Blade Runner 2049

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Um futuro bastante sombrio. Em todos os sentidos. Um mundo pós-catástrofe em que uma nova geração de replicantes é ainda mais obediente e facilmente “escravizada”. Grande parte da Humanidade não vive mais na Terra, e quem ficou para trás vive buscando manter o status quo e a separação entre humanos e não-humanos. Blade Runner 2049 avança na história do clássico original e faz um grande favor para todos nós, fãs de cinema: avança preservando a essência do original e agregando novas e interessantes informações. É um alívio e ao mesmo tempo um deleite ver uma “continuação” de um clássico que não nos decepciona. Pelo contrário. Baita filme. Gigante mesmo.

A HISTÓRIA: Começa com uma grande introdução. Nela, sabemos que após o colapso mundial de 2020, surgiu uma nova geração de replicantes. Estes novos modelos são muito mais “obedientes” que os anteriores. A corporação Wallace assume a frente da nova tecnologia e consegue, com os novos modelos, colocar fim na fome mundial, entre outras conquistas. Os modelos antigos de replicantes, agora, são caçados pelos novos que, a exemplo dos caçadores da geração anterior, também são chamados de Blade Runner’s. Corta. Um olho ocupa toda a tela. Em seguida, um veículo se desloca no céu sobre campos gigantes. Estamos na Califórnia em 1949. E começamos a assistir a mais uma caçada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blade Runner 2049): Antes de mais nada, deixa eu dizer: que filme fantástico! Como é bom assistir à sequência de um grande filme que consegue, com toda a dificuldade que esta tarefa significa, manter o grande nível. Isso não é nada fácil, e a história do cinema está aí para nos comprovar. Normalmente um grande filme, quando ganha uma sequência, tem o seu legado jogado por terra. Para a nossa sorte, dos amantes do cinema, não é isso que acontece com Blade Runner.

Devo dizer que é difícil ir no cinema e assistir a Blade Runner 2049 e não ficar arrepiado e/ou emocionado. Não, eu não cheguei a chorar. Mas sim, por dentro, fiquei muito emocionada. Porque, ainda que faz um tempo que eu assistir ao Blade Runner de 1982, algumas das cenas marcantes daquele filme – e a essência da sua história – continuam bem vivas na minha memória. Então eu vi a este novo filme, brilhantemente conduzido por Denis Villeneuve, entendendo todos os paralelos e toda a homenagem que o diretor fez para o original. E, ainda assim, apesar de todas as referências que o diretor faz para a produção de Ridley Scott (outro gênio do cinema), Villeneuve também consegue deixar a sua marca.

Amigos e amigas, isso não é nada fácil. Tão difícil quanto manter o grande nível de um clássico é você homenageá-lo na medida certa e conseguir, também, deixar o seu próprio estilo na nova obra. E isso é o que esse grande diretor Villeneuve consegue com Blade Runner 2049. Bem, como vocês podem ver, realmente eu gostei muito do filme. hahahahahaha. Porque estou primeiro me derretendo em elogios e nas sensações que eu tive ao assistir a este filme antes de falar propriamente do que eu vi na telona de um cinema praticamente lotado.

Então, após rasgar bastante a seda para Blade Runner 2049, vamos falar sobre a produção. Afinal, é para isso que estamos, não é mesmo? 😉 Primeiro de tudo, achei brilhante a introdução e o cartão-de-visitas do filme. Logo percebemos toda a proposta visual do novo Blade Runner – proposta esta que foi fundamental na primeira produção e que é tão importante quanto nesta nova. O futuro que temos pela frente, exatamente 30 anos depois do que se passa no primeiro filme – que é ambientado em 2019 -, é um futuro pós-apocalíptico.

Ou seja, ainda que moderno, com muitas luzes e publicidades “invasivas” nas grandes cidades, este futuro é ainda mais sombrio e desolado que o que vimos anteriormente. E faz sentido, convenhamos. Qualquer história pós-apocalíptica costuma mostrar os lugares que sucumbiram na mesma medida em que apresenta parte de cidades “reconstruídas”/reordenadas. Então a parte visual de Blade Runner 2049, algo fundamental para a história, é apresentada com muita coerência e de forma muito, muito interessante.

O diretor Villeneuve, juntamente com o grande diretor de fotografia Roger Deakins, mostram toda a sua experiência neste grande desafio de apresentar um filme que busque ser tão marcante quanto o original de Ridley Scott. E, volto a dizer, para a nossa sorte, eles conseguem. O visual de Blade Runner 2049 é fantástico. Convence pelos detalhes e evita o exagero. O que vemos em cena é coerente com a história, com o tempo que passou e com os fatos que aconteceram nos 30 anos que separam uma narrativa da outra.

Mas, como vocês sabem, e eu repito isso um bocado por aqui no blog, tão importante quanto as qualidades técnicas de um filme – e, na verdade, mais importante que isso – é o roteiro da produção. Então vamos falar sobre a história de Blade Runner 2049. Os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green, que trabalharam sobre uma história de Hampton Fancher, inspirado nos personagens de Philip K. Dick, foram “tradicionalistas”. Ou seja, eles não fugiram do óbvio – e, ainda assim, conseguiram nos apresentar uma produção bastante instigante e cheia de grandes momentos.

Por que eu digo que eles não fugiram do óbvio? Porque esta nova produção segue um bocado a fórmula do Blade Runner de 1982. Novamente nós temos um policial como protagonista. E a investigação que ele empreende é o que vai determinar o ritmo da história. Mas para filmes como este, agradecemos o caminho tradicional. Porque ele funciona muito, muito bem. Então, mais uma vez, nós temos um policial – desta vez o policial K interpretado por Ryan Gosling – que se depara com uma série de informações inesperadas quando ele vai cumprir mais uma missão normal.

Como o filme explica de forma sucinta naquela introdução que eu comentei acima, o policial K, que faz parte da nova geração de replicantes, tem como uma de suas missões “caçar” e eliminar/aposentar os modelos antigos de replicantes, os “revolucionários” (e por isso “falhos”) Nexus 8. O filme começa quando K vai executar uma destas missões. Ele encontra, em uma fazenda de proteínas, o “renegado” Sapper Morton (Dave Bautista), que sobreviveu à guerra travada em Calantha (um outro planeta em que replicantes guerreiam contra replicantes).

Sapper sabe que não vai sobreviver ao confronto com K, mas ele resiste o quanto pode. E, naquele momento, temos a primeira “pílula” de filosofia da produção – como bem manda o figurino de Blade Runner. Sapper comenta que K está matando os seus semelhantes porque ele acredita que só pode fazer aquilo. E ele só acredita no que lhe ordenam porque ele nunca viu a um milagre. Esta é uma ótima introdução. Porque, evidentemente, o que o filme nos propõe é a, justamente, nos falar deste milagre.

Blade Runner 2049, assim, nos apresenta logo de cara a sua essência. Ele é sim uma evolução do clássico Blade Runner. Uma continuação. Os fatos que vemos agora estão totalmente ligados – e são dependentes – do filme anterior. Então, meus caros, nem preciso dizer que é essencial você ter visto o primeiro filme para realmente entender o que se passa neste segundo filme, não é mesmo?

A impressão que eu tive no cinema, onde algumas pessoas saíram antes do fim do filme – seja de forma definitiva, seja volta e meia para comprar pipoca e afins – é que nem todos tiveram o cuidado de saber onde estavam “se metendo”. Ora, você não deveria ir no cinema sem ao menos saber que a produção que você vai assistir é uma continuidade de outra, não é verdade? Quanto desperdício de tempo e de entendimento… Certamente aquelas pessoas poderiam estar se deliciando com o filme tanto quanto eu – mas não. Enfim. Minha recomendação é que você realmente assistia a continuações depois de ter assistido à primeira (ou segunda, ou terceira, etc.) parte e que antecedem o que você está vendo.

Dito isso, voltemos para Blade Runner 2049. Algo que eu achei brilhante no filme é que Villeneuve não cede à ânsia da geração “filmes de HQ” e não acelera com a história. Muito pelo contrário. A exemplo do Blade Runner original, Villeneuve apresenta a sua nova história com um ritmo cadenciado e preciso, sem pressa e sem exageros. Tudo é apresentado com esmero, com cuidado, em uma narrativa que lembra mais os filmes europeus do que a profusão de efeitos especiais da era “Hollywood-HQs”. Francamente? Não poderia ser diferente.

Caso Villeneuve tivesse exagerado na dose dos efeitos especiais e apresentado uma narrativa acelerada, não teríamos algumas das melhores qualidades do Blade Runner original – e da sua “segunda parte”. Então o roteiro de Fancher e de Green e a condução segura de Villeneuve preservam o essencial do primeiro filme, que é focar em uma boa construção de um protagonista carismático e abrir frente para alguns questionamentos filosóficos. Verdade que o Blade Runner original era mais filosófico sobre a essência do que é ser humano e do que é “verdade”, sobre o que foi criado e o que foi gerado, mas neste novo filme temos novamente estas questões pela frente.

Então, a exemplo da produção de 1982, novamente é um policial – um Blade Runner – que nos conduz pela história. No original, Deckard (interpretado por Harrison Ford naquela primeira produção e agora) tem a missão de caçar um grupo de replicantes rebeldes e eliminá-los. Nesta sua busca, ele questiona a separação entre humanos e replicantes – que não são androides, como bem explica este vídeo do Sr. Elegante – e a própria sociedade em que esta divisão é baseada.

Pois bem, em Blade Runner 2049 várias questões similares são apresentadas. Para começar, um tema que me pareceu “gritar” no filme é o perigo de uma grande corporação como a Wallace dominar a sociedade. Assunto fundamental, eu diria, não apenas para o nosso tempo, mas para a possibilidade de futuro que temos. Hoje, cada vez mais grandes corporações se juntam/se compram e viram conglomerados gigantes que ameaçam “dominar o mundo”. E isso é algo muito presente em Blade Runner 2049.

A questão do papel de cada um – humanos e replicantes – também é novamente colocada em cena. Realmente uma civilização pode se sentir feliz e com a “consciência tranquila” sabendo que está novamente escravizando milhões de seres? Em Blade Runner 2049, a exemplo de Blade Runner, aparentemente está “tudo bem” porque os replicantes, no fim das contas, “não são humanos”. Então, como eles foram “criados” e não foram “gerados”, eles podem ser usados e descartados. Mas é isso mesmo?

Interessante que Blade Runner 2049, ao mesmo tempo que preserva a essência do clássico de 1982, também subverte uma questão importante da produção de Scott. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No Blade Ranner de 1982 – na versão final do diretor, atenção! -, descobrimos que Deckard é um replicante apenas no final. Até então, segundo a história, eramos levados a crer que ele era humano – e, por isso, estava “tranquilo” em caçar o que era diferente dele. No final, contudo, temos aquela reviravolta brilhante do roteiro de Hampton Fancher e de David Webb Peoples.

