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Nieve Negra – Black Snow – Neve Negra

Um filme que parece ser de outra latitude e que requenta uma história que já assistimos antes. Nieve Negra chama a atenção por ser estrelado por Ricardo Darín, um dos grandes atores da história do cinema argentino, mas deixa a desejar. A produção tem uma narrativa bastante previsível e, quando resolve “surpreender”, revela muitas incongruências e situações um bocado sem sentido.

A HISTÓRIA: Neblina e neve em um local com muito gelo. Um menino caminha entre as árvores e sobre a neve com uma arma até que se vira ao escutar o próprio nome. Corta. Em um avião, Marcos (Leonardo Sbaraglia) acaricia o cabelo da esposa, Laura (Laia Costa). Eles estão viajando da Europa para a Argentina, terra natal dele, para resolver as pendências após a morte do pai de Marcos. Logo que chegam em casa, Marcos atende o telefone e fala com Sepia (Federico Luppi). Marcos pergunta porque a casa está toda desarrumada, e Sepia diz que foi o irmão dele, Salvador (Ricardo Darín). Sepia diz que Marcos deve pegar uma carta que o pai dele deixou e que deveria falar com o irmão sobre a oferta dos canadenses. Marcos tenta escapar, mas acaba indo para a propriedade da família e encontrando Salvador.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nieve Negra): Os primeiros minutos desta produção são um bom cartão de visitas da proposta do diretor Martin Hodara, que escreveu o roteiro de Nieve Negra junto com Leonel D’Agostino. Aquela sequência inicial de Juan (Iván Luengo) caminhando com uma arma entre algumas árvores de um bosque e sobre a neve se parece com tantas outras de filmes europeus. Digo que é um bom cartão de visitas porque o restante da história também caminha por semelhanças como esta.

Os europeus são mestres em contar histórias de dramas familiares com boas doses de suspense e de tensão. Também não são raras as histórias de adultério ou de outro tipo de relação amorosa que acaba “estragando tudo”. Nieve Negra caminha por essa seara, contando um drama familiar com uma tragédia no meio e alguns “temperos” que vamos descobrir apenas no final.

Francamente, por mais que Hodara e D’Agostino se “esforcem” para surpreender o espectador, eu não achei as “sacadas” do filme realmente surpreendentes. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). Não sei vocês, mas não demorou muito tempo para que eu desconfiasse de Marcos como o verdadeiro “assassino” de Juan. Talvez por causa das reações de Salvador, que parecia ser um sujeito que carregava uma culpa há muito tempo que não lhe pertencia – algo que se confirma no final.

Mas nem precisei chegar na derradeira “cena revelação” do crime para matar a charada. Estava na cara que Salvador não era o culpado… e se não era ele, sobrava apenas o outro irmão, Marcos. A justificativa para o crime me pareceu bastante forçada. Mas mais forçada que esta justificativa foi mesmo a reta final da produção. Vejamos algumas incongruências que realmente me incomodaram.

(SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, vamos falar sobre a essência da história. Marcos matou Juan, de forma proposital e covarde, pelas costas. Muito tempo depois, ele volta para a cidade natal e para a propriedade onde o crime aconteceu e faz de conta que não teve nada a ver com aquilo. Ele repete a história “oficial” de que quem atirou em Juan foi Salvador. Ora, se ele matou o irmão mais novo e tanto tempo depois ele ainda coloca a culpa em Salvador, de duas uma: ou ele “perdeu a memória” e realmente não lembra do que aconteceu (bem difícil de acreditar, não?) ou ele é um grande cínico que lembra de tudo e que atua como um grande “ator” enganando a todos.

Honestamente, acho muito difícil ele ter feito uma lavagem cerebral tão grande que não lembra de como Juan realmente foi morto e da relação que ele tinha com a própria irmã. E se, como parece mais lógico, ele está apenas fingindo e mentindo e, no fundo, sabe exatamente o que aconteceu no passado, que maluquice é aquela que Laura faz no final? Se ele lembra do que aconteceu, claro que ele vai reconhecer o bilhete que ele próprio escreveu e vai saber que Laura cortou um pedaço dele e que ela descobriu a verdade. O que explicaria ela se arriscar desta forma? Não faz o mínimo sentido.

Outra forma de encarar aquele final é pensar que Laura, desconfiando que o marido estava mentindo e “fazendo de conta”, resolveu mostrar para ele que ela sabia a verdade, mas que ia fingir como ele para que os dois ficassem juntos. Ainda que esta seja a alternativa que faça mais sentido, acho a saída para a encruzilhada da trama muito estranha. Primeiro que uma mulher com o mínimo de crítica pensaria que deveria fugir de uma relação com um sujeito que tem tanto sangue frio quanto Marcos – que matou o irmão pelas costas e que tinha uma relação amorosa com a própria irmã. Que tipo de sujeito é esse? E uma mulher em sã consciência vai querer se relacionar com um cara assim? Difícil de acreditar.

