War Horse – Cavalo de Guerra


O céu se parece muito, pode até que seja o mesmo de Gone with the Wind. Mas a história… quanta diferença daquela de um dos maiores clássicos do cinema! War Horse é um filme que resgata aquele céu, apesar de ser ambientado em outra época, em outra local e com um foco muito diferente. O novo filme de Steven Spielberg tem um belo visual, uma trilha sonora poderosa e uma “atuação” de um cavalo poucas vezes vista no cinema. E isso é quase tudo. Spielberg já fez filmes melhores, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: O sol nasceu há pouco, e a câmera percorre campos verdejantes no amanhecer. A luz vai iluminando as propriedades cada vez com mais força, até que chegamos a três homens que cuidam de um cavalo, enquanto Albert Narracott (Jeremy Irvine) observa tudo ajoelhado atrás de um portão. O garoto está fascinado. Os homens acalmam a égua, que acabou de ter um cavalo. O potro se levanta. O tempo passa, ele cresce e corre com a mãe pela propriedade, sendo observado por Albert. Mais tarde, os cavalos serão vendidos, e o pai do rapaz, o veterano de guerra e agricultor Ted (Peter Mullan), pagará caro pelo potro crescido. A partir daí, o filme acompanha a amizade entre o cavalo e Albert.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já leu a War Horse): As maiores qualidades deste filme ficam evidentes logo de cara. Para começar, a trilha sonora do veterano premiado John Williams. Sem o virtuosismo do trabalho dele e sua “malemolência” em brincar com algumas cenas – especialmente quando Ted Narracott aparece -, o filme não seria o mesmo. Outro elemento fundamental é a direção de fotografia do grande parceiro de Spielberg, Janusz Kaminski. Os dois trabalham juntos desde 1993, quando Kaminski respondeu pela fotografia de Schindler’s List – um dos pontos fortes da produção vencedora de sete Oscar’s.

Não demora muito também para aparecer o terceiro elemento fundamental desta produção: o personagem do cavalo Joey. Digo o personagem porque, o cavalo, propriamente, fica difícil de identificar. Segundo as notas de produção de War Horse, foram utilizados, no total, 14 cavalos para “interpretar” a Joey. Mesmo tantos cavalos tendo aparecido em cena, o que se “destacou” na interpretação se chama Finder, e foi o mesmo que apareceu no filme Seabiscuit.

A vantagem de War Horse é que ele apresenta logo as suas “armas”. Porque o restante do filme é bastante óbvio e sem surpresas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, alguém duvidou, por um segundo que fosse, que Joey não reencontraria Albert? E que o cavalo não participaria de pelo menos uma cena espetacular, no melhor estilo de Dances with Wolves? Aliás, vocês lembram daquela cena emblemática da cavalgada? A diferença é que, desta vez, o que assistimos é um cavalo solitário, desesperado, que tenta simbolizar toda a necessidade de sobrevivência selvagem plasmada em cada centímetro das trincheiras e campos de batalha da guerra que for. Aquela cena é de “cortar o coração”, claro, porque o espectador vê aquele desespero e sabe que o animal está sofrendo. A brutalidade da cena, mais uma vez, simboliza o absurdo da própria guerra.

O curioso é que, como ocorre na vida real, os inimigos se comovem e se unem por causa de um animal. Vocês já viram como as pessoas se solidarizam e unem as forças quando é para defender um animal machucado ou abandonado? Impressiona. Com isso, não estou criticando a ação. Pelo contrário, acho válida. Mas só gostaria de ver a mesma convicção e paixão para defender a causa dos animais feridos e abandonados para agarrar outras causas igualmente válidas. Só acho irônico quando encontro pessoas tão apaixonadas pela causa dos animais, mas incapazes de estender a mal para uma outra pessoa, ou mesmo de ter paciência com o pai, a mãe, ou algum parente mais velho e que já não tem mais a mesma memória, ou a mesma saúde de outrora. Mas bueno, não é sobre isso que fala o filme, então voltemos a ele…

Sabemos que o reencontro vai acontecer. A surpresa fica com o que vai rechear o filme entre uma situação – a da venda de Joey no início da guerra – e a outra (o prometido reencontro). A maioria das situações são previsíveis, o que torna o roteiro de Lee Hall e Richard Curtis um tanto fraco – abaixo da força necessária para realmente criar tensão ou interesse permanente no espectador.