Pois bem, vejam que genial… em Blade Runner 2049 nós temos claro que o protagonista é um replicante desde o início. Não há dúvidas quanto a isso – percebam, ele acaba sendo o “inverso” do Deckard de Blade Runner, quando acreditamos que o protagonista é humano desde o princípio. Conforme Blade Runner 2049 se desenrola, contudo, tudo parece nos levar a crer que o replicante K não foi criado e sim gerado. Mas como ele é filho de dois replicantes – Deckard e Rachael (interpretada, no original, por Sean Young), o que ele ser gerado e não criado o torna?

Brilhante, não? Afinal, o que torna os replicantes diferentes dos humanos, na essência, é que eles são criados. Como aquele vídeo do Sr. Elegante bem nos lembra, os replicantes não são androides e não são clones. Ou seja, eles tem pele, carne, osso e órgãos como um humano. A diferença deles para nós é que eles são incapazes de sentir – ao menos era isso que acreditava e o que o Blade Runner de 1982 questiona – e que eles são criados e não gerados. Mas aí surge o Blade Runner 2049 com o seu “milagre”: um replicante que foi gerado.

Novamente, pois, temos o questionamento sobre uma civilização que é construída sobre a separação de duas espécies e sobre a supremacia de uma sobre a outra. Consequentemente, claro, temos o debate sobre a humanidade querendo fazer o papel de Deus. A partir do momento que avançamos tanto o nosso conhecimento científico ao ponto de podermos criar seres inteligentes e capazes até de sentir, o que fazemos com tudo isso? Viramos um Deus que escraviza e que subjuga ou um Deus que acolhe e que dá oportunidades para todos?

Os questionamentos do Blade Runner de 1982 seguem atuais e ganham novas perspectivas com o filme Blade Runner 2049. A escravidão é um dos fatos mais lamentáveis da história da humanidade. Mas esses filmes futuristas mostram que pouco aprendemos com o passado. Não importa se estamos falando de semelhantes ou de diferentes, já deveríamos ter aprendido que não podemos subjugar ninguém. Sobre estas questões, assim como o que nos faz humanos, é sobre o que os dois Blade Runner tratam.

A exemplo da produção de 1982, o novo filme também trata de uma investigação policial que, no fundo, é uma desculpa para uma jornada de autoconhecimento. O protagonista deste novo filme, muito bem interpretado por Ryan Gosling – que já é um dos grandes nomes de sua geração -, novamente acaba se descobrindo em um processo de saber quem ele é de verdade. E as respostas que ele alcança – incluindo aí uma bela reviravolta na história – são maravilhosas. Afinal, o que é uma lembrança de verdade? Afinal, o que é sentir de verdade? Todas estas questões filosóficas são levantadas pelo filme – e respondidas com esmero.

Todos nós somos “programados” a sentir e a pensar. Podemos ser “programados” a sentir ódio ou amor. Um replicante também, segundo os dois Blade Runner, pode ser programado a sentir estas e outras coisas – como nós, diga-se. Então o que nos diferenciaria, de verdade? Em Blade Runner 2049 uma pergunta fundamental que K faz é se as lembranças que ele tem de infância são reais ou foram criadas. E é assim que ela acaba conhecendo a Dra. Ana Stelline (Carla Juri) – a grande “surpresa” da produção.

Sim, a memória que ele tem da infância é real. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, você já sabe). Nós nos emocionamos quando algo é real. A Dra. Ana se emociona ao ver a memória de K, e ele afirma que sabe que aquilo é real. O que vamos descobrir depois é que aquela memória é real, mas não é dele. Mas na reta final da produção, K se questiona – e ele não precisa verbalizar isso – se era real o que ele sentia por Joi (Ana de Armas) e o que, afinal, é real para ele. Sim, o sentimento dele por Joi era real, assim como é real a neve que ele sente cair sobre o seu corpo no final.

Então, se os replicantes sentem/vivem da mesma forma com que os humanos, que direito esta segunda civilização tem de subjugar a primeira? Estas são questões levantadas pelos dois filmes e que continuam atuais, muito atuais. Também achei importantíssima a forma com que Blade Runner 2049 questiona uma sociedade em que uma grande corporação manda mais do que as autoridades – com bastante facilidade Luv (Sylvia Hoeks) mata quem estiver pela frente, seja humano, seja replicante. Daí nos perguntamos: em que tipo de sociedade com grandes corporações vigiando a quase tudo e todos nós mesmos estamos nos metendo?

Além de tudo isso, este filme sabe valorizar muito bem a construção da narrativa. Sabemos por onde a história vai e, mesmo assim, o roteiro nos reserva algumas surpresas interessantes. Também é importante que Blade Runner 2049 sabe valorizar muito bem o “grande encontro” tão esperado entre K e Deckard. Esse encontro demora para acontecer, e isso é positivo.

Quando finalmente chegamos no “face to face”, é quase impossível não se emocionar. É maravilhoso! Além disso, o filme sabe render muitas homenagens bacanas. Primeiramente, para o próprio Blade Runner de Scott. E, depois, para vários elementos da cultura humana que marcaram época e que são devidamente reverenciados neste filme – como Elvis e Frank Sinatra, entre outros.

Enfim, não importa sob que ótica olhemos para este filme. Se analisamos a sua história e a forma com que ela está ligada de forma umbilical com o Blade Runner de 1982; ou se analisamos a construção visual, a direção detalhista e dinâmica de Villeneuve; a construção dos personagens e da narrativa; o gostinho de “quero mais” e a expectativa que o filme deixa para uma continuação… enfim, qualquer aspecto do filme, tanto técnico quanto narrativo, funciona com perfeição.

Quando eu sai do cinema, fiquei pensando sobre que nota eu daria para a produção – depois de ficar um tanto “perplexa” e “maravilhada” com o que eu tinha visto. Pensei, pensei muito, e me questionei se não seria um “exagero” dar a nota máxima para Blade Runner 2049. Afinal, este filme é uma continuação de um dos grandes clássicos de todos os tempos. Mas daí refleti sobre tudo que eu comentei acima, de como este novo filme faz jus e homenageia de maneira perfeita o anterior… de como ele continua bem a história. Pensei em todas as qualidades citadas e conclui: sim, ele merece a nota abaixo. Com louvor. Dificilmente eu assisti a um filme mais de uma vez. Mas acho que vou colocar Blade Runner 2049 nesta seleta lista. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é um filme que, facilmente, rende um texto gigantesco. Como vocês viram acima. 😉 E isso porque eu nem vou esgotar o assunto de Blade Runner 2049 aqui neste texto. Decidi apenas focar nos pontos principais – do contrário, realmente este texto ficaria gigante demais. E, sou franca, tenho me policiado um pouco nisso. Não quero me estender demais…

Esta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de 92 países que estão concorrendo a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira da premiação que será entregue em 2018. Ou seja, já comecei a ir atrás destas produções para começar, logo mais, a sequência de críticas aqui no blog com vistas ao Oscar 2018. Mas aí que veio a surpresa de assistir a Blade Runner 2049… e, claro, é ainda cedo para fazer apostas para o próximo Oscar, mas eu desconfio que este filme será lembrado.

Sendo assim, meus caros, começo com este maravilhoso Blade Runner 2049 a seção “Oscar 2018” aqui do blog. 😉 Estamos muito longe ainda da premiação da Academia. Então não dá para saber quais são todos os favoritos e se Blade Runner 2049 terá fôlego de chegar com força até o Oscar. Mas, da minha parte, acho sim que seria uma grande falha da Academia se eles não indicassem este filme em algumas categorias. Para começar, pelas óbvias, técnicas. Acho que Blade Runner 2049 tem boas chances de concorrer como Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Diretor e, quem sabe, podendo concorrer até 10 produções, como Melhor Filme. Ou seja, não seria difícil o filme receber a partir de seis ou oito indicações – podendo superar este número.

Tudo vai depender do lobby que será feito para esta produção e sobre a capacidade de Blade Runner 2049 chegar com força no próximo Oscar. Poderiam rolar algumas indicações para elenco? Certamente. A conferir.

Bem, sobre as qualidades técnicas do filme, já dei uma prévia acima ao citar as categorias para as quais esta produção pode se credenciar no Oscar. Para começar, a direção de fotografia de Roger Deakins é algo espetacular. Ele faz um trabalho primoroso, assim como Denis Villeneuve ao valorizar cada elemento que ele tinha em cena. Assisti Blade Runner 2049 em um cinema 3D. Este recurso foi bem usado, ainda que ele apareça mais para ajudar na profundidade das cenas e de forma pontual em alguns detalhes – mas não é algo realmente exuberante. A parte bela fica realmente com a construção visual da produção. Ou seja, precisamos tirar o chapéu para Deakins e para o design de produção de Dennis Gassner. Brilhante o trabalho dos dois.

Desta parte técnica e visual do filme, vale ainda comentar o ótimo trabalho de David Doran, Bence Erdelyi, Lydia Fry, Paul Inglis, Tibor Lázár, Gergely Rieger, Stefan Speth e Zsolt Tarnok na direção de arte; o de Alessandra Querzola com a decoração de set; o de Renée April nos figurinos; o trabalho dos 109 profissionais do departamento de arte; os 38 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; e o trabalho excepcional do impressionante número de 381 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Um outro aspecto que eu achei maravilhoso no filme é a trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch e de Hans Zimmer. Francamente? Acho que ela também poderia ser indicada ao Oscar. Ainda que eu acho que, por ser mais “experimental” e quase cirúrgica, a trilha sonora de Blade Runner 2049 tenha uma certa “dificuldade” de cair no gosto da Academia ao ponto de ser indicada. Mas não seria surpreendente se o fosse.

Este filme é todo feito com esmero. Dá para perceber isso. Cada aspecto visual foi bem pensado e planejado, assim como cada elemento que compõe a produção – da trilha sonora até a escolha do elenco feita à dedo. Também é muito bacana ver que Hampton Fancher, responsável pelo ousado roteiro da primeira produção, voltou a assumir este papel de liderança neste novo filme. Importante.

Harrison Ford é Harrison Ford. Ele é um dos atores mais carismáticos e com uma trajetória das mais incríveis da história do cinema. Mas, guardadas as devidas proporções, Ryan Gosling consegue ser tão carismático quanto Ford ao protagonizar, como este grande ator, um Blade Runner. Villeneuve, claro, ajuda muito Gosling neste processo – assim como Scott ajudou, na sua época, Ford. Enfim, quem assistiu ao clássico não sofre muito com um novo protagonista. Muito pelo contrário. Gosling consegue com louvor despertar um real interesse pelo seu personagem.

