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Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

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Há tempos isso não acontecia comigo. Assistir a um filme e demorar para chegar a conclusão se eu havia gostado do que tinha assistido e, em caso positivo, do quanto. Birdman fez isso comigo não apenas por ser um filme incômodo, muito crítico ao mainstream, mas também porque ele é belo em sua rispidez crítica. Apesar destes elementos, fiquei em dúvida porque me lembrei de outras produções que fizeram o mesmo, e não consegui ver toda aquela inventividade esperada em Birdman. Ainda assim, ficou claro que este é o filme mais ousado do Oscar 2015. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi corajosa em indicá-lo a tantos prêmios.

A HISTÓRIA: Um corpo celeste queima ao dar entrada na órbita da Terra. Corta. Dentro de um camarim, Riggan (Michael Keaton) levita enquanto pensa em como ele foi chegar ali. Reggan considera o lugar horrível, e está pensando nisso quando escuta o aviso do Skype. Do outro lado da câmera, Sam (Emma Stone), filha dele, pede ajuda do pai sobre as flores certas que ela deve comprar. Ele pede alquemila, ou outra que cheire bem, menos rosas. Ela diz que odeia aquele emprego, e desliga. Reggan se olha no espelho, e é chamado para o ensaio da peça de teatro que ele está dirigindo e protagonizando. Um dos atores, Ralph (Jeremy Shamos), sofre um acidente e precisa ser substituído. A partir daí, acompanhamos o desafio de Reggan em realizar o sonho de fazer algo sério em sua carreira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Birdman): Esta produção começa muito bem. O título do filme é promissor, assim como o começo dele com o texto de Late Fragment, de Raymond Carver, e a sequência de imagens icônicas antes de Michael Keaton começar a dar o seu showzinho particular.

Não há dúvidas que o roteiro escrito pelo diretor Alejandro González Iñarritu ao lado de Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo é o que o filme tem de melhor. Junto com a própria condução fluída de Iñarritu e o equilíbrio perfeito que ele consegue entre a valorização do trabalho dos atores e o foco constante no entorno em que eles estão imersos.

Ainda assim, o principal problema do filme também é o roteiro do quarteto e a sua preocupação em não apenas falar dos bastidores da vida de quem vive entre a arte do teatro e a indústria do cinema, mas também sobre a natureza das aspirações que move a cada indivíduo em cena – ou na plateia. Digo isso porque depois daquele começo tão promissor, somos imersos em um enredo de constante quebra de braços entre egos diferentes e suas motivações.

Para quem é ou foi ator Birdman deve ser uma ironia constante. Não duvido, apesar de nunca ter sido profissional desta área, mas apenas uma interessada e uma jornalista que já acompanhou de perto diversos atores e diretores de teatro, que muito do que vemos em cena acontece na vida real. A insegurança perto de uma estreia, o estresse por fazer sucesso e a libido extremada com constantes mudanças de parceiros sexuais fazem parte do jogo.

O problema, conforme o filme vai avançando, é que Birdman vai se tornando muito afeito a quem vive esta realidade. O grande público, aquele mesmo que gosta de acompanhar determinados atores e diretores mas que, dificilmente, vive em disputa tão acirrada de egos, sente-se pouco tocado pelos bastidores da coxia. Para nossa sorte, contudo, Birdman vai muito além deste cenário e ambiente.

Com bastante ironia e autocrítica para o próprio cinemão dos Estados Unidos, muito lucrativo em sequências algumas vezes infinitas de filmes com heróis em quadrinhos como protagonistas, pouco a pouco Birdman vai entrando na avaliação da própria vida feita por um ator que um dia já teve sucesso, mas que agora só pensa em voltar à cena para ganhar algum respeito. Separado de Sylvia (Amy Ryan), sentindo-se culpado pela filha ter se tornado uma viciada – afinal, ele sempre é acusado de ter sido um pai ausente – e há muito tempo sem fazer um papel de sucesso, o protagonista de Birdman quer renascer das cinzas.

Pena que nem todos nasceram para serem uma Fênix. Mas Riggan se esforça. O problema é que ele encontra um jovem talento, muito badalado por público e crítica, para duelar com ele em sucesso, prestígio e em cena. Mike (Edward Norton) aparece em cena para substituir o desfalque Ralph e parece a salvação da lavoura. Logo que o nome dele é anunciado, a procura pela peça de Riggan ganha novo impulso nas bilheterias.

