio, devo destacar a ótima direção de fotografia de Natasha Braier e a trilha sonora inspirada de Cliff Martinez. O editor Matthew Newman também faz um trabalho muito bom. Apesar de ser um filme de moda, apenas em algumas ocasiões os figurinos de Erin Benach me chamaram a atenção. O trabalho dela acaba sendo ofuscado até pela equipe de maquiagem com quatro profissionais – liderados por Erin Ayanian na maquiagem e por Shandra Page no cabelo.

Do elenco, como comentei antes, o destaque é mesmo Elle Fanning. A atriz está muito bem no papel de protagonista, ainda que sofra com um texto bem fraquinho em alguns momentos. Do elenco de apoio, tem um desempenho um pouco acima da média Jena Malone. Das pontas, gostei de Christina Hendricks. Os demais atores, incluindo Keanu Reeves, estão muito displicentes e sem destaque.

The Neon Demon teria custado US$ 7 milhões. Não é um grande orçamento, para os padrões de Hollywood, mas também não é custo desprezível. Claro que o filme faz parte do grupo de “cinema independente”, mas este orçamento poderia ter garantido um ou duas produções melhores. Nos Estados Unidos o filme não decolou, fazendo pouco mais de US$ 1,33 milhão nas bilheterias. Quem sabe com este fracasso o diretor reveja o próprio trabalho? Seria uma boa ideia. Potencial ele tem. Só tem que melhorar – e muito – com os roteiros.

Como o filme mesmo sugere, ele foi totalmente rodado em Los Angeles, na Califórnia. Entre as locações estão o Bristol Salt Flats, o Hollywood Boulevard, o Sunset Boulevard, o Brite Spot Diner (a lanchonete em que Ruby se encontra com as modelos Gigi e Sarah) e o Canfield-Moreno Estate. Há cenas também em Malibu (a casa na praia que fecha a produção).

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme: de acordo com a atriz Elle Fanning, The Neon Demon foi rodado em ordem cronológica e o final da produção foi criado e improvisado em conjunto.

Este foi o segundo filme de Refn que estreou no Festival de Cinema de Cannes. A diferença é que, desta vez, The Neon Demon foi bastante vaiado após a exibição para a imprensa.

A exemplo da personagem que ela interpreta, Elle Fanning tinha 16 anos quando o filme foi rodado. Para preparar a atriz para o papel de protagonista, o diretor de The Neon Demon fez Elle Fanning assistir a Beyond the Valley of Dolls, de 1970.

Responsável pela trilha sonora do filme, Cliff Martinez definiu The Neon Demon como uma mistura entre Valley of the Dolls (1967), dirigido por Mark Robson, e The Texas Chain Saw (1974), de Tobe Hooper.

De acordo com a produção, há duas cenas que não estavam no roteiro e que foram improvisadas quando o filme foi rodado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira sequência é aquela em que Elle Fanning beixa a própria imagem no espelho – a atriz improvisou o beijo -; e a segunda é aquela do sexo com o cadáver. Inicialmente a atriz Jena Malone iria apenas dar um beijo na mulher morta – mas ela acabou improvisando o restante.

Este filme é uma coprodução a França, da Dinamarca e dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Uma avaliação bastante boa, para o meu gosto. Os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes não foram tão generosos. Eles dedicaram 96 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 53% e uma nota média de 5,7.

CONCLUSÃO: Um filme sobre superficialidade, beleza, moda e a competição levada ao extremo da insanidade que se apresenta cheio de proposta e de conceito mas que, na prática, frustra o espectador que espera algo mais. A história, que gira demais sob um mesmo elemento, parece apenas uma desculpa para mostrar belas atrizes e um cenário da moda por demais estigmatizado e caricatural. O argumento da trama é simplista, e a conclusão da história, ainda que tenha uma “problematização” da trama superficial, parece tão forçada quanto a leitura do cenário feito pelo diretor. Certamente, com outras opções no cinema, este filme não é a melhor escolha. Veja apenas se tiver um grande interesse na protagonista ou no mundo fashion, sem se importar com as falhas da produção.

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Selma – Selma: Uma Luta pela Igualdade

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Filme necessário e um dos melhores de 2014. Ainda bem que ele pode ganhar um pouco de visibilidade com o Oscar 2015, ainda que seja um dos menos comentados e badalados da premiação este ano. Selma, que baita filme! Há tempos eu queria assistir a uma produção decente sobre Martin Luther King Jr. e este título, finalmente, cumpre este papel. Para você que quer ouvir discursos inspiradores, sentir uma luta legítima ser desenvolvida com vigor na sua frente, mesmo que em uma obra de cinema, esta é uma ótima oportunidade. Inspirador.

