A Star Is Born – Nasce Uma Estrela

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Sabe um filme que começa muito bem e que depois “descamba”? Para quem não conhece o manezês, vou explicar: aquela produção que começa com uma boa pegada e depois segue ladeira abaixo. Para mim, isso é exatamente o que acontece com A Star Is Born. Mas antes, um alerta importante: se você é super fã de Lady Gaga, nem se dê ao trabalho de continuar lendo. Sim, ela está muito bem no filme. Sim, a música é o melhor desta produção. Mas isso é tudo. Em sua parte inicial, A Star Is Born é envolvente, tem uma música excelente e nos faz embarcar de coração e alma. Mas isso não dura muito tempo.

A HISTÓRIA: Ouvimos os gritos de uma plateia. Vemos a um músico sobre o palco. No backstage, Jack (Bradley Cooper) toma um comprimido antes de entrar em cena e enlouquecer o público. O show começa, e a câmera está focada nos músicos e na visão de Jack de tudo aquilo. Jack canta uma de suas várias histórias pessoais, entregando-se em cada palavra. No final do show, ele entra em um carro.

Parece exausto, mas manda o seu motorista, Phil (Greg Grunberg) dirigir até que eles encontrem um bar aberto. Corta. No banheiro de um restaurante, Ally (Lady Gaga) discute com alguém pelo telefone. Quando está saindo, o chefe dela pede que ela tire o lixo. O amigo, Ramon (Anthony Ramos), pede que o chefe a deixe brilhar. Depois de trabalhar no restaurante, Ally vai se apresentar em um clube, onde acaba tendo o seu talento conferido de perto por Jack.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Star Is Born): Eu vou ser franca com vocês. Quando eu fui assistir ao filme A Star Is Born, eu fui com o peito aberto. Querendo ser surpreendida mesmo. Afinal, tinha ouvido falar – e não lido, vejam bem – todas as críticas positivas e o burburinho sobre o filme.

Daí que, ao assisti-lo, logo no início, fiquei fascinada pela produção. Realmente a música da parte inicial, na noite em que os protagonistas passam juntos e até o momento em que Jack deixa Ally em casa, me levaram ao céu. Amo boa música. Não vivo sem ela. Então gostei muito das composições do filme, especialmente nesta parte inicial, da direção de Bradley Cooper e da atuação dele e de Lady Gaga.

Tudo isso é verdade. Mas é verdade, também, que eu não consigo assistir a um filme que começa bem e que depois segue ladeira abaixo. E isso, especialmente, por escolhas ruins de roteiro. E é exatamente isso que acontece com A Star Is Born. O coração de um filme – ou a alma? não sei bem ao certo – é o seu roteiro. Uma produção pode ser brilhante com um ótimo roteiro que sustenta aos demais elementos que fazem um filme. Ou pode ser uma frustração justamente por causa de um roteiro preguiçoso e pouco crível.

A Star Is Born vai bem até o momento em que Ally é levada por Phil para um show de Jack. Ela pegar um jatinho com o amigo Ramon e ir até o show, beleza. O problema é o que vem depois. Jack passou apenas uma noite com Ally e escutou, uma única vez, uma canção que ela compôs. Mas isso não impede que ele toque no show seguinte essa mesma canção inteira e já com um acompanhamento.

Me desculpem. Eu admiro quem não se importa com nuances de uma história. Quem não dá bola para os detalhes. Mas eu me importo. Achei muito, mas muito forçada aquela apresentação de Jack com Ally. Sim, a direção de Cooper é perfeita e os atores estão ótimos. Gaga dá um show nessa parte do filme.

Mas não importam os holofotes, a beleza da música ou da cena. Aquela parte é muito forçada! Honestamente, impossível um cara nas condições de Jack, no final de uma noite, após um show e de beber durante a noite inteira, ouvi uma única vez uma música e lembrar de cada palavra desta canção depois, fazendo a produção da música e apresentando ela no seu show seguinte.

Aquele momento começou a estragar o filme para mim. Mas ele não foi o único. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a A Star Is Born). Depois da apoteose do show em que Jack apresenta Ally para o seu público, os dois engatam um romance. Normal. Ela passa a viajar com ele e a se apresentar com Jack. Até aí, tudo bem. Depois de diversas apresentações, o produtor Rez Gavron (Rafi Gavron) diz que quer produzir um disco dela, porque chegou a hora de Ally brilhar.

Novamente, até este momento, nada de surpreendente. Só que aí algo começa a ficar forçado novamente na história. Sob a batuta de Rez, Ally abraça uma música pop que segue o manual de muitos hits do momento. Ok, isso talvez tenha sido algo que ela desejou, em parte. Talvez tenha sido um pouco de adequação para que ela fizesse sucesso. Mas isso é de menos. O que me incomodou mesmo foi a mudança repentina que a personagem começa a ter nesta parte da história.

Lady Gaga é encantadora e está muito bem no filme. Mas a partir do momento em que ela grava as suas músicas e começa a se apresentar, ela passa a tirar o foco de Jack. Totalmente. Beleza que ela tinha o sonho de fazer sucesso também, mas essa atitude dela casa com a garota que vemos na parte inicial do filme, que acompanha Jack por um bom tempo, ou até mesmo com a garota que parece se importar com ele na reta final da produção?

Para mim, existe um problema grave no roteiro de Eric Roth, Bradley Cooper e Will Fetters na construção dos personagens e na própria dinâmica da produção, que tem pelo menos dois ou três momentos “feitos para chorar” e um bocado forçados. Esse tipo de fórmula não me agrada e não me convence. Um destes momentos forçados é a entrega do Grammy para Ally.

Convenhamos, descontadas as paixões que vocês podem ter por Gaga ou Cooper, alguém realmente acredita que o produtor ou outras pessoas próximas de uma artista como Ally deixariam Jack ficar perto dela naquele estado? Claro que não. Aquela foi mais uma sequência muito, mas muito forçada no filme. Naquele momento, aparentemente, Ally e os demais se deram conta do problema do protagonista com o alcoolismo. Ah, precisa ser muito inocente para acreditar nisso.

Ally viajou em turnê com Jack por um bocado de tempo. Não tinha um dia em que ele não bebesse até cair. Então ela precisou “passar vergonha” em uma premiação para realmente enxergar que ali existia um problema? Novamente, isso me pareceu muito forçado. Ou a pessoa sensível que querem nos fazer acreditar não existe, ou essa pessoa fez questão de ficar cega por um longo tempo para se beneficiar da situação.

De qualquer forma, para o meu gosto, existe uma divergência importante entre as diferentes versões dos personagens. Certo que ninguém consegue ser linear o tempo todo. Mas me convence mais a “decepção” que Jack tem ao ver a sua parceira aderindo a uma fórmula “barata” de pop e ele sendo estúpido com ela – apesar de, na essência, ele não ser esse cara – do que a indiferença de Ally com ele.

Para a história ter o prosseguimento e, principalmente, o desfecho dramático que A Star is Born tem, os roteiristas escolheram esse caminho fácil – mas nada convincente – de não serem muito coerentes com os personagens ou a dinâmica da história. Era evidente, e desde o início do filme, que Jack tinha um problema com a bebida. Mas ninguém – e isso parece incrível – parece ter se importado com isso. No final chorar ou “homenagear” a pessoa não adianta de muita coisa, não é mesmo?

Com isso, não quero dizer que Ally poderia ter “salvo” Jack. Mas ela poderia ter devolvido para ele um pouco do tanto que ele demonstrou se importar com ela, ou não? Essa história de amor com tantas nuances de desigualdade de entrega não me pareceu tão bonita quanto tentam nos fazer acreditar. A embalagem é sempre importante, claro, e A Star is Born é um filme bonito, bem dirigido e com ótimas atuações. Mas o conteúdo – descontadas as músicas – simplesmente não acompanham a embalagem.

Teve uma outra parte que me incomodou muito, enquanto eu assistia ao filme. O comportamento de Jack frente às escolhas de Ally. Por um momento, eu até pensei se ele estava sofrendo daquela síndrome clássica de quem se sente incomodado quando o ser amado começa a brilhar sozinho. Mas refletindo depois mais sobre esta parte do filme, percebi que não.

O que aconteceu com Jack é o que acontece muitas vezes com a gente. E que me atire uma pedra quem nunca vivenciou isso. Explico. Muitas vezes, achamos que conhecemos uma pessoa. Pensamos que ela tem um determinado gosto ou um determinado estilo. Quando esta pessoa demonstra algo totalmente diferente, nos sentimos um tanto quanto “traídos”. Isso é bobagem, evidentemente, porque a outra pessoa tem o direito de ser o que ela quer.

Mas esse incômodo que sentimos, a meu ver, tem uma explicação simples. Todos os dias, fazemos uma série de ações da mesma forma. Por pura economia de energia, de ter que pensar em todas as pequenas ações novamente. O hábito nos economiza tempo e energia, algo importante para o nosso dia a dia. Nossa leitura das pessoas tem o mesmo efeito tranquilizador.

Para Jack, Ally era uma garota talentosa e parecida com ele, ao menos no sentido de compor músicas com uma grande carga pessoal e verdadeira. Na visão dele, isso tudo não combinava com o estilo da música pop, aquelas coreografias “provocativas” e dançarinos sobre o palco. Mas algo que ele precisava descobrir – mas que não foi fácil, aparentemente – é que essa visão dele não precisava ser a única correta. Que Ally tinha sim o direito de empacotar a sua verdade como ela queria.

Algumas vezes, nós temos justamente a dificuldade do personagem de Jack. Ou seja, de perceber que a pessoa de quem gostamos pode agir como ela deseja. Simplesmente isso. E de que a nossa leitura sobre como tudo deve ser ou deixar de ser interessa apenas a nós. Não podemos impor a ninguém. Quanto mais amarmos os outros e deixarmos eles livre para serem da maneira que desejam, mais o nosso amor será verdadeiro. Mas essa nem sempre é uma lição fácil de aprender ou de colocar em prática.

Pensando em tudo isso, senti que o comportamento de Jack não foi tão incoerente com o personagem que vimos até aquele momento. Então esta foi uma parte do roteiro que eu aceite melhor depois do filme terminar. Agora, a construção da personagem de Ally deixa muito a desejar. Assim como as partes forçadas do filme – além do primeiro show dos dois, a premiação de Ally, a atitude final de Jack e a homenagem “feita para chorar” dos últimos minutos do filme.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não gostei tanto de A Star Is Born por que o filme termina de forma trágica? Não, não tenho esse apego à histórias felizes. Mas me incomodou sim a saída um tanto sem sentido de Jack de cena. Depois, todos se perguntam se poderiam ter feito algo diferente… Bem, esta é uma pergunta clássica naquele cenário, não é mesmo?

Ninguém salva uma outra pessoa, mas podemos sim nos ajudar. Só acho que um cara como Jack, que já tinha passado pelo pior, não teria uma atitude como aquela, sem pensar em Ally ou nos demais. Novamente, não me pareceu coerente. Se ele estivesse em outro momento, tudo bem.

Então essas faltas de coerência e/ou forçadas de barra do filme me incomodaram sim. E não teve música boa ou outro elementos positivos do filme que me fizessem esquecer estas falhas do roteiro. Para mim, um filme bem abaixo da minha expectativa original. Infelizmente.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vou dizer para vocês. Enquanto eu assistia ao filme e pensava que tinha ouvido tantos elogios sobre a produção, mas não estava vendo tudo isso em tela, eu fiquei pensando: “Realmente, acho que não entendo nada de cinema”. Já estava pensando na minha crítica, no que eu falaria sobre o filme, e eu tinha certeza que a minha avaliação seria diferente da maioria. Mas, para mim, isso quer dizer o seguinte: dificilmente é possível agradar gregos e troianos.

Cada um tem a sua bagagem de vida, de cultura, de experiências e tudo isso nos faz ter uma ou outra experiência no cinema. No caso de A Star Is Born, o filme simplesmente não me convenceu. Mas eu entendo quem tenha ficado fascinado pela produção. De verdade. Só que vamos combinar de discordar sobre as nossas impressões, desta vez. 😉

Impressionante as duas visões diferentes que eu tive deste filme enquanto eu o assistia no cinema. Na parte inicial de A Star Is Born, até o momento em que Jack começa a cantar a música de Ally sobre o palco, eu tinha gostado muito do que estava vendo e ouvindo.