O que pareceria algo positivo logo se mostra complicado porque Mike encarna o ator-estrela, aquela figura “indomável” que sente que é mais verdadeiro sobre um palco do que na vida real. Ele tem rompantes dos mais variados, o que chega a ser cômico. Mas o efeito para Riggan é devastador. Ele está cansado de tudo aquilo, e ao perceber uma versão mais jovem de si mesmo, talvez, ele avança ainda mais na autocrítica.

O problema de Birdman, para mim, nasce justamente desta clássica oposição entre o “ator em decadência” e o “jovem talento em ascensão”. Ainda que sejam filmes muito diferentes, ao detectar esta característica em Birdman, para mim foi impossível não lembrar do excepcional All About Eve, clássico de 1950 dirigido por Joseph L. Mankiewicz e com um show de interpretação de Bette Davis. A atriz veterana, na interpretação de sua vida, teve em Anne Baxter uma dobradinha perfeita.

Há 65 anos atrás Mankiewicz tratou como um gênio a questão do ego, da disputa pelo holofote, pelo poder e pela aprovação no mainstream. Agora, Iñarritu nos apresenta algo similar, mas com uma linguagem renovada, novos ícones para serem combatidos e pouco mais que isso. É pouco, muito pouco. Ser ácido com a busca do artista e também com o crítico que aparece como uma “estrela frustrada” e amargurada é fácil. Difícil é fazer um clássico para a posteridade como All About Eve.

Mas para não dizer que não falei de flores, vou citar o único aspecto que, para mim, faz o filme ser um pouco salvo. Ou, pelo menos, ser merecedor da nota abaixo. Se toda a discussão sobre a disputa entre egos na arte – ou na tentativa de arte – já é velha conhecida do cinema, o que Birdman traz de interessante é a forma com que o protagonista conversa com o próprio ego e referências a dois símbolos muito interessantes: o mito de Ícaro e a noção de super homem de Nietzsche.

No primeiro caso, o mito de Ícaro, vale citar um pouco da história do personagem segundo a mitologia grega. Antes de falar de Ícaro, interessante comentar feitos do pai dele, Dédalo, que era um grande arquiteto, artista e inventor. Certa vez, a irmã de Dédalo colocou o filho, Perdix, para aprender o ofício com o irmão. Mas o rapaz começou a se sair tão bem que, com inveja, Dédalo aproveitou uma ocasião em que eles estavam no alto de uma torre para empurrar o rapaz de lá. Atena, deusa que favorece o engenho, viu a cena e alterou o destino de Dédalo, fazendo com que ele se transformasse em um pássaro durante a queda.

Em certo momento, Dédalo foi chamado para prestar serviços para o rei Minos, de Creta – incluindo o Palácio de Minos. Ele também construiu o labirinto onde o rei aprisionou o seus inimigos e o temido Minotauro. Lá pelas tantas, Dédalo ajudou a princesa Ariadne a libertar Teseu e, por esta traição, ele foi aprisionado junto com o filho Ícaro no labirinto.

Como escapar a pé do labirinto era muito complicado e o caminho do mar também era controlado pelo rei, Dédalo pensou na alternativa de escapar com o filho pelo ar. Foi aí que ele construiu asas gigantes com galhos de vime e cera, orientando o filho de como fazer para voar e alertando que ele deveria ficar longe do sol. Apesar da advertência, Ícaro ficou empolgado com a sensação de liberdade do voo e subiu cada vez mais alto, até ter as asas destruída, cair no mar e morrer.

Contei essa história de Dédalo e de Ícaro porque é evidente o paralelo com Birdman. Primeiro, porque a inveja fez Dédalo matar a Perdix que, no fim das contas, na queda, virou um pássaro. Depois, que Ícaro foi absorvido pela sensação de liberdade e descuidou da própria segurança. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A visão otimista da história de Birdman pode nos levar por este lado. Riggan também sentiu inveja e, fascinado pela liberdade, no que ela significava o fim de todos os problemas, preocupações e culpas, ele também se lançou no espaço. Iñarritu sugere que, no ato, ele virou um pássaro. Forma poética, é claro.

Outra forma de encarar Birdman é observar a produção dentro do conceito de Nietzsche do super homem. Para mim, não foi à toa aquela cena de um meteoro chegando na terra, ou mesmo os diálogos que Riggan escuta e que seriam de seu próprio ego – plasmado no sucesso que ele viveu como Homem-Pássaro. Aquela cena do meteoro me fez lembrar o personagem do Super-Homem. Mas o que Nietzsche defende como super homem era o modelo ideal para elevar a humanidade, segundo o qual não são todos os indivíduos que vão evoluir, mas apenas os mais dotados e fortes.

