Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

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Il Racconto Dei Racconti – Tale of Tales – O Conto dos Contos

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Você deve sempre cuidar com o que você deseja. Essa parece ser a máxima ou a “moral da história” de diversos contos escritos em diferentes épocas da História. E esse parece ser o cerne do filme Il Racconto Dei Racconti. Esta é uma superprodução, com locações e paisagens fantásticas, figurinos deslumbrantes e um elenco de atores conhecidos. Pena que a história em si – na verdade, pelo menos três histórias centrais em um filme – não seja tão interessante ou envolvente assim. Lá pelas tantas você continua vendo o filme não porque ele esteja muito interessante, mas essencialmente porque ele é belo.

A HISTÓRIA: Um artista anda por uma rua de chão batido. Ele olha a movimentação da cidade e outros artistas que se preparam para uma apresentação para o rei e a rainha. Dentro do palácio, todos riem da graça dos artistas, menos a Rainha de Longtrellis (Salma Hayek). Séria, ela fica desconcertada quando vê que uma das artistas está grávida. O Rei de Longtrellis (John C. Reilly) corre logo atrás dela para pedir perdão, dizendo que ele não sabia que a mulher estava grávida. A rainha sempre quis ter um filho, mas nunca conseguiu engravidar. Isso muda quando um Necromancer (Franco Pistoni) visita o rei e a rainha e lhes ensina uma fórmula para que a rainha concretize o seu desejo. A partir daí, três histórias se desenvolvem no filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Il Racconto Dei Racconti): Para quem gosta de “conto de fadas” com requintes de crueldade este é um prato cheio. Francamente eu não sabia o que esperar deste filme e, como faço normalmente, não tinha lido nada a respeito antes de assistir a esse filme. Por isso, não sabia que se tratava de “contos de fada” com inspiração em “Contos da Cripta”. 😉

Claro que estou exagerando. Il Racconto Dei Racconti não chega a ser tão macabro ou sinistro quanto o seriado Contos da Cripta, mas ele tem, de fato, muitos momentos sinistros e de estranheza. Basicamente, o filme com roteiro de Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso, baseado no livro de Giambattista Basile, tem como foco três reinados diferentes.

O primeiro e, acredito, o de maior destaque é o que abre o filme, centrado no reinado de Longtrellis. O desejo da rainha em ter um filho leva ela e o marido até as últimas consequências. Depois, temos o Rei de Highhills (Toby Jones), uma figura um tanto estranha que se deixa encantar por uma pulga e que acaba entregando a filha Violet (Bebe Cave) para um Ogro (Guillaume Delaunay). Finalmente, temos o Rei de Strongcliff (Vincent Cassel), um mulherengo que acaba ficando fascinado por uma mulher idosa que, por interferência de uma Bruxa (Kathryn Hunter) acaba rejuvenescendo e se transformando em rainha.

Para quem gosta do gênero fantasia e não se importa muito com a história ser boa ou apenas mediana, este pode ser um bom filme. Da minha parte, normalmente gosto de histórias com mais “substância”, por assim dizer. O que eu vejo em comum entre as três histórias apresentadas por Il Racconto Dei Racconti é a força do desejo e as suas consequências. O ponto positivo desta produção, como comentei no início e na conclusão, sem dúvida alguma é o visual do filme dirigido por Matteo Garrone. As paisagens e os castelos são maravilhosos, assim como os figurinos e a maquiagem. O visual é o ponto forte. Mas o roteiro deixa a desejar.

Falando em desejo, a Rainha de Longtrellis faz de tudo para ter um filho. Ele acaba nascendo com um tipo de “irmão gêmeo da magia”, filho da virgem (Laura Pizzirani) que cozinhou o coração da besta do mar para a rainha comer. Elias (Christian Lees), o filho da rainha, não consegue ficar longe de Jonah (Jonah Lees), mas a rainha não quer dividir o amor do filho e não aceita essa aproximação. Claro que isso não pode terminar bem, não é? A moral da história, para mim, deste conto no filme, é que o amor extremado nos leva à tragédia, e que o amor de mãe realmente pode ser superior a qualquer outro. O exagero, de qualquer forma, nunca é positivo.

No caso da história dos Longtrellis, todos poderiam ser “felizes” e se darem bem se a Rainha não tivesse aquela obsessão por ser a “dona” do filho. Ela queria sempre demonstrar que o seu amor era maior que o dos outros e isso, claro, não poderia levar eles para um lugar muito bacana. Para começar, eu já achava a concordância do rei e da rainha para ter um filho por vias sinistras algo que não poderia acabar bem. Afinal, um Necromancer jamais trataria a vida sem ter a morte como fator inerente – e quem mais deveria morrer para sanar aquele cálculo macabro? Enfim, o desejo pode levar as pessoas a alternativas realmente sombrias.