Depois de escrever a crítica, me lembrei de outro aspecto do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A Star is Born passa uma mensagem um tanto confusa, como se para uma estrela surgir outra precisasse morrer… Também passa a ideia de que a fama e o sucesso não preenchem a vida de ninguém, e que se a pessoa é infeliz ou se sente “miserável” por outros aspectos, a fama não vai salvá-la. Ok, até concordo com isso. Mas e o amor? O protagonista deste filme parece “brilhar” diferente depois de encontrar o amor. E isso não vai ser suficiente para ele?

Ok, na vida real, para alguns não é. Entendo isso. No filme, isso também poderia ter sido mostrado. Mas acho que faltou um desenrolar melhor acabado do roteiro para nos convencer disso. Sim, tem pessoas que não são salvas nem pelo amor. Isso faz parte. E ninguém tem culpa disso, apesar de que eu acho que as pessoas ao redor do protagonista deste filme não demonstraram o suficiente o quanto elas se importavam. Não que isso o salvasse, no final, mas a forma com que tudo é contado, neste filme, me pareceu muito desleixado.

As músicas de A Star Is Born são incríveis, e a pegada da direção de Bradley Cooper e a interpretação inicial dele e de Lady Gaga são encantadoras. Mas depois, quando comecei a identificar as forçadas de barra do roteiro, minha visão sobre o filme foi piorando gradativamente. Uma pena. Eu honestamente gostaria de ter me encantado do início ao fim. Mas isso não aconteceu.

A melhor parte do filme? Sem dúvida alguma, as músicas. Acredito que A Star Is Born pode chegar no Oscar 2019 com diversas indicações. E estou torcendo para o filme emplacar no que ele realmente merece, que é o Oscar nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção. Claro, falando isso sem ter ouvido ainda aos concorrentes. Mas o filme tem um trabalho primoroso nesse quesito.

Outras qualidades de A Star Is Born: a direção inspirada de Bradley Cooper. Ele busca deixar a câmera sempre perto da ação, valorizando o trabalho dos atores e também as nuances dos bastidores da música. Para quem curte esse ambiente artístico, é um verdadeiro deleite. As melhores sequências do filme estão na interação de Gaga com Cooper e nas cenas dos shows. Todas muito bem dirigidas por Cooper.

Também é importante comentar o trabalho dos atores. Bradley Cooper e Lady Gaga estão muito bem, realmente. Mas ao ponto deles ganharem o Oscar? Honestamente, eu até não acharia uma injustiça eles serem indicados. Mas ganhar… acho que ambos fazem um bom trabalho em A Star Is Born, mas não acho que a entrega tenha a potência ou o diferencial para receber uma estatueta do Oscar. Ainda assim, não me surpreenderia com Hollywood querendo premiar Gaga. Seria a cara da premiação. Sim, Gaga se revela uma bela atriz nesse filme. Faz um trabalho competente e convincente. Mas eu não daria um Oscar para ela por causa disso. Seu trabalho é bom, mas não é excepcional.

Como comentei antes, e até de forma repetitiva, o roteiro de A Star Is Born é o seu ponto fraco. Eric Roth, Bradley Cooper e Will Fetters falharam em diversos momentos, tanto na construção dos personagens quanto na coerência da história. Forçaram a mão em diversos momentos, mais preocupados em emocionar do que em convencer. Além disso, o que é outro problema grande do filme, A Star Is Born é longo demais. A produção poderia ter 20 ou 30 minutos a menos sem problemas.

A Star Is Born é a quarta versão de uma mesma história. Não lembro de ter visto à alguma das três versões anteriores, devo admitir. Achei essa interessante por “atualizar” uma história que sempre rende, do “patinho feio” que acaba se revelando uma estrela. Um verdadeiro clássico, não é mesmo? A parte interessante da nova versão é mostrar o “mainstream” da música atual, com todas as suas qualidades e pontos polêmicos. Mas esse mesmo cenário poderia ter sido abordado de forma mais interessante, a meu ver, sem tanto melodrama e falhas no roteiro.

Vale comentar que o trabalho de Roth, Cooper e Fetters bebe da fonte do roteiro da versão de 1976, escrito por John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson, assim como tem influência do roteiro de Moss Hart, da versão de 1954, e da história original criada por William A. Wellman e Robert Carson.

Além de Bradley Cooper e de Lady Gaga, fazem um bom trabalho nesse filme Sam Elliott como Bobby, o irmão mais velho de Jack; Andrew Dice Clay como Lorenzo, pai de Ally; Anthony Ramos como Ramon, melhor amigo de Ally; e Rafi Gavron como Rez Gavron, produtor do primeiro disco de Ally. Em um papel menor, mas relativamente importante no filme, vale citar o bom trabalho de Dave Chappelle como George “Noodles” Stone, amigo de infância de Jack.

Entre os aspectos técnicos do filme, o destaque vai para a direção competente de Bradley Cooper e para a trilha sonora com composições feitas por Bradley Cooper, Lukas Nelson, Jason Isbell, Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando, Andrew Wyatt, Paul Kennerley, Natalie Hemby, Hillary Lindsey, Lori McKenna, Mark Nilan Jr., Nick Monson, Paul Blair, Aaron Raitiere, Julia Michels, Justin Traer, entre outros. Aliás, vale comentar, que Cooper faz um belíssimo trabalho em sua estreia como diretor. Cooper também é um dos produtores do filme.

Além de direção e trilha sonora, vale comentar o belo trabalho de Matthew Libatique na direção de fotografia; de Jay Cassidy na edição; de Karen Murphy no design de produção; de Matthew Horan e Bradley Rubin na direção de arte; de Ryan Watson na decoração de set; e de Erin Benach nos figurinos.

A Star Is Born estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou dos festivais de cinema de Toronto, Zurique e Tokyo, além do American Film Festival. Até o momento, essa produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros três. Os prêmios que A Star Is Born recebeu foram o de Melhor Fotografia do Ano para Matthew Libatique no Hollywood Film Awards e o Collateral Award para Bradley Cooper no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre A Star Is Born. De acordo com Bradley Cooper, foi Lady Gaga que o convenceu de que eles deveriam cantar ao vivo durante as filmagens. Gaga disse que odiava ver a filmes em que os atores não estavam sincronizando os lábios corretamente com as músicas. Para evitar isso, ela sugeriu que todas as canções do filme fossem cantadas ao vivo. Isso fez com que Cooper fizesse um treinamento vocal mais completo para a produção. Ele se sai muito bem, na verdade.

Gaga cantou “I’ll Never Love Again” pouco depois de ter perdido uma grande amiga, Sonja Durham. No dia em que eles iriam gravar a cena, Gaga recebeu a ligação do marido da amiga, dizendo que ela estava morrendo. Gaga foi se despedir da amiga e depois voltou para gravar a canção para o filme. Posteriormente, ela diz que nunca vai se esquecer daquele dia e desta parte do filme.

Como o personagem que interpreta, Bradley Cooper também teve que lidar com o vício em álcool e drogas. Na divulgação de A Star Is Born, o ator e diretor comentou sobre como a sobriedade salvou a vida dele e a sua carreira.

Bradley Cooper aprendeu a tocar guitarra para este filme com Lukas Nelson, filho de Willie Nelson. Ele trabalhou com Cooper quase todas as noites durante um ano ensinando não apenas como tocar guitarra, mas como se apresentar em um palco e para uma plateia. Realmente A Star Is Born é um trabalho muito pessoal e que exigiu grande dedicação de Cooper.

No Festival de Cinema de Veneza, Cooper comentou que o visual de A Star Is Born foi inspirado em um show que ele viu do Metallica quando ele tinha 16 anos de idade. O Metallica realmente é inspirador.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para A Star Is Born, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 372 críticas positivas e 41 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 8,1. Especialmente as notas, altas para os padrões dos dois sites, chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 88 para A Star Is Born, fruto de 58 críticas positivas e de duas medianas. O filme também apresenta o selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, A Star Is Born teria custado US$ 36 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 157,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou, ele fez outros US$ 106 milhões. Ou seja, no total, ele ultrapassou os US$ 263,6 milhões. Um verdadeiro sucesso de público, bilheteria e crítica, portanto. Mais um ponto favorável para o filme chegar no Oscar 2019.

Adiantando o tema, já que logo vou começar a assistir e a comentar filmes que estão procurando uma vaga no Oscar 2019, vamos falar sobre as chances de A Star Is Born no próximo Oscar. Acho sim que o filme pode ser indicado, se tiver sorte, em umas seis categorias – Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção. Em quais destas categorias ele tem maiores chances? Preciso conhecer aos outros concorrentes, mas acho que ele tem chances reais em Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção. Nas demais, vai depender do lobby e dos concorrentes.

A Star Is Born é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: A música é algo fantástico. E é o que nos encanta na parte inicial desta produção, que também tem como acertos a direção de Bradley Cooper e o trabalho dos protagonistas. Mas isso não faz um bom filme. A Star Is Born começa muito bem, mas logo no primeiro “show” dos protagonistas após eles se conhecerem, fica difícil de acreditar em grande parte do que vemos em cena.

Filme longo demais, com uma história forçada em diversos momentos e que carece de “convencimento” para as pessoa que não são “super fãs” dos protagonistas. Poderá chegar com força no Oscar 2019 mas, francamente, não merece as estatuetas que talvez possa irá ganhar. Quer dizer, se vencer pela Trilha Sonora e como Melhor Canção, tudo bem. No mais, será forçado. Mediano, apenas.

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Avengers: Infinity War – Vingadores: Guerra Infinita

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Tudo o que os fãs dos super heróis esperam para um filme estrelado por eles encontramos em Avengers: Infinity War. Para começar, o que há de melhor em efeitos visuais e virtuais. As imagens mais incríveis criadas por artistas com a ajuda da tecnologia vemos em cena. Depois, temos alguns dos personagens mais amados das HQs reunidos e um super vilão – possivelmente o mais temido de todos os tempos – para ser combatido. Embalando tudo isso, um roteiro recheado de cenas de ação, de algumas piadas perspicazes e de certo drama pincelado aqui e ali.

A HISTÓRIA: Uma nave de refugiados está sendo atacada. Famílias de asgardianos estão sendo mortas, e um pedido de socorro percorre o Universo. Dentro da nave, Ebony Maw (Tom Vaughn-Lawlor), um dos mais fieis seguidores e aliados de Thanos (Josh Brolin), diz para as vítimas que elas devem se alegrar, porque elas serão sacrificadas em nome do equilíbrio do Universo. Thanos, por sua vez, diz que o destino sempre chega, e exige que Loki (Tom Hiddleston) lhe entregue o cubo de Tesseract para que Thor (Chris Hemsworth) não seja morto.

Thor diz que não adianta Thanos pedir por Tessaract porque ele foi destruído em Asgard. Mas Loki mostra o cubo e entrega uma das Joias do Infinito que Thanos tanto queria. Apesar de ceder, Loki diz que eles continuarão a ver a luz do dia, e afirma que eles tem o Hulk (Mark Ruffalo). Ele ataca Thanos, mas acaba sendo vencido. Antes de Hulk ser morto, contudo, Heimdall (Idris Elba), que está caído no chão, consegue enviar o gigante verde para a Terra. Agora, Thanos tem duas Joias do Infinito. Em breve, ele seguirá atrás das outras quatro, incluindo duas que estão na Terra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avengers: Infinity War): Eu prometo tentar não escrever um texto gigante sobre esse filme, beleza? 😉 Como já comentei antes em algum texto aqui no blog, eu sempre fui uma grande fã de HQs. Li bastante, especialmente na adolescência. Hoje, leio mais The Walking Dead, apenas – e, eventualmente, alguma outra HQ mais antiga.

Dito isso, claro que eu já tinha visto os principais heróis da Marvel em ação antes. Dos vários filmes da grife lançados no cinema, assisti a alguns – mas a maioria, acredito, eu perdi. Dito isso, quero dizer sim que eu me lembrei de todos os personagens principais desse filme – exceto Thanos e seus aliados, dos quais eu não tinha lembrança.