Mas as incongruências não param para aí. O que realmente me incomodou foi a sequência sem sentido no final. Primeiro, Marcos, sabendo que a mulher estava grávida, realmente cogitar deles ficarem dentro de um carro em uma tempestade de neve. Sem sentido. Por mais que o irmão tinha ameaçado ele, um sujeito com o mínimo de bom senso jamais ia buscar como saída aquela falta de solução que era ficar dentro do carro com aquela neve toda. Depois, muito difícil de acreditar que Laura acertaria Salvador atirando de dentro do rancho para fora – justamente ela que não tinha tanta experiência assim em lidar com uma arma.

Só que o roteiro de Hodara e D’Agostino consegue derrapar ainda mais. Depois que Marcos é levado para a delegacia, não faz sentido nenhum para a história que Laura fique naquela casa no meio do nada e sozinha em meio a uma temporada de tempestades de neve, não é mesmo? Não faz sentido algum. Faria muito mais sentido ela ir com Sepia para a cidade e ficar esperando Marcos na casa do pai dele ou mesmo ficar uma noite na casa de Sepia. A última alternativa seria ela ficar lá na propriedade em lugar ermo. Claro que eles optaram por esta alternativa nada lógica para que Laura descobrisse a verdade. Mas me pareceu uma forçada de barra grande demais para ser engolida.

Em resumo, os roteiristas poderiam ter trabalhado melhor a história e deixado ela sem tantos furos e derrapadas. Me incomoda quando um roteiro é desleixado, e isso me pareceu acontecer em Nieve Negra. A qualidade do filme é que escolheram um bom elenco para dividir a cena, com evidente destaque para o trio Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Os outros atores em cena fazem papéis menores. Eles estão bem, mas o roteiro realmente não os ajuda muito. Sem dúvida alguma há filmes argentinos muito melhores no mercado. Procure que vale a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As intenções de Martin Hodara em fazer este filme, tenho certeza, eram boas. Mas o diretor e roteirista precisa melhorar bastante a forma de contar histórias e, principalmente, buscar um pouco mais de características dentro da Argentina em lugar de “copiar” tanto o estilo europeu. Certamente vai lhe fazer bem. E o público também agradece. Afinal, se for para ver a um filme estilo europeu, melhor mesmo é assistirmos a uma produção destas legítima e direto da fonte.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Martin Hodara. Antes ele dirigiu a dois curtas, em 1987 e 1991, em em 2007, La Señal. A maior experiência de Hodara é na função de assistente de direção ou segundo diretor – ele tem 12 trabalhos neste rol. Ou seja, ainda que tenha um bocado de experiência no cinema, parece que ele precisa aprimorar melhor o seu trabalho antes de apresentar algo realmente bom.

Nieve Negra estreou na Argentina no dia 19 de janeiro deste ano. Depois o filme estreou no Uruguai e, em março, participou do Festival de Cinema de Málaga, na Espanha. No Brasil ele estreou nesta semana, no dia 8 de junho.

Algumas cenas da produção foram rodadas em Andorra, onde havia a neve que os produtores não encontraram na Patagônia.

Este filme é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa direção de fotografia de Arnau Valls Colomer; a edição de Alejandro Carrillo Penovi; o design de produção um tanto óbvio de Marcela Bazzano e Josep Rosell; e a trilha sonora de Zacarías M. de la Riva.

Como eu comentei antes, os nomes fortes desta produção são, na ordem de importância, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Além deles, vale comentar o bom – e alguns momentos razoável – trabalho de Dolores Fonzi como Sabrina, irmã de Marcos e Salvador; Andrés Herrera como o pai dos três; Mikel Iglesias como Salvador na juventude; Iván Luengo como Juan; Federico Luppi como Sepia, advogado interessado nas vendas da propriedade, amigo do pai dos garotos e quem acaba ajudando Marcos; Biel Montoro como o Marcos adolescente; e Liah O’Prey como a Sabrina jovem. O elenco realmente é bastante restrito e diminuto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram três críticas positivas e duas negativas para a produção, o que garante para Nieve Negra uma aprovação de 60% e uma nota média 6. Francamente, estou com eles. Facilmente este filme poderia ter levado um 6 ou pouco mais que isso.

CONCLUSÃO: O bom e velho drama familiar com uma “tragédia” no meio e uma ou duas tentativas de surpreender o espectador. Nieve Negra tem bons atores, mas sofre com um roteiro fraco e com uma busca um tanto forçada por um estilo de filme tradicional na Europa mas que não parece combinar muito com a latitude latino-americana. Assista apenas se você não dispensa um filme estrelado pelo Ricardo Darín. Porque enquanto obra de cinema, existem muitas outras produções melhores no mercado.

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El Ciudadano Ilustre – The Distinguished Citizen – O Cidadão Ilustre

Quando alguém escreve, mergulha em todos os aspectos de sua vida e daquilo que quer contar. Nossa bagagem sempre está presente, mesmo quando não nos damos conta dela. El Ciudadano Ilustre, a exemplo do recentemente comentado por aqui Paterson, trata de literatura e da vivência do artista. Mas diferente do filme de Jim Jarmusch, El Ciudadano Ilustre tem mais pimenta e humor, além de uma certo “realismo fantástico” que lembra bem parte da literatura latino-americana.

