Avengers: Infinity War – Vingadores: Guerra Infinita

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Tudo o que os fãs dos super heróis esperam para um filme estrelado por eles encontramos em Avengers: Infinity War. Para começar, o que há de melhor em efeitos visuais e virtuais. As imagens mais incríveis criadas por artistas com a ajuda da tecnologia vemos em cena. Depois, temos alguns dos personagens mais amados das HQs reunidos e um super vilão – possivelmente o mais temido de todos os tempos – para ser combatido. Embalando tudo isso, um roteiro recheado de cenas de ação, de algumas piadas perspicazes e de certo drama pincelado aqui e ali.

A HISTÓRIA: Uma nave de refugiados está sendo atacada. Famílias de asgardianos estão sendo mortas, e um pedido de socorro percorre o Universo. Dentro da nave, Ebony Maw (Tom Vaughn-Lawlor), um dos mais fieis seguidores e aliados de Thanos (Josh Brolin), diz para as vítimas que elas devem se alegrar, porque elas serão sacrificadas em nome do equilíbrio do Universo. Thanos, por sua vez, diz que o destino sempre chega, e exige que Loki (Tom Hiddleston) lhe entregue o cubo de Tesseract para que Thor (Chris Hemsworth) não seja morto.

Thor diz que não adianta Thanos pedir por Tessaract porque ele foi destruído em Asgard. Mas Loki mostra o cubo e entrega uma das Joias do Infinito que Thanos tanto queria. Apesar de ceder, Loki diz que eles continuarão a ver a luz do dia, e afirma que eles tem o Hulk (Mark Ruffalo). Ele ataca Thanos, mas acaba sendo vencido. Antes de Hulk ser morto, contudo, Heimdall (Idris Elba), que está caído no chão, consegue enviar o gigante verde para a Terra. Agora, Thanos tem duas Joias do Infinito. Em breve, ele seguirá atrás das outras quatro, incluindo duas que estão na Terra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avengers: Infinity War): Eu prometo tentar não escrever um texto gigante sobre esse filme, beleza? 😉 Como já comentei antes em algum texto aqui no blog, eu sempre fui uma grande fã de HQs. Li bastante, especialmente na adolescência. Hoje, leio mais The Walking Dead, apenas – e, eventualmente, alguma outra HQ mais antiga.

Dito isso, claro que eu já tinha visto os principais heróis da Marvel em ação antes. Dos vários filmes da grife lançados no cinema, assisti a alguns – mas a maioria, acredito, eu perdi. Dito isso, quero dizer sim que eu me lembrei de todos os personagens principais desse filme – exceto Thanos e seus aliados, dos quais eu não tinha lembrança.

Acho importante para você que, como eu, talvez não tenha assistido a todos os filmes de heróis da Marvel dos últimos 10 ou 15 anos, dar uma olhada nessa matéria do jornal O Globo. Nela, são citados os sete filmes mais importantes que você deveria assistir antes de conferir Avengers: Infinity War. O quarto e o sétimo filme da lista me parecem os mais importantes – os demais são bacanas também, mas para quem conhece bem os personagens dos quadrinhos, talvez eles não sejam tãoooo fundamentais assim.

Dito isso, comento que sim é possível assistir a Avengers: Infinity War sem ter visto aos sete filmes listados pelo O Globo ou mesmo às outras produções da Marvel que envolvem Os Vingadores e que não estão na lista. O importante mesmo é você conhecer relativamente bem os personagens, as suas personalidades e a importância de cada um naquela constelação de heróis. Fui assistir ao filme em um cinema 3D logo na primeira sessão de sábado, e qual a minha surpresa em conseguir um dos últimos ingressos para a sessão.

O cinema estava praticamente lotado – exceto pelas fileiras bem na frente, que ninguém quer. Tive sorte em consegui entrar. E gostei muito do que eu vi. Para começar, Avengers: Infinity War tem aquela pegada de uma nave no espaço sendo atacada que faz os fãs de cinema e da cultura nerd lembrarem imediatamente de Star Wars. Logo essa impressão desaparece quando vemos ao vilão Thanos, a Loki e Thor, o que nos faz “cair” rapidamente no universo da Marvel.

O começo de Avengers: Infinity War é ótimo. Com bons diálogos e uma luta bacana entre Hulk e Thanos que serve como um “cartão de visitas” do que veremos depois. Essa qualidade inicial do filme também acaba sendo um problema depois. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso porque você acaba esperando um filme cheio de cenas de ação, de disputas e de muita adrenalina, mas temos várias partes da história com “cenas emotivas” entre dois ou mais personagens.

Sim, há cenas de ação que todo fã espera, mas talvez em menor número do que gostaríamos. No fim das contas, a narrativa mostra Thanos, que acredita que tem como “missão” exterminar metade da vida no Universo para que o equilíbrio seja reestabelecido, em busca das cinco Joias do Infinito que lhe faltam – ele começa a narrativa já com a Joia do Poder. Se Thanos conseguir o seu objetivo, ele se tornará onipotente e poderá, com um estralar de dedos, exterminar metade da vida nos planetas Universo afora.

Sobrevivem àquela cena inicial do filme os heróis Thor e Hulk. Cada um deles parte em uma direção para buscar aliados para tentar impedir Thanos. E aí que a narrativa se fragmenta, com um núcleo na Terra liderado por Hulk, Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Peter Parker/Homem Aranha (Tom Holland) tentando proteger a Joia do Tempo que está com o Doutor Estranho, enquanto outro grupo, liderado por Thor e os Guardiões da Galáxia busca atacar Thanos em duas frentes.

Mesmo o grupo da Terra também acaba se dividindo. Depois de Doutor Estranho ser atacado por Ebony Maw e sequestrado por ele, o Homem de Ferro e o Homem Aranha conseguem embarcar na nave e seguir o vilão para tentar resgatar o Doutor Estranho, enquanto o Hulk, que ficou na Terra, entra em contato com Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans).

Quando o Visão (Paul Bettany), que tem a Joia da Mente, passa a ser o novo alvo dos aliados de Thanos, o herói e a sua companheira Wanda Maximoff/Feiticeira Escalate (Elizabeth Olsen) acabam sendo socorridos por Steve Rogers, Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson). Enfim, isso tudo vocês sabem, vendo o filme.

Mas fiz questão de contar toda essa fragmentação da narrativa para comentar como a história, que é linear e parece bastante “simples” no direcionamento da narrativa, acaba ganhando em velocidade e em fragmentação ao se dividir em algumas linhas de ação. Não temos apenas a Thanos perseguindo Joia por Joia. O tempo dos heróis fica mais curto porque enquanto Thanos persegue algumas Joias, os seus comparsas atacam outras frentes para conquistar as demais.

O objetivo dos heróis, por outro lado, é tentar preservar as Joias que estão no poder de dois membros desse grupo: Doutor Estranho e Visão. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto isso, boa parte da turma dos Guardiões da Galáxia – com exceção de Groot (voz de Vin Diesel) e de Rocket (voz de Bradley Cooper), que acabam seguindo a direção de ajudar Thor a forjar um novo martelo para combater Thanos -, incluindo a “filha adotiva” do vilão, Gamora (Zoe Saldana), tentam impedir Thanos de conseguir as duas Joias que estão em outros lugares do Universo.

Como os fãs dos heróis da Marvel sempre esperam dos filmes que buscam honrar os personagens das HQs, Avengers: Infinity War tem ação, humor e suspense nas doses certas. Essa produção rende algumas boas risadas, em tiradas um tanto sarcásticas com as quais estamos acostumados. As cenas de ação são ótimas, mas talvez o filme poderia ter um pouco mais desse elemento.

A narrativa, que na maior parte do tempo se apresenta bem envolvente e ágil, tem algumas desaceleradas importantes – e, algumas vezes, elas me pareceram um tanto forçadas – para explorar o lado “sentimental” dos personagens. Sim, é bacana ver a tantos personagens importantes em cena. Também faz sentido que o roteiro de Christopher Markus e de Stephen McFeely explorasse as relações entre os personagens, mas algumas sequências entre eles me pareceram um tanto previsíveis e exageradas – especialmente as sequências entre Visão e Wanda Maximoff e entre Thanos, Gamora e Nebulosa (Karen Gillan).

Mas ok, nem sempre dá para um filme tão complexo como esse, com tantos personagens e tanta narrativa contada em diversos HQs e resumida em apenas uma produção, ser totalmente coerente ou equilibrado. O que importa, no fim das contas, é que Avengers: Infinity War atende a grande parte da expectativa dos fãs do gênero. Para começar, o filme é impecável nos efeitos especiais e visuais. Depois, para os fãs, é inegável o efeito de êxtase que uma produção com tantos astros e estrelas juntos, interpretando os seus personagens preferidos, desperta.

Também são importantes – e os pontos altos do filme – as cenas de batalha, luta e as de humor. Para arrematar tudo isso, ainda temos o final dessa produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim como um dos arcos narrativos do HQ conta, em uma das realidades possíveis – o Doutor Estranho viu pouco mais de 4 milhões de alternativas ao viajar “no tempo” -, Thanos consegue todas as Joias do Infinito e faz realmente a limpa que ele gostaria no Universo.

Não deixa de ser emocionante e até de nos arrepiar quando vemos, no final de Avengers: Infinity War, diversos heróis sumindo na nossa frente após o sucesso de Thanos. É de doer o coração ver a T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman), o Homem-Aranha, Doutor Estranho, Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt) e tantos outros partirem tão repentinamente. Quando o filme acaba, a plateia fica se perguntando se aquilo realmente aconteceu.

Bem, avaliando as HQs que tratam sobre esse assunto, sim, em um dos arcos narrativos Thanos conseguiu exatamente o que queria. E se metade da população do Universo foi exterminada com o estrelar de dedos dele, é de se presumir que metade – ou um pouco menos – dos heróis também passaria pelo mesmo, não é?

Ainda assim, segundo o próprio Doutor Estranho comentou ao viajar no tempo, havia uma possibilidade – entre mais de 4 milhões – dos heróis vencerem o vilão. Quem sabe essa possibilidade realmente não aconteceu em alguma realidade paralela e os heróis conseguem reverter o que sucedeu nas demais linhas narrativas?

Estou apenas fazendo uma especulação aqui. Mas mesmo que o final seja aquele mesmo, interessante ver a um filme da Marvel que não termina com os heróis se dando bem – afinal, nem sempre é isso que acontece. Uma outra possibilidade que vejo no desdobramento desse filme é que na próxima produção os Vingadores e os Guardiões da Galáxia que restaram realmente unam as forças (talvez até com a adição de outros heróis) e, ao derrotar Thanos, eles consigam “restabelecer” a vida com a Manopla do Universo e as suas Joias. Afinal, se um estralar de dedos mata metade da população do Universo, por que um novo estralar de dedos não poderia “reviver” as mesmas pessoas? A conferir, pois.

Pensando na cena que vemos após os créditos e que mostra Nick Fury (Samuel L. Jackson) também desaparecendo, mas, antes, enviando uma mensagem de Código Vermelho, podemos presumir que o alerta será respondido por alguém. Provavelmente pelos heróis que restaram – e que devem se reunir para enfrentar Thanos. Então muito mais virá pela frente ainda.

Finalizando essa crítica, comento que esse filme me agradou, mas que ele teve um impacto menor do que outra produção recente que assisti baseada em HQs: Black Panther (comentada por aqui). Se, por um lado, Avengers: Infinity War agradou pelos efeitos visuais e especiais e por fazer desfilar tantos astros e personagens legais na nossa frente, por outro lado essa quantidade de personagens torna a narrativa menos rica. Diferente de Black Panther, que teve muito mais espaço para desenvolver os personagens e suas relações.

Apesar disso, vale comentar como Avengers: Infinity War trata de um assunto que parece exagerado mas que já fez parte da nossa história no passado e que volta à tona agora, com o recrudescimento de posturas de direita extremista: o desejo de alguns de determinar quem deve viver ou morrer e de, movidos por essa ânsia, promover “limpas” e/ou genocídios de contingentes importantes em nome de um “equilíbrio” da sociedade.

Hitler, antes, defendia o extermínio de vários grupos que não eram da “raça superior”. Vários políticos, atualmente, querem fechar fronteiras para refugiados, tirar do próprio território pessoas que eles consideram “indignas” de estar no país e outros tipos de exclusão/extermínio por causa de raça ou credo.

