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The Square – The Square: A Arte da Discórdia

Qual é o valor da arte hoje em dia? Em um mundo em que a desigualdade parece não ter fim, gastar com arte parece algo ético? O que a arte nos questiona, conseguimos levar para a nossa vida cotidiana ou a reflexão dura apenas alguns segundos, minutos, dias, mas não consegue sair do plano das ideias? The Square é um filme interessante, que nos desafia a pensar sobre o nosso contexto, sobre as sociedades que construímos e sobre as escolhas que fazemos. Trata de arte, é verdade, mas trata, sobretudo, de gente.

A HISTÓRIA: Som de festa. Um zumbido. Som de um sapato no piso. A secretária de Christian (Claes Bang) pergunta se ele precisa de algo, porque chegou a hora da próxima entrevista. Ele pede dois minutos para se preparar. Pouco depois, ele está pronto para falar com a jornalista Anne (Elisabeth Moss). A entrevista demora um pouco, porque as anotações dela caem, mas logo ela recomeça e pergunta para ele qual é o maior desafio para se gerenciar um museu. Christian diz que odeia dizer isso, mas que provavelmente é o dinheiro.

Ele diz que o museu, por ser de arte moderna e contemporânea, tem uma competição feroz, já que existem muitos compradores cheios de dinheiro no mundo que gastam mais em uma tarde do que eles em um ano. E assim começa essa produção, que mostra não apenas o que acontece dentro de um museu, mas em seu entorno, focando em aspectos que a arte moderna e contemporânea gosta de focar, ainda que nem sempre ela chegue em todos que deveria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Eu não sabia muito bem o que esperar desse filme. Sim, eu já tinha ouvido falar que ele tratava sobre a arte, mas qual seria exatamente a proposta desta produção, só vendo mesmo. E aí que esse filme me surpreendeu por tratar os bastidores da arte sem firulas e por aproveitar o tema para abrir um pouco mais a discussão sobre a sociedade que cada um de nós ajuda a construir.

Logo no começo do filme dirigido e com roteiro de Ruben Östlund somos apresentados ao protagonista dessa produção. Curador-chefe de um museu de arte moderna e contemporânea, Christian é um sujeito interessante – e que representa vários homens da sua geração. Bem educado, com uma vida boa e com “poder” no meio artístico, ele tem o olhar crítico necessário para estar na posição em que ele está. Mas será que esse olhar crítico se sustenta a longo prazo e/ou em qualquer situação?

Algo interessante nesse filme, e que eu notei logo de cara, é que ele trata de situações bastante plausíveis. Em alguns momentos, inclusive, parece que The Square se desenvolve quase como um documentário. Me refiro às diferentes cenas das ruas de Estocolmo, à garota que pede dinheiro ou comida em um 7-Eleven do Centro, e tantas outras sequências que parecem povoar o cotidiano não apenas daquela cidade, mas de qualquer outra.

O início do filme, que se debruça sobre os bastidores de uma nova exposição que está sendo preparada para estrear no museu, também parece bastante “a vida como ela é”. Christian está em meio a uma série de entrevistas para falar sobre o museu e sobre o seu esforço de seguir existindo em um mundo em que a disputa por recursos é cada vez maior – e quem, hoje em dia, realmente é filantropo e generoso para doar dinheiro para a arte?

Assim, The Square já começa desmistificando um pouco a ideia romântica que muitos tem sobre o mundo da arte. De que ele é formado apenas por pessoas criativas, muito ligadas em tudo que os cerca e críticas do cotidiano. Ainda que tudo isso seja verdade, esse meio também vive em uma busca constante por dinheiro e por recursos. Colocar uma nova exposição de pé não é algo fácil ou simples, como The Square revela muito bem.

Várias pessoas são envolvidas no processo, e há uma “briga” grande por parte de cada museu para que a sua proposta seja ouvida e reverberada na imprensa – porque, assim, eles conseguem não apenas público, mas também possíveis apoiadores/patrocinadores. E aí esse filme entra em uma outra esfera que, particularmente, me pareceu especialmente interessante: em um mundo com excesso de informação e de pautas que chamam a atenção e são de interesse público, como se fazer notar com uma exposição de arte?

Francamente, a arte deveria chamar a atenção naturalmente. Pelo menos é isso que eu penso. Porque a arte, não importa em que época da nossa história, ajudou a nos contar mais sobre o que somos, sobre o que sonhamos, e ampliou as nossas fronteiras da imaginação e da compreensão. Então a arte, por si só, deveria interessar a todos – inclusive aos jornais.

Mas não. Parece que a cada dia mais pessoas estão achando a arte desinteressante – ou essa é apenas uma impressão minha? Nesse sentido, The Square joga algumas perguntas importantes no ventilador. Como, por exemplo, a quem a arte interessa? Quem se importa com a arte? Será que ela pode ser tão importante ou interessante para um mendigo quanto para uma pessoa que tem uma ótima condição de vida?

Pior que, para quem já frequentou alguns museus, sabe que arte parece ser realmente restrita a alguns perfis de pessoas. Quantos museus, por exemplo, estariam dispostos a abrir as portas para quem não pode pagar pela entrada e/ou para moradores de rua? Bem, muitos museus tem os seus dias de gratuidade. Em teoria, nesses dias, qualquer pessoa poderia entrar – inclusive alguém sem dinheiro algum. Mas você, que já foi em alguns museus, já viu em algum deles um mendigo? Eu, nunca.

Então será mesmo que os diferentes cenários artísticos – museus, galerias, cinemas, teatros, etc. – são democráticos e abertos para todos? Ou será que eles, com certa “naturalidade”, selecionam quem deve ou não frequentar os seus ambientes e a sua arte? Apesar de não ser vista por todos, a arte trata sobre todos. Todas as manifestações artísticas que vemos nesse filme – todas muito interessantes, aliás -, acabam falando sobre conceitos universais e sobre questões que competem a toda a sociedade (inclusive a marginalizada).