A HISTÓRIA: Martin Luther King Jr. (o ótimo David Oyelowo) se prepara para um discurso de agradecimento. Mas após algumas frases, ele diz para a mulher, Coretta Scott King (Carmen Ejogo) que aquilo não está certo. Ele não se sente bem com a roupa que está usando. Sua cabeça está em outro lugar, nos homens, mulheres, jovens e crianças ainda marginalizados por serem negros. Coretta olha para o marido, eles tem um momento de paz, antes de Luther King Jr. receber o Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Em seu discurso, Luther King fala que aceita aquela honra em nome de todos que morreram por serem negros e pelos 20 milhões de homens e mulheres negras que lutam por sua dignidade. Enquanto o discurso dele é ouvido, vemos cenas de um grupo de meninas negras descendo a escadaria de uma Igreja. Este filme conta os bastidores da luta de Luther King e dos negros pelo direito de votar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Selma): Ah, como faz toda a diferença do mundo um ótimo roteiro conduzindo a narrativa. Paul Webb faz um trabalho excepcional com o texto de Selma, sabendo ponderar diversos elementos narrativos nesta história, o que lhe garante ritmo, paixão e muitos elementos históricos.

Para começar, impossível fazer um filme decente sobre Martin Luther King Jr. sem utilizar os seus discursos inspirados. Provavelmente ele foi um dos grandes oradores de todos os tempos. E isso sem acrescentar o famoso e histórico discurso em Washington. Não. Este filme mostra os acontecimentos após a famosa Marcha sobre Washington, quando Luther King proferiu um dos discursos mais lembrados de todos os tempos, conhecido sob o título “Eu tenho um sonho” no dia 28 de agosto de 1963.

Inclusive, no início do filme, quando Luther King é agraciado com o Nobel da Paz, o orador que o apresenta lembra que aquele homem tinha um sonho. Pois bem, Selma fala de outro acontecimento marcante não apenas na vida deste homem genial por ter sido um ferrenho defensor dos direitos humanos, da paz e de igualdade racial. Esta produção aborda as marchas de Selma até Montgomery, cidades no Alabama, durante alguns meses de 1965.

O movimento com base em Selma foi fortemente reprimido pelas forças policiais sob o comando do governador George Wallace (Tim Roth). Houve muita pancadaria e mortes, tudo com cobertura da imprensa, inclusive das TVs. Aqueles eventos foram decisivos para que a opinião pública dos Estados Unidos mudasse e ficasse a favor, pelo menos em sua maioria, da igualdade dos direitos civis.

É emocionante acompanhar o movimento daquele grupo liderado por Luther King. Mas antes, vemos um exemplo prático, com a tentativa Annie Lee Cooper (Oprah Winfrey) em se registrar no cartório eleitoral para poder votar, sobre a problemática que precisava ser combatida. A lei, a Constituição dos Estados Unidos, previa o voto dos negros. Mas Estados como o do Alabama orientavam os responsáveis por fazer o registro dos votantes a não aceitar negros. Isso é mostrado sem firulas logo no início do filme.

Outro momento inteligente da produção, visto logo nos primeiros minutos, é mostrar o desconforto de Luther King em estar tão “alinhado” para receber o Nobel, em seguida ouvir parte do discurso dele enquanto acompanhamos um grupo de meninas inocentes caminhando para a morte em mais um atentado violento contra negros. Claramente o roteirista e a diretora Ava DuVernay quiseram mostrar que apesar do Nobel e dos discursos inspirados, nem Luther King conseguia frear desta forma a violência contra os seus irmãos.

Feita esta introdução, muito bem planejada, mergulhamos na tentativa de negociação de Luther King com o presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) para que a questão do voto fosse respeitada no país como política clara do Estado. No diálogo, Luther King não conseguiu nada, porque Johnson preferia adiar a decisão sem um prazo para resolver o assunto como forma de se preservar politicamente. Daí começa a ação, já que Luther King resolve reforçar em Selma o movimento que pedia igualdade nas urnas.

A partir daí, o filme não alivia. Ele mostra as articulações para a primeira manifestação em Selma e a forte repressão policial. As cenas de brutalidade policial são desconcertantes. Depois seguem outros atos e a primeira morte, do jovem Jimmie Lee Jackson (Keith Stanfield), morto friamente com um tiro por um policial após ele, a mãe, Viola Lee Jackson (Charity Jordan) e o avô, Cage Lee (Henry G. Sanders) serem perseguidos e covardemente agredidos.

As cenas são impactantes e muito bem filmadas por Ava DuVernay. O interessante do roteiro é que ele foca sempre Luther King, mostrando as reflexões dele, as angústias e a preocupação com as pessoas que poderiam se ferir. Para ajudar, há o texto fantástico e irretocável dos discursos dele, que motivaram as pessoas na época e dificilmente não mexem com quem assiste ao filme hoje em dia. Aliado a isso, ajuda na narrativa os registros feitos pelo FBI na época, quando Luther King e as demais pessoas ao redor dele eram monitoradas e vigiadas.

