Venom

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Eis um personagem de HQ que era um ilustre desconhecido para mim. Tinha visto a alguns trailers de Venom, mas não sabia muito sobre a história do personagem antes de ir conferir ao filme. Gostei do que eu vi. Nem tanto pela história ser surpreendente, mas pela condução do diretor Ruben Fleischer e, principalmente, pelo ótimo trabalho do ator Tom Hardy. O astro, que até hoje não tinha me convencido muito, neste filme conseguiu me fazer tirar o chapéu. Filme divertido e bem realizado.

A HISTÓRIA: Espaço sideral. Uma nave se aproxima da Terra e comunica que dará entrada no planeta. Na comunicação que fazem com Fundação Vida, os astronautas comentam que as espécimes estão bem. Perto de dar entrada na atmosfera terrestre, contudo, surge um pedido de “mayday” (socorro) vindo da nave. A espaçonave queima ao entrar na atmosfera e cai na Malásia Oriental. Logo uma equipe de resgate vai para o local e encontra um sobrevivente.

Esse sobrevivente é levado em uma ambulância. No trajeto, o paciente se revela como um hospedeiro de uma espécime alienígena, que se empodera de uma socorrista. Enquanto isso, equipes da Fundação Vida resgatam outras espécimes acondicionadas em cilindros impermeáveis. O projeto desta fundação envolvendo essas espécimes alienígenas é o que vai desencadear toda a trama deste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Venom): Tenho alguns defeitos no meu currículo de cinéfila. Infelizmente, pelo tanto que eu trabalho na vida fora do blog, eu não consigo tempo de assistir a tudo que eu gostaria. Assim, por exemplo, deixei de assistir a Deadpool, filme já com duas produções e que eu sei que tem a pegada mais “dark” e irreverente dos filmes baseados em HQ.

Ao comentar sobre isso, que eu não assisti ainda a nenhum Deadpool, quero dizer que não ignoro também o estilo de filme que esta produção representa. Diferente de outras produções de super heróis, nas quais eles são sempre valentes, honrados e altruístas, Deadpool e, agora, esse Venom, mostram outro perfil de heróis. Nesses filmes eles são mais complexos e, apesar de buscar fazer o que é certo na maioria das vezes, em algumas situações eles também se mostram falhos e com toques de egoísmo.

Gostei de Venom por algumas razões. Primeiro, que achei inteligente e diferenciada a forma com que lidaram com seres extraterrestres. O cinema, na maioria das vezes, encara os aliens como invasores, que vão colocar a vida na terra em perigo, ou como seres graciosos que vem nos ajudar em algo – ou apenas nos divertir com as suas faltas de entendimento sobre como o ser humano funciona.

Por mais maluca que a ideia de Carlton Drake (Riz Ahmed), CEO da Fundação Vida, pudesse parecer, surge com certo “frescor” a ideia de utilizar vida alienígena para criar um “super humano” capaz de se adaptar mais facilmente à vida em outro planeta. O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel, baseados na história desenvolvida para o cinema por Pinkner e Rosenberg e inspirados nos personagens de HQ criados por Todd McFarlane e David Michelinie, parecem fazer alusões interessantes a questões presentes atualmente na nossa sociedade.

Para começar, Carlton Drake me pareceu ser livremente inspirado em figuras como a de Elon Musk, CEO  da Tesla Motors e um sujeito fascinado pela vida fora da Terra. Drake se diz visionário e realmente procura saídas diferentes para problemas antigos, mas a partir de que preço? Aí entra em cena quase uma “lenda urbana” sobre algumas empresas que utilizam vidas humanas como mercadorias para fazer os seus testes e experimentos.

O ponto determinante de Venom surge justamente quando o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy) é chamado para fazer uma entrevista com Carlton Drake e confronta o empresário com as mortes de pessoas miseráveis por causa de testes da Fundação Vida.

Poderoso, Drake faz com que Brock pague caro por sua “insolência”. Essa é uma parte fraca do filme, porque de forma um tanto displicente os roteiristas mostram como Brock “perde tudo”, do emprego até a noiva Anne Weying (Michelle Williams) por causa daquela entrevista desastrosa.

Se bem que é verdade, e Anne deixa claro isso em determinado ponto da história, que ela não termina com Brock por causa de Drake, e sim por causa da atitude egoísta do ex-noivo. De fato, Brock passa os seus interesses acima do zelo e do bom senso e acaba colocando tudo a perder. Mas aí está o lado interessante deste filme, que não nos apresenta um herói acima de qualquer suspeita, mas um sujeito que apresenta falhas e problemas – algo positivo se queremos aproximar o personagem da audiência.

Indignada com os sacrifícios humanos que a Fundação Vida começa a fazer em nome do “avanço científico”, a Dra. Dora Skirth (Jenny Slate) convida Brock a conferir de perto o perigo da equipe dela estar lidando com seres alienígenas. Em sua incursão desastrada no local, Brock acaba virando hospedeiro de uma destas criaturas – justamente Venom.

Como em qualquer relação de simbiose, os dois organismos vivem uma íntima relação de dependência. Venom precisa de Brock para sobreviver na Terra e Brock acaba tirando proveito de Venom para sobreviver em meio a tantas perseguições e desafios que surgem com o projeto de Drake. Como um filme baseado em HQ pede, em certo momento do filme o poderoso Venom tem que enfrentar um arqui-inimigo de potencial semelhante.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela criatura que primeiro migrou do astronauta para a socorrista e, depois, dela para uma senhora asiática e para uma menina loirinha, acabou, finalmente, no corpo de Carlton Drake. A intenção do malévolo Riot era liderar uma nova incursão fora da Terra para pegar mais de seus “irmãozinhos” e, depois, voltar para tocar terror no nosso planeta.

Como Venom é uma criatura parecida com o seu hospedeiro, ou seja, capaz de gestos altruístas e também egoístas, ele se diz encantado com a Terra e com Brock e, por isso, vai ajudar o nosso mais novo herói a enfrentar Riot e Drake. E aí o filme tem a sua esperada “batalha final” entre dois antagonistas de peso praticamente igual.

Entre aquele início do acidente da nave da Fundação Vida e esse embate final entre Venom e Riot, temos um filme recheado de perseguições a Brock e um pouco sobre a relação dele com Anne. A produção acerta, a meu ver, ao aprofundar no personagem de Brock, mostrando a sua vida antes e após o fim da sua carreira, a sua relação com a vizinhança e outros detalhes que trazem “molho” para a história.

As cenas de perseguição e a descoberta de Brock sobre todo o potencial de Venom foram muito bem feitas. Como podem os filmes de super heróis, também existe um equilíbrio interessante entre cenas de ação, tiroteio e pancadaria com sequências recheadas de humor, suspense e uma pitadinha de drama e romance. Esse caldeirão de gêneros é o que faz das histórias baseadas em HQ o que elas são.

Gostei do humor e dos personagens menos caricaturais e mais realistas de Venom. Acho que o filme tem um bom ritmo e personagens bem desenvolvidos. Também achei interessante como a história valoriza dois “losers”, duas figuras que são vistas como “perdedores” em seus respectivos planetas: Eddie Brock e Venom.

Todos, inclusive os “perdedores”, são capazes de grandes feitos. Você não precisa ser o Superman para fazer isso. Acho que esta talvez tenha sido a grande jogada das HQs a partir de um certo momento da sua evolução como obra artística. Deixar de valorizar os “super humanos” e começar a dar protagonismo para pessoas imperfeitas e comuns capazes de ações incríveis.

Também acho bacana quando um filme não esconde o “lado sombrio” que todos nós temos. Porque o ideal é não ignorarmos esse lado sombrio e sim sabermos lidar com ele. Não alimentá-lo, mas saber que ele existe e que precisa ser controlado. Venom trata disso e trata sobre outras questões relacionadas com o controle do lado sombrio. Uma proposta bacana, pois, e diferenciada em relação aos filmes de HQ. Eu gostei.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os personagens mais interessantes do filme são Eddie Brock e Venom. De todos os filmes que eu já assisti com Tom Hardy – não foram tantos assim, devo ponderar -, este foi, sem dúvida, o mais interessante. Para mim, Hardy brilha nessa produção. Ele não exagera na interpretação, o que é um ponto fundamental para um filme que pretende dar protagonismo para um sujeito comum colocado em situações extraordinárias. Um belo trabalho do ator, sem dúvidas.

Além dele, fazem um bom trabalho, mas alguns degraus mais abaixo, a atriz Michelle Williams, que vive a ex-noiva de Brock; Riz Ahmed, como o ambicioso empresário Carlton Drake; Scott Haze como o chefe de segurança da empresa de Drake, Roland Treece; Reid Scott como o Dr. Dan Lewis e Jenny Slate como a Dra. Dora Skirth, dois médicos que trabalham na Fundação Vida; Melora Walters como a moradora de rua Maria; Woody Harrelson como Cletus Kasady (que aparece só na sequência de cenas extras após os créditos finais); Peggy Lu como Mrs. Chen, a comerciante que costuma atender Brock e ser assaltada.

Merecem ser mencionados alguns hospedeiros dos alienígenas que não conseguiram ficar muito tempo em corpos humanos sem matá-los. São pessoas sem fala no filme, praticamente, mas que acabaram aparecendo um bocado em cena. Michelle Lee como a socorrista que hospeda Riot logo após socorrer o astronauta sobrevivente; Vickie Eng como a senhora asiática que faz boa parte do transporte de Riot até os Estados Unidos; e Zeva DuVall como a garotinha que leva Riot até a Fundação Vida; Jared Bankens e Martin Bats Bradford como Isaac e Jacob, dois hospedeiros de Blue.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a direção de fotografia de Matthew Libatique; para a trilha sonora de Ludwig Göransson; para a edição de Alan Baumgarten e Maryann Brandon; para o design de produção de Oliver Scholl; para a direção de arte de Christophe Couzon, Doug Fick, Martin Gendron, Gregory S. Hooper, Drew Monahan, Troy Sizemore e James F. Truesdale; para a decoração de set de Alice Felton; para os figurinos de Kelli Jones e para o excelente trabalho feito na Maquiagem, pelas dezenas de profissionais do Departamento de Arte, pelo Departamento de Som, pelos Efeitos Especiais e pelos Efeitos Visuais. Impressionante a lista de profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais, aliás. Mas, sem eles, esse filme não seria o que ele é. Incrível o trabalho deles.