Uma das exposições, que mostra montes de “cinzas” e a frase “você não tem nada”, aborda a insignificância e a finitude do indivíduo – e o fato de que nada do que ele acredita ter de posses realmente seja algo. Outra intervenção artística, feita por Oleg (Terry Notary), em um jantar chique – para mim, o ponto alto da produção -, trata com bastante impacto a questão do “bicho humano” e a sociedade machista em que vivemos – na qual, muitas vezes, parte considerável dos homens parece não ter saído do tempo das cavernas.

Além destas exposições, temos aquela que movimenta a produção – além da vida pessoal do protagonista, é claro. A exposição The Square de Lola Arias, que dá nome a esse filme, trata sobre uma sociedade em que a confiança ou a desconfiança sobre os outros dita as nossas escolhas cotidianas – e, mais que isso, a nossa vida.

Em paralelo a todo o trabalho envolvendo a montagem e a divulgação dessa exposição, temos a vida real acontecendo, com o protagonista Christian tendo a sua própria tolerância e confiança/desconfiança do outro testada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ao tentar ajudar uma garota desesperada, ele é enganado e roubado. E como ele reage a isso que lhe aconteceu? Esse é o ponto central da história.

Primeiro, Christian “acompanha” a trajetória do celular que foi roubado. Depois, em meio a vinho e um jantar, ele dá ouvidos para Michael (Christopher Laesso), que sugere que ele entregue uma carta ameaçadora para cada morador do prédio onde o celular dele foi parar. Até aí, o gesto dele parece ter sido inocente. Afinal, o criminoso pode ou não dar bola para a carta que ele escreveu. O problema é que nem toda cultura ou toda família funciona da mesma forma.

Então sim, Christian consegue os seus pertences de volta. Mas ele também consegue uma bela dor de cabeça com um garoto (Elijandro Edouard) ficando realmente indignado com a acusação que ele fez. Diferente de Christian, que provavelmente ignoraria uma carta daquela sendo deixada em sua porta, a família do garoto passou a desconfiar dele e a castigar. Claro que tudo isso se resolveria de uma maneira simples – se eles falassem com a vizinhança, por exemplo, facilmente eles saberiam que a acusação tinha sido generalizada.

Esse ponto do filme parece um tanto exagerado, não é mesmo? De fato ele é, um pouco. Porque vejamos a maior parte das pessoas… quem hoje em dia cumprimenta os vizinhos ou tem uma boa relação com eles? Sim, no Brasil ainda temos isso. Agora imagine um país da Europa onde os imigrantes são cada vez mais recebidos com receio e/ou indiferença… muitas pessoas realmente não se enturmam ou acabam se refugiando apenas dentro de casa – para evitar problemas maiores.

Nada fica totalmente claro em The Square, mas me parece que esse era o caso do garoto e de sua família. Parece que eles eram imigrantes – talvez até muçulmanos -, que não eram bem “inseridos” em sua comunidade e que, por isso, acabaram levando a acusação como algo tão grave.

Esse é um ponto não óbvio e importante do filme. Mostrar como hoje existem tantas pessoas marginalizadas nas nossas cidades – seja porque não tem dinheiro, seja porque vieram de outros países, atrás de uma oportunidade melhor de vida, e não falam direito o idioma ou encontram uma oportunidade de trabalho.

O problema é que nem eles se adaptam bem ao novo local, por causa do idioma e da cultura, e nem as pessoas locais conseguem perceber que a forma deles de pensar e de agir é diferente – e que todos nós, por isso mesmo, deveríamos ter mais cuidado e empatia no trato. Em resumo, mais consideração pelo ser humano, suas semelhanças e diferenças. Mas quem disse que isso é o que vemos acontecer?

Voltando para a questão da divulgação da nova exposição do museu. Esse é um ponto que me pareceu especialmente interessante. Christian, muito envolvido com as suas questões pessoais – além do resgate dos pertences roubados, a relação nova e um tanto conturbada com a jornalista Anne (Elisabeth Moss) e o retorno das filhas para casa (Lise Stephenson Engström e Lilianne Mardon) -, acaba sendo um bocado displicente com a divulgação da exposição The Square.

O resultado é que a agência de relações públicas e de marketing contratada para divulgar o evento acaba apostando na ideia maluca de dois “jovens talentos” (Daniel Hallberg e Martin Sööder) que conhecem bem a dinâmica das redes sociais e que vem com uma ideia literalmente “bombástica” para “causar” na internet. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do filme.

Realmente muitas pessoas hoje em dia – vide inclusive políticos no Brasil – perdem a noção do ridículo ou do que pode ser aconselhável e se lançam com ideias malucas e/ou cretinas na internet para conseguirem a tão desejada exposição na mídia. Mas a que preço eles fazem isso? No caso do exemplo dado por The Square, os publicitários conseguiram “viralizar” o vídeo e chamar a atenção para a exposição, mas de uma forma totalmente errada.

Afinal, sim, a exposição queria chamar a atenção para a falta de cuidado e de afeto das pessoas com os outros de forma geral. Mostrar que o que deveria ser considerado básico no trato humano não acontece, muitas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas daí a explodir uma garotinha loira se passando como mendiga é um pouco demais, não? Afinal, estamos falando de uma era em que extremistas realmente se explodem para matar “infiéis” e na qual esses mesmos grupos utilizam crianças como “bala de canhão”… então mostrar uma criança explodindo para falar de uma exposição parece banalizar demais a violência que já acontece na vida real, não?

Mas essa ideia cretina apresentada em The Square nos ajuda a refletir sobre algo que gostaram de falar bastante por aqui também na exposição com um homem nu e uma criança: a liberdade de expressão. Hoje em dia, na era em que as “massas” antes apenas receptoras de informação podem também dar a sua opinião sobre tudo, certas ideias não passam mais pelo crivo do “tribunal da internet”.