Este filme tem alguns belos atores em seu elenco. Claro que a história orbita totalmente ao redor do personagem de Gosling. Ele é o protagonista e a pessoa que dita a narrativa. Mas outros atores também fazem um belo trabalho sempre que aparecem em cena. Neste sentido, claro, impossível não elogiar o excelente trabalho de Harrison Ford – que aparece menos do que gostaríamos, mas está maravilhoso. Tem uma presença maior e estão muito bem a ótima Robin Wright como a chefe de polícia Joshi; Ana de Armas encantadora como Joi, namorada virtual de K; Sylvia Hoeks como a vilã perfeita como Luv; Jared Leto enigmático como o mega empresário Niander Wallace; e Mackenzie Davis ótima como Mariette, uma garota de programa que se revela mais do que isso no final.

Além destes atores, que tem uma relevância maior na história, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Dave Bautista como Sapper Morton; Lennie James (conhecido por The Walking Dead) como Mister Cotton, explorador de crianças no orfanato; Barkhad Abdi como Doc Badger, contrabandista que ajuda o protagonista a identificar a origem do cavalo de madeira; Tómas Lemarquis que recebe K e o ajuda no início da investigação sobre a “replicante que foi mãe”; Edward James Olmos novamente como Gaff; e Hiam Abbass como Freysa.

Honestamente, eu espero que surja uma sequência de Blade Runner 2049 logo. Afinal, esta nova produção terminou com um gostinho de quero mais e levantando uma lebre super interessante de ser explorada em um novo filme. Torço para que a dupla Fancher e Villeneuve voltem a trabalhar juntas… e logo. 😉

Por falar no Villeneuve. Este diretor canadense tem 16 produções no currículo, entre curtas e longas e, para mim, é um dos diretores mais interessantes do mercado atualmente. Eu não assisti a todos os filmes dele, mas gostei de tudo que eu vi até agora. Aqui no blog eu tenho comentados, de Villeneuve, os filmes Prisoners, Enemy e Arrival. Todos acima, bem acima da média. E agora ele nos entrega este brilhante Blade Runner 2049… realmente precisamos ficar de olho em Villeneuve e no que ele nos apresenta.

Vou aproveitar que acabo de falar do diretor para começar a minha lista de curiosidades sobre esta produção com um comentário de Villeneuve. Ele falou sobre a enorme pressão que ele estava sentindo para fazer Blade Runner 2049: “Eu sei que cada fã (do filme original) vai entrar no cinema com bastão de beisebol. Estou ciente disso, e respeito isso. Estou bem com isso porque isso é arte. E a arte é um risco, e eu tenho que correr riscos. Este será o maior risco da minha vida, mas eu estou bem com isso. Para mim, é muito emocionante… é tão inspirador! Estou muito inspirado. Sonho em fazer ficção científica desde os 10 anos de idade e eu disse ‘não’ para muitas sequências (de filmes). Mas eu não podia dizer ‘não’ para Blade Runner 2049. Eu amo demais o filme e então eu disse ‘Tudo bem, vou fazer este filme e dar tudo de mim ao fazê-lo”. Como não admirá-lo?

A primeira escolha de Villeneuve para o personagem de Wallace foi David Bowie. Mas o artista faleceu antes do início das filmagens. Realmente teria sido incrível Bowie como Wallace…

A cena que dá início para a produção, do confronto de K com Sapper Morton, é uma filmagem praticamente exata de uma sequência escrita e com storyboard feito para o Blade Runner original mas que nunca foi rodada.

Inicialmente, Villeneuve resistiu à ideia de fazer uma sequência para Blade Runner porque ele achou que poderia “estragar” a visão que as pessoas tinham do original. Mas quando ele leu o roteiro que, segundo Villeneuve e Harrison Ford, foi um dos melhores que eles já leram, o diretor resolveu embarcar no projeto. Antes mesmo do diretor aceitar o desafio, Harrison Ford já tinha se comprometido com o filme – assim como Ridley Scott, que é um dos produtores executivos da produção.

Existem três curtas planejados para “preencher” a lacuna temporal entre o primeiro Blade Runner e o segundo filme, Blade Runner 2049. O primeiro curta, comentado neste post, é Black Out 2022 – aliás, interessante ver aquele link porque ele traz uma cronologia importante dos fatos entre 2019 e 2049. O segundo curta, 2036: Nexus Dawn, e o terceiro, 2048: Nowhere to Run, completam a trilogia com fatos importantes da história. O primeiro dos curtas é dirigido por Shinichirô Watanabe, e o segundo e o terceiro, por Luke Scott.

O papel do novo Blade Runner, K, foi escrito tendo o ator Ryan Gosling em mente. E ele foi sempre a primeira e única opção do diretor Villeneuve.

Blade Runner teve várias versões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas na última lançada é que fica claro que Deckard é um replicante. Nas demais, a dúvida sobre ele ser humano ou um replicante fica no ar – e depende de cada espectador chegar a uma resposta. O diretor Denis Villeneuve disse que ele tentou deixar esta questão sobre Deckard no ar também no novo filme. “Eu amo o mistério. Adoro sombras. Adoro dúvidas. Gostaria apenas de dizer para os fãs que cuidamos deste mistério”, comentou o diretor.

Falando nas diferentes versões de Blade Runner, Villeneuve disse que ele sempre foi marcado pela primeira versão – aquela da qual Ridley Scott não gosta – e, depois, ficou impressionado também com o “Final Cut” (a versão final de Scott). Então ele desenvolveu o seu próprio filme se inspirando nestas duas versões de Blade Runner.

Para fazer o papel do cego Niander Wallace, o ator Jared Leto utilizou lentes de contato opacas que, de fato, faziam com que ele não enxergasse nada.

Agora, uma curiosidade pessoal sobre esta produção. Eu fui para o cinema crente que Blade Runner 2049 tinha poucos minutos além de duas horas. Vi mal a duração… e por mais que eu achei a produção um pouco longa, enquanto estava no cinema – não parei para ver a hora em momento algum -, eu não senti que o filme tem realmente as 2h43 que ele tem. Curioso, não? Sim, enquanto estamos assistindo a esta produção, achamos ela um pouco longa… mas, ela acaba passando mais rápida do que o tempo que ela realmente tem.

Faço uma pausa aqui para publicar esta crítica e depois volto para mais curiosidades sobre a produção… 😉

Voltando… 😉 Olhem que curioso… Joi sugere para K, que pode estar descobrindo uma nova origem para si mesmo, o nome de Joe. Joe vem de Joseph. O personagem Josef K é o protagonista de um dos romances de Kafka, onde este protagonista é acusado de um crime. Mas nunca fica claro, exatamente, qual seria este crime que ele teria cometido. Essa pode ser uma metáfora para a própria vida do K de Blade Runner 2049. Afinal, ele tem toda a sua existência questionada e não sabe muito bem como isso acontece.

A data escrita no cavalo, e uma peça importante da história, 6.10.21, marca quatro anos no futuro em relação à data de estreia de Blade Runner 2049 – que teve a estreia mundial em 6 do 10 de 2017. 😉

Ridley Scott pensou em, inicialmente, dirigir Blade Runner 2049. Mas como Alien: Covenant acabou ocupando grande tempo do diretor e simultaneamente, Scott resolveu atuar apenas como produtor executivo e consultor criativo do novo Blade Runner.

Falando sobre uma possível continuação deste filme, achei uma declaração interessante de Ridley Scott. Segundo o diretor do primeiro Blade Runner e produtor deste segundo filme, Harrison Ford vai retomar mais uma vez o personagem de Deckard. “Conversamos por um longo tempo sobre como poderia ser esta continuação, e surgiu uma história de três atos muito forte. Tudo faz sentido em como estas histórias se relacionam com a primeira”, comentou. Ou seja, provavelmente teremos ainda uma terceira parte – e Blade Runner seria, assim, uma trilogia. Estou na expectativa já. 😉

Blade Runner 2049 estreou no dia 4 de outubro no Festival de Cinema de Zurique e em dois países, a França e a Bélgica. No Brasil e em outros países ele estreou no dia 5 de outubro e, nos Estados Unidos, apenas no dia 6.

Esta produção foi rodada em diferentes locais da Hungria e teve algumas cenas rodadas na Espanha e na Islândia – estes dois últimos países foram utilizados apenas para cenas aéreas.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Blade Runner 2049 também pode fazer uma bela trajetória de prêmios. Para começar a sua coleção, ele já abocanhou dois: Melhor Teaser no Golden Trailer Awards e “Most Anticipated of 2017” segundo o Indiewire Critic’s Poll.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Canadá.

Blade Runner 2049 recebeu a nota 8,6 dos usuários do site IMDb – uma nota excepcional para os padrões do site, devo dizer – e ganhou 212 críticas positivas e 27 negativas segundo os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Esse nível de aprovação acaba sendo de 89% no Rotten Tomatoes, com uma nota média de 8,2.

Não tenho dúvidas que Blade Runner 2049 será uma das maiores bilheterias do ano. Dá para sentirmos isso com o resultado do filme no seu final de semana de estreia: ele entrou em cartaz no dia 6 de outubro nos Estados Unidos e faturou, até o domingo, dia 8, US$ 31,52 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 50,2 milhões. Ou seja, em poucos dias, faturou US$ 81,7 milhões. O custo de Blade Runner foi de US$ 150 milhões. Ou seja, pelo andar da carruagem, facilmente ele vai obter um belo lucro. Sem contar que esta produção tem grandes chances de levar as pessoas para uma segunda vez no cinema – será o meu caso. Então a trajetória dele será de belo lucro por semanas.

CONCLUSÃO: Blade Runner, o original, marcou época, inspirou vários outros filmes e se tornou um dos grandes filmes do gênero. Como outras produções, pensar em um filme que seja a continuidade de algo tão bom sempre dá medo. Mas aí vem o diretor Denis Villeneuve, um dos grandes de sua geração, e nos apresenta algo coerente, interessante, marcante. Claro, não é revolucionário como o original. E, cá entre nós, para este gênero, acho improvável que algo revolucionário ainda surja. Mas um filme não precisa ser revolucionário para ser ótimo. E este é o caso de Blade Runner 2049. Agora, para você saber exatamente tudo que este filme agrega, importante ter visto o primeiro Blade Runner. Esta continuação está à altura do original, mas com alguns elementos que fazem os fãs delirarem. Um grande deleite. Marcante e, para mim, inesquecível.

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Song to Song – De Canção em Canção

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Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

La La Land – La La Land: Cantando Estações

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Hollywood ama a “fábrica de sonhos” chamada Hollywood. O cinema também ama ser cinema. Neste contexto de autorreferência, de certa nostalgia e de homenagem ao jazz é que surge La La Land, um filme perfeito para Hollywood (se) premiar. Assisti à produção no cinema, em uma das sessões de pré-estreia, e foi algo divertido. O filme é envolvente e muito bem feito. Mas é o melhor filme do ano? Para o meu gosto, não.

