Categorias
Cinema Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2010

Frygtelig Lykkelig – Terribly Happy

Os policiais, ultimamente, não estão passando por seus melhores momentos no cinema. Depois dos filmes coreanos Chugyeogja e Madeo, recentemente comentados por aqui no blog, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig conta uma história em que as autoridades responsáveis pela segurança dos cidadãos derrapam em suas funções. Mas desta vez, em lugar da incompetência vista nas outras produções, nos deparamos com o descontrole e com uma rede de situações que vão piorando os primeiros erros do protagonista. Indicado pela Dinamarca para representar o país na próxima disputa por um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Frygtelig Lykkelig é um policial cheio de sarcasmo ambientado em uma comunidade do interior, onde predomina a “lei” alternativa de seus habitantes.

A HISTÓRIA: A lenda sobre uma vaca que afundou na lama e desapareceu ilustra as características do vilarejo de Skarrild, situado no interior da Dinamarca, local onde o policial Robert Hansen (Jakob Cedergren) vai parar. Levado pelo chefe de polícia de Tonder (Jens Jorn Spottag), Robert é logo recepcionado pelo Dr. Zerleng (Lars Brygmann), médico forasteiro que se adaptou ao sistema dos habitantes do pequeno vilarejo e que tenta dar alguns “conselhos” para o seu novo morador. Pouco depois, Robert conhece a Ingerlise (Lene Maria Christensen), uma mulher casada que tenta se divorciar do marido, o violento e briguento Jorgen Buhl (Kim Bodnia). Sem perceber, Robert é envolvido em um triângulo amoroso e em uma situação de prestação de contas do vilarejo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frygtelig Lykkelig): O conto ilustrativo que abre o filme do diretor Henrik Ruben Genz revela uma pequena parte de toda a ironia do texto original, a obra homônima de Erling Jepsen. Seu livro, Frygtelig Lykkelig, aparentemente teve menos êxito que o filme. Genz, ao lado de Dunja Gry Jensen, adaptou o livro para o cinema e conseguiram, com seu trabalho, um resultado irregular.

Na maior parte do tempo, Frygtelig Lykkelig é um filme intricado para o seu protagonista, com um texto que flutua sempre entre o terrível e o engraçado mas que, ainda assim, se revela bastante morno. Contada de forma linear, esta história explora as peculariedades de uma comunidade interiorana da mesma forma com que revela um conto moral. Nele, é defendida a idéia de que a prática de um erro e o encobrimento deste podem tornar a vida de uma pessoa cada vez mais complicada, de uma forma crescente como a de uma bola de neve que desliza por uma encosta.

O melhor da produção, sem dúvida, é a forma com que o roteiro explora as “manias” do vilarejo para onde Robert é transferido. Todas as pessoas que moram naquele local sabem de cor os códigos de conduta e jogam seus papéis com perfeição. A pessoa que passasse um dia em Skarrild já saberia que tipo de ocorrências ocorriam ali, quem poderia ser achado em que local e as razões que faziam a filha do casal Buhl, Dorthe (Mathilde Maack) levar um carrinho de bebê para passear em muitas noites. Mais do que em outras partes, em cidades pequenas como a explorada por esta história os hábitos repetidos cotidianamente são a regra local.

Depois do conto sobre a vaca e seu bezerro demoníaco, o espectador percebe que o policial esconde algum segredo importante em seu passado. Ele participou de algum evento trágico em Copenhagem, onde morava e trabalhava anteriormente. Esse segredo será usado contra ele no ambiente cercados de regras invisíveis do vilarejo. Bonito, jovem e “urbano”, Robert não se adapta ao local e, ao mesmo tempo em que tenta conviver com seu passado, ele deve entender como funciona a pequena cidade para a qual ele foi designado. Mas, pobre Robert, ele não tem muito tempo para pensar e agir racionalmente.

Não sei vocês, mas me irritou um pouco a “inocência” do protagonista. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, ele cai como um patinho nos jogos de Ingerlise e de outros moradores locais. Claro que o filme não tem espaço para nos contar como era Robert antes de sua aparição em cena. Não sabemos se ele era um bom policial ou um desastre em sua profissão. Segundo este texto (em dinamarquês, o qual eu traduzi no Google Tradutor para entender algo) sobre a obra original, escrita por Erling Jepsen, Robert era sim um desastre. Destes homens que não conseguem viver muito longe da barra da saia da mãe e que, ao ser exposto a situações de estresse em sua profissão, chegam a vomitar pelo nervosismo. Sendo assim, se justifica a falta de preparo para o que irá acontecer no vilarejo.

Como tantas outras histórias do gênero, a situação de Robert vai piorando continuamente, pouco a pouco. Os habitantes de Skarrild, aparentemente “liderados” pelo médico, pelo padre e pelo comerciante local, tentam ensinar-lhe seus métodos. Robert faz alguns esboços para resistir, para atuar dentro da lei, mas quando ele percebe, está totalmente envolvido na história de Ingerlise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para se proteger, lentamente Robert vai se adequando ao sistema de vida local e, como sugere a melhor sequência do filme, a que envolve uma partida de cartas no final, o policial acaba vendendo sua alma ao “diabo” (representado pelo trio de jogadores). A cena em que Robert percebe que ele não passou de uma engrenagem no jogo dos outros, que ele caiu como um patinho em seus planos, é o melhor de Frygtelig Lykkelig. Até chegarmos a este ponto, o espectador deve aceitar algumas sequências pouco críveis (como a da morte de Ingerlise) e a uma produção correta, mas nada excepcional.

A lição moral de Frygtelig Lykkelig também poderia ser menos evidente. Afinal, fica escancarada a idéia do filme de que uma pessoa, para não “vender sua alma ao diabo”, não deve nunca sucumbir ao primeiro ato de maldade. Quando Robert se deixa levar por seu primeiro erro e, sem conseguir encontrar uma saída “adequada” para ele, assume uma mentira após a outra, fica impossível encontrar alguma saída para o personagem. Pouco a pouco, revela esta história, uma pessoa que sucumbe ao mal vai aceitando os atos mais absurdos (e, muitas vezes, participa deles). A reflexão sobre este tema não deixa de ser interessante, mas no roteiro de Frygtelig Lykkelig ela se apresenta de forma maniqueísta. Na vida real, normalmente, as escolhas não levam a resultados tão matemáticos.

Ainda sobre a parte interessante do filme, não deixa de ter uma grande dose de verdade toda aquela ironia com o “modo de ser” do povo do lugarejo. Em cidades pequenas, nas quais “todos se conhecem”, a vida geralmente se restringe a alguma regras bem estabelecidas e seguidas por moradores que desempenham com perfeição os seus papéis no grupo. Sempre haverá espaço para o “encrenqueiro”, para o “louco”, para o “líder”, e assim por diante. Nestas relações, claro, haverá espaço para gestos de bondade, de auxílio aos demais, mas também para bizarrices e para resoluções “coletivas” dos problemas locais. O retrato de uma comunidade assim do interior da Dinamarca é o que Frygtelig Lykkelig tem de melhor para oferecer.

NOTA: 8,1.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo no início, percebemos duas grandes qualidades deste filme: a sua direção de fotografia e trilha sonora. Elas funcionam em duo com perfeição durante toda a produção. Ajuda muito também, para o caso da primeira, a “beleza rural” das paisagens dinarmarquesas. O diretor de fotografia Jorgen Johansson imprime um tom azulado/acizentado durante toda a produção, o que ressalta o tom “obscuro” da história. A trilha sonora de Kaare Bjerko, presente em momentos muito pontuais, aposta em guitarras e em uma levada moderna.

O elenco de Frygtelig Lykkelig funciona bem. Além dos atores principais já citados, vale comentar o trabalho de Anders Hove como Kobmand Moos, o comerciante local que se diverte prendendo garotos que tentam furtar algo de seu estabelecimento; Henrik Lykkegaard como o padre que aparece pouco, mas que visivelmente contribui com o tom moralista do vilarejo; Bodil Jorgensen como a mulher do bar, onde as pessoas se encontram para “confabular” sobre a vida pública local (e onde ocorre o duelo etílico entre Robert e Jorgen); e Peter Hesse Overgaard como Helmuth, um dos líderes do grupo que sempre está no bar e que “suja as mãos” para resolver os conflitos do vilarejo.

Frygtelig Lykkelig estreou em julho de 2008 no Festival de Karlovy Vary. Daquele dia para cá, o filme participou ainda de pelo menos outros seis festivais. Nesta sua trajetória, ele acumulou 19 prêmios e outras 10 indicações. Entre os prêmios que levou para casa estão o de melhor filme, melhor ator para Jakob Cedergren, melhor atriz para Lene Maria Christensen, melhor ator coadjuvante para Kim Bodnia, melhor direção de fotografia e um prêmio especial para Kaare Bjerko no Prêmio Bodil, entregue em Copenhagem, na Dinamarca; melhor roteiro nos festivais internacionais de cinema de Tróia e de Valladolid; e os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor roteiro e melhor música (para Riders of the Freeway, de Kira Skov) no Robert Festival, o “Oscar do cinema dinamarquês”.

Praticamente nada comentado pela crítica internacional – o site Rotten Tomatoes, por exemplo, não abriga nenhuma crítica para o filme – Frygtelig Lykkelig registra a nota 7 pela votação dos usuários do site IMDb.

Li em algum lugar na internet – infelizmente não lembro em que site – uma comparação entre este filme e Fargo, dos irmãos Coen. A comparação tem sentido. Frygtelig Lykkelig lembra um pouco ao excelente Fargo, especialmente pelo humor “macabro” (e/ou trágico) de sua história. Mas, para o meu gosto, ele fica muito abaixo da premiada produção dos Coen.

O cartaz de Frygtelig Lykkelig sugere que o filme caminha pelo terreno das produções de suspense e/ou terror. Ainda que tenha algum crime e um clima um pouco macabro, esta produção dinamarquesa não chega nem perto do segmento de terror. Não custa alertar aos fãs do gênero que podem se interessar pelo filme graças ao seu cartaz.