O povo pode até consumir em massa um determinado vídeo – e, como The Square bem revela, inclusive dar dinheiro para quem fez isso e para o Google como “participante” dos lucros -, mas nem por isso ele bate palma para o que viu. No caso do vídeo infeliz dos publicitários “brilhantes” que sabem tudo sobre internet, o tiro saiu pela culatra. A mensagem foi distorcida, foi exagerada, tudo para chocar e para viralizar, e a polêmica destruiu uma exposição que tinha um princípio interessante – e, por tabela, fez o protagonista dessa história perder o emprego.

Essas questões, assim como a desigualdade de oportunidades e de tratamentos conforme a classe social ou a origem das pessoas, são temas importantes nesse filme. Só me incomodou um pouco, devo admitir, que alguns personagens foram pouco desenvolvidos – como o de Anne, interpretado por uma Elisabeth Moss quase em participação especial -, e que algumas sequências foram pensadas mais do que para nos chocar do que para fazer sentido (como aquela do protagonista empurrando o garoto pela escada).

Além disso, achei a duração desse filme realmente longa. Para o que ele tinha que nos apresentar, tranquilamente ele poderia ter duas horas de duração ou até um pouco menos – mas The Square tem 2h22min! Também acho que algumas sequências da produção ficaram um tanto deslocadas, como toda aquela sequência de Christian no apartamento de Anne (que poderia ser bem mais curta e direta) ou o encontro do garoto indignado com o “emissário” de Christian, Michael. Um pouco menos de pretensão faria bem para esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os artistas são seres fabulosos. Eles pensam a realidade de uma forma que os “reles mortais”, tão ocupados em seus cotidianos de trabalho e demais afazeres, não são capazes de fazer. Além disso, eles tem a capacidade de ver o belo – ou o feio – de uma forma diferenciada, olhando além das aparências e sabendo provocar as audiências como poucos.

Ainda que tudo isso seja verdade, até que ponto um artista tem a liberdade para expressar a sua arte? Ele pode ter a liberdade completa, fazer o que realmente deseja sem ter que pensar em mais nada ou ninguém? Pergunto isso por causa de uma das sequências mais marcantes e fascinantes do filme, aquela em que Oleg faz a sua intervenção.

No início, achei impressionante o trabalho dele. De fato, aquela era uma alegoria sobre a nossa sociedade, na qual os que tem medo ou procuram escapar do “terror” apenas se tornam vítimas dele. Quem fica imóvel apenas para ver outro se tornar vítima, é quem sobrevive. Essa é um alegoria sobre diversos ambientes da nossa sociedade atual – inclusive o empresarial, não? E ainda que o trabalho do artista tenha sido impressionante, a sequência final dele, pegando aquela mulher pelos cabelos… realmente era necessária? Até que ponto o artista não estava extravasando a sua própria loucura? A liberdade de expressão tudo permite? Acho que não.

Acho sim que a liberdade de expressão deve ser defendida, desde que ela não afete os direitos básicos dos outros. Desde que a liberdade de expressão não fira leis e regras que foram estabelecidas pela sociedade. Não basta querer passar uma ideia. É preciso ter a responsabilidade de cuidar para que aquela ideia não provoque danos para pessoas inocentes e que não escolheram ser expostas a determinadas situações.

Entre os aspectos técnicos desse filme, gostei muito da trilha sonora, que geralmente utiliza o clássico para tornar as sequências mais “líricas”, e que tem Rasmus Thord como supervisor musical; assim como gostei da direção de fotografia de Fredrik Wenzel; da direção sempre atenta aos personagens e à cidade de Ruben Östlund; da edição de Jacob Secher Schulsinger e de Ruben Östlund; do design de produção de Josefin Asberg; e dos figurinos de Sofie Krunegard.

O grande nome desse filme é o de Claes Bang. Toda a produção está centrada no Christian que ele interpreta. Como o ator ganha uma evidência monumental nessa produção, outros nomes bem conhecidos, como Elisabeth Moss e Dominic West, aparecem em trabalhos bastante secundários. A verdade é que nenhum outro personagem, exceto o protagonista, tem o seu papel bem desenvolvido nessa produção. Esse é um dos pontos fracos do filme, aliás.

Além dos atores citados, vale destacar o trabalho de alguns outros coadjuvantes: Terry Notary rouba a cena como Oleg – sem dúvida um trabalho marcante e pelo qual esse filme ficará lembrado; Christopher Laesso está muito bem como Michael – ainda que, novamente, a exemplo dos demais, seu personagem seja pouco desenvolvido; Lise Stephenson Ergström e Lilianne Mardon estão ok como as filhas do protagonista; Marina Schiptjenko está bem como Elna, administradora do museu; Elijandro Edouard como o garoto indignado está bem, ainda que me pareceu um pouco exagerado; e Daniel Hallberg e Martin Sööder fazem muito bem os “jovens talentos” do meio de RP e publicitário – eles realmente se parecem com muitas figuras que encontramos hoje em dia em várias empresas.

The Square estreou em première no dia 20 de maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 37 festivais em diversos países pelo mundo. Realmente um filme com uma longa trajetória de festivais. Interessante. Nessa sua trajetória, The Square ganhou 22 prêmios e foi indicado a outros 33 – sendo uma destas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e para o Prêmio Vulcain para Artista Técnico dado para Josefin Asberg no mesmo evento; para os prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Comédia Europeia, Melhor Diretor Europeu, Melhor Ator Europeu para Claes Bang, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Designer de Produção Europeu para Josefin Asberg no European Film Awards; para o Goya de Melhor Filme Europeu; e para oito prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por diferentes associações de críticos dos Estados Unidos e do Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre The Square. O ator Terry Notary interpretou, nesse filme, ao “homem macaco” Oleg. O artista russo Oleg Kulik ficou famoso por, ao ser convidado para participar da exposição coletiva internacional Interpol, em Estocolmo, fazer, na abertura, uma performance como um cão. Ele correu, pulou, rolou no chão e até mordeu alguns convidados VIPs nas pernas. Kulik disse que estava representando o povo russo “intimidado”, que estava sendo atacado e que, agora, estava revidando. Os convidados da exposição ficaram indignados ao ponto de chamar a polícia. No filme, há uma cena semelhante na capacidade de chocar, mas na qual o artista se passa por macaco.

