Blue Valentine – Namorados para Sempre


O que acontece com o amor quando termina o encanto? Provavelmente existe mais do que uma resposta para esta pergunta. Mas quando o novo estágio, após o encantamento, significa o fim do que era novo, genial e interessante, quando a relação perde o sabor, as cores e aromas, não existe muito espaço para múltiplas escolhas. Blue Valentine fala sobre isso. Sobre um amor que começa surpreendente e que segue em uma trilha de desgaste. É a história de uma família que tem química, mas que é formada por um casal que parece não ter mais paciência e nem oxigênio. Um filme com estilo, uma ótima trilha sonora e dois atores afinadíssimos.

A HISTÓRIA: Uma menina grita desesperada em busca da Megan. Enquanto os grilos cantam e a rua continua deserta, o pai dela, Dean (Ryan Gosling), continua dormindo em uma poltrona. Cansada de buscar sozinha, Frankie (Faith Wladyka) acorda o pai. Ele vai até o lado de fora da casa e descobre que a cadela da família fugiu. Junto com a filha, ele acorda a esposa, Cindy (Michelle Williams). Ela apronta o café da manhã e se cansa com as brincadeiras do marido, que tocava música antes de comer cereais direto da mesa. Cindy leva a menina para a escola, e a relação do casal começa a se revelar desgastada, ao mesmo tempo em que acompanhamos como Cindy e Dean se conheceram e se apaixonaram.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Blue Valentine): Interessante como se desenvolve o ritmo naturalista deste filme. Primeiro, o estilo de filmagem do diretor e roteirista Derek Cianfrance que, desde o primeiro até o último segundo da produção escolhe, deliberadamente, os cortes e ângulos de câmera mais naturalistas possíveis. Paisagens, a dinâmica dos gestos e das relações das pessoas sempre estão em primeiro plano e parecem servir como guia para os movimentos das câmeras.

Depois, chama a atenção o desenvolvimento naturalista da trama. Assinado pelo diretor e por Cami Delavigne e Joey Curtis, o roteiro de Blue Valentine evita as frases feitas. E quando elas aparecem, surgem de forma automática, algumas vezes irônica. Mas o mais interessante, no texto, é que por grande parte do filme a personagem de Cindy assume, sozinha, a roupagem de “bandida” da história. Nada mais natural, seguindo os preceitos de nossas sociedades ainda um bocado machistas – ao ponto de colocarem, sobre as mulheres, eternamente a aura de “chatas” e impacientes.

Nesta produção, acompanhamos uma história de amor. Que ainda não terminou, mesmo que do sentimento original reste pouco. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E o interessante é que por grande parte da história – e aposto que, para muitas pessoas, mesmo depois que ela termine – a “vilã” da produção é a personagem interpretada por Michelle Williams. Ela é quem resiste. Parece ser a parte do casal que não cede, que não aceita a falta de ambição do marido. Mas eu vejo algo além disso.

É difícil, para quem ama, aceitar o desperdício de um potencial. Complicado ver alguém que poderia ser muito melhor, fazer muito mais, desenvolver-se plenamente, gastar esse potencial em nada. Esta é uma das maiores dificuldades de Cindy em relação a Dean. Mas há uma cena fundamental na trama, quando eles conversam francamente em um quarto de motel, em que ele desabafa que tudo o que ele quer, e que não sabia que queria, era ter uma família e cuidar dela. E o que fazer, com esta diferença tão brutal de visões de mundo?

Pois eis a questão e o problema fundamental na história do casal de Blue Valentine. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E talvez de tantos e tantos outros casais que não conseguem mais viver juntos. A dificuldade em encontrar um denominador comum, em lidar com as expectativas individuais em prol de um projeto conjunto. No caso de Cindy e de Dean, a convivência foi mostrando também como eles tem algumas visões de mundo e de hábitos bem distintas. Ela não suporta ver o marido dormindo até tarde, tomando uma cerveja as 8h e saindo para trabalhar um dia aqui, outro ali, sem grandes perspectivas de melhorar de vida. Como enfermeira, ela tem mais estabilidade e, claro, está preocupada com o futuro da filha. Mas para Dean, nada mais importante que ajudar a pagar as contas da casa e ter o máximo de tempo livre para curtir a família – ainda que, na prática, nem sempre ele consiga isso.