A HISTÓRIA: O mestre de cerimônias apresenta as credenciais e uma rápida biografia do escritor Daniel Mantovani (Oscar Martínez). Apesar de ter vivido grande parte de sua vida na Europa, o argentino Mantovani espera na ante-sala para receber o Prêmio Nobel da Literatura. Quando ele é chamado ao palco, faz um discurso comentando como, ao receber o prêmio, ele percebe que a sua carreira terminou. Afinal, ele está sendo o artista mais “cômodo” para jurados, especialistas, acadêmicos e reis, e esta, na opinião de Montovani, não deve ser o papel de um escritor.

Cinco anos depois, o escritor argentino segue recebendo prêmios e com uma agenda cheia de eventos. Em alguns ele comparece, outros eventos ele simplesmente recusa. Um destes convites é feito pela prefeitura de Salas, cidade em que ele nasceu e que lhe serve de inspiração para as suas obras. No primeiro capítulo deste filme, Montovani recebe o convite para voltar para Salas. Inicialmente ele recusa, mas depois volta atrás e decide retornar para a cidade natal para receber o título de “cidadão ilustre” da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a El Ciudadano Ilustre): Como é bom voltar para o bom e velho cinema argentino! Porque sim, é muito difícil ver a um filme do país vizinho e não gostar do que assistimos. El Ciudadano Ilustre segue esta linha de satisfação quase sempre garantida, apresentando um filme inteligente, interessante, literário e bastante humano.

Esta produção foi a indicação deste ano da Argentina para o Oscar. Uma bela escolha, ainda que o filme fuja do padrão hollywoodiano. O roteiro de Andrés Duprat mergulha no fazer literário tendo como protagonista um escritor que lembra muito a outros nomes da literatura latino-americana, especialmente aqueles da escola do “realismo mágico”. Como assistir a El Ciudadano Ilustre e não lembrar de “Cien Años de Soledad” do grande Gabriel García Márquez?

Claro que há muitas outras referências, como os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, entre outros. Também me lembrei muito de José Saramago, o português que ganhou um Nobel da Literatura, a exemplo do protagonista deste filme, e que não achou, exatamente, que este foi um grande “presente”. E aí está uma das principais qualidades do roteiro de Duprat, a sua fina ironia.

Logo nos primeiros minutos do filme percebemos que Duprat nos mostra, através de seu Daniel Mantovani, que a noção de sucesso é bastante relativa. Para o protagonista de El Ciudadano Ilustre, os títulos que ele recebe, inclusive o Nobel, não querem dizer nada – ou querem dizer muito pouco. Ele continua “solitário”, incomodado com o que vê ao seu redor e, principalmente, com questões mal resolvidas com a sua cidade natal Salas e algumas pessoas que ele deixou por lá.

Como acontece na vida real, o escritor deste filme também se inspira muito na realidade, nas memórias que tem e preserva de sua cidade natal e a sua gente e, principalmente, na releitura que ele faz desta mesma realidade. Como ele escreve ficção, utiliza alguns elementos da realidade para dar asas para a própria criatividade e deixar fluir a literatura que lhe torna famoso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma muito inteligente, Duprat nos faz acreditar que Mantovani decide aceitar o convite da prefeitura de Salas para ir para a cidade receber o título de cidadão ilustre do município.

Desde que ele decide aceitar o convite, mergulhamos junto com ele em uma cidade do interior cheia de particularidades. Como tantas e tantas cidades do interior do Brasil, da Argentina e, tenho quase certeza, de qualquer parte do mundo. Quem nunca foi para o “interiorzão” e não viu vários detalhes que Mantovani vai encontrando pelo caminho, desde o ar-condicionado do hotel que só poderá ser usado após um pedido “expresso” do hóspede para a recepção até uma certa falta de oportunidades e do que fazer para uma parte considerável da população.

Personagens curiosos vão aparecendo conforme Mantovani vai se deslocando pela cidade. Muitos deles fascinados por um “cidadão ilustre” que colocou o pequeno “pueblo” no mapa mundial. Mas claro que há sempre o outro lado da moeda, como o prefeito que quer aparecer bem na foto com o escritor que ganhou o Nobel e o artista da cidade que não é premiado em um concurso e que empreende uma guerra particular contra o mais novo “desafeto”. Também há a jovem inteligente que vê no famoso escritor a desculpa perfeita para sair da pequena cidade e buscar uma vida longe dali.

O desenvolvimento da história é linear e bastante lógico, além de saboroso. Duprat tem um texto saboroso, que explora muito bem o contraste entre o escritor famoso e que tem uma grande vivência internacional e reflexiva e o povo simples da cidade em que ele nasceu. Mantovani não tem nada a ver com aquelas pessoas, aparentemente e olhando de forma geral, assim como quase nenhum de nós tem realmente a ver com o nosso lugar de origem – ainda que não podemos, ao mesmo tempo, ser explicados sem esta informação.

Ainda que o filme seja focado no protagonista, acabamos sabendo menos dele do que de Salas. Sim. Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn sabem conduzir a história de Andrés Duprat com maestria, destacando os locais e personagens de Salas mais do que o escritor ilustre que nos leva por aqueles caminhos. Enquanto a história se desenvolve, acabamos sabendo um pouco sobre ele. Por exemplo, que ele não retorna para Salas há 40 anos – como a mãe dele morreu naquele período, calculamos que a última vez que ele esteve lá foi para o enterro dela.