Os registros do FBI, em especial, dão um toque muito interessante para o filme. Revelam um hábito antigo daquele país de monitorar as pessoas que eles consideravam relevantes para o sistema, especialmente se apresentavam “algum risco”. Especialmente interessante, ainda na parte inicial do filme, um diálogo entre o presidente Lyndon B. Johnson e o chefe do FBI J. Edgar Hoover (Dylan Baker). Inicialmente Hoover sugere que o “problema” Luther King poderia ser resolvido facilmente dando um “fim” na ameaça.

Como Johnson resiste a ideia de eliminar Luther King, a sugestão seguinte de Hoover é de desestabilizar o líder negro ao dinamitar o casamento dele com Coretta que, segundo o FBI, já estaria balançado – e de fato estava. Apesar das ameaças que recebia e da ausência do marido, assim como o risco eminente de morte dele, Coretta se manteve firme ao lado de Luther King. Este apoio é bem mostrado e valorizado no filme.

Com bem explica este texto da Wikipédia, as marchas saindo de Selma foram três. Antes da primeira, houve aquela caminhada pelas ruas de Selma de noite e que acabou sendo conhecido como “domingo sangrento”. Foi quando ocorreu a morte de Jimmie Lee Jackson, em fevereiro de 1965.

A primeira marcha propriamente dita, como bem retrata o filme, ocorrida no início de março, não contou com Martin Luther King Jr. e terminou no confronto na ponte Edmund Pettus. As redes de TV transmitiram o ataque policial e lançaram um movimento de apoio a Marcha de Selma.

A segunda tentativa de fazer o mesmo trajeto teve um apelo muito maior, inclusive com apoio de muitos brancos. Pessoas de diversas parte do país, incluindo Luther King, viajaram até Selma para fazer o mesmo trajeto novamente. Nesta segunda tentativa, eles caminharam até parte do trajeto e retrocederam. No filme, está certo o retrato de muitas pessoas surpresas com a decisão. Mas o roteirista quis sugerir que Luther King deu a ordem para voltar porque teria tido uma “inspiração divina”. Ele até pode ter tido uma, mas ele também tinha uma razão prática.

Antes da marcha acontecer o juiz Frank Minis Johnson (Martin Sheen) havia proibido a manifestação pacífica antes que outras audiências sobre a causa fossem feitas. Luther King já havia avisado aos companheiros que o apoiavam de que eles iriam retroceder. Mas a grande massa realmente não sabia disso previamente, por isso muitos ficaram confusos e perdidos. Mas todos acabaram seguindo o líder Luther King.

Após aquele evento, contudo, quatro membros da Ku-Klux-Kland atacaram três ministros brancos que haviam ido até Selma para apoiar o movimento. Um deles, James Reeb (Jeremy Strong), foi o mais agredido e morreu. Claro que o filme encurta as duas mortes – nenhuma das vítimas morreu na hora, mas após serem atendidas nos hospitais. Essa informação, contudo, não faz falta para a narrativa.

O filme acerta ao mostrar como o presidente Lyndon Johnson chama o governador George Wallace para conversar, mas este se mostra irredutível e não aceita dar espaço para as manifestações e mudar as regras em seu Estado. Depois da morte do manifestante branco, a opinião pública cai de pau no assunto e Johnson de fato encaminha um projeto de lei no Congresso que, depois, se tornaria a Lei dos Direitos ao Voto.

Para fechar o resgate histórico, Luther King e diversas outras pessoas lideraram a terceira e última marcha de Selma até Montgomery, esta sim pacífica e que terminou com o discurso Stars from Freedom do líder negro. Linda toda a sequência final que, inclusive, resgatou cenas verídicas da época. Para finalizar, como é feito com muitos filmes baseados em fatos reais, ficamos sabendo sobre o que aconteceu com alguns dos principais personagens desta produção depois que o discurso de Luther King termina.

Haveria mais uma morte relacionada ao movimento, desta vez de uma mulher branca, e outros fatos ocorreriam na vida daquelas pessoas retratadas no filme. Luther King sobreviveu aos conflitos e à perseguição em Selma, mas ele seria morto, três anos depois, em Memphis. Este filme é uma homenagem muito justa a ele, um homem admirável.

Bem conduzido, bem escrito e com ótimos atores envolvidos no projeto – inclusive em papéis bem secundários -, Selma é um filme marcante e necessário, como comentei lá encima. Para mim, ele foi mais envolvente e impactante que o premiado 12 Years a Slave, que ganhou três Oscar’s, incluindo o de Melhor Filme, em 2014.

Verdade que 12 Years a Slave trazia uma história menos conhecida à tona mas, ainda assim, Selma me pareceu mais interessante especialmente pelos discursos de Luther King. Pena que dois anos seguidos de filmes sobre igualdade e justiça para os negros não emplaca na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Uma pena.

Mas antes de finalizar, queria citar uma parte que me tocou especialmente neste filme. Perto do final, e com a iminência de que Luther King poderia ser morto a qualquer momento – o que tornaria a situação ainda mais complicada -, o emissário do presidente dos Estados Unidos, John Doar (Alessandro Nivola), sugere para que o líder do movimento negro se preserve e não se exponha mais na última marcha.