A HISTÓRIA: Começa com uma fila gigantesca de veículos parados no trânsito de Los Angeles. Cada veículo tem uma ou duas pessoas e cada automóvel é um pequeno mundo envolto em uma música diferente. Em um destes veículos, Sebastian (Ryan Gosling) ouve repetidas vezes a uma composição no piano. No carro da frente, Mia (Emma Stone) tenta lembrar as linhas que ela precisará falar logo mais em uma nova audição. O filme começa no Inverno.

De repente, Sebastian buzina indignado porque Mia não avançou na fila. Os dois trocam xingamentos e olhares irados, mas seguem no trânsito. Na cafeteria dentro dos estúdios Warner em que trabalha, Mia fica fascinada por uma das estrelas do estúdio, mas logo é lembrada pelo celular sobre o horário da audição. Ela vai para lá, mas não dá certo. Ainda assim, ela não desiste de seu sonho de ser atriz, e em breve vai conhecer Sebastian que também sonha, mas em ter um bar de jazz.

VOLTANDO PARA A CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La La Land): Vou ser sincera com vocês. Eu espera muito mais de La La Land. Seja pela coleção de prêmios que ele já ostenta e por ser o favoritíssimo para o Oscar, seja pelo filme anterior que eu vi do roteirista e diretor Damien Chazelle.

O início, os primeiros minutos de La La Land, para mim já foram um tanto frustrantes. Afinal, tudo que você não espera em pleno 2017 é ver um filme “clássico” do estilo musical. Não. Você espera um filme que renove o gênero, que introduza novas ideias. E aí, logo nos primeiros minutos de La La Land, somos apresentados para uma sequência óbvia e requintada de pessoas paradas no trânsito e que resolvem sair de seus carros para cantar e fazer uma coreografia “moderna” e que mostra diversidade da Los Angeles atual. Sério? Sério mesmo? Pensei isso quando assisti à cena.

Mas daí eu pensei: “Calma, tem muito para acontecer no filme ainda. Ele pode te surpreender”. Com uma certa ironia aqui e ali e, claro, demonstrando o seu grande talento estético e de ritmo, Chazelle apresenta um filme que tem diversos acertos e que tem a assinatura do realizador. Ainda assim e apesar da exuberância, das cenas lindas e das coreografias que nos fazem lembrar dos grandes, gigantes Ginger Rogers e Fred Astaire (se você não assistiu a nenhum filme deles, vá atrás agora mesmo!), La La Land parece uma grande homenagem ao cinema e ponto.

Há um compêndio de referências de Hollywood neste filme e, principalmente, a mensagem que vale sempre correr atrás de seus sonhos. Ok, a mensagem é bacana, mas não é nada inovadora. E mesmo a forma de seguir esta linha de raciocínio não é nova. Temos grandes momentos, o filme é lindo e nos remete a grandes episódios do que já foi Hollywood, mas como a própria protagonista fala, em determinado momento, ele me parece um tanto saudosista demais.

Entendo as razões que fizeram a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood dar todos os prêmios possíveis no Globo de Ouro para La La Land. Afinal, além da mensagem de “nunca desista dos seus sonhos”, qual é o grande tema desta produção? Hollywood e a sua fábrica de sonhos. O filme mostra toda a “fauna” que gira em torno dos estúdios de cinema de Los Angeles, todas as pessoas que pensam em um dia viver da arte e o que elas fazem para chegar lá.

Em uma época em que um presidente como Donald Trump está assumindo a presidência dos Estados Unidos e em que muitos artistas e imigrantes (muitos artistas são de fora do país) se sentem “ressabiados” ou com medo do que ele poderá fazer no cargo, La La Land lembra a todos sobre a importância/necessidade da “fábrica dos sonhos” de Hollywood. Além disso, e basta ver o histórico das premiações de cinema nos Estados Unidos, o cinema adora premiar a si mesmo.

Quanto a isso não há problemas, é algo legítimo. Mas em anos anteriores filmes do mesmo gênero que La La Land, como Moulin Rouge e The Artist (comentado neste link), renovaram os musicais cada um a sua maneira. The Artista, em especial, que também fazia uma homenagem escancarada para a “fábrica de sonhos” do cinema, foi ainda mais ousado que La La Land por resgatar um tipo de filme ainda mais esquecido, o do cinema mudo.

Com tudo isso eu não quero dizer que La La Land não seja divertido, que não faça a plateia rir ou se envolver. Não, ele consegue tudo isso. Há sequências realmente lindas e sacadas idem. Ryan Gosling faz um bom trabalho, mas é Emma Stone quem surpreende. A atriz é o melhor do filme, junto com algumas sequências belíssimas da produção.

Emma Stone tem em La La Land o filme da sua vida até aqui. Ela está linda, comovente e, principalmente, esbanja muito carisma. Mais que Gosling, que mantém o seu padrão de bom intérprete, mas que já fez filmes melhores. Além da sintonia entre os dois, o filme acerta no ritmo e no visual, além da edição que já virou marca registrada de Chazelle.

O roteiro… bem, o roteiro! Ele foi escrito para as pessoas que adoram uma boa história água-com-açúcar. Mas não surpreende em momento algum. A divisão da histórias em estações não é nada nova. A linha temporal de “garota conhece rapaz, os dois antipatizam no início mas depois se apaixonam” não poderia ser mais lugar-comum.

Assim como é bastante previsível o “perrengue” que os dois passam por boa parte da produção, a insistência de ambos, uma certa desistência dela e, finalmente, o sucesso para aqueles que persistiram. Até o desfecho para o casal não é mais surpreendente, após tantos filmes em que o “mocinho e a mocinha” não terminaram juntos. Enfim, absolutamente nada de novo no roteiro de Chazelle. Claro, há uma ou outra boa sacada aqui e ali, mas isso não deveria garantir o Oscar para ninguém. É pouco.

Ainda assim, é preciso uma justificativa para a nota abaixo. Afinal, ela não é baixa. Acho que Chazelle se sai bem, por um bom período do filme, em revisitar uma série de lugares-comum de forma envolvente. Com uma boa dinâmica de câmera e de edição, ele prende a atenção dos espectadores com uma história simples, deixando o trabalho mais difícil para os intérpretes que, claro, conseguem ter uma bela sintonia.

Além de tudo que eu já comentei, talvez a parte realmente interessante de La La Land é como o filme mostra a diferença entre a vida de sonhos e a vida real. Lá pelas tantas as cobranças e as palavras duras aparecem entre os protagonistas, e eles não sabem lidar muito bem com elas. Para mim, em termos de roteiro, o melhor momento da produção é quando Mia fica desiludida com a estreia de sua peça e decide voltar por um tempo, ao menos, para a casa dos pais.

Como ela mesma reflete, nem todo mundo dá certo. E talvez eu tivesse gostado mais de La La Land se ao menos um dos dois tivesse seguido um caminho que não fosse o do sonho. Afinal, esta é a realidade. Ok, o grande público vai para o cinema para ver o sonho. E por isso, talvez, La La Land tenha dado tão certo. O filme apresenta o que o público quer, sem fazer nada ousado no caminho.

Quando a produção confronta sonho com realidade, ela ganha pontos e chega a esboçar um final interessante. Depois, na sequência durante o piano no Seb’s ele volta a ousar ao mostrar um final que não seria previsível e que até poderia ser inovador. Mas no fim das contas, sempre, Chazelle acaba optando pelo óbvio e pelo que o grande público vai entender e gostar. Com isso ele está papando todos os prêmios. Bacana para ele. Mas não necessariamente para o cinema e a sua evolução.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho que dizer. Emma Stone rouba a cena. A atriz está maravilhosa em seu papel. Relembra à todas as grandes atrizes do cinema no auge de Hollywood. Dos filmes que eu assisti com ela, La La Land é o seu melhor trabalho. Ryan Gosling é lindo e gostamos de tudo que ele faz, mas acho que aqui ele está charmoso e serve de um bom par para Emma Stone, mas nada além disso. Gostei mais dele em Drive (comentado por aqui), por exemplo.

Mesmo que o filme tenha ficado aquém do que eu esperava, algo tenho que admitir: há sequências realmente incríveis na produção. Gostei, em especial, das coreografias e das cenas dos protagonistas dançando no morro após a festa em que eles se reencontram e ela pede a música I Ran; da dança no Griffith Observatory, quando bailam em um “céu de estrelas”; claro, da bela cena em que os dois atores cantam a principal música da produção, “City of Stars”; e, finalmente, gostei da sequência de “outro final” que sai da imaginação de Sebastian (ou dos dois).

A homenagem mais clara e escancarada é para o cinema e a própria Hollywood. Mas Chazelle também deixa muito clara a sua homenagem para a música, especialmente o jazz. A exemplo do que ele já tinha feito no seu filme anterior, o interessante Whiplash.

Um acerto do filme, assim como de outras produções recentes, é de apostar as fichas em poucos personagens. A história de La La Land gira em torno de Mia e de Sebastian, e isso é bom, especialmente porque se trata de uma “história de amor”. Mas há outros atores ótimos que fazem papéis menores – alguns, praticamente pontas. Me chamou a atenção, em especial, a fina ironia do papel de J.K. Simmons como Bill, o dono do restaurante que obrigada Sebastian a tocar apenas músicas natalinas – nada mais contrastante e irônico com o papel dele em Whiplash.

Além dele, há outros atores que merecem ser citados: Rosemarie DeWitt como Laura, irmão de Sebastian; Callie Hernandes como Tracy, Jessica Rothe como Alexis e Sonoya Mizuno como Caitlin, as três amigas com quem Mia divide um apartamento na parte inicial da produção; Claudine Claudio como Karen, chefe de Mia na cafeteria; Olivia Hamilton em uma super ponta como Bree, a mulher que não quer comer glúten; Finn Wittrock como Greg, o namorado de Mia na parte inicial do filme; John Legend em um papel até com certa relevância como Keith, amigo de Sebastian e que “abre a cabeça” dele sobre o “novo” jazz; e, claro, Tom Everett Scott como David, a “surpresa” no final da produção.

Tecnicamente falando, La La Land é muito, muito bem feito. Mas a história, convenhamos, é meio “bobinha”. Ou simplificada ao máximo para agradar ao grande público. Para mim, ficou faltando. Da parte técnica do filme, contudo, inevitável elogiar o excelente trabalho do diretor de fotografia Linus Sandgren, do editor Tom Cross e da trilha sonora de Justin Hurwitz. São, sem dúvida, os pontos altos da produção, assim como Emma Stone.

Outros aspectos que merecem elogios: o design de produção de David Wasco; a direção de arte de Austin Gorg; a decoração de set de Sandy Reynolds-Wasco; os figurinos de Mary Zophres; o departamento de maquiagem com 15 profissionais afiados; os 29 profissionais envolvidos com o departamento de arte; e, claro, os 64 profissionais envolvidos no departamento musical, um elemento fundamental para a produção.