No vídeo de homenagem que fazem para ele na cidade, acabamos sabendo que o pai dele morreu 10 anos depois da mãe, mas Mantovani não foi para lá naquela ocasião. Ainda que ele frequenta a cidade há tanto tempo, ele deixou lá pessoas que lembram bem dele, como o antigo amigo Antonio (Dady Brieva) e a ex-namorada Irene (Andrea Frigerio) que, agora, está casada com Antonio. Na Espanha, onde mora, Mantovani vive de forma confortável, mas mora sozinho. Em uma conversa com Antonio ficamos sabendo que ele não se casou e que não teve filhos.

Mas se não conhecemos em detalhes a vida pessoas de Mantovani, sabemos sobre os seus valores e formas de pensar e agir, acabamos aprendendo conforme a história se desenvolve. Ele é um sujeito que respeita a todos, mas que não se deixa corromper e nem levar por favores ou promessas bobas. Ele também acha a fama e os prêmios uma bobagem, ou efeitos de um trabalho bem feito. Nada mais, nada menos. Ele não tem muita paciência com pessoas “sem noção” e não tem muitas “papas na língua”. Fala o que pensa e gosta de ter a liberdade para isso.

Para mim, o genial mesmo do filme foi o seu final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No início, como eu comentei, Mantovani não aceita diversos convites, inclusive o feito pelo município de Salas. Depois, a história parece dar uma “virada” e ele vai para lá. No final, aparentemente, ele é morto por Roque (Nicolás de Tracy), e nos últimos minutos da produção parece que vamos ver ele ser velado. E aí vem a grande e inteligente reviravolta: Mantovani está lançando o seu último livro, justamente a história que acabamos de ver.

Um dos jornalistas da coletiva de imprensa pergunta se o livro, que tem Mantovani como protagonista pela primeira vez em suas obras, é baseado em fatos reais. O escritor diz que isso pouco importa e mostra uma marca no peito, brincando que ela pode ter diversas origens. Achei brilhante! Belo final e que deixa a “moral da história” a gosto do espectador.

Da minha parte, acho sim que tudo o que vimos foi uma criação de Mantovani e que ele, de fato, não foi até Salas. Se observarmos bem quando ele “recebe o tiro”, o projétil teria acertado o escritor pelas costas e do lado direito dele. Pois bem, quando ele mostra a “marca” na coletiva de imprensa, ela está do lado esquerdo e na frente do corpo. Ou seja, mesmo que a bala tivesse atravessado da parte de trás para a parte da frente, não estaria deste lado, correto? Um elemento que acho que ajuda a mostrar que o que vimos foi o último livro dele “filmado”. Boa sacada.

Mas como acontece com tantas outras obras, saber o que realmente o escritor quis dizer ou o que tem a ver com a realidade e o que não tem a ver pouco importa. A experiência de deliciar-se com a obra, com a criatividade e com a narrativa do artista é o que interessa. Neste sentido, El Ciudadano Ilustre nos apresenta um filme interessante, bem equilibrado entre o drama e a comédia um tanto ácida.

Uma produção bem escrita e que tem algumas críticas interessantes sobre as pessoas que são consideradas “ilustres” em certa comunidade. Afinal, quem é admirado e quem tem o poder? Às vezes os talentos reconhecidos são os que caem no gosto de grupos, realmente, e outras vezes estas pessoas também sabem provocar e desempenhar o papel esperado de um artista. Por outro lado, quem “manda” é quem tem dinheiro e, muitas vezes, quem aterroriza os demais pela violência. Como bem explora a última obra do protagonista deste filme. Em resumo, um filme que faz pensar e que diverte.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A principal qualidade desta produção é o roteiro de Andrés Duprat, sem dúvida. Ele faz um filme com história linear que apresenta uma bela surpresa e que mistura realidade e ficção de forma estratégica e interessante. Um filme sobre literatura que não apenas mergulha no território de inspiração do escritor como também mostra um pouco de seu processo criativo e uma certa crítica para o “mainstream” da área.

Mesmo sendo o ponto forte do filme, admito que tem partes do roteiro que me pareceram um pouco lugar-comum demais. Em especial a personagem de Julia (Belén Chavanne). Para a “virada” do filme a história dela serve como uma luva, mas dentro do contexto da história e do personagem principal, ela acaba parecendo um tanto forçada. Talvez se a atriz fosse um pouco mais atraente, convenceria mais.

A direção de Gastón Duprat e de Mariano Cohn é boa. Valoriza tanto as particularidades da cidade de Salas quanto o padrão de vida do protagonista e, claro, o trabalho de cada ator. Do elenco, sem dúvida alguma o destaque é Oscar Martínez. Os outros atores se esforçam, mas estão alguns degraus abaixo do protagonista em termos de talento. Alguns são, visivelmente, amadores. Isso acaba prejudicando um pouco o filme porque eles realmente parecem um tanto deslocados em algumas cenas.