Venom estreou no dia 2 de outubro de 2018 na Alemanha e, a partir do dia seguinte, no Reino Unido, na Indonésia, na Irlanda, na Coreia do Sul e em Taiwan. No Brasil, o filme estreou no dia 4 de outubro. Assisti ele logo na sequência da sua estreia e em 3D – que eu sempre acho uma boa pedida, porque dá muito mais profundidade para as cenas e melhora a nossa experiência, especialmente em filmes de ação.

Agora, vale falarmos de algumas curiosidades sobre esta produção. O filho de Tom Hardy, Louis Thomas Hardy, é fã de Venom. Isso estimulou o ator a querer fazer o personagem. Hardy comentou: “Eu queria fazer algo que meu filho pudesse assistir. Então eu fiz algo em que eu mordo a cabeça das pessoas”. Louis orientou o pai sobre como ele deveria retratar Brock/Venom, já que o ator conhecia pouco os personagens.

Achei curiosa essa história de Hardy e do filho porque, na sessão que eu fui assistir Venom, uma avó levou dois netos – ou um neto e seu amigo, não sei ao certo – para ver ao filme. Detalhe: em 3D e legendado. Lá pelas tantas, quando a pancadaria começou para valer, eles saíram do cinema. Sim, para os mais sensíveis, é bom saber que este filme tem uma boa dose de violência e talvez não seja indicado para crianças menores. 😉

Vale citar outro comentário de Tom Hardy sobre Venom, que ele considera como um palhaço trágico: “Há algo de engraçado nas circunstâncias de se ter um presente trágico. É uma superpotência que você não quer, mas ao mesmo tempo que ama você. Isso faz você se sentir especial. Ele é um herói relutante e um anti-herói”. Achei uma bela definição.

Tom Hardy gravou as falas de Venom durante a pré-produção. Quando as filmagens começaram, essas falas foram reproduzidas para o ator através de um fone de ouvido para reproduzir as “conversas” de Brock com Venom.

Desde 2007 se falava em um spin-off de Homem-Aranha – que seria um filme de Venom. Várias tentativas e promessas foram feitas desde então, mas só em 2018 o filme de Venom se materializou.

Venom foi lançado no ano em que os quadrinhos do personagem completaram 30 anos – a HQ dele foi lançada em maio de 1988.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Admito que, ao esperar as cenas extras após os créditos de Venom, não reconheci o personagem de Woody Harrelson. Ele parecia um super-vilão, mas eu não sabia de quem se tratava. Mas o personagem de Harrelson é Cletus Kasady, o nome de batismo do psicopata e super-vilão Carnage (ou Carnificina, segundo este artigo da Wikipédia). Vale dar uma olhada nesse artigo para saber o que nos espera em uma continuação de Venom ou do Homem-Aranha. 😉

Vendo as notas de produção do filme, fiquei sabendo que a origem de Venom, na verdade, foi a relação do alienígena com o Homem-Aranha. Como o personagem não podia ser citado nesse novo filme, arranjaram a Fundação Vida como “desculpa” para introduzir Venom na terra. Interessante. Espero que isso não tenha irritado (muito) os fãs do personagem. Afinal, acho que funcionou bem a nova saída que eles deram – e o paralelo com Musk torna essa parte do filme interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas negativas e 74 textos positivos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de apenas 30% e uma nota média de 4,5. Achei os críticos, especialmente, bastante duros com esta produção. Não entendi, francamente, porque tanta rejeição para esta produção. Se vocês também não gostaram, deixem comentários por aqui para eu entender melhor. Quem sabe me faltou conhecer melhor o personagem para saber se o diretor Ruben Fleischer e os seus roteiristas realmente fizeram besteira com Venom? Não sei, não entendi. 😉

O site Metacritic segue a linha do Rotten Tomatoes e apresenta um “metascore” de apenas 35 para Venom. Esse metascore é fruto de 28 críticas medianas, de 14 críticas negativas e de quatro críticas positivas.

Enquanto os críticos desprezam Venom, o filme vem levando multidões aos cinemas. Segundo o site Box Office Mojo, Venom teria custado US$ 100 milhões e faturado, até o dia 11 de outubro, pouco mais de US$ 107,1 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 127,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou. Ou seja, a produção fez cerca de US$ 234,2 milhões em cerca de 10 dias em cartaz. Caminha com passos largos para faturar bem para as distribuidoras Sony e Columbia, apesar das críticas majoritariamente negativas.

Venom é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – na qual vocês pediam filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um herói que é “gente como a gente”, cheio de defeitos e de boas intenções. E, na verdade, ele em si não tem nenhum grande super poder, mas tem uma parceria igualmente inusitada. Um filme envolvente e bem dirigido, com um bom desenvolvimento de personagens e ótimos efeitos especiais. Bem ao gosto de quem curte o gênero. Um entretenimento competente que segue a linha dos filmes recentes dos heróis de HQ, ou seja, que torna os personagens mais complexos e dinâmicos, sem ignorar o “lado sombrio” que alguns deles possuem. Uma boa pedida.

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All The Money in the World – Todo o Dinheiro do Mundo

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Quanto mais uma pessoa mesquinha tem, mais ela quer ter. Alguém já disse que para um rico ser rico, ele deve realmente se importar com cada centavo. Não gastar à toa nunca. Sempre pechinchar. Mas essa ânsia por dinheiro e pelo poder derivado dele ganhou um novo significado com o sobrenome dos protagonistas de All The Money in the World. Um filme que mostra como o dinheiro destrói e não significa nenhuma grandeza, muito pelo contrário. Apesar de ser uma produção interessante, All The Money in the World está muito longe de ser um dos melhores filmes do diretor Ridley Scott.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em “acontecimentos reais”. Roma, 1973. Vemos a uma rua movimentada, cheia de carros e de pessoas, em uma sequência em preto e branco. Pouco a pouco, a câmera se aproxima de “Paolo”, que é a maneira como Paul (Charlie Plummer) se apresenta para quem pergunta o seu nome.

A imagem se enche de cores, como se Paul enchesse o ambiente de vida. Ele passa por um restaurante, por uma fonte, e chega até um grupo de prostitutas. Ela mexem com ele, mas ele não fica com nenhuma. Caminhando um pouco mais, Paul é sequestrado. Nesse momento começa o drama do neto do “homem mais rico do mundo”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All The Money in the World): A minha motivação principal para ver a esse filme, como estou na temporada do Oscar, foi a indicação do ator Christopher Plummer na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas essa não foi a única razão.

As minhas outras motivações é que essa produção tinha a direção de Ridley Scott, um diretor que eu admiro e que eu gosto de acompanhar, e também porque ela tinha estreado no cinema em que eu sempre vou – o do Beiramar Shopping, em Florianópolis. Então, quanto tive oportunidade de assistir a essa produção, o que ocorreu apenas nessa semana, eu fui lá conferir All The Money in the World.

O que dizer sobre essa produção? Ela até começa bem, com uma reflexão do protagonista, John Paul Getty III, interpretado por Charlie Plummer, sobre a história do avô, J. Paul Getty (Christopher Plummer). Honestamente? Aquela introdução do filme é a melhor parte da história. Como quando Getty III diz que, apesar da família dele parecer com qualquer um de nós – ou seja, ser feita de carne e osso, mortal como qualquer outro -, eles só pareciam ser como qualquer outra pessoa. Porque eles eram feito de um “outro elemento”.

A questão fundamental nesse filme é que temos um sujeito que conquistou “todo o dinheiro do mundo” mas que não sabe abrir mão de nada do que possui. Ou do que acredita que possui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando sequestram um de seus netos, Getty não pensa em momento algum em pagar o resgate – ao menos na fase inicial do crime. Primeiro, porque ele acredita que se pagar o sequestro desse neto, outros sequestros virão… e a família dele não terá paz nunca mais na vida.

Aparentemente, esse pensamento não é tão absurdo. Mas conforme a “investigação” – se é que ela pode ser chamada assim – sobre o que aconteceu com o neto não avança, Getty passa a ser ainda mais pressionado pela mãe do jovem, Gail Harris (Michelle Williams) e até admite pagar o resgate, desde que ele possa deduzir aquela quantia – muito, mas muito menor do que os US$ 17 milhões que os sequestradores pediram originalmente – do Imposto de Renda.

Ou seja, no fundo, ele não estava “desembolsando” nada para resgatar o neto, apenas dando uma quantia de dinheiro que obrigatoriamente teria outra finalidade – o pagamento de impostos. Conforme o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, avança, vemos como Getty lida com o dinheiro. Ele nunca perde um centavo. Muito pelo contrário. Vive gastando em obras de arte caras, mas nunca fecha um negócio sem pechinchar bem antes.

Ele não sabe perder e não sabe ceder. Está acostumado a multiplicar a sua fortuna e tem toda a atenção do mundo para a cotação da bolsa de valores – mas, aparentemente, tempo algum para relações verdadeiras. Vemos Getty em poucas interações com pessoas da família – e, estranhamente, apesar dele ter tido algumas esposas, filhos e netos, não vemos mais ninguém da família dele. Parece que ele vive de forma bastante solitária – ao menos segundo o filme.

É uma pena que a história não seja realmente bem desenvolvida. Temos um “ir e vir” no tempo na parte inicial do filme para explicar um pouco da origem da fortuna dos Getty e também a relação “carinhosa” entre Getty III e o seu avô – assim como a de Getty com o filho e a ex-nora. Acho que All The Money in the World até poderia ser mais interessante se o roteiro tivesse explorado um pouco mais a história dos personagens e as suas relações.

Isso acontece só no começo, e é uma pena. Depois, essa produção abraça a velha premissa do filme de “ação”, com toques de suspense e de filme policial para contar o desenrolar do sequestro de Getty III. Grande parte daquele desenrolar da ação é previsível, incluindo na previsibilidade a corrupção policial, que vivia “nas mãos” da máfia italiana, e a resistência do “homem mais rico do mundo” de perder qualquer dinheiro com o resgate de um de seus 14 netos.

Achei o roteiro bastante fraco e previsível. Como eu disse, Scarpa perdeu uma boa oportunidade de explorar melhor as características de cada personagem e as relações que eles tinham entre si. No final do filme, temos uma questão em que pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Getty III é resgatado, simultaneamente, o seu avô morre em casa “devaneando” e abraçado em uma de suas obras de arte. Quem assume a administração da fortuna dele, porque os herdeiros ainda são menores de idade, é Gail Harris.