O desgaste está formado. E apenas cresce. E como lidar com ele? Bem, para dar uma temperada nesta história e torná-la um bocado mais dura, não acompanhamos apenas a derrocada da relação de Cindy e Dean. Sem avisar, e de maneira muito sutil, o diretor e os roteiristas nos levam para alguns anos antes na história, quando o casal se conheceu. Há cenas verdadeiramente encantadoras, nesta parte, como a sequencia impagável em que Dean faz Cindy dançar. Ah, o amor, como ele é lindo. Como a conquista, a fase em que as pessoas se apaixonam e se encantam, é maravilhosa. Mas e depois?

Bem, nunca há regras para o depois. A história dos dois poderia ter dado muito certo. Ou poderia ter acontecido o que nos foi apresentado neste filme. O que chama a atenção em Blue Valentine, em relação a outros filmes, é que aqui há pouco fingimento. Tanto os momentos lindos e encantadores são apresentados de forma precisa para provocar este tipo de sentimento no espectador quanto os momentos de desgaste, de falta de sintonia e de esperança são filmados com a mesma honestidade. Por isso, cá entre nós, imagino que seja impossível passar incólume por este filme. O que faz dele, apenas por isto, uma interessante peça de cinema. Afinal, um dos objetivos da 7Arte não é, justamente, mexer conosco? Pois posso garantir que Blue Valentine mexe com o público. Tanto com os apaixonados inveterados quanto com aqueles que sabem que histórias de amor podem ser bastante complicadas.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada com o belo trabalho da dupla Michelle Williams e Ryan Gosling. De forma precisa, bastante honesta e sem aquelas irritantes “caras e bocas” e forçações de barra que mesmo atores experientes algumas vezes encenam – talvez por cansaço ou por não adotarem os roteiros como dignos de esforço – eles apresentam um trabalho digno de aplausos. Ela é “cruel” e direta sempre que a personagem pede. Ele é dedicado e “avoado” conforme manda o script. E nas cenas de tensão sexual, conquista e encantamento, os dois atores conseguem a química ideal. Sem ter que tirar ou por.

Esse é o primeiro trabalho do diretor Derek Cianfrance que eu lembro de ter assistido. Gostei do estilo dele. Claro que a forma dele em conduzir a trama não é, exatamente, inédita. Mas aí entramos no velho tema: o quanto de ineditismo realmente ainda é possivel no cinema atualmente, depois de mais de 110 anos de história e invenções? Bem, outros cineastas também preferem essa levada “naturalista” de Cianfrance, o que não desmerece, nem um pouco a sua escolha.

Ajudou muito no efeito final da produção dois itens que sempre são fundamentais no cinema: a direção de fotografia de Andrij Parekh e a trilha sonora ajustadíssima de Grizzly Bear. A fotografia do estadunidense Parekh, que tem descendência ucraniana e indiana, potencializa as cores naturais de cada cena, tornando os tons terrais ainda mais “pesados” e/ou “envelhecidos” e os azuis, de longas cenas de tensão, ainda mais densos. Bacana. Recursos que funcionam sempre muito bem.

O trabalho de Bear é muito pontual, preciso, apresentando uma música ajustada para os momentos mais delicados ou nos quais o autor quer reforçar uma ideia. No restante do tempo, escutamos muitos sons “das ruas”, das casas, vizinhanças, o som natural da vida. Também gostei. Bear assina, realmente, grande parte das composições. Além dele, vale citar a música Smoke Gets In Your Eyes, clássico do The Platters, e You and Me, de Penny & The Quarters.