Muitos, a exemplo de Thanos, defendem essas práticas em nome do “equilíbrio” e como solução para o crescimento da população e a diminuição dos recursos finitos da Terra. Assim, guardadas as devidas proporções de um filme de ficção e baseado em HQs, Avengers: Infinity War nos faz pensar sobre questões bastante reais e que fazem parte da nossa realidade – mesmo que não estejamos inseridos (ainda) em regimes de exceção. Mas vale o alerta – e a reflexão.

Dito isso, devo comentar que sim, Avengers: Infinity War e Black Panther são estilos de filmes bem diferentes, com propostas igualmente diferenciadas. Mas, inevitavelmente, sempre comparamos as nossas experiências com o cinema. Assim, sendo, gostei sim de Avengers: Infinity War, mas não tanto gostei de Black Panther. Dito isso, quero dizer que vale muito a pena assistir a Avengers: Infinity War em 3D e nos cinemas, é claro.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu li a algumas histórias de Thanos. Mas não sou nenhuma especialista no super vilão e em suas peripécias envolvendo Os Vingadores e demais heróis das HQs – como o Surfista Prateado. Mas do que eu conheço e do que eu li, me parece que Avengers: Infinity War toma diversas “licenças poéticas”, digamos assim. Parece que o filme não é muuuuito fiel aos quadrinhos. E beleza os realizadores produzirem algo diferente, mas fico me perguntando se o filme ficou melhor que o original. Se tiver algum especialista por aqui que puder comentar, agradeço.

Falando em Thanos e as suas peripécias, se você, como eu, não é um(a) especialista no assunto, sugiro dar uma conferida em dois sites que ajudam a nos situar sobre esse personagem e as suas narrativas na Marvel. A primeira leitura que eu recomendo é essa, do site Universo HQ, que dá uma bela resumida no personagem e em suas aparições em gibis da Marvel. Depois, sugiro a leitura desse texto do site Aficionados que traz um bom resumo sobre as Joias do Infinito, incluindo a função de cada um delas e os seus atuais e antigos detentores. Leituras bastante recomendadas e que ajudam a rememorar e/ou conhecer alguns fatos envolvendo Thanos e as Joias.

Enquanto eu via o vilão Thanos na minha frente, era impossível para mim não lembrar de personagens da mitologia grega como Thánatos e Hades. Quem já ouviu falar deles – quem sabe em uma música da Legião Urbana – sabe que eles estão ligados à morte e à destruição. Ou seja, faz muito sentido o nome de Thanos, que acredita que tem como “missão” matar para colocar equilíbrio no Universo. Quem quer saber um pouco mais sobre Thánatos e Hades, pode encontrar uma boa introdução nesse texto da Wikipédia.

O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely é inspirado em uma série de personagens criados por alguns dos grandes gênios da história das HQs. Vale citar toda a inspiração dos roteiristas: eles se inspiraram nos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby; no personagem do Capitão América criado por Joe Simon e Jack Kirby; no Senhor das Estrelas (Star-Lord) criado por Steve Englehart e Steve Gan; no Rocket Raccoon criado por Bill Mantlo e por Keith Giffen; no Thanos, Gamora e Drax criados por Jim Starlin; no Groot criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby; e na Mantis criada por Steve Englehart e Don Heck.

Como comentei antes, um dos destaques de Avengers: Infinity War é o elenco estelar da produção. Entre os vários nomes em cena, destaco as atuações de Chris Hemsworth, de Mark Ruffalo, de Benedict Cumberbatch, de Zoe Saldana, de Josh Brolin e de Chris Pratt. Aparecem bastante na produção, mas achei que com um nível de interpretação um pouco menor, os atores Robert Downey Jr., Chris Evans, Scarlett Johansson e Tom Holland. Eles estão bem, mas acho que se destacam menos que os anteriores.

Além deles, vale citar o bom trabalho de Scarlett Johansson, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Karen Gillan, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Vin Diesel, Bradley Cooper, Benedict Wong e Letitia Wright. Eles aparecem um pouco menos que os atores citados anteriormente, mas fazem um bom trabalho. Estão bem no filme, mas em papéis ainda menos – quase de pontas – os atores Tom Hiddleston, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Idris Elba, Danai Gurira, Peter Dinklage, Pom Klementieff, Dave Bautista, Gwyneth Paltrow, Benicio Del Toro, Winston Duke e Florence Kasumba.

Os diretores Anthony Russo e Joe Russo fazem um belo trabalho com Avengers: Infinity War, especialmente nas cenas de ação. Pena que o roteiro não acompanhou tão bem o talento dos diretores.

Avengers: Infinity War teve a sua première em Los Angeles no dia 23 de abril de 2018. No dia 25, dois dias depois da première, o filme estreou nos cinemas de 25 países. No dia 26, estreou em outros 28 países, incluindo o Brasil. Assisti ao filme ontem, dia 28 de abril, em uma sessão praticamente lotada.

O filme deve consagrar-se com uma das grandes bilheterias de todos os tempos. Segundo o site Box Office Mojo, Avengers: Infinity War faturou, até o dia 29 de abril, US$ 250 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 380 milhões nos outros países em que o filme estreou até essa data. Ou seja, em poucos dias, ele faturou US$ 630 milhões. Se seguir nessa pegada, logo ele será um filme com faturamento bilionário. Impressionante. Quem mesmo disse que as pessoas não vão mais nos cinemas? Para determinados filmes, não faltará público e lucro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As filmagens de Avengers: Infinity War começou em janeiro de 2017 e terminou em janeiro de 2018. Essa produção foi rodada simultaneamente ao novo filme Avengers, que dá continuidade a Infinity War mas que ainda não tem o título definido e que deverá estrear nos cinemas em 2019.

De acordo com o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, a formação dos Vingadores vai mudar substancialmente entre esse filme lançado em 2018 e o próximo que será estrelado pelo grupo de heróis. Dá para entender o porquê disso assistindo a Avengers: Infinity War. 😉 Ainda segundo Feige, Avengers: Infinity War é o ponto alto de toda a saga dos super heróis da Marvel porque esta produção seria o “resultante” de todos os filmes anteriores.

Nesse filme, os atores Robert Downey Jr. e Chris Evans completam nove produções em que eles interpretam os personagens Homem de Ferro e Capitão América, respectivamente. Assim, eles empatam com Hugh Jackman, que também interpretou em nove filmes o personagem Wolverine. Mas tanto Downey Jr. quanto Evans demoraram muito menos tempo que Jackman para chegar a esse marco de nove produções interpretando o mesmo herói de HQ. Enquanto Jackman demorou 16 anos para somar esses nove filmes, Evans demorou sete anos e Downey Jr. demorou 10 anos.

Avengers: Infinity War é o primeiro filme – sem ser um documentário – totalmente filmado com câmeras IMAX.

O primeiro trailer de Avengers: Infinity War registrou 200 milhões de visualizações em 24 horas, o que estabeleceu um novo recorde para visualizações de um trailer em um único dia.

Quando eu estava no cinema, eu achei o filme um tanto longo… mas só agora eu me dei conta que Avengers: Infinity War tem 156 minutos de duração, ou seja, 2 horas e 36 minutos! Uau! No cinema, ele parece longo, mas não dá para perceber que ele tem mais de duas horas e meia. Por ter toda essa duração, Avengers: Infinity War é o filme baseado em HQs mais longo da história do cinema.

De acordo com os produtores do filme, Avengers: Infinity War está inspirado em três marcos narrativos das HQs da Marvel: The Infinity Gauntlet, The Thanos Imperative e Infinity. O enredo Civil War das HQs da Marvel, contudo, não tem nada a ver com a narrativa do filme. Que bom que esclareceram isso, porque realmente me pareceu estranho as HQs e o filme terem o mesmo nome mas não terem nada a ver uns com os outros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 9,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 226 críticas positivas e 42 negativas para o filme, o que lhe garante um nível de aprovação de 84% e uma nota média de 7,5. Especialmente o público está amando essa produção – mais do que os críticos. Reação mais que compreensível dos super fãs do Universo Marvel. No site Metacritic, Avengers: Infinity War apresenta um metascore de 68. Esse indicador resume 38 críticas positivas, 13 medianas e uma negativa.

Avengers: Infinity War é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há bastante tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Todos esperavam pela estreia de Avengers: Infinity War. Os fãs de HQ “raiz”, os fãs dos filmes que estão arrasando as bilheterias a cada nova estreia e mesmo aqueles que não são tão fãs assim desse gênero. Afinal, tanto se falou dessa produção… Como filmes do gênero competentes foram lançados recentemente, ficou difícil para esse filme superar toda essa expectativa. Então sim, Avengers: Infinity War é uma bela experiência de cinema. Um show de efeitos especiais e um belo desfile de astros e estrelas. O filme também agrada por não acabar de maneira óbvia, mas está longe de ser uma produção inesquecível. Vale pelo entretenimento e pelo visual. Mas isso é tudo.

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The Imitation Game – O Jogo da Imitação

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Quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a História com H maiúsculo que aprendemos na escola está distante da verdade. Evidente que não é possível aprender, no período de 11 anos que incluem o primeiro e o segundo grau, grande parte da história humana com certa profundidade. Ainda assim, eventos inevitáveis de qualquer estudo da História, como a Segunda Guerra Mundial, nos foram ensinados de maneira tradicional, muitas vezes chata. Até que filmes como The Imitation Game nos apresentam a verdade de maneira mais que interessante. Excepcional. Esta produção tem um fundo histórico fortíssimo, mas também histórias de gente inspiradoras.

A HISTÓRIA: Primeiro, o filme deixa claro que o que veremos é baseado em uma história real. 1951, em Manchester, Inglaterra. Alan Turing (Benedict Cumbertbatch) está sentado quieto em uma sala da delegacia local quando chega o detetive Robert Nock (Rory Kinnear). Turing pergunta se ele está prestando atenção, porque o que ele vai contar precisa de atenção total. Voltamos no tempo, e vemos cenas do Serviço de Inteligência (MI6) britânico, que recebe a mensagem de que Turing foi assaltado. Mas o que um professor universitário teria a ver com o Serviço de Inteligência? E quais as razões para ele dizer que, apesar de ter tido a casa invadida, nada foi levada? Pouco a pouco vamos adentrando na história do protagonista e de seus feitos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imitation Game): Esta é uma produção muito, mas muito diferente de Boyhood. E, ao mesmo tempo, guarda semelhanças com aquele que, até agora, eu tinha achado o melhor filme na disputa pelo Oscar 2015. Enquanto Boyhood (com comentário aqui) acompanha o amadurecimento de um garoto da infância até a ida dele para a universidade com o diferencial de vermos o processo acontecendo na nossa frente, The Imitation Game nos revela o amadurecimento de uma sociedade.

As duas produções também valorizam qualidades como a amizade, o companheirismo e a forma surpreendente com que algumas pessoas podem se revelar melhor do que os outros acreditavam inicialmente. As semelhanças terminam aí. The Imitation Game é um filme de época e que trata de um período chave para a sociedade atual: a Segunda Guerra Mundial e o seu desfecho.

O impressionante da obra, contudo, é que ela não trata apenas deste período histórico, jogando luz no trabalho de descoberta do código de criptografia nazista, fato escondido por cinco décadas e fundamental para a época, mas também, e especialmente, nos apresenta uma história muito humana.

O roteiro de Graham Moore é digno de ser estudo. Ele consegue o equilíbrio perfeito entre o drama histórico e a cinebiografia, adentrando na vida e nas aspirações de Turing ao mesmo tempo em que narra os bastidores da quebra da lógica da Enigma, máquina dos nazistas que todos os dias tinha os códigos alterados para o envio de mensagens fundamentais (ou não) para a guerra.

Verdade que ele não inventa a roda. Moore faz uso daquela técnica já bem conhecida de intercalar diversos tempos narrativos. Então a história começa com Alan Turing na delegacia, prestes a responder por um crime absurdo – e que por não ser considerado mais crime demonstra que, mesmo que lentamente, a Humanidade avança -, depois migra para a fase da Segunda Guerra Mundial para, finalmente, retroceder ainda mais na infância do protagonista. Todas estas “viagens temporais” fazem sentido para a história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, como entender a angústia de Turing ao ser preso e depois condenado por “práticas homossexuais” sem saber a importância histórica do personagem – daí a volta para a época da Segunda Guerra -, e como compreender o apreço dele por seu invento e pelo nome de Christopher sem conhecer a amizade e o companheirismo do primeiro amor dele?