Naquele momento, Gail descobre que Getty, na verdade, tinha colocado algumas regras na administração dos seus bens. Em teoria, ele não poderia gastar o dinheiro que tinha, só podia aplicá-lo em algo que fizesse aquele dinheiro ser multiplicado. Por isso ele investia tanto em obras de arte.

Mas aí, duas questões acabam não sendo explicadas na produção quando Oswald Hinge (Timothy Hutton) comenta isso com Gail: primeiro, essa regra de “não gastar, apenas multiplicar a fortuna” deveria ter limites, até porque as diversas propriedades de Getty exigiam um custo fixo, e ele próprio tinha as suas necessidades de consumo; depois, Getty acabou enviando mais do que o US$ 1 milhão que poderia deduzir do Imposto de Renda para pagar o resgate do neto.

Ainda que não fosse muito a mais, era mais do que ele poderia deduzir do Imposto de Renda… em teoria, ele estava gastando e não aplicando o dinheiro que tinha. Como ele conseguiu fazer isso se ele tinha que “seguir” aquela regra de não gastar? E afinal, se ele era bilionário, foi ele que colocou essa regra… ele também não poderia derrubá-la? Achei essa questão muito mal explicada no filme – ela tenta justificar os atos de Getty, mas me pareceu um bocado sem sentido.

Enfim, All The Money in the World cai no lugar-comum e um bocado previsível de que o dinheiro não traz felicidade e muito menos a proximidade ou a segurança das pessoas que você ama. Alguém como Getty, que é apegada demais ao seu dinheiro e tem pouco – ou nenhum – interesse nas pessoas, mesmo que elas sejam da família, vive uma vida mesquinha e que, afinal, o levou a que? A uma vida de cobiça, de contar dinheiro, ignorar pessoas e viver sozinho.

Triste existência. Se o dinheiro existe para algo, é para dar boas oportunidades para as pessoas. Simplesmente ser acumulado ou multiplicado não leva a nada de bom. Muito pelo contrário. All The Money in the World fala sobre isso de uma forma um tanto tediosa. Apesar de bem conduzido e de ter boas atuações do elenco, o filme carece de um roteiro melhor e de um sentido de ser menos óbvio e pobre. Como eu disse, está longe de ser um dos melhores trabalhos do diretor Ridley Scott. Espero que ele tenha mais sorte e melhor gosto da próxima vez.

Se pensarmos no desfecho da história, o mérito maior pela sobrevivência e resgate de Getty III não foi da mãe dele, do “pagamento” autorizado pelo avô ou do trabalho do ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg). O grande responsável pela sobrevivência do rapaz acabou sendo o único sequestrador que se manteve junto dele até o final, Cinquanta (Romain Duris). Ele se compadeceu do rapaz, provavelmente pensando nele como um filho, e acabou ajudando ele sempre que possível.

Ou seja, alguns bandidos são mais bonzinhos e bacanas do que muitos ricaços. Seria essa a filosofia “subversiva” dos realizadores de All The Money in the World? 😉 Claro, há pessoas boas em todas as partes – e cretinos também. Então não acho impossível um sequestrador italiano nos anos 1970 se mostrar solidário ao rapaz “sensível”, quieto e “comportado” que foi sequestrado. Impossível não é, apenas improvável.

Assim como um “ex-espião” e principal responsável pela segurança de um ricaço como Getty ser tão pouco eficaz como Chase se revela nessa produção, também parece um tanto “forçado”. Mas sim, ele nunca impede que a polícia italiana troque os pés pelas mãos ou consegue, de fato, investigar algo com eficiência para chegar no paradeiro de Paul. A única utilidade de Chase parece ser mesmo apoiar Gail, porque nem ele e nem a polícia italiana consegue chegar no paradeiro do sequestrado antes dos bandidos jogarem todos os seus dados.

Além de não ser muito bem desenvolvido, o roteiro de All The Money in the World mostra essas características um pouco difíceis de acreditar na prática. E vocês sabem, não é porque um filme diz que é “inspirado em acontecimentos reais” que ele traz, realmente, grande fidelidade aos fatos. Tanto isso é verdade que All The Money in the World mostra Getty morrendo na mesma noite em que o neto é resgatado, e isso não aconteceu. Getty foi morrer três anos depois daqueles fatos, ou seja, em 1976. Antes, ele recusou-se a receber uma ligação de agradecimento do neto.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não tenho nada contra filmes que “vão e vem” na linha temporal para contar uma história. Mas achei que as viagens no tempo de All The Money in the World foram feitas de forma muito rápida, um tanto “intempestiva” demais no início do filme.

Saímos de 1973, quando o sequestro de Paul aconteceu, para voltar para 1964, em Nova York, quando os pais de Paul decidem dar uma cartada para se aproximarem do patriarca bilionário e, por um rápido momento, para a década de 1940, quando Getty começa a fazer a sua fortuna ao explorar o petróleo na Arábia Saudita. Esses retorno no tempo, volto a dizer, muito rápidos. Facilmente eles poderiam ter sido explorados melhor e toda a historinha dos sequestro ter sido um bocado resumida – até porque, convenhamos, ela não tem nada demais.

Ridley Scott entende muito bem do seu ofício. Então ele faz um bom trabalho na condução dessa história. Mas ele não faz nada além do esperado. Para mim, o ponto fraco mesmo é o roteiro de David Scarpa. Entre os aspectos técnicos do filme, talvez a direção de fotografia de Dariusz Wolski é o que se destaque positivamente. Achei a trilha sonora de Daniel Pemberton um tanto dramática demais. Outros aspectos que vale citar: a edição de Claire Simpson; o design de produção de Arthur Max; a decoração de set de Letizia Santucci; e os figurinos de Janty Yates.

O personagem de Getty é um clássico da “vida real”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele nasceu para fazer dinheiro e fazer negócios. Para tirar o melhor proveito de cada situação. Ele não nasceu para ter uma família. Ainda assim, como diz o neto dele que foi sequestrado, Getty queria fazer uma “dinastia”. Para isso, claro, ele precisava ter herdeiros. Mas isso também fazia parte do orgulho dele.

Getty queria ser reconhecido por ser o mais rico – ou um dos mais ricos – do mundo e queria que os seus herdeiros seguissem com o sobrenome. Mas ele, de fato, parecia não se importar com ninguém. Qual é o sentido de tudo isso, afinal de contas? Nenhum, é claro. Não faz sentido.

O que falar do elenco de All The Money in the World? Até eles – a maioria, ao menos – parecem não acreditar muito na história do filme. Os destaques positivos são mesmo Christopher Plummer e Michelle Williams. Ambos fazem um trabalho em que você acredita no que eles estão apresentando. Outros nomes já estão um bocado “sem sal” e/ou um tanto robóticos. Esse é o caso de Charlie Plummer e de Mark Wahlberg. Romain Duris está bem como Cinquanta, mas o seu personagem parece um tanto exagerado…

Os demais atores envolvidos no projeto realmente tem uma importância muito menor. Todos estão razoáveis, a meu ver. Vale comentar o trabalho de Timothy Hutton como Oswald Hinge, advogado de Getty; Charlie Shotwell como John Paul Getty III aos sete anos de idade; Andrew Buchan como John Paul Getty II, pai do jovem sequestrado; Marco Leonardi como Mammoliti, o mafioso que “compra” Paul após os sequestradores originais não conseguirem avançar com a missão de receber o resgate; Giuseppe Bonifati como Giovanni Iacovoni, advogado de Gail; Nicolas Vaporidis como Il Tamia “Chipmunk”, um dos sequestradores – o primeiro a morrer; e Andrea Piedimonte Bodini como Corvo, outro participante do sequestro.

All The Money in the World estreou no dia 18 de dezembro de 2017 em première em Los Angeles. O filme não participou de nenhum festival. Estreou no Brasil no dia 1º de fevereiro de 2018.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como vocês devem saber, Hollywood passa por uma saudável “devassa” das práticas ignóbeis de alguns “figurões” da indústria cinematográfica que usavam o seu poder para abusar/forçar relações com mulheres e homens que fazem parte do cinema – especialmente atrizes e atores. Um dos nomes envolvidos nesses escândalos foi o de Kevin Spacey, que passou a ser “banido” de eventos e produções. Ele tinha feito o papel de Getty, mas acabou sendo cortado do filme e substituído por Plummer.

Admito que no início do filme, especialmente, fiquei imaginando Spacey no papel de Getty. Mas isso foi só no início, porque o belo trabalho de Plummer logo me fez pensar nele e prestar atenção em sua interpretação – a partir daí, esqueci totalmente de Spacey. Na boa? Com todo o respeito ao que ele já fez, mas ele não faz falta não.

As refilmagens das cenas de Getty com Plummer demoraram oito dia para serem feitas e custaram US$ 10 milhões. Esse trabalho significou também o retorno de Michelle Williams e Mark Wahlberg para Roma, para que eles pudessem contracenar com Plummer, no feriado de Ação de Graças de 2017.

A Sony e a equipe de produção do filme decidiram, por unanimidade, substituir Spacey por Plummer quando faltava pouco mais de um mês para a estreia da produção. Ou seja, tiveram que correr para fazer a troca, mas certamente foi a escolha certa a se fazer. Spacey se queimou, aparentemente, para sempre na indústria do cinema.

Plummer disse que estava preparado para fazer Getty depois que Spacey foi retirado do projeto porque ele tinha sido considerado, antes, para o papel e, por isso, conhecia os roteiros. Além disso, Plummer conheceu pessoalmente Getty, frequentando algumas de suas festas promovidas em Londres nos anos 1960.

Angelina Jolie foi a primeira atriz convidada para fazer Gail Harris, mas ela recusou o papel. Depois, Natalie Portman chegou a ser anunciada como a atriz que faria esse papel, mas ela acabou pulando fora do projeto por causa da sua segunda gravidez. Foi aí que entrou em cena Michelle Williams.

Ainda que Christopher e Charlie tenham o mesmo sobrenome, Plummer, eles não são parentes. Bom para Christopher Plummer, porque achei Charlie muito, muito fraquinho.