Além de Martínez, estão bem na produção Dady Brieva, Andrea Frigerio e, mesmo que aparecendo menos, Nora Navas como Nuria, secretária de Mantovani. Além deles, vale citar o bom trabalho de Manuel Vicente como o prefeito Cacho; Belén Chavanne em um papel muito previsível como Julia; Marcelo D’Andrea como o “inimigo” egocêntrico Florencio Romero, artista local que não “engole” Mantovani; e Julián Larquier Tellarini como o recepcionista do hotel em que o escritor fica hospedado.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Mariano Cohn e de Gastón Duprat; a trilha sonora de Toni M. Mir; e os figurinos de Laura Donari.

El Ciudadano Ilustre foi rodado nas cidades de Barcelona, na Espanha, e nas cidades argentinas de Buenos Aires (chegada do protagonista no país de origem), Cañuelas e Navarro, estas duas últimas próximas de Buenos Aires e que se passaram pela ficcional Salas.

O filme, que é uma coprodução da Argentina e da Espanha, recebeu 13 prêmios e foi indicado a outros 17. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Roteiro Original conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina; para o de Melhor Filme Iberoamericano conferido pelo Prêmio Goya; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Haifa; para de Melhor Roteiro e para o conferido pela Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica no Festival de Cinema de Havana; para dois de Melhor Roteiro e dois de Melhor Filme (Silver Spike e Golden Spike) no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; para os de Melhor Filme do Vittorio Veneto Film Festival Award e de Melhor Ator para Oscar Martínez no Festival de Cinema de Veneza; e para o prêmio Open Horizons dado pela audiência do Festival de Cinema de Thessaloniki.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas para o filmes e… só. Ou seja, El Ciudadano Ilustre conquistou uma rara aprovação de 100% no Rotten Tomatoes, somando uma nota média de 7,2 no site. Belo desempenho.

Para quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre o realismo mágico na literatura, este texto pode ser uma boa introdução. E conhecer a obra destes e de outros escritores desta escola, claro, vale muito a pena. 😉

Ah, vale falar um pouco sobre os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat. Os dois são argentinos, nascidos em “pueblos” que fazem parte da província de Buenos Aires. O primeiro tem 41 anos e é natural de Villa Ballester, e o segundo tem 47 anos e nasceu em Bahía Blanca. Os dois fazem parceria na direção desde o início da carreira de cada um, no ano 2000, com o documentário Enciclopedia. Antes de El Ciudadano Ilustre eles dirigiram Yo Presidente, em 2006; El Artista, no mesmo ano; e El Hombre de al Lado, em 2009. Fiquei curiosa para ver alguns destes filmes anteriores.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e provocador, que questiona alguns lugares-comum sobre a noção de sucesso e de verdade. El Ciudadano Ilustre é mais um bom exemplar de cinema argentino, com uma história envolvente, interessante, rica em detalhes, muito bem contada e com um grande protagonista. Impossível não lembrar de grandes escritores e o seu ofício, assim como de personagens tão típicos de qualquer parte do mundo e que sempre servem de referência para quem vive de contar histórias. Um filme gostoso e que passa rápido, diferente de Paterson, que também trata de literatura e de inspiração artística. Eis uma boa pedida.

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Francisco, El Padre Jorge – Papa Francisco, Conquistando Corações

Um Papa amado por multidões e respeitado por pessoas de diferentes religiões. Francisco, El Padre Jorge conta um pouco da história do Papa Francisco, que é o líder máximo da Igreja Católica desde 2013. O filme tem uma boa narrativa, um roteiro que vai e volta no tempo algumas vezes e que procura aproximar a narradora da história e o espectador do Sumo Pontífice. O único problema da produção é que ela apresenta poucas novidades. Quem é católico e que buscou saber ao menos um pouco além do básico sobre o Papa Francisco, não será surpreendido.

A HISTÓRIA: Cenas de Buenos Aires. O dia está nascendo e ouvimos a uma música típica da Argentina. O ano é 2013, e a jornalista Ana (Silvia Abascal) chama a filha Eva (Naia Guz Sanchez) para a responsabilidade que elas tem na cidade. A menina quer ir para o zoológico, mas a mãe dela explica que antes da diversão vem o dever. Ana e Eva embarcam na excursão para turistas que apresenta a Buenos Aires do padre Jorge Mario Bergoglio, nomeado o 266º Papa da Igreja Católica em março daquele ano. Nesta história descobrimos um pouco sobre ele e também sobre a relação da jornalista Ana com o padre Jorge Bergoglio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Francisco, El Padre Jorge): O Papa Francisco conseguiu encantar católicos e pessoas de diferentes religiões desde o início de seu pontificado. Mas também foi alvo de vários ataques e de algumas polêmicas. Esta produção dirigida pelo espanhol radicado na Argentina Beda Docampo Feijóo ajuda a explicar um pouco da trajetória do primeiro padre latino-americano a se tornar Papa e das razões que fazem ele ser combatido por algumas correntes da própria Igreja.

O roteiro escrito por Beda Docampo Feijóo com colaboração de César Gómez Copello e tendo o livro de Elisabeta Pique como fonte é bastante franco sobre a trajetória de Bergoglio na Argentina e algumas de suas principais bandeiras antes e depois de se tornar Papa. Com trajetória ligada à periferia e com defesa franca dos pobres, Bergoglio denunciava a corrupção e a hipocrisia em Buenos Aires. No fundo, denunciava estas práticas em qualquer parte.