La La Land estreou no Festival de Cinema de Veneza no final de agosto de 2016. Depois, o filme passou por outros 19 festivais e eventos. Um caminho interessante para um filme tão comercial e de Hollywood. Nesta trajetória o filme ganhou impressionantes 132 prêmios e foi indicado a outros 183. Entre os prêmios que recebeu estão sete Globos de Ouro.

Como a produção mesmo sugere, La La Land foi totalmente rodado na Califórnia, especialmente em Los Angeles, em locais como o Santa Monica Blvd (bar Seb’s), EstWest Studios, Magnolia Blvd (local do “Van Beek Tapas and Tunes”), nos estúdios da Warner Bros., no Beverly Boulevard (quando Mia deixa os amigos no restaurante e sai andando pela rua), no Rialto Theatre (que faz as vezes de cinema Rialto), no Hermosa Beach Pier (na praia Hermosa, quando Sebastian começa a cantar “City of Stars” sozinho ainda), Griffith Observatory e Watts Towers – pontos turísticos de Los Angeles, entre outros pontos da cidade que abriga os estúdios de cinema de Hollywood.

Em certo momento do filme, Sebastian pergunta quem é o “Bogart” de Mia, em uma clara alusão ao filme Casablanca – veja se ainda não assistiu. Ora, a própria história de La La Land, que deixa no ar algo do gênero “sempre teremos Paris”, mas sem que eles tenham tido, faz uma clara alusão ao filme com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

Além disso, claro, La La Land tem muitas e muitas referências a outros filmes, sendo as mais evidentes as alusões à Singin’ in the Rain, The Bad Wagon, Top Hat, An American in Paris, The Umbrellas of Cherbourg, Swing Time, The Young Girls of Rochefort, e a homenagem com direito a trecho e tudo de Rebel Without a Cause. Com isso, o filme acaba sendo ainda mais nostálgico, porque faz as pessoas que já assistiram aos clássicos a ter ainda mais saudade deles. 😉

La La Land é um filme que não custou muito, especialmente se levarmos em conta a complexidade dos detalhes da produção. O filme teria custado cerca de US$ 30 milhões. Apenas nos Estados Unidos ele fez quase US$ 63,7 milhões e, nos outros países em que já estreou, outros US$ 34,7 milhões. No total, até agora, fez cerca de US$ 98,4 milhões. Com toda a visibilidade do Globo de Ouro e, logo mais, das indicações ao Oscar, certamente este filme vai obter um belo lucro.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Outra Emma, a Watson, recusou o papel de Mia por causa dos conflitos de agenda que La La Land acabou tendo com Beaty and the Beast, dirigido por Bill Condon. Por sua vez, Ryan Gosling recusou o papel de Beast no filme de Condon porque preferiu o filme de Chazelle. Está claro quem acertou na escolha, não?

Segundo o compositor Justin Hurwitz, todas as músicas tocadas no piano no filme foram gravadas primeiramente pelo pianista Randy Kerber na fase de pré-produção de La La Land e, depois, o ator Ryan Gosling passou duas horas por dia, durante seis dias de cada semana, tendo aulas de piano para saber as músicas de cor. Quando as filmagens começaram, Gosling foi capaz de tocar todas as músicas sem que fosse necessário usar um “dublê” de mãos ou efeitos especiais intercalando com um pianista.

Uma das cenas de audição em que o diretor de elenco interrompe o desempenho de Mia para atender a um telefonema é inspirado em um dos testes que Ryan Gosling fez em sua carreira.

John Legend, que é cantor e pianista, teve que aprender a tocar guitarra para fazer o seu papel em La La Land.

Inicialmente, Miles Teller, estrela de Whiplash, foi cotado para fazer o papel de Sebastian. Mas, depois, ele acabou sendo substituído por Ryan Gosling.

La La Land foi rodado ao longo de oito semanas durante o Verão de 2015.

Esta produção teria uma forte ligação com a vida real de Emma Stone, porque a exemplo da personagem de Mia, Emma Stone também deixou a escola e se mudou para Los Angeles aos 15 anos de idade para tentar a carreira de atriz.

Emma Stone dá um show não apenas de interpretação, mas também cantando. E ela cantou “ao vivo” no filme, quando Chazelle começou a gravar a cena em que ela interpreta a canção “Audition (The Fools Who Dream)”, perto do filme. Que é linda, aliás. O diretor e o compositor Justin Hurwitz decidiram que ela iria escolher o momento em que ela pararia de falar os seus diálogos e começar a cantar e, por isso, não fizeram uma gravação prévia da música. Foi feito na hora.

Como comentei antes, La La Land levou nada menos que sete prêmios no Globo de Ouro 2017. É um recorde para a premiação – nenhum filme levou tantos prêmios em uma única edição do prêmio – e significou algo impressionante como o filme ganhar nas sete categorias em que concorreu. Ele foi premiado como Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Ryan Gosling, Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Emma Stone, Melhor Diretor para Damien Chazelle, Melhor Roteiro para Damien Chazelle, Melhor Canção Original para “City of Stars” (composta por Justin Hurwitz, Benj Pasek e Justin Paul) e Melhor Trilha Sonora para Justin Hurwitz.

A produção venceu outros 125 prêmios além destes sete do Globo de Ouro. Desta lista imensa, destaque para os 19 prêmios que La La Land recebeu como Melhor Filme e que foram dados por associações de críticos, para 19 prêmios como Melhor Diretor para Damien Chazelle, para 19 prêmios como Melhor Fotografia, para sete prêmios como Melhor Edição e para 14 prêmios como Melhor Trilha Sonora. Além disso, Emma Stone ganhou seis prêmios como Melhor Atriz.

La La Land é o quarto filme no currículo do diretor Damien Chazelle. Antes ele fez Guy and Madeline on a Park Bench, sua estreia na direção em 2009; o curta Whiplash, em 2013, e o longa Whiplash, filme que deu visibilidade para ele, em 2014 (e que foi comentado por aqui). O próximo filme dirigido por ele e atualmente em fase de pré-produção é First Man, que será estrelado por Ryan Gosling e que contará a história do astronauta Neil Armstrong. Ou seja, tem grande potencial de ser outro sucesso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,8 para La La Land, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 258 críticas positivas e 20 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Para mim estas avaliações são sintomáticas. A nota alta no IMDb revela o gosto do grande público, enquanto o nível de aprovação dos críticos demonstra que sob uma análise mais criteriosa o filme não é tão brilhante assim.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Quando eu vi La La Land ganhando tudo no Globo de Ouro eu pensei: “É preciso ter coragem para fazer um musical hoje em dia”. E a expectativa era assistir ao filme no cinema e me deliciar com ele. De fato, é um filme divertido. Bem conduzido, bem feito, um espetáculo para os olhos. E só. Ele não inova o gênero, não surpreende, não é inesquecível.

Apenas para ficar nas comparações óbvias, ele é menos inovador que Mouling Rouge ou The Artist. Foi e será muito premiado não porque mereça, mas porque Hollywood precisa, neste momento mais do que nunca, se autoafirmar. Dá para entender, mas nem por isso o resultado é justo. Há filmes melhores nesta temporada. Boa parte deles não será premiada, e isso faz parte do jogo da indústria cinematográfica.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: La La Land tem tudo para ser o filme mais indicado deste ano na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e, possivelmente, sair da noite do Oscar como o filme mais premiado. Mas, ainda que ele tenha papado tudo no Globo de Ouro, é preciso lembrar que há algumas diferenças entre as duas premiações mais visíveis de Hollywood.

As grandes diferenças estão em dois pontos fundamentais: quem vota em cada uma destas premiações e o fato do Globo de Ouro dividir os principais prêmios entre Drama e Musical ou Comédia. O perfil de quem vota no Globo de Ouro costuma ser mais “liberal” do que os votantes da Academia, sem contar que as visões sobre o cinema nem sempre coincidem entre quem comenta sobre os filmes (a imprensa, o Globo de Ouro) e as pessoas que fazem a indústria acontecer (votantes da Academia).

Além disso, musicais e comédias que acabam sendo valorizados no Globo de Ouro podem ser praticamente esnobados no Oscar porque, fora a categoria Melhor Filme, que abriga até 10 indicados, nas demais categorias podem concorrer até cinco filmes. Nem sempre há comédias ou musicais com qualidades para chegar até lá.

Mas, claro, La La Land é uma outra história. Não apenas pelas premiações no Globo de Ouro, mas pelas demais premiações e pelo sucesso nos cinemas. Então, calculo por baixo, La La Land deve ser indicado a pelo menos 11 categorias, podendo chegar a 13. As que eu acho que ele deve disputar são: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção e Melhor Figurino. Se quiserem “arrasar com o filme”, podem ainda indica-lo a Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Destes prêmios, quais ele deve levar para casa? Me parece quase certo que o filme vai emplacar em Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original, tendo grandes chances também em Melhor Diretor, Melhor Edição e Melhor Atriz. Se ele for papando quase todos os prêmios, deve levar também Melhor Filme. Assim, teria, pelo menos, sete estatuetas.

Da minha parte, para o meu gosto, ele não merecia levar o prêmio principal. Preciso ainda assistir a Moonlight e Manchester by the Sea, além de outros fortes concorrentes. Mas, só por ter assistido a Fences (comentado por aqui), posso dizer que eu acho o filme estrelado por Denzel Washington e Viola Davis mais merecedor do Oscar de Melhor Filme. Certo que Fences não chega nem perto da exuberância visual de La La Land, mas acho as interpretações e o roteiro do filme melhor. Enfim, são gostos… Veremos qual será o da Academia neste ano.

PEQUENO AVISO: Meus caros leitores aqui do blog, eu vou seguir com as publicações normais até o Oscar 2017, para seguir uma tradição aqui do blog. Mas passada a premiação, se eu não tiver conseguido uma boa adesão na campanha de apoio ao blog, eu vou dedicar mais tempo para outras atividades que me deem retorno financeiro e vou tornar as atualizações aqui mais escassas ou bem mais sucintas. Se você quer ajudar o blog a continuar como ele está agora ou até a ampliar a frequência de publicações, sugiro o apoio a este projeto:

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The Nice Guys – Dois Caras Legais

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Uma bela trilha sonora, figurinos, um clima que nos transporta novamente para os anos 1970 e dois atores que se divertem em um filme despretensioso. The Nice Guys não apenas é ambientado nos anos 1970 e resgata o espírito dos filmes daquela época, mas também e principalmente tira sarro dos filmes de detetive. Feito para rir, ele tem algumas sequências realmente interessantes, especialmente de ação e de ironia.

A HISTÓRIA: Vista da cidade e música bacaninha. Estamos em Los Angeles, Califórnia, em 1977. Um garoto chama o cão para dentro. Sorrateiramente ele entra no quarto dos pais e pega uma revista de mulher pelada sob a cama. Ele vê a atriz pornô Misty Mountains (Murielle Telio), termina de tomar um copo de leite na cozinha enquanto vemos a um carro caindo morro abaixo. O veículo atravessa a casa e cai no quintal do garoto, que vê a mesma Misty Mountain semi nua pouco antes dela morrer. Corta.