A forma com que a história flui nos três tempos narrativos e a condução que o diretor Morten Tyldum faz de cada detalhe da narrativa são dois pontos fortes do filme. Não adianta. Sem um ótimo roteiro e uma direção competente, não há filme que se destaque no cinema atualmente. The Imitation Game tem estes dois elementos e mais um elenco muito afiado, com nomes bem conhecidos do cinema ou da TV dos Estados Unidos e do Reino Unido.

O ótimo Benedict Cumberbatch faz uma interpretação memorável de Alan Turing, este homem brilhante que tinha uma grande dificuldade de se relacionar e dialogar com as pessoas – como muitos dos grandes gênios que a Humanidade já teve, aliás. Em alguns momentos, ele até parece ter um pouco de autismo. Mas conforme a história vai nos mostrando o que Turing passou na escola, entendemos um pouco mais das razões que fizeram ele ser um cientista centrado no próprio trabalho e pouco afeito a atuar em grupo.

Por falar em grupo, que bela escolha de elenco para esta produção! Parabéns para Nina Gold pelo excelente trabalho com esse time de craques. A estrela, claro, é Benedict, mas ele deixa brilharem também Keira Knightley como Joan Clarke, a única mulher no grupo que trabalhou para decifrar a máquina Enigma; Matthew Goode, recente revelação da série The Good Wife, que interpreta a Hugh Alexander; Allen Leech, mais conhecido pelo trabalho em Downtown Abbey, que faz as vezes no filme de John Cairncross; e Matthew Beard, um pouco atrás dos outros na interpretação, que dá vida no filme para Peter Hilton. Esses cinco foram fundamentais para a reviravolta que os Aliados tiveram na última grande guerra de proporções mundiais.

O elenco afiado é um elemento a mais para o filme dar certo junto com o roteiro e a direção. Mas para completar o quadro, os elementos técnicos de The Imitation Game também cumprem o seu papel. Tudo funciona bem. Falarei deles mais detalhadamente abaixo. Voltemos agora um pouco para a história. Por que ela é tão fascinante?

Primeiro porque a narrativa é envolvente e foca em uma história pouco contada no cinema. Nem poderia ser diferente. Apenas no final dos anos 1990 veio a tona o trabalho de Turing e equipe. Sem contar que filmes sobre a Segunda Guerra Mundial que trazem elementos novos para o entendimento daquela época sempre são fascinantes. O mais comum, contudo, é vermos infindáveis cenas de batalha e de heroísmo. The Imitation Game nos revela o trabalho de bastidor de muita gente que atuava em outra frente, a da inteligência, e não da força bruta.

Este novo ângulo por si só é interessante. Agora, adicione a isso um olhar detalhado sobre a trajetória de um cientista menos conhecido mas que, no fim das contas, foi fundamental para que eu estivesse agora escrevendo este texto em um notebook e para que você estivesse lendo estas letras em seu computador ou dispositivo móvel. Este homem, considerado estranho, isolado, pouco afeito a conversas, foi quem idealizou e defendeu em artigos científicos que as máquinas também pudessem pensar.

Em uma das cenas mais bacanas do filme, Turing provoca o policial que o está interrogando a testá-lo para saber se ele é uma máquina ou um humano. A lógica proferida por ele naquele momento é maravilhosa, digna de guardar na memória ou escrever em um quadro. E claro que serve não apenas para refletir sobre as máquinas, mas sobre nós mesmos. Afinal, todos temos formas diferentes de raciocinar, mas todos nós pensamos. Sejamos executivos, empregados, santos ou bandidos.

Como se não bastasse essa reflexão brilhante de Turing e a contribuição que ele deu para o fim do conflito mundial, ainda existe o caráter pessoal da história dele e que faz eco até hoje. Aquela mente brilhante, isolada da sociedade por suas características, foi exposta na sociedade como pervertida, indecente, e condenada por ele não ser tudo isso, e sim por ser homossexual.

Como o filme deixa claro nos créditos finais, entre 1885 e 1967 cerca de 49 mil homens foram condenados por serem homossexuais no Reino Unido – essa orientação sexual era vista como crime. Turing, é verdade, acabou tendo o passado resgatado. Mas nunca saberemos tudo que ele poderia ter feito pela ciência se não tivesse passado por aquela situação.

Para finalizar, um dos pensamentos mais interessantes desta produção, e que é repetido pelo menos três vezes – na infância de Turing, quando ele tenta convencer Joan Clarke a seguir na missão e, depois, quando ele está isolado, solitário e deprimido em casa, quando Joan tenta consolá-lo, é também um resumo do que penso sobre as pessoas. “São as pessoas que ninguém espera nada que fazem as coisas que ninguém consegue imaginar”.

Em outras palavras, todos merecem uma oportunidade de desenvolver-se e mostrar o que a pessoa tem de melhor. Assim como todos merecem respeito. Afinal, muitas vezes, a solução e a salvação virá justamente de quem menos se esperava. Fascinante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, foi um surpresa ver tanta qualidade em The Imitation Game. E digo isso por uma razão muito simples: ele é um dos filmes menos badalados da fase pré-Oscar e, mesmo agora, quando estamos na reta final para a maior premiação de Hollywood. Muitos rasgam seda para Birdman, outros se derretem por Boyhood ou por The Theory of Everything, mas quase ninguém fala muito sobre esta produção. Por isso mesmo foi uma grata e boa surpresa ver tanta qualidade na obra comandada por Morten Tyldum.

Antes falei dos atores, mas vale comentar os aspectos técnicos impecáveis desta produção. Para começar, grande o trabalho de Alexandre Desplat com a trilha sonora. Não por acaso ele foi indicado ao Oscar. Depois, muito boa a direção e fotografia de Oscar Faura; a edição de William Goldenberg; os figurinos de Sammy Sheldon; a direção de arte de Nick Dent, Rebecca Milton e Marco Anton Restivo; e a decoração de set de Tatiana Macdonald.

Toda esta equipe e todas as outras pessoas envolvidas em efeitos especiais, maquiagem e etc. garantem que vejamos cenas de reconstituição bastante fidedigna do final dos 1920 até o início dos anos 1950, incluindo reconstituições de cenas marcantes da época e o uso de imagens históricas por parte do diretor.

Citei alguns dos atores que fazem o filme fluir com precisão e graça, destacando especialmente a equipe envolvida no trabalho de decifrar o código nazista, mas há outros atores no elenco que merecem ser citados pelo ótimo trabalho realizado. Mark Strong está perfeito como Stewart Menzies, o homem por trás do Serviço Secreto britânico durante a Segunda Guerra e que acaba sendo peça fundamental no jogo de contraespionagem jogado naquela época; e Charles Dance, bem conhecido pela série Game of Thrones, também se sai muito bem como o comandante Denniston.

Também vale citar o trabalho de Alex Lawther como o jovem Alan Turing, e Jack Bannon como o amigo dele na infância, Christopher Morcom. Fazem papéis menores mas um pouco relevantes Ilan Goodman como Keith Furman e Jack Tarlton como Charles Richards, os dois participantes da equipe contratada pelos ingleses para decifrar Enigma e que são demitidos assim que Turing consegue comandar o projeto.

O roteiro de Graham Moore é brilhante, como eu comentei antes. Mas é preciso também comentar que boa parte do mérito dele deve estar no livro Alan Turing: The Enigma, escrito por Andrew Hodges.

The Imitation Game estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme passou por outros 47 festivais – um número impressionante. Nesta trajetória, a produção ganhou 39 prêmios e foi indicada a outros 101, incluindo oito indicações ao Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Compositor do Ano para Alexander Desplat, Diretor do Ano para Morten Tyldum, Ator do Ano para Benedict Cumberbatch e para Atriz do Ano para Keira Knightley no Festival de Cinema de Hollywood; para o prêmio para o elenco no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs e pela escolha do público por Morten Tyldum como “Mestre” do ano. Esta produção também aparece no Top Ten Film 2014 da National Board of Review.

Esta é uma produção 100% rodada no Reino Unido, em locais como o Parque Bletchley, na cidade de Bletchley; na Sherborne School, a escola onde Turing realmente estudou, em Dorset; e outras diversas cenas em Londres.

No dia 27 de novembro de 2014, antes do filme estrear nos cinemas dos Estados Unidos, o The New York Times reproduziu as palavras-cruzadas publicada originalmente em 1942 no The Daily Telegraph e criada para recrutar decifradores de códigos para trabalhar em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial. As pessoas que conseguiram decifrar as palavras-cruzadas no ano passado concorreram a uma viagem para Londres que incluía visitar as instalações de Bletchley Park.

Agora, outras curiosidades sobre o filme: Em uma das cenas finais do filme o ator Benedict Cumberbatch não conseguiu parar de chorar e passou por um colapso. Ele realmente ficou envolvido com a história de Turing e com o que ele sofreu na reta final da vida.

Em diversos momentos do filme Turing aparece correndo. Na vida real ele era um corredor de longa distância de classe mundial, com um tempo de maratona de 2:46:03 conquistada em 1946.

O personagem Stewart Menzies inspirou Ian Fleming, que trabalhou no departamento de espionagem britânico durante a Segunda Guerra Mundial, a criar o personagem M, chefe do personagem James Bond.

Desplat compôs a trilha do filme em duas semanas e meia. Ela foi gravada com a Orquestra Sinfônica de Londres no Abbey Road Studios.

Este é o primeiro roteiro de Graham Moore. Ele queria escrever um roteiro sobre Alan Turing desde que tinha 14 anos de idade.

O terno risca de giz que Mark Strong utiliza durante o filme é um terno autêntico dos anos 1940. Ele foi escolhido para caracterizar o personagem que liderava a operação em Bletchley Park porque lhe dá um ar de “chefe da máfia”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Durante o filme, o diretor faz referência a como Turing se matou. Quando os policiais vão na casa dele, após a denúncia de assalto, ele está recolhendo pó de cianureto. Em outro momento, ele dá maçãs para os colegas de trabalho. Foi com uma maçã envenenada com cianureto que o cientista se matou.

Este é um destes filmes que nos faz pensar como qualquer conversa pode ser mega importante. E pensar que sem o comentário de Helen (Tuppence Middleton) despretensioso naquele bar, brincando que acreditava que o inimigo que ela acompanhava diariamente tinha uma namorada porque todas as mensagens dele começavam com a palavra Cilly, aquele grupo de cientistas jamais conseguiria decifrar o código do Enigma a tempo, no prazo que o comandante havia dado. Fantástico. Nunca se sabe, realmente, quando uma conversa despretensiosa pode mudar tudo.

Os usuários do site IMDb eram a nota 8,2 para esta produção. Uma avaliação muito boa, considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 200 textos positivos e 22 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,7. Achei baixa a nota, em especial, ainda que gostei do nível de aprovação.

The Imitation Game teria custado cerca de US$ 14 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 52,9 milhões até o dia 21 de janeiro. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele soma outros US$ 50,2 milhões. Fico feliz que ele esteja se saindo bem. De fato, ele merece.

Esta é uma coprodução entre Reino Unido e Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Pessoas indesejadas em determinadas sociedades conseguem feitos fantásticos quando elas tem não apenas a oportunidade de se desenvolver, mas também a chance de empregar bem o seu talento. The Imitation Game é um filme que vai muito além da biografia de Alan Turing e de um feito incrível dos bastidores da Segunda Guerra Mundial. Esta produção nos faz refletir sobre os diversos absurdos de que a Humanidade é capaz ao mesmo tempo que nos mostra o valor da solidariedade, do talento e da amizade. Um filme bem conduzido, perfeitamente escrito e com atores que cumprem bem os seus papéis. Irretocável e envolvente. Um dos grandes de 2014.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Depois de The Grand Budapest Hotel e Birdman, indicados nove vezes no Oscar, The Imitation Game é o filme mais indicado deste ano. Ele está concorrendo em oito categorias. Poderia vencer em várias, ou pode também sair de mãos vazias.