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre a tentativa de um policial em reconstruir a sua vida e que, ao se deparar com as regras muito peculiares de um pequeno vilarejo, se vê envolvido em uma intricada rede de interesses e disputas. Com uma direção de fotografia muito bonita e um roteiro que segura o interesse do espectador, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig se mostra um entretenimento de qualidade. Mesclando em uma proporção de dois para um a ironia/sátira com crimes e um clima mórbido, este filme trata de traições, adultério e violência doméstica como panos de fundo para uma história sobre adaptação e comprometimento de um indivíduo em uma comunidade estranha e com seus próprios atos.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Principal premiado em dois dos festivais mais importantes da Dinamarca, Frygtelig Lykkelig se credenciou para representar o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2010. Mesmo tendo recebido tantos prêmios, não vejo nesta produção a qualidade e a força necessárias para que ela esteja entre as finalistas da mais conhecida premiação norte-americana. Seria um milagre Frygtelig Lykkelig aparecer na lista dos cinco finalistas – especialmente pelo fato de que a imprensa internacional praticamente ignorou a sua existência. De qualquer forma, mesmo que ele chegue até esta cobiçada lista de indicados, não acredito que ele possa ganhar de Un Prophète ou Das Weisse Band.

Categorias
Cinema Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2010

De Ofrivilliga – Involuntary – Involuntário

deofrivilliga2

Um filme bem diferente dos padrões usuais do cinema. E não apenas daquele produzido em Hollywood. De Ofrivilliga, o representante da Suécia na disputa por uma vaga no próximo Oscar, foge da obviedade do cinema médio ao apresentar uma série de histórias aparentemente desconexas. Mas, ultrapassada a barreira do visual, o espectador pode compreender a inteligência do trabalho do diretor e roteirista Ruben Östlund. Seu filme apresenta uma série de situações que refletem um bocado o comportamento de diferentes pessoas em nossa sociedade “pós-moderna”. Como a narrativa segue uma linha muito natural e propositalmente sem enquadramentos clássicos, a interpretação do que está ocorrendo fica totalmente nas mãos dos espectadores. Por esta e por várias outras razões, é o típico filme “de arte” (ou “cult”) que não deve agradar a muita gente.

A HISTÓRIA: Ao som de uma valsa, a lente da câmera vai acompanhando o trajeto de um veículo pelas ruas de uma moderna cidade da Suécia. Corta. O casal Lola (Lola Ewerlund) e Villmar (Villmar Björkman) recebem amigos em casa para celebrar o aniversário da anfitriã. Depois de um dia de celebrações, à noite, no grande momento da queima de alguns fogos no jardim, Villmar se fere ao se aproximar de uns fogos que não haviam explodido. Esta é a apenas uma das cinco histórias centrais do filme, que conta ainda a viagem de ônibus de uma conhecida atriz; o trabalho de uma professora do ensino primário e suas divergências com os colegas de trabalho; as travessuras perigosas de duas adolescentes e o reencontro de um grupo de amigos que resolve passar alguns dias apenas entre homens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Ofrivilliga): Fiquei intrigada com este filme desde a sua sequência inicial. Me chamou a atenção o “contraponto” entre a valsa, uma manifestação artística originária do século 19 (aqui algumas informações a respeito da valsa), e as imagens noturnas de uma rua de uma cidade urbana qualquer dos nossos dias. Uma curiosa escolha de repertório e imagens. Mas esta seria apenas uma introdução para o que o diretor Ruben Östlund iria nos apresentar em seguida. Durante todo o filme, ele desconstrói conceitos e surpreende o espectador com sua abordagem de “desenquadramento” (falarei mais disto no final deste texto).

As imagens, parece nos dizer Östlund durante todo o filme, tem e ao mesmo tempo não tem importância alguma. Sua câmera está sempre fixa, em algum ponto decisivo para a narrativa – ainda que, como é costume no desenquadramento, muitas vezes a ação ocorra à margem do campo visual. Esse recurso não é novo – foi utilizado inúmeras vezes anteriormente, inclusive no recente 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile, do diretor Cristian Mungiu. Ainda assim, ele parece conseguir uma força ainda maior em De Ofrivilliga. Mas esta câmera estática, que muitas vezes deixa “escapar” a ação dos atores, provavelmente será um dos pontos difíceis de “engolir” pela maioria dos espectadores – afinal, estamos todos condicionados aos enquadramentos “usuais”, ou seja, no uso das câmeras para acompanhar sempre o melhor da ação.

Se o espectador conseguir vencer esta sua “resistência” a uma nova forma de narrar um filme, ele poderá, finalmente, se lançar nas histórias contadas pelo roteiro escrito por Östlund e por Erik Hemmendorff. Com um narrador “ausente” (ou “invisível”), De Ofrivilliga busca romper aquela interpretação “falsa” que toda pessoa parece assumir frente a uma câmera. Desta forma, o espectador parece “invadir” a intimidade das diferentes realidades mostradas pelo filme. Algumas vezes, esta invasão causa desconforto. Em outras, excitação. Desta forma, muito natural, Östlund vai conduzindo os espectadores por acontecimentos que fazem refletir sobre como as pessoas podem passar dos limites, de como um grupo deve sempre anular um indivíduo.

A primeira história, do casal Lola e Villmar, parece a menos “chocante” do filme. De fato, ela é a menos interessante. Ainda assim, guarda alguns aspectos curiosos – e que ajudam a reforçar a reflexão da força do “grupo” sobre o indivíduo proposta pelo diretor/roteirista. (SPOILER – não leia, a partir daqui, os próximos parágrafos se você não assistiu ao filme). Depois de um dia inteiro bebendo e confraternizando com amigos, Villmar passa dos limites e toma uma atitude totalmente “burra” ao tentar se aproximar dos fogos de artifício que não haviam explodido. Seu ato contínuo é ignorar os seus ferimentos para continuar com a festa. Afinal, o que importa é manter as aparências e ficar bem “socialmente”. Enquanto as mulheres parecem se preocupar com o anfitrião ferido, os convidados masculinos insistem em assumir a sua posição de “machos” e, assim, negar a vulnerabilidade de Villmar – e, por consequência, deles próprios.

Esta “diferença” entre homens e mulheres parece estar presente em várias histórias do filme. Para ser mais específica, na do grupo de amigos que resolve passar alguns dias juntos e na da professora que “enfrenta” o seu colega de trabalho. Mas logo falaremos destas histórias… O importante comentar é que esta “diferença” entre homens e mulheres ganha, no próprio De Ofrivilliga, um contraponto bastante curioso: o das personagens de Linnea (Linnea Cart-Lamy) e Sara (Sara Eriksson). As “barbies” adolescentes que parecem não ter limites assumem, em boa parte do filme, o papel que seria, normalmente, de rapazes de suas idades. O que pode levar a uma reflexão interessante sobre a busca de parte das mulheres por interpretar o rol dos homens na nossa sociedade “pós-moderna”.

Mas voltando aos “causos” do filme. Depois de Lola e Villmar, o espectador é apresentado a personagem de Maria (a veterana Maria Lundqvist), uma conhecida atriz que tem o “azar” de se encontrar com uma fã de seu trabalho durante uma viagem de ônibus para casa. No veículo, aliás, somos apresentados a três núcleos de personagens. Além de Maria e seu casal de fãs, o roteiro explora o “fundão” do ônibus, ocupado por um grupo de adolescentes “encrenqueiro” e, na posição oposta, na frente do veículo, ao motorista e sócio da empresa de transporte que passou recentemente por uma situação difícil após ser abandonado pela esposa. O “fundão” e a frente do ônibus acabam se enfrentando e Maria, a mulher que parece estar interpretando um papel durante todo o tempo, não tem a coragem de assumir as suas próprias responsabilidades.

Curioso o que ocorre naquele ônibus. Existe, como em praticamente todos os locais de nossa sociedade – e em diferentes histórias narradas pelo filme – um conflito entre diferentes comportamentos. Os adolescentes que ocupam o fundão do veículo tem um comportamento considerado inadequado pelos demais. Eles incomodam os passageiros adultos que, por sua vez – como no metrô, em uma sequência estrelada pelas amigas Linnea e Sara -, não se sentem confortáveis em revidar e invadir o “espaço” dos arruaceiros. Essa noção de espaço, aliás, tem peso de ouro em algumas sociedades – especialmente nas consideradas “mais desenvolvidas”. Em países como a Alemanha ou a Suécia o contato físico é restrito e o espaço de cada indivíduo, extremamente respeitado.

E a repetição deste conflito de comportamentos leva a uma estigmatização. Através dela, o motorista do ônibus, injustamente, acusa e “condena” os jovens do fundão. Eles, por sua vez, não cedem à chantagem do motorista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Maria, a responsável pelo “ato de vandalismo” do banheiro – na verdade, um acidente – tem uma reputação a preservar. Como muitos artistas, ela veste as roupas e os trejeitos de um personagem que criou e, deste disfarce, ela não pode abrir mão. Ainda assim, fiquei chocada com a “resolução” do impasse. Infelizmente o menino que assume a culpa aprende, muito jovem, a mentir sob pressão para conseguir resolver um problema. Que lição ele terá deste evento?

Outra história explorada por De Ofrivilliga é a das amigas Linnea e Sara. Francamente, as melhores do filme. Adolescentes sem noção de perigo ou de limites, as duas “barbies” aparecem, primeiro, tirando fotos ousadas no computador. Provavelmente aquelas imagens iriam rodar o mundo, sugerindo cenas de lesbianismo – que, é quase certo, cairiam nas mãos de tarados de várias nacionalidades. Mas e quem se importa? Linnea e Sara certamente não. As meninas, junto com outros amigos e amigas, aproveitaram a ausência da mãe de Linnea para beberem muito além da medida. Primeiro em casa, depois no metrô e nas ruas.