Acho importante para você que, como eu, talvez não tenha assistido a todos os filmes de heróis da Marvel dos últimos 10 ou 15 anos, dar uma olhada nessa matéria do jornal O Globo. Nela, são citados os sete filmes mais importantes que você deveria assistir antes de conferir Avengers: Infinity War. O quarto e o sétimo filme da lista me parecem os mais importantes – os demais são bacanas também, mas para quem conhece bem os personagens dos quadrinhos, talvez eles não sejam tãoooo fundamentais assim.

Dito isso, comento que sim é possível assistir a Avengers: Infinity War sem ter visto aos sete filmes listados pelo O Globo ou mesmo às outras produções da Marvel que envolvem Os Vingadores e que não estão na lista. O importante mesmo é você conhecer relativamente bem os personagens, as suas personalidades e a importância de cada um naquela constelação de heróis. Fui assistir ao filme em um cinema 3D logo na primeira sessão de sábado, e qual a minha surpresa em conseguir um dos últimos ingressos para a sessão.

O cinema estava praticamente lotado – exceto pelas fileiras bem na frente, que ninguém quer. Tive sorte em consegui entrar. E gostei muito do que eu vi. Para começar, Avengers: Infinity War tem aquela pegada de uma nave no espaço sendo atacada que faz os fãs de cinema e da cultura nerd lembrarem imediatamente de Star Wars. Logo essa impressão desaparece quando vemos ao vilão Thanos, a Loki e Thor, o que nos faz “cair” rapidamente no universo da Marvel.

O começo de Avengers: Infinity War é ótimo. Com bons diálogos e uma luta bacana entre Hulk e Thanos que serve como um “cartão de visitas” do que veremos depois. Essa qualidade inicial do filme também acaba sendo um problema depois. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso porque você acaba esperando um filme cheio de cenas de ação, de disputas e de muita adrenalina, mas temos várias partes da história com “cenas emotivas” entre dois ou mais personagens.

Sim, há cenas de ação que todo fã espera, mas talvez em menor número do que gostaríamos. No fim das contas, a narrativa mostra Thanos, que acredita que tem como “missão” exterminar metade da vida no Universo para que o equilíbrio seja reestabelecido, em busca das cinco Joias do Infinito que lhe faltam – ele começa a narrativa já com a Joia do Poder. Se Thanos conseguir o seu objetivo, ele se tornará onipotente e poderá, com um estralar de dedos, exterminar metade da vida nos planetas Universo afora.

Sobrevivem àquela cena inicial do filme os heróis Thor e Hulk. Cada um deles parte em uma direção para buscar aliados para tentar impedir Thanos. E aí que a narrativa se fragmenta, com um núcleo na Terra liderado por Hulk, Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Peter Parker/Homem Aranha (Tom Holland) tentando proteger a Joia do Tempo que está com o Doutor Estranho, enquanto outro grupo, liderado por Thor e os Guardiões da Galáxia busca atacar Thanos em duas frentes.

Mesmo o grupo da Terra também acaba se dividindo. Depois de Doutor Estranho ser atacado por Ebony Maw e sequestrado por ele, o Homem de Ferro e o Homem Aranha conseguem embarcar na nave e seguir o vilão para tentar resgatar o Doutor Estranho, enquanto o Hulk, que ficou na Terra, entra em contato com Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans).

Quando o Visão (Paul Bettany), que tem a Joia da Mente, passa a ser o novo alvo dos aliados de Thanos, o herói e a sua companheira Wanda Maximoff/Feiticeira Escalate (Elizabeth Olsen) acabam sendo socorridos por Steve Rogers, Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson). Enfim, isso tudo vocês sabem, vendo o filme.

Mas fiz questão de contar toda essa fragmentação da narrativa para comentar como a história, que é linear e parece bastante “simples” no direcionamento da narrativa, acaba ganhando em velocidade e em fragmentação ao se dividir em algumas linhas de ação. Não temos apenas a Thanos perseguindo Joia por Joia. O tempo dos heróis fica mais curto porque enquanto Thanos persegue algumas Joias, os seus comparsas atacam outras frentes para conquistar as demais.

O objetivo dos heróis, por outro lado, é tentar preservar as Joias que estão no poder de dois membros desse grupo: Doutor Estranho e Visão. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto isso, boa parte da turma dos Guardiões da Galáxia – com exceção de Groot (voz de Vin Diesel) e de Rocket (voz de Bradley Cooper), que acabam seguindo a direção de ajudar Thor a forjar um novo martelo para combater Thanos -, incluindo a “filha adotiva” do vilão, Gamora (Zoe Saldana), tentam impedir Thanos de conseguir as duas Joias que estão em outros lugares do Universo.

Como os fãs dos heróis da Marvel sempre esperam dos filmes que buscam honrar os personagens das HQs, Avengers: Infinity War tem ação, humor e suspense nas doses certas. Essa produção rende algumas boas risadas, em tiradas um tanto sarcásticas com as quais estamos acostumados. As cenas de ação são ótimas, mas talvez o filme poderia ter um pouco mais desse elemento.

A narrativa, que na maior parte do tempo se apresenta bem envolvente e ágil, tem algumas desaceleradas importantes – e, algumas vezes, elas me pareceram um tanto forçadas – para explorar o lado “sentimental” dos personagens. Sim, é bacana ver a tantos personagens importantes em cena. Também faz sentido que o roteiro de Christopher Markus e de Stephen McFeely explorasse as relações entre os personagens, mas algumas sequências entre eles me pareceram um tanto previsíveis e exageradas – especialmente as sequências entre Visão e Wanda Maximoff e entre Thanos, Gamora e Nebulosa (Karen Gillan).

Mas ok, nem sempre dá para um filme tão complexo como esse, com tantos personagens e tanta narrativa contada em diversos HQs e resumida em apenas uma produção, ser totalmente coerente ou equilibrado. O que importa, no fim das contas, é que Avengers: Infinity War atende a grande parte da expectativa dos fãs do gênero. Para começar, o filme é impecável nos efeitos especiais e visuais. Depois, para os fãs, é inegável o efeito de êxtase que uma produção com tantos astros e estrelas juntos, interpretando os seus personagens preferidos, desperta.

Também são importantes – e os pontos altos do filme – as cenas de batalha, luta e as de humor. Para arrematar tudo isso, ainda temos o final dessa produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim como um dos arcos narrativos do HQ conta, em uma das realidades possíveis – o Doutor Estranho viu pouco mais de 4 milhões de alternativas ao viajar “no tempo” -, Thanos consegue todas as Joias do Infinito e faz realmente a limpa que ele gostaria no Universo.

Não deixa de ser emocionante e até de nos arrepiar quando vemos, no final de Avengers: Infinity War, diversos heróis sumindo na nossa frente após o sucesso de Thanos. É de doer o coração ver a T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman), o Homem-Aranha, Doutor Estranho, Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt) e tantos outros partirem tão repentinamente. Quando o filme acaba, a plateia fica se perguntando se aquilo realmente aconteceu.

Bem, avaliando as HQs que tratam sobre esse assunto, sim, em um dos arcos narrativos Thanos conseguiu exatamente o que queria. E se metade da população do Universo foi exterminada com o estrelar de dedos dele, é de se presumir que metade – ou um pouco menos – dos heróis também passaria pelo mesmo, não é?

Ainda assim, segundo o próprio Doutor Estranho comentou ao viajar no tempo, havia uma possibilidade – entre mais de 4 milhões – dos heróis vencerem o vilão. Quem sabe essa possibilidade realmente não aconteceu em alguma realidade paralela e os heróis conseguem reverter o que sucedeu nas demais linhas narrativas?

Estou apenas fazendo uma especulação aqui. Mas mesmo que o final seja aquele mesmo, interessante ver a um filme da Marvel que não termina com os heróis se dando bem – afinal, nem sempre é isso que acontece. Uma outra possibilidade que vejo no desdobramento desse filme é que na próxima produção os Vingadores e os Guardiões da Galáxia que restaram realmente unam as forças (talvez até com a adição de outros heróis) e, ao derrotar Thanos, eles consigam “restabelecer” a vida com a Manopla do Universo e as suas Joias. Afinal, se um estralar de dedos mata metade da população do Universo, por que um novo estralar de dedos não poderia “reviver” as mesmas pessoas? A conferir, pois.

Pensando na cena que vemos após os créditos e que mostra Nick Fury (Samuel L. Jackson) também desaparecendo, mas, antes, enviando uma mensagem de Código Vermelho, podemos presumir que o alerta será respondido por alguém. Provavelmente pelos heróis que restaram – e que devem se reunir para enfrentar Thanos. Então muito mais virá pela frente ainda.

Finalizando essa crítica, comento que esse filme me agradou, mas que ele teve um impacto menor do que outra produção recente que assisti baseada em HQs: Black Panther (comentada por aqui). Se, por um lado, Avengers: Infinity War agradou pelos efeitos visuais e especiais e por fazer desfilar tantos astros e personagens legais na nossa frente, por outro lado essa quantidade de personagens torna a narrativa menos rica. Diferente de Black Panther, que teve muito mais espaço para desenvolver os personagens e suas relações.

Apesar disso, vale comentar como Avengers: Infinity War trata de um assunto que parece exagerado mas que já fez parte da nossa história no passado e que volta à tona agora, com o recrudescimento de posturas de direita extremista: o desejo de alguns de determinar quem deve viver ou morrer e de, movidos por essa ânsia, promover “limpas” e/ou genocídios de contingentes importantes em nome de um “equilíbrio” da sociedade.

Hitler, antes, defendia o extermínio de vários grupos que não eram da “raça superior”. Vários políticos, atualmente, querem fechar fronteiras para refugiados, tirar do próprio território pessoas que eles consideram “indignas” de estar no país e outros tipos de exclusão/extermínio por causa de raça ou credo.

Muitos, a exemplo de Thanos, defendem essas práticas em nome do “equilíbrio” e como solução para o crescimento da população e a diminuição dos recursos finitos da Terra. Assim, guardadas as devidas proporções de um filme de ficção e baseado em HQs, Avengers: Infinity War nos faz pensar sobre questões bastante reais e que fazem parte da nossa realidade – mesmo que não estejamos inseridos (ainda) em regimes de exceção. Mas vale o alerta – e a reflexão.

Dito isso, devo comentar que sim, Avengers: Infinity War e Black Panther são estilos de filmes bem diferentes, com propostas igualmente diferenciadas. Mas, inevitavelmente, sempre comparamos as nossas experiências com o cinema. Assim, sendo, gostei sim de Avengers: Infinity War, mas não tanto gostei de Black Panther. Dito isso, quero dizer que vale muito a pena assistir a Avengers: Infinity War em 3D e nos cinemas, é claro.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu li a algumas histórias de Thanos. Mas não sou nenhuma especialista no super vilão e em suas peripécias envolvendo Os Vingadores e demais heróis das HQs – como o Surfista Prateado. Mas do que eu conheço e do que eu li, me parece que Avengers: Infinity War toma diversas “licenças poéticas”, digamos assim. Parece que o filme não é muuuuito fiel aos quadrinhos. E beleza os realizadores produzirem algo diferente, mas fico me perguntando se o filme ficou melhor que o original. Se tiver algum especialista por aqui que puder comentar, agradeço.

Falando em Thanos e as suas peripécias, se você, como eu, não é um(a) especialista no assunto, sugiro dar uma conferida em dois sites que ajudam a nos situar sobre esse personagem e as suas narrativas na Marvel. A primeira leitura que eu recomendo é essa, do site Universo HQ, que dá uma bela resumida no personagem e em suas aparições em gibis da Marvel. Depois, sugiro a leitura desse texto do site Aficionados que traz um bom resumo sobre as Joias do Infinito, incluindo a função de cada um delas e os seus atuais e antigos detentores. Leituras bastante recomendadas e que ajudam a rememorar e/ou conhecer alguns fatos envolvendo Thanos e as Joias.

Enquanto eu via o vilão Thanos na minha frente, era impossível para mim não lembrar de personagens da mitologia grega como Thánatos e Hades. Quem já ouviu falar deles – quem sabe em uma música da Legião Urbana – sabe que eles estão ligados à morte e à destruição. Ou seja, faz muito sentido o nome de Thanos, que acredita que tem como “missão” matar para colocar equilíbrio no Universo. Quem quer saber um pouco mais sobre Thánatos e Hades, pode encontrar uma boa introdução nesse texto da Wikipédia.