Merece uma menção especial o trabalho feito com os créditos finais do filme. Uma forma interessante de fechar de uma forma, digamos assim “esperançosa”, uma produção com muitos momentos complicados.  Mesmo porque, mesmo quando o amor termina, os momentos bacanas permanecem. Mesmo que no passado ou, quem sabe, flutuando em algum lugar no cosmos, podendo dar frutos – nem que for como inspiração para outras pessoas. Acho que eu acredito nisso. 🙂

Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho dos editores Jim Helton e Ron Patane. Dos demais atores, a atriz que tem um destaque um pouco maior, em uma produção dominada por Ryan Gosling e Michelle Williams, é a filha deles na trama, interpretada por Faith Wladyka. Ela faz um bom trabalho, ainda que nada excepcional – até porque, cá entre nós, nem era necessário. No mais, vale citar as rápidas aparições dos coadjuvantes John Doman, como Jerry, pai de Cindy; e de Mike Vogel como Bobby Ontario, com quem ela tinha uma relação antes de conhecer Dean.

Blue Valentine estrou no dia 24 de janeiro de 2010 no Festival de Sundance. Depois ele participou dos festivais de Cannes, Toronto, Londres, Vienna, Gijón, Rotterdam e Buenos Aires, entre outros. Em sua trajetória, a produção conseguiu conquistar dois prêmios: o de melhor cineasta revelação para Derek Cianfrance segundo a associação de críticos de cinema de Chicago, e o de melhor atriz para Michelle Williams segundo o círculo de críticos de cinema de San Francisco. Blue Valentine foi indicado, ainda, para outros 16 prêmios, incluindo o prêmio principal em Sundance, duas indicações para os atores principais no Globo de Ouro deste ano e uma indicação para Michelle Williams no Oscar 2011.

Falando em Oscar, Michelle Williams perdeu a estatueta para Natalie Portman, protagonista de Black Swan. Francamente, ainda acho que Natalie Portman mereceu o Oscar. Mas admito que Michelle Williams, ao lado de Annette Bening, tornou a disputa deste ano bastante acirrada. As duas fizeram um grande trabalho em seus respectivos filmes. Mais do que a queridinha – e com razão, porque ela é talentosa – Jennifer Lawrence. O trabalho de Nicole Kidman que concorreu ao último Oscar eu ainda não vi, para poder comentar.

Produção de baixo custo, Blue Valentine teria custado US$ 1 milhão. Uma ninharia para os padrões de Hollywood – onde não é raro encontrar produções custando 80, 100 ou 200 vezes este valor. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu, até o dia 17 de abril deste ano, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias. Pouco, em comparação a outros filmes, mas um belo resultado para uma produção que custou tão pouco.

Para quem ficou interessado em saber onde Blue Valentine foi rodado, ele foi filmado em Nova York, em bairros tradicionais como Manhattan, Queens e o Brooklyn, e em várias partes do estado da Pennsylvania.

Diz a lenda que o US$ 1 milhão gasto com o filme teria sido financiado pelo prêmio de roteiro que Chrysler Film Project ganho em 2006. Por isso mesmo que fico me perguntando se realmente o filme custou isso ou foi o que os produtores justificaram. De qualquer forma, a produção saiu com uma boa alavanca devido à qualidade de seu roteiro.

Interessante que os realizadores decidiram adiar as filmagens de Blue Valentine devido à morte do ator Heath Ledger, com quem Michelle Williams tinha sido casada e com quem ela tinha uma filha. Decidiram esperar o tempo necessário para que ela pudesse se dedicar ao projeto. Valeu a pena, sem dúvida.

Agora, uma curiosidade técnica: as cenas de Cindy e Dean que mostram quando eles se conheceram e seguem até eles se casarem foram filmadas em Super 16mm, enquanto que as cenas deles juntos, casados, foram rodadas em RED.

E outra curiosidade da produção: as cenas do casal na fase “enamorada” foram filmadas primeiro, durante três semanas. Depois desta fase, Ryan Gosling e Michelle Williams viveram juntos em uma casa por um mês, fazendo coisas banais, como indo às compras, cozinhando, jantando, etc., para afinar a técnica de conversarem como um casal e “brigarem” um com o outro. Por isso mesmo tanto realismo em cena.

Michele Williams aceitou fazer o filme porque ela tinha gostado muito do roteiro. Mas quando o projeto começou a ser filmado, o diretor sugeriu que os atores improvisassem mais as falas do que simplesmente seguissem o roteiro. Inicialmente a atriz foi mais resistente à ideia. mas Gosling teria gostado do improviso porque disse que tinha dificuldades de lembrar de todas as falas. Mais uma razão para o filme fluir tão bem. Ainda que, cá entre nós, esse fato me deixou curiosa para saber como seria o roteiro original, sem as improvisações.