Birdman está sendo muito badalado. Mas acho que Boyhood deve ganhar como Melhor Filme. Depois de Boyhood, para mim, The Imitation Game é o melhor filme de 2014 – pelo menos até agora, ainda falta assistir a três concorrentes da categoria. O filme concorre ainda em Melhor Ator – Benedict Cumberbatch; Melhor Diretor – Morten Tyldum; Melhor Trilha Sonora; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Coadjuvante – Keira Knightley; Melhor Design de Produção e Melhor Edição.

A parada do filme é dura em todas as categorias. Ele tem qualidade para ganhar, mas também tem fortes concorrentes tão merecedores quanto. Em Melhor Ator, acredito que o favorito é Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Depois, viriam pau a pau Cumberbatch e Michael Keaton. Melhor Diretor, me parece, tem Richard Linklater como favorito pelo trabalho excepcional em Boyhood. Mas não seria uma surpresa se Alejandro González Iñarritu ou Wes Anderson levassem a estatueta para casa.

Melhor Trilha Sonora também é parada dura. The Theory of Everything e The Grand Budapest Hotel são grandes concorrentes, mas The Imitation Game também poderia ganhar. Dos filmes que vi até agora, The Imitation Game poderia ganhar em Melhor Roteiro Adaptado. Prefiro ele que The Theory of Everything. Mas desconfio que este segundo talvez tenha mais lobby que o primeiro para vencer.

Em Melhor Atriz Coadjuvante, me parece, Patricia Arquette é a favorita. Em Melhor Design de Produção, os grandes concorrentes de The Imitation Game são The Grand Budapest Hotel e Interstellar. E para finalizar, em Melhor Edição todos são bons, mas acho que The Grand Budapest Hotel ou Boyhood levam vantagem. Para resumir, a vida de The Imitation Game será difícil no Oscar. Mas vou achar ótimo se ele levar qualquer estatueta. Merece.

August: Osage County – Álbum de Família

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Todos nós conhecemos histórias de famílias problemáticas. E mesmo as “normais” tem os seus rompantes de absurdo. August: Osage County foca a atenção em um encontro familiar destes clássicos, com muitas confissões e brigas. Uma desculpa perfeita para aquela que provavelmente é a maior atriz de todos os tempos brilhar novamente. Meryl Streep parece não existir. E a comparação dela com qualquer outra intérprete roça o impossível. Neste filme, mais uma vez, ela dá um show. E é bem acompanhada por algumas falas ótimas e por um elenco “de apoio” que segura a responsabilidade.

A HISTÓRIA: Uma planície. E uma voz cansada diz a frase “A vida é muito longa”, de TS Eliot. Depois, outras imagens seguem revelando as paisagens de Osage County, território no Missouri, Estados Unidos, onde esta história é ambientada. Em uma casa branca de dois andares, encontramos a voz cansada de Beverly Weston (Sam Shepard). Ele para de falar quando escuta um barulho no andar de cima. Ele avisa que a fonte do barulho é Violet (Meryl Streep), sua esposa. Beverly confidencia que ela toma pílulas, e que ele bebe.

Este é o acordo que eles tem. E enquanto ele fala sobre o vício de cada um, Violet se levanta da cama e começa a caminhar. Quando ela se aproxima do marido, conhece a Johnna Monevata (Misty Upham), que está sendo contratada por Beverly para ajudar nos afazeres de casa. Em breve, Johanna vai conhecer profundamente esta família composta, ainda, por três filhas do casamento de Beverly e Violet e seus agregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a August: Osage County): Logo que Meryl Streep apareceu em cena, fiquei boquiaberta. Como é mágico assistir a uma grande intérprete em cena! E ela está, mais uma vez, arrasadora. Para mim, neste papel de frágil e ao mesmo tempo forte Violet, ela consegue uma das melhores interpretações da carreira. E isso não é pouco para a atriz que é recordista em indicações no Oscar.

Quando surgem aquelas paisagens de Osage County, seguidas da voz inconfundível do veterano Sam Shepard, tudo parece ter sido milimetricamente planejado neste filme. Uma produção se revela interessante se ela começa com isto, com as escolhas certas. E daí o personagem de Beverly ainda cita TS Eliot e a frase simbólica de que a vida é muito longa. Meus caros, não se enganem. Esta sensação dita o sentimento de dois dos personagens principais da trama – e, talvez, até de outras pessoas que fazem parte da história.

Logo nos créditos iniciais da produção, percebi que August: Osage County tinha o roteiro de Tracy Letts, a mesma autora da peça que inspirou esta produção. Para mim, esta é sempre uma vantagem. Afinal, ninguém melhor que a autora original para conhecer os meandros e detalhes de sua obra. Normalmente o prosseguimento do trabalho de um autor em outro formato, como pode ser o cinema após o sucesso de um texto no teatro, garante não apenas a legitimidade da produção, mas também a continuidade de sua qualidade.

Não assisti à peça de Letts, mas gostei muito do trabalho dela neste filme. Verdade que a premissa central da história já é conhecida: uma família passa por um momento difícil, que faz os filhos voltarem para casa, e este retorno provoca o conflito de gerações e memórias. Outros filmes trataram deste tema, e muitos outros ainda vão se debruçar no intricado relacionamento familiar e suas desigualdades.

Mas o que eu gostei no texto de Letts é que, apesar dele focar um tema um tanto desgastado, a autora nos reserva alguns ótimos momentos e alguns diálogos muito bons. Falando exclusivamente do roteiro, gostei que ele entra direto na ação. Letts não tem tempo a perder. Assim, somos apresentados logo ao casal Beverly e Violet e a suas dependências declaradas: álcool e remédios. Os dois precisam destes “aditivos” para seguir encarando a “vida longa demais”.

O primeiro elemento que rompe a rotina daquele casal é a chegada da empregada com forte descendência índia Johnna. Ainda que sobre pouco espaço no filme para discutir a questão de dominação racial e seus resquícios naquela região dos Estados Unidos, o tema está presente na história. Aliás, a questão da dominação é uma tônica na produção que conta com a competente direção de John Wells.

Há um jogo importante de dominação naquela família. Violet tenta ser a voz mais encorpada, mas ela tem um contraponto importante no estilo silencioso e amoroso do marido. Soma-se a isso a questão da idade e da doença, que fragilizam a personagem central. Enfrentando um câncer na boca – que chega a render uma leve ironia do marido -, Violet não tem mais a força que um dia teve para enfrentar a independência das filhas ou do marido. Ainda assim, ela não se dobra. E a influência dela em cada pessoa da família vai se revelando aos poucos.

A rotina de cortinas fechadas e semi-breu na casa dos Weston é primeiro quebrada pela chegada de Johnna. Mas não demora quase nada para que o cenário mude com a chegada de vários familiares quando Beverly desparece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, fiquei em dúvida se tantas pessoas “socorrem” Violet porque estão com pena dela ficar sozinha na casa ou porque estão realmente preocupados com Beverly. Conforme a história vai se desenrolando, a motivação de cada um vai ficando mais clara. Mas, no geral, quase todos são movidos pelo “dever” de socorrer a uma senhora idosa e que está, aparentemente, sozinha – descontada a presença da “estranha” (leia-se de fora da família) Johnna.

O texto de Letts não tem papas na língua. Não há espaço em August: Osage County para enganos, ou para maquiagens. As relações naquela família são desveladas pouco a pouco, mas sem meios termos. Desta forma, apesar de serem “fruto” de um mesmo casal, cada uma das filhas dos Weston é movida por um sentimento e apresenta uma determinada reação no reencontro familiar.

Para começar, a segunda personagem central nesta história, Barbara (Julia Roberts), a filha “dominante” do casal, claramente está indo a contragosto para a casa dos pais. Ela segue a voz do “dever”, de quem precisa dar apoio em um momento de incertezas. Mas fica claro, logo no início, que ela não está exatamente feliz em fazer a viagem de “volta às raízes”. Depois, há a filha “sempre presente”, Ivy (a interessante Julianne Nicholson), que parece conviver mais de perto com os pais. E, finalmente, há Karen (Juliette Lewis), aparentemente a caçula da casa e a mais “desmiolada”.

No caso de Ivy, ela está presente naquele momento de sumiço do pai como, aparentemente, ela está presente na maioria das ocasiões. Em mais de uma cena ela aparenta ser a “menos estranha” naquele ninho. Acompanha os pensamentos de Violet, ouve mais do que opina, e respeita o espaço dos pais mais do que consegue fazer-se respeitar. Karen aparece depois do fato principal da história acontecer, arrastando consigo a última “conquista amorosa”, o noivo Steve Huberbrecht (Dermot Mulroney). Ela não parece fazer muito parte daquela família. Está ali para dar apoio para a mãe, mas sem quase nenhum compromisso.

A personagem dominante, entre as filhas, sem dúvida é Barbara. As irmãs olham sempre para ela quando algo inusitado é dito pela mãe. E ela não se importa de confrontar a matriarca, mesmo a mulher estando doente. Uma das cenas mais fortes da produção acontece, justamente, depois que Barbara resolve mostrar para a mãe quem está “mandando no pedaço”, após uma clássica cena de reunião familiar à mesa. Para mim, naquela sequência Julia Roberts garantiu a sua indicação ao Oscar – além de manter, por grande parte do filme, uma conduta regular.

Sem dúvida alguma este filme não é fácil. Como não é fácil nenhuma família – certo que existem algumas exceções pelo mundo… mas elas são exatamente isso, exceções. Além da queda de braços entre a mãe e o pai das garotas, existe uma “disputa” por poder entre a filha mais velha – que acredito ser Barbara – e a mãe. Jogos de poder em família sempre dão pano pra manga e, neste caso, rendeu um filme bem construído, comovente e com algumas cenas de impacto.

Para mim, August: Osage County se mostrou interessante, e diferente de outras produções do gênero, por focar em dois aspectos interessantes. O primeiro é o efeito que a falta de generosidade pode causar entre pais e filhos. Fica claro, especialmente em dois momentos da trama – na cena familiar na mesa e, depois, no diálogo final entre Violet e Barbara -, que a experiência de vida dos personagens Violet, Beverly e da irmã de Violet, Mattie (a competente Margo Martindale) é muito diferente daquela vivida por seus filhos.

Na mesa, Violet “joga na cara” das filhas que elas não estão fazendo nada demais da vida, apesar de terem todas as oportunidades do mundo – inclusive de estudar -, muito diferente deles (Violet, Beverly e Mattie), que foram pobres e passaram por maus bocados. No segundo momento que eu citei antes, Violet volta a explicar para Barbara como para a geração dela o dinheiro é importante. E para a geração de Barbara?

Aí que o filme ganha vários pontos de interesse. Barbara está passando pelo processo de separação do marido, Bill Fordham (Ewan McGregor), que, aparentemente, a traiu com uma garota pouco mais velha que a filha, Jean (Abigail Breslin). Ivy nunca conseguiu “engrenar” em um relacionamento a longo prazo, aparentemente porque ela teria sido “prejudicada” pela dedicação que teve no cuidado dos pais. E Karen está buscando dar certo com mais um homem que possa lhe pagar as contas. Em resumo: todas em busca do amor, mas sem grande sucesso.

Então, diferente dos pais, as filhas estão mais preocupadas com algum relacionamento que faça sentido do que com o dinheiro. Parece algo das últimas gerações. O efeito? Violet e Mattie aguentam muito mais os problemas dos relacionamentos do que os seus filhos – e do que a gente, possivelmente. O choque de geração está ali, assim como uma aparente falta de generosidade das mães com os seus rebentos. Mattie, inclusive, é confrontada pelo marido, Charlie Aiken (o ótimo Chris Cooper), pela crueldade que ela destila contra o filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch).

A dureza na fala e na forma de agir parece ser uma característica das mulheres “mais fortes” da família. Mesmo sem perceber, Barbara segue os passos de dureza da mãe, Violet, e da tia Mattie. Mas as mulheres mais velhas tem a “desculpa” de terem comido “o pão que o diabo amassou”, por terem tido vidas complicadas. E qual seria a desculpa de Barbara? Talvez ela também tenha uma vida complicada, mas não por causa da falta de dinheiro, e sim de afeto.