Chama a atenção no filme a parte em que ele conta a trajetória de Jorge antes dele se tornar padre. Para mim, esta foi a parte mais “nova” da produção. Eu não sabia, por exemplo, que a avó dele tinha sido uma fonte de inspiração do jovem quando ele estava para decidir o que faria da vida. Foi ela que lhe presentou com um livro sobre São Francisco de Assis – santo que, sem dúvida, foi e é uma grande influência para o pontífice.

Interessante os trechos do filme em que vemos a um jovem Bergoglio cercado da família e de amigos e que foi capaz de ficar encantado por uma garota que, como ele, amava a literatura. Desde jovem, o atual Papa Francisco era um devorador de livros. Este conhecimento dele, assim como a forma com que ele mergulhava na interação com as pessoas comuns e de todos os tipos, fez com que ele se tornasse muito, muito humano. Capaz de consolar, de interagir com qualquer pessoa de qualquer idade, de escutar e de citar ótimas referências – inclusive literárias.

A trajetória de Jorge Bergoglio fez com que ele entendesse o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo como grandes exemplos de amor e de inclusão. Perto de se aposentar, ele acabou se tornando Papa, algo que ele não desejava, realmente. Mas ele aceitou, porque sabe que Deus escreve certo por linhas tortas e que a vontade dele deve sempre se curvar frente à vontade de Deus. Algo interessante neste filme também são os “bastidores” do Conclave. Para mim, também uma parte diferenciada da produção.

Interessante como Jorge Bergoglio “bateu na trave” quando da eleição do alemão Joseph Aloisius Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI. Diferente do que os vaticanistas pregavam, não era exatamente uma surpresa o “independente” e um tanto “revolucionário” Bergoglio ser eleito Papa. Ainda que a corrente progressista da Igreja tenha vencido na eleição dele, a corrente mais conservadora não dormiu no ponto e tem se posicionado contra algumas declarações do Papa Francisco.

O filme apenas toca neste tema. A preocupação de Francisco, El Padre Jorge certamente não era polemizar ou adentrar realmente nos bastidores da Igreja Católica, formada por diferentes correntes. A produção deseja mais ser uma introdução sobre a história por trás do atual Papa, esboçando através de um roteiro cheio de idas e vindas no tempo e no espaço, um rápido painel sobre as influências e a trajetória que ele fez antes de assumir a liderança da Igreja Católica.

Para muitos católicos bem informados que conhecem um pouco mais do que o básico sobre o Papa Francisco, este filme será bastante previsível. Para os que são bem informados, mas que não leram o livro de Elisabetta Pique ou outras obras sobre Jorge Bergoglio, talvez parte da produção apresente elementos novos. Eu me enquadro neste segundo grupo. Acho o filme bem feito, com uma proposta bastante clara e que deve agradar, especialmente, as pessoas que sabem pouco sobre o Papa.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor espanhol Beda Docampo Feijóo nasceu apenas na cidade galega de Pontevedra, na Espanha. Quando ele tinha um ano de idade, a sua família se mudou para Buenos Aires. Foi lá que ele fez a carreira como diretor e roteirista, tendo 14 títulos no currículo pela primeira função e 20 na segunda. O filme mais conhecido dele é El Marido Perfecto, de 1993, estrelado por Tim Roth.

O roteiro de Francisco, El Padre Jorge é um bocado fragmentado, mas bem escrito. Tanto que o espectador não fica perdido na história. A produção tem um ritmo bom e não deixa o interesse do público cair, mesmo entre aqueles que já conhecem boa parte da história narrada. eu só não achei a produção melhor porque ela poderia ter um pouco mais de “tempero” e de detalhes menos conhecidos da vida do biografado.

O elenco está bem, ainda que eu tenha sentido falta de um ator que se “enquadrasse” mais no perfil do Papa Francisco. Darío Grandinetti é um grande ator, com bastante experiência, mas é impossível vê-lo na telona e não ficar pensando que outros atores poderiam ter se enquadrado mais no perfil do Papa. Mas, descontada a diferença grande física e de idade, dá para acreditar no trabalho de Grandinetti. Do elenco, o destaque acaba sendo Silvia Abascal, que interpreta uma Ana bastante verossímil e humana.

Do elenco, vale ainda elogiar o bom trabalho de Lucas Armas Estevarena, que interpreta Jorge Bergoglio quando ele tinha 13 anos; para Gabriel Gallicchio, que interpreta o jovem Bergoglio; Mariano Bertolini como o padre Pepe; Rubén Darío Figueredo como Ernesto, padre que deixou o sacerdócio e que contou para a protagonista sobre a defesa que Bergoglio fez de padres durante a ditadura no país; para María Ibarreta, que interpreta Patricia, mãe de Ana; e para Leonor Manso, que interpreta a avó de Bergoglio, Rosa.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Kiko de la Rica, que valoriza muito bem a cidade de Buenos Aires, em especial, mas também Roma e Madri; a edição bem feita de Cristina Pastor; e os figurinos de Natacha Fernández e Marcela Vilariño.