Uma das perguntas da exposição The Square é interessante: você é do tipo de pessoa que confia ou que desconfia das pessoas? O restante da exposição e da tua experiência nela é definida por isso. Na vida real, também definimos a nossa vida a partir do momento que respondemos essa pergunta. E afinal de contas, por que chegamos ao ponto de tanta gente, ao menos na prática, mais desconfiar do que confiar nos outros?

O incidente em que Christian tem o celular roubado foi baseado na própria experiência de um amigo do diretor Ruben Östlund. Ele passou por algo bastante similar.

O diretor de The Square disse que ele nunca mais quer filmar uma cena que esteja em um filme apenas para ajudar a contar a história. Ele quer reunir diversas cenas interessantes que ajudem a explicar o comportamento humano.

Em uma cena, um homem com síndrome de Tourette tira a concentração de uma repórter que estava entrevistado o artista Julian. Östlund se inspirou em uma situação semelhante que aconteceu em um teatro da Suécia. E a verdade é que uma cena assim pode acontecer em qualquer parte. Como as pessoas lidam com essas diferenças extremas? Acho que isso e o descontrole de alguns participantes do jantar em que o homem macaco ataca, ajuda a demonstrar bem qual caminho as nossas sociedades cada vez mais sem paciência estão seguindo.

The Square faturou US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos. Não é um sucesso, para os padrões americanos, mas é um resultado melhor que o de Una Mujer Fantástica – que praticamente não foi visto no país do Tio Sam. Olhando por isso e pelos prêmios que conquistou em votações de críticos americanos, The Square parece levar vantagem na disputa pela estatueta dourada.

Esse filme é uma coprodução da Suécia, da Alemanha, da França e da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 112 críticas positivas e 25 negativas para o filme, o que lhe garante um aprovação de 82% e uma nota média de 7,3.

O diretor Ruben Östlund é realmente ousado. Prestes a completar 44 anos de idade em abril, esse sueco da cidade Styrsö tem 12 títulos no currículo como diretor, sendo seis deles curtas, um documentário e cinco longas. De sua filmografia, lembro de ter assistido a apenas um filme antes: De Ofrivilliga. Um filme bastante diferenciado e até mais controverso que esse The Square. A crítica sobre De Ofrivilliga vocês encontram por aqui. Realmente Östlund parece ser um sujeito que faz cinema para surpreender.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos bastidores de um museu de arte tinha tudo para ser chato, não é mesmo? Ou, talvez, “intelectual” demais para os padrões do grande público. E ainda que seja verdade que The Square é longo demais – facilmente ele poderia ter meia hora ou pouco mais de “corte” -, ele não se mostra enfadonho. Isso porque ainda que ele trate de arte e do valor que ela tem nos dias de hoje, assim como para quem ela é dirigida, esse filme trata de outros assuntos muito atuais, como a desigualdade de oportunidades, a marginalização social e os efeitos daninhos da busca por “causar” na internet – especialmente quando você é uma entidade com responsabilidades.

Para mim, aliás, essa parte sobre a noção do que é público e do que é privado e a questão do “tribunal” da opinião pública propiciado pela internet são alguns dos aspectos mais interessantes desse filme. Assim como a reflexão que uma pessoa ser bem educada, ter ótima posição social e tudo o mais não lhe torna realmente mais consciente sobre o mundo que ela não conhece. Um filme interessante e instigante. Só uma pena que ele seja longo demais e que peque um pouco por deixar alguns personagens um tanto “perdidos” na história e por se esforçar tanto em nos “chocar”/surpreender em algumas sequências. Mas, no geral, The Square é um bom filme.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Square é um forte candidato à estatueta dourada nesse ano. Especialmente sem o filme In the Fade, de Fatih Akin, na disputa. Segundo as bolsas de apostas do Oscar, ele é o segundo filme mais cotado nesse ano – ele fica atrás apenas de Una Mujer Fantástica (comentado aqui).

Difícil saber o que os votantes da Academia vão decidir. Mas eu, se tivesse que votar, certamente escolheria Una Mujer Fantástica. Primeiro, porque acho o filme mais impactante e comovente. Ambos tem boas sacadas, é verdade, mas acho que o filme chileno tem um desenvolvimento mais satisfatório da história e dos personagens.

A produção também me agradou mais, me pareceu mais “humana” e com uma mensagem mais significativa que The Square. Mas, volto a dizer, esta é uma questão de gosto pessoal. Olhando tecnicamente para as duas produções, ambas tem muitos méritos, bons atores e um roteiros que tocam em temas contemporâneos. Então teremos que ver, mais que nada, qual é o gosto da Academia para premiar um ou outro – ou, quem sabe, o russo Loveless (com crítica neste link). Me parece que esses três são, realmente, os títulos que estão na disputa.

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De Ofrivilliga – Involuntary – Involuntário

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Um filme bem diferente dos padrões usuais do cinema. E não apenas daquele produzido em Hollywood. De Ofrivilliga, o representante da Suécia na disputa por uma vaga no próximo Oscar, foge da obviedade do cinema médio ao apresentar uma série de histórias aparentemente desconexas. Mas, ultrapassada a barreira do visual, o espectador pode compreender a inteligência do trabalho do diretor e roteirista Ruben Östlund. Seu filme apresenta uma série de situações que refletem um bocado o comportamento de diferentes pessoas em nossa sociedade “pós-moderna”. Como a narrativa segue uma linha muito natural e propositalmente sem enquadramentos clássicos, a interpretação do que está ocorrendo fica totalmente nas mãos dos espectadores. Por esta e por várias outras razões, é o típico filme “de arte” (ou “cult”) que não deve agradar a muita gente.