O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely é inspirado em uma série de personagens criados por alguns dos grandes gênios da história das HQs. Vale citar toda a inspiração dos roteiristas: eles se inspiraram nos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby; no personagem do Capitão América criado por Joe Simon e Jack Kirby; no Senhor das Estrelas (Star-Lord) criado por Steve Englehart e Steve Gan; no Rocket Raccoon criado por Bill Mantlo e por Keith Giffen; no Thanos, Gamora e Drax criados por Jim Starlin; no Groot criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby; e na Mantis criada por Steve Englehart e Don Heck.

Como comentei antes, um dos destaques de Avengers: Infinity War é o elenco estelar da produção. Entre os vários nomes em cena, destaco as atuações de Chris Hemsworth, de Mark Ruffalo, de Benedict Cumberbatch, de Zoe Saldana, de Josh Brolin e de Chris Pratt. Aparecem bastante na produção, mas achei que com um nível de interpretação um pouco menor, os atores Robert Downey Jr., Chris Evans, Scarlett Johansson e Tom Holland. Eles estão bem, mas acho que se destacam menos que os anteriores.

Além deles, vale citar o bom trabalho de Scarlett Johansson, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Karen Gillan, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Vin Diesel, Bradley Cooper, Benedict Wong e Letitia Wright. Eles aparecem um pouco menos que os atores citados anteriormente, mas fazem um bom trabalho. Estão bem no filme, mas em papéis ainda menos – quase de pontas – os atores Tom Hiddleston, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Idris Elba, Danai Gurira, Peter Dinklage, Pom Klementieff, Dave Bautista, Gwyneth Paltrow, Benicio Del Toro, Winston Duke e Florence Kasumba.

Os diretores Anthony Russo e Joe Russo fazem um belo trabalho com Avengers: Infinity War, especialmente nas cenas de ação. Pena que o roteiro não acompanhou tão bem o talento dos diretores.

Avengers: Infinity War teve a sua première em Los Angeles no dia 23 de abril de 2018. No dia 25, dois dias depois da première, o filme estreou nos cinemas de 25 países. No dia 26, estreou em outros 28 países, incluindo o Brasil. Assisti ao filme ontem, dia 28 de abril, em uma sessão praticamente lotada.

O filme deve consagrar-se com uma das grandes bilheterias de todos os tempos. Segundo o site Box Office Mojo, Avengers: Infinity War faturou, até o dia 29 de abril, US$ 250 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 380 milhões nos outros países em que o filme estreou até essa data. Ou seja, em poucos dias, ele faturou US$ 630 milhões. Se seguir nessa pegada, logo ele será um filme com faturamento bilionário. Impressionante. Quem mesmo disse que as pessoas não vão mais nos cinemas? Para determinados filmes, não faltará público e lucro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As filmagens de Avengers: Infinity War começou em janeiro de 2017 e terminou em janeiro de 2018. Essa produção foi rodada simultaneamente ao novo filme Avengers, que dá continuidade a Infinity War mas que ainda não tem o título definido e que deverá estrear nos cinemas em 2019.

De acordo com o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, a formação dos Vingadores vai mudar substancialmente entre esse filme lançado em 2018 e o próximo que será estrelado pelo grupo de heróis. Dá para entender o porquê disso assistindo a Avengers: Infinity War. 😉 Ainda segundo Feige, Avengers: Infinity War é o ponto alto de toda a saga dos super heróis da Marvel porque esta produção seria o “resultante” de todos os filmes anteriores.

Nesse filme, os atores Robert Downey Jr. e Chris Evans completam nove produções em que eles interpretam os personagens Homem de Ferro e Capitão América, respectivamente. Assim, eles empatam com Hugh Jackman, que também interpretou em nove filmes o personagem Wolverine. Mas tanto Downey Jr. quanto Evans demoraram muito menos tempo que Jackman para chegar a esse marco de nove produções interpretando o mesmo herói de HQ. Enquanto Jackman demorou 16 anos para somar esses nove filmes, Evans demorou sete anos e Downey Jr. demorou 10 anos.

Avengers: Infinity War é o primeiro filme – sem ser um documentário – totalmente filmado com câmeras IMAX.

O primeiro trailer de Avengers: Infinity War registrou 200 milhões de visualizações em 24 horas, o que estabeleceu um novo recorde para visualizações de um trailer em um único dia.

Quando eu estava no cinema, eu achei o filme um tanto longo… mas só agora eu me dei conta que Avengers: Infinity War tem 156 minutos de duração, ou seja, 2 horas e 36 minutos! Uau! No cinema, ele parece longo, mas não dá para perceber que ele tem mais de duas horas e meia. Por ter toda essa duração, Avengers: Infinity War é o filme baseado em HQs mais longo da história do cinema.

De acordo com os produtores do filme, Avengers: Infinity War está inspirado em três marcos narrativos das HQs da Marvel: The Infinity Gauntlet, The Thanos Imperative e Infinity. O enredo Civil War das HQs da Marvel, contudo, não tem nada a ver com a narrativa do filme. Que bom que esclareceram isso, porque realmente me pareceu estranho as HQs e o filme terem o mesmo nome mas não terem nada a ver uns com os outros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 9,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 226 críticas positivas e 42 negativas para o filme, o que lhe garante um nível de aprovação de 84% e uma nota média de 7,5. Especialmente o público está amando essa produção – mais do que os críticos. Reação mais que compreensível dos super fãs do Universo Marvel. No site Metacritic, Avengers: Infinity War apresenta um metascore de 68. Esse indicador resume 38 críticas positivas, 13 medianas e uma negativa.

Avengers: Infinity War é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há bastante tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Todos esperavam pela estreia de Avengers: Infinity War. Os fãs de HQ “raiz”, os fãs dos filmes que estão arrasando as bilheterias a cada nova estreia e mesmo aqueles que não são tão fãs assim desse gênero. Afinal, tanto se falou dessa produção… Como filmes do gênero competentes foram lançados recentemente, ficou difícil para esse filme superar toda essa expectativa. Então sim, Avengers: Infinity War é uma bela experiência de cinema. Um show de efeitos especiais e um belo desfile de astros e estrelas. O filme também agrada por não acabar de maneira óbvia, mas está longe de ser uma produção inesquecível. Vale pelo entretenimento e pelo visual. Mas isso é tudo.

American Sniper – Sniper Americano

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Dois elementos fazem parte do orgulho do povo dos Estados Unidos: a bandeira do país e as mortes em campos de batalha. Ok, nem todos tem orgulho destes dois elementos. Mas acredito que a maioria, me arriscaria a dizer que a população perto da totalidade, tenha. Sou fã de Clint Eastwood, mas acho que ele perdeu uma boa oportunidade de dedicar o talento dele para outra história que não esta de American Sniper. Ainda assim, admito, dá para entender o porquê do filme estar fazendo tanto sucesso em solo americano. Ele fala de “patriotismo” de um herói do país que virou referência em um passado recente. Tudo que eles adoram, junto com muitas cenas de guerra e de virilidade.

A HISTÓRIA: Um tanque avança. Perto dele, outro veículo blindado e homens fardados, bem armados e atentos. Dando cobertura para o avanço da tropa está o franco-atirador Chris Kyle (Bradley Cooper). Ele reclama que o local sobre o que ele e o colega estão está quente demais. Os soldados vão entrando nas casas dando chute nas portas enquanto Chris acompanha tudo sem piscar. Ele vê um homem em um terraço usando o celular, mas não atira.

Só quando uma mulher sai com um menino de uma casa e passa para ele uma granada russa AKG é que ele deve decidir se atira ou não. Corta. Voltamos no tempo e vemos Chris quando ele era um garoto (interpretado por Cole Konis) e estava aprendendo a atirar com o pai, Wayne (Ben Reed). Naquela época é que ele aprende a nunca largar a arma e que ele deveria ser valente para proteger o irmão – e quem mais precisasse. O filme conta a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Sniper): Tem muitos filmes como este que começam promissor e depois… Não sei vocês, mas eu achei o começo de American Sniper muito interessante. Aquele atirador de elite com um menino na mira e tendo que decidir se puxaria o gatilho e não. Era praticamente certo que ele puxaria, e começar o filme assim forte seria interessante.

Mas aí o roteirista Jason Hall decidiu dar uma quebrada na narrativa, e nos explicar mais sobre aquele sujeito que estava com o dedo no gatilho. A ideia de voltar no tempo e fazer isso, vocês sabem, não é nada nova. Aqui, para a nossa sorte, a “contextualização” sobre o protagonista não demora muito para acontecer. Voltamos para a infância, inicialmente, que é quando as pessoas são formadas. Vemos como Chris Kyle foi “treinado”, a exemplo do irmão mais novo, Jeff (interpretado por Luke Sunshine quando criança e por Keir O’Donnell quando adulto), a não ser nem uma ovelha e nem um lobo. Os dois deveriam ser cães pastores.

Essa formação, dada de forma contundente pelo pai dos garotos, Wayne, foi bem aprendida por Chris Kyle. Tanto que o sujeito do interior dos Estados Unidos que gostava da ideia de ser cowboy mudou de ideia quando viu o país dele sendo “atacado” – quando do atentado na embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi, no Quênia. Ele fica mexido ao ver aquela notícia na TV e resolve que vai servir ao seu país, defendendo a nação e tudo o que ela representa para ele e para os demais dos inimigos externos.

Saído do Texas, ele vai procurar informações sobre como melhor poderia prestar serviços, e acaba sendo orientado a entrar no “grupo de elite”, os SEALS. Ele faz o duro treinamento, que é mostrado rapidamente – afinal, este não é o foco de Hall ou de Eastwood. Quando termina a preparação, ao comemorar em um bar com os colegas de uniforme, ele encontra Taya (Sienna Miller), com quem ele tem uma troca de diálogos surpreendentemente honesta. Daí que ela contraria a própria regra de namorar um SEAL e os dois acabam se casando.

Em uma bela manhã, destas em que você acorda e nem desconfia que tudo vai mudar por causa de um fato, o casal vê o atentado contra as Torres Gêmeas pela TV. Assim que Chris vai parar no Iraque em sua primeira missão. Bem aquela em que ele deve decidir entre atirar ou não em um menino. A partir daí, meus caros amigos(as), o que se segue são inúmeras missões de combate no Iraque. Como o filme tenta resumir, mas de maneira ligeira e superficial, cada vez que Chris voltou para casa ele não se sentiu totalmente “em casa”.

Como muito bem explorado e de forma mais competente em outras produções, este “herói” de guerra simplesmente não conseguiu desconectar dos tiros e das explosões. Não conseguia encontrar tanta graça na vida familiar, com mulher e dois filhos, quanto no calor da batalha em que ele tinha altas doses de adrenalina todos os dias. E onde ele era considerado “uma lenda”, onde ele era considerado o melhor.

O pequeno problema, pelo menos ao meu ver, nesta filosofia de Chris Kyle, é que ele era o melhor em matar gente. Pessoas que tinham as suas casas e de seus familiares invadidas quando desse na telha dos americanos. Pessoas que viram as suas realidades mudarem brutalmente porque alguns terroristas mataram milhares de americanos em diversos ataques.

Um dos pontos que me deixou mais perplexa na história de Chris é que a forma com que a narrativa é tratada dá a entender que por pouco aquele sujeito não teria sido um baita cowboy, e teria ficado feliz com aquilo. Por acaso ele parou na posição de “sniper” e acabou sendo muito bom naquilo também. Ao invés de montar touros, ele virou o recordista em matar gente – ele é o franco-atirador mais “letal” da história do Exército dos Estados Unidos.

Certo. Enquanto o filme ia avançando, e após aquela primeira cena promissora de impacto sobre a morte do garoto ter esvaziado – a volta atrás na história de Chris acaba tendo este efeito de minimizar a tensão a quase zero -, fiquei o tempo todo esperando que o filme melhorasse. Eu pensava: “ok, em algum momento esta história tem que mostrar a que veio”. Fiquei esperando, acompanhando a narrativa, esperando… e nada.

O filme era aquele mesmo. Uma “cinebiografia” do franco-atirador que mais matou gente na história do Exército americano. Da mesma forma com que o roteiro de The Theory of Everything (comentado aqui) se mostrou raso, este trabalho de Hall também é unidimensional. O protagonista é o herói, e nada pode questionar isso. Nem ninguém. Do início ao fim ele é um “cara comum” do Texas que é “bem criado” a defender os valores do país e cuidar “de seus irmãos” que acaba sendo um ótimo pai de família – depois de vencer a dura tarefa de retornar para a vida comum – e um militar exemplar. Em todas as missões no Iraque ele deu de tudo para proteger os colegas.