Francisco, El Padre Jorge foi indicado a três prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina em 2015, mas não recebeu nenhum deles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. O site Rotten Tomatoes não tem críticas para o filme.

Este filme é uma coprodução da Espanha, da Argentina e da Itália.

Faz umas duas semanas que eu assisti a este filme no cinema. Agora eu quero me lançar neste fim de semana novamente em uma sala escura para ver a novos filmes e comentá-los por aqui. Aguardem e confiem. 😉

CONCLUSÃO: O Papa Francisco tem uma jornada que é coerente com o que ele acredita ser o centro do Evangelho. Pelo seu forte contato com o povo e os menos favorecidos, desde quando ele morava em Buenos Aires, é que os católicos tem um pontífice que acredita na inclusão e no amor ao próximo e à Deus acima de tudo. Ele defende o amor entre todos, como Jesus ensinou há mais de 2 mil anos. Francisco – El Padre Jorge nos mostra parte da formação, do contexto familiar e da caminhada dele até que ele se tornasse Papa. É um filme bem feito, mas que acrescenta pouco para quem já conhece a história do Papa Francisco. A parte boa é que a essência da sua história está na produção e pode servir como introdução para os menos informados.

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Truman

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O nosso coração sempre sabe de quem gostar, em quem confiar. Pelo menos quando falamos de amizade e de relações a longo prazo. Truman fala sobre amor, amizade, reencontros e decisões que não são fáceis de encarar. Um filme sensível, singelo, despretensioso e com dois dos maiores atores do cinema em língua espanhola dos últimos tempos como protagonistas e fazendo um dueto incrível. Procure não saber muito do filme antes de assisti-lo. Só assim vais aproveitar ao máximo tudo o que os realizadores de Truman prepararam pelo caminho.

A HISTÓRIA: Uma rua de um bairro residencial com casas cobertas de neve. Chega um táxi. Dentro da casa, Tomás (Javier Cámara) toma uma bebida quente, confere que as crianças estão dormindo e vai até a cama dar um beijo na mulher. Depois, ele termina de se arrumar para encarar o frio novamente. Desta vez, ele se prepara para viajar. Com atenção, contempla no caminho as paisagens cheias de neve e geladas. Com o passaporte espanhol na mão, Tomás voa para o seu país de origem. Em Madri, ele fica hospedado em um hotel, muito próximo da casa de Julián (Ricardo Darín), motivo de sua viagem de retorno, de reencontros e de novas descobertas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truman): Caros leitores, realmente só leiam este texto depois de terem assistido ao filme. Repito isso pela enésima vez e sendo até chata porque, sem dúvida, uma das forças de Truman é o roteiro fantástico escrito por Cesc Gay e Tomàs Aragay. E o texto deles só tem o impacto desejado se a história for descoberta assistindo ao filme e não antes.

Dito isso, impossível não comentar: que filme é esse, minha gente? Estrelado por dois atores magistrais, fantásticos, que repassam para quem vê esta produção a emoção adequada do primeiro até o último minuto. Não há excessos em Truman. O roteiro de Gay e Aragay é justo em cada palavra e em cada silêncio, e Cámara e Darín são soberbos ao viver as emoções de seus personagens em cada momento, especialmente nos olhares e momentos de silêncio.

Vou admitir, logo aqui no início, que chorei um bocado neste filme. Pelo menos em dois momentos as lágrimas caíram sem vergonha. Na verdade, acho difícil alguém assistir a Truman e não se emocionar, inclusive chorando em um ou mais momentos. Mas sei também que cada um vivencia o cinema e as suas histórias de uma maneira, é claro. Isso sempre foi assim e sempre será. Possivelmente esse filme faça pessoas que já tem uma certa trajetória de vida entender na plenitude o que Gay e Aragay quiseram dizer. Imagino eu adolescente assistindo a Truman e não tendo a mesma leitura que a Alessandra de agora, possivelmente com metade da vida já vivida e tendo presenciado tantas histórias de dores e mortes pelo caminho.

Porque este filme tem muito a ver com a passagem do tempo, com uma vida bem vivida e com o enfrentamento do fim inevitável. E tudo isso fica mais claro conforme vivemos, presenciamos despedidas e encaramos a nossa própria fragilidade. Mas Truman não é apenas isso, mas uma reflexão comovente sobre as relações que realmente são importantes e sobre a aceitação dos limites que cada um de nós tem.

No início desta produção, cheguei a me perguntar sobre a natureza da relação entre os protagonistas, entre Tomás e Julián. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Naquele primeiro contato entre eles, os segundos em que ficaram se olhando e não falaram nada, mil sentimentos passaram na nossa frente. Tomás poderia ter tido uma relação amorosa com Julián e depois ter casado e tido filhos? Mas não demora muito para essa possibilidade desvanecer e ficar claro que eles são apenas grandes amigos. Ou melhor, são um o melhor amigo do outro.