A HISTÓRIA: Ao som de uma valsa, a lente da câmera vai acompanhando o trajeto de um veículo pelas ruas de uma moderna cidade da Suécia. Corta. O casal Lola (Lola Ewerlund) e Villmar (Villmar Björkman) recebem amigos em casa para celebrar o aniversário da anfitriã. Depois de um dia de celebrações, à noite, no grande momento da queima de alguns fogos no jardim, Villmar se fere ao se aproximar de uns fogos que não haviam explodido. Esta é a apenas uma das cinco histórias centrais do filme, que conta ainda a viagem de ônibus de uma conhecida atriz; o trabalho de uma professora do ensino primário e suas divergências com os colegas de trabalho; as travessuras perigosas de duas adolescentes e o reencontro de um grupo de amigos que resolve passar alguns dias apenas entre homens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Ofrivilliga): Fiquei intrigada com este filme desde a sua sequência inicial. Me chamou a atenção o “contraponto” entre a valsa, uma manifestação artística originária do século 19 (aqui algumas informações a respeito da valsa), e as imagens noturnas de uma rua de uma cidade urbana qualquer dos nossos dias. Uma curiosa escolha de repertório e imagens. Mas esta seria apenas uma introdução para o que o diretor Ruben Östlund iria nos apresentar em seguida. Durante todo o filme, ele desconstrói conceitos e surpreende o espectador com sua abordagem de “desenquadramento” (falarei mais disto no final deste texto).

As imagens, parece nos dizer Östlund durante todo o filme, tem e ao mesmo tempo não tem importância alguma. Sua câmera está sempre fixa, em algum ponto decisivo para a narrativa – ainda que, como é costume no desenquadramento, muitas vezes a ação ocorra à margem do campo visual. Esse recurso não é novo – foi utilizado inúmeras vezes anteriormente, inclusive no recente 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile, do diretor Cristian Mungiu. Ainda assim, ele parece conseguir uma força ainda maior em De Ofrivilliga. Mas esta câmera estática, que muitas vezes deixa “escapar” a ação dos atores, provavelmente será um dos pontos difíceis de “engolir” pela maioria dos espectadores – afinal, estamos todos condicionados aos enquadramentos “usuais”, ou seja, no uso das câmeras para acompanhar sempre o melhor da ação.

Se o espectador conseguir vencer esta sua “resistência” a uma nova forma de narrar um filme, ele poderá, finalmente, se lançar nas histórias contadas pelo roteiro escrito por Östlund e por Erik Hemmendorff. Com um narrador “ausente” (ou “invisível”), De Ofrivilliga busca romper aquela interpretação “falsa” que toda pessoa parece assumir frente a uma câmera. Desta forma, o espectador parece “invadir” a intimidade das diferentes realidades mostradas pelo filme. Algumas vezes, esta invasão causa desconforto. Em outras, excitação. Desta forma, muito natural, Östlund vai conduzindo os espectadores por acontecimentos que fazem refletir sobre como as pessoas podem passar dos limites, de como um grupo deve sempre anular um indivíduo.

A primeira história, do casal Lola e Villmar, parece a menos “chocante” do filme. De fato, ela é a menos interessante. Ainda assim, guarda alguns aspectos curiosos – e que ajudam a reforçar a reflexão da força do “grupo” sobre o indivíduo proposta pelo diretor/roteirista. (SPOILER – não leia, a partir daqui, os próximos parágrafos se você não assistiu ao filme). Depois de um dia inteiro bebendo e confraternizando com amigos, Villmar passa dos limites e toma uma atitude totalmente “burra” ao tentar se aproximar dos fogos de artifício que não haviam explodido. Seu ato contínuo é ignorar os seus ferimentos para continuar com a festa. Afinal, o que importa é manter as aparências e ficar bem “socialmente”. Enquanto as mulheres parecem se preocupar com o anfitrião ferido, os convidados masculinos insistem em assumir a sua posição de “machos” e, assim, negar a vulnerabilidade de Villmar – e, por consequência, deles próprios.

Esta “diferença” entre homens e mulheres parece estar presente em várias histórias do filme. Para ser mais específica, na do grupo de amigos que resolve passar alguns dias juntos e na da professora que “enfrenta” o seu colega de trabalho. Mas logo falaremos destas histórias… O importante comentar é que esta “diferença” entre homens e mulheres ganha, no próprio De Ofrivilliga, um contraponto bastante curioso: o das personagens de Linnea (Linnea Cart-Lamy) e Sara (Sara Eriksson). As “barbies” adolescentes que parecem não ter limites assumem, em boa parte do filme, o papel que seria, normalmente, de rapazes de suas idades. O que pode levar a uma reflexão interessante sobre a busca de parte das mulheres por interpretar o rol dos homens na nossa sociedade “pós-moderna”.

Mas voltando aos “causos” do filme. Depois de Lola e Villmar, o espectador é apresentado a personagem de Maria (a veterana Maria Lundqvist), uma conhecida atriz que tem o “azar” de se encontrar com uma fã de seu trabalho durante uma viagem de ônibus para casa. No veículo, aliás, somos apresentados a três núcleos de personagens. Além de Maria e seu casal de fãs, o roteiro explora o “fundão” do ônibus, ocupado por um grupo de adolescentes “encrenqueiro” e, na posição oposta, na frente do veículo, ao motorista e sócio da empresa de transporte que passou recentemente por uma situação difícil após ser abandonado pela esposa. O “fundão” e a frente do ônibus acabam se enfrentando e Maria, a mulher que parece estar interpretando um papel durante todo o tempo, não tem a coragem de assumir as suas próprias responsabilidades.