Existiria, assim, o homem superior. Aquele que se elevaria acima da mediocridade e que teria uma existência baseada no esforço e na educação, sem contaminar-se com o amor que, no fim das contas, apenas impede o bom senso e o melhoramento constante do indivíduo. O ego de Riggan, que lá pelas tantas se materializa na figura do personagem que ele viveu do Birdman, defende exatamente isso. De que ele é um ser superior e que ele deve voar acima da mediocridade dos outros seres.

Mas o problema de Riggan, para mim, é que ele buscava, a exemplo do que afirmam as frases iniciais de Raymond Carver, apenas o amor. Seja ele prático, em uma vida feliz com a mulher e a filha, seja ele figurado no aplauso das audiências e nas ótimas avaliações dos críticos. No fim das contas ele queria ser aprovado, reconhecido, amado por todos.

Não conseguiu, assim, coincidir estas aspirações com o modelo de super homem de Nietzsche, e que o seu próprio ego defendia. No fim, ele só encontrou a alternativa da fuga. Do salto. De uma admiração impossível de admirar da liberdade dos pássaros.

A reflexão é boa, a sensação de incômodo permanece, mas ainda assim o filme não me convenceu de todo. Talvez porque eu não acredito que o mundo e a realidade sejam tão sem esperanças, tão cínicos, tão sem horizonte. Pessoalmente, e meu julgamento é composto também de meus gostos pessoais, prefiro outro tipo de filme e de reflexão.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento desta produção que chama a atenção é o trabalho do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu. Ele faz a escolha cuidadosa de cada enquadramento de cada sequência, aproveitando muito os corredores e bastidores do teatro para aprofundar-se nas angústia e no habitat do protagonista e dos demais personagens. Outro elemento que logo ganha protagonismo é a trilha sonora de Antonio Sanchez, bem ao estilo de música acidental que, espalhada aqui e ali na produção, cria ainda mais o clima de realismo, sofisticação e angústia.

Vale também destacar, dentro dos aspectos técnicos do filme, a direção de fotografia de Emmanuel Lubezki; a edição de Douglas Crise e Stephen Mirrione; o design de produção de Kevin Thompson e a decoração de set de George DeTitta Jr.

Ainda que centrado em poucos personagens, este filme tem um bom número de atores de peso em papéis secundários. Claro que quem rouba a cena e carrega a produção nas costas é Michael Keaton. Há tempos não vemos o ator em um desempenho tão bom. Mas ele tem ao seu lado uma grata surpresa: Emma Stone em uma interpretação de gente grande. A garota rouba a cena em muitos momentos. Edward Norton e Naomi Watts, ela interpretando a atriz Lesley, para mim, apenas fazem um papel mediano. Nada muito além do que estamos acostumados a ver.

Outra intérprete que tem presença marcante toda vez que aparece em cena é Amy Ryan. Ela está muito bem – ainda que apareça pouco. Zach Galifianakis também está bem no papel de Jake, empresário de Riggan. Para fechar o grupo de atores que ganha mais evidência no filme está Andrea Riseborough que se sai bem como Laura, a outra atriz em cena no teatro e que é namorada do protagonista.

Birdman estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. De lá para cá, a produção participou de outros 22 festivais, incluindo os de Telluride, Zurique, Londres, Viena, Estocolmo, Mar del Plata e Dubai. Nesta trajetória, Birdman conquistou impressionantes 119 prêmios e 148 indicações – incluindo nove indicações ao Oscar. Estes números são realmente impressionantes.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os Globos de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Michael Keaton e o de Melhor Roteiro; o de Melhor Ator para Keaton no Prêmio Gotham; o de melhor Diretor de Fotografia do ano para Emmanuel Lubezki no Prêmio de Cinema de Hollwyood; o de Melhor Ator para Keaton, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton e por figurar no Top Ten de 2014 segundo a National Board of Review; e quatro prêmios secundários no Festival de Cinema de Veneza. A maioria dos prêmios recebidos pelo filme até agora foi conferida por associações de críticos de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Birdman teria custado cerca de US$ 18 milhões. Para os padrões de Hollywood, uma produção de baixo orçamento. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos o filme somou pouco mais de US$ 28,7 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, ele soma outros US$ 13,4 milhões. Está começando a dar lucro, pois. Mas com tantas indicações ao Oscar, é tendência que fora dos Estados Unidos, em especial, ele comece a arrecadar mais dinheiro.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Birdman foi totalmente filmado em Nova York, como a história mesmo sugere.