Linnea e Sara são provocadoras e refletem o comportamento de muitos jovens nos dias atuais – de muitos mas, para nossa sorte, não de todos. A sequência no metrô, especialmente, me chamou muito a atenção. Ali, mais que em outras cenas, a dupla “dinâmica” assume o rol de rapazes de suas idades. Eu já vi garotos fazendo o mesmo que elas: bebendo álcool em garrafas improvisadas no metrô, falando alto, tentando aparecer e, se possível, provocando diretamente a algumas pessoas. Necessidade de protagonismo, certamente – efeitos, talvez, de uma sociedade onde a busca por “ser famoso” substitui a outros valores? Mas no lugar de rapazes, De Ofrivilliga nos oferece duas garotas. Interessante. Como na maioria das histórias do filme, elas ultrapassam o limite do razoável e, em certo momento, o espectador acredita que o pior está prestes a acontecer. Suspense em meio ao drama.

A quarta história explorada por Östlund é protagonizada pela professora Cecilia (a ótima Cecilia Milocco). Quando ela aparece em cena, sua turma está passando por um experimento emblemático – inclusive para se entender ao filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Através do exemplo da aluna que identifica a resposta correta mas que, sob a pressão da turma, orientada a sempre discordar dela, muda suas respostas escolhendo a opção errada, temos a resposta para o “enigma” desta produção. Um grupo, sempre, anula a capacidade de escolha do indivíduo – e, muitas vezes, o leva a fazer a escolha errada, mesmo quando ele sabe que poderia escolher o certo. A ironia do filme é que Cecilia acaba, em sua própria vida, tendo que sofrer as consequências de quem decide seguir a razão e fazer as escolhas certas, mesmo quando o grupo – neste caso, os outros professores – apontam para a direção contrária. Ela é, assim, uma das poucas que tem a coragem de trilhar o difícil – e muitas vezes solitário – caminho de se manter “limpa”.

O caso da professora também nos leva a refletir sobre a forma com que um grupo protege um de seus integrantes mesmo quando ele toma uma atitude errada. Neste caso, o problema reside no abuso do professor de artes Ulf contra o “aluno-problema” Axel. Como ocorre “no mundo real”, seus colegas usam argumentos para desqualificar a mãe da vítima e, assim, “justificar” o comportamento do professor. Revoltante – e, ao mesmo tempo, infelizmente, muito comum.

Finalizando as histórias apresentadas pelo filme, temos a do grupo de amigos liderado por Leif (Leif Edlund). Ainda vestindo roupas de trabalho, o grupo se encontra para passar alguns dias juntos, em um clássico “retiro de machos”. Nesta “recreação de adultos” um ingrediente fundamental é o excesso de bebidas. Permanentemente “embriados”, os amigos exageram nas brincadeiras e passam dos limites, em algumas situações, normalmente jogando com a questão sexual. Desejos reprimidos e homossexualidade são parte dos ingredientes deste conto.

Como em praticamente todos os grupos – especialmente o de homens -, há uma “estrela”. E ela, neste caso, se chama Leif. Ele é o personagem que provoca e que recebe todas as “avacalhações”. Visualmente, Leif se sente bem jogando este rol no grupo. O problema é que ele passa dos limites e abusa de um amigo, Olle (Olle Liljas) que, chocado, não sabe muito bem como reagir ao que aconteceu. As pessoas mudam com o tempo e, consequentemente, algumas amizades – e limites – também. Mas isso não parece ser passível de compreensão, especialmente para as pessoas que parecem não ter limites e que se sentem “invencíveis” dentro de um grupo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Ofrivilliga é destes filmes que vai fazendo efeito com o tempo, depois que os créditos terminam de passar frente aos nossos olhos. Inicialmente, eu não sabia muito bem o que pensar a respeito desta produção. Mas, pouco a pouco, fui refletindo sobre aquelas histórias magistralmente narradas por Ruben Östlund e seus atores. E então elas foram fazendo sentido e ganhando novos contornos. Admiro cineastas que conseguem isso, provocar o espectador a ponto dele levar a sua obra para além do tempo que dura o filme.

Que ninguém se engane com este filme: ele não tem começo e nem fim, apenas “meio”. Em outras palavras, não somos apresentados ao contexto da vida de nenhum dos vários personagens mostrados por De Ofrivilliga. Apenas acompanhamos determinados capítulos de suas vidas e, como na realidade mesma, podemos utilizar estes episódios para aprender algo (ou não, como diria o Caetano).

No início, é um pouco difícil se acostumar com a técnica do desenquadramento utilizada por Ruben Östlund. Mas depois, quando o espectador deixa de esperar que lhe sejam mostrados sempre os “melhores ângulos” do que está acontecendo, outro efeito passa a figurar nesta experiência: o do uso da imaginação. Afinal, o que acontece no espaço em que a câmera não está filmando? Cada um terá que tirar as suas próprias conclusões – o que não deixa de ser um exercício provocativo e muito interessante.

Falando em desenquadramento, vou explicar um pouco melhor do que se trata este conceito. Segundo o livro Dicionário Teórico e Crítica de Cinema, de Jacques Aumont e Michel Marie, o desenquadramento é um efeito que parece “resultar de um movimento de excentramento, rejeitando para as bordas alguns dos elementos diegéticos principais”. Esse recurso teria sido “muito produzido em pintura, depois do choque da descoberta da arte da estampa japonesa”. Aumont e Marie revelam ainda que o desenquadramento, no cinema, se apresenta como “um aspecto de uma tensão mais fundamental entre a tendência à centralização, que resulta da assimilação do enquadramento a um olhar, e a tendência para salientar as bordas do quadro, que é marcada, em alguns cineastas, no mais das vezes, a partir de uma sensibilidade pictórica”. Em outra parte do livro, os autores comentam que “existem estilos fundados na recusa da centralização, em uma descentralização ativa e voluntária ou, de modo mais radical, um desenquadramento” – que é o que reflete De Ofrivilliga.

Reproduzo aqui a sinopse curiosa do material de divulgação do filme: “A influência do grupo sobre o indivíduo. O indivíduo que pensa muito sobre a sua própria imagem. O idiota que faz piadas sujas para divertir a sua galera, duas meninas que gostam de jogar, a professora zelosa que exagera com os seus colegas… justamente na hora em que decisões limites são tomadas. Um painel da sociedade sueca como você nunca poderia esperar”. E eu acrescento que o que vemos em De Ofrivilliga não reflete apenas a sociedade sueca, mas muitas outras.

No mesmo material de divulgação, há uma interessante entrevista com o diretor e roteirista Ruben Östlund. Ele comenta, por exemplo, sobre a origem da história desta produção. “No meu primeiro longa-metragem, Gitarrmongot, eu estava interessado no tema do indivíduo que está procurando o seu lugar na sociedade. Dos personagens que agem sem levar em conta o que o grupo ao seu redor vai pensar deles. No mesmo momento, eu me vi como testemunha de situações completamente opostas: o caso de pessoas que estavam desesperadas para evitar perder o seus espaços para outros. Gitarrmongot fala de sujeitos que não se importam com o que as pessoas pensam deles. De Ofrivilliga trata daqueles que são a fonte das atenções, que estão aterrorizados com a idéia de perder sua face”.

O diretor ainda cita como exemplo um caso que ficou conhecido em seu país: “Na Suécia, todos conhecem a história do engenheiro Andrea, que tentou chegar ao Pólo Norte em um balão, uma tentativa que terminou com a morte de sua tripulação. Lendo um jornal, uma reportagem revelou que ele não acreditava na viabilidade de seu projeto. Ele estava convencido a deixar esta idéia, mas este evento se tornou tão grande – quase toda a Suécia estava participando de uma forma ou de outra – que ele não podia voltar atrás. A aventura lhe levou ao desastre. Estou convencido de que os seres humanos são animais gregários. A influência do grupo sobre os indivíduos é muito forte, fundamental”.

Como eu comentei na minha crítica, o diretor também considera que a sequência da estudante que deve apontar as linhas mais longas em uma experiência de sua professora resume, na verdade, toda a idéia do filme. “Ela sintetiza a idéia de que o grupo tem um poder irresistível sobre o indivíduo, forçado a se adaptar para se integrar”, comenta Östlund. E uma curiosidade sobre esta cena: a idéia original da sequência foi inspirada na mãe do diretor/roteirista que, como professora, havia feito um experimento similar com seus alunos. No caso do filme, a garota que aparece em cena não sabia como deveria agir a respeito de suas indicações. Não estava estabelecido no roteiro que ela deveria mudar de opinião na terceira tentativa de acertar a resposta. Ainda assim, comenta Östlund, seis das 10 estudantes que participaram das filmagens-experimentos mudaram de opinião na terceira sequência de perguntas da professora.

Sobre o título do filme, “involuntário”, o diretor comenta que “estar sob a influência de um grupo pode nos privar do nosso livre-arbítrio, mas não podemos entregar para a maioria a nossa responsabilidade individual? Em cada história (do filme, ele se refere), os personagens sentem que não tem escolha, algo que é falso: eles simplesmente não aproveitam as oportunidades que lhes são dadas. No melhor dos mundos, uma pessoa não deixaria de aproveitar a oportunidade de agir da melhor forma possível. Mas na realidade, isto é outra história… Estou ciente de que na maioria dos casos as pessoas dirão que sua reação a um fato terá sido “involuntária”, mas este é um fenômeno que se repete incansavelmente”.

Depois de comentar sobre o caso da cortina danificada do ônibus, o diretor opina que está cada vez mais difícil as pessoas reconhecerem suas falhas porque, em muitos casos, elas terão que admitir que mentiram. “Isso é (provocado) menos pela influência do grupo sobre o indivíduo, mas o próprio indivíduo, em sua relação com o grupo, que se sente obrigado a agir de determinada maneira”. Östlund comenta, ainda, que dentro da lógica de um grupo, onde existem “vítimas” e “culpados” em um jogo muito pré-determinado, todos os atos dos indivíduos acabam sendo “involuntários”.

Ruben Östlund também confirma, no material de divulgação, que sofreu a influência de diretores como Michael Haneke, Ulrich Seidl e Roy Anderson. “Eu estava muito influenciado por seus filmes. Como espectador, quando tomo consciência que estou participando de um “roteiro” (uma narrativa linear, imagino, na qual o diretor “conduz” o seu público pelas mãos), eu começo a me aborrecer. Se o público permanece focado em situações de seu cotidiano muito familiares como aquelas do meu filme, ele se sente desorientado, não percebe o enredo, não sabe muito bem aonde está. Quando você está confuso, tenta ver se está entendendo o que acontece, há mais concentração. (…) Como espectador, gosto de me sentir ativo, de que o diretor me deixe fazer parte de seu trabalho. Como cineasta, este engajamento é o que eu quero propor para o público. Este era um slogan durante as filmagens: fazer o espectador se tornar ativo. Encontrar uma linguagem visual que cresce continuamente ao perguntar “onde estou?”, “quem é este?”, “o que está acontecendo?”. Eu gosto do estilo voyeurista (…)”.