O segundo conto, do Rei de Highhills, avança no segmento sinistro, mas com um pouco mais de humor. Muito centrado em si mesmo, o Rei dava mais atenção para os seus próprios desejos e curiosidades do que para a filha. Prova disso é quando Violet faz um belo concerto e o pai dela está mais preocupado com o “controle” que acredita ter com uma pulga que, depois, ele pega como seu “animal” de estimação. Sinistro. Como em outros contos, o Rei faz um concurso para encontrar o marido para a filha e ela acaba caindo nos braços de um ogro.

Aqui talvez esteja a parte mais interessante do filme. Depois de ser entregue para o ogro e virar prisioneira dele em uma caverna no topo de uma montanha, Violet pede ajuda para uma artista circense. No dia seguinte ela volta com o marido e os dois filhos – que, curiosamente, aparecem nas cenas iniciais do filme – para ajudar Violet. Mesmo eles conseguindo escapar e derrubar o ogro da montanha, ele volta para perseguir a sua “propriedade”.

Achei interessante o desfecho desta história porque ele demonstra a “força da mulher”. Mas, novamente, aqui refletimos sobre o desejo de Violet em ter um marido – com um pai “cabeça de vento” como o que ela tinha, esse desejo custou caro para a moça que realmente poderia ter sido feliz de outra forma.

Finalmente, temos a história do Rei de Strongcliff, um fanfarrão que vive entre prostitutas e cortesãs e que acaba sendo enganado por duas irmãs que lembram a história de Elias e Jonah (elas também seria fruto de uma magia de um Necromancer? Isso não fica claro, mas sugerido). Com o tempo das batalhas no passado, o Rei fica fascinado pela voz de uma garota que ele acha que é jovem e que pode ser conquistada por ele – os jogos amorosos são a sua última “batalha” interessante.

As irmãs Dora (Hayley Carmichael) e Imma (Shirley Henderson) acabam enrolando o rei. Especialmente Dora, que fica encantada com a joia que recebe do rei e sonha com as maravilhas que ela pode ter dentro do palácio. Com a ajuda da irmã ela tenta enganar o rei e acaba sendo jogada para fora pela janela, literalmente. Mas uma bruxa encontra ela na floresta e cumpre o seu desejo de tornar-se jovem novamente (fase interpretada por Stacy Martin).

A história das duas irmãs sem dúvida é a mais mal acabada do filme. Dora consegue o que quer, tornar-se rainha, mas por um certo período de tempo. Enquanto isso a irmã Imma, que a exemplo de Elias e Jonah não quer ficar longe de Dora, vai até as últimas consequências para se tornar jovem novamente e ficar perto de Dora. Mas depois de buscar a sua própria saída, o espectador não fica sabendo o que aconteceu com ela – depois que ela sobe a escadaria, não sabemos se ela morreu, foi barrada antes de entrar no palácio, ou qualquer outra saída possível. Uma falha do filme, pois, deixar a história dela inacabada.

Novamente a questão do desejo, desta vez de Dora em se tornar rainha, não termina bem. Porque ela usa de um artifício mentiroso para chegar até ele. Imma também se dá mal ao tentar rejuvenescer. Como diversos “contos de fadas”, Il Racconto Dei Racconti tenta ensinar que a mentira e a busca dos próprios desejos não importa sob que condições nunca podem terminar bem. Tem a sua validade, mas acho que pode interessar mais para um público jovem. Como já tenho uma certa bagagem de cinema, achei apenas mediano. Tecnicamente, muito bem realizado. Mas a história é fraquinha.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme que se destaca pela parte técnica – e pelas interpretações dos atores também. Isso porque, como dito antes, o ponto fraco da produção é o roteiro. Da parte técnica, sem dúvida alguma direção de fotografia de Peter Suschitzky é o ponto mais forte. Belíssimo trabalho, muito, mas muito ajudado pelas locações belíssimas. Sem dúvida alguma este filme é mais um estímulo para alguém fazer turismo na Itália. 😉

Se você ficou, como eu, interessado(a) em saber em que locais Il Racconto Dei Racconti foi filmado, segue a lista de locações: Castelo del Monte, em Andria, na Apulia; Castelo Donnafugata, em Ragusa, na Sicília; Castelo Roccascalegna, em Roccascalegna, em Abruzzo; Palácio Vecchio, em Florence, na Toscana; além de locais em Sovana, Gioia del Colle, Statte, Mottola, Sorano e Reggello, todos na Itália.