Uma turma de estudantes assiste a um vídeo de aula da natação que tira sarro de uma toalha gay. Uma das alunas desta turma é o novo alvo do detetive Jackson Healy (Russell Crowe). Ele dá uma dura no novo namorado dela, muito mais velho e que tem um carrão e grana para comprar maconha para os dois. Ele é contratado sempre para resolver casos como este. Mas uma cliente, Amelia Kuttner (Margaret Qualley) acaba aproximando Healy de outro detetive particular, Holland March (Ryan Gosling). Os dois, na verdade, acabam se envolvendo por causa de Amelia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Nice Guys): Logo no início deste filme quem tem um pouco mais de memória ou idade vai se sentir no clima de Dancing Days. A trilha sonora de The Nice Guys é um dos pontos altos do filme. Assim como a proposta dele de tirar sarro dos filmes de detetive e/ou investidores particulares dos anos 1970 – e de outros tempos depois.

Para alívio de quem está incomodado com o politicamente correto exagerado dos nossos tempos, The Nice Guys apresenta um antídoto que, diferente de The Hangover (comentado aqui), não cai na piada simples e nem no exagero que pode provocar o efeito oposto. Não. The Nice Guys tem a ironia e a tiração de sarro dos protagonistas e do estilo de filme na medida certa. Não tem um humor boboca e nem recorre ao preconceito de qualquer categoria para fazer rir. Apenas isso já é um grande alívio.

Verdade que o filme utiliza o clima de suspense e de produções policiais como desculpa para existir. A história em si é meio boba, meio exagerada, centrada em uma grande investigação sobre uma jovem atriz que é meio sem pé nem cabeça. A própria definição da história também gira um pouco sobre o nonsense, mas é justamente aí que reside a graça deste filme. Sem disfarçar os roteiristas Shane Black e Anthony Bagarozzi deixam claro que os filmes de detetive são uma grande desculpa para entreter. Não vais tirar deles nenhuma grande mensagem ou lição. A diversão é o que conta.

E neste sentido de diversão este filme se sai muito, muito bem. The Nice Guys está para os filmes de detetive assim como Kick-Ass (comentado aqui) está para os filmes de super-heróis. O que eles tem em comum? Primeiro, ambos tiram sarro da essência dos filmes do gênero. Depois, ambos tem bastante estilo – que pode ser visto pela trilha sonora escolhida à dedo, ótimas edições e trabalho do elenco.

Terceiro ponto: os dois filmes não tratam as crianças como coadjuvantes, mas como protagonistas que não tem papas na língua e nem medo de tiroteio. Nesta tiração de sarro que os dois filmes fazem de seus respectivos gêneros também sobram sequências politicamente incorretas – mas nada que extrapole muito a sensibilidade das pessoas.

O diretor Shane Black fez um belo trabalho de pesquisa e realmente levou todo o espírito dos anos 1970 para este filme. O que é um verdadeiro deleite para os espectadores já que, convenhamos, os anos 1970 foram maravilhosos para o cinema. A exemplo do que Quentin Tarantino tinha feito, antes, com Jack Brown, aqui novamente é apresentado com talento por Black. A diferença é que The Nice Guys é bem mais engraçado e irônico com os seus protagonistas e com aquela época do que o respeitoso filme de Tarantino.

O roteiro de Black e Bagarozzi faz lembrar Tarantino em sua melhor forma na rapidez dos diálogos e pela “filosofia do cotidiano”. Além disso, o filme funciona bem, além dos elementos técnicos que ajudam a mergulhar o espectador no clima dos anos 1970, porque os dois protagonistas claramente se divertem muito ao participar desta produção. Fundamental para esta produção também é a jovem atriz Angourie Rice que vive a filha de March, Holly. Ela é a revelação da produção, com diálogos e atitudes ótimas e que dão muito humor para a produção.

O próprio título desta produção é uma ironia. Os protagonistas do filme são tudo, menos caras legais. Como acontece em muitos filmes, o roteiro de The Nice Guys trabalha para que gostemos deles, mas eles tem mais a ver com vilões do que com heróis. Ou podem ser vistos como clássicos anti-heróis bonachões que amamos odiar – ou que, muitas vezes, não chegamos a odiar.

Ambos são trapalhões, levam e dão bastante porrada e fazem quase tudo para conseguir o que querem – incluindo intimidar pessoas e matá-las no caminho para conseguirem o que querem. Quer dizer, Healy tem mais esta vertente de bater até matar, se necessário. Não há dúvidas de que Healy tem mais experiência que March e de que ele é o especialista da dupla em bater. March aparentemente é o mais esperto – mas ele tem uma quedinha por bebidas e mulheres que muitas vezes não o ajuda nas missões. A sorte dele é que Holly sempre está por perto, contrariando o próprio pai e, muitas vezes, se colocando em risco.

No início do filme Healy ganha uma grana de Amelia para que ele afaste as pessoas que estão tentando localizá-la. Por causa disso ele conhece March. March, por sua vez, está atrás de Amelia não pelas razões que ela ou Healy imaginam, mas porque ele está investigando o sumiço da atriz pornô Misty Mountains – ele foi contratado por Mrs. Glenn (Lois Smith) para encontrar a sobrinha dela. Não demora muito, contudo, para os dois se aliarem para buscar Amelia. Outros personagens entram em cena para complicar a história – como bandidos que estão atrás de Amelia – e a resolução para a trama tem um ponto alto com a perseguição final do filme que acabou causando tudo isso.

Filme bem construído, com os detalhes técnicos funcionando muito bem, tem um roteiro também bem pensado e que funciona bem praticamente o tempo inteiro. Apenas algumas sequências sem muito pé nem cabeça – como Amelia que, em teoria, estava querendo se esconder, naquela festa cheia de pessoas do cinema, e aquele sonho alucinante de March no carro – poderiam ter sido cortadas ou construídas de outra forma. Elas acabam enfraquecendo um pouco a narrativa, mas sem comprometer tanto o resultado final.

Os roteiristas também exageraram um pouco na dose de colocar crianças falando sacanagem – isso vale, em especial, para a sequência de Holly com a atriz pornô na festa do diretor de cinema. Por outro lado são brilhantes a sequência envolvendo a recuperação do filme de Amelia e amigos no final e o próprio destino da jovem atriz – afinal, se na vida real acontecem sequências impressionantes para o bem, também acontecem fatos inacreditáveis negativos. Gostei de um filme mostrar a segunda situação, só para variar. 😉

Também é um belo acerto do filme ter uma certa reviravolta no final – quando parecia que a história já tinha terminado, ainda temos um “grand finale”. E ainda que a história seja apenas uma desculpa para muito humor e cenas de ação, no final é interessante uma certa reflexão sobre como os poderosos de Detroit poderiam chegar muito longe para defenderam os seus negócios e que os mocinhos tem um efeito limitado na vida real. No fim das contas, há uma grama de crítica neste filme focado em diversão. Bastante politicamente incorreto, mas sem cair na avacalhação ou na piada fácil, este filme vale a diversão. Com alguns descontos aqui e ali, é um bom divertimento.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei muito interessante a união entre o experiente Russell Crowe, que não vemos muito fazendo comédia, com o versátil e cada vez mais interessante Ryan Gosling. Crowe segue sendo o cara mais sério da produção, aquele que normalmente tem o controle da situação e está atento a cada detalhe, mas ele também se mete em encrenca e se atrapalha. É bom ver o ator saindo um pouco do lugar-comum e fazendo algo diferente. Ryan Gosling está ótimo, como normalmente o vemos. Sem dúvida alguma um dos melhores nomes da sua geração e uma figura que merece ser acompanhada de perto.

A jovem Angourie Rice, ao lado destas duas figuraças e com o roteiro de Shane Black e Anthony Bagarozzi para se divertir, acaba sendo a grande revelação deste filme. O estilo dela em The Nice Guys nos faz lembrar As Panteras. Uma garota destemida e pronta sempre para impedir os bandidos e para defender quem está sendo perseguido. Filha de atores, ela tem 13 produções no currículo. Ela estreou com o curta Hidden Clouds, de 2009, e fez o seu primeiro longa em 2013, a produção These Final Hours. Depois de The Nice Guys ela fez Jasper Jones, atualmente em fase de pós-produção, e está filmando Spider-Man: Homecoming. Vale acompanhá-la também.

Os detalhes técnicos deste filme fazem toda a diferença. Para começar, vale aplaudir a trilha sonora deliciosa e muito bem escolhida de David Buckley e John Ottman. Depois, funciona muito bem a direção de fotografia de Philippe Rousselot, a edição de Joel Negron, os ótimos figurinos de Kym Barrett, o design de produção de Richard Bridgland, a direção de arte de David Utley, a decoração de set de Danielle Berman, e o trabalho competente da equipe de maquiagem com 23 profissionais. Todos estes elementos são importantes para a história e para o resultado final da produção, assim como a edição de som e a mixagem de som e os efeitos visuais.

The Nice Guys é um filme centrado nos dois protagonistas e com destaque, entre os coadjuvantes, para a filha de March. Mas ele também tem vários coadjuvantes que ajudam a dar molho para a história. Além das atrizes já citadas, que estão muito bem como Amelia (a jovem Margaret Qualley) e Mrs. Glenn (Lois Smith), vale citar as ótimas participações de Matt Bomer como John Boy (o assassino profissional mais fera da história); Yaya DaCosta como Tally, secretária de Judith Kuttner (Kim Basinger em uma ponta de luxo); Keith David ótimo como Older Guy, um dos bandidos que procura Amelia; Beau Knapp também muito bem como Blueface (o outro bandido em busca da jovem atriz); e Daisy Tahan como Jessica, amiga de Holly e que acaba envolvida em uma das cenas de ação da história. Todos estão muito bem, ainda que muitos tenham poucos diálogos na história – mas a participação de todos é importante. Como ponta, vale ainda citar Lance Valentine Butler como o garoto da bicicleta. 😉

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre Shane Black. Fiquei surpresa com o trabalho dele – especialmente com o roteiro. Daí fiquei sabendo que ele é considerado um dos roteiristas pioneiros do gênero de ação como o conhecemos atualmente. Ele foi responsável, por exemplo, pelo roteiro de Lethal Weapon, filme de 1987 com Mel Gibson e Danny Glover que tem em comum, com este The Nice Guys, a ação e o humor. Ele não tem muitos roteiros no currículo – soma apenas 16 desde então. Mas tem um trabalho também como ator e, aparentemente, tem altos e baixos como roteirista – afinal, não dá para achar o roteiro de Last Action Hero com algo bom, não é mesmo?

The Nice Guys estreou no dia 15 de maio na Bélgica e no Festival de Cinema de Cannes. Até agora este foi o único festival em que ele participou. Dá para entender isso porque este é um filme essencialmente comercial.