Fiquei impressionada com a obstinação do diretor Derek Cianfrance com esta produção. Ele dedicou 12 anos para que o filme fosse concretizado. Além de ter trabalhado em várias versões para o roteiro, ele produziu vários documentários para conseguir dinheiro para que Blue Valentine fosse concretizado. Ser obstinado realmente vale a pena – e nos leva a alguns feitos/lugares.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para a produção. Uma nota boa, considerando a média de notas do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: publicaram 152 críticas positivas e apenas 22 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 87% – e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: Este não é um filme simples. Nem fácil de assistir. Isso porque nunca é fácil assistir à crise de um casamento. Essa é a primeira informação que você precisa ter em mente. Além disso, tenha certeza, há muitas sequências incríveis nesta história, de pura sintonia entre os protagonistas. Cenas líricas, bacanas, musicais, encantadoras. Cenas duras, de diálogos ácidos, de choque de expectativas, destas cenas que podem fazer o coração partir. Blue Valentine é isto, um filme sincero sobre conquista e desgaste. De como os sonhos das pessoas e o amor que elas sentem, muitas vezes são incompatíveis. Uma produção com direção e roteiro honestos, sensíveis, e que ainda conta com um casal de atores dedicados. Para quem tem o coração aberto a assistir o pior que a ferrugem e o desgaste podem fazer, é uma grande produção.

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9 thoughts on “Blue Valentine – Namorados para Sempre

  1. Oi André!

    Verdade, os dois atores estão muito bem. Não consigo identificar quem está melhor, devo dizer… achei o nível do trabalho deles muito parecido.

    Obrigada, mais uma vez, por tua visita e pelo teu comentário.

    Abraços e inté!

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    1. Oi Andressa!

      Então, o filme termina sem terminar… justamente para que o espectador tire as suas próprias conclusões do que poderá acontecer depois.

      Não há nenhuma notícia sobre uma continuação para este filme. Até pela proposta dele, acho muito difícil isso acontecer.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui mais vezes.

      Abraços e inté!

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    1. Olá Tâmara!

      Antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui!

      Que legal que você gostou do texto. E que bom que você seguiu as indicações da “bula”, ou seja, primeiro assistiu ao filme e depois leu a crítica. Muito bem! 🙂

      Espero que você se anime para voltar por aqui muitas vezes ainda, inclusive para falar de outros filmes. Como podes ver por esta resposta ao teu comentário, muitas vezes eu demoro um pouco para responder… mas isso acaba acontecendo, mais cedo ou mais tarde.

      Um grande abraço e até a próxima!

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  2. Muito boa sua análise, penso que as pessoas esquecem que sempre precisam dar outra chance de recomeçar, pois sempre as dão para si, senão, do contrário o que resta é o suicídio! Ele se foi, não precisou mostrar que a relação terminou, vida que segue…

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    1. Olá Edivar!

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário.

      Também penso assim. A vida é feita de recomeços. Sempre que alguém cai, ou tropeça, precisa ter forças para levantar. Algumas vezes pode demorar mais, outra demora menos. Mas é preciso seguir.

      Espero que voltes por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes. Seja bem-vindo!

      Abraços e até a próxima.

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  3. Eu acabei de assistir, e é cópia fiel da vida real, por vezes dá para pensar que é um documentário, de tão realista, a repulsa pelo sexo, o desequilibrio no ambiente de trabalho, a impaciência com a família, percebe-se no casal uma vida pesada e exaustiva, os dois tem “n” motivos para estarem à flor da pele, Cindy, ao meu ver, está no seu limite, completamente escaldada de deixar o tempo passar e nada mudar em sua vida tediosa.
    Dizer que adorei, soa até macabro, pq não é um filme para vc adorar, afinal é uma família em colapso, mas tbm não como dizer que não gostei, pois a história foi “passada” muito bem, o que qualifica o filme como ELOGIÁVEL.

    Michelle maravilhosa, atuação impecável.

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