Então qual miséria pode ser pior? A causada pela falta de recursos financeiros ou aquela causada pela falta de recursos afetivos? Aparentemente, segundo o que nos conta August: Osage County, estas duas carências podem motivar espíritos duros, com dificuldade de buscar afeto e o perdão. Mas claro que nada é imutável, e só escolhemos “seguir no inferno” causado por estes cenários agrestes se quisermos. Sempre é possível buscar um outro caminho. Talvez as herdeiras dos Weston consigam isso, se elas souberem encarar a herança familiar de forma madura e aprender com os próprios erros.

Outro tema que o filme traz e que eu sempre achei importante é a questão das expectativas familiares e as fraquezas individuais. Fica evidente que Barbara conhece bem a dependência materna de comprimidos e de que ela não aceita isso – provavelmente, quando adolescente, teve que suportar muitos “surtos” da mãe provocados pelo excesso de remédios. Mas o que fazer naquele cenário?

Este assunto, especificamente, é um dos levantados por um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Requiem for a Dream. Tanto naquela produção quanto nesta nova, a questão principal é: como encarar a dependência de uma mãe? E ela estando doente – especialmente Violet, que reclama de dores -, como retirar este “prazer” dela? Evidentemente que ninguém gosta de ver outra pessoa se descontrolando por causa de uma dependência química, mas que vida melhor você pode garantir para quem está naquela condição?

Com isso eu não quero dizer que apoio a dependência química e que deixaria Violet seguir com a vida que ela levava. Mas acho muito cruel também avançar contra ela e tirar-lhe um dos poucos – e talvez últimos – prazeres e válvulas de escape da vida. Afinal, ela terá uma vida melhor ou mais miserável a partir do fim do contato com os remédios?

Ao mesmo tempo, entendo a postura de Barbara. Afinal, nenhum filho quer ver a mãe descontrolada. Mas esta busca de controle por parte de Barbara – e da gente mesmo, quando agimos em relação aos nossos pais, ou filhos – é para causar o bem ou apenas para mostrar força e que ela pode mais? Situações complicadas.

E que nos levam a mais uma reflexão, alimentada especialmente pela sequência final da produção: por mais que a gente negue, muitas vezes somos mais parecidos com os nossos pais do que a gente gostaria de admitir – ou mesmo de ser. Barbara procura ser muito correta, falar o que pensa e enfrentar os “desmandos” da mãe sempre que possível. Mas será que estas reações dela não são, exatamente, o avesso e, algumas vezes, a cópia da mãe que ela gosta tanto de confrontar?

O lado “careta” de Barbara é um contraponto às dependências da mãe e do pai. Ok. Mas aquela busca por controle é totalmente uma característica de Violet. E a personagem de Meryl Streep sabe algo que qualquer jornalista tem muito claro no seu cotidiano: informação é poder. Ela tem tanta segurança naquela família e “canta de galo” porque sabe de tudo. Dos maiores segredos e das mais baixas motivações.

Por isso ela tem poder, apesar de, como todos nós que um dia nos sentimos “poderosos”, ser apenas carne e osso. Com a idade, ela percebeu que também é frágil. E a cena em que ela vai buscar apoio em Johnna, não por acaso, plasma com toda a profundidade esta carência e fragilidade que Violet e todos nós temos. Gostando de admitir ou não.

Desta forma, August: Osage County se mostra um filme muito interessante. Durante o desenrolar da trama, salta aos olhos os infindáveis “embates” familiares. Para mim, a sequência das irmãs conversando e descobrindo que elas são verdadeiras estranhas umas para as outras, foi das melhores – achei muito realista, até porque nas famílias isso acontece muito. Mas apesar das discussões e desentendimentos dominarem a trama, depois que o filme acaba é que as outras camadas de leitura da produção vão se desenrolando. Apenas por isso, por nos permitir diferentes e variadas leituras, o trabalho de Tracy Letts e John Wells, junto com o restante da equipe, já vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é mais um filme desta safra pré-Oscar com um elenco bem escolhido. Mérito da dupla Kerry Barden e Paul Schnee, responsáveis pelo “casting” da produção. Além da inigualável Meryl Streep, temos a uma esforçada Julia Roberts (que admitiu que ficou nervosa por contracenar com o ícone Meryl), e um elenco de apoio bastante interessante.

Para começar, é sempre bom ver a Sam Shepard em cena. Aliás, este é um destes atores que eu acho que é menos valorizado do que deveria. Sempre que o vejo em cena, ele nos dá uma entrega muito boa. Outro nome que muitas vezes fica em terceiro plano nas produções é o de Chris Cooper. Neste filme, o personagem dele acaba tendo uma relevância bem maior – ele é responsável, por exemplo, por diálogos mais relevantes que os mais badalados Ewan McGregor, Dermot Mulroney e Benedict Cumberbatch.

A impressão que fica é que a “velha guarda” do filme tem muito mais propriedade e potência em suas vozes e gestos, e que os mais jovens ainda estão aprendendo como se “impor”. Exceto pela personagem de Julia Roberts, claro. Apesar de terem importância menor na história, McGregor, Mulroney e Cumberbatch fazem uma boa entrega em seus respectivos papéis. Mas são os velhos, Shepard e Cooper, que roubam a cena sempre que aparecem.

O elenco feminino também é bem competente. Ainda que eu tenha percebido um grande “disparate” nas personagens e entregas de duas atrizes. De Meryl Streep e Julia Roberts eu já falei o suficiente. Talvez valha apenas acrescentar que senti falta da personagem da Julia ser um pouco mais realista, ou seja, apresentar nuances mais variadas de comportamento. Afinal, em 99% do tempo ela fica com aquela carranca dura, pronta para qualquer confronto – em pouquíssimas vezes ela sorri ou é capaz de uma fala menos dura. Até a mãe dela apresenta nuances muito mais variadas.

Mas falemos das outras atrizes… Para mim a grande surpresa do filme foi Julianne Nicholson. A atriz tem uma relevância considerável na história e consegue repassar suas emoções apenas com o olhar – diferente de outras figuras em cena. A personagem dela tem várias nuances e a atriz consegue flutuar entre os diferentes sentimentos de forma convincente. Gostei. A veterana Margo Martindale também mostra segurança em seu papel, e tem pelo menos um grande momento no filme – quando Mattie discute com Charlie e depois conta um segredo forte da família para Barbara. A única que achei apenas razoável foi Juliette Lewis.

Falando em segredos de família… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acredito que o final não tenha deixado muitas dúvidas, mas não custa explicar por aqui o que aconteceu para aqueles que deram uma adormecida nos minutos decisivos. 🙂 Violet dá um show ao mostrar como ela é, realmente, uma sobrevivente. Não apenas por ter enfrentado um câncer, mas por ter passado por muitas e pesadas dificuldades durante a vida. Além da traição do marido e da irmã, ela explica para Barbara como foi o desfecho da história de Beverly.

(SPOILER – continuação…). O marido deixou um bilhete suicida para a mulher, avisando onde estaria antes de se matar no rio. Ela, encarando aquilo como um “desafio” do marido, não acudiu para impedi-lo. No lugar disso, ela foi garantir que as economias que eles tinham guardado estavam lá. Segundo a leitura de Violet, aquele gesto final de cansaço de Beverly era, também, uma última queda-de-braço, da qual ela não estava disposta a perder. A filha fica chocada, é claro, mas eu concordo com Violet quando ela diz que ambas tinham “culpa” sobre o que aconteceu, ao mesmo tempo que ninguém tinha culpa. Afinal, a decisão de se matar foi dele, independente das motivações que ele tivesse tido. Da minha parte, sempre encaro um suicídio desta forma também. O único responsável pelo ato é aquele que o pratica. Alguém poderia ter impedido? Acho que o que podemos fazer é tentar não causar dor e desespero nos outros, mas no fim das contas cada um é responsável pelos seus atos.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de John Wells. Acho que ele conseguiu estar atento aos detalhes das vidas daquelas pessoas, valorizando a interpretação dos atores. Afinal, este é um filme de atores e que explora os diálogos e a história entre eles. Não se trata de uma destas produções com cenas de ação ou reviravoltas. Por isso mesmo, grande parte da trama se desenrola na casa dos Weston, cenário bem explorado por Wells.

Ajuda na qualidade do filme o trabalho competente do diretor de fotografia Adriano Goldman, que consegue a luz certa mesmo em diversas sequências de semi breu. Gostei também da trilha sonora de Gustavo Santaolalla e da decoração de set de Nancy Haigh. O departamento de maquiagem faz um trabalho fundamental, com a atuação de oito profissionais – destes, destaco J. Roy Helland e Matthew W. Mungle, responsáveis pela mudança na aparência de Meryl Streep.

August: Osage County estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme participaria de outros nove festivais – e o próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado, no dia 1 de março de 2014. Nesta trajetória, o filme abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros 35, incluindo a indicação a dois Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Julia Roberts e para o de Melhor Elenco no Hollywood Film Festival. Julia Roberts também ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante no Palm Springs International Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 27 de janeiro, esta última segunda-feira, pouco mais de US$ 26,9 milhões. Nos outros mercados em que a produção já estreou, ela teria conseguido pouco mais de US$ 11,5 milhões. Ou seja, até agora, o filme está esperando para começar a fazer lucro.

August: Osage County teve cenas rodadas nas cidades de Bartlesville e Pawhuska, em Oklahoma, no parque Lake Tenkiller State, também em Oklahoma, e em Los Angeles, na Califórnia.

A atriz Julia Roberts realmente ficou emocionada em contracenar com Meryl Streep. Quando ela estava promovendo o filme Mirror Mirror, a atriz chegou a chorar quando falou sobre a parceria com Meryl que, segundo ela, é a sua atriz favorita.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a autora Tracy Letts se opôs, mas sem sucesso, pela escolha dos irmãos Weinstein de escalar atores britânicos – leia-se McGregor e Cumberbatch – para a produção. Isso porque, inicialmente, esta história deveria ser muito “americana”, com atores interpretando a personagens daquele país. Mas a autora admitiu que mudou de ideia ao ver o resultado final da produção.

Na peça original, a personagem de Violet foi vivida pela atriz Deanna Dunagan. Ela ganhou um prêmio Tony – o mais importante do teatro – pelo desempenho com a personagem na Broadway.

E uma última curiosidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O final original da produção (e da peça) era a entrega frágil de Violet no colo de Johnna depois que todas as suas filhas tinham ido embora. Apesar deste ser o final preferido do diretor e da roteirista, os testes com a audiência fizeram com que fosse acrescentada a sequência com Barbara. Isso porque, segundo dos produtores do filme, a audiência pedia por um desfecho para a personagem – que terminou como a mãe, mas que, para o público, esta informação não tinha ficado clara e precisava ser apresentada em um desfecho. Curioso.

Antes comentei sobre a trilha sonora. Ela tem algumas músicas muito interessantes. Entre outras, Lay Down Sally, de Eric Clapton; Gawd Above, de John Fullbright; e Last Mile Home, do Kings of Leon (música interessante e que aparece nos créditos finais). Muito bacana também a musiquinha que Benedict Cumberbatch canta em determinado momento do filme – ela tem o título de Can’t Keep It Inside.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Certamente, por causa, principalmente, do ótimo elenco. Essa é uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles escreveram 103 críticas positivas e 56 negativas para August: Osage County – o que lhe garantiu uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Uma família pode ser fonte de sustentação para o indivíduo nas mais diferentes horas complicadas que ele tem na vida como pode ser, também, fonte de muita dor e de rejeição. August: Osage County não é o primeiro filme e nem deverá ser o último a focar as lentes para as relações de uma família complicada. A grande vantagem deste filme é que ele tem um elenco equilibrado, sob a liderança de uma estrela de Hollywood que está à frente de quase todas as intérpretes que já assistimos. Meryl Streep dá um show, mais uma vez. Além disso, o filme tem um roteiro competente, com algumas boas falas entre uma cena e outra de entrega dramática. Recomendado para quem gosta do tema das relações familiares e seus efeitos nos indivíduos. O tema sempre rende e vale ser debatido. Este filme se junta a outros na lista de bons exemplares do gênero. Sem contar que ele se diferencia de outros por ser uma crônica potente dos jogos de poder, dos segredos e das válvulas de escape da família “média e tradicional” dos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Se a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fosse justa, Meryl Streep receberia uma estatueta em todos ou quase todos os anos em que a atriz concorreu a um Oscar. É como se ela fosse hors concours e merecesse receber a estatueta sempre, pela perfeição de seu trabalho. Paralelo ao prêmio de Meryl, a Academia devia entregar outra estatueta para a segunda melhor atriz do ano.