Aliás, esta é uma característica interessante do filme De Ofrivilliga. Quando ele termina, o espectador fica com um gostinho de “quero mais”. A mesma sensação despertada pelos “reality shows” que exploram ao máximo o nosso desejo de “invadir a vida alheia”, de “espiar” o que acontece no ambiente privado dos demais. Ou, como bem definiu o diretor, este estilo “voyeurista” de seu filme.

O limite entre ficção e realidade permeia toda a produção. Inclusive em detalhes, como o fato de que todos os atores interpretam personagens que tem o seu próprio nome e a ironia sobre a personagem da atriz Maria Lundqvist. Conhecida por participar de quase 30 produções para o cinema e para a televisão, Maria também é mãe de quatro filhos, assim como a sua personagem em De Ofrivilliga.

De Ofrivilliga foi escrito e dirigido por Ruben Östlund que, ainda, acumula a função de editor desta produção. O impecável trabalho da direção de fotografia é assinado por Marius Dybwad Brandrud (eita nominho complicado!).

O segundo drama dirigido por Östlund estreou, em maio de 2008, no Festival de Cannes. De lá para cá, De Ofrivilliga participou de vários outros festivais. Nesta sua trajetória, ele ganhou nove prêmios e foi indicado ainda a outros seis. Entre os que levou para casa estão o de melhor diretor no Geneva Cinéma Tout Ecran; o prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Mar del Plata; o FIPRESCI do Festival de Cinema de Miami; uma menção especial no Festival de Cinema de Milão; e os prêmios da audiência e o de melhor roteiro do Festival de Cinema de Estocolmo.

Os usuários do site IMDb deram a 7,2 para o filme – achei um pouco baixa demais, mas algo previsível, especialmente pelo tipo de filme do qual estamos falando.

O diretor Ruben Östlund nasceu na Suécia em 1974. Amante das pistas de esquis antes de ser um apaixonado pelo cinema, Östlund teria se inspirado no tipo de filmes feitos sobre este esporte. Desta forma, lhe interessa as filmagens de longa duração, nas quais seria “impossível” dissimular qualquer ação. Seu primeiro longa-metragem de drama – antes ele havia dirigido a dois documentários -, o filme Gitarrmongot, ganhou o prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 2005.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e nada óbvio. Difícil de cair no gosto de muita gente. Mas para os que ousarem assistir a um filme que quebra o nosso costume por sermos levados “pelas mãos” dos diretores – e seus enquadramentos ágeis -, De Ofrivilliga pode surpreender por seus conceitos e por seu conteúdo crítico sobre a influência dos grupos sobre os indivíduos. Com uma câmera colocada sempre na posição de um “observador” displicente (ou seria ausente?), este filme resgata o nosso gosto pelo voyeurismo na mesma medida em que “incomoda” por não nos mostrar todos os detalhes da ação – deixando, assim, muito a cargo da imaginação do espectador. De forma muito natural e com planos longos de enquadramentos estáticos, De Ofrivilliga explora cinco histórias em que ocorrem diferentes formas de “ultrapassar os limites”. Uma produção curiosa, instigante e que passa a ter mais sentido depois que aparecem os seus créditos finais.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda que De Ofrivilliga merecesse estar entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do próximo Oscar, infelizmente eu acho muito difícil este filme sueco chegar tão longe. Primeiro, porque ele não é destas produções que devem cair fácil no gosto popular. Muito pelo contrário. Consequentemente, De Ofrivilliga não foi feito para o Oscar, onde predominam os filmes que tem forte apelo comercial. Uma pena, porque pela proposta artística de Ruben Östlund ele merecia chegar entre os finalistas. Ganhar, claro, é algo impossível. Filmes como Un Prophète ou Das Weisse Band tem muito mais força que De Ofrivilliga. O que apenas comprova que, nem sempre, os melhores ganham mais espaço ou prêmios. (Dito isso, quero comentar que ainda acho Un Prophète, até o momento, o melhor filme entre os indicados).

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2010

Max Manus

maxmanus4

Os acontecimentos envolvendo a 2ª Guerra Mundial não páram de render filmes – em Hollywood e em outras indústrias pelo mundo. Em 2008, Defiance foi lançado dentro de uma “onda” de revisão histórica ao mostrar um aspecto pouco conhecido da guerra: a resistência de judeus aos nazistas. Max Manus, produção de 2008 que chegou apenas este ano no mercado internacional, segue a mesma linha de revisão histórica. Menos “heróico” que Defiance, o filme norueguês dirigido por Joachim Ronning e Espen Sandberg destaca o heroísmo e a fragilidade de um líder que, ao perder seus amigos, questiona a validade de seus próprios atos. Um filme menos hollywoodiano e mais realista, ainda que ele só cresça realmente muito perto do final.

A HISTÓRIA: Através da reprodução de reportagens em diferentes jornais desde 1923, o filme reproduz alguns dos fatores que antecederam a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. O mesmo recurso é utilizado para mostrar a invasão da Polônia e a consequente declaração de guerra da França e do Reino Unido contra Hitler. Mas a ação propriamente dita começa com o protagonista Max Manus (Aksel Hennie) luta do lado dos finlandeses durante a invasão russa no país vizinho. Manus começa sua trajetória na guerra em março de 1940 como um dos voluntários noruegueses na frente de batalha finlandesa. Apenas três meses depois, ele e um grupo de amigos conversam em Oslo, capital da Noruega, sobre a importância de criarem um grupo de resistência em seu próprio país – que havia sido invadido pelos nazistas nos meses precedentes. A partir deste momento, o espectador é apresentado a história deste grupo de resistência que atuou até o final da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Max Manus): Sempre que uma leva de produções trata, basicamente, do mesmo assunto, o espectador fica um tanto “cansado” e com a sensação de “mais do mesmo”. Não sendo o promeiro filme dentro da lógica de “revisão histórica” da 2ª Guerra Mundial, Max Manus sofre um pouco com esta impressão. Mas o filme, pouco a pouco, vai se mostrando diferente dos demais. Para começar, ele se mostra importante para a cultura de seu país de origem.

Apenas o tempo pode nos fazer olhar de maneira diferente para um fato determinado. Lá pelas tantas na história de Max Manus, o protagonista comenta, ao ler uma notícia em um jornal, como os “vitoriosos” em uma guerra podem, rapidamente, transformar “patriotas” em “terroristas”. Seu melhor amigo, Gregers Gram (Nicolai Cleve Broch), confirma que sim, e continua escrevendo um manifesto dos chamados “terroristas/patriotas” em resposta a esta versão oficial nazista. Uma das contribuições interessantes do filme é esta reflexão sobre a importância, na mesma proporção, da ação e do discurso para que um ideal revolucionário tenha êxito. Afinal, quem pretende mudar um sistema ou uma realidade deve saber que, quem está no poder, também utiliza estes meios para conseguir sua supremacia.

Mas a questão da propaganda, seja nazista ou revolucionária, é um dos assuntos secundários do filme. O núcleo narrativo do roteiro de Thomas Nordseth-Tiller gira em torno das ações da 1ª Companhia Norueguesa Independente, treinada na Escócia, e que atuou especialmente em missões de sabotagem contra o comando nazista em seu país invadido. Max, Gregers e outros homens passaram a investir contra os invasores de seu país. A partir de abril de 1943, com o apoio de seu grupo de amigos em Oslo, Max e Gregers deram início a suas missões.

A história do grupo liderado por Max Manus é interessante e, realmente, heróica. Imagino que os noruegueses sentiram uma emoção especial ao assistir a esse filme – o que justifica, também, a sua indicação para a disputa na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar. Mas além de contar uma história de resistência e que tem importância para os noruegueses, Max Manus se revela um filme muito bem acabado tecnicamente.

O espectador conhece paisagens simplesmente belíssimas através de uma direção de fotografia impecável de Geir Hartly Andreassen. A trilha sonora de Trond Bjerknes também é perfeita e muito bonita, trabalhando todo o tempo para ressaltar os momentos mais dramáticos do roteiro. Através da história do grupo de resistência norueguês o público confere algumas das paisagens mais bonitas daquele país e da Escócia. A narrativa de Max Manus é linear, mas intercalada por alguns flashbacks do protagonista que parece “assombrado” (ou seria “inspirado”?) por sua experiência no campo de batalha finlandês. Merece destaque também o figurino assinado por Manon Rasmussen.

Ainda que centrado em um personagem, o que dá nome ao filme, Max Manus abre muito espaço para os demais participantes do grupo de resistência contra os nazistas. O contraponto ao “herói norueguês” que apenas quer o seu “país de volta” é o oficial nazista Siegfried Fehmer (Ken Duken) que, desde a corajosa fuga de Manus do hospital em que ele estava internado, empreende uma caçada contra o líder da resistência. Como em Defiance, no filme de Ronning e Sandberg há espaço para o romance. Manus conhece, através de seu amigo Gregers, a Tikken (Agnes Kittelsen), uma funcionária do consulado britânico em Estocolmo – para onde os amigos se dirigem sempre que completam uma missão.

Baseado em fatos reais, Max Manus esclarece, nos créditos finais, o que aconteceu com seus principais personagens após o fim da guerra – um recurso conhecido e quase “obigatório” em histórias do gênero. Sabemos, graças a ele, que o romance entre Manus e Tikken foi real – o que não impede, como ocorreu antes com Defiance, que esta história de amor se torne um bocado deslocada do restante da narrativa. Por outro lado, algo importante, como a influência determinante dos ingleses neste movimento de resistência norueguês ganha pouco espaço e é abordado de forma bastante superficial pelo roteiro de Nordseth-Tiller. Algo comprensível, já que estamos falando de um filme que ajuda no resgate do “orgulho norueguês” durante a 2ª Guerra Mundial.