Lá pelas tantas, mais na reta final do filme, ele acaba falando para um psicólogo que não se arrepende de nenhuma morte, e sim de não ter protegido mais os seus colegas de Exército. Em American Sniper não existe espaço para dúvida. Nem para refletir se tanta morte nos levou a algum lugar. O mundo está mais seguro hoje? Adiantou Chris ter matado tanta gente no Iraque? Essas são perguntas que passam ao largo deste filme.

Chris é um herói, e o filme mantém e propaga esta ideia. A parte desta limitação do roteiro, Eastwood segue firme na direção. Ele faz um excelente trabalho, especialmente nas cenas de ação. Fora a promissora sequência inicial envolvendo a morte do garoto, gostei muito da sequência final da tempestade de areia. Impossível não ficar tenso ou torcer para o “herói” naquele sprint final. Pura técnica do Sr. Eastwood.

O maior problema mesmo, para mim, é o filme ser tão fiel ao livro de Chris – ele lançou a obra American Sniper em janeiro de 2012. Nela, evidentemente, ele narra não apenas as suas quatro missões, mas também defende aquela visão de mundo de “todas as mortes foram justificadas”. Os Estados Unidos é o melhor país do mundo e vale tudo para defendê-lo. Os outros são os outros.

Complicada essa mensagem, não? Entendo os americanos adorarem o filme. Mas qualquer outra nação ter a mesma leitura é quase impossível. É admirável a autoestima e a valorização dos símbolos e da cultura nacional que os Estados Unidos tem. Mas muitas vezes isso tudo transpassa a barreira do razoável e vira arrogância, soberba, violência não importa contra quem. Estes, para mim, são os problemas deste filme. Não dá para analisar apenas os aspectos técnicos, como ele é bem feito, sem pensar na mensagem. E esta, meus amigos, é muito rasa e incomoda.

Por tudo isso, não consigo enxergar American Sniper como um dos grandes filmes de 2014. Se o meu voto valesse algo, ele não teria sido indicado a Melhor Filme no Oscar. Acredito que a força dos nomes envolvidos no projeto, inclusive os produtores, fez com que ele fosse selecionado. Mas ele está longe de ser o melhor do ano passado ou de ser marcante ao ponto de ser lembrado por muito tempo. Há filmes sobre guerra muito melhores.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além da direção firme de Clint Eastwood, este filme tem pelo menos mais uma qualidade: a entrega de Bradley Cooper. Todas as mulheres, acredito, sempre acharam ele gato. Bem vestido, interessante, sempre com aquele sorriso desconcertante. Mas em American Sniper, pela primeira vez, ele parece ter amadurecido como ator. Esqueça comédias bobocas e filmes em que ele é o galã. Aqui ele tomou corpo – para valer – em todos os sentidos. Ele está mais concentrado, mais focado, e encontrou um papel de adulto, saindo-se muito bem na missão. Para mim, é o papel de amadurecimento do ator. Ainda assim, devo dizer, não acho que era para tanto dele ser indicado ao Oscar. De qualquer forma, como vocês lerão abaixo, acho que ele não tem chances de ganhar.

Por ser um filme com muitas cenas de invasão de casas, tiroteios e ação, claro que diversos aspectos técnicos se destacam. Para começar, um ótimo trabalho o de Tom Stern na direção de fotografia. Depois, destaque para a edição de Joel Cox e Gary Roach; para a maquiagem do grupo de 11 profissionais liderados por Luisa Abel e Patricia DeHaney; para os 33 profissionais envolvidos no departamento de som; para os nove que, coordenados por Brendon O’Dell, responderam pelos efeitos especiais, e para as dezenas de profissionais (cansei de contar a longa lista) responsáveis pelos efeitos visuais.

O destaque do filme é realmente Bradley Cooper. Mas gostei muito, também, da atriz Sienna Miller – ela fica totalmente diferente morena. Nem a reconheci. Mas ela está ótima. Além deles, merecem ser citados, em papéis secundários: Reynaldo Gallegos como Tony; Kevin Lacz como Dauber; Jake McDorman como Biggles; Eric Ladin como Squirrel; Luke Grimes como Mark Lee; Tim Griffin como o coronel Gronski; Luis Jose Lopez como Sanchez; Brian Hallisay como capitão Gillespie; Erik Aude como Thompson – todos desta sequência/listas como colegas de farda de Chris; Sammy Sheik como Mustafa, o franco-atirador do lado inimigo e alvo a ser batido por Chris; Navid Negahban como o sheik Al-Obodi; e Mido Hamada como The Butcher/O Açougueiro.

O roteiro de Jason Hall foi baseado no livro American Sniper escrito por Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice. Neste caso, o roteirista escolheu ficar centrado totalmente no livro, sem adicionar muitas outras informações ou pontos de vista que surgiram após o lançamento da obra.

American Sniper estreou em novembro no AFI Fest. Até o momento esta produção não participou de nenhum festival. Apesar disso, ela tem no currículo seis prêmios e 23 indicações – incluindo seis indicações ao Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Clint Eastwood no National Board of Review, que também colocou American Sniper como um dos 10 melhores filmes de 2014.

Esta produção foi rodada no Marrocos e em diferentes lugares da Califórnia, como Los Angeles, Oceanside (o pier onde Chris anda com Taya na parte inicial do filme) e o O’Malleys Pub, em Seal Beach.

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme. Como dá para suspeitar vendo Bradley Cooper em cena, o ator ganhou 18 quilos para fazer este papel. Para isso, ele chegou a consumir 8.000 calorias por dia. Para ganhar musculatura, ele trabalhou com um treinador quatro horas por dia por diversos meses. A preparação incluiu também aulas duas vezes por dia com um treinador vocal, para que ele falasse parecido com Chris. Para utilizar bem um rifle, ele teve aulas com Kevin Lacz, um Navy SEAL que serviu com Chris e que foi consultor do filme.

Cooper ficou obcecado com parecer fisicamente com o retratado. Tanto que ele passou a levantar peso – aquela cena em que ele trabalha com pesos fortes é real.

Antes de Eastwood ficar com o filme, os diretores David O. Russell e Steven Spielberg foram cogitados para dirigir o projeto.

Durante o filme, tive uma sensação estranha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há uma cena em que Chris segura o bebê no colo ao conversar com a mulher e eu pensei: “Essa criança está parecendo demais um boneco? Eles realmente usaram um boneco no filme?”. Pois sim, meus amigos. E isso, aparentemente, rendeu muitos comentários nos Estados Unidos. Os produtores justificaram a cena dizendo que dois bebês tinham sido escalados para aquela gravação, mas um estava doente e o outro não apareceu. Daí eles optaram pelo boneco.

No primeiro final de semana de estreia de American Sniper nos cinemas dos Estados Unidos o filme bateu um recorde para um final de semana de estreia em janeiro, conseguindo US$ 105 milhões. Impressionante.

Bradley Cooper teria falado uma vez com Chris Kyle por telefone antes do ex-militar ser morto. A conversa teria durado dois minutos. Para fazer jus ao “herói” americano, Cooper dedicou oito meses de preparação para o papel.

No melhor estilo “velho oeste”, resgatando a própria tradição de filmes western, Eastwood preparou uma cena de duelo entre os snipers Chris Kyle e Mustafa. Mas ainda editado de maneira que pareça um duelo, na verdade o confronto não teve essa lógica. Afinal, Chris tinha Mustafa na mira, muitos e muitos metros a distância, enquanto o inimigo não tinha a mesma oportunidade/visão.

Clint Eastwood deu uma de Hitchcock em uma breve cena deste filme. Após a cena no bosque, em que Chris ainda criança acerta um veado, o diretor faz uma aparição ao entrar na igreja em que está a família do protagonista. Bonitinho!

O assassino de Chris Kyle justificou o crime porque ele estaria passando por uma grave PTSD (transtorno de estresse postraumático) após ter lutado no Iraque. Mas a viúva de Chris não admite esta justificativa. Segundo este texto do Daily Mail inglês, Eddie Ray Routh, que teria matado Chris em um campo de treino, teria afirmado para a irmã que havia “trocado a sua alma por um caminhão novo”.

American Sniper teria custado US$ 58,8 milhões e faturado, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 154 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez mais US$ 26,5 milhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 147 críticas positivas e 56 negativas para o filme, o que lhe garante aprovação de 72% e uma nota média de 6,9.

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre o protagonista deste filme. Encontrei este artigo interessante de Dorrit Harazim sobre Chris Kyle, que teria matado pelo menos 160 iraquianos – colegas dele estimam algo em torno de 255 mortes. Concordo com ele na leitura de que este herói americano não entendeu nada. Também interessante este texto do Men’s Journal sobre o Chris Kyle controverso, que teve vários atos questionáveis – e não apenas exemplares como o filme quer nos fazer acreditar.

Como dá para imaginar, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo, ela entra na lista de filmes deste país que aparecem como resposta a uma votação feita aqui no blog. 🙂

CONCLUSÃO: Francamente, eu esperava muito mais de American Sniper. Não apenas porque ele é dirigido pelo veterano Clint Eastwood. Que esse sim entende de cinema. Mas porque acho que desde The Hurt Locker a guerra não deveria mais ser vista da forma tradicional. Aqui, infelizmente, ela é. E isso é frustrante. Para este filme de Clint, existe claramente um lado bom, um lado justo e que faz sentido, enquanto o outro lado não tem voz e nem argumento. Visão simplista, mais uma vez. Uma pena. Minha nota, se fosse outro diretor por trás de American Sniper, seria ainda menor. Mas respeito demais o Clint para dar-lhe menos que 7. De qualquer forma, para mim, este filme está longe de ser um dos melhores de 2014. Bem feito, verdade. Mas tantos outros filmes vazios são bem feitos… Dá para dispensá-lo sem culpa.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Como American Sniper teve fôlego de chegar a ser indicado ao Oscar, eu acreditava que veria algo diferente na telona. Mas não. Antes de assistir ao filme, até achava que ele poderia ter alguma chance aqui e ali. Agora, se ganhar, será muito mais por lobby do que por mérito.

Esta produção está indicada em seis categorias do Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator para Bradley Cooper, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Sem dúvida alguma que nas três primeiras categorias o filme tem chance alguma. Pelo menos se o Oscar deste ano fizer alguma justiça. Esta não é a melhor produção de 2014, como eu comentei antes. Bradley Cooper também não é páreo para Eddie Redmayne, que acredito ser o favorito, Michael Keaton ou Benedict Cumberbatch, os únicos que podem tirar a estatueta de Redmayne.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, sem dúvida The Imitation Game é muito melhor. Mesmo The Theory of Everything, com a sua leitura relativa da história de Stephen Hawking, é um trabalho mais encorpado. Ainda não assisti a Inherent Vice e Whiplash para poder opinar sobre estes dois. As únicas categorias em que American Sniper tem alguma chance seriam nas três técnicas. Mas em Melhor Edição, meu voto ficaria entre Boyhood e The Grand Budapest Hotel. Não é aí que American Sniper ganharia.

Em Melhor Edição de Som, a parada é dura. Não vi a Interstellar, mas imagino que esta deve ser uma qualidade da produção. Das que assisti, acho The Hobbit: The Battle of the Five Armies melhor que American Sniper. E em melhor Mixagem de Som, meu voto iria para Unbroken. Bem, amigos, para os meus critérios, está difícil para o filme de Clint. Para mim, ele é a zebra do ano.

American Hustle – Trapaça

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Hollywood gosta de um certo tipo de filme. Aquele que retoma as músicas, as roupas e todo o estilo marcante dos anos 1970 e início dos anos 1980. Várias produções recentes focam naquele período, e American Hustle aparece para aumentar esta lista. Quando encarei esta produção, tinha visto como críticos e público dos Estados Unidos tinham se animado com o filme. Também não consegui ignorar as indicações de American Hustle para o Golden Globes e a presença do filme em várias bolsas de aposta para o Oscar. E daí que após assisti-lo, posso dizer: é bom, mas parece muito com tudo que eu já vi antes.