Baseado no livro de Michael Morpurgo, o roteiro busca mostrar as várias “facetas” de uma guerra. Enfoca o front do conflito (na primeira sequência, do ataque inglês aos alemães, quando os cavalos são utilizados como montaria), os “bastidores” da guerra (do lado alemão, com os cavalos sendo utilizados para puxar armamentos pesados) e nos “arredores” da luta armada (no descanso que os animais tem ao serem cuidados por uma garotinha órfã).

Estes momentos diferentes do filme tentam ampliar o drama humano da guerra. Mostram diferenças de tratamento e de postura. War Horse deixa claro que os vilões são os alemães, que parecem ser insensíveis e encarar os cavalos apenas como peças descartáveis. Os ingleses, por outro lado, parecem ter apego aos bichos – ainda que o “sensível” capitão Nicholls (Tom Hiddleston) e o “mais durão” major Jamie Stewart (Benedict Cumberbatch, protagonista da ótima série inglesa Sherlock) utilizem os cavalos em uma disputa juvenil, para ver quem pode mais. Os únicos mais “sensatos” parecem ser os franceses Emilie (Celine Buckens), que encontra e cuida dos cavalos, e o avó dela (Niels Arestrup).

A história começa e se desenvolve, por quase metade do filme, em terras inglesas antes da 1ª Guerra Mundial eclodir. Naquele cenário e ambiente, o espectador é apresentado a um tema que foi importante naquele clássico que eu citei lá no início, Gone with the Wind: a desigualdade social.

Spielber explora, nesta primeira parte do filme, as dificuldades vividas pela família Narracott, permanentemente ameaçada de ter que deixar as terras alugadas do rico Lyons (David Thewlis). Nesta primeira parte, a mãe do protagonista, Rose (a ótima Emily Watson), tenta mostrar para o filho que o pai dele não é apenas um bêbado, mas também um homem honrado que voltou atormentado da guerra da África. O filho acaba aprendendo a lição, mas muito tempo mais tarde, quando vive na própria pele as dificuldades e absurdos de uma guerra.

A outra metade do filme é ambientada em terrenos de conflito, no embate entre ingleses e alemães na França, entre 1914 e 1918. Daí surge aquela preocupação do roteiro em mostrar diversas facetas da guerra. Pena que nenhuma das facetas mostrada desperte uma grande novidade, interesse ou emocione. Apenas o trecho com Emilie parece um pouco mais interessante, por causa do carisma da atriz Celine Buckens e do ator Niels Arestrup.

E ainda que o filme mostre alguns momentos “difíceis”, como a morte dos irmãos, os ataques questionáveis de ingleses e alemães, a brutalidade e ineficácia do avanço de algumas tropas e, principalmente, a crueldade com os cavalos, tudo parece “bonito” demais. Cenas muito plásticas, bem conduzidas, e pouco eficazes no sentido de revoltar pela brutalidade das situações. Apenas as sequências com os cavalos me pareceram na medida certa.

Depois do filme perder a força com o “recheio” narrativo, voltamos para um “grand finale”, muito bem dirigido e bonito pela direção de fotografia. Os atores fazem um bom trabalho, mas o destaque fica, realmente, com os cavalos. A nota abaixo é uma homenagem a eles, muito mais que uma avaliação justa para a produção.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: War Horse e Hugo são as duas mega produções que conseguiram um espaço na lista dos nove indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano. Hugo é superior a War Horse, não apenas porque Martin Scorsese conseguiu inovar, pensando um filme que explorasse muito bem os efeitos 3D do cinema atual, mas também porque Spielberg não saiu do tradicional. Nada que ele apresenta aqui já não foi apresentado por ele mesmo em filmes anteriores ou por outros cineastas. Tanto é verdade que Spielberg não foi lembrado na categoria Melhor Diretor, mas Scorsese sim.

Todos os atores deste filme fazem um bom trabalho. Destaque para Jeremy Irvine, que está muito bem como o protagonista. Ele consegue expressar a emoção, a inocência e a maturidade do personagem de forma convincente. Depois, os veteranos Peter Mullan e Emily Watson fazem uma boa dobradinha. Niels Arestrup se destaca, mesmo em um papel relativamente pequeno, assim como a garota Celine Buckens, bastante carismática.