A maior parte do tempo, Max Manus se mostra apenas correto – e envolvente, ao ter sua história bem narrada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas o que torna este filme diferente de outras produções do gênero é a sua reflexão perto do final, quando o protagonista não sabe o que fazer de sua vida depois de ter “vencido” a guerra. Sozinho em um salão de festas, ele percebe que perdeu praticamente todos os seus amigos e que não tem com quem celebrar a queda dos nazistas. A sequência que começa com Manus visitando ao prisioneiro Fehmer e que termina com sua conversa com Tikken é realmente de arrepiar. O grande momento do filme, sem dúvida, e que faz com que o mesmo valha a pena. Afinal, de que serviu tantas batalhas se as pessoas que eram importantes para ele haviam morrido? Claro que a história não termina ali e, com o tempo, Manus perceberá que sim, o esforço teve um significado maior.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante de Max Manus é que ele não procura transformar os seus personagens em heróis instantâneos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Claro que Manus, em especial, é visto como um sujeito valente e destemido mas, desde o início, do outro lado da balança destas suas qualidades, fica muito evidente que ele era um rapaz jovem, descuidado e um tanto inconsequente. Manus tinha menos ideais (e/ou visão política) que seu amigo Gregers Gram. Sujeito simples, sem uma formação intelectual mais densa, Manus queria que tudo voltasse a como era antes da invasão nazista. Empolgado com a insatisfação de seus amigos, ele viu na resistência uma oportunidade de ser útil e, ao mesmo tempo, lutar ao lado dos garotos com quem cresceu. Mas ao mesmo tempo em que ele era capaz do gesto mais heróico, era capaz também de atirar em si mesmo – em um acidente que foi decisivo para seu grupo. O filme mostra, assim, como normalmente os “heróis” de cada país não passam de sujeitos comuns que souberam, sob determinadas circunstâncias, ter uma atitude correta.

Como comentei rapidamente antes, o movimento de resistência à invasão nazista na Noruega recebeu uma influência e um apoio decisivos do Reino Unido. Para os ingleses, a Noruega era um ponto estratégico na guerra contra os nazistas, especialmente devido a sua proximidade com a costa britânica.

Interessante que aqui é possível encontrar várias informações sobre a Noruega, em um portal do país feito para o Brasil por sua embaixada. Por ali é possível saber um pouco mais sobre o Rei Harald, atual líder do país, que segue o regime de monarquia constitucional.

Para os interessados neste capítulo da 2ª Guerra Mundial, deixo aqui um link para um texto interessante de um portal específico sobre aquele período histórico.

Pelo roteiro de Max Manus, parece um tanto “forçada” a relação entre o oficial nazista Siegfried Fehmer e a norueguesa Solveig Johnsrud (Viktoria Winge). Mas a verdade é que ela se mostra condizente com o que ocorreu na época. Segundo esta reportagem da BBC, durante a guerra “os nazistas incentivavam uniões entre soldados alemães e mulheres norueguesas como parte do plano para criar uma raça superior ariana, com bebês de olhos azuis e cabelos loiros para o Reich de Mil Anos”.

Todo o elenco de Max Manus está bem – ainda que, pessoalmente, eu não tenha visto nenhum grande destaque. Além dos atores já citados, vale a pena destacar o trabalho de Mats Eldoen como Edvard Tallaken, um dos envolvidos no movimento de resistência norueguesa e que foi condecorado com a Cruz de Guerra; Kyrre Haugen Sydness como Jen Christian Hauge, o contato de Manus e de seus amigos com o governo inglês; Christian Rubeck como Kolbein Lauring, um dos sobreviventes do grupo inicial formado por Manus; e Knut Joner como Gunnar Sonsteby, participante da resistência como articulista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para o filme. Os críticos foram mais generosos com a produção. O site Rotten Tomatoes, que divulga links para diferentes críticas disponíveis na internet, por exemplo, revela 12 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 86%.

Uma das críticas positivas para Max Manus foi escrita por Peter Brunette, conhecido articulista da Hollywood Reporter. Neste link é possível ler seu texto original, no qual ele comenta que o filme segue uma linha “clichê-normal” de histórias do gênero. Para Brunette, Max Manus consegue, basicamente, duas coisas: se aproximar do padrão de Hollywood em relação a uma qualidade de produção elevada (o que garante cenas de ação interessantes e repetitivas) e, perto do final do filme, apresentar um desânimo profundo de seu protagonista quando, finalmente, ele toma uma pausa em suas ações para dar-se conta de que perdeu todos seus amigos. O crítico avalia que o filme sempre se mostra interessante, e ressalta o interesse na discussão entre a eficácia da propaganda para “ganhar a opinião pública” e as ações diretas contra os nazistas que resultam na morte de vários civis. Brunette resume, no final: “nada disto é novo, mas funciona”.

Outro comentário positivo para o filme (que pode ser lido neste link) foi publicado no The Sun Online. O texto ressalta que Max Manus é um bom filme de guerra à moda antiga no qual se destaca a escolha por uma trama tensa de espionagem em lugar de cenas de batalha em que predomina o recurso da computação gráfica. A crítica destaca ainda o trabalho do ator Aksel Hennie, que dá a profundidade exata para o protagonista – diferente de outros atores que primam por uma interpretação superficial, como Ken Duken e seu nazista Siegfried Fehmer (que acaba ficando estereotipado, segundo o The Sun).

Max Manus estreou na Noruega em dezembro de 2008. Este ano, o filme participou de três festivais, incluindo o de Toronto, e estreou no circuito comercial de três países. Em 2010 ele chegará até a Dinamarca e a Alemanha.

Até o momento, o filme ganhou sete prêmios e foi indicado ainda a outros quatro – todos no Amanda Awards, o principal prêmio de cinema da Noruega. Max Manus recebeu, no Amanda de agosto deste ano, os prêmios de melhor filme, melhor ator para Aksel Hennie, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor atriz coadjuvante para Agnes Kittelsen e melhor direção de som.

Uma curiosidade da produção: para as cenas em que apareciam soldados nazistas foram utilizados até 1,8 mil figurantes.

Max Manus custou 50 milhões de Krone norueguês – o que equivaleria a quase US$ 9 milhões. Depois de estrear nas salas de seu país, Max Manus se tornou o recordista nas bilheterias em sua semana de estréia: ele foi visto por 184,2 mil espectadores, superando a marca conquistada anteriormente por Kautokeino-opproret.

Pouco depois de Max Manus estreiar na Noruega, o roteirista Thomas Nordseth-Tiller foi diagnosticado com câncer. Ele morreu vítima da doença em maio deste ano.

Ah, e depois de assistir a este filme, me vejo obrigada a diminuir um pouco a nota de Defiance. Para ser mais justa. 😉

Max Manus é uma co-produção da Noruega, da Dinamarca e da Alemanha.

CONCLUSÃO: Inspirado em fatos reais do movimento de resistência norueguês durante a ocupação nazista daquele país, Max Manus é um filme mais realista do que Defiance. Nele, é possível perceber como os “heróis” da história são sujeitos comuns que valorizam a liberdade de seu país na mesma medida em que defendem os laços de amizade de seu grupo. Com belíssimas paisagens, uma trilha sonora envolvente e um roteiro e uma direção corretos, Max Manus contribui para a recente revisão histórica dos fatos envolvendo a 2ª Guerra Mundial. Narrado de forma linear, com algumas inserções de flashbacks do protagonista, o filme só peca por deixa suas reflexões mais importantes restritas aos minutos finais – em uma busca, provavelmente, por seu “grand finale”. Ainda assim, é uma história interessante de ser conhecida.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Sucesso na Noruega, Max Manus dificilmente terá o mesmo apelo em outros países. Por isso mesmo, e por se tratar de uma história um tanto “repetitiva”, dificilmente esta produção conseguirá figurar entre as cinco finalistas para o próximo Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas, se acaso ela chegar até lá, não acredito que terá a força para vencer a “favoritos” como Un Prophète ou Das Weisse Band.

Categorias
Cinema Cinema do mundo Crítica de filme Movie Oscar 2010

Madeo – Mother – Mother A Busca pela Verdade

Do que uma mãe é capaz para proteger o seu filho? Para alguns, não existe amor maior do que o de mãe. Madeo, novo filme do badalado diretor Bong Joon-ho, explora ao máximo a capacidade do amor materno em um inusitado filme de suspense e investigação policial.

Como no recentemente comentado aqui no blog Chugyeogja, em Madeo a polícia se mostra incapaz de resolver satisfatoriamente qualquer investigação. A impressão que temos é que os coreanos estão perdidos com a sua polícia local. Representante da Coréia na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar, Madeo respeita a tradição recente da boa safra vinda daquele país em uma história cheia de reviravoltas e drama. Desta vez, em lugar de vários crimes e cenas de violência, há mais emoção em cena.

A HISTÓRIA: Uma mulher caminha por um campo seco. Não sabemos se ela está fugindo ou procurando algo. De repente, ela começa a fazer movimentos compassados, como se dançasse. Ela se emociona e, quando está anoitecendo, coloca a mão dentro de seu casaco, repetindo um gesto que se tornou famoso na figura de Napoleão. Ela estaria louca?

A cena é cortada. A mesma mulher, agora, pica em uma guilhotina ervas medicinais. Dentro de sua loja, ela acompanha com o olhar ao filho, Yoon Do-joon (Won Bin), que brinca com um cachorro do lado de fora. O rapaz, que sofre com uma doença mental, acaba sendo atropelado por um carro. Com o amigo Jin-tae (Jin Goo), Do-joon segue para um campo de golfe com a intenção de “se vingar” dos ricaços que o atropelaram.

Eles acabam parando na delegacia, onde a mãe (Kim Hye-ja) de Do-joon aparece para levar o filho para casa. Na noite seguinte, após esperar o amigo Jin-tae em um bar durante muito tempo, Do-joon segue a Moon Ah-jeong (Moon Hee-ra) no caminho de volta para casa. A garota aparece morta na manhã seguinte e Do-joon é preso sob a acusação de assassinato. Mas a mãe dele, certa de que o filho é inocente, faz de tudo para libertá-lo da prisão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER -aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Madeo): Joon-ho Bong é um sujeito curioso. Ele consegue, como poucos, extrair suspense de situações banais do cotidiano.