Além do fato que eu citei sobre a morte de Getty, o filme tem outras “liberdades poéticas” consideráveis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No filme, o pai de Paul não se envolve nas negociações para resgatar o filho. Mas não foi isso que aconteceu na vida real, onde ele insistiu com o pai para pagar o resgate e participou das negociações – não foi apenas Gail que fez isso. Depois, Paul foi espancado e torturado com bastante frequência no cativeiro – o que o filme não mostra. Após o fim do sequestro, Paul foi encontrado na beira de uma estrada por um motorista de caminhão – ou seja, não houve nenhuma perseguição dos bandidos e da polícia em uma vila italiana. Esses aspectos, assim como a morte de Getty, foram mudados no filme e, para o meu gosto, sem muita razão de ser.

All The Money in the World foi indicado para nove prêmios, mas não ganhou nenhum até agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 textos positivos e 44 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média 7. No fim, sem querer, acabei acompanhando tanto a votação do público quanto da crítica – juro que eu dei a minha nota antes de ver essas outras avaliações.

All The Money in the World faturou US$ 24, 9 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 21,3 milhões nos outros países em que estreou até o dia 15 de fevereiro. Ou seja, no total, fez pouco menos de US$ 46,2 milhões – um valor relativamente baixo, especialmente porque o filme deve ter custado muito mais que isso.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre os Getty, acho que vale dar uma olhadela nessa matéria do G1 que tratou da morte de John Paul Getty III em 2011 e esse resumão da trajetória de Getty disponível na Wikipédia.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, ele atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando vocês me pediram para comentar filmes desse país.

CONCLUSÃO: Antigamente, quando eu dava uma nota 7 para um filme, isso queria dizer que eu não tinha gostado muito do que eu tinha visto. Hoje, a nota 7 representa exatamente o que ela quer dizer quando estamos no colégio. Ou seja, sim, o filme tem méritos para “passar de ano”. Mas não, ele não está acima da média ou mesmo apresenta algum grande diferencial. É apenas mediano. Esse é bem o caso de All The Money in the World. Sim, os atores estão bem.

Viajamos um bocado para cá e para lá porque a história exige isso. Temos uma bela reflexão sobre mesquinharia e sobre o quanto uma pessoa abastada pode ser pobre de espírito. Mas isso é tudo. Nada demais no “reino da Inglaterra”. Você já viu a filmes que tratam sobre a falta de noção e de generosidade dos mais ricos. Essa história, apesar de não ser muito interessante ou surpreendente, ganha uns pontos por ser baseada em fatos reais. Mas isso é tudo. Um filme mediano, com bons atores, mas que não vai lhe agregar nada, realmente. Há opções bem melhores no mercado. Mas se você gosta do diretor ou dos atores, não vai sofrer ao assisti-lo.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente, esse filme não tem chance alguma na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. All The Money in the World está concorrendo apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. De fato, Christopher Plummer é um dos elementos de destaque da produção. Mas ele não tem chances contra o favoritíssimo Sam Rockwell, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (com crítica nesse link).

De fato, para mim, os melhores atores coadjuvantes desse ano, ao menos entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar, são Sam Rockwell e Richard Jenkins (de The Shape of Water, comentado por aqui). Mas deve ser o primeiro a ganhar o prêmio – até porque ele tem “papado” tudo nessa temporada, inclusive o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards. Ou seja, favoritíssimo. Plummer corre totalmente por fora e seria um pouco uma zebra se ele levasse.

Manchester by the Sea – Manchester à Beira-Mar

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Tem pessoas que apenas querem ser um “ninguém”. E elas tem uma boa razão para isso. Determinados fatos da vida podem fazer com que você apenas queira esquecer o máximo possível quem você é e de onde você veio. Mas uma hora ou outra a fatura é cobrada. Manchester by the Sea conta a história de pequenas e grandes tragédias particulares. Se a história não é 100% original, a forma com que ela é contada sim traz novidade. Temos aqui um raro exemplo de um filme sensível, duro e legítimo. Muito bem polido nas aparências, mas bastante áspero em seu interior.

A HISTÓRIA: Começa mostrando as águas e a cidade de Manchester, nos Estados Unidos. É neste cenário que surge o barco Claudia Marie, pilotado por Joe Chandler (Kyle Chandler) e com o irmão Lee (Casey Affleck) e o filho Patrick (Ben O’Brien) conversando na popa da embarcação. Lee conta para o sobrinho como ele tem uma visão diferente de mundo do irmão, e pergunta para ele quem ele levaria para uma ilha.

O garoto responde que o pai, e corre em direção a ele. Em outro ambiente, Lee tira a neve do caminho e ajuda a um dos moradores a resolver um problema de vedação da pia. Ele está longe de Manchester, mas logo terá que voltar para a cidade porque o irmão dele está no hospital.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Manchester by the Sea): Este ano temos uma safra interessante de filmes concorrendo ao Oscar. Ainda que o favoritíssimo deste ano seja um musical, por definição uma produção cheia de “fantasia” e de uma realidade um tanto “embelezada”, boa parte das histórias tem uma grande dose de reflexão sobre a dura realidade da vida.

Este é o caso de Manchester by the Sea, um filme que vai crescendo conforme a história avança e nós entendemos melhor ao protagonista e o seu contexto. O destaque da produção, sem dúvida, é o seu roteiro, ainda que o conjunto de elementos que compõem o filme também apresentem qualidade e uma boa alquimia entre si. Os atores estão bem, e a trilha sonora é um ponto fundamental, assim como a direção de fotografia.

Mas voltemos para a história, que é o mais interessante desta produção. De forma inteligente o roteiro do diretor Kenneth Lonergan mostra parte do contexto de proximidade entre Lee e o sobrinho Patrick quando este último ainda era apenas um menino. Após uma breve introdução sobre aquele contexto familiar construído na cidade de Manchester, vemos Lee em outra realidade completamente diferente.

O personagem se parece com tantos outros de classe média baixa dos Estados Unidos – e de vários outros países. Um sujeito que mora sozinho, que trabalha duro, ganha pouco, engole sapos e finaliza os dias bebendo uma cerveja para conseguir encarar melhor tudo isso.

Para muitos, este é o americano médio que foi ignorado por muito tempo pelo governo e por todos e que, nas últimas eleições nos EUA, foi o grande responsável por eleger Donald Trump como presidente. Então este filme ajuda a contar um pouco sobre o contexto destas pessoas que, não apenas nos EUA, mas em qualquer parte do mundo realmente são pouco “visíveis”. Como outros grupos que acabaram sendo tema de outros filmes desta temporada – como os “excluídos”, “desprezados” ou marginalizados de Fences (comentado aqui) ou de Moonlight (crítica neste link).

Sem perder tempo, Lonergan mostra um recorte da vida do protagonista e o retorno dele para a sua cidade-natal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele retorna por uma razão muito triste: a morte do irmão mais velho. Mas esta não é a parte mais dura da história, e o roteirista/diretor espera a hora certa de nos contar porque Lee saiu de Manchester e porque para ele é tão duro voltar para lá.

De forma muito honesta, esta produção nos mostra como há tragédias particulares que são impossíveis de serem superadas. As autoridades podem dizer que você está liberado, e a família mais próxima pode lhe dar todo o apoio do mundo, ainda assim não parece justo que os dias continuem correndo como se nada tivesse acontecido. É sobre isso e muito mais que Manchester by the Sea trata.

O filme tem a habilidade de nos contar de forma interessante e o mais natural/crível possível uma narrativa de perda, vidas retomadas e vidas aprisionadas. Outros filmes já fizeram isso, é verdade, mas não com o mesmo desafio narrativo e criativo desta produção. Então temos a perda de Joe logo no início da produção e o desafio de Lee encarar esta realidade e lidar com a burocracia decorrente de uma morte na família.

Lonergan escolhe o caminho já bastante explorado de narrativas paralelas. Enquanto Lee busca lidar com tudo que envolve a “destinação final” do corpo do irmão e com a nova e inesperada (ao menos para ele) responsabilidade de cuidar de Patrick, voltamos atrás na história para saber melhor sobre o contexto familiar de todas aquelas pessoas.

Desta forma, quando Lee é acompanhado pelo médico para ir reconhecer o irmão morto, voltamos para o momento em que Joe recebe o diagnóstico da doença que o mataria no futuro. Naquele momento já vemos uma certa tensão familiar, especialmente entre Lee e a cunhada, Elise (Gretchen Mol).

Esta relação conflituosa volta à tona após a morte de Joe, quando Patrick é procurado pela mãe e volta a se encontrar com ela após longo tempo separados – ela não apenas deixa o hospital quando o marido recebe o diagnóstico, mas depois acaba deixando ele e o filho definitivamente.

Algumas pessoas demonstram os seus sentimentos com facilidade, enquanto outros são mais restritos nestas manifestações. Mas isso não quer dizer que eles não estejam sentindo, e muito. Manchester by the Sea é um filme exemplar em explorar isso. Porque tanto Lee quanto Patrick parecem lidar “bem” com a perda um tanto “esperada” de Joe mas, no fim das contas, ninguém lida bem com perda alguma.

Cada um deles sofre à sua maneira. Patrick tenta manter a vida normalmente, em uma fase de descobertas, de muitas atividades, amigos e de indecisões entre duas namoradas. Lee está sendo o cara responsável por manter quase tudo em ordem – dentro do possível. Mas para ele é muito difícil ficar em uma cidade onde ele viveu uma história tão pesada.

Em nenhum momento ele quis voltar para Manchester, mas as circunstância fizeram ele retornar para a cidade. O ideal, para ele, era resolver o velório e o enterro do irmão e voltar para a vida que ele tinha até então, onde ninguém o conhecia e onde ele era “mais um” na cidade. Só que ao receber a responsabilidade por Patrick, ele chega a cogitar de ficar em Manchester.

Mas, pouco a pouco, ele se lembra porque deixou a cidade. Todos de lá olham para ele com alguma ideia pré-concebida e com sentimentos muito bem definidos. Enquanto alguns lançam olhar de pena, outros lançam olhares curiosos e muitos estão sempre o julgando ou condenando. A tragédia pessoal de Lee é como a de tantas outras pessoas. Fatos horríveis acontecem por desleixo ou por descuido. Por causa de um “momento de bobeira”.

A perda de Lee e de Randi (Michelle Wiliams) é incomensurável. Não dá para medir, não dá para entender em sua plenitude. Apenas quem vive uma situação daquela pode ter a dimensão exata do que ela significa. O casamento deles acabou depois da tragédia, e Lee teve que lidar com toda a culpa que todos jogaram sobre ele.