Curioso o que ocorre naquele ônibus. Existe, como em praticamente todos os locais de nossa sociedade – e em diferentes histórias narradas pelo filme – um conflito entre diferentes comportamentos. Os adolescentes que ocupam o fundão do veículo tem um comportamento considerado inadequado pelos demais. Eles incomodam os passageiros adultos que, por sua vez – como no metrô, em uma sequência estrelada pelas amigas Linnea e Sara -, não se sentem confortáveis em revidar e invadir o “espaço” dos arruaceiros. Essa noção de espaço, aliás, tem peso de ouro em algumas sociedades – especialmente nas consideradas “mais desenvolvidas”. Em países como a Alemanha ou a Suécia o contato físico é restrito e o espaço de cada indivíduo, extremamente respeitado.

E a repetição deste conflito de comportamentos leva a uma estigmatização. Através dela, o motorista do ônibus, injustamente, acusa e “condena” os jovens do fundão. Eles, por sua vez, não cedem à chantagem do motorista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Maria, a responsável pelo “ato de vandalismo” do banheiro – na verdade, um acidente – tem uma reputação a preservar. Como muitos artistas, ela veste as roupas e os trejeitos de um personagem que criou e, deste disfarce, ela não pode abrir mão. Ainda assim, fiquei chocada com a “resolução” do impasse. Infelizmente o menino que assume a culpa aprende, muito jovem, a mentir sob pressão para conseguir resolver um problema. Que lição ele terá deste evento?

Outra história explorada por De Ofrivilliga é a das amigas Linnea e Sara. Francamente, as melhores do filme. Adolescentes sem noção de perigo ou de limites, as duas “barbies” aparecem, primeiro, tirando fotos ousadas no computador. Provavelmente aquelas imagens iriam rodar o mundo, sugerindo cenas de lesbianismo – que, é quase certo, cairiam nas mãos de tarados de várias nacionalidades. Mas e quem se importa? Linnea e Sara certamente não. As meninas, junto com outros amigos e amigas, aproveitaram a ausência da mãe de Linnea para beberem muito além da medida. Primeiro em casa, depois no metrô e nas ruas.

Linnea e Sara são provocadoras e refletem o comportamento de muitos jovens nos dias atuais – de muitos mas, para nossa sorte, não de todos. A sequência no metrô, especialmente, me chamou muito a atenção. Ali, mais que em outras cenas, a dupla “dinâmica” assume o rol de rapazes de suas idades. Eu já vi garotos fazendo o mesmo que elas: bebendo álcool em garrafas improvisadas no metrô, falando alto, tentando aparecer e, se possível, provocando diretamente a algumas pessoas. Necessidade de protagonismo, certamente – efeitos, talvez, de uma sociedade onde a busca por “ser famoso” substitui a outros valores? Mas no lugar de rapazes, De Ofrivilliga nos oferece duas garotas. Interessante. Como na maioria das histórias do filme, elas ultrapassam o limite do razoável e, em certo momento, o espectador acredita que o pior está prestes a acontecer. Suspense em meio ao drama.

A quarta história explorada por Östlund é protagonizada pela professora Cecilia (a ótima Cecilia Milocco). Quando ela aparece em cena, sua turma está passando por um experimento emblemático – inclusive para se entender ao filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Através do exemplo da aluna que identifica a resposta correta mas que, sob a pressão da turma, orientada a sempre discordar dela, muda suas respostas escolhendo a opção errada, temos a resposta para o “enigma” desta produção. Um grupo, sempre, anula a capacidade de escolha do indivíduo – e, muitas vezes, o leva a fazer a escolha errada, mesmo quando ele sabe que poderia escolher o certo. A ironia do filme é que Cecilia acaba, em sua própria vida, tendo que sofrer as consequências de quem decide seguir a razão e fazer as escolhas certas, mesmo quando o grupo – neste caso, os outros professores – apontam para a direção contrária. Ela é, assim, uma das poucas que tem a coragem de trilhar o difícil – e muitas vezes solitário – caminho de se manter “limpa”.

O caso da professora também nos leva a refletir sobre a forma com que um grupo protege um de seus integrantes mesmo quando ele toma uma atitude errada. Neste caso, o problema reside no abuso do professor de artes Ulf contra o “aluno-problema” Axel. Como ocorre “no mundo real”, seus colegas usam argumentos para desqualificar a mãe da vítima e, assim, “justificar” o comportamento do professor. Revoltante – e, ao mesmo tempo, infelizmente, muito comum.

Finalizando as histórias apresentadas pelo filme, temos a do grupo de amigos liderado por Leif (Leif Edlund). Ainda vestindo roupas de trabalho, o grupo se encontra para passar alguns dias juntos, em um clássico “retiro de machos”. Nesta “recreação de adultos” um ingrediente fundamental é o excesso de bebidas. Permanentemente “embriados”, os amigos exageram nas brincadeiras e passam dos limites, em algumas situações, normalmente jogando com a questão sexual. Desejos reprimidos e homossexualidade são parte dos ingredientes deste conto.