Luther King, com uma lucidez absurda, comenta que ele não é diferente dos demais, que ele também quer viver muito e ser feliz. Ele diz que poderia se focar no que ele queria, mas que não faria isso porque ele deveria fazer o que Deus queria. Impressionante quando uma pessoa percebe que tem um propósito maior e que ela pode fazer a diferença, mesmo que isso significar a sua morte. Existe exemplo maior de bravura e de honra? Não foi daquela vez que ele morreu, mas ao seguir lutando pelos direitos das pessoas, mais tarde, o fim trágico chegaria.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante como todos os atores estão bem neste filme. O destaque, evidentemente, é o protagonista. David Oyelowo encarna Martin Luther King Jr. e passa muita emoção, seriedade e compromisso com a causa que o líder negro defendia. Ele emociona, juntamente com o roteiro perfeito de Paul Webb. A diretora Ava DuVernay acerta também na escolha de cada ângulo e das dinâmicas com os atores.

O elenco de Selma está recheado de presenças ilustres, inclusive e especialmente em papéis bem secundários. No elenco principal, dos atores que aparecem mais, há nomes menos conhecidos do grande público, como Carmen Ejogo como Coretta Scott King, mulher de Martin Luther King Jr.; André Holland como Andrew Young e Colman Domingo como Ralph Abernathy, os dois braços direitos do protagonista. Fazem parte do grupo que acompanha Luther King os atores Ruben Santiago-Hudson como Bayard Rustin; Omar J. Dorsey como James Orange; Common como James Bevel; E. Roger Mitchell como Frederick Reese; e Wendell Pierce como o reverendo Hosea Williams.

Entre os moradores de Selma que acabam sendo importantes para o movimento, inclusive por alguns se tornarem vítimas dos absurdos policiais, destaque para Keith Stanfield como Jimmie Lee Jackson; Henry G. Sanders como Cager Lee; Charity Jordan como Viola Lee Jackson; Stephan James como John Lewis e Trai Byers como James Forman, dois estudantes que lideram o movimento negro em Selma e que divergem em diversos pontos das ações nas cidades. Em uma ponta também merece menção Nigel Thatch como Malcolm X.

Comentado os nomes menos conhecidos, vamos aos famosos que entraram no filme para fazer papéis pequenos. Começo com Oprah Winfrey, também produtora do filme, como Annie Lee Cooper, que diversas vezes tinha tentado, em vão, fazer um registro como eleitora e que, no primeiro ato público em Selma, é agredida por policiais. Tom Wilkinson está ótimo como o presidente Lyndonn B. Johnson, assim como Tim Roth que, mesmo aparecendo menos que Wilkinson, tem pelo menos uma cena inesquecível de diálogo com o veterano ator inglês.

Giovanni Ribisi interpreta a Lee White, braço direito do presidente; Dylan Baker se sai bem em um papel pequeno como J. Edgar Hoover, do FBI; Jeremy Strong também faz uma boa participação como James Reeb, primeira vítima branca do movimento; Alessandro Nivola aparece para intermediar as negociações entre o presidente de Luther King; Cuba Gooding Jr. como Fred Gray; e Martin Sheen faz uma super ponta – inclusive não creditada – como o juiz Frank Johnson.

Da parte técnica do filme, destaque para a ótima direção de fotografia de Bradford Young; para a edição de Spencer Averick; para a direção de arte de Kim Jennings; para os figurinos de Ruth E. Carter; e para a trilha sonora, incluindo a excelente canção Glory, interpretada por John Legend e Common.

Selma estreou no Festival AFI em novembro de 2014. Em fevereiro ele está confirmado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o momento, o filme ganhou 27 prêmios e foi indicado a outros 71, incluindo dois Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Canção para Glory, composta por John Legend e Common; e para o prêmio Freedom of Expression Award entregue pela National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados de Georgia e Alabama, nos Estados Unidos. Foram rodadas cenas em cidades como Selma, Montgomery, Marietta, Conyers e Atalanta.

Agora, a seção de curiosidades sobre esta produção. Antes de Ava DuVernay assumir o projeto, Lee Daniels estava escalado como diretor. David Oyelowo lutou durante sete anos para conseguir o papel principal, porque Daniels inicialmente achou que ele não seria o melhor nome para interpretar Luther King. Mas DuVernay apostou nele.

Tim Roth cresceu durante a era de luta dos direitos civis nos Estados Unidos. Ele disse que lembra do governador George Wallace, guardando na memória que ele ficava espantado com as besteiras que saia da boca do político, que ele considerava um “monstro” – e a quem, ironicamente, ele interpretaria agora.

Entre os diretores interessados no roteiro de Selma estavam Steven Spielberg, Stephen Frears, Paul Higgs, Spike Lee e Michael Mann, além do já citado Lee Daniels.