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme: de acordo com o ator Michael Keaton, Birdman foi o filme mais desafiador que ele já fez. Ele comentou também que o personagem de Riggan é o mais diferente, na comparação consigo mesmo, que ele alguma vez interpretou.

Na entrevista que Riggan dá no camarim para a imprensa que está divulgando a peça dele, o ator comenta que não interpreta a Birdman desde 1992. Foi este ano quando, na vida real, foi lançado Batman Returns, no qual Keaton interpreta ao personagem-título.

Este filme todo foi rodado em menos de um mês. De fato, não era preciso mais que isso – até pela dinâmica da história. Boa parte da produção foi rodada dentro do St. James Theatre na Broadway.

Os atores tiveram que se esforçar para encaixar nos longos takes de filmagens de Iñarritu. Do elenco, Emma Stone foi a que protagonizou o maior número de erros e Zach Galifianakis foi o que errou menos.

Da mesma forma com que o personagem de Keaton é uma certa paródia da trajetória do ator, que protagonizou na carreira um Batman, o personagem de Edward Norton brinca com a reputação dele de ser muito ríspido e difícil de lidar no trabalho.

O tapete que vemos em mais de uma cena nos corredores dos bastidores do teatro é o mesmo que foi usado no clássico de Stanley Kubrick The Shining.

O título complementar do filme, “The Unexpected Virtue of Ignorance”, faz referência ao título do artigo que a crítica Tabitha (Lindsay Duncan) teria escrito elogiando a peça e o desempenho de Riggan.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção. O que é uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 232 textos positivos e apenas 19 negativos para Birdman, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,5.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Canadá.

CONCLUSÃO: O roteiro de Birdman atira para quase todos os lados no terreno da cultura pop dos Estados Unidos. Tipo de críticas que outros filmes menos “sérios” já haviam feito. Mas fora esta camada superficial, o filme de Alejandro González Iñarritu vai mais fundo na fogueira das vaidades e na disputa de egos do cinema e do teatro. Como outros filmes fizeram isso antes, não há muita novidades neste aspecto. O único ponto que esta produção avança é no mal estar que ela provoca, em uma que outra risada que desperta e no questionamento sobre o mito de Ícaro e o conceito de super homem de Nietzsche. É um filme corajoso, mas menos inventivo do que eu esperava. E, sem dúvida, não é o melhor filme do ano passado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Birdman foi o filme que recebeu o maior número de indicações na premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood junto com The Grand Budapest Hotel. Os dois foram indicados em nove categorias. Não deixa de ser surpreendente esse número de indicações justamente para estas duas produção, já que tanto Birdman quanto The Grand Budapest Hotel são um bocado alternativas. Especialmente a primeira.

Birdman concorre nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator para Michael Keaton, Melhor Direção para Alejandro G. Iñarritu, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Após assistir a esta produção, tenho sérias dúvidas sobre que estatuetas ela poderá levar para casa. Em cada uma destas categorias, para mim, ela tem concorrentes de peso e que levam vantagem pela qualidade. Ou seja, pelo meu critério, Birdman poderá sair de mãos vazias do Oscar. Vejamos.

Na disputa de Melhor Filme, considero Boyhood favorito. Michael Keaton mereceria um Oscar pelo excelente trabalho nesta produção, mas acho muito difícil ele ganhar do favoritíssimo Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Melhor Direção, acredito, irá para Richard Linklater – mas Wes Anderson pode surpreender nesta categoria. Melhor Roteiro Original pode ser uma opção para Birdman, ainda que o meu voto iria para Boyhood.

Esta produção ganhar em Melhor Fotografia seria uma verdadeira zebra. Ida leva franca vantagem, e mesmo Unbroken e The Grand Budapest Hotel são melhores que Birdman nesta categoria. Emma Stone tem praticamente chance alguma – Patricia Arquette deve levar a estatueta para casa.

Edward Norton sempre merece um Oscar, mas o meu voto iria para Ethan Hawke – pelo menos até agora, preciso ainda ver a outros três trabalhos. Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som são duas categorias em que o filme corre por fora, tendo outros fortes candidatos como favoritos – a exemplo de American Sniper, Interstellar e Unbroken. Resumindo, não seria uma total surpresa o recordista de indicações sair de mãos vazias. Mas acredito em uma ou duas estatuetas, mesmo que o gosto do espectador possa preferir outro dos indicados como ganhador.