Além deles e dos demais citados, vale comentar o trabalho de coadjuvantes como Toby Kebbell, o soldado que encontra Joey; David Kross como Gunther, o irmão mais velho de Michael (Leonard Carow) e que resolve fugir com os cavalos; e Matt Milne como Andrew Easton, amigo de Albert.

Mesmo que o filme seja bastante previsível, algo temos que admitir: War Horse é uma bela reconstituição de época. Um trabalho ótimo e que movimentou milhares de figurantes. Na parte técnica do filme, e que lhe garantiu a qualidade que ele tem de reconstituição de época estão os ótimos trabalhos de Rick Carter no design de produção; a direção de arte da equipe de Andrew Ackland-Snow; a decoração de set de Lee Sandales e os figurinos de Joanna Johnston.

Esta nova produção de Spielberg foi exibida pela primeira vez em uma premiere em Nova York no dia 4 de dezembro. No dia 25 do mesmo mês ela entrou em cartaz nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival.

Ainda assim, War Horse ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 33, além de concorrer este ano a seis Oscar’s. Entre os prêmios que ganhou, destaque para o de filme do ano no AFI Awards; e os de melhor fotografia segundo a escolha da crítica do prêmio da Broadcast Film Critics Association e o Satellite Awards.

War Horse, pelas características da produção comentadas anteriormente, custou uma pequena fortuna: US$ 66 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme arrecadou, até 19 de fevereiro, pouco mais de US$ 78,7 milhões. No restante do mundo, a bilheteria somada até 21 de fevereiro chegou perto de US$ 133,5 milhões. Somadas, as bilheterias ultrapassam os US$ 200 milhões. Nada mal. E a garantia de que o filme pode ser considerado um sucesso – ainda que nenhum “arrasa-quarteirão”.

E uma curiosidade sobre o filme: ele foi totalmente rodado na Inglaterra. Mas especificamente em Devon, Surrey, Wiltshire e Bedfordshire. Foram rodadas cenas também no estúdio Twickenham, em Middlesex.

Esta produção foi baseada nos dois livros com nome similar publicados no Reino Unido em 1982 e de autoria de Michael Morpurgo, escritor de literatura infantil que recebeu, em 1999, o título M.B.E. (membro da Ordem do Império Britânico, em uma tradução livre).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção. Nada mal, levando em conta que eles costumam ser bastante rígidos nas avaliações. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos, dedicaram 150 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 7.

Há um detalhe na produção que não faz diferença para a história mas que, mesmo assim, me incomodou um bocado: todos falarem inglês. Não seria muito mais lógico os alemães, quando falam entre si, falarem alemão e os franceses o francês? Claro que Spielberg preferiu simplificar as coisas e deixar todo mundo falando inglês para cair “melhor” no gosto do público que mais lhe interessava, o norte-americano. Ainda assim, achei uma falha.

O ator Jeremy Irvine, que antes deste filme só tinha trabalhado como ator na série Life Bites, estreada em 2009, vai começar a aparecer mais para o grande público. Depois de War Horse, ele atuou em Now Is Good, pronto mas ainda inédito; Great Expectations, em pós-produção, e The Railway Man, em fase de pré-produção.

Se existesse um Oscar para o cavalo mais sofredor do cinema, teríamos uma disputa boa entre os animais de War Horse e A Torinói Ló, filme húngaro que contou com recursos também da França, Alemanhã, Suíça e Estados Unidos. Eu votaria no de War Horse. 🙂

CONCLUSÃO: Steven Spielberg começou a carreira inovando e, entre os anos 1974 e 1998, ficou conhecido por destilar algumas obras-primas do cinema moderno. Mas de lá para cá, o diretor parece ter perdido aquela força inicial. War Horse, seu último filme, mostra isto. Ao invés de inovar, de ajudar o cinema a reinventar-se, Spielberg repete fórmulas para fazer um filme comovente, mas que não passa disso. Ele não apresenta novas ideias na forma e nem no conteúdo. Praticamente qualquer diretor mediano poderia chegar ao mesmo resultado. O filme trata de amizade, de aprendizado, de reconhecimento dos valores que importam, da mesma forma com que aborda a miséria e o preço alto exigido por uma guerra – neste caso, a 1ª Guerra Mundial. Mas poderia ser qualquer guerra… O melhor da produção é o cavalo “protagonista”, a trilha sonora e a direção de fotografia. Mas nada que faça alguém perder o sono ou sonhar além da conta. Algo básico. Muito distante dos melhores tempos de Spielberg.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: War Horse está concorrendo em seis categorias nesta edição da maior premiação de Hollywood. Ele disputa como Melhor Filme, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Como Melhor Filme ele não tem chances. Seria uma grande zebra ele levar a melhor frente a The Artist, Hugo ou The Descendants. Em Direção de Fotografia ele já tem alguma chance. Ainda que a disputa este ano seja acirrada… Kaminski terá que desbancar Emmanuel Lubezki, de The Tree of Life; Robert Richardson, de Hugo; e Guillaume Schiffman de The Artist. Difícil acertar nesta categoria, mas acho que Kaminski pode levar a melhor.