O esquecimento do Oscar de indicar Ava DuVernay como Melhor Diretora e David Oyelowo como Melhor Ator provocou protesto de cinéfilos e pessoas dos bastidores de Hollywood. Os esquecimentos foram creditados à falta de diversidade racial em Hollywood e ao fato do estúdio Paramount não ter conseguido enviar cópias do filme a tempo para todos os membros da Academia conferirem o filme.

Ainda que não tenha recebido o crédito como coautora do roteiro, a diretora Ava DuVerney afirmou que fez alterações em 90% do texto de Paul Webb, incluindo ter dado uma nova versão para os discursos de Luther King – isso foi necessário porque outro estúdio tem os direitos dos originais.

Selma teria custado cerca de US$ 20 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 39,5 milhões. Ainda falta muito para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Selma. Uma avaliação boa mas que, na minha opinião, poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 99% e uma nota média de 8,7.

Selma é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos homens mais fantásticos de todos os tempos, Martin Luther King, em um momento decisivo não apenas de sua trajetória mas, e principalmente, dos Estados Unidos. Se em Lincoln assistimos a um homem corajoso mudando parte da história, aqui vemos a outro liderando um movimento fundamental para consolidar aquela mudança. Interessante assistir a Selma em 2015, ano em que um negro segue como presidente dos Estados Unidos e batalha para tornar aquele país ainda mais justo. Filme envolvente do início ao fim, com um ótimo roteiro, direção e um ator liderando todo o processo para quem precisamos tirar o chapéu. Vale muito o ingresso.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Indicado apenas em duas categorias, sendo apenas uma realmente relevante, infelizmente as chances de Selma são praticamente zero no Oscar. Quer dizer, ela pode até levar em Melhor Canção. Mas quem realmente se importa com esta categoria? As pessoas que vencem, evidentemente, e quem tem o nome lembrado em uma indicação. Mas é só.

Selma também concorre como Melhor Filme. Mas por ele ter sido indicado apenas a esta categoria e a Melhor Canção, chances zero para o filme. Uma pena. Acho que ele deveria estar competindo lado a lado com Boyhood e The Imitation Game. Para mim, os melhores filmes da lista até o momento.

Da minha parte, meu voto ficaria ainda para Boyhood, mas Selma seria a minha segunda escolha. E não ficaria chateada se ele ganhasse. Depois viria The Imitation Game. E todos os demais… bem, acho inferiores. Assim de simples. Só falta Whiplash para fechar esta minha avaliação. Veremos se ele muda algo. 🙂

Mas para resumir a avaliação sobre Selma, infelizmente o filme corre totalmente por fora. Acho que ele deveria ter sido lembrado em pelo menos outras duas categorias: Melhor Roteiro Original e Melhor Ator para o brilhante David Oyelowo. Não foi desta vez. Lástima.

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Junebug – Retratos de Família

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Arte, família e modos opostos de encarar/viver a vida. Junebug nos apresenta uma história interessantíssima sobre um casal que se conhece em uma galeria, em uma noite dedicada à venda de obras de arte “visionárias” mas que, só meses depois, mergulha em uma viagem de autoconhecimento. O espectador viaja com eles para o interior dos Estados Unidos, onde encontramos um artista desconhecido e incompreendido e, ao mesmo tempo, a família que foi a base da criação do nosso protagonista. Um filme dirigido com talento por Phil Morrison que conta com um grupo de atores talentosos, incluindo Amy Adams em um de seus primeiros papéis realmente de destaque.

A HISTÓRIA: A comerciante de arte Madeleine (Embeth Davidtz) bate os olhos em George Johnsten (Alessandro Nivola) em uma noite de venda de obras de arte de um artista “visionário” descoberto por ela e, de maneira involuntária, fica fascinada por ele. Achando George  irresistível, Madeleine começa, naquela noite, uma relação que terminará, pouco depois, em casamento. Perto de completarem seis meses deste matrimônio, Madeleine e George viajam de Chicago, onde moram, até a Carolina do Norte com dois objetivos: o principal, para que Madeleine negocie uma exposição com o artista David Wark (Frank Hoyt Taylor) e, como razão secundária, para que o casal visite a família de George. O choque cultural entre Madeleine, uma filha de diplomata que foi criada em diferentes países e que tem uma visão cosmopolita e culta do mundo e a família do marido, uma representante típica da classe média do Sul dos Estados Unidos, acaba sendo inevitável.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Junebug): Gostei muito do roteiro de Angus MacLachlan e da direção de Phil Morrison. O texto do primeiro faz um contraponto exato entre dois dos vários mundos opostos que formam a nação chamada Estados Unidos. Normalmente, atacamos/discordamos do lado mais “ignorante” dos estadunidenses. Pessoalmente, sigo a tendência de olhar, primeiramente, para este ranço de muitas das pessoas que moram naquele país em só enxergarem o próprio umbigo. Tenho amigos mexicanos – entre outras nacionalidades – que viveram nos Estados Unidos ou próximo deles e que confirmam que a maioria dos estadunidenses ignoram o que acontece no resto do mundo. Lhes interessa apenas o que tem a ver com os Estados Unidos. E, o pior: eles batem no peito sobre a sua própria ignorância.