Como em praticamente todos os grupos – especialmente o de homens -, há uma “estrela”. E ela, neste caso, se chama Leif. Ele é o personagem que provoca e que recebe todas as “avacalhações”. Visualmente, Leif se sente bem jogando este rol no grupo. O problema é que ele passa dos limites e abusa de um amigo, Olle (Olle Liljas) que, chocado, não sabe muito bem como reagir ao que aconteceu. As pessoas mudam com o tempo e, consequentemente, algumas amizades – e limites – também. Mas isso não parece ser passível de compreensão, especialmente para as pessoas que parecem não ter limites e que se sentem “invencíveis” dentro de um grupo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Ofrivilliga é destes filmes que vai fazendo efeito com o tempo, depois que os créditos terminam de passar frente aos nossos olhos. Inicialmente, eu não sabia muito bem o que pensar a respeito desta produção. Mas, pouco a pouco, fui refletindo sobre aquelas histórias magistralmente narradas por Ruben Östlund e seus atores. E então elas foram fazendo sentido e ganhando novos contornos. Admiro cineastas que conseguem isso, provocar o espectador a ponto dele levar a sua obra para além do tempo que dura o filme.

Que ninguém se engane com este filme: ele não tem começo e nem fim, apenas “meio”. Em outras palavras, não somos apresentados ao contexto da vida de nenhum dos vários personagens mostrados por De Ofrivilliga. Apenas acompanhamos determinados capítulos de suas vidas e, como na realidade mesma, podemos utilizar estes episódios para aprender algo (ou não, como diria o Caetano).

No início, é um pouco difícil se acostumar com a técnica do desenquadramento utilizada por Ruben Östlund. Mas depois, quando o espectador deixa de esperar que lhe sejam mostrados sempre os “melhores ângulos” do que está acontecendo, outro efeito passa a figurar nesta experiência: o do uso da imaginação. Afinal, o que acontece no espaço em que a câmera não está filmando? Cada um terá que tirar as suas próprias conclusões – o que não deixa de ser um exercício provocativo e muito interessante.

Falando em desenquadramento, vou explicar um pouco melhor do que se trata este conceito. Segundo o livro Dicionário Teórico e Crítica de Cinema, de Jacques Aumont e Michel Marie, o desenquadramento é um efeito que parece “resultar de um movimento de excentramento, rejeitando para as bordas alguns dos elementos diegéticos principais”. Esse recurso teria sido “muito produzido em pintura, depois do choque da descoberta da arte da estampa japonesa”. Aumont e Marie revelam ainda que o desenquadramento, no cinema, se apresenta como “um aspecto de uma tensão mais fundamental entre a tendência à centralização, que resulta da assimilação do enquadramento a um olhar, e a tendência para salientar as bordas do quadro, que é marcada, em alguns cineastas, no mais das vezes, a partir de uma sensibilidade pictórica”. Em outra parte do livro, os autores comentam que “existem estilos fundados na recusa da centralização, em uma descentralização ativa e voluntária ou, de modo mais radical, um desenquadramento” – que é o que reflete De Ofrivilliga.

Reproduzo aqui a sinopse curiosa do material de divulgação do filme: “A influência do grupo sobre o indivíduo. O indivíduo que pensa muito sobre a sua própria imagem. O idiota que faz piadas sujas para divertir a sua galera, duas meninas que gostam de jogar, a professora zelosa que exagera com os seus colegas… justamente na hora em que decisões limites são tomadas. Um painel da sociedade sueca como você nunca poderia esperar”. E eu acrescento que o que vemos em De Ofrivilliga não reflete apenas a sociedade sueca, mas muitas outras.

No mesmo material de divulgação, há uma interessante entrevista com o diretor e roteirista Ruben Östlund. Ele comenta, por exemplo, sobre a origem da história desta produção. “No meu primeiro longa-metragem, Gitarrmongot, eu estava interessado no tema do indivíduo que está procurando o seu lugar na sociedade. Dos personagens que agem sem levar em conta o que o grupo ao seu redor vai pensar deles. No mesmo momento, eu me vi como testemunha de situações completamente opostas: o caso de pessoas que estavam desesperadas para evitar perder o seus espaços para outros. Gitarrmongot fala de sujeitos que não se importam com o que as pessoas pensam deles. De Ofrivilliga trata daqueles que são a fonte das atenções, que estão aterrorizados com a idéia de perder sua face”.

O diretor ainda cita como exemplo um caso que ficou conhecido em seu país: “Na Suécia, todos conhecem a história do engenheiro Andrea, que tentou chegar ao Pólo Norte em um balão, uma tentativa que terminou com a morte de sua tripulação. Lendo um jornal, uma reportagem revelou que ele não acreditava na viabilidade de seu projeto. Ele estava convencido a deixar esta idéia, mas este evento se tornou tão grande – quase toda a Suécia estava participando de uma forma ou de outra – que ele não podia voltar atrás. A aventura lhe levou ao desastre. Estou convencido de que os seres humanos são animais gregários. A influência do grupo sobre os indivíduos é muito forte, fundamental”.

Como eu comentei na minha crítica, o diretor também considera que a sequência da estudante que deve apontar as linhas mais longas em uma experiência de sua professora resume, na verdade, toda a idéia do filme. “Ela sintetiza a idéia de que o grupo tem um poder irresistível sobre o indivíduo, forçado a se adaptar para se integrar”, comenta Östlund. E uma curiosidade sobre esta cena: a idéia original da sequência foi inspirada na mãe do diretor/roteirista que, como professora, havia feito um experimento similar com seus alunos. No caso do filme, a garota que aparece em cena não sabia como deveria agir a respeito de suas indicações. Não estava estabelecido no roteiro que ela deveria mudar de opinião na terceira tentativa de acertar a resposta. Ainda assim, comenta Östlund, seis das 10 estudantes que participaram das filmagens-experimentos mudaram de opinião na terceira sequência de perguntas da professora.

Sobre o título do filme, “involuntário”, o diretor comenta que “estar sob a influência de um grupo pode nos privar do nosso livre-arbítrio, mas não podemos entregar para a maioria a nossa responsabilidade individual? Em cada história (do filme, ele se refere), os personagens sentem que não tem escolha, algo que é falso: eles simplesmente não aproveitam as oportunidades que lhes são dadas. No melhor dos mundos, uma pessoa não deixaria de aproveitar a oportunidade de agir da melhor forma possível. Mas na realidade, isto é outra história… Estou ciente de que na maioria dos casos as pessoas dirão que sua reação a um fato terá sido “involuntária”, mas este é um fenômeno que se repete incansavelmente”.