A cena mais forte do filme mostra como nem ele mesmo se perdoava. Talvez, com o tempo, ele tenha feito isso. Ou não. Pode apenas ter “tocado em frente” por inércia. Quando está tentando tocar a vida de volta em Manchester, por causa de Patrick, ele percebe que não conseguirá viver na cidade conforme não acha oportunidades de trabalho e, especialmente, quando reencontra Randi.

O tempo passou e, como sempre, o tempo é um grande professor e um grande remédio. O choque passou a ser algo do passado, assim como boa parte da dor e do julgamento, e Randi parece ter um certo arrependimento do que falou e do que fez com Lee. Outra cena marcante da produção é quando ela tenta conversar com ele, mas Lee não está preparado para ter qualquer contato com ela.

Há muita dor em jogo. E dá para entender tudo isso. Mesmo que você ou eu não tenhamos passado por algo assim, a competência de Kenneth Lonergan e dos atores principais desta produção fazem com que você consiga se lugar no lugar deles. Ou seja, esta é mais uma produção que nos faz não apenas pensar, mas sentir e também exercer a misericórdia e a empatia.

Com um pouco de boa vontade é possível sentir qualquer dor e sentimento do outro. Isso nos aproxima e nos torna mais humanos. Este é um dos filmes que nos ajuda neste processo. Apenas por isso, e por todas as qualidades da história e do trabalho dos atores, ele já vale ser visto.

Sem contar que eu acho bacana como o filme, mais do que tratar de perdas, trata de recomeços. Sempre é possível tocar a vida em frente, e cada um sabe a melhor maneira de fazer isso. Sem tantos julgamentos e fórmulas prontas, e essa reflexão sobre a nossa sociedade atual – cheia deles – também é muito importante. Um filme bem acabado e com algumas mensagens bacanas.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um elemento interessante neste filme é a trilha sonora de Lesley Barber. Bastante lírica, ela contraste com o tom árido da história. É como se o que vemos e o que ouvimos fosse complementar e mostrasse como a vida é feita de histórias duras e de beleza. De suavidade e de rispidez. Considero este “casamento” inusitado entre música e história um dos pontos acertados da produção.

Entre os diferenciais do filme, como comentei antes, está o grande roteiro do diretor Kenneth Lonergan. Se este é o ponto fraco de La La Land (comentado por aqui), é o ponto forte de Manchester by the Sea. De forma muito inteligente e milimetricamente calculada o roteirista e diretor constrói esta história de uma forma que faça ela ganhar em interesse e em força conforme ela se desenvolve. Utilizando dois tempos narrativos, Lonergan também se debruça sobre a história do protagonista e das pessoas que o cercam. Bem bacana.

Algo que eu acho interessante nesta produção é que ela foge de muitos lugares-comum. Se é verdade que este filme me lembra muito outro que assisti há tempos atrás – e do qual eu não consegui, nem por decreto, lembrar o nome -, ao mesmo tempo ele se mostra diferenciado pelas escolhas no desenvolvimento dos personagens.

Aliás, explicando um pouco a nota que eu dei para o filme, ainda que ele tenha um ótimo roteiro e atuações coerentes, achei ele muito parecido, ao menos na essência, com outros filmes que já assistimos sobre perdas e sobre o “julgamento social” de uma pequena comunidade. Então, apesar de bem acabado, este filme não é exatamente revolucionário ou mesmo muito inovador. Por isso da nota acima. Mas nada que desmereça a produção, claro. Ela tem muito mais méritos que falhas.

Para muitos, Lee pode parecer um cara frio, vazio, e isso não deixa de ser verdade. Mas não é toda a verdade. A forma com que ele lidar com os fatos e esse “vazio” dele tem boas explicações e, apesar disso tudo, ele se importa muito com o sobrinho e sente uma aflição tremenda quando tem que enfrentar o passado novamente. Não é fácil, em um filme, construir uma história que trate destas nuances e que convença. Por isso mesmo Lonergan e os atores desta produção estão de parabéns, especialmente por não forçar a barra ou exagerar na história ou nas interpretações.

Da parte técnica do filme, além do roteiro muito bem construído, vale destacar a excelente trilha sonora de Lesley Barber, que contrasta com perfeição com a história e a complementa; a edição de Jennifer Lame; e a direção de fotografia de Jody Lee Lipes.

Manchester by the Sea estreou em janeiro de 2016 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 19 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme colecionou 97 prêmios e foi indicado a outros 211 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar. Números impressionantes, sem dúvida.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator para Casey Affleck no Globo de Ouro 2017; Melhor Filme segundo a National Board of Review; e para nada menos que outros 40 prêmios para Casey Affleck como Melhor Ator; 21 prêmios como Melhor Roteiro; nove prêmios para Michelle Williams como Melhor Atriz Coadjuvante; cinco prêmios para Lucas Hedges como “jovem talento” e similares.

Manchester by the Sea teria custado US$ 8,5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood. Bacana ver um filme com orçamento tão pequeno se sair tão bem em diversas premiações. Eu sempre torço pelo cinema independente. 😉 O filme é um grande sucesso nos Estados Unidos, onde fez US$ 42,5 milhões até o dia 2 de fevereiro deste ano. Em outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 1 milhão. Ou seja, não apenas repôs os gastos dos produtores, mas está garantindo um belo lucro para eles.

Esta produção foi rodada em diversas cidades do Estado de Massachusetts, como Manchester, Beverly, Lynn, Essex, Gloucester, Manchester-by-the-Sea, Salem, Cape Ann, Quincy e Rockport.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção e o cenário em que o filme se passa. A cidade onde a história é ambientada se chamava Manchester até que, em 1989, o morador Edward Corley fez uma campanha para que o nome mudasse para Manchester-by-the-Sea. O curioso é que o Legislativo aprovou a mudança naquele mesmo ano.

Interessante que este filme demorou muito para ser feito por uma série de razões. A ideia original tinha sido esboçada por John Krasinski, que falou para Matt Damon sobre este roteiro em que um trabalhador braçal acaba com a custódia do filho adolescente de seu irmão morto. Damon tinha pensado em estrear na direção com esta produção, mas acabou cedendo a história para Kenneth Lonergan que sofreu um longo martírio por causa do filme Margaret, estrelado por Damon. Em 2011 Margaret estreou de forma limitada e o processo movido pelo produtor do filme terminaria apenas em 2014. Foi só aí que Lonergan pensou em voltar a dirigir, e como Damon estava envolvido em outros projetos, ele passou Manchester para o amigo e diretor.

Quando Damon pulou fora do projeto, deixando a direção para Lonergan, ele pediu para o seu amigo de infância, Casey Affleck, protagonizar a história. Lonergan aparece como o único roteirista do filme porque ele acabou usando a premissa inicial de Krasinski e de Damon para fazer uma história bem ao seu gosto.

Este é o primeiro filme codistribuído por um serviço de streaming – neste caso, da Amazon – que consegue uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. Manchester by the Sea estreou nos cinemas também, claro, mas foi distribuído igualmente pelo serviço da Amazon. Vivemos novos tempos. O que é ótimo, porque assim o cinema sempre vai se renovar.

Manchester by the Sea é o terceiro filme escrito e dirigido por Lonergan – antes ele fez o mesmo com You Can Count on Me e com Margaret.

No melhor estilo Alfred Hitchcock, o diretor Kenneth Lonergan faz uma aparição também em Manchester by the Sea. Ele é o habitante anônimo da cidade que dá uma dura em Lee quando ele está discutindo com o sobrinho e ameaça ele de lhe dar uma porrada.

Falando no diretor de Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan tem no currículo apenas três filmes como diretor e nove como roteirista. Com as duas indicações por Manchester by the Sea – Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original – ele contabiliza quatro indicações ao Oscar. As anteriores foram por Melhor Roteiro Original por You Can Count on Me e por Gangs of New York.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Manchester by the Sea, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes escreveram 221 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9. Os dois níveis de aprovação são muito bons se levarmos em conta os padrões dos respectivos sites – especialmente a nota do Rotten Tomatoes é muito boa.

Esta produção está sempre focando os personagens Lee e Patrick, por isso mesmo é tão importante que os dois se saiam realmente bem. E eles fazem um trabalho muito bom, muito coerente e sem exageros. Realmente parecem pessoas “comuns” passando por aquelas situações. Além deles, alguns atores tem trabalho importante na história. A premiada Michelle Williams é uma das que menos aparece no filme, mas ela tem um bom desempenho quando é exigida.

Fazem um bom trabalho também em papéis secundários e/ou quase em pontas Kyle Chandler como Joe Chandler; Ruibo Qian como a Dra. Bethany, que faz o diagnóstico de Joe e o acompanha durante a doença; Gretchen Mol como Elise, mãe de Patrick; C.J. Wilson em um trabalho fundamental como George, amigo dos irmãos Joe e Lee; Tom Kemp como Stan Chandler, pai de Joe e Lee – ainda que a participação dele seja pequena; Tate Donovan como o técnico de hockey de Patrick; Kara Hayward como Silvie, uma das namoradas de Patrick; Anna Baryshnikov como Sandy, a outra namorada do adolescente; Heather Burns como Jill, mãe de Sandy; Jami Tennille como Janine, mulher de George; e Matthew Broderick em uma super ponta como Jeffrey, novo marido de Elise.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e na qual vocês pediram filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Um filme que trata de maneira muito franca sobre como a vida continua de maneira diferente para as pessoas que compartilharam uma tragédia. Manchester by the Sea revela a complexidade da vida, das famílias e dos amores. Nem todo mundo consegue recomeçar e, mesmo assim, toca em frente da melhor maneira que pode. Um dos pontos fortes do filme é o roteiro, que sabe construir a história com criatividade e bebendo fundo na fonte do realismo. Amargo, mas muito humano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Manchester by the Sea é um dos quatro grandes concorrentes deste ano no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A produção conseguiu emplacar seis indicações ao Oscar, e os realizadores devem ficar felizes com isso.

Afinal, este é um filme não muito óbvio e sem uma grande produção ou lobby por trás. Então emplacar seis indicações, incluindo aí a de Melhor Filme, é algo muito bacana. Além da categoria principal, Manchester by the Sea concorre nas categorias Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Melhor Diretor (Kenneth Lonergan) e Melhor Roteiro Original.

Analisando todas estas categorias e os seus respectivos concorrentes, acredito que Manchester by the Sea tenha a sua melhor chance em Melhor Roteiro Original. O filme pode emplacar também em Melhor Ator – apesar da minha torcida ser para Denzel Washington, não dá para ignorar os 41 prêmios recebidos por Casey Affleck antes do Oscar.