A HISTÓRIA: Uma mensagem avisa que parte do que veremos, de fato, aconteceu. No dia 28 de abril de 1978, no Hotel Plaza, em Nova York, um sujeito com uma boa barriga saliente veste uma camisa, gasta bastante tempo arrumando o cabelo – não é fácil transformar uma careca em cabeleira -, coloca o óculos escuro e se prepara para o que virá em seguida. Na sequência, ele entra em um quarto em que homens monitoram câmeras e gravações que estão registrando tudo o que acontece na suíte próxima.

Quando se vira, este homem, Irving Rosenfeld (Christian Bale) vê a parceira, Sydney Prosser (Amy Adams) entrar no local em um belo vestido. Eles se olham, mas não falam nada. Em seguida, entra no local Richie DiMaso (Bradley Cooper), que confronta Irving. Richie quer saber porque ele anda falando dele “pelas costas”, afirmando que Richie está ameaçando a operação. Irving reclama de como tudo está caminhando. Em seguida, eles se encontram com o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que não gosta nada quando Richie lhe repassa uma maleta. Irving acaba tendo que correr atrás de Carmine e tenta, mais uma vez, fazer de tudo para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Hustle): Esta é uma destas produções que se revela rapidamente. Não há dúvidas sobre os elementos que vão interessar até o final da história. A caracterização dos personagens, incluindo um figurino de tirar o chapéu (desculpem o trocadilho), e o envolvimento dos atores com a história são artigos preciosos e valorizados desde o primeiro minuto. Em seguida, surge a trilha sonora, que vai revelar-se o ponto mais forte de American Hustle.

Desta vez, vou direto ao ponto nesta crítica: American Hustle começa muito bem. Tem ritmo, tem o encantamento de uma produção feita com esmero e preocupação nos detalhes. Sem contar que interessa pelo grande elenco. Mas depois de 30 minutos de filme, a impressão que eu tive – e que perdurou até o final – foi: “acho que já vi esta história antes”. Não igualzinha, evidentemente. Sempre há novos elementos em roteiros inéditos. Mas a essência da história já era conhecida. E nada pior, em uma “corrida” de expectativas pelo Oscar, do que ver a um filme quase “requentado”.

Por um lado, American Hustle lembra a várias produções recentes que recuperam o visual e a “alma” dos anos 1970/1980. Para ficar apenas em alguns exemplos, Boogie Nights, Lovelace, Almost Famous e Jobs. Depois, que já virou um clássico os filmes sobre golpistas que, nesta produção, ganha um novo “atrativo” com o acréscimo de outro lugar-comum: o último “golpe” que vira uma exigência antes da tão almejada liberdade. Ou, em outras palavras, a pressão para que os criminosos pratiquem um último crime para retomar a vida e não serem condenados e/ou mortos.

No fim das contas, esta é a história de American Hustle. Uma duplas de golpistas – ou de “trapaceiros”, com o título no mercado brasileiro sugere – deve ajudar um agente do FBI para que eles sigam em liberdade. Quem já assistiu a alguns filmes do gênero pode presumir onde isso vai parar, correto? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Normalmente, com este cenário posto, só resta duas alternativas: ou a dupla de bandidos se dá mal e morre (o que é difícil de acontecer aqui porque eles são apenas golpistas e não estão habituados a “matar ou morrer”), ou eles dão a “reviravolta” no golpe. Por saber disso, não foi nada surpreendente o final.

Para quem gosta de filmes sobre golpes, há produções relativamente recentes comentadas aqui no blog e que podem interessar, como Flawless e The Prestige. Mas voltemos a American Hustle. Para mim, o filme teve um grande interesse até o momento em que Richie DiMaso entrega o cheque de US$ 5 mil, a comissão dos golpistas, para Edith Greensley (identidade falsa que Sydney assume ao fazer parceria com Irving). A partir dali, ele só foi perdendo a graça.

Quer dizer, impossível American Hustle perder totalmente a graça com aquele desfile de figurinos maravilhosos e com aquele trilha sonora digna de compra em uma loja virtual. Sem dúvida alguma estes são os pontos fortes do filme que, junto com a atuação do elenco estelar, ajudam a fazer a gente engolir a história, um bocado previsível e que fica arrastada do meio para o final. Porque sem dúvida o roteiro de Eric Singer e do diretor David O. Russell não é o que alimentará os pensamentos do espectador depois que o filme terminar.

American Hustle é destas produções que vai agradar pela roupagem, pelo visual. O estilo do filme, incluída aí a direção competente e firme de Russell, fazem a diferença. E os atores também mostram porque estão entre os mais badalados e interessantes da atualidade. Todos estão muito bem. Christian Bale convence no papel do patético, mas inteligente e confiante Irving; Bradley Cooper transpira autoconfiança e uma certa arrogância como o policial pronto para fazer as prisões de sua carreira; Amy Adams está sensual e frágil na medida certa como a mulher com “pés no chão” que sabe seduzir para sobreviver; e Jennifer Lawrence… ah, Jennifer Lawrence!

Parece incrível dizer isso, tendo os outros três astros em cena, mas sempre que Jennifer Lawrence aparece em American Hustle ela rouba toda e qualquer atenção. Dá um show. Mesmo com Amy Adams sendo competente, não há espaço para lembrarmos dela quando Jennifer Lawrence aparece. E nem me refiro à beleza. Falo de talento mesmo. Fiquei impressionada logo nos primeiros minutos da atriz em cena pela forma com que ela assumiu o personagem da mulher que sabe impor a própria vontade sobre tudo e todos. Ponto forte do filme entre as atuações.

Além do elenco principal, American Hustle se dá ao luxo de ter nomes fortes em papéis “menores”. Para começar, Jeremy Renner em um papel diferente do que estamos habituados em vê-lo. Depois, temos Louis C.K. como Stoddard Thorsen, o chefe imediato de Richie; Michael Peña em quase uma ponta como o agente Paco Hernández/Sheik Abdullah; Alessandro Nivola como o superior de Stoddard, Anthony Amado; e Elisabeth Röhm como Dolly Polito, mulher do prefeito enredado na cilada dos protagonistas. Isso apenas para citar os nomes mais conhecidos.

Mas há espaço para a defesa do filme. Alguém pode dizer que ele se revela interessante porque toca na fragilidade de algumas investigações do FBI e da ânsia de alguns de seus agentes para pegar poderosos – cometendo deslizes éticos no caminho. Há também quem possa ver na história uma interessante narrativa sobre a corrupção que parece assolar todas as esferas públicas de governo. Mas a verdade é que eu não vi grande novidade por estes lados também.

Afinal, em termos de denúncia de corrupções e afins, The Departed e Public Enemies, por exemplo, me parecem ser mais enfáticos e criativos que American Hustle. Ainda que eu ache que o grande objetivo não era nem esse. Me parece que joga um papel mais importante na história os diversos interesses que podem dividir um homem – no caso, o protagonista Irving Rosenfeld. Tudo gira ao redor dele. Há o núcleo da família de Irving, com a genial mulher dele, Rosalyn, e o filho Danny (interpretado pelos gêmeos Danny e Sonny Corbo), representando a típica classe média da época; há a sagaz e sensual Sydney/Edith, uma sobrevivente que se identifica com o jogo de cintura do protagonista e se envolve verdadeiramente com ele; e há todo o restante dos personagens secundários que giram em torno deles – como políticos, empresários e a equipe do FBI.

Irving está dividido entre a forte ligação e o modelo familiar que ele desenvolveu com Rosalyn e a exigência cada vez maior de comprometimento de sua “alma gêmea” Sydney. Tudo vai bem até que os golpistas são pressionados pelo investigador Richie. A partir daí, tanto a vida profissional quanto a particular de Irving são afetadas e ele deve assumir uma posição.

Esta história particular acaba tendo um protagonismo muito maior do que todo o enredo sobre o envolvimento da máfia dos cassinos (e das drogas, jogos e etc) com políticos, a entrada de fortunas nos EUA com a chegada de estrangeiros atrás de favores para facilitar o acesso a um dos países mais prósperos do mundo, ou mesmo a preocupação de algumas figuras do FBI em conseguir uma operação que possa lhes dar fama e espaço nos holofotes. Tudo isso acaba sendo quase secundário frente ao triângulo amoroso de Irving, Rosalyn e Sydney – que ganha um elemento de “competição” (bem entre aspas) com a entrada de Richie na história.

Agora, acho importante comentar sobre alguns pontos que podem parecer confusos. Digo isso porque, para mim, ao menos, eles quase foram motivo de confusão. Afinal, qual era a “trapaça” dos protagonistas? Irving tinha uma rede de lavanderias, mas a principal fonte de recursos dele era a venda de obras de arte roubados ou falsificadas e, principalmente, o golpe com empréstimos falsos.

Ele garantia ter ótimo contatos e que poderia conseguir empréstimos para pessoas que tinham o crédito recusado nos bancos mas, no fim das contas, ele não tinha contato algum e nem conseguia os prometidos empréstimos. Independente de conseguir ou não quantias como US$ 30 mil ou US$ 50 mil para pessoas desesperadas, ele sempre cobrava a “taxa de administração” de US$ 5 mil – recurso não reembolsável, independente do resultado da “intermediação” dele. Na prática, como Sydney vai entender rapidamente, ele nem ao menos tentava ajudar aquelas pessoas – apenas tirava o dinheiro delas.

Richie vê a oportunidade de usar Irving e Edith/Sydney quando percebe que eles são golpistas. Em troca de deixá-los em liberdade, ele pede que eles utilizem a rede de contatos que tem para que ele, através do FBI, possa combater o “crime do colarinho branco”. Em outras palavras, chegar a gente poderosa e desmantelar a lógica do suborno. O prefeito Carmine, que é o típico político cheio de boas intenções e que abre mão de agir dentro da lei para conseguir o que considera bom para a cidade, entra no conto falso de que há um Sheik árabe com muito dinheiro querendo investir pesado na cidade.

Intermediando alguns contatos, que vão desde a máfia até congressistas e um senador, Carmine pensar estar garantindo um investimento que irá reformar Atlantic City. Ele não ganha dinheiro em momento algum. Inclusive fica ofendido quando lhe sugerem o recebimento de uma pasta suspeita. Há muitos políticos como ele, que acreditam que os “fins justificam os meios”. No Brasil mesmo… temos muitos. Vide o Mensalão. Mas no fim das contas, não importa quais são os fins se você se sujar inteiro para conseguir, passando por cima de leis e ajudando pessoas sem escrúpulos no caminho, não é mesmo? Irving tem um olhar de compreensão para Carmine mas, ainda assim, ele segue com os planos.

Essa ideia de trapaça ou golpe pode ser entendida também para a ação do FBI. Afinal, eles engendram todo um esquema mentiroso para pegar os políticos corruptos e desmascarar parte do problema. Mas como Irving mesmo diz, em certo momento, questionando Richie, afinal de contas que “peixe grande” ele pegou neste processo? Muitas vezes são pegos os corruptos, mas o que é feito com os corruptores? Na maioria das vezes – ou sempre -, nada. E isso acontece aqui, porque a história toda era falsa.

E daí que, no fim das contas, você fica fascinado com a trilha sonora, com os figurinos e com os atores, mas não dá grande importância para a história. Para mim, que acho o roteiro um elemento fundamental para um filme ser excelente ou não, ficou faltando qualidade no texto. Isso até não incomodaria tanto se não estivéssemos falando de um dos grandes concorrentes ao Oscar, em uma disputa para escolher o melhor filme lançado nos EUA em 2013. Francamente, comparado a outras produções desta safra e à expectativa que eu tinha com o burburinho a seu respeito, American Hustle deixou a desejar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre “a história por trás desta história”. Já que no início do filme ficou sugerido que American Hustle tinha um quê de realidade… E daí que achei este texto elucidativo do The Washington Post. De acordo com o jornalista Richard Leiby, a produção dirigida por David O. Russell é inspirada na megaoperação anticorrupção do FBI chamada Abscam. Ela veio à tona em 1980 e envolvia, de fato, “sheiks árabes falsos, mafiosos reais, políticos locais corruptos, congressistas dos EUA”. E com um detalhe: tudo filmado.