Claro que o meu comentário parece exagerado. Mas é que é tão complicado comparar Meryl Streep com qualquer outra atriz… este ano, por exemplo. Cate Blanchett está levando tudo pelo trabalho em Blue Jasmine (comentado aqui no blog). Certo que Blanchett é uma grande atriz. Ninguém duvida disso. Mas daí você assiste a Meryl Streep em August: Osage County, e fica impossível fazer uma comparação justa. Meryl está muitos níveis acima de qualquer concorrente.

Dito isso, vamos falar de maneira realista sobre o Oscar deste ano. Como eu disse antes, August: Osage County está concorrendo em duas categorias da premiação da Academia. O filme foi indicado em Melhor Atriz, com Meryl Streep, e Melhor Atriz Coadjuvante, com Julia Roberts. E qual é a chance delas? Segundo as bolsas de apostas, nenhuma, zero. Meryl Streep tem tudo para sair, pela décima-quinta vez em sua trajetória, com as mãos vazias do Oscar – lembrando que a atriz é recordista em indicações e que já recebeu três estatuetas. O mesmo deve acontecer com Julia Roberts.

Segundo os especialistas de Hollywood, o Oscar de Melhor Atriz deve ficar mesmo com Cate Blanchett, que tem arrasado nos prêmios. A estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante estaria entre Lupita Nyong’o e Jennifer Lawrence por seus trabalhos em 12 Years a Slave (comentado aqui) e American Hustle (com crítica aqui), respectivamente. Da minha parte, acho mesmo que Julia Roberts se saiu bem, no geral, mas que não foi tão bem para ganhar um Oscar. Mas Meryl… sem dúvida eu daria a estatueta para ela. Mais esta, quero dizer. Porque ela já mereceu outras vezes e não levou.

12 Years a Slave – 12 Anos de Escravidão

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A pior chaga da história recente das civilizações ganhou um filme que pode ser considerado definitivo. 12 Years a Slave foi feito para não deixar dúvidas de que a escravidão foi um absurdo na trajetória humana. Há quem tenha classificado ele como “The Passion of the Christ da escravidão”. Há sentido na comparação, mas 12 Years a Slave consegue ser um pouco mais “suave” que a produção dirigida por Mel Gibson que está completando uma década este ano. Ainda assim, não se engane: este é um filme forte e que mexe com o espectador.

A HISTÓRIA: Um grupo de homens negros está parado, de pé, como em uma fotografia antiga. Eles olham fixo para um senhor branco que lhes ensina o “jogo do corte” da cana de açúcar. Em seguida, os homens começam a trabalhar e seguem a instrução de fazerem isso ao som de uma canção. Um destes homens, Platt (Chiwetel Ejiofor) é observado pelo dono daquelas terras, o juiz Turner (Bryan Batt). Mais tarde, ao comer, Platt pensa em separar algumas frutas escuras do prato para transformá-las em tinta.

Ele fabrica o próprio “lápis” e tenta escrever, sem sucesso. À noite, todos os negros são colocados para dormir no chão, encostados uns nos outros. Platt acaba ajudando uma mulher a ter certo prazer em meio ao drama e à dor. Mas logo ele volta no tempo e lembra da mulher, Anne (Kelsey Scott) e dos filhos Margaret (Quvenzhané Wallis) e Alonzo (Cameron Zeigler) que ele foi obrigado a deixar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes de 12 Years a Slave, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu ao filme): A expectativa era grande para este filme. Por mais que eu não goste de saber quase nada sobre uma produção que ainda não assisti, foi impossível não ouvir algo do grande burburinho sobre 12 Years a Slave. Primeiro, foi a ótima Ana Maria Bahiana a divulgar, muitos meses antes das bolsas de apostas para o Oscar ganharem força, que este filme era o melhor de 2013. E depois vieram as listas para o Oscar, e 12 Years a Slave sempre entre os mais cotados.

Sendo assim, impossível não começar a assistir ao novo filme de Steve McQueen sem esperar ver a uma grande produção. Como vocês sabem (eu já falei sobre isso aqui antes algumas vezes), toda grande expectativa é difícil de ser plenamente satisfeita. Por isso mesmo, e por mais que fiquem evidente várias qualidades deste filme logo no início, foi difícil achá-lo tão formidável quanto as críticas por aí tem comentado.

Voltemos um pouco nesta avaliação, antes da conclusão sobre o filme. Algo que eu achei interessante no trabalho do roteirista John Ridley, que trabalhou sobre o original de Solomon Northup – o romance Twelve Years a Slave – foi que ele evitou a forma de narrativa clássica. Ou seja, jogou em diferentes momentos com o vai e vem da história, mesclando “tempo presente” com a explicação sobre o que aconteceu com o personagem principal e as reminiscências que ele tinha sobre a própria história. O recurso não exatamente novo, mas funciona bem ao dar uma quebra importante no filme – evitando que ele se tornasse “maçante”.

Mas se por um lado o vai-e-vem do roteiro imprime dinâmica para 12 Years a Slave, ele também exige atenção redobrada da audiência. Afinal, não é a tarefa mais simples do mundo lembrar de personagens secundários como Parker (Rob Steinberg), por exemplo. E o detalhe é que personagens como ele acabam tendo uma relevância inusitada. (SPOILER – não leia a partir daqui se você ainda não assistiu ao filme). Para quem não conseguiu ligar o “nome à pessoa”, Parker é o dono da loja onde Solomon vai com a mulher e os filhos comprar mercadorias com uma certa frequência – o suficiente para a família ser tratada com respeito e simpatia. Esse mesmo Parker será o homem que irá atrás de Solomon quando ele é tratado como Platt na fazenda de Edwin Epps (o sempre ótimo Michael Fassbender).

Além do roteiro bem construído e que dá o espaço exato para cenas de pura crueldade – a mais angustiante, para mim, foi a do enforcamento de Solomon praticado pelo covarde John Tibeats (Paul Dano) -, algo que me chamou a atenção logo nos primeiros minutos do filme foi o estilo de direção de Steve McQueen. O diretor, que merecidamente deve ser indicado ao Oscar, escolheu a forma mais realista de contar esta história. Não é por acaso, mas bastante emblemática, a cena inicial, com um grupo de negros em pé, de olhos fixos, olhando para um capataz – imagem que lembra uma fotografia antiga.

Assim, a câmera do diretor desliza entre as folhas da plantação de cana-de-açúcar, foca nas pás do barco que leva os escravos de maneira opressiva, acompanha cada tortura e crueldade infligida aos negros da mesma forma com que revela o modo de vida dos brancos senhoriais. McQueen tem um propósito muito claro na cabeça e sabe concretizá-lo sem pestanejar. Ele quer contar a história verdadeira de Solomon Northup seguindo o ponto de vista deste artista negro que foi sequestrado e vendido como escravo, ficando nesta condição por tempo suficiente para não ver o crescimento do casal de filhos.

O efeito é marcante. Impossível não ver a cenas como a já citada e extremamente angustiante sequência do quase enforcamento do protagonista, assim como à pancadaria que Solomon sofre quando é “transformado” em Platt ou às chibatadas sádicas contra Patsey (a revelação excelente Lupita Nyong’o) sem nos sentirmos também feridos.

Se não fisicamente, porque nunca teremos a noção exata da dor física e moral de toda aquela injustiça, mas pelo menos na alma. McQueen e equipe conseguem o propósito de não apenas revisitar um capítulo da história dos Estados Unidos nunca explorado de forma realista, mas também de trazer toda aquela dor e absurdo à tona de forma com que o espectador descubra em si uma empatia necessária e urgente.

Li em alguma parte, como eu disse lá no início, uma comparação de 12 Years a Slave com The Passion of the Christ. De fato, em algumas cenas, especialmente nas mais fortes do filme de McQueen, temos a sensação de que o nível de crueldade não pode ser maior – sensação similar ao assistir à releitura que Gibson fez da sempre lembrada história do calvário de Cristo. Mesmo que haja paralelo, contudo, 12 Years a Slave não apresenta tantos closes de feridas e flagelos impostos injustamente quanto The Passion of the Christ – ainda assim, há quem diga que parte da Academia resiste a premiar o filme porque ele seria cruel demais.

Além do estilo do diretor, algo muito marcante em 12 Years a Slave, me chamou muito a atenção no filme a trilha sonora de Hans Zimmer. Em diversos momentos a música ajuda a contar a história, tornando ainda mais angustiante e repressivo o momento vivido pelo espectador. Um trabalho interessante e que não é muito comum no cinema – onde, na maior parte do tempo, a trilha sonora ajuda a contar a história, mas não se torna uma de suas protagonistas. Mais um excepcional trabalho deste veterano do cinema, Hans Zimmer.

Após comentar os elementos que mais me chamaram a atenção, devo dizer que 12 Years a Slave é, desde já, o filme mais marcante do qual tenho lembrança sobre o tema da escravidão. Desde Gone with the Wind os escravos são mostrados no cinema norte-americano, em diferentes produções, como uma classe necessária para o progresso do país e que foi tratada com “benevolência” pelos patrões. Sabemos que isso é uma grande balela. Quem nunca ouviu falar nos navios negreiros, no trabalho forçado e no estupro sem fim pelo que passaram os escravos que tente acreditar em uma mentira como esta.

No Brasil, para a nossa “sorte”, não tivemos uma segregação racial formal como nos Estados Unidos, onde até hoje muitos brancos do Sul do país acreditam que os negros são inferiores. Talvez por isso mesmo 12 Years a Slave tenha outra repercussão na América do Norte. Não que por aqui o filme não tenha valor. Nada disso. Mas lá, tenho certeza, ele tem outro tipo de discussão e de repercussão. O que resta saber é se o país e a Academia, que faz parte da indústria cultural que dita e revisa valores no país e para o mundo, estão preparados para aceitar a reflexão com maturidade e valorizando a coragem de McQueen.

Em mais de um século de cinema, é difícil um filme ser lançado e rapidamente tornar-se um marco em determinado tema. 12 Years a Slave conseguiu isso em relação ao tema da escravidão. Além dos pontos já citados, é preciso destacar o excelente trabalho do elenco escolhido de forma precisa. Chiwetel Ejiofor de fato está ótimo como Solomon Nothup, o músico talentoso que vivia com a família em Saratoga, cidade que faz parte do condado de Nova York, e que tem a vida mudada em 1841. Depois que a família viaja para fora da cidade, ele aceita o convite dos “artistas” Brown (Scoot McNairy) e Hamilton (Taran Killam) para ganhar um bom dinheiro em apresentações com um circo em Washington.

Enganado pela dupla, Solomon acaba sendo sequestrado e transformado no escravo Platt. Não demora nada para que ele seja espancado e “ensinado” a sobreviver. Desta forma, Solomon abandona a própria identidade e aprende a ser subjugado. É comprado primeiro por Ford (o também sempre competente Benedict Cumberbatch, estrela da ótima série Sherlock) que, apesar de ser um homem íntegro e culto, não é capaz de romper a lógica da exploração humana. Na fazenda de Ford, Platt/Solomon logo mostra ser um homem diferenciado, com diversas habilidades – o que desperta a inveja do cruel Tibeats, o chefe carpinteiro da propriedade e considerado um dos “mestres” da fazenda.

Mesmo incapaz de dar ouvidos a Platt, Ford tem a dignidade de agir para salvar a vida do homem que, mesmo sem admitir, ele passou a admirar. Desta forma que Solomon acaba parando nas mãos de Epps, considerado um dos mais cruéis donos de escravos da região. Na ótima interpretação de Michael Fassbender conhecemos um pouco mais a cara do “homem senhorial” dos Estados Unidos no século 19. Fraco para a bebida, sádico e racista, ele maltratava homens e mulheres de diferentes formas, tendo a esposa interpretada por Sarah Paulson (muito bem no papel também) não apenas como cúmplice, mas como artífice também de crueldades.