Mas, depois desta primeira lembrança dos estadunidenses, eu penso nos grandes artistas e cientistas que aquele país produziu e produz, ano após ano, e penso: “Não, só um pouquinho… existem sempre os dois lados da moeda. Grande parte das pessoas que nasceram nos Estados Unidos acredita que o Rio de Janeiro é a capital da Argentina, mas grande parte também está antenadíssima com tudo o que acontece no mundo”. E isso é a mais pura verdade. Grandes diretores de cinema, músicos, pesquisadores em diferentes áreas – inclusive nas minhas, comunicação e sociologia – nasceram nos Estados Unidos e estão aí para comprovar isto. Estou fazendo este discurso para dizer que uma das grandes contribuições do roteiro de Junebug é justamente o de mostrar estes diferentes lados da nação chamada Estados Unidos – e de como, mesmo que na aparência o Norte e o Sul daquele país parece que nunca vai se entender, essa compreensão é sim possível.

MacLachlan escreveu um texto inteligente e sensível, que mistura arte, psicologia, religião e costumes em um grande balaio de referências. E a direção de Morrison exprime do roteiro o que ele tem de melhor, traduzindo suas recomendações genéricas em uma forma muito criativa de apresentar os cenários e os costumes daquelas pessoas – tanto quanto algum dos quadros de um dos artistas visionários procurados por Madeleine.

Francamente, eu respeito o jeito “bruto” de algumas pessoas viverem suas vidas. Como é o caso de Johnny Johnsten (Ben McKenzie), irmão de George. Mas uma coisa é respeitar, entender, outra coisa é compartir das mesmas idéias ou achar que seu modo de vida cheio de complexos mal resolvidos deva ser aceito. Por isso mesmo eu admito que senti medo por uma boa parte do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Junebug). Eu podia jurar que algo de ruim ia acontecer com Madeleine. Porque ela, cheia de educação e de sensibilidade, estava super vulnerável a algum ataque de brutalidade naquele ambiente praticamente hostil da casa dos Johnsten. Fiquei com medo, por ela – nem sempre as pessoas sensíveis saem ilesas de ambientes rudes e onde impera a lei do mais forte e o machismo.

O único sopro de esperança naquela família era o de Ashley (Amy Adams), mulher de Johnny, que esperava para dar à luz a Junebug. Certo que, além de “pessoa do bem”, Ashley parecia uma destas garotas obcecadas por artistas, fascinadas por qualquer mulher que escape de seu modelo de vida “garota-que-casa-e-tem-filhos-para-depois-cuidar-da-casa”. Mas descontado esse seu fascínio acrítico em relação a qualquer mulher que seja diferente dela, que tenha feito uma faculdade ou que tenha viajado um pouco pelo mundo, Ashley realmente é uma pessoa aberta ao diferente. O que parece ser impossível para sua sogra, a aparentemente amargurada e “invejosa” Peg Johnsten (Celia Weston). Na verdade, Peg e o marido Eugene (Scott Wilson) interpretam o estereótipo do casal do Sul dos Estados Unidos: ela fala grosso e cuida da casa da mesma forma há 40 anos e ele, um homem de poucas palavras, assume um posto de comando discreto e de pai um tanto ausente na família.

Uma reflexão muito interessante do filme é a de que começamos a conhecer verdadeiramente bem o(a) nosso(a) parceiro(a) quando convivemos um pouco que seja com a sua família. Isso é algo realmente verdadeiro e potente. Pode fazer uma relação caminhar para a frente ou desandar de vez. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como bem demonstra Junebug, o melhor mesmo é que o novo casal viva distante dos pais do marido ou da mulher. Porque uma convivência estreita, normalmente, acaba sendo um verdadeiro veneno para esta nova família. E isso independente se o casal recém-formado tem ou terá filhos. A grande questão é que modos de vida diferentes que tentam se “sobrepor” um sobres os outros, normalmente, não funcionam. O melhor mesmo é que o casal vá afinando as suas diferenças em paz, com liberdade, sem a interferência de seus progenitores. Esta era uma crença que eu tinha antes e que só foi confirmada com este filme. 🙂

Mas Junebug é uma história cheia de pequenas reflexões jogadas na tela como as cores e as perspectivas em um quadro. Há desde o questionamento sobre as razões que fazem um casamento dar certo – costume? tradição? um filho? paixão? desejo? – até um olhar um pouco mais demorado sobre características da arte moderna pouco compreendidas pelo público em geral. Para alguns, David Wark era um maluco que falava coisas sem sentido e pintava quadros cheios de cenas de guerra, sangue, e a luta de negros contra brancos – não se esqueçam que estamos falando do Sul dos Estados Unidos, onde perdurou por muito tempo a segregação racial. Neste mesmo ambiente, todos aceitavam a atitude de Ashley em engravidar do marido para tentar salvar o casamento. Não importava se ele queria ou não o filho. O que interessava é que a chegada de Junebug, na cabeça de Ashley, poderia fazer a relação deles melhorar. Quem estava mais “louco” nesta história? E que atitude – ou modo de vida – era melhor aceito?