Na categoria principal, Melhor Filme, o favoritíssimo é La La Land (com Moonlight correndo por fora e Manchester by the Sea um pouco atrás). A categoria Melhor Ator Coadjuvante tem Mahershala Ali como favorito; assim como Viola Davis é a favorita em Melhor Atriz Coadjuvante e Damien Chazelle corre na frente em Melhor Diretor. Assim sendo, Manchester by the Sea pode levar em roteiro e em ator, na melhor das hipóteses. Este é o prognóstico mais “óbvio” mas, claro, surpresas sempre podem acontecer.

Take This Waltz – Entre o Amor e a Paixão

Você quase pode sentir aquele calor dominante no ar. E o frio do chão de madeira, pisado com os pés. Take This Waltz é um filme de sentidos. Ele nos transporta, se esforça para nos fazer vivenciar as sensações dos protagonistas. Não tem nenhuma história muito original. Aqui, o importante, além do conteúdo, que não é exatamente novo, é principalmente a forma. Aliás, muitas vezes é a forma o importante, não é mesmo? Como, e não o que. Liberte-se. Dos filmes anteriores que você viu a respeito de uma garota que vive um casamento que virou amizade e encontra outras tentações por aí. Deixe-se levar. Vai valer a pena.

A HISTÓRIA: Boa música, uma lente desfocada mostra uma mulher cozinhando. Está calor, porque ela seca o suor na testa. A cena entra em foco, e após ver a Margot (Michelle Williams) claramente, vemos os seus pés, caminhando descalços sobre o piso de madeira, e com o detalhe das unhas pintadas de azul. Ela vai e volta, na função de pegar ingredientes e preparar a sua receita. Experimenta, enquanto faz, parece distraída e algo insatisfeita. Coloca a receita no forno, e fica olhando pra ele. Como se não tivesse nada mais importante pra fazer. Ela desvia o olhar do forno e olha para um homem, que caminha até a janela. E ela permanece lá, olhando para dentro do forno. Corta. Margot caminha rápido com uma mala e uma bolsa. Chega em um quarto, parecendo cansada. Vemos a uma vila, e Margot acompanhando uma encenação histórica. Após flagelar um ator, ela conhece rapidamente a Daniel (Luke Kirby), um homem que vai alterar a vida de Margot.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Take This Waltz): Eu adoro o estilo da diretora Sarah Polley. Ela tem um olhar peculiar, diferenciado, um cuidado a cada cena que a diferencia dos demais. Atriz com 55 filmes no currículo, ela realizou apenas oito filmes como diretora. Mas o anterior, Away From Her, comentado aqui no blog, é maravilhoso. Uma preociosidade.

E sou destas pessoas que fica apaixonada por alguém com apenas uma peça de arte. Gostei tanto de Away From Her que guardei o nome de Sarah Polley e fiquei esperando a oportunidade de vê-la na direção outra vez. E ela não me decepcionou. Take This Waltz tem todos os elementos que me fazem adorar um filme: estilo, ritmo, diálogos interessantes, muitos momentos de tensão e de “encantamento”, atores carismáticos, uma direção de fotografia deliciosa e uma trilha sonora idem.

A levada do filme, como eu disse antes, é nos transportar para aquelas sensações. Somos convidados a sentir calor, a brisa do mar, o cheiro do frango, a perceber as cores do amanhecer, a ter uma certa angústia com os encontros familiares barulhentos… a provocação dos sentidos aparece volta e meia, para nos tirar da zona de conforto. Polley não quer que sejamos apenas espectadores, mas que nos envolvamos. E, para mim, ela consegue isso com maestria.

Claro que a história, você e eu, sabemos para onde vai. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não demora nada, desde que Margot volta para casa, para percebermos que o casamento dela com Lou (Seth Rogen) virou a história de dois amigos dividindo o mesmo teto. Aliás, no início, fiquei um bom tempo pensando há quanto tempo eles estavam juntos… parecia, em alguns momentos, que estavam apenas começando. Porque há uma estranheza sobre ela morar ali, algumas vezes… parece que a casa é dele, e que ela está momentaneamente. Quando fica claro que eles estão juntos há cinco anos, daí cai o pano e torna-se evidente que o tesão acabou, restando apenas a amizade.

Evidente que não é um problema isso acontecer. Muitos dizem que os casamentos de longa data, inevitavelmente, caem nesta rotina. E que isso seria o amor. Como não estou casada há muito tempo, não posso falar a respeito. Do quanto acaba ficando difícil uma pessoa chegar na outra sem parecer invasão de espaço. De quanto a rotina pode fazer um achar que sabe tudo sobre o outro quando, na realidade, ele não tem a mínima ideia do que está acontecendo.

Se o cenário vai ficando claro rapidamente, o desenrolar da história é planejada matematicamente para nos “torturar”, dividir a nossa opinião sobre o que deveria acontecer. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tenho certeza que muita gente torceu para que Margot conseguisse se manter firme, e que Lou acordasse um pouco para a vida, para dar uma reviravolta naquela rotina morna e sem atenção real para a esposa dele. Chega a ser tocante o esforço de Margot em seguir firme. Afinal, todos os indícios nos levam a crer que Lou “não merece” ser traído e tudo o mais.

E quem merece? Mas nem sempre a vida é feita de merecimentos. E há quem diga que ele não soube cuidar do que tinha. De fato. Mas a vida, como vocês sabem, é mais complicada do que parece. Em muitas situações. E a piada a longo prazo pode ser aquilo que justamente a pessoa não observa que está se tornando – e não uma água fria jogada sempre no momento errado. Aliás, que bela simbologia esta. Como outras do filme.

Há uma antítese maior do que Lou e Daniel? O primeiro, um sujeito metódico que faz sempre a mesma variação de pratos em busca de um resultado culinário perfeito. Acostumado a uma determinada rotina, feliz por estar casado com a mulher que ama, ele já não observa oa matizes, as nuances, o que está de fato acontecendo com Margot. O segundo, Daniel, um cara que faz qualquer coisa para ganhar dinheiro e pagar as contas enquanto ele dedica o seu talento para a arte que não mostra pra ninguém. E o qualquer coisa que ele escolheu é algo inverso ao Lou que fica em casa: ele sai pelas ruas andando e correndo com um riquixá (tipo de táxi em que uma pessoa puxa uma carroça de duas rodas em que podem ser acomodadas uma ou duas pessoas).

Enquanto um engorda e sua com a barriga no fogão, o outro acorda cedo, tem horários diferenciados de todo mundo, e mantem o porte atlético porque corre pelas ruas da cidade. Mas a vantagem de Daniel não se limita apenas a escolha do que ele faz para viver, e de seu porte físico. No caso de Margot, uma jovem linda, mas um tanto confusa e/ou sensível demais, o que realmente faz a diferença é o olhar de um e de outro. Enquanto Lou olha pra ela como quem observa a mesa de jantar, ou seja, joga o olhar para algo conhecido e sem segredos, Daniel observa cada detalhe de Margot e tenta decifrá-la. A diferença de atenção entre um e outro é absurda, de tão gritante.

Neste aspecto, claro, Take This Waltz é um tanto canalha. Porque ele simplifica o estereótipo do marido acomodado e do possível amante apaixonado e, por isso, extremamente interessado. Além disso, Lou se esforça para parecer um verdadeiro pateta, com suas afirmações muitas vezes mal colocadas. Claro que esta é a forma da diretora e roteirista Sarah Polley nos convencer que Daniel é irresistível. Ainda assim, estou certa, muita gente vai odiar Margot, porque ela poderia ter evitado o contato, desviado do caminho de Daniel e se mantido próxima de Lou todo o tempo.

Mas e aí que graça Take This Waltz e tantos outros filmes do gênero teriam? O sentido destas produções é nos provocar, “fazer sonhar” com uma figura interessante como Daniel chegando assim, por acidente – mas com umas coincidências que alguns podem ler como destino. Faz parte destas produções simplificar os personagens, até para que exista o perigo e a tentação. Para que Daniel, assim como Margot, nos conquiste com os seus joguinhos de atração-repulsa. Neste caso, mais que o conteúdo, o que importa em Take This Waltz é a forma.

Essa simplificação dos personagens acaba não incomodando porque os atores principais realmente convencem com suas histórias, suas fraquezas e fortalezas. O medo de ter medo dela, visto como algo extremamente perigoso por ele, fala de cada um de nós. Porque podemos parecer fortes, cheios de certezas e muito “limpos” em nossas convicções, mas também temos pés de barro, medos, solidões e incertezas. E aceitar esta fraqueza como algo natural e presente é o que nos torna fortes. Como Margot se percebe forte ao, mesmo cheia de culpa, viver o que ela acha que tem que viver. E os outros personagens também se lançam em suas escolhas, e recebem as respostas a elas – sejam estes retornos desejados ou não.

Porque a vida é feita disto. De encontros, de desencontros, amores e desamores. E daí sim chegamos ao ápice desta história, e que torna ela mais interessante do que apenas outro filme sobre amor, fidelidade, atração e traição. Perto do fim, a um tanto irrelevante personagem Geraldine (Sarah Silverman) solta algumas pérolas que nos fazem pensar muito além da duração de Take This Waltz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após uma recaída, ela diz para Margot que ela não é melhor que ela, Geraldine. Afinal, ambas fizeram o que todos esperavam delas, e que significava a “fraqueza” de se entregarem a seus desejos/vícios. De fato, ao lembrarmos da cena inicial e que, só depois, vamos ter certeza que se tratava do avanço na “virada” na vida de Margot, é que percebemos que, provavelmente, ela viverá aquele mesmo tédio que tinha com Lou, mas agora com Daniel.

E qual será a solução para isto? Outra troca, outra traição? Algum dia isso terá fim? Daí que a sequência final é maravilhosa… porque ela mostra que esta nossa busca incessante por alguns momentos de felicidade e de prazer, talvez e possivelmente cada vez mais raros, nunca vai terminar. Sempre vamos buscá-los, seja de uma forma ou de outra. E essa incansável busca por felicidade, mesmo que em pílulas, é apenas uma forma de vencermos um pouco a nossa fragilidade e a condição humana finita. Um filme desprentensioso que nos faz sentir, vivenciar, e ainda pensar nestas questões essenciais sem forçar nenhuma barra e nem parecer “existencialista” é algo raro. E por isso mesmo, tão bom.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sou suspeita, como eu disse antes, para falar sobre Take This Waltz por duas razões: este filme é dirigido e escrito por Sarah Polley, de quem sou admiradora, e tem como protagonista a maravilhosa Michelle Williams, que a cada filme vem me conquistando mais. As duas fazem um trabalho fantástico. Polley com o seu jeito diferenciado de escrever uma história, seus diálogos “realistas” e inspirados e, em especial, nos pegar pela mão e levar história adentro. E Williams por sua entrega cada vez mais contundente em cada personagem. A atriz é, sem dúvida, uma das grandes responsáveis pelo êxito de Take This Waltz.