Além de trabalhar duro cortando madeira e construindo edificações com ela, Platt/Solomon foi explorado na colheita de algodão e de cana-de-açúcar. Encontrou em Ford e no juiz Turner interlocutores um pouco mais atentos, que foram capazes de ver talento naquele homem subjugado. Mas nenhum deles foi capaz de ouvi-lo ou mudar em algo o “status quo” do absurdo da época. No fim das contas, o protagonista teve a sorte de ter o caminho cruzado por Bass (Brad Pitt em uma ponta importante), um estrangeiro que via a escravidão como ela deveria sempre ter sido encarada: como um verdadeiro absurdo. Com a interferência de Bass conseguimos conhecer esta história.

Um filme bem conduzido e que não me arrebatou por pouco. Talvez porque fosse bastante previsível o que viria no final, ou porque para nós, brasileiros, esta história seja menos reveladora do que para os norte-americanos. Não sei exatamente a razão, mas o que posso dizer é que aguardo um filme que me impressione mais e que esteja cotado para o próximo Oscar. Algum azarão que provavelmente não vai ganhar nada, mas que me apresente mais elementos surpreendentes do que este 12 Years a Slave.

NOTA: 9,8 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filme bem acabado nos detalhes, 12 Years a Slave transporta o espectador para os Estados Unidos de 173 anos atrás. Contribui de forma fundamental para isto o figurino Patricia Norris, o design de produção de Adam Stockhausen, a direção de arte de David Stein e a decoração de set de Alice Baker. Todos trabalharam bem e em prol da história.

Além destes profissionais, merecem menção o trabalho do diretor de fotografia Sean Bobbitt, que usa as tradicionais cores cálidas para dar um tom de “envelhecido” para a produção; a maquiagem feita por 18 profissionais, incluindo os “cabeças” da equipe Ma Kalaadevi Ananda e Adruitha Lee – importante especialmente nas cenas pós-torturas; e a edição precisa de Joe Walker.

Interessante como o ator Brad Pitt se envolveu neste projeto. Ele não é um dos atores com maior espaço no filme, mas o personagem dele teve um papel fundamental na trama. Além disso, o ator entrou como um dos produtores de 12 Years a Slave – junto com o diretor Steve McQueen e outros nomes.

Falando em Brad Pitt, achei curioso que ele e o ator Michael Fassbender tiveram profissionais de maquiagem individuais e próprios – respectivamente Rena Grady e Nana Fischer.

12 Years a Slave tem vários atores interessantes em papéis secundários e menores. Alguns exemplos são Chris Chalk como Clemens, um dos negros que viaja de navio com Solomon e que lhe dá algumas “dicas” de sobrevivência; Paul Giamatti como Freeman, o negociante de negros que não se importa sobre a origem deles – porque está apenas preocupado em faturar; Liza J. Bennett como a esposa de Ford; J.D. Evermore como Chapin, capataz da fazenda de Ford e que acaba impedindo a morte de Solomon; Alfre Woodard como a Madame Shaw, uma ex-escrava que virou “madame” e que ajuda Patsey; e Garret Dillahunt como Armsby, o ex-capataz que caiu em desgraça ao virar alcoólatra e que trai a confiança do protagonista.

Esta produção estreou em agosto de 2013 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria ainda de outros 13 festivais. De lá para cá, 12 Years a Slave ganhou o número impressionante de 87 prêmios e foi indicado a outros 106 – incluindo sete indicações ao Globo de Ouro.

Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 38 milhões. Não é uma cifra desprezível – até porque o custo da produção não teria sido muito alto -, mas está bem abaixo do desempenho do principal concorrente da produção no Oscar, Gravity, que teria conseguido pouco mais de US$ 251 milhões apenas na terra do Tio Sam.

12 Years a Slave foi totalmente rodado no estado da Louisiana, nos Estados Unidos, um dos territórios que deram um “jeito de burlar os direitos dos escravos libertados (após a proibição da escravidão em 1865), mantendo restrições legais, os chamados black codes” segundo este texto elucidativo sobre a questão nos EUA. Não deixa de ser irônico que o filme tenha sido rodado em um dos territórios mais resistentes ao fim da escravidão.

O livro de memórias de Solomon Northup que serviu de base para o roteiro de 12 Years a Slave tinha rendido uma outra produção anteriormente. Em 1984 foi lançado American Playhouse: Solomon Northup’s Odyssey, um filme produzido para a TV com direção de Gordon Parks, estrelado por Avery Brooks e que foi lançado em vídeo em 1985 com o título Half Slave, Half Free.

E agora, uma curiosidade sobre a produção: ela marca a estreia no cinema de Lupita Nyong’o. Incrível! Espero que a interpretação da atriz, marcante neste filme, lhe renda uma indicação ao Oscar.

Entre os prêmios que 12 Years a Slave já recebeu, destaque para o de Filme do Ano pelo AFI Awards; o de Melhor Filme no Gotham Awards; o Prêmio de Atriz Revelação para Lupita Nyong’o no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; o de Melhor Trilha Sonora e a Menção Especial de Filme no Festival de Cinema de Estocolmo; o Prêmio de Escolha do Público para Steve McQueen no Festival Internacional de Cinema de Toronto; e por figurar na lista Top Ten Films de 2013 da National Board of Review. Além destes prêmios, 12 Years a Slave foi considera o Melhor Filme do ano por nada menos que 10 associações de críticos dos EUA. Este último número torna ele o favorito a ganhar o Globo de Ouro como Melhor Filme – Drama. Logo veremos…

Falando em Globo de Ouro, enquanto 12 Years a Slave tem sete indicações, Gravity conseguiu quatro. Entre os dois, sem dúvidas, prefiro o filme de McQueen.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para 12 Years a Slave. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas oito negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 9. Estes últimos números tornam o filme quase uma unanimidade.

12 Years a Slave é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido.

CONCLUSÃO: 12 Years a Slave não deixa espaço para dúvidas. Entre a casa grande e a senzala não havia espaço para bondade ou condescendência. A escravidão foi uma época obscura da história. Pela primeira vez um filme feito nos Estados Unidos deixa para trás de forma tão contundente o estigma de “bom patrão” para tratar da relação de brancos com negros. A exemplo do que Mel Gibson fez antes sobre a reta final na vida de Jesus, 12 Years a Slave conta uma história dura e que foi estrategicamente esquecida até agora. Um belo resgate de uma história que dói na pele de qualquer pessoa, independente da cor que ela tenha.

Dirigido com maestria, com uma trilha sonora há tempos não vista e interpretações muito convincentes, 12 Years a Slave é uma experiência de cinema e de revisão histórica interessante. Prende o espectador, ainda que não nos conte tanta novidade assim – pelo menos nós, brasileiros, aprendemos nas escolas há tempos que a escravidão era cercada de violência e não de simpatia entre “proprietário e mercadoria”.

Para o meu gosto, apesar de funcionar muito bem, 12 Years a Slave não chegou a me arrebatar. Mas faltou pouco. De qualquer forma, o trabalho de Steve McQueen e equipe cumpre o seu papel com eficácia e paixão, tendo um peso importante, em especial, para o cinema feito nos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Todas as bolsas de apostas apontam 12 Years a Slave como um dos principais favoritos em indicações e prêmios na próxima festa do cinema dos Estados Unidos. E dá para entender tal fascínio pela produção. Primeiro, ela de fato é muito competente. Tem uma escalação muito boa de atores e uma história que não deixa o espectador relaxar. Depois, este filme tem grande relevância para o cinema feito nos EUA, que insistia em contar “histórias da carochina” sobre o tempo da escravidão. Sem contar que ainda existe muita gente naquele país que até hoje não entende porque houve a abolição da escravatura…

Sob essa ótica de importância história e agente desmistificador nos Estados Unidos – e em outras partes do mundo -, não há dúvida que 12 Years a Slave merece os holofotes que teve até agora e que terá com uma possível enxurrada de indicações ao Oscar. Além disso, esta produção resgata uma história impressionante de maneira bem direta, sem firulas e com bastante realismo. Estes predicados devem fazer a produção ter uma queda-de-braço importante com Gravity e outros filmes que eu ainda não vi, mas que estão bem cotados para a maior premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Para mim, não seria nenhuma surpresa se 12 Years a Slave recebesse algo em torno de 12 indicações. E isso não apenas para combinar com o título do filme. 🙂 O fato é que vejo reais chances dele ser indicado para Melhor Filme, Melhor Diretor (Steve McQueen), Melhor Ator (Chiwetel Ejiofor), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção, Melhor Edição, Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong’o), Melhor Edição de Som, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Fotografia e Melhor Ator Coadjuvante (Michael Fassbender).

Agora, a pergunta que não quer calar é: quantos prêmios 12 Years a Slave poderá levar? Bem, esta questão já é mais difícil de responder. Tudo vai depender, basicamente, de uma escolha dos integrantes da Academia sobre qual título eles vão querer colocar no Olimpo do cinema este ano: Gravity e seu apuro técnico com história fraca e desenrolar previsível ou 12 Years a Slave com sua história marcante mas com final também em certo ponto previsto.

O fato é que os principais concorrentes deste ano não surpreendem pelos seus respectivos desfechos, mas sim pela convicção de seus realizadores em levar ao extremo diferentes preocupações de estilo. Gravity prima pela técnica, por tornar a experiência de ver um filme algo marcante com tudo que a tecnologia permite atualmente. 12 Years a Slave busca a história, o envolvimento humano e a revisão de um capítulo tenebroso da humanidade, apostando na interpretação dos atores. Os dois filmes tem em comum, aliás, elogios para os protagonistas.

Da minha parte, prefiro sem dúvida alguma a 12 Years a Slave. Mas ainda estou esperando por um filme que me deixe de queixo caído, entre os principais “concorrentes” deste ano no Oscar – a exemplo do que Black Swan fez comigo no Oscar de 2011. Há vários outros filmes para assistir ainda. Mas tudo indica que 12 Years a Slave vai receber muitas indicações. A dúvida que fica é se ele será capaz de vencer ao lobby de Gravity.

War Horse – Cavalo de Guerra

O céu se parece muito, pode até que seja o mesmo de Gone with the Wind. Mas a história… quanta diferença daquela de um dos maiores clássicos do cinema! War Horse é um filme que resgata aquele céu, apesar de ser ambientado em outra época, em outra local e com um foco muito diferente. O novo filme de Steven Spielberg tem um belo visual, uma trilha sonora poderosa e uma “atuação” de um cavalo poucas vezes vista no cinema. E isso é quase tudo. Spielberg já fez filmes melhores, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: O sol nasceu há pouco, e a câmera percorre campos verdejantes no amanhecer. A luz vai iluminando as propriedades cada vez com mais força, até que chegamos a três homens que cuidam de um cavalo, enquanto Albert Narracott (Jeremy Irvine) observa tudo ajoelhado atrás de um portão. O garoto está fascinado. Os homens acalmam a égua, que acabou de ter um cavalo. O potro se levanta. O tempo passa, ele cresce e corre com a mãe pela propriedade, sendo observado por Albert. Mais tarde, os cavalos serão vendidos, e o pai do rapaz, o veterano de guerra e agricultor Ted (Peter Mullan), pagará caro pelo potro crescido. A partir daí, o filme acompanha a amizade entre o cavalo e Albert.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já leu a War Horse): As maiores qualidades deste filme ficam evidentes logo de cara. Para começar, a trilha sonora do veterano premiado John Williams. Sem o virtuosismo do trabalho dele e sua “malemolência” em brincar com algumas cenas – especialmente quando Ted Narracott aparece -, o filme não seria o mesmo. Outro elemento fundamental é a direção de fotografia do grande parceiro de Spielberg, Janusz Kaminski. Os dois trabalham juntos desde 1993, quando Kaminski respondeu pela fotografia de Schindler’s List – um dos pontos fortes da produção vencedora de sete Oscar’s.

Não demora muito também para aparecer o terceiro elemento fundamental desta produção: o personagem do cavalo Joey. Digo o personagem porque, o cavalo, propriamente, fica difícil de identificar. Segundo as notas de produção de War Horse, foram utilizados, no total, 14 cavalos para “interpretar” a Joey. Mesmo tantos cavalos tendo aparecido em cena, o que se “destacou” na interpretação se chama Finder, e foi o mesmo que apareceu no filme Seabiscuit.