Gostei destes questionamentos do filme sobre os conceitos que são socialmente aceitos e os que não. De forma muito natural e sem discursos, Junebug vai mostrando estas diferenças “de olhar” entre o “mundo” dos Johnsten e o de Madeleine e seus artistas. E o mais bacana é que ninguém é julgado. As realidades apenas são mostradas e, como em qualquer obra de arte, fica com o público a tarefa de tirar suas conclusões. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tanto isso é verdade que até a nossa “heróina”, Madeleine, recebe um “pito” perto do final. Mais preocupada em garantir um êxito em sua carreira, ela perde um momento decisivo para a família do marido. Junebug, assim, nos mostra que ninguém pode ser 8 ou 80. Ou, que em outras palavras, não compensa abrir mão de tudo para ser 100% família ou 100% carreira. Talvez o caminho – que é difícil sim, mas não impossível – seja mesmo o equilíbrio. E, claro, paciência para conviver com campos de visão estreitos.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei especialmente impressionada com os trabalhos cuidadosos e deliciosos do diretor Phil Morrison e do diretor de fotografia Peter Donahue. Em muitos trechos do filme fica evidente que este é um dos bons exemplos do cinema independente feito nos Estados Unidos. A sequência inicial, com dois homens “uivando”(?) canções que parecem tradicionais do folclore dos Estados Unidos (ou seriam hinos?) e muitos outros trechos em que a câmera fica estática acompanhando o que acontece naquele cenário “sem pressa” do Sul do país podem tirar muita gente do sério, porque são cenas em que não acontece “nada de especial” – mas justamente são elas que nos mostram uma série de detalhes desta modo de vida. Gostei muito do trabalho de ambos.

Também fiquei impressionada com o alto nível do trabalho dos atores. Mérito deles, claro, mas certamente também do diretor. Amy Adams rouba a cena e constrói, com a personagem de Ashley, um pouco da sua aura de “boa moça”. Na opinião de muitos críticos – e com razão – ela está, simplesmente, radiante. Sua interpretação fica em um nível alta desde o primeiro até o último minuto em que ela aparece em cena. Aliás, depois de assistir a esse filme, fiquei pensando no impacto que a atriz vai causar quando resolver interpretar um personagem diferente, quem sabe uma assassina como aquela que fez Charlize Theron dar uma reviravolta na própria carreira em Monster. 😉 Brincadeira. Não imagino Amy Adams repetindo os passos de Charlize Theron, mas acho que em algum momento ela vai querer mudar um pouco essa imagem de “garota-boazinha-e-inocente” que ela parece insistir em cultivar.

De qualquer forma, voltemos a Junebug… Amy Adams está ótima no filme (tanto que ganhou muitos prêmios por esse papel) mas, admito, fiquei especialmente impressionada com o trabalho de Embeth Davidtz e o de Ben McKenzie. Embeth está linda e interpreta com precisão sua personagem. Ao mesmo tempo em que transpira uma aura de mulher culta e sensível, ela não deixa de variar rapidamente entre demonstrações e firmeza e fragilidade. Divina. E Ben McKenzie, ainda que tenha nas mãos o papel de um rapaz rude e “limitado intelectualmente”, ou seja, do “vilão” da nossa história, demonstra maturidade e segurança para encarnar um personagem tão problemático e inconstante. E o Alessandro Nivola… além de ser talentoso, está gatíssimo neste filme (me desculpe o público masculino deste blog, mas é a pura verdade!).

Outro tema curioso de Junebug é o das negociações e o da competição no mercado da arte – algo que alguém de “fora” deste meio, como é o caso da maioria do público e dos interessados no tema, nem sonha. Também achei interessante a maneira com que as “excentricidades” dos artistas são tratadas pela história – ora compreendidas, ora ridicularizadas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficou evidente o mal estar sentido por Madeleine quando David Wark deixa claro que não quer que seus quadros parem com judeus. O mesmo artista que é capaz de fazer obras “visionárias” sobre questão como a do racismo de brancos contra negros é racista em relação aos judeus. Interessante paradoxo. E mais um exemplo de como o roteiro de MacLachlan é inteligente e não fecha nenhuma questão sobre o estereótipo de “bandidos” e “mocinhos”.

Falando em artistas, uma curiosidade para quem gostou das obras do personagem de David Wark no filme: seus quadros são de autoria, na verdade, da artista Ann Wood.

Para os que gostaram da trilha sonora pontual de Junebug, formada basicamente por composições clássicas (com exceção da música que dos créditos iniciais e finais), ela é de autoria de Yo La Tengo. A edição do filme, bem feita, é de Joe Klotz.