Ainda conforme o texto do The Washington Post, o ex-supervisor do FBI John Boa foi quem supervisionou Abscam entre 1978 e 1980, tempo de duração da operação que terminou com a prisão de seis congressistas e um senador por suborno e conspiração. Na época em que as prisões aconteceram e o caso veio à público, Abscam foi considerado “o maior escândalo de corrupção política na história do FBI”. Isso porque o trabalho teria envolvido mais de 100 agentes.

Além destes agentes do FBI, a operação teria contado com a participação fundamental do vigarista Melvin Weinberg, informante dos agentes federais que recebia US$ 3 mil por mês, além de bônus, para ajudar em Abscam. Achei engraçada a declaração que o verdadeiro Irving Rosenfeld (na realidade, Melvin Weinberg) deu para o escritor Robert W. Greene: “Eu sou um trapaceiro. Há apenas uma diferença entre mim e os congressistas que conheci em Abscam. O povo lhes paga um salário para roubar”. E não é isso o que todos nós fazemos com tantos políticos? 🙂

Achei interessante que além de resgatar informações históricas sobre Abscam, o texto do The Washington Post comenta sobre o quanto de American Hustle se parece com a história real. De acordo com Leiby, “os momentos em American Hustle que possuem maior verossimilhança são aquelas recriações de vídeos de baixa resolução em preto e branco obtidos com câmeras escondidas”. Ou seja, quase nada do filme é fiel com Abscam.

Há vários elementos técnicos que funcionam bem nesta produção – como pede um grande projeto de Hollywood. Ainda que o figuro seja digno de muitos elogios e deslumbre a qualquer espectador, não tenho dúvidas que a trilha sonora é o que mais me marcou. Achei impecável, uma das melhores que eu ouvi em filme nos últimos tempos. Daí que fiquei pensando que ela deveria ser indicada ao Oscar. Mas não.

Vale lembrar que apenas trilhas sonoras originais concorrem a uma estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Em original eles querem dizer produzida exclusivamente e especificamente para um filme. E como American Hustle tem uma seleção impecável de músicas mas, ainda assim, apenas uma seleção e não uma composição específica, o filme não vai ser indicado nesta categoria para o Oscar. Mas garanto para vocês que a trilha merece ser procurada.

Falando nos figurinos do filme, achei este texto interessante do New York Post que fala, especificamente, sobre a dificuldade de trabalhar com o vestuário dos anos 1970 em produções que retratam esta época. Gostei do material de Faran Krentcil especialmente porque ali encontramos um apanhado geral de outras produções que buscaram estas referências. Vale a leitura.

Da parte técnica do filme, destaco, além da trilha sonora de Danny Elfman e do figurino de Michael Wilkinson, o bom trabalho do diretor David O. Russell. Ele é um sujeito que sabe dar estilo e dinâmica para os seus filmes, com algumas sequências arrebatadoras – aquela em que Rosalyn detona o marido para o filho é a melhor da produção para mim – em American Hustle. Muitas vezes, Russell deixa a trilha sonora tomar conta da produção, valorizando os astros que tem em suas mãos, assim como o restante do trabalho da equipe técnica. Decisões inteligentes. Ainda assim, do meio para o final, o filme perde em ritmo e fica um pouco cansativo. Mas esses são problemas do roteiro que, algumas vezes, pela verborragia, lembra o estilo Tarantino – mas sem a qualidade dele.

Outros elementos que valem ser mencionados: a direção de fotografia de Linus Sandgren; a edição do trio Alan Baumgarten, Jay Cassidy e Crispin Struthers; e principalmente o design de produção de Judy Becker; a direção de arte de Jesse Rosenthal e a decoração de set de Heather Loeffler – estes últimos três ajudam a nos ambientar no tempo da história com a mesma eficácia que o figurino e a trilha sonora.

American Hustle teria custado aproximadamente US$ 40 milhões. Uma pequena fortuna, e suficiente para fazer oito Dallas Buyers Club (filme comentado aqui no blog), por exemplo. Segundo o site Box Office Mojo, até hoje, dia 12 de janeiro, American Hustle teria conseguido quase US$ 101,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e mais US$ 17 milhões nos outros mercados em que já estreou. Ou seja: vai conseguir se pagar e obter algum lucro.

Esta produção estreou no dia 12 de dezembro na Austrália e, no dia seguinte, de forma limitada, nos Estados Unidos, onde estrou para valer uma semana depois. No dia 14 de dezembro American Hustle participou do único festival no qual marcou presença até agora, o Festival Internacional de Cinema de Dubai.

Até o momento American Hustle ganhou 32 prêmios e foi indicado a outros 76. Entre as indicações, estão sete no Golden Globes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o AFI Awards como Filme do Ano; para seis prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence, assim como cinco para o grupo de atores como Melhor Elenco. Além de ser indicado a sete Golden Globes, American Hustle foi indicado a nove prêmios BAFTA. ATUALIZAÇÃO (13/01/2013): O Golden Globes acaba de ser entregue. American Hustle ganhou como o Melhor Filme – Comédia ou Musical, além dos prêmios de Melhor Atriz para Amy Adams e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence. A primeira, para mim, foi surpreendente. Lawrence sim, mereceu! Ela arrasa toda vez que aparece. Adams está em mais um bom trabalho, mas nada que saia da curva esperada. Foi muito bem no prêmio.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: a cena da briga entre Christian Bale e Jennifer Lawrence no quarto foi improvisada. Ela não estava prevista no roteiro, mas como os atores estavam com um pouco de dificuldade de se conectarem com aquelas falas, o diretor resolveu deixar eles fazerem “do seu jeito”.

E eu ia quase terminando este post sem comentar a ponta mais luxuosa da produção: Robert De Niro faz um mafioso (claro!) chamado Victor Tellegio, que sempre está preocupado em uma rota de fuga e que gosta de parecer um “fantasma”, destes que ninguém vê.

Voltando para as curiosidades sobre a produção… Inicialmente a produção teria o título de American Bullshit. Ela figurava em oitavo lugar na Black List de Hollywood em 2010. Essa lista traz os títulos de roteiros que não conseguem ser produzidos.

Os personagens de Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K. e Robert De Niro foram escritos por David O. Russell pensando especificamente em cada um destes atores.

No início dos anos 1980 o diretor Louis Malle adaptou a história de Abscam em um roteiro, prevendo ter Dan Aykroyd e John Belushi como um agente do FBI e um vigarista, respectivamente. Mas a morte de Belushi em 1982 fez com que o projeto fosse abandonado.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Teria sido ideia de Amy Adams que Jennifer Lawrence lhe tascasse um beijo no banheiro.

A seleção musical é impressionante. Entre outras, canções de Duke Ellington (especialmente “homenageado” pelo filme), Jack Jones, Frank Sinatra (que tinha que fazer parte de uma produção sobre mafiosos), Ella Fitzgerald, Donna Summer, Tom Jones, Elton John, The Temptations, Santana, The Bee Gees e David Bowie. E para embalar a melhor sequência do filme, Live and Let Die, escrita por Paul McCartney e Linda McCartney e interpreta pelos Wings.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para American Hustle. Achei ela bastante justa. Eu também pensei em dar um 7,8, por aí, mas pelo conjunto da obra deste filme decidi ser um pouco “generosa”. Apesar do roteiro fraquinho. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 215 textos positivos e apenas 17 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

American Hustle é uma produção 100% dos EUA – o que engrossa a lista de filmes comentados por aqui e que satisfaz a uma votação feita no blog.

CONCLUSÃO: Gosto muito de ver a grandes atores em cena. E este filme… bem, uma das principais qualidades de American Hustle é o elenco estelar escalado para a produção. Mas o problema do filme é que ele surge em uma história recente de filmes feitos em Hollywood que resgatam a “alma” das décadas de 1970/80. Isso não seria um problema se a história fosse surpreendente. Mas nem o roteiro, que começa tão bem, consegue segurar o interesse até o final.

E daí que elementos como o elenco, a trilha sonora e o figurino acabam se destacando ainda mais – já que a história, por si só, não se revela tão instigante assim. American Hustle é destes filmes bem produzidos e que sempre será destacado nas premiações, mas que no final das contas não traz nenhuma grande história ou mesmo surpreende o espectador. Pelo contrário. Passatempo interessante, especialmente pela trilha sonora. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Dentro de poucos dias vamos saber com quantas indicações American Hustle vai chegar no Oscar. No dia 16 sai a lista dos filmes com chances de ganhar estatuetas. Acompanhando as bolsas de apostas e os comentários dos especialistas dos Estados Unidos, percebi pouco a pouco como esta produção foi crescendo. Ela pode – e deve – ser indicada em várias categorias. Mas duvido muito que ganhe a maioria delas.

Na aposta dos críticos, o filme pode ter entre 10 e 12 indicações ao Oscar. Incluindo as categorias principais e as de caráter mais técnico. Francamente, acho mesmo que ele pode chegar a esse número – sendo otimista e também um pouco realista, já que a produção tem crescido nos últimos tempos.

Não será difícil para American Hustle ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo. Mas nestas categorias e nas demais em que pode chegar, o filme terá que disputar a quarta ou quinta vaga com outras produções em pé de igualdade – com exceção de Melhor Filme, onde podem ser indicados até 10 títulos.

Em outras categorias, como Melhor Ator e Melhor Atriz, o caminho de American Hustle é mais difícil… mas tudo vai depender do lobby e da força que o filme conquistou nos últimos tempos para colocá-lo em lugares que não eram tão previstos assim. Mas acho que seria uma grande surpresa se o filme conseguisse várias estatuetas. Meu palpite é que ele tem reais chances em Melhor Atriz Coadjuvante, para Jennifer Lawrence, e Melhor Figurino.

Talvez ele possa surpreender em Melhor Ator Coadjuvante, para Bradley Cooper, mas acho complicado – porque ele terá pela frente Michael Fassbender (12 Years a Slave, comentado aqui no blog) e Jared Leto (Dallas Buyers Club), que estão melhores em seus papéis, entre outros concorrentes. E até mesmo Jennifer Lawrence tem uma tarefa inglória, porque ela compete com Lupita Nyong’o (fantástica em 12 Years a Slave) e outros nomes fortes de filmes que eu ainda não assisti. Tarefa complicada para American Hustle ganhar alguma estatueta este ano! Logo veremos…

Silver Linings Playbook – O Lado Bom da Vida

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Um filme romântico que contradiz os filmes românticos. Silver Linings Playbook conta a história de duas pessoas jovens que se esforçam para recomeçar as suas próprias vidas. Eles são estranhos, e buscam, desta forma diferente, um caminho para voltarem a amar. Como em tantas histórias românticas, eles começam em descompasso, cada um dançando para um lado. Romance, cartas – há algo mais romântico? -, dança, discussões, dúvidas e problemas psicológicos com e sem tratamento fazem parte do enredo. Um filme interessante, ainda que ele demore para decolar.

A HISTÓRIA: Hospital Psiquiátrico Karel, em Baltimore. Pat (Bradley Cooper) está se explicando para Nikki (Brea Bee), que não está ali. Ele comenta que adora os domingos, porque este é o dia em que toda a família se reune, e quando o pai dele (Robert De Niro) veste a camisa do time de futebol que eles adoram. Pat admite que era negativo, e que ficava nervoso, mas que agora está melhorando. Batem à porta. E pedem para ele sair. Pat segue falando como se Nikki estivesse ali, admitindo que errou, mas que ela também pisou na bola, mas que agora ele é um sujeito positivo e que tudo pode melhorar e ficar bem. Para ele, o sentimento dele por Nikki é amor verdadeiro. Há poucos objetos no quarto de Pat, e um cartaz com a palavra “Excelsior” na parede, uma espécie de mantra que ele utiliza para manter o foco no “positivo”. Pat sai do quarto, finge tomar sua medicação, e sai do hospital quando a mãe dele, Dolores (Jacki Weaver) assume o risco de tirá-lo de lá. A partir de sua saída, Pat se concentra em tentar recuperar Nikki.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silver Linings Playbook): De perto, ninguém é normal. Mas alguns conseguem fingir melhor que outros. Administram, após a adolescência, todos os filtros e máscaras possíveis para viverem personagens socialmente aceitáveis. Mas no fundo, e na intimidade, todo mundo tem as suas fraquezas, fortalezas e loucuras.