Como este é um filme de fantasia, além da direção de fotografia belíssima de Suschitzky, um ponto forte também é a trilha sonora do veterano e premiado Alexandre Desplat. Também merece uma menção especial e aplausos os figurinos assinados por Massimo Cantini Parrini. Fabulosos. A direção de Garrone é competente, sempre valorizando os pontos fortes do filme – locações e atores. A edição de Marco Spoletini; o design de produção de Dimitri Capuani; a direção de arte de Marco Furbatto, Massimo Pauletto e Gianpaolo Rifino; e a decoração de set de Alessia Anfuso também são muito importantes para dar o ritmo da história e torná-la bem ambientada.

A maquiagem também é um ponto fundamental desta história. Um grupo de 14 profissionais coordenados por Novella Borghi, Biasi Pierangela, Diego Prestopino e Gino Tamagnini tiveram trabalho nesta produção. Muitos detalhes para tornar os personagens com as características que eles deveriam ter. Um bom trabalho.

Il Racconto Dei Racconti estreou em maio de 2015 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de outros 21 festivais. Nesta trajetória ele acumulou cinco prêmios e sete indicações. No Prêmio David di Donatello ele recebeu os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Figurino; e do Italian National Syndicate of Film Journalists ele recebeu os prêmios de Melhor Design de Produção, Melhor Figurino e Melhor Som.

Como o espectador pode perceber, esta é uma superprodução. Por isso mesmo ela custou cerca de 12 milhões de euros. Nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 52 mil – uma quantidade irrisória. Na Itália o filme acumulou cerca de 2,95 milhões de euros. Ainda assim, bem distante do custo inicial. Até agora, ele deu um belo prejuízo para os realizadores.

Apesar de ser todo falado em inglês – a razão, imagino, seria o elenco internacional, e o foco global da produção -, este filme é uma coprodução da Itália, da França e do Reino Unido. Pelo resultado nas bilheterias que eu citei anteriormente, sem dúvida alguma ele não conseguiu ter a visibilidade entre os filmes de fantasia desejada pelos produtores.

Agora, as tradicionais curiosidades sobre o filme. Ele é baseado no Pentamerone (ou “A Tale of Tales, or Entertainment for Little Ones”), uma coleção de contos escritos no século 17 pelo cortesão e poeta italiano Giambattista Basile.

Este é o primeiro filme falado em inglês do diretor italiano Matteo Garrone. O diretor, aliás, teve que ser inventivo nesta produção. A cena da luta entre o Rei de Longtrellis e o dragão marinho era para ter sido mais dinâmica, mas ele teve que recorrer a outros recursos, como a visão que o rei tinha do fundo do mar, porque o dragão, que foi construído em tamanho real e não é computação gráfica, acabou sendo avariado pelo filho do diretor e alguns amigos quando eles brincavam com o “bichano” em um intervalo das filmagens. Pelo visto eles não tiveram tempo para consertá-lo. 😉 E falando em “monstros” e/ou bichos que aparecem em cena, achei eles bastante toscos… me lembraram um pouco os filmes antigos que tinham essas figuras estranhas.

O italiano Matteo Garrone tem 13 títulos como diretor no currículo, incluindo longas, documentários e curtas. Acredito que o filme mais conhecido dele tenha sido Gomorra (comentado aqui no blog) – ele foi, pelo menos, o único que assisti dele até ver Il Racconto Dei Racconti. O diretor é bem premiado, com 30 prêmios no currículo e outras 41 indicações. Vale acompanhá-lo, pois, e ver o que mais ele entregará a partir de agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção. Bastante ajustada, eu achei, até levando em conta o padrão do site. Eu só dei a nota acima porque gostei muito, realmente, da direção de fotografia, figurinos e das locações. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 47 textos positivos e apenas 12 negativos para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,9.

Para não dizer que eu não falei dos atores, achei a escolha do elenco muito boa. Pena que John C. Reilly apareça tão pouco na produção. Os demais estão bem, sem nenhum grande destaque. Talvez os melhores trabalhos sejam de Salma Hayek e das revelações – ao menos para mim – Christian e Jonah Lees e Bebe Cave. Gostei deles.

CONCLUSÃO: Um filme de fantasia focado em três histórias centrais envolvendo reis, rainhas, príncipes e princesas. O melhor de Il Racconto Dei Racconti é o seu visual, a reconstrução de época, as paisagens, direção de fotografia e figurinos. As histórias em si, bastante parecidas com os contos que escutávamos quando éramos crianças. Nada demais. Como aconteceu recentemente com a revisão dos contos como histórias um tanto cruéis e sombrias, aqui também temos também uma carga macabra e violenta bastante presente. Quase uma história de terror ambientada em época medieval. É interessante, mas não é nem um pouco imprescindível. Se tiveres opção melhor para assistir, opte por ela.