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The Hangover – Se Beber, Não Case

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Sempre que um filme vira um fenômeno inesperado nos Estados Unidos, um bichinho da curiosidade se manifesta em mim. Não resisto. Por mais que tudo indique que tal produção deve ser uma bomba – ou, pelo menos, algo fraquinho, com idéias batidíssimas tentando ganhar uma roupagem nova. Esse é o caso de The Hangover, um filme que virou sensação nas terras do Tio Sam e em tantos outros mercados mundo afora. O problema é que, exceto por algum suspense e uma ou duas piadas engraçadinhas jogadas aqui e ali, este é o típico filme morno, que não provoca gargalhadas e nem resiste na memória por muito tempo. Em outras palavras: muito barulho por nada. O último filme do gênero que eu assisti foi Superbad (comentado aqui), um fenômeno em 2007 – e que, francamente, achei mais criativo e engraçado que este The Hangover.

A HISTÓRIA: Tracy Garner (Sasha Barrese) está desesperada porque faltam cinco horas para seu casamento e o noivo, Doug Billings (Justin Bartha) ainda não voltou da despedida de solteiro. Phil Wenneck (Bradley Cooper), um dos amigos que viajou com Doug para Las Vegas, liga para Tracy para comunicar-lhe que o casamento não deve sair porque o noivo está desaparecido. A partir deste momento, voltamos dois dias na história para saber o que aconteceu com Doug e seus três companheiros de viagem: Phil, Stu Price (Ed Helms) e Alan Garner (Zach Galifianakis).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Hangover): Algo eu tenho que admitir: esta produção começa com o pé direito. Primeiro, pelo suspense: afinal, que diabos aconteceu com Doug para que um de seus amigos, machucado, ligue para a noiva dele informando que o casamento não deverá ocorrer? Depois que a trilha sonora, assinada por Christophe Beck é um prato cheio para cair no gosto do público, resgatando músicas que martelaram nas rádios há pouco tempo – como Who Let the Dogs Out, de Baha Men, ou Yeah! de Usher Raymond, Ludacris e Lil’Jon. O problema do filme é que ele vai bem até o momento de sua segunda quebra narrativa – depois disso, The Hangover vira uma historinha linear previsível, cheia de estereótipos e de piadas pouco engraçadas.

Honestamente, se analisarmos The Hangover junto com Superbad, só posso concluir uma coisa com estes dois super fenômenos de bilheteria ianque: o público estadunidense adora um roteiro que resgata estereótipos, tira sarro de minorias (raciais, sexuais ou o que for) e que repete fórmulas. Mas como disse antes, o início de The Hangover até que convence. Um acerto do roteiro de Jon Lucas e Scott Moore é o de promover duas reviravoltas na história. The Hangover começa praticamente pelo final – com os últimos preparativos para o casamento de Doug e Tracy. A partir daí, voltamos dois dias no tempo, quando o futuro genro de Sid Garner (Jeffrey Tambor) recebe do pai de Tracy um carrão para viajar até Las Vegas.

A história passa a ser linear até que o quarteto de amigos brinda pelo casamento de Doug no topo do Caesars Palace e, novamente, o roteiro passa por uma quebra narrativa. A sequência seguinte mostra a manhã pós-farra de três dos quatro amigos – Doug sumiu. Sem lembrar de nada da noite e madrugada anterior, Phil, Stu e Alan encontram um tigre e um bebê no quarto do hotel e, em busca de respostas para o que aconteceu, começam a refazer parte dos passos da despedida de solteiro de Doug. O trio corre contra o tempo para consertar seus erros e encontrar o noivo a tempo para que o casamento aconteça.

Eu estava preparada para dar muitas risadas com este filme mas, francamente, The Hangover não me convenceu. Nem para rir ele serve. Quer dizer, ele talvez agrade às pessoas que acham engraçadas as piadas envolvendo um bebê ou um chefe da máfia chinesa “afeminado”. Para mim, esse tipo de piada é um recurso lamentável, ridículo, sem graça alguma. Mas paciência… sei que há gosto para tudo. De qualquer forma, gostei dos atores principais do filme – especialmente de Bradley Cooper. Também aprovei a direção de Todd Phillips, que consegue extrair um bom ritmo da história através de diferentes recursos de câmera. E a trilha sonora, é claro, possivelmente o que há de melhor em The Hangover.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelo roteiro e pelas “piadas”, possivelmente este filme mereceria uma nota ainda menor. Mas acho que ela merece um cinco, pelo menos, pelo trabalho competente de Phillips e do diretor de fotografia Lawrence Sher. Graças a eles, Las Vegas parece mais atrativa do que nunca. Também gostei, como disse antes, dos atores que encabeçam o elenco. Além dos já citados, destaco a presença de Heather Graham, belíssima, como Jade (a dançarina que acaba se casando com Stu em sua noite de loucuras).