Depois de comentar sobre o caso da cortina danificada do ônibus, o diretor opina que está cada vez mais difícil as pessoas reconhecerem suas falhas porque, em muitos casos, elas terão que admitir que mentiram. “Isso é (provocado) menos pela influência do grupo sobre o indivíduo, mas o próprio indivíduo, em sua relação com o grupo, que se sente obrigado a agir de determinada maneira”. Östlund comenta, ainda, que dentro da lógica de um grupo, onde existem “vítimas” e “culpados” em um jogo muito pré-determinado, todos os atos dos indivíduos acabam sendo “involuntários”.

Ruben Östlund também confirma, no material de divulgação, que sofreu a influência de diretores como Michael Haneke, Ulrich Seidl e Roy Anderson. “Eu estava muito influenciado por seus filmes. Como espectador, quando tomo consciência que estou participando de um “roteiro” (uma narrativa linear, imagino, na qual o diretor “conduz” o seu público pelas mãos), eu começo a me aborrecer. Se o público permanece focado em situações de seu cotidiano muito familiares como aquelas do meu filme, ele se sente desorientado, não percebe o enredo, não sabe muito bem aonde está. Quando você está confuso, tenta ver se está entendendo o que acontece, há mais concentração. (…) Como espectador, gosto de me sentir ativo, de que o diretor me deixe fazer parte de seu trabalho. Como cineasta, este engajamento é o que eu quero propor para o público. Este era um slogan durante as filmagens: fazer o espectador se tornar ativo. Encontrar uma linguagem visual que cresce continuamente ao perguntar “onde estou?”, “quem é este?”, “o que está acontecendo?”. Eu gosto do estilo voyeurista (…)”.

Aliás, esta é uma característica interessante do filme De Ofrivilliga. Quando ele termina, o espectador fica com um gostinho de “quero mais”. A mesma sensação despertada pelos “reality shows” que exploram ao máximo o nosso desejo de “invadir a vida alheia”, de “espiar” o que acontece no ambiente privado dos demais. Ou, como bem definiu o diretor, este estilo “voyeurista” de seu filme.

O limite entre ficção e realidade permeia toda a produção. Inclusive em detalhes, como o fato de que todos os atores interpretam personagens que tem o seu próprio nome e a ironia sobre a personagem da atriz Maria Lundqvist. Conhecida por participar de quase 30 produções para o cinema e para a televisão, Maria também é mãe de quatro filhos, assim como a sua personagem em De Ofrivilliga.

De Ofrivilliga foi escrito e dirigido por Ruben Östlund que, ainda, acumula a função de editor desta produção. O impecável trabalho da direção de fotografia é assinado por Marius Dybwad Brandrud (eita nominho complicado!).

O segundo drama dirigido por Östlund estreou, em maio de 2008, no Festival de Cannes. De lá para cá, De Ofrivilliga participou de vários outros festivais. Nesta sua trajetória, ele ganhou nove prêmios e foi indicado ainda a outros seis. Entre os que levou para casa estão o de melhor diretor no Geneva Cinéma Tout Ecran; o prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Mar del Plata; o FIPRESCI do Festival de Cinema de Miami; uma menção especial no Festival de Cinema de Milão; e os prêmios da audiência e o de melhor roteiro do Festival de Cinema de Estocolmo.

Os usuários do site IMDb deram a 7,2 para o filme – achei um pouco baixa demais, mas algo previsível, especialmente pelo tipo de filme do qual estamos falando.

O diretor Ruben Östlund nasceu na Suécia em 1974. Amante das pistas de esquis antes de ser um apaixonado pelo cinema, Östlund teria se inspirado no tipo de filmes feitos sobre este esporte. Desta forma, lhe interessa as filmagens de longa duração, nas quais seria “impossível” dissimular qualquer ação. Seu primeiro longa-metragem de drama – antes ele havia dirigido a dois documentários -, o filme Gitarrmongot, ganhou o prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 2005.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e nada óbvio. Difícil de cair no gosto de muita gente. Mas para os que ousarem assistir a um filme que quebra o nosso costume por sermos levados “pelas mãos” dos diretores – e seus enquadramentos ágeis -, De Ofrivilliga pode surpreender por seus conceitos e por seu conteúdo crítico sobre a influência dos grupos sobre os indivíduos. Com uma câmera colocada sempre na posição de um “observador” displicente (ou seria ausente?), este filme resgata o nosso gosto pelo voyeurismo na mesma medida em que “incomoda” por não nos mostrar todos os detalhes da ação – deixando, assim, muito a cargo da imaginação do espectador. De forma muito natural e com planos longos de enquadramentos estáticos, De Ofrivilliga explora cinco histórias em que ocorrem diferentes formas de “ultrapassar os limites”. Uma produção curiosa, instigante e que passa a ter mais sentido depois que aparecem os seus créditos finais.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda que De Ofrivilliga merecesse estar entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do próximo Oscar, infelizmente eu acho muito difícil este filme sueco chegar tão longe. Primeiro, porque ele não é destas produções que devem cair fácil no gosto popular. Muito pelo contrário. Consequentemente, De Ofrivilliga não foi feito para o Oscar, onde predominam os filmes que tem forte apelo comercial. Uma pena, porque pela proposta artística de Ruben Östlund ele merecia chegar entre os finalistas. Ganhar, claro, é algo impossível. Filmes como Un Prophète ou Das Weisse Band tem muito mais força que De Ofrivilliga. O que apenas comprova que, nem sempre, os melhores ganham mais espaço ou prêmios. (Dito isso, quero comentar que ainda acho Un Prophète, até o momento, o melhor filme entre os indicados).