O argumento de Madeo é dele, e o roteiro, uma parceria do diretor com Eun-kyo Park. Bong retoma a figura do protagonista “um tanto lento demais”, vista anteriormente no megasucesso Gwoemul. Mas em Madeo, mais do que o personagem de Do-joon e seu problema mental, rouba a cena uma mulher forte, obstinada e que não sabemos, até que ponto, também não sofre com algum distúrbio mental.

Possivelmente muitos irão descordar de mim. Podem enxergar na protagonista do filme apenas a figura de uma mãe superprotetora e desesperada por ter um filho. Mas não sei, por várias revelações que Madeo nos traz sobre o passado e novas atitudes desta mulher, eu tenho dúvidas se ela também não apresenta algum distúrbio psicológico grave.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressão minha ou ela tem mudanças de humor muito repentinas? Talvez ela sofra com um transtorno bipolar… ou, frente a tantos problemas com o filho, ela tenha desenvolvido uma depressão crônica. Ou ainda sejam apenas manifestações da menopausa. 😉

O problema de Do-joon também pode render debates. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns críticos afirmaram que ele sofreria de autismo. Será? Não sou formada na área de psicologia ou psiquiatria, por isso não vou me arriscar a diagnosticá-lo (mas se algum especialista quiser contribuir neste sentido, será bem/vindo(a).

Inicialmente, achei apenas que ele sofria de um certo “retardo mental” mas, lendo um pouco mais a respeito, também acho possível que ele sofra com esquizofrenia ou com uma psicose maníaco-depressiva. Acho estas últimas duas alternativas mais viáveis do que o autismo – afinal, ele não parece tão isolado do mundo assim.

Estas questões psicológicas são importantes para o filme porque explicam, como no caso de Gwoemul, as razões de muitas escolhas dos protagonistas que parecem equivocadas. No caso de Madeo, mãe e filho são extremamente co-dependentes um do outro – ainda que Do-joon tente, pouco a pouco, almejar uma vida um pouco mais independente.

Mas a mãe de Do-joon quis tanto ter o filho que foi capaz de ingerir ervas para ajudar-lhe a engravidar e, depois que ele nasceu, fazer de tudo para protegê-lo deste “mundo vil”. (Ainda que, como a personagem de Medeia, ela tenha pensado/tentado acabar com a vida de seu rebento quando criança).

Aliás, mais uma vez, pela ótica do diretor, vivemos em uma sociedade que não respeita as diferenças e que tem, até que se prove o contrário, uma grande aversão aos “retardatários”, aos que não podem se destacar por sua inteligência, poder ou talento.

Do-joon e sua mãe são vistos, não apenas pelos policiais, pelo advogado ou pelos professores que aparecem no filme como “gente de segunda categoria”. Em geral, até mesmo o “amigo” de Do-joon, Jin-tae, parece considerá-los dignos de piadas e de desrespeito. A sociedade, vista pelo diretor, é um celeiro de exclusão, de atos bárbaros e egoístas.

Madeo surpreende por nos contar uma história de investigação policial muito diferente dos padrões. Para começar, a protagonista e “detetive” deste roteiro é uma mulher simples, com pouca cultura e pobre. A protagonista “corta um dobrado” para cuidar do filho e sobreviver. Além de vender ervas, ela pratica a acumputura de forma ilegal. E estas suas agulhas… rendem alguns momentos de tensão no filme.

Voltando ao que eu dizia, Bong tem a arte de exprimir tensão e suspense das situações mais simples. Seja através das agulhas de Hye-ja, do uso de uma pequena guilhotina ou na queda de uma garrafa de água, as lentes do diretor sempre estão a postos para exprimir os detalhes de momentos e expressões cruciais.

Em Madeo, como na maioria dos filmes de suspense e/ou terror recentes da filmografia coreana, predominam também as reviravoltas do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Honestamente, no início, eu pensei: “Do-joon ter recomeçado a andar depois de terem jogado aquela imensa pedra não quer dizer nada. Ele pode ter dado meia volta e matado a menina”.

Mas, francamente, a atuação de Kim Hye-ja é tão convincente, assim como o permanente estado de ausência da realidade com alguns rompantes de extrema lucidez de seu filho que fui sendo levada pelo roteiro.

Acreditei na versão de ambos de que o rapaz era inocente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, fui fisgada pelas quatro grandes surpresas da reta final desta produção. Primeiro, a descoberta do verdadeiro criminoso pela mãe de Do-joon. Depois, a manobra desesperada, que resulta em um novo crime, para encobrir a verdade; a culpa de permitir que um inocente respondesse pela morte de Moon Hee-ra e, finalmente, a queda da última máscara.

A partir da visita da protagonista ao catador de lixo o filme ganha em suspense, velocidade e força. E, para ser franca, fiquei muito surpresa com as reviravoltas da história… quando o espectador pensa que tudo terminou, que as surpresas terminaram, aparecem novos golpes. Para mim, o maior deles foi quando a mãer de Do-joon permitiu que JP fosse preso pela morte de Hee-ra.

(SPOILER – não leia… você sabe). Com estas reviravoltas finais, Madeo muda totalmente de sentido. A mãe dedicada e capaz de fazer tudo pelo filho, a virtual segunda “vítima” desta história – depois do “inocente” Do-joon acaba se revelando, na verdade, a grande culpada pelo drama e pelos crimes do roteiro. O assassinato de Hee-ra passa pela educação que a mãe deu para o filho, ensinando-o a revidar sempre que fosse agredido.

Aliás, eis em Madeo uma prova de que a violência nunca é a melhor resposta contra a ignorância ou o desrespeito. Depois, o homicídio do catador de lixo é provocado diretamente pela protagonista. Sem contar o absurdo de permitir que outra pessoa respondesse pelo crime inicial.

A mãe, no fim das contas, é a grande vilã desta história – algo totalmente impensável, no início. Esta grande reviravolta na história e na “alma” do filme só comprova o talento de Joon-ho Bong como contador de histórias. Ele merece a fama que tem.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A interpretação de Kim Hye-ja é simplesmente inebriante. A atriz rouba a cena sempre que aparece na frente das lentes de Bong Joon-ho. Ela mostra, na medida certa, determinação, fragilidade e loucura. Um desempenho que merecia, sem dúvida, alguns prêmios.

Como geralmente acontece no caso dos filmes coreanos, Madeo teve um orçamento relativamente baixo – pelo menos para os padrões hollywoodianos: US$ 5 milhões. Certamente, pelo sucesso que o diretor Bong Joon-ho tem em seu país de origem e em toda a Ásia, o filme deve conseguir um bom lucro.

Além de ter sido indicado para o próximo Oscar, Madeo concorre na categoria de Melhor Filme do Festival de Cinema de Mar del Plata, que começou a ser celebrado no último sábado e segue até o dia 15 na Argentina. Antes, Madeo estreou em outro festival, o de Cannes, em maio deste ano. O filme participou ainda de nove outros festivais pelo mundo – inclusive as últimas edições do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Crítica e público demonstram que estão gostando de Madeo. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação importante de 93%.

Para quem não entendeu a minha piada lá encima sobre Napoleão, quero relembrar que o poderoso governante ficou conhecido, através de um quadro, por uma pose ereta na qual ele mantinha uma de suas mãos dentro do casaco, na altura do estômago. Neste texto curto do site da Mundo Estranho eles trazem algumas explicações para a pose no quadro do pintor Jacques-Louis David.

Na cobertura de Cannes, a crítica Maggie Lee escreveu este texto para a Hollywood Reporter sobre Madeo. Interessante quando ela comenta que Bong Joon-ho confirma o seu talento prodigioso em subverter qualquer gênero para que ele sirva para “sua própria visão idiossincrática”.

Para Lee, Madeo marca um trabalho muito mais autoral do diretor – se comparado ao comercial Gwoemul -, o que deve resultar em algum sucesso de público e, especialmente, um importante respaldo da crítica. E ela está certa. Madeo tem menos apelo popular porque se mostra muito mais complexo do que o grande êxito anterior de Joon-ho. Curioso também que Lee classifica Madeo como um filme com um “roteiro de detetitive habilmente traçado que é acelerado como um thriller de suspense de Hitchcock”.

Gostei, no texto de Maggie Lee, especialmente dos trechos em que ela analisa a técnica de Bong Joon-ho neste seu último filme. A crítica comenta, por exemplo, como os longos closes da expressão da protagonista servem tanto para “hipnotizar como para enervar” o espectador.

Em outros momentos, comenta Lee, as lentes do diretor mostram aquela mãe em campos infinitos ou em quadros com montanhas enevoadas, o que tornaria a sua personagem praticamente uma mancha na paisagem. Isso revelaria, simultaneamente, a insignificância e a ligação daquela mãe com a Natureza. Bem analisado.

Lee ressalta ainda que em nenhuma cena são enquadradas mais do que duas pessoas, e que o uso de uma paleta de cores primárias com o predomínio de um “triste esfumaçado azul e de um vermelho enferrujado petulante” criam um modo sustentado de “claustrofobia e desconforto”. Maravilhosa a crítica, para resumir.

Outro crítico, Derek Elley, da revista Variety, classificou como injusta a ausência de Madeo entre os competidores de Cannes. Neste texto, Elley destaca como Joon-ho Bong subverte os filmes sobre mães do cinema asiático, deixando para trás a idéia de produções onde predomina a “fortaleza feminina, a devoção de irmãos e a sacarina”.

O crítico também revela que, para o público coreano, Madeo subverte em outro sentido: ao modificar, radicalmente, a figura da atriz Kim Hye-ja, uma “lenda doméstica” construída durante 30 anos no sentido de interpretar mães amorosas(especialmente em papéis para a TV).

O crítico da Variety destaca o trabalho do elenco, chamando o elenco de um time de “craques”. E ele está certo. Além da já citada/elogiada Kim Hye-ja, se destacam nesta história o “ídolo teen irreconhecível”, na opinião dos críticos, Won Bin. Ele consegue uma interpretação natural e que foge da caricatura através do inconstante personagem de Yoon Do-joon.