A vantagem de War Horse é que ele apresenta logo as suas “armas”. Porque o restante do filme é bastante óbvio e sem surpresas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, alguém duvidou, por um segundo que fosse, que Joey não reencontraria Albert? E que o cavalo não participaria de pelo menos uma cena espetacular, no melhor estilo de Dances with Wolves? Aliás, vocês lembram daquela cena emblemática da cavalgada? A diferença é que, desta vez, o que assistimos é um cavalo solitário, desesperado, que tenta simbolizar toda a necessidade de sobrevivência selvagem plasmada em cada centímetro das trincheiras e campos de batalha da guerra que for. Aquela cena é de “cortar o coração”, claro, porque o espectador vê aquele desespero e sabe que o animal está sofrendo. A brutalidade da cena, mais uma vez, simboliza o absurdo da própria guerra.

O curioso é que, como ocorre na vida real, os inimigos se comovem e se unem por causa de um animal. Vocês já viram como as pessoas se solidarizam e unem as forças quando é para defender um animal machucado ou abandonado? Impressiona. Com isso, não estou criticando a ação. Pelo contrário, acho válida. Mas só gostaria de ver a mesma convicção e paixão para defender a causa dos animais feridos e abandonados para agarrar outras causas igualmente válidas. Só acho irônico quando encontro pessoas tão apaixonadas pela causa dos animais, mas incapazes de estender a mal para uma outra pessoa, ou mesmo de ter paciência com o pai, a mãe, ou algum parente mais velho e que já não tem mais a mesma memória, ou a mesma saúde de outrora. Mas bueno, não é sobre isso que fala o filme, então voltemos a ele…

Sabemos que o reencontro vai acontecer. A surpresa fica com o que vai rechear o filme entre uma situação – a da venda de Joey no início da guerra – e a outra (o prometido reencontro). A maioria das situações são previsíveis, o que torna o roteiro de Lee Hall e Richard Curtis um tanto fraco – abaixo da força necessária para realmente criar tensão ou interesse permanente no espectador.

Baseado no livro de Michael Morpurgo, o roteiro busca mostrar as várias “facetas” de uma guerra. Enfoca o front do conflito (na primeira sequência, do ataque inglês aos alemães, quando os cavalos são utilizados como montaria), os “bastidores” da guerra (do lado alemão, com os cavalos sendo utilizados para puxar armamentos pesados) e nos “arredores” da luta armada (no descanso que os animais tem ao serem cuidados por uma garotinha órfã).

Estes momentos diferentes do filme tentam ampliar o drama humano da guerra. Mostram diferenças de tratamento e de postura. War Horse deixa claro que os vilões são os alemães, que parecem ser insensíveis e encarar os cavalos apenas como peças descartáveis. Os ingleses, por outro lado, parecem ter apego aos bichos – ainda que o “sensível” capitão Nicholls (Tom Hiddleston) e o “mais durão” major Jamie Stewart (Benedict Cumberbatch, protagonista da ótima série inglesa Sherlock) utilizem os cavalos em uma disputa juvenil, para ver quem pode mais. Os únicos mais “sensatos” parecem ser os franceses Emilie (Celine Buckens), que encontra e cuida dos cavalos, e o avó dela (Niels Arestrup).

A história começa e se desenvolve, por quase metade do filme, em terras inglesas antes da 1ª Guerra Mundial eclodir. Naquele cenário e ambiente, o espectador é apresentado a um tema que foi importante naquele clássico que eu citei lá no início, Gone with the Wind: a desigualdade social.

Spielber explora, nesta primeira parte do filme, as dificuldades vividas pela família Narracott, permanentemente ameaçada de ter que deixar as terras alugadas do rico Lyons (David Thewlis). Nesta primeira parte, a mãe do protagonista, Rose (a ótima Emily Watson), tenta mostrar para o filho que o pai dele não é apenas um bêbado, mas também um homem honrado que voltou atormentado da guerra da África. O filho acaba aprendendo a lição, mas muito tempo mais tarde, quando vive na própria pele as dificuldades e absurdos de uma guerra.

A outra metade do filme é ambientada em terrenos de conflito, no embate entre ingleses e alemães na França, entre 1914 e 1918. Daí surge aquela preocupação do roteiro em mostrar diversas facetas da guerra. Pena que nenhuma das facetas mostrada desperte uma grande novidade, interesse ou emocione. Apenas o trecho com Emilie parece um pouco mais interessante, por causa do carisma da atriz Celine Buckens e do ator Niels Arestrup.

E ainda que o filme mostre alguns momentos “difíceis”, como a morte dos irmãos, os ataques questionáveis de ingleses e alemães, a brutalidade e ineficácia do avanço de algumas tropas e, principalmente, a crueldade com os cavalos, tudo parece “bonito” demais. Cenas muito plásticas, bem conduzidas, e pouco eficazes no sentido de revoltar pela brutalidade das situações. Apenas as sequências com os cavalos me pareceram na medida certa.

Depois do filme perder a força com o “recheio” narrativo, voltamos para um “grand finale”, muito bem dirigido e bonito pela direção de fotografia. Os atores fazem um bom trabalho, mas o destaque fica, realmente, com os cavalos. A nota abaixo é uma homenagem a eles, muito mais que uma avaliação justa para a produção.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: War Horse e Hugo são as duas mega produções que conseguiram um espaço na lista dos nove indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano. Hugo é superior a War Horse, não apenas porque Martin Scorsese conseguiu inovar, pensando um filme que explorasse muito bem os efeitos 3D do cinema atual, mas também porque Spielberg não saiu do tradicional. Nada que ele apresenta aqui já não foi apresentado por ele mesmo em filmes anteriores ou por outros cineastas. Tanto é verdade que Spielberg não foi lembrado na categoria Melhor Diretor, mas Scorsese sim.

Todos os atores deste filme fazem um bom trabalho. Destaque para Jeremy Irvine, que está muito bem como o protagonista. Ele consegue expressar a emoção, a inocência e a maturidade do personagem de forma convincente. Depois, os veteranos Peter Mullan e Emily Watson fazem uma boa dobradinha. Niels Arestrup se destaca, mesmo em um papel relativamente pequeno, assim como a garota Celine Buckens, bastante carismática.

Além deles e dos demais citados, vale comentar o trabalho de coadjuvantes como Toby Kebbell, o soldado que encontra Joey; David Kross como Gunther, o irmão mais velho de Michael (Leonard Carow) e que resolve fugir com os cavalos; e Matt Milne como Andrew Easton, amigo de Albert.

Mesmo que o filme seja bastante previsível, algo temos que admitir: War Horse é uma bela reconstituição de época. Um trabalho ótimo e que movimentou milhares de figurantes. Na parte técnica do filme, e que lhe garantiu a qualidade que ele tem de reconstituição de época estão os ótimos trabalhos de Rick Carter no design de produção; a direção de arte da equipe de Andrew Ackland-Snow; a decoração de set de Lee Sandales e os figurinos de Joanna Johnston.

Esta nova produção de Spielberg foi exibida pela primeira vez em uma premiere em Nova York no dia 4 de dezembro. No dia 25 do mesmo mês ela entrou em cartaz nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival.

Ainda assim, War Horse ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 33, além de concorrer este ano a seis Oscar’s. Entre os prêmios que ganhou, destaque para o de filme do ano no AFI Awards; e os de melhor fotografia segundo a escolha da crítica do prêmio da Broadcast Film Critics Association e o Satellite Awards.

War Horse, pelas características da produção comentadas anteriormente, custou uma pequena fortuna: US$ 66 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme arrecadou, até 19 de fevereiro, pouco mais de US$ 78,7 milhões. No restante do mundo, a bilheteria somada até 21 de fevereiro chegou perto de US$ 133,5 milhões. Somadas, as bilheterias ultrapassam os US$ 200 milhões. Nada mal. E a garantia de que o filme pode ser considerado um sucesso – ainda que nenhum “arrasa-quarteirão”.

E uma curiosidade sobre o filme: ele foi totalmente rodado na Inglaterra. Mas especificamente em Devon, Surrey, Wiltshire e Bedfordshire. Foram rodadas cenas também no estúdio Twickenham, em Middlesex.

Esta produção foi baseada nos dois livros com nome similar publicados no Reino Unido em 1982 e de autoria de Michael Morpurgo, escritor de literatura infantil que recebeu, em 1999, o título M.B.E. (membro da Ordem do Império Britânico, em uma tradução livre).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção. Nada mal, levando em conta que eles costumam ser bastante rígidos nas avaliações. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos, dedicaram 150 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 7.

Há um detalhe na produção que não faz diferença para a história mas que, mesmo assim, me incomodou um bocado: todos falarem inglês. Não seria muito mais lógico os alemães, quando falam entre si, falarem alemão e os franceses o francês? Claro que Spielberg preferiu simplificar as coisas e deixar todo mundo falando inglês para cair “melhor” no gosto do público que mais lhe interessava, o norte-americano. Ainda assim, achei uma falha.

O ator Jeremy Irvine, que antes deste filme só tinha trabalhado como ator na série Life Bites, estreada em 2009, vai começar a aparecer mais para o grande público. Depois de War Horse, ele atuou em Now Is Good, pronto mas ainda inédito; Great Expectations, em pós-produção, e The Railway Man, em fase de pré-produção.

Se existesse um Oscar para o cavalo mais sofredor do cinema, teríamos uma disputa boa entre os animais de War Horse e A Torinói Ló, filme húngaro que contou com recursos também da França, Alemanhã, Suíça e Estados Unidos. Eu votaria no de War Horse. 🙂

CONCLUSÃO: Steven Spielberg começou a carreira inovando e, entre os anos 1974 e 1998, ficou conhecido por destilar algumas obras-primas do cinema moderno. Mas de lá para cá, o diretor parece ter perdido aquela força inicial. War Horse, seu último filme, mostra isto. Ao invés de inovar, de ajudar o cinema a reinventar-se, Spielberg repete fórmulas para fazer um filme comovente, mas que não passa disso. Ele não apresenta novas ideias na forma e nem no conteúdo. Praticamente qualquer diretor mediano poderia chegar ao mesmo resultado. O filme trata de amizade, de aprendizado, de reconhecimento dos valores que importam, da mesma forma com que aborda a miséria e o preço alto exigido por uma guerra – neste caso, a 1ª Guerra Mundial. Mas poderia ser qualquer guerra… O melhor da produção é o cavalo “protagonista”, a trilha sonora e a direção de fotografia. Mas nada que faça alguém perder o sono ou sonhar além da conta. Algo básico. Muito distante dos melhores tempos de Spielberg.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: War Horse está concorrendo em seis categorias nesta edição da maior premiação de Hollywood. Ele disputa como Melhor Filme, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Como Melhor Filme ele não tem chances. Seria uma grande zebra ele levar a melhor frente a The Artist, Hugo ou The Descendants. Em Direção de Fotografia ele já tem alguma chance. Ainda que a disputa este ano seja acirrada… Kaminski terá que desbancar Emmanuel Lubezki, de The Tree of Life; Robert Richardson, de Hugo; e Guillaume Schiffman de The Artist. Difícil acertar nesta categoria, mas acho que Kaminski pode levar a melhor.

Em Melhor Direção de Arte a briga também será boa, especialmente porque estão no páreo The Artist, Hugo e Midnight in Paris. Outra vez difícil apontar o ganhador, mas acho que Midnight in Paris pode levar. Em Melhor Trilha Sonora, outra vez trabalhos excepcionais, de feras e veteranos. No páreo, junto com War Horse, estão The Artist e Hugo. Aqui eu votaria em The Artist.

Para fechar, as categorias de som. Em Edição de Som, vejo a vida de War Horse bastante difícil, porque ele concorre com Drive, Hugo, Transformers: Dark of the Moon e The Girl with the Dragon Tattoo. Destes, acredito que tenham mais chances Hugo, Drive e Transformers, nesta ordem. Em Mixagem de Som, outra batalha forte, com quase todos os indicados anteriores, exceto por The Artist, que sai de cena para deixar espaço para Moneyball. Difícil dizer o vencedor, mas talvez seja Hugo.

Se os palpites confirmarem, War Horse pode ganhar apenas o Oscar de Melhor Fotografia. Ou sair da premiação de mãos abanando – o que também não seria uma surpresa. Especialmente porque ele foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro e não levou em nenhuma delas.