Mike Tyson faz uma participação especial em The Hangover – o ex-pugilista chega até a cantar. Achei a participação dele engraçada de tão tosca.

Este filme teria custado US$ 35 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 268 milhões. Um lucro espantaso! Fora dos States, até o dia 27 de junho, The Hangover teria arrecadado mais US$ 201 milhões.

Achei curioso o título que o filme recebeu na Espanha: “Resacón en Las Vegas”. 😉 Resacón é como uma ressaca gigante de bebedeira. Convenhamos que um título bem mais condizente com o filme que “Se Beber, Não Case”, como ele passou a ser chamado no Brasil. E uma curiosidade: “The Hangover” significa, literalmente, “A Ressaca”.

Um dos fatores que acredito terem ajudado The Hangover na conhecida propaganda boca-a-boca foi o de que sua história pode ser facilmente entendida e, principalmente, identificada pelo público – especialmente o masculino. Afinal, quem nunca fez besteiras em uma noitada qualquer? Quem nunca exagerou na bebida – ou conheceu alguém que tenha feito isso? E, claro, o momento de passagem para os homens da vida de solteiro para a “vida adulta” de casado sempre rende piadas.

E um detalhe sobre a história (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): como diabos os amigos de Doug reconheceram o colchão do amigo pendurado na estátua do Caesars Palace? Ele não parecia a qualquer outro? Bem, talvez vocês argumentem que eles concluíram que o colchão era de Doug porque, afinal, não apenas o amigo deles tinha sumido do quarto de hotel, mas também o colchão de sua cama. Ok, até “forçando um pouco a barra” podemos aceitar essa explicação. Mas daí vem outra pergunta: Doug não teria aproveitado que uma equipe subiu até o topo do hotel para tirar o colchão e, finalmente, sair dali? Afinal, ele estava se queimando no sol… mas não, um grupo de pessoas sobe até lá e nem o Doug e nem estas pessoas fazem com que ele saia do local. Sinistro! Esta parte do roteiro não me convenceu – ainda que, claro está, se não fosse por este “deslize”, o restante das confusões não teriam acontecido e este filme não existiria. 😉

Para os que gostam de saber o nome das pessoas envolvidas na parte técnica de cada projeto, destaco ainda o trabalho da editora Debra Neil-Fisher.

Atores secundários que acabam tendo um certo destaque em The Hangover: Ken Jeong como Mr. Chow, o mafioso chinês que acaba sendo enganado pelos amigos em noite de despedida de solteiro; Rachael Harris como Melissa, a namorada autoritária de Stu; Mike Epps como o Doug “negro”, vendedor de drogas que acaba sendo confundido com o noivo de Tracy; Matt Walsh como o Dr. Valsh, que atendeu Phil no hospital; e Jernard Burks como Leonard, o braço direito de Mike Tyson.

The Hangover registra uma nota bastante decente para o gosto dos usuários do site IMDb: 8,1. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes praticamente acompanham esta nota: no site estão registrados 150 textos positivos e 42 negativos para esta produção (o que lhe garante uma aprovação de 78%).

Até o momento, The Hangover foi indicado a cinco prêmios – todos no Teen Choice Awards – mas, no final, não levou nenhum deles para casa.

Achei interessante que o site IMDb divulga como site oficial do ator Justin Bartha o seu Twitter – vale dar uma conferida.

CONCLUSÃO: Mais um filme da série “faremos-você-rir-com-piadas-idiotas-e-tirando-sarro-de-quem-aparecer-pelo-caminho”. Fenômeno das bilheterias nos Estados Unidos e em outros mercados pelo mundo, The Hangover deve ter caído no gosto popular porque é facilmente reconhecido como uma história “plausível sobre uma grande bebedeira”. Mas, francamente, ele é menos engraçado do que poderia ser. Fazendo piadas com personagens como um bebê, uma stripper, um lerdo alternativo e um chinês mafioso afeminado, este filme é daqueles sucessos de bilheteria fácil e que não convence. Honestamente, ele deveria entrar para o pacote de “filmes-para-ver-quando-não-houver-nada-melhor-para-fazer”. Algum divertimento e alguma risada ele até que arranca… para não dizer que The Hangover é um completo desperdício.