Jin Goo faz o papel de viril da história, protagonizando algumas das sequências mais tensas de Madeo. Merecem menção ainda Yoon Je-moon, que intepreta o investigador policial Je-moon; Jeon Mi-seon como Mi-seon, uma das vizinhas da protagonista que frequenta suas sessões de acupuntura e que, sem querer, acaba dando uma pista importante para a investigação da mãe de Do-joon; Lee Yeong-seok que, mesmo aparecendo pouco, faz um trabalho muito sensível como um catador de lixo; e Cheon Woo-hee, que interpreta Mi-na, a namorada de Jin-tae que fascina também a Do-joon.

Da parte técnica do filme, merecem destaque o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (chamado também de “alex”), a trilha sonora de Lee Byeong-woo, a edição de Moon Sae-kyoung e a edição de som de Choi Tae-young (seu trabalho tem uma importância fundamental para o filme).

Algo que achei interessante neste filme é como ele consegue misturar o “antigo e o moderno” no cotidiano dos sul-coreanos. Madeo se passa em um pequeno vilarejo onde convivem pessoas como a protagonista, que mantêm costumes milenares, como o uso de ervas e a aplicação da acumputura para resolver problemas de saúde, e estudantes como Moon Ah-jeong.

A turma desta última era um celeiro de ousadia e contravenções. Sua amiga, Hyung-teo (Lee Mi-do) se “especializou” em alterar celulares para convertê-los em “câmeras de espiãs”. Outros estudantes, como Kkang-ma (Jeong Yeong-gi) ou Ddung-ddung (Ko Gyoo-pil) se divertiam com a ideia de explorar sexualmente meninas fragilizadas, não pensando duas vezes em usar a violência para encobrir os seus deslizes.

Uma nova geração que, por isso e muito mais, se mostra o oposto daquela da protagonista – e o curioso é que Madeo apenas esboça o choque cultural entre estas realidades.

Para os interessados no site oficial do filme, por enquanto só estão disponíveis as versões em coreano e japonês. Se alguém puder entender algo… 😉

Para escrever esta crítica, foi fundamental para mim a consulta ao banco de dados de filmes coreanos Hancinema. Muito bom o site, aliás. Recomendo.

CONCLUSÃO: A nova investida do badalado diretor coreano Joon-ho Bong demonstra como ele se especializou em subverter gêneros e conceitos estabelecidos. O realizador brinca com a figura de dois atores conhecidos na Coréia do Sul ao levá-los a assumir papéis muito diferentes do que o público está habituado.

Misturando drama e suspense policial, Madeo segue a trilha de roteiros bem costurados e cheios de reviravoltas da safra recente do cinema coreano. Com interpretações impecáveis e uma direção inspirada, este filme desconstrói as relações de dependência entre mãe e filho, alternando o entendimento entre loucura e sanidade.

Impecável tecnicamente e surpreendente no enredo, Madeo ainda aborda a ineficácia da polícia e a falta de respeito da sociedade com os que fogem de seus padrões ideais. Um filme de respeito, com alguma dose de violência e algumas surpresas que podem provocar indignação.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Representante da Coréia na disputa para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a próxima edição do Oscar, Madeo dificilmente conseguirá uma vaga entre os finalistas. Digo isso não porque ele não mereça. Mas é que o estilo e a ousadia de Joon-ho Bong não me parecem adequados para os padrões dos votantes da Academia.

Posso estar enganada, claro. Kim Hye-ja e o roteiro de Bong mereciam uma indicação. Como isso é praticamente impossível de acontecer, pelo menos o filme poderia ficar entre os cinco selecionados na categoria de produção estrangeira. O problema é o que o Oscar tende a selecionar filmes menos “obscuros” ou, vendo por outra ótica, mais “comerciais”.

Madeo foge destes padrões. Mesmo merecendo estar entre os cinco – pelo menos por enquanto, analisando os filmes que já assisti e que concorrem a uma vaga nesta categoria -, para mim, ele ficará de fora da disputa.

Categorias
Cinema Cinema do mundo Crítica de filme Movie Oscar 2010

Madeo – Mother – A Busca pela Verdade

madeo2

Do que uma mãe é capaz para proteger o seu filho? Para alguns, não existe amor maior do que o de mãe. Madeo, novo filme do badalado diretor Bong Joon-ho, explora ao máximo a capacidade do amor materno em um inusitado filme de suspense e investigação policial. Como no recentemente comentado aqui no blog Chugyeogja, em Madeo a polícia se mostra incapaz de resolver satisfatoriamente qualquer investigação. A impressão que temos é que os coreanos estão perdidos com a sua polícia local. Representante da Coréia na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar, Madeo respeita a tradição recente da boa safra vinda daquele país em uma história cheia de reviravoltas e drama. Desta vez, em lugar de vários crimes e cenas de violência, há mais emoção em cena.

A HISTÓRIA: Uma mulher caminha por um campo seco. Não sabemos se ela está fugindo ou procurando algo. De repente, ela começa a fazer movimentos compassados, como se dançasse. Ela se emociona e, quando está anoitecendo, coloca a mão dentro de seu casaco, repetindo um gesto que se tornou famoso na figura de Napoleão. Ela estaria louca? A cena é cortada. A mesma mulher, agora, pica em uma guilhotina ervas medicinais. Dentro de sua loja, ela acompanha com o olhar ao filho, Yoon Do-joon (Won Bin), que brinca com um cachorro do lado de fora. O rapaz, que sofre com uma doença mental, acaba sendo atropelado por um carro. Com o amigo Jin-tae (Jin Goo), Do-joon segue para um campo de golfe com a intenção de “se vingar” dos ricaços que o atropelaram. Eles acabam parando na delegacia, onde a mãe (Kim Hye-ja) de Do-joon aparece para levar o filho para casa. Na noite seguinte, após esperar o amigo Jin-tae em um bar durante muito tempo, Do-joon segue a Moon Ah-jeong (Moon Hee-ra) no caminho de volta para casa. A garota aparece morta na manhã seguinte e Do-joon é preso sob a acusação de assassinato. Mas a mãe dele, certa de que o filho é inocente, faz de tudo para libertá-lo da prisão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER -aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Madeo): Joon-ho Bong é um sujeito curioso. Ele consegue, como poucos, extrair suspense de situações banais do cotidiano. O argumento de Madeo é dele, e o roteiro, uma parceria do diretor com Eun-kyo Park. Bong retoma a figura do protagonista “um tanto lento demais”, vista anteriormente no megasucesso Gwoemul. Mas em Madeo, mais do que o personagem de Do-joon e seu problema mental, rouba a cena uma mulher forte, obstinada e que não sabemos, até que ponto, também não sofre com algum distúrbio mental.

Possivelmente muitos irão descordar de mim. Podem enxergar na protagonista do filme apenas a figura de uma mãe superprotetora e desesperada por ter um filho. Mas não sei, por várias revelações que Madeo nos traz sobre o passado e novas atitudes desta mulher, eu tenho dúvidas se ela também não apresenta algum distúrbio psicológico grave. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressão minha ou ela tem mudanças de humor muito repentinas? Talvez ela sofra com um transtorno bipolar… ou, frente a tantos problemas com o filho, ela tenha desenvolvido uma depressão crônica. Ou ainda sejam apenas manifestações da menopausa. 😉

O problema de Do-joon também pode render debates. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns críticos afirmaram que ele sofreria de autismo. Será? Não sou formada na área de psicologia ou psiquiatria, por isso não vou me arriscar a diagnosticá-lo (mas se algum especialista quiser contribuir neste sentido, será bem/vindo(a). Inicialmente, achei apenas que ele sofria de um certo “retardo mental” mas, lendo um pouco mais a respeito, também acho possível que ele sofra com esquizofrenia ou com uma psicose maníaco-depressiva. Acho estas últimas duas alternativas mais viáveis do que o autismo – afinal, ele não parece tão isolado do mundo assim.

Estas questões psicológicas são importantes para o filme porque explicam, como no caso de Gwoemul, as razões de muitas escolhas dos protagonistas que parecem equivocadas. No caso de Madeo, mãe e filho são extremamente co-dependentes um do outro – ainda que Do-joon tente, pouco a pouco, almejar uma vida um pouco mais independente. Mas a mãe de Do-joon quis tanto ter o filho que foi capaz de ingerir ervas para ajudar-lhe a engravidar e, depois que ele nasceu, fazer de tudo para protegê-lo deste “mundo vil”. (Ainda que, como a personagem de Medeia, ela tenha pensado/tentado acabar com a vida de seu rebento quando criança).

Aliás, mais uma vez, pela ótica do diretor, vivemos em uma sociedade que não respeita as diferenças e que tem, até que se prove o contrário, uma grande aversão aos “retardatários”, aos que não podem se destacar por sua inteligência, poder ou talento. Do-joon e sua mãe são vistos, não apenas pelos policiais, pelo advogado ou pelos professores que aparecem no filme como “gente de segunda categoria”. Em geral, até mesmo o “amigo” de Do-joon, Jin-tae, parece considerá-los dignos de piadas e de desrespeito. A sociedade, vista pelo diretor, é um celeiro de exclusão, de atos bárbaros e egoístas.

Madeo surpreende por nos contar uma história de investigação policial muito diferente dos padrões. Para começar, a protagonista e “detetive” deste roteiro é uma mulher simples, com pouca cultura e pobre. A protagonista “corta um dobrado” para cuidar do filho e sobreviver. Além de vender ervas, ela pratica a acumputura de forma ilegal. E estas suas agulhas… rendem alguns momentos de tensão no filme. Voltando ao que eu dizia, Bong tem a arte de exprimir tensão e suspense das situações mais simples. Seja através das agulhas de Hye-ja, do uso de uma pequena guilhotina ou na queda de uma garrafa de água, as lentes do diretor sempre estão a postos para exprimir os detalhes de momentos e expressões cruciais.