Os outros dois grandes “culpados” por este filme sensibilizar e criar empatia são Seth Rogen, que me surpreendeu com um papel engraçado, mas também bastante convincente; e o impressionante Luke Kirby, que acaba sendo magnético nesta produção. Curioso que o trio de protagonistas segue bem a linha de “pessoas comuns”. Nenhum deles é coberto de glamour, ou de um charme irresistível. Margot, Lou e Daniel parecem “gente como a gente”, figuras “ordinárias” e, por isso mesmo, elas conseguem ser reconhecidas e despertar paixões e torcidas.

Falando na escolha determinada de Polley em mergulhar em um estilo de filme realista, superinteressante a sequência na piscina e, em especial, do chuveiro pós piscina das garotas. Não há frase fora de contexto, neste filme. Todas foram pensadas com precisão. Por isso, interessante aquelas mulheres de mais idade ensinando para as garotas de várias gerações abaixo de que toda novidade passa. De fato. Mas os meus jovens não entendem isso, até que fiquem muito mais velhos e, daí sim, percebem que brigaram tanto, fizeram tanto, muitas vezes por tão pouco. Afinal, tudo que é novo, uma hora fica velho. Não importa o que. Ou quem.

Da parte técnica do filme, AMEI a direção de fotografia de Luc Montpellier, sempre com cores quentes, ou lentes “brilhantes”, que valorizam ainda mais a ideia de um clima sempre quente – vide os ventiladores que estão sempre ligados. Claro que este calor também remete à paixão, à conquista e ao risco da traição, da experimentação, da ousadia. Tudo está interligado e é reforçado pela fotografia. E outro elemento fundamental é a trilha sonora… deliciosa, destas que fazem a gente querer comprar o CD quando termina de assistir ao filme. Mérito de Jonathan Goldsmith, responsável pela trilha sonora.

Mas para não dizer que não falei das flores, outros nomes desta produção acabam deixando a sua digital no filme. Vale citar o trabalho de Matthew Davies no design de produção, de Aleksandra Marinkovich na direção de arte e o de Steve Shewchuk na decoração de set. Eles são os responsáveis, junto com Polley e Montpellier, pelo visual desta produção. Shewchuk, em especial, dá um baile na modificação de cenários e na “construção” do relacionamento/apartamento que surge nesta produção.

Finalmente, palmas pela ótima edição de Christopher Donaldson e para os figurinos de Lea Carlson. Todo o filme, por causa do trabalho de toda esta gente, funciona como em uma bela sinfonia.

Até o momento, Take This Waltz conseguiu uma bilheteria pequena nos Estados Unidos. O filme, que estreou em julho, conseguiu até o dia 23 de setembro pouco mais de US$ 1,2 milhão. Insignificante para os padrões dos Estados Unidos.

Take This Waltz tem participado de muitos festivais. O primeiro deles foi o de Toronto, no dia 10 de setembro de 2011. Depois ele esteve em outros 13 festivais, com destaque para o de San Sebástian, Vancouver, Hong Kong e Tribeca. Nesta trajetória, ele venceu um prêmio e foi indicado a outros oito. O único que ganhou, até o momento, foi o de Melhor Atriz em um Filme Canadense para Michelle Williams pelo Círculo de Críticos de Cinema de Vancouver.

Este filme, aliás, foi coproduzido pelo Canadá, Japão e Espanha. E para quem gosta de saber o local de filmagem das produções, ele foi rodado em Toronto e em Louisbourg, ambas cidades canadenses.

E uma curiosidade sobre Take This Waltz: em 2009, o roteiro deste filme foi colocado na The Black List – uma publicação anual que traz os melhores roteiros que não foram filmados naquele ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos, dedicando 94 críticas positivas e 27 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 78% e uma nota média de 7. Algo muito positivo para os padrões exigentes do site.

Ah sim, e uma observação importante: tenho certeza que não é por acaso que o filme comece e termine com apenas uma pessoa predominando em cena, apesar da história inteira estar focada, sempre, em duas pessoas. Certamente Polley quer nos dizer que, por mais que busquemos sempre alguém para dançar com a gente uma boa música, e por mais que vivamos grandes amores aqui e ali, no início e no final estaremos lá, sozinhos. Há mais em Take This Waltz do que a maioria talvez tenha percebido – vide a nota do IMDb.

CONCLUSÃO: Definitivamente este não é um filme com uma história muito original. Um casal que vive um momento de queda no relacionamento, em que uma das pessoas – no caso a mulher – está insatisfeita e vai percebendo, fora de casa, as cores, charme e graça que lhe falta dentro, não é narrado pela primeira vez. E nem será a última certamente, porque amores que se transformam – ou resumem, talvez – em amizade e que acabam resultando em algo diferente do que cada pessoa do casal imaginava no início sempre vão interessar as pessoas. Porque estas histórias acontecem mais do que gostaríamos. Mas a forma de Take This Waltz é o que torna o filme tão interessante. Cada escolha da diretora, a fluência de suas cenas, que parecem uma valsa do início ao fim, o carisma dos protagonistas e os diálogos interessantes tornam o conteúdo e a forma um dueto perfeito.

E para finalizar e justificar a minha nota, além de envolvente e interessante, bem acabado tecnicamente, este filme se revela, perto do final, um grande instigador filosófico. Afinal, por que seguimos fazendo o que fazemos, aquilo que todos esperam que um dia façamos outra vez, e outra vez, apesar de tentarmos desviar desta expectativa? Por que os erros se repetem? E eles, de fato, são erros, ou apenas passos inevitáveis? Existe algo inevitável? No final das contas, Take This Waltz nos fala muito bem sobre a nossa desventurada busca pela felicidade. E de uma forma singela, interessante, e nada presunçosa. Só por isso, merece os meus aplausos.

My Week with Marilyn – Sete Dias com Marilyn

Você que, como eu, tem uma paixão contagiante pelo cinema, já se imaginou acompanhando os bastidores de filmagem de uma produção com alguns dos grandes astros de sua época? Agora, imagine ter feito isso na era das grandes estrelas, ter visto e convivido de perto com Marilyn Monroe, por exemplo. My Week with Marilyn torna este sonho realidade. Nos aproxima de uma das maiores estrelas de Hollywood de todos os tempos. Conhecemos um pouco da intimidade da diva, sua fragilidade, talento e carisma. E é de cair o queixo a interpretação de Michelle Williams para o papel. Perfeita, para dizer o mínimo.

A HISTÓRIA: O filme começa nos contando que, em 1956, no auge de sua carreira, Marilyn Monroe (Michelle Williams) viajou para a Inglaterra para fazer um filme com Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Chegando lá, ela conheceu um jovem chamado Colin Clark (Eddie Redmayne), que escreveu um diário sobre os bastidores das filmagens. E o filme é a história real sobre o que aconteceu. No breu, ela aparece do lado direito da tela. Quando o holofote acende sobre ela, a diva se vira. E dá um show. Começa aí a história da experiência de Marilyn Monroe na Inglaterra, contada por Clark. Através daquele jovem fascinado pelo cinema, acompanhamos os bastidores da filmagem de The Prince and the Showgirl, e nos aproximamos de alguns dos grandes astros daquela época. Com destaque, é claro, para a complexidade da personalidade de Marilyn e das pessoas que a cercavam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Week with Marilyn): Impressionante. Ficamos fascinados com Michelle Williams como Marilyn Monroe. Da mesma forma com que o personagem de Colin Clark, embasbacado com aquela sequência inicial do filme que está sendo exibida em uma sala de cinema repleta de homens igualmente babões. Ela faz um trabalho impecável e marcante. Algumas vezes, a ponto do espectador ser até capaz de esquecer da Marilyn original, e acreditar que esta assistindo à diva na telona outra vez.

Até assistir a esse filme, eu não sabia que se tratava de uma história real, baseada nos escritos de um admirador que teve a oportunidade de conviver com Marilyn por um período. Interessante a forma com que esta história real foi contada. Bom trabalho do roteirista Adrian Hodges, baseado nos livros My Week with Marilyn e The Prince, the Showgirl and Me, escritos por Clark. Ele acerta em começar com Marilyn na telona do cinema e, a partir daí, abraçar a ótica do narrador desta história. A empatia é criada rapidamente, e isso é fundamental para o espectador continuar interessado no filme.

Além disso, claro, o diretor Simon Curtis acerta ao apostar no trabalho de seus atores. Ele evidencia não apenas Michelle Williams e Kenneth Branagh, mas o “narrador” Eddie Redmayne e todos os demais intérpretes selecionados à dedo para esta produção. E o elenco, aliás, é exemplar. Julia Ormond interpreta à diva Vivien Leigh, mulher de Laurence Olivier; Emma Watson interpreta à Lucy, que trabalha nos estúdios e atrai o protagonista; Dougray Scott interpreta a Arthur Miller, marido de Marilyn; Dominic Cooper a Milton Greene, fotógrafo e amigo pessoal de Marilyn; Judi Dench, fantástica, interpreta a Sybill Thorndike; e Zoë Wanamaker à Paula Strasberg, que não desgruda de Marilyn. Todos estes tem relevância para a história e aparecem muito bem em cena.

Eis um filme de atores. Com grandes interpretações. Como não poderia deixar de ser. Até porque esta é uma produção que conta sobre os bastidores de um filme. Então os acertos, erros, exageros, o talento e, porque não, o ego dos atores está em evidência. Interessante como My Week with Marilyn mostra astros como Monroe e Laurence Olivier de perto, com todas as suas fraquezas e talento.

Diferente de outras produções sobre bastidores do cinema, que tentam “preservar” os astros, esta tem o compromisso com a verdade, porque foi baseada nos livros de Clark. Apesar dele ter se tornado diretor de documentários mais tarde, ele nunca teve o compromisso com a preservação da intimidade das estrelas com que teve o prazer de cruzar o caminho. Por isso assistimos um filme raro, que revela na mesma proporção as qualidades e os defeitos dos astros focados pela produção.