Este filme teria custado cerca de US$ 50 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos e até o último dia 17, pouco mais de US$ 36 milhões. Com este ritmo e levando em conta os outros mercados em que o filme já estreou e vai estrear, provavelmente ele vai registrar um lucro satisfatório.

The Nice Guys é uma produção 100% dos Estados Unidos e foi rodada totalmente naquele país em cidades como Los Angeles, Covina e Atlanta.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Inicialmente The Nice Guys foi pensado para ser uma série de TV. Mas os realizadores mudaram de ideia porque o piloto parecia não estar levando a lugar nenhum. Bem, até daria para desenvolver uma série com a mesma filosofia do filme, mas realmente acho que ficou melhor em quase duas horas do que em diversas horas de uma série de TV.

Uma marca registrada do diretor Shane Black e que volta a ser utilizada neste filme é que uma das cenas finais da produção se passa na época de Natal. E a última curiosidade: a contagem de mortos neste filme chega a perto de 20.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Uma bela avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e apenas 21 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,6. Um belo nível de aprovação, sem dúvida. E merecido, cá entre nós.

Não sei vocês, mas com este sucesso de crítica e um bom resultado nas bilheterias, não acho difícil esse filme ter uma continuação. Até pela forma com que ele termina. Não me surpreenderei se isso acontecer. Só espero que uma segunda produção mantenha as qualidades desta primeira.

CONCLUSÃO: Este é o típico filme “arranje uma desculpa qualquer de enredo para fazermos um filme de ação”. The Nice Guys tem uma história um tanto forçada, tirada de uma cartola, mas que torna ainda mais evidente o conceito de que o que importa é o desenrolar da história e nem tanto a essência dela. Casa bem com os nossos dias de gente opinando sobre tudo nas redes sociais, não? Para quem gosta dos filmes dos anos 1970 – como não gostar deles? – esta produção faz uma bela homenagem para todo aquele estilo e aura. E para completar, temos os atores Ryan Gosling e Russell Crowe realmente se divertindo em seus papéis. Além disso, é bom ver um filme “politicamente incorreto” na medida para variar. Incorreto, mas com inteligência. Um belo achado para pura diversão.

The Big Short – A Grande Aposta

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Existe uma regra quase infalível no mercado: sempre que alguém perde, há outro alguém que ganha. The Big Short conta a história de homens que lucraram, e muito, com a quebradeira causada por bancos mal-intencionados e agências de risco comprometidas em 2008. Mas mais que contar a história deles, este filme reflete sobre a ignorância forçada em que boa parte da sociedade vive. Como é citado no filme, a verdade é como a poesia, e poucas pessoas gostam de poesia. Equilibrando comédia com drama, este filme é uma crítica ácida para o que há de pior no capitalismo.

A HISTÓRIA: Começa nos dizendo que o filme é baseado em fatos reais. Em seguida, surge uma citação de Mark Twain que diz que não é o que sabemos agora que nos coloca em apuros, mas sim aquilo que nós achamos que temos certeza. De fundo, a imagem de uma criança brincando com o seu pai. Corta. A história começa no final dos anos 1970, com o narrador nos dizendo que naquela época ninguém procurava um banco para ganhar dinheiro. Os bancos, ele conta, eram cheios de perdedores, vendedores de seguro ou contadores.

Naquele cenário, a venda de títulos não interessava para ninguém. Uma regra do mercado até então que foi alterada por Lewis Renieri (Rudy Eisenzopf), o homem que criou os títulos garantidos em hipotecas. Esses recursos mudariam os Estados Unidos, até que eles deixassem de ser tão seguros. Esta história é sobre como a crise de 2008 aconteceu e sobre as pessoas que viram o problema se formar e apostaram contra ele a tempo de ganhar dinheiro com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Big Short): A primeira impressão errada sobre este filme é a de que ele seria uma comédia. Impressão essa dada pela indicação de The Big Short ao Globo de Ouro 2016 nesta categoria. Claro que esta produção tem humor, mas não é aquele clássico, engraçado. É um humor ácido, crítico, irônico, quase azedo pelo tema que o filme trata.

A segunda impressão errada sobre este filme pode ser dada pelo cartaz dele, com algumas das estrelas que fazem parte do elenco. The Big Short é muito mais complexo do que o cartaz poderia dar a entender. O roteiro vai fundo nos bastidores que levaram à quebradeira dos bancos em 2008 e que, por consequência, criou uma crise financeira global. Muitos dos conceitos tratados na produção são complexos para qualquer mortal que não seja economista ou que não esteja mergulhado no sistema bancário ou na bolsa de valores.

Então esqueça que este filme é fácil. Não é. Em todos os sentidos. O diretor Adam McKay utiliza diversas estratégias para contar essa história. Da introdução em uma época, para apresentar uma ideia, passando depois mais de 20 anos no tempo para nos contar como aquele embrião criado por Lewis Ranieri cresceu e virou um monstro, até a mescla de narrativa do “tempo presente” com a inserção de fotos, notícias e videoclipes para contar a passagem do tempo e os elementos culturais que fizeram parte da sociedade retratada no período. Além disso, há aquele velho recurso de alguns atores falando diretamente para a câmera (ou seja, com o espectador).

No meio de tudo isso, algumas vezes quase esquecemos que este filme tem um narrador: Jared Vennett (Ryan Gosling), bancário do Deutsche Bank. Esse esquecimento é explicável porque a produção é rápida no ritmo e na mudança do estilo de narração. Uma das maiores qualidades do filme, além da direção rápida e criativa de McKay é, sem dúvida, o roteiro complexo e cheio de tempero que McKay escreveu junto com Charles Randolph e que é inspirado no livro The Big Short (que recebeu o título de A Jogada do Século no Brasil) de Michael Lewis.

The Big Short pega o assunto complexo do colapso econômico de 2008 e nos mostra como chegamos ali. O bacana é que depois que Jared Vennett explica a realidade sobre o mercado imobiliário dos Estados Unidos, com toda a corrupção e ganância dos bancos contaminando também as agências de risco, ou seja, todo o sistema, para o investidor Mark Baum (Steve Carrell) e equipe, nos colocamos exatamente no lugar daquele grupo.

Ficamos surpresos com o que Vennett explica. É difícil de acreditar que os bancos e as agências de risco chegaram naquele ponto de descontrole. E qual é o passo seguinte de Baum e seu grupo? Eles resolvem verificar in loco o que está acontecendo. Eles saem para investigar a denúncia de Vennett. Enquanto isso, há outras duas linhas narrativas complementares se desenrolando. A origem de todo esse grupo que acabou investindo contra o mercado imobiliário e ganhando muito dinheiro com isso teve a ver com o trabalho de Michael Burry (Christian Bale).

Aliás, não comentei antes, mas após aquela introdução sobre a origem dos títulos imobiliários nos anos 1970, o primeiro personagem contemporâneo e que descobriu que o mercado iria colapsar foi Michael Burry. Ele era o gestor de um fundo de investimento e analisando milhares de números e dados do mercado imobiliário, foi o primeiro a perceber que era uma questão de tempo para a bomba estourar. Por sua conta e risco Burry foi aos bancos e criou o swap de incumprimento de títulos hipotecários – ou seja, ele criou um produto que era, na essência, uma aposta de que o mercado imobiliário iria colapsar.

Como era um produto novo e ele queria ter certeza que iria receber o dinheiro quando o que ele estava prevendo acontecesse, os bancos exigiram que ele pagasse os juros sobre o capital investido mensalmente. Caso os títulos hipotecários colapsassem, ele teria garantia de receber o correspondente ao que ele tinha “apostado” (feito “short” contra o mercado). Mas se os títulos hipotecários subissem, ele teria que pagar por isso.

No início, todos acharam ele louco. Os investidores do fundo que ele administrava quiseram tirar o dinheiro, mas ele percebeu que existia uma fraude no mercado e bloqueou as retiradas. Aliás, este é um dos pontos mais interessantes de The Big Short. Mostrar como os bancos e as agências de risco fraudaram o sistema e chegaram a fazer os títulos hipotecários podres serem valorizados antes que a verdade começasse a aparecer.

Com a sua teoria Burry procurou diversos bancos, começando pelo Goldman Sachs, seguindo para o Deutsche Bank e o Bank of America para criar o “short” contra os títulos hipotecários. Todos aceitaram a sua proposta porque, como fica claro em cada lugar que ele procura, os banqueiros acharam que estavam ganhando um dinheiro fácil. No total, ele investiu US$ 1,3 bilhão em swaps de incumprimento de hipotecas.

O problema para Burry é que a previsão que ele tinha feito para o colapso do sistema não levou em conta que bancos e agências de risco estavam comprometidos até o pescoço e que, além de tudo, eles iriam mentir, fraudar e adiar a crise um pouco mais de tempo. O fundo de Burry acabou perdendo dinheiro neste período e Bale nos faz acreditar em sua angústia com aquele cenário.

Enquanto isso, o investidor Mark Baum vai verificar diretamente no mercado imobiliário como os negócios são feitos. Ele fala com corretores e com pessoas de bancos e descobre que ninguém parece saber fazer contas. Ou estão tão preocupados com os seus ganhos que não percebem que não há como aquele sistema de enganação se manter por muito tempo. Carell está ótimo com as suas expressões e caretas. Afinal, ele nos representa. Baum ficou sabendo da teoria de Burry através de Jared Vennett que, por sua vez, soube da criação das swaps de incumprimento de hipotecas conversando com colegas dos bancos em um bar.

Outra fonte de informações nesta narrativa é puxada pela dupla Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock). Eles são investidores de pequeno porte que conseguiram fazer o patrimônio multiplicar em pouco tempo investindo em títulos baratos. Depois de conseguir multiplicar o dinheiro inicial, eles querem jogar como adultos e procuram um banco para isso. Eles nem são considerados para entrar no grupo dos grandes, porque não tem dinheiro para isso, mas no lobby do banco eles descobrem um documento que propõe swaps de incumprimento de hipotecas.

Intrigados com aquele documento, eles também resolvem investigar o mercado imobiliário. Rápidos no gatilho, mas sem capital para entrar com as swaps, eles recorrem a um grande investidor que saiu do mercado, Ben Rickert (Brad Pitt). Ex-vizinho de Shipley, ele resolve ajudar os dois jovens porque, afinal, ele pode fazer isso. No fundo, todos acreditam que o sistema está falido e querem demonstrar isso – ganhando muito dinheiro com isso, se possível.

Um dos aspectos mais interessantes do filme, para mim, não foi apenas contar como tudo nos levou para aquela crise do mercado imobiliário e financeiro dos Estados Unidos e que depois contaminaria o mundo, mas especialmente a reflexão do roteiro sobre a ignorância da coletividade. Geniais as imagens que mostram os fatos que aconteceram de importante e de desimportante – como clipes musicais, artistas em alta e em baixa e tantas cenas de pessoas comuns dos Estados Unidos – enquanto aquele grupo de pessoas enxergava o caos que estava para vir.