Em Melhor Direção de Arte a briga também será boa, especialmente porque estão no páreo The Artist, Hugo e Midnight in Paris. Outra vez difícil apontar o ganhador, mas acho que Midnight in Paris pode levar. Em Melhor Trilha Sonora, outra vez trabalhos excepcionais, de feras e veteranos. No páreo, junto com War Horse, estão The Artist e Hugo. Aqui eu votaria em The Artist.

Para fechar, as categorias de som. Em Edição de Som, vejo a vida de War Horse bastante difícil, porque ele concorre com Drive, Hugo, Transformers: Dark of the Moon e The Girl with the Dragon Tattoo. Destes, acredito que tenham mais chances Hugo, Drive e Transformers, nesta ordem. Em Mixagem de Som, outra batalha forte, com quase todos os indicados anteriores, exceto por The Artist, que sai de cena para deixar espaço para Moneyball. Difícil dizer o vencedor, mas talvez seja Hugo.

Se os palpites confirmarem, War Horse pode ganhar apenas o Oscar de Melhor Fotografia. Ou sair da premiação de mãos abanando – o que também não seria uma surpresa. Especialmente porque ele foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro e não levou em nenhuma delas.

Anúncios

4 comentários em “War Horse – Cavalo de Guerra

    1. Oi “Fora de Cena”!

      Fico feliz que tenhas gostado do filme.

      Eu achei bom, nada muito além disso.
      Agora, de fato, é uma bela história. E bem contada, no geral.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui outras vezes.

      Abraços e inté!

      Curtir

  1. “Cenas muito plásticas, bem conduzidas, e pouco eficazes no sentido de revoltar pela brutalidade das situações.”

    Não sei você, mas eu nunca busco um filme para me revoltar, por isso achei o filme fenomenal e muito bem feito em todos os sentidos. E de fato, não creio que este seja o estilo de Spielberg, revoltar as pessoas, mas sim abrir seus olhos e emocionar. Assim sendo, mesmo não tendo nada de inovador, ele consegue cumprir exatamente seu papel.
    Só o que me soou um pouco estranho foi o idioma mesmo, mas fora isso, pra mim foi um ótimo filme.

    Abraços

    Curtir

    1. Olá “A”!

      Primeiramente, obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Seja bem-vindo por aqui.

      Então, acho que você não me entendeu. Não procuro um filme para me sentir revoltada. Mas não tenha dúvida que algumas histórias que são contadas no cinema são construídas de uma determinada forma para provocar determinadas reações nos espectadores. Muitos e muitos roteiristas e diretores tem propósitos bem específicos e mente – que não se restringem apenas a faturar dinheiro, abrir os olhos de alguém ou “emocionar”.

      Sim, Spielberg gosta de emocionar. Mas o que seria, então, “abrir os olhos” do público? Em filmes como este e como o aquele clássico do diretor, Schindler’s List, este “abrir os olhos” nada mais é do que apresentar uma história revoltante, com alguns absurdos no meio… e se ao mostrar um absurdo você não se revolta… bem, com todo o respeito, mas acho que podes estar um pouco anestesiado.

      Da minha parte, quando vejo algo absurdo, fico revoltada sim. Odeio injustiças e crueldade. E acho que nunca vou me conformar em vê-las, mesmo no cinema, e não sentir nada com isso. Sendo assim, acho sim que Spielberg e outros cineastas contam estas histórias para mexer com o público, para tirar as pessoas da inércia.

      Mas que bom que você achou este filme ótimo. Este é o teu direito. Assim como é o meu ter achado ele apenas bom.

      Volte por aqui mais vezes. Abraços e até mais!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s