Em Madeo, como na maioria dos filmes de suspense e/ou terror recentes da filmografia coreana, predominam também as reviravoltas do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Honestamente, no início, eu pensei: “Do-joon ter recomeçado a andar depois de terem jogado aquela imensa pedra não quer dizer nada. Ele pode ter dado meia volta e matado a menina”. Mas, francamente, a atuação de Kim Hye-ja é tão convincente, assim como o permanente estado de ausência da realidade com alguns rompantes de extrema lucidez de seu filho que fui sendo levada pelo roteiro.

Acreditei na versão de ambos de que o rapaz era inocente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, fui fisgada pelas quatro grandes surpresas da reta final desta produção. Primeiro, a descoberta do verdadeiro criminoso pela mãe de Do-joon. Depois, a manobra desesperada, que resulta em um novo crime, para encobrir a verdade; a culpa de permitir que um inocente respondesse pela morte de Moon Hee-ra e, finalmente, a queda da última máscara. A partir da visita da protagonista ao catador de lixo o filme ganha em suspense, velocidade e força. E, para ser franca, fiquei muito surpresa com as reviravoltas da história… quando o espectador pensa que tudo terminou, que as surpresas terminaram, aparecem novos golpes. Para mim, o maior deles foi quando a mãer de Do-joon permitiu que JP fosse preso pela morte de Hee-ra.

(SPOILER – não leia… você sabe). Com estas reviravoltas finais, Madeo muda totalmente de sentido. A mãe dedicada e capaz de fazer tudo pelo filho, a virtual segunda “vítima” desta história – depois do “inocente” Do-joon acaba se revelando, na verdade, a grande culpada pelo drama e pelos crimes do roteiro. O assassinato de Hee-ra passa pela educação que a mãe deu para o filho, ensinando-o a revidar sempre que fosse agredido. Aliás, eis em Madeo uma prova de que a violência nunca é a melhor resposta contra a ignorância ou o desrespeito. Depois, o homicídio do catador de lixo é provocado diretamente pela protagonista. Sem contar o absurdo de permitir que outra pessoa respondesse pelo crime inicial. A mãe, no fim das contas, é a grande vilã desta história – algo totalmente impensável, no início. Esta grande reviravolta na história e na “alma” do filme só comprova o talento de Joon-ho Bong como contador de histórias. Ele merece a fama que tem.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A interpretação de Kim Hye-ja é simplesmente inebriante. A atriz rouba a cena sempre que aparece na frente das lentes de Bong Joon-ho. Ela mostra, na medida certa, determinação, fragilidade e loucura. Um desempenho que merecia, sem dúvida, alguns prêmios.

Como geralmente acontece no caso dos filmes coreanos, Madeo teve um orçamento relativamente baixo – pelo menos para os padrões hollywoodianos: US$ 5 milhões. Certamente, pelo sucesso que o diretor Bong Joon-ho tem em seu país de origem e em toda a Ásia, o filme deve conseguir um bom lucro.

Além de ter sido indicado para o próximo Oscar, Madeo concorre na categoria de Melhor Filme do Festival de Cinema de Mar del Plata, que começou a ser celebrado no último sábado e segue até o dia 15 na Argentina. Antes, Madeo estreou em outro festival, o de Cannes, em maio deste ano. O filme participou ainda de nove outros festivais pelo mundo – inclusive as últimas edições do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Crítica e público demonstram que estão gostando de Madeo. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação importante de 93%.

Para quem não entendeu a minha piada lá encima sobre Napoleão, quero relembrar que o poderoso governante ficou conhecido, através de um quadro, por uma pose ereta na qual ele mantinha uma de suas mãos dentro do casaco, na altura do estômago. Neste texto curto do site da Mundo Estranho eles trazem algumas explicações para a pose no quadro do pintor Jacques-Louis David.

Na cobertura de Cannes, a crítica Maggie Lee escreveu este texto para a Hollywood Reporter sobre Madeo. Interessante quando ela comenta que Bong Joon-ho confirma o seu talento prodigioso em subverter qualquer gênero para que ele sirva para “sua própria visão idiossincrática”. Para Lee, Madeo marca um trabalho muito mais autoral do diretor – se comparado ao comercial Gwoemul -, o que deve resultar em algum sucesso de público e, especialmente, um importante respaldo da crítica. E ela está certa. Madeo tem menos apelo popular porque se mostra muito mais complexo do que o grande êxito anterior de Joon-ho. Curioso também que Lee classifica Madeo como um filme com um “roteiro de detetitive habilmente traçado que é acelerado como um thriller de suspense de Hitchcock”.

Gostei, no texto de Maggie Lee, especialmente dos trechos em que ela analisa a técnica de Bong Joon-ho neste seu último filme. A crítica comenta, por exemplo, como os longos closes da expressão da protagonista servem tanto para “hipnotizar como para enervar” o espectador. Em outros momentos, comenta Lee, as lentes do diretor mostram aquela mãe em campos infinitos ou em quadros com montanhas enevoadas, o que tornaria a sua personagem praticamente uma mancha na paisagem. Isso revelaria, simultaneamente, a insignificância e a ligação daquela mãe com a Natureza. Bem analisado. Lee ressalta ainda que em nenhuma cena são enquadradas mais do que duas pessoas, e que o uso de uma paleta de cores primárias com o predomínio de um “triste esfumaçado azul e de um vermelho enferrujado petulante” criam um modo sustentado de “claustrofobia e desconforto”. Maravilhosa a crítica, para resumir.

Outro crítico, Derek Elley, da revista Variety, classificou como injusta a ausência de Madeo entre os competidores de Cannes. Neste texto, Elley destaca como Joon-ho Bong subverte os filmes sobre mães do cinema asiático, deixando para trás a idéia de produções onde predomina a “fortaleza feminina, a devoção de irmãos e a sacarina”. O crítico também revela que, para o público coreano, Madeo subverte em outro sentido: ao modificar, radicalmente, a figura da atriz Kim Hye-ja, uma “lenda doméstica” construída durante 30 anos no sentido de interpretar mães amorosas(especialmente em papéis para a TV).

O crítico da Variety destaca o trabalho do elenco, chamando o elenco de um time de “craques”. E ele está certo. Além da já citada/elogiada Kim Hye-ja, se destacam nesta história o “ídolo teen irreconhecível”, na opinião dos críticos, Won Bin. Ele consegue uma interpretação natural e que foge da caricatura através do inconstante personagem de Yoon Do-joon. Jin Goo faz o papel de viril da história, protagonizando algumas das sequências mais tensas de Madeo. Merecem menção ainda Yoon Je-moon, que intepreta o investigador policial Je-moon; Jeon Mi-seon como Mi-seon, uma das vizinhas da protagonista que frequenta suas sessões de acupuntura e que, sem querer, acaba dando uma pista importante para a investigação da mãe de Do-joon; Lee Yeong-seok que, mesmo aparecendo pouco, faz um trabalho muito sensível como um catador de lixo; e Cheon Woo-hee, que interpreta Mi-na, a namorada de Jin-tae que fascina também a Do-joon.

Da parte técnica do filme, merecem destaque o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (chamado também de “alex”), a trilha sonora de Lee Byeong-woo, a edição de Moon Sae-kyoung e a edição de som de Choi Tae-young (seu trabalho tem uma importância fundamental para o filme).

Algo que achei interessante neste filme é como ele consegue misturar o “antigo e o moderno” no cotidiano dos sul-coreanos. Madeo se passa em um pequeno vilarejo onde convivem pessoas como a protagonista, que mantêm costumes milenares, como o uso de ervas e a aplicação da acumputura para resolver problemas de saúde, e estudantes como Moon Ah-jeong. A turma desta última era um celeiro de ousadia e contravenções. Sua amiga, Hyung-teo (Lee Mi-do) se “especializou” em alterar celulares para convertê-los em “câmeras de espiãs”. Outros estudantes, como Kkang-ma (Jeong Yeong-gi) ou Ddung-ddung (Ko Gyoo-pil) se divertiam com a idéia de explorar sexualmente meninas fragilizadas, não pensando duas vezes em usar a violência para encobrir os seus deslizes. Uma nova geração que, por isso e muito mais, se mostra o oposto daquela da protagonista – e o curioso é que Madeo apenas esboça o choque cultural entre estas realidades.

Para os interessados no site oficial do filme, por enquanto só estão disponíveis as versões em coreano e japonês. Se alguém puder entender algo… 😉

Para escrever esta crítica, foi fundamental para mim a consulta ao banco de dados de filmes coreanos Hancinema. Muito bom o site, aliás. Recomendo.

CONCLUSÃO: A nova investida do badalado diretor coreano Joon-ho Bong demonstra como ele se especializou em subverter gêneros e conceitos estabelecidos. O realizador brinca com a figura de dois atores conhecidos na Coréia do Sul ao levá-los a assumir papéis muito diferentes do que o público está habituado. Misturando drama e suspense policial, Madeo segue a trilha de roteiros bem costurados e cheios de reviravoltas da safra recente do cinema coreano. Com interpretações impecáveis e uma direção inspirada, este filme desconstrói as relações de dependência entre mãe e filho, alternando o entendimento entre loucura e sanidade. Impecável tecnicamente e surpreendente no enredo, Madeo ainda aborda a ineficácia da polícia e a falta de respeito da sociedade com os que fogem de seus padrões ideais. Um filme de respeito, com alguma dose de violência e algumas surpresas que podem provocar indignação.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Representante da Coréia na disputa para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a próxima edição do Oscar, Madeo dificilmente conseguirá uma vaga entre os finalistas. Digo isso não porque ele não mereça. Mas é que o estilo e a ousadia de Joon-ho Bong não me parecem adequados para os padrões dos votantes da Academia. Posso estar enganada, claro. Kim Hye-ja e o roteiro de Bong mereciam uma indicação. Como isso é praticamente impossível de acontecer, pelo menos o filme poderia ficar entre os cinco selecionados na categoria de produção estrangeira. O problema é o que o Oscar tende a selecionar filmes menos “obscuros” ou, vendo por outra ótica, mais “comerciais”. Madeo foge destes padrões. Mesmo merecendo estar entre os cinco – pelo menos por enquanto, analisando os filmes que já assisti e que concorrem a uma vaga nesta categoria -, para mim, ele ficará de fora da disputa.