Pouco a pouco o roteiro também vai deixando claro a razão da viagem de Tomás. Ele voltou para Madri para tentar convencer o amigo a não desistir da vida. Depois que eles se encontram, Julián primeiro vai consultar o veterinário (Alex Brendemühl) que cuida de Truman para saber como ele pode ajudar o cão a ter uma adaptação melhor sem ele. Na sequência, todas as dúvidas são respondidas quando Julián vai em mais uma consulta com o seu médico (Pedro Casablanc). Depois de batalhar bastante contra um câncer agressivo, agora a doença retornou com mais força e ele está cansado.

Quando Tomás viaja para visitar o amigo, ele ainda tem a esperança de que Julián pode mudar de ideia. Que ele pode decidir por continuar lutando contra a doença. Mas Julián é muito claro, ao falar com o médico, de que ele está cansado e que quer viver o resto do tempo que ele tem com dignidade e não definhando em uma cama de hospital. Tomás é sutil nas tentativas, como quando ele vai com o amigo para uma livraria. Só que nada surte efeito porque Julián está tranquilo, em paz com a decisão que tomou.

Como tantas pessoas que já viveram um bocado de tempo, ele está tranquilo com o que fez da própria vida e tem por estilo não ter muitas “papas na língua”. Há vários exemplos dele sendo sincero com diversas pessoas no filme, em uma espécie de acerto de contas com todos que encontra. Ainda que ele tenha muita coragem, algo inerente para quem enfrenta algo tão duro quanto o fim da própria vida, ele é humano e também tem momentos de “covardia”. Como quando não consegue contar para o filho exatamente o que está passando.

Uma das belezas de Truman é que este filme é humano, demasiadamente humano. Por isso mesmo ele trata da vida e da morte, e de boa parte dos frutos destas duas realidades, como os afetos, os amores, o perdão, a raiva, a compreensão e a incompreensão. Tomás viaja sabendo que possivelmente esta será a última vez em que ele verá o seu grande amigo. Pensa que talvez consiga fazer alguma diferença, mas logo aceita que não e que o melhor é realmente respeitar a vontade de Julián. Isso é amor. Você respeitar a vontade da pessoa que você ama, mesmo não concordando com ela.

Julián, por sua vez, vive altos e baixos. Ao mesmo tempo que está seguro e sereno sobre a decisão que tomou e parece ter coragem de enfrentar o que virá, em alguns momentos ele revela fragilidade, insegurança e carência. Todos sentimentos previsíveis de quem está encarando o próprio fim. Altruísta, ele está preocupado com Truman, o seu grande companheiro de muitos anos. Quem já teve um cão ou outro animal de estimação com quem compartilhou vários anos de sua vida vai, com certeza, entender a preocupação pela que passa Julián.

Para mim, as peripécias de Julián para encontrar a “pessoa certa” para ficar com Truman revela todo o amor e sensibilidade do personagem. Não é porque ele vai morrer que ele deve entregar o seu “companheirão” para qualquer pessoa ou deixá-lo em qualquer lugar. Tomás acompanha o amigo em cada passo e é doloroso fazer isso. Mas, ao mesmo tempo, ele também acaba aceitando melhor a situação que está se apresentando. Os dois amigos, na verdade, estão em processo de aceitação. A despedida derradeira nunca é fácil, apesar disso.

Vale destacar também a diferença entre Tomás e Paula (Dolores Fonzi). Ela é a pessoa mais próxima de Julián e, por ser de sua família, não consegue aceitar que ele vai embora para sempre. Normalmente os familiares tem esse problema de aceitação. Eles querem que a pessoa lute e brigue até o final, e fica difícil aceitar qualquer outra alternativa. Para um amigo também não é fácil, não estou dizendo isso.

Mas o interessante é que Tomás e Paula encarnam duas personalidades diferentes e bem comuns em situações assim. Ele aceita a decisão do amigo, mesmo lhe doendo muito. Ela não, porque gostaria que ele lutasse até o final. Honestamente, entendo e consigo me colocar no lugar dos dois. Isso não é fácil, qualquer espectador mais sensível sente a dor de cada um dos personagens, porque esta história é de alta empatia. Mas apesar de toda a força de Paula, no fim, e isso Truman nos mostra muito bem, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Cada um sabe as alegrias e as dores por que passou como ninguém mais.

Então, até podemos argumentar, torcer mas, no fim das contas, cada um deveria saber a forma com que quer viver e acabar a própria trajetória. Aceitar nem sempre é fácil, mas obrigatoriamente fará parte do processo. Quanto antes conseguimos sair do campo do que queremos e passamos para o campo de aceitar, entender e respeitar o desejo de quem amamos, melhor. Por mais que a situação seja difícil e definitiva. Porque, no fim das contas, o que realmente fica e vale é o que vivemos juntos, o que demonstramos e como passamos o nosso tempo. Truman fala disso tudo com muita sinceridade e interpretações maravilhosas. Não é preciso nada mais.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sou uma apaixonada por filmes que nos fazem imergir em uma realidade, em uma história, especialmente quando o foco desta narrativa são pessoas e suas relações e sentimentos. Para mim, estes são filmes “humanistas”, porque tratam de pessoas e da própria humanidade. São, justamente, os que eu mais aprecio. Truman é um grande exemplar deste tipo de filme.

Além