É a velha história de que a ignorância é uma benção. Não, não é. Mas infelizmente, e isso está comprovado, a maioria das pessoas vive na ignorância. Consome notícias esparsas e não consegue entender a fundo nada de importante que está ocorrendo à sua volta, seja na sua comunidade, país ou no mundo. Todos estão preocupados demais com as suas pequenas misérias ou momentos breves de felicidade e ninguém (ou quase ninguém) consegue ver o quadro inteiro.

The Big Short é fascinante por isso. Pela reflexão que ele faz sobre a sociedade dos anos que antecederam 2008 e que continua sendo válida até agora. Quanto tempo as pessoas que você conhece perdem com futilidades, consumindo informações sem importância sobre a vida pessoal dos artistas, por exemplo? Quantas entendem as razões da atual crise no Brasil ou em outras partes do mundo? Enfim, The Big Short é um bom soco no estômago da sociedade atual.

Por esta questão, é um filme que merece a nota abaixo. Também é preciso aplaudir a narrativa de McKay. Por outro lado, acho que esta produção poderia ter simplificado um pouco a história e não ter forçado a barra, até aonde eu vejo, tentando mostrar os personagens principais como “heróis”. No final das contas eles foram apenas pessoas que quiseram ganhar dinheiro com o colapso de um mercado.

Claro, eles também queriam provar uma teoria, demonstrar que o sistema estava corrompido mas, acima de tudo, eles queriam ganhar dinheiro. No fim, eles são tão diferentes assim das pessoas que, sedentas por dinheiro, fizeram o sistema chegar naquele ponto? O filme falha um pouco ao torná-los quase heróis da história. Não os vejo assim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei apenas parte do elenco de The Big Short. Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, John Magaro e Finn Wittrock lideram o elenco com os personagens centrais da trama. Mas completam o elenco estelar, ainda, os competentes Marisa Tomei (como a esposa de Mark Baum), Hamish Linklater (como Porter Collins), Jeremy Strong (como Vinnie Daniel) e Rafe Spall (como Danny Moses), esses três últimos a equipe de Mark Baum e que o acompanha quase todo o tempo na investigação sobre o mercado imobiliário e financeiro.

Há um recurso no roteiro que eu não comentei antes e que achei muito interessante como forma de reforçar a proposta dos roteiristas de que a nossa sociedade capitalista vive de aparências – ao ponto de acreditar em celebridades mais do que na própria análise, muitas vezes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diversos conceitos complicados do filme são explicados com pausas para que algumas celebridades discorram sobre o assunto. A técnica começa com a atriz Margot Robbie, que fez cenas provocantes em The Wolf of Wall Street – por isso a alusão à banheira nesta produção; prossegue com o chef Anthony Bourdain e termina com o economista Richard Thaler e a cantora Selena Gomez. Uma das boas sacadas do filme.

Cada um dos atores principais deste filme é motivado por uma questão diferente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Michael Burry quer, essencialmente, comprovar uma teoria. Quer comprovar como ele viu que tudo estava desmoronando enquanto mais ninguém via isso. Mark Baum, descrente do sistema, queria comprovar que os sistemas político e financeiro estavam corrompidos e que iriam sucumbir. Era um destes sujeitos de “teoria da conspiração” que acaba acertando no alvo com a ajuda de terceiros. E a dupla Charlie Geller e Jamie Shipley queria multiplicar a pequena fortuna que eles tinham feito até então. Mas independente da motivação de cada um, todos queriam ganhar dinheiro com a crise que eles perceberam sozinhos.

Falando em ganhar dinheiro, as tais swaps criadas por Burry podiam dar retornos de 20:1, ou seja, para cada US$ 1 investido, retorno de US$ 20. Geller e Shipley procuraram investir em swaps contra títulos classificados como AAA, ou seja, os que deveriam ser os mais seguros do mercado. Neste caso, eles poderiam ganhar até 200:1.

Da parte técnica do filme vale destacar, em primeiro lugar, a excelente direção de Adam McKay. Ele consegue não apenas dar ritmo para a história, mas também valorizar os diversos elementos importantes em cena. Algumas vezes ele destaca o trabalho dos atores. Em outros momentos, valoriza as cidades e o comportamento das pessoas, assim como a dinâmica de valores e as notícias que estiveram em evidência naquele período. Sem dúvida, um grande trabalho. O roteiro também merece aplausos, assim como a edição excepcional de Hank Corwin.

Como eu gosto de rock, devo dizer que adorei o estilo musical do personagem de Michael Burry. Através dele, temos uma boa parte da trilha sonora de Nicholas Britell focada em um rock vigoroso. Bacana. A trilha sonora dele não se resume a esse estilo, claro. Britell faz uma trilha bem ponderada e atenta para cada momento da produção. Um belo trabalho.

O roteiro de McKay de de Charles Randolph é um dos principais trunfos da produção. E também um de seus principais problemas em um ou dois momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ele acerta nos diferentes elementos narrativos que agrega na produção, assim como no tom crítico, irônico e ácido com que analisa a sociedade e o contexto da crise. Mas, francamente, achei forçadas algumas cenas de “consciência” dos personagens.

Por exemplo, coube a Brad Pitt dar um “esporro” em Geller e Shipley quando eles estavam comemorando o investimento que tinham feito. Ah, convenhamos, o personagem de Pitt havia ganho muito dinheiro com aquele mercado e agora ajudava os dois amigos a fazer o mesmo. Sério que nunca antes ele tinha pensado o quanto especuladores e pessoas que jogam com o dinheiro fazem mal para a sociedade?

O mesmo podemos falar sobre algumas das cenas com Mark Baum. Ele parece não se conformar com o desenrolar dos fatos após a quebradeira dos primeiros bancos, mas também não foge da raia em tirar lucro da situação. Se eles tivessem outra motivação que não a de encher os bolsos, porque eles não avisaram mais pessoas do que estava prestes a acontecer? As “crises” de consciência que aparecem no filme tem um propósito claro de fazer o espectador pensar, mas não me convenceram. De qualquer forma, bem perto do final, Baum estava certo ao comentar que, no fim das contas, os pobres e imigrantes iriam ser apontados como os culpados de tudo. Isso de fato aconteceu e, parece, sempre vai se repetir. Infelizmente.

The Big Short estreou no Festival da AFI em novembro de 2015. No mês seguinte o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Dubai. Até o momento a produção acumula 13 prêmios e foi indicada a outros 73. Entre os que recebeu, destaque para seis prêmios dados por círculos de críticos de cinema como Melhor Roteiro Adaptado.

Apesar de ter um elenco estrelado, esta produção custou relativamente pouco: US$ 28 milhões. Apenas nos cinemas dos Estados Unidos a produção fez pouco mais de US$ 44,6 milhões até ontem, dia 13 de janeiro. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 10 milhões. Provavelmente ele vai conseguir se pagar.

The Big Short foi rodado, essencialmente, nos Estados Unidos, em cidades como New Orleans, Las Vegas e Malibu. Mas as cenas externas do pub inglês que aparece no filme foram rodadas no The Black Horse, pub tradicional da cidade inglesa de Fulmer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Os personagens do filme são baseados em pessoas reais. Por exemplo: Mark Baum é inspirado no gerente de investimentos Steve Eisman; Jared Vennett é inspirado no negociador Greg Lippmann; Ben Rickert é baseado em Ben Hockett; e Charlie Geller e Jamie Shipley são baseados em Charlie Ledley e Jamie Mai.

Este é o primeiro filme em que Ryan Gosling aparece desde que ele decidiu dar uma “pausa” na carreira em 2013.

The Big Short é o segundo filme baseado em um livro de Michael Lewis em que Brad Pitt investe como produtor e no qual ele também atua. O filme anterior foi Moneyball (comentado aqui).

Não sei vocês, mas para mim foi impossível assistir a The Big Short e não lembrar de The Woll of Wall Street. Além dos dois filmes tratarem das loucuras do mercado financeiro e de seus especuladores, ambos tem em comum um tom crítico, ácido e um roteiro cheio de palavrões. Ainda que, evidentemente, The Wolf of Wall Street (comentado aqui) ganhe na loucura e na interpretação de catarse e digna de aplausos de Leonardo DiCaprio.

Agora, uma pequena curiosidade sobre a participação especial de algumas celebridades nesta produção. Inicialmente, no lugar de Margot Robbie, estava planejada a participação de Scarlett Johansson; e no lugar de Selena Gomez estava prevista Beyonce e Jay Z – inclusive com ele tirando sarro da questão da aposta, item de uma de suas canções de sucesso.

Entre os atores, vejo que todos se saíram bem. Mas lideram como destaques Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carell. Para mim, nesta ordem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. Sem dúvida alguma um desempenho abaixo de diversos outros concorrentes desta produção no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme complexo em um certo nível mas simples de entender em outro. A complexidade está em absorver conceitos complicados como subprime, swap e CDO (obrigações de dívida colateralizada). Nestes momentos o filme entra em exemplos cômicos para “mastigar” os temas complexos. Por outro lado, The Big Short vai direto na veia e não tem papas na língua para chamar de fraude e de especulação todo o movimento que nos levou à quebradeira de 2008.

Com um roteiro bem construído, especialmente ao resumir parte da ganância das sociedades “desenvolvidas” como a dos Estados Unidos, este filme conta também com um elenco de estrelas. Sarcástico na medida certa, ele também faz pensar. Funciona, ainda que tenha algumas pequenas ressalvas no caminho.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Hoje saiu a lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Big Short está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado.

Foram justas todas as indicações, sem dúvida. Mas não vejo o filme tendo muitas chances na maioria destas categorias. Talvez ele possa concorrer com maior vigor em Melhor Ator Coadjuvante. Ainda assim, ele teria que ganhar do mais novo-velho queridinho dos críticos, Sylvester Stallone em Creed. Claro que eu sempre vou achar Christian Bale mais ator que Stallone – estou falando aqui de interpretação, não de ícone do cinema de ação -, mas é fato que temos um grande “risco” da Academia querer dar uma estatueta para Stallone enquanto há tempo.

A edição deste filme é fantástica, mas ele tem, pela frente, Mad Max: Fury Road e The Revenant para vencer. Parada dura. Mas The Big Short tem alguma chance aqui. Honestamente, se eu pudesse, votaria por ele. Não vejo o mesmo em Melhor Diretor (o favoritismo é de Iñarritu, seguido de George Miller e Tom McCarthy) ou Melhor Filme (claramente tendo The Revenant e Spotlight correndo na frente).

Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, acho que The Big Short tem alguma chance, ainda que me parece levar uma certa vantagem nesta categoria os roteiros de Room e Carol. Para resumir, não seria uma total zebra The Big Short sair de mãos abanando do Oscar. Se isso não acontecer, ele poderá levar uma ou duas estatuetas para casa, apenas.