A sequência das frases mais interessante do filme foi escrita para o ator Scott Wilson. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei arrepiada quando ele responde à Madeleine sobre a esposa, Peg – depois que Madeleine comenta que a sogra tem uma “personalidade forte” (um eufemismo para o jeito rude da mulher): “É sua forma de falar. No fundo ela não é assim. Ela se esconde. Como a maioria”. Palmas! Na verdade, Junebug reflete um bocado sobre este “modus operandi” de grande parte dos personagens do filme. Um jeito de ser e de agir que prima por esconder os sentimentos por trás de uma capa de silêncio, ausência ou uma maneira rude de atuar. Acredito que a forma franca de agir, falar e demonstrar os sentimentos, como é o caso de Madeleine e Ashley, seja a exceção de uma regra – que funciona na vida real também.

Junebug teve uma trajetória premiada: recebeu 16 prêmios e foi indicado ainda a outros 11 – incluindo uma indicação ao Oscar como atriz coadjuvante para Amy Adams. Aliás, a atriz foi a pessoa que mais recebeu prêmios por este filme: um total de 11. Para muitos críticos, ela deveria ter recebido, já em 2006, o seu primeiro Oscar – ela perdeu a estatueta para Rachel Weisz por seu desempenho em The Constant Gardener.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No final de Junebug, o casal de protagonista volta de carro para Chicago. Eles teriam tempo para falar e processar tudo que havia ocorrido na Carolina do Norte – afinal, até chegar em casa, eles teriam pela frente aproximadamente 1,2 mil quilômetros ou algo em torno de 13 horas de viagem segundo um trajeto que tracei no Google Maps.

Junebug estreou em janeiro de 2005 no Festival de Sundance. Depois, em maio, ele passou por Cannes. Nos cinemas brasileiros ele estrou em 2006 mas, antes, em setembro de 2005, ele passou no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Acertadíssima a escolha dos produtores em intercalar a estréia do filme em festivais importantes e em distintos mercados pelo mundo.

Falando em mercados, Junebug arrecadou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,6 milhões – uma quantidade previsível para uma produção considerada independente. Acumulando com a bilheteria no restante dos países, o filme chegou a faturar quase US$ 3,4 milhões – pouco, convenhamos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Os críticos que tem textos linkados pelo site Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 105 textos positivos e apenas 16 negativos para Junebug, o que lhe rende uma aprovação de 87%. Gostei deste texto do crítico Mark Bourne (em inglês) do Film.com no qual ele faz uma análise extensa do filme, destacando as interpretações de Amy Adams e de Scott Wilson. Ele destaca ainda o trabalho do diretor e do roteirista, comentando que o primeiro “traz para o material um olhar a favor de ressonantes metáforas e ambiguidades” e, o segundo, um “ouvido cuidadoso para os diálogos” das pessoas da Carolina do Norte, onde ele teria se formado na escola dramática local. Bourne destaca ainda a capacidade do filme em deixar muitas lacunas em aberto – para serem preenchidas pelo espectador – e a sua vocação por “entregar-nos pequenos enigmas”, como aquele da cena em que Eugene esconde de Madeleine, pouco depois de pensar em mostrar-lhe, um pássaro que esculpiu.

O roteirista Angus MacLachlan estava 15 anos sem lançar um filme escrito por ele. Depois do sucesso de Junebug, ele voltará à cena em 2010 com Stone, um filme dirigido por John Curran (de The Painted Veil) cheio de grandes atores no elenco. Entre os protagonistas, destaque para Robert De Niro, Edward Norton e Milla Jovovich.

CONCLUSÃO: Um filme que começa em uma galeria de arte e termina em um carro que vai cruzar boa parte dos Estados Unidos de Sul a Norte. Junebug é destas produções do cinema indepente dos Estados Unidos que traz novos ares para a arte mais exportada daquele país. Bem escrito, bem dirigido e com atuações inspiradíssimas, Junebug reflete sobre diferentes maneiras de encarar a vida e de lidar com os problemas do cotidiano. De um lado, temos artistas e a uma protagonista habituada a conviver e a respeitar diferentes culturas; do outro lado, uma família de classe média do Sul dos Estados Unidos, “limitada” a uma forma de vida que significa ter filhos, estudar pouco e frequentar sempre a Igreja. O choque destas realidades, a convivência entre os diferentes e a falta de definição entre “mocinhos” e “bandidos” são determinantes neste filme sensível e cuidadoso, que fala de arte, diferenças culturais e famílias.

SUGESTÕES DE LEITORES: Seguindo o meu desafio de colocar, pouco a pouco, a lista de indicações dos leitores deste blog em dia, cheguei até a Junebug. O filme foi indicado pela Manuella no dia 27 de dezembro do ano passado. Grande, grande dica de filme, hein Manu? Eu adorei. Estava precisando mesmo ver um filme bom, depois de uma sequência de filmes “medianos”. Valeu mesmo! E agora espero que você reapareça, porque andas meio sumida, hein? Meu próximo filme será uma produção deste ano, estrelada por dois atores de primeiríssima linha. Estou ansiosa para assistí-lo. Logo mais, comento dele por aqui. Inté!