Silver Linings Playbook trata desta gente esquisita. De uma família que tem pelo menos dois integrantes com doenças bem identificadas: Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e Transtorno Afetivo Bipolar (TAB). O TOC fica evidente no comportamento do pai de Pat, que não tem nenhum tipo de tratamento e também parece não admitir que tem qualquer doença. O TAF, por outro lado, foi identificado de forma tardia em Pat, o protagonista.

O diretor e roteirista David O. Russell abraçou o projeto de adaptar o livro de Matthew Quick, The Silver Linings Playbook, depois que a obra foi indicada pelos diretores, produtores e amigos dele, Sydney Pollack e Anthony Minghella. Lendo o livro, Russell conheceu o casal de protagonistas “problemático” e ficou pessoalmente interessado na história porque tem um filho que é bipolar e também tem um pouco de TOC.

Cinco anos depois de ter recebido o livro, Russell apresenta este filme. Segundo ele, uma forma de mostrar para o filho que ele não está “tão sozinho” no mundo. Para que ele se sinta mais integrado na sociedade. Bela mensagem de fundo, pois. Nestes cinco anos Russell lapidou o roteiro, até ficar satisfeito. Conseguiu um bom resultado, não há dúvida. Mas bom não significa excelente, muito menos inesquecível.

As primeiras reações surpreendentes de Pat têm impacto. Excesso de sinceridade, nos dias atuais, sempre surpreende. E torna as pessoas interessantes. Mas depois, aqueles “rompantes” e demais características do TAB de Pat não surpreendem mais. São apenas repetições. Como Cooper é carismático e está totalmente imerso em seu personagem, estas repetições até que não cansam. O ambiente na casa de Pat, sim, poderia ser um pouco mais enxuto.

Há pelo menos uma boa cena entre Pat e o pai. Aquela em que o velho, cheio de manias típicas do TOC, admite que não foi um pai presente. De Niro está bem, mas longe de seus melhores desempenhos. Aliás, há muitos anos não vejo este mestre da interpretação realmente surpreender em alguma atuação. Ele parece estar sempre com a mesma cara, os mesmos gestos e falas, sem qualquer inovação. Diferente dos bons tempos. O mesmo pode ser dito de Jacki Weaver. Ela está bem, faz o papel da mãe preocupada e amorosa, mas não se destaca com suas falas previsíveis.

Claramente Russell faz um esforço para este filme não ser sombrio demais. Pelo contrário, ele investe bastante tempo em torná-lo engraçado. Os personagens de De Niro e, principalmente, de Danny (Chris Tucker), amigo do hospital psiquiátrico de Pat, estão ali para fazer o público rir. O problema é que uma referência afetiva importante, o futebol americano, não é uma paixão brasileira. E nem de vários outros países. Certamente nos Estados Unidos, onde o esporte é uma paixão nacional, as discussões e a paixão da família de Pat pelo esporte tornam o filme ainda mais interessante. Esse efeito não chega a outros públicos.

Os melhores momentos desta produção, sem dúvida, estão na interação entre os atores Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Ela interpreta a Tiffany, uma garota que mora perto da família de Pat e que acaba sendo apresenta para ele pelo casal Ronnie (John Ortiz) e Veronica (Julia Stiles). Tiffany é irmã de Veronica, e sofre com a comparação entre as duas. Como Pat, Tiffany também está vivendo uma fase desafiante de reestruturação. Frágil, linda, há pouco desempregada, ela tenta deixar para trás a vida de promiscuidade que assumiu após a morte do marido.

Em um filme mediano, como este, que só engrena mesmo no final – e por isso a maioria do público deve ficar encantada com a produção, esquecendo o quanto ela demorou para decolar até aí -, o desempenho concentrado de Cooper e Lawrence se destacam. A melhor parte do filme, de fato, está na sintonia que os dois desenvolvem em cena.

Impressionante como Pat se concentra na estratégia para reconquistar Nikki. Desde a ânsia em ler os livros que a ex-mulher ensina na escola, para “entender” melhor a realidade que ela está vivendo, até as corridas para manter o físico e a calma. Concentrado na palavra Excelsior, ele se esforça para tornar-se um sujeito mais equilibrado. Mas como muitas pessoas que tem transtornos, acredita que conseguirá fazer isso sozinho, sem tomar corretamente os remédios receitados. Mas tudo deve contribuir para a cura.

A sorte de Pat é que ele se encontra com Tiffany, e que ela logo de cara se interessa por ele. A ponto de investir na conquista. Através dela, ele conhece o poder terapêutico da dança, do contato físico, dos treinos que trazem a disciplina e o exercício físico necessário para que ele possa melhorar. Sem isso, certamente faria muito mais falta os remédios que ele não estava tomando.

Em uma história romântica, além de sintonia entre o casal de protagonistas, é fundamental termos ótimos diálogos e algumas surpresas. Silver Linings Playbook tem alguns bons diálogos. Os melhores estão no final. Mas as surpresas… fora o momento em que Pat joga o livro pela janea e a primeira vez em que Tiffany “persegue” Pat na corrida, os demais episódios são previsíveis. Como a questão da carta, por exemplo. Também não entendi, exceto por uma questão de empatia com os torcedores de futebol americano, porque aquela sequência de Pat e o irmão Jake (Shea Whigham) indo até uma partida… para o filme, funcionaria muito melhor se aquele tempo fosse gasto em ensaios de Pat e Tiffany ou em outra interação entre eles.

No final das contas, este é um filme com belas intenções. E que tem um bom trabalho dos atores, assim como uma forma romântica de contar uma história sem recorrer aos lugares-comuns de histórias do gênero. Silver Linings Playbook mostra que as pessoas esquisitas, que somos todos nós, em alguma medida, pode ser muito romântica. Para isso, basta querer. Basta ter vontade de fugir da dureza do cotidiano e se entregar a querer agradar a pessoa que se ama. A querer declarar-se, sem medo. E como diria o Lulu, a “se permitir”. Porque é fácil manter o foco em algo que não existe mais, e desperdiçar as chances de amar e ser feliz de verdade. Silver Linings Playbook fala um pouco sobre isso.

E outro aprendizado interessante deste filme é que vale sim ter uma atitude positiva com a vida. Mas, ao mesmo tempo, como Tiffany ensina para Pat, isso não basta. Mais que ser positivo, importante é conhecer e aceitar todas as vertentes que você mesmo carrega. Entender todas as tuas facetas. Teu “lado A” e teu “lado B”, e não ter problema com nenhuma destas partes. E se tiver, cuidar de lapidá-las. Para encarar a vida com mais segurança, com foco no que se quer, como faz Tiffany, depois de ficar um tempo perdida. Porque estar perdido, por um tempo, faz parte. Mas estar perdido o tempo todo, não. E sim, com isso feito, ter atitude positiva é algo importante. Para enfrentar tudo que vem pela frente.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos elementos que funciona bem em Silver Linings Playbook é a trilha sonora. Elemento fundamental no cinema, mas especialmente em filmes de histórias românticas. A seleção musical funciona muito bem aqui. Com destaque para canções de Stevie Wonder, Led Zeppelin, Bob Dylan, The White Stripes, entre outros.

O filme gira ao redor do personagem de Bradley Cooper. Tanto que isso é verdade que a família de Tiffany aparece quase nada em cena. Além dos atores citados, especialmente do casal de protagonistas e dos pais de Pat, vale citar o trabalho competente de Anupam Kher como o psicólogo Dr. Cliff Patel, que tem um sotaque bem interessante; Dash Mihok como o policial Keogh, que está sempre por perto de Pat, para evitar que ele tenha outro ataque de fúria e machuque alguém; e Paul Herman como Randy, o apostador profissional que vive fazendo o pai de Pat perder dinheiro.

Uma curiosidade sobre esta produção: inicialmente, Anne Hathaway havia sido cotada para interpretar a Tiffany. Mas por um problema de agenda, já que a atriz tinha outros projetos, o papel acabou caindo para Jennifer Lawrence. Depois da desistência de Hathaway, o papel chegou a ser pensado para Rachel McAdams, Olivia Wilde, Elizabeth Banks, Blake Lively, Rooney Mara, Kirsten Dunst e Andrea Riseborough. Sem dúvida Russell teve sorte de ter Lawrence. Talvez outra boa alternativa seria Mara.

Outro cotado para o filme, no início, foi Mark Wahlberg. Mas ele logo foi substituído por Cooper.

Os Weinstein compraram os direitos do filme antes mesmo dele ser publicado. Por isso ele havia sido planejado, inicialmente, para passar por Sydney Pollack e Anthony Minghella, antes deles morrerem em 2008.

Bradley Cooper e Jennifer Lawrence gastaram semanas praticando a cena da dança final, coreografada por Mandy Moore.

Silver Linings Playbook teria custado US$ 21 milhões. Até o dia 27 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, o filme faturou pouco mais de US$ 68,9 milhões. E certamente seguirá subindo, dando um belo lucro para os produtores.

Este filme estreou no Festival de Toronto em setembro de 2012. Depois daquele evento, ele participou de outros seis festivais. Nesta trajetória, recebeu 40 prêmios e foi indicado a outros 58. Entre os que recebeu, destaque para o prêmio de Melhor Filme do ano no AFI Awards; o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Jennifer Lawrence; e os prêmios de Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado e Top Film no National Board of Review.

Silver Linings Playbook foi totalmente rodado na Pennsylvania, nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Uma avaliação muito boa, considerando a média do site. Os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 194 textos positivos e apenas 16 negativos para Silver Linings Playbook, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,2. Avaliação inclusive melhor que a do público, pois.

Para quem quer saber mais sobre o que acontece com os protagonistas desta produção, recomendo dois textos de distúrbios que eu li após assistí-lo. Sobre os transtornos de Pat, achei interessante este texto; e sobre o que acontece com Tiffany, este outro.

CONCLUSÃO: Os últimos 20 minutos deste filme valem todo o restante. Claro que para que este trecho final seja justificado, é necessário o restante. Ainda assim, Silver Linings Playbook me pareceu um pouco enrolado demais. Talvez ele pudesse ter meia hora menas, e ficaria mais interessante assim. A história investe em aprofundar-se nos bastidores da vida do protagonista, gastando um tempo valioso com o TOC do pai, com as esquisitices das corridas com saco de lixo. Por pouco este tempo precioso gasto com algumas informações repetitivas não chegam a cansar. A entrega dos atores e o carisma deles impede que tenhamos sono. E a sequência final acaba justificando o restante. Um filme bacaninha, bonitinho, com um belo casal de protagonistas, dois bons atores veteranos como apoio, e que nos faz refletir como as pessoas são interessantes. Sejam elas mais ou menos “normais”. Todos podem amar, surpreender com bom gosto e arte. E a dança, assim como a música, são mágicas, terapêuticas. Vale a pena amar, no final das contas. E ser romântico também.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Bob e Harvey Weinstein são poderosos, realmente. Não existe outra razão, que não o poderio destes grandes produtores, dois dos maiores em atuação em Hollywood, que explique como Silver Linings Playbook recebeu oito, eu disse OITO indicações ao Oscar.

Este é um filme bonitinho? Sim, de fato. Tem boas intenções. Tem. Mas ele é excepcional? Melhor do que os últimos filmes românticos lançados? Não acho. Silver Linings Playbook tem muitas qualidades, especialmente no final, mas não passa de uma produção mediana. Por isso mesmo, não acho que ele merecia ser indicado a oito Oscar’s.

Mas bueno, ele foi. Os quatro atores principais da produção foram indicados: Bradley Cooper como Melhor Ator; Jennifer Lawrence como Melhor Atriz, Robert De Niro como Melhor Ator Coadjuvante, e Jacki Weaver como Melhor Atriz Coadjuvante. David O. Russell foi indicado duas vezes, como Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Para finalizar, esta produção foi indicada como Melhor Filme e como Melhor Edição.

Francamente? Acho que Silver Linings Playbook corre o sério risco de sair de mãos vazias do próximo Oscar. Não vejo Cooper ganhando, ou mesmo De Niro ou Weaver. Também não acho que esta produção ganhará como melhor filme ou roteiro. Talvez a atriz Jennifer Lawrence tenha alguma chance de ganhar a estatueta. Assim como a edição.

Da minha parte, não daria nenhum destes prêmios para o filme, porque acho que outras concorrentes foram melhor em cada uma destas categorias. Logo mais saberemos se os Weinstein vão conseguir impor a sua força e arrancar alguma estatueta para este filme mediano.