Marilyn aparece como uma atriz que tinha problemas em embarcar em uma personagem. O filme se passa em um momento da carreira da diva em que ela tinha embarcado com tudo no “método” de interpretação visceral de Lee Strasberg. Tanto que ela aparece sempre acompanhada por Paula Strasberg no filme, com quem ele foi casado até 1966, quando ela morreu de câncer.

Interessante, aliás, o “choque” entre duas formas muito diferentes de encarar o trabalho do ator no cinema. Enquanto Marilyn, ao lado de Paula, defendia uma interpretação que partisse do “íntimo” do ator, que exigisse que ele embarcasse no personagem após entendê-lo e “vivenciá-lo”, Sir Laurence Olivier achava tudo isso uma bobeira. Ele sabia, aliás, que The Prince and the Showgirl seria apenas mais um filme “pastelão”, uma história de amor escrachada, com uma boa dose de humor, pensada para faturar bastante e agradar ao público.

Ele estava preocupado em cumprir o horário de filmagens proposto, e fazer o melhor trabalho em mais um produto da indústria. Marilyn não, ela não se encaixava nos horários e não encontrava o tom da personagem. E ainda assim, o próprio Olivier admitiria, ela se saiu muito melhor que ele.

E eis uma das qualidades de My Week with Marilyn: o filme consegue mostrar todo aquele magnetismo e presença de cena da atriz. Não é uma tarefa fácil. Até porque, para muita gente, nunca houve uma atriz como Marilyn. Ainda assim, a atriz Michelle Williams vence o desafio de interpretar mulher tão inigualável com louvores.

Mas o filme não mostra apenas as qualidades da loira platinada mais famosa de Hollywood. Simon Curtis mostra com dedicação, e sem deixar o filme piegas, a fragilidade de Marilyn Monroe. Fica evidente a dependência dela de medicamentos para dormir, por exemplo, e também por elogios das pessoas que a cercavam. Ela tinha uma grande necessidade de sentir-se amada, o filme deixa a entender, assim como de sentir-se segura. Parecia estar sempre pedindo aprovação. Isso acontecendo na vida íntima de Marilyn, ela conseguia esbanjar confiança e sensualidade na frente das câmeras e do públicos que a perseguia por onde ela fosse.

Apesar desta aparente alta carência, Marilyn também sabia muito bem o efeito que tinha no público, especialmente nos homens. Interessante como My Week with Marilyn consegue, ao mesmo tempo, mostrar os bastidores de um filme estrelado por grandes atores e atrizes e explorar tanto a intimidade da protagonista.

Já ficou famosa a cena em que ela, acompanhada de Colin Clark no ex-colégio de seu novo queridinho, pergunta para ele se aquele é o momento de Marilyn – a personagem – entrar em cena. Ela sabia interpretá-la muito bem, entrou no papel com afinco – talvez utilizando o método de Strasberg. E algumas vezes entrava em crise ao confrontar os seus desejos reais com aqueles que deveriam ser da “personagem”.

My Week with Marilyn tem um ótimo ritmo e um roteiro muito bem escrito, que equilibra os bastidores do cinema com os dramas pessoais dos personagens principais desta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas, claro, são difíceis de acreditar, como aquelas em que Marilyn parece um verdadeiro desastre nas filmagens. Mas são compreensíveis, por exemplo, as sequências dela com Clark, já que ele parecia a única pessoa autêntica e confiável naquele cenário de estrelas muito centradas em si mesmas. Importante lembrar que este filme é baseado em fatos reais e não, necessariamente, um retrato fidedigno do que realmente aconteceu. Um pouco de fantasia deve fazer parte da história – seria compreensível Clark ter aumentado alguns “contos”. 🙂

Apesar de ter um ritmo adequado e a duração exata, My Week with Marilyn só não é perfeito porque deixa um gosto de “quero mais”. Talvez ele pudesse ter um pouco mais de tempo e aprofundar-se naquelas pessoas que circulavam ao redor da diva. Quem não acompanha um pouco os bastidores do cinema pode ficar um pouco perdido e não fazer as ligações necessárias entre Marilyn e Paula Strasberg, por exemplo, ou entre Olivier e Vivien Leigh, entre outros.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O método de interpretação para atores de Lee Strasberg fez história. Ele fundou, em 1947, o famoso e respeitado Actors Studio, para a formação de intérpretes. E foi um nome fundamental para os tempos áureos de nomes como James Dean, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Paul Newman, Al Pacino, Robert De Niro e Marlon Brando, entre outros. Todos seus alunos. Mas o trabalho dele também rendeu polêmica, especialmente pela proximidade da família Strasberg de Marilyn. A atriz deixou grande parte de sua herança para eles.

Norma Jeane Mortenson atuou em 33 filmes, incluindo o incompleto Something’s Got To Give, de 1962, dirigido por George Cukor e que tinha Dean Martin e Cyd Charisse no elenco. O filme nunca foi terminado porque Marilyn morreu no dia 5 de agosto de 1962, quando ele estava sendo filmado. Aliás, este ano completa cinco décadas da morte da atriz. E várias homenagens, como exposições fotográficas, já começaram a ser feitas em memória da diva.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre Lee Strasberg, neste texto da Wikipédia, em inglês, há várias informações interessante sobre o ícone da escola de interpretação. E neste outro, há mais informações sobre o “método” ensinado por ele.

Tudo em My Week with Marilyn funciona bem. Mas merece destaque a deliciosa trilha sonora, assinada por Conrad Pope, fundamental para dar leveza e ritmo para a produção, e a excepcional direção de fotografia de Ben Smithard. Ele consegue reforçar a ideia de “volta ao passado” com uso de lentes que destacam cores terrais, sépia e românticas durante toda a produção. Um belo trabalho. Muito boa também a edição de Adam Recht.

Uma curiosidade interessante desta produção: Kenneth Branagh interpreta a Laurence Olivier, ator que, como Branagh, atuou ou dirigiu três produções baseadas em obras de William Shakespeare. A saber: Othello, Hamlet e Henry V.

Emma Watson me surpreendeu neste filme. Se ela seguir com esta levada, poderá superar a personagem de Hermione Granger dos filmes de Harry Potter com certa facilidade. Ela mostrou talento e carisma na produção. Conseguiu um feito difícil: aparecer quase tão bem nas cenas quanto Michelle Wiliams como Marilyn. Também gostei muito do trabalho de Eddie Redmayne, que já havia feito um trabalho excelente em Savage Grace. Esse garoto vai longe, especialmente se continuar escolhendo bem os seus papéis.

Outra curiosidade da produção: as reconstituições de cenas de The Prince and the Showgirl foram rodadas no mesmo estúdio onde o original foi filmado.

Michelle Williams ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Comédia ou Musical este ano por seu trabalho neste filme. Marilyn Monroe recebeu o mesmo prêmio em 1960 por seu trabalho em Some Like It Hot. Por outro lado, Williams foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, algo que Monroe nunca conseguiu.

My Week with Marilyn teria custado 6,4 milhões de libras. No Reino Unido, até o dia 5 de fevereiro, a produção havia arrecadado quase 3,1 milhões de libras. Nos Estados Unidos, onde Monroe fez a sua carreira, a produção foi muito melhor, arrecadando quase US$ 10,46 milhões até o dia 8 de janeiro.

Esta produção estreou no Festival de Nova York no dia 9 de outubro de 2011 e, depois, passou por outros seis festivais. Nesta trajetória, ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 31, além de concorrer em duas categorias do Oscar. Doze dos 14 prêmios que o filme recebeu foram para Michelle Williams. Merecidíssimo, devo dizer. Os outros premiados foram o ator Kenneth Branagh, como melhor ator coadjuvante segundo o London Critics Circle Film Awards, e o elenco da produção vencedor do prêmio Capri, de Hollywood.

Buscando ser o mais fiel possível com a realidade retratada na história, My Week with Marilyn foi totalmente rodado no Reino Unido. Entre outras cidades, foram feitas cenas em Londres, Hatfield, Saltwood e Windsor.

Marilyn Monroe estreou nos cinemas emprestando a sua voz para a personagem de uma telefonista no filme The Shocking Miss Pilgrim, quando ela tinha 21 anos. No mesmo ano, em 1947, ela fez a primeira aparição em um filme de Hollywood em uma ponta em Dangerous Years. No ano seguinte, ela faria o primeiro papel de destaque em Ladies of the Chorus. E a partir daí, o resto é história. Em 15 anos de carreira, ela participou de 33 produções – sendo uma delas inacabada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. Uma boa avaliação, para os padrões do site. Mas os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 130 críticas positivas e 25 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,2 – esta sim, igual a do IMDb.

My Week with Marilyn foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz, para Michelle Williams, e para Melhor Ator Coadjuvante, para Kenneth Branagh. Não levou nenhum dos dois, porque os vencedores deste ano, nestas duas categorias, foram Meryl Streep e Christopher Plummer, respectivamente. Mas ao assistir a My Week with Marilyn e The Help, percebi como a categoria de melhor atriz foi muito concorrida este ano. Mais do que as de ator e de atores coadjuvantes.

Este filme foi co-produzido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

CONCLUSÃO: Simplesmente fantástica. Michelle Williams mergulha de uma maneira na interpretação de Marilyn Monroe que, algumas vezes, não conseguimos distinguir a imagem de uma ou de outra. Uma pena que o Oscar deste ano não pudesse ser entregue para mais de uma atriz. Porque Williams merecia a estatueta tanto quanto Meryl Streep. Ela é a alma de My Week with Marilyn. Mas também impressiona o elenco formidável que aceitou aparecer nesta produção. Não há desempenhos ruins em cena. E o roteiro, narrado sob a ótica de um grande admirador da Sétima Arte que batalha por um espaço nos bastidores de uma grande filmagem, nos aproxima daquela história. Provoca empatia, ao ponto de sermos envolvidos naquele enredo como se nós mesmos estivéssemos na pele do protagonista. O roteiro é inteligente, os atores ótimos, e a direção de Simon Curtis acerta no tom, focando sempre os melhores ângulos de cada cena e valorizando o trabalho dos atores. Um recorte interessante sobre um momento específico da diva, que merecia esta aproximação em um filme sem grandes pretensões. E que, por isso mesmo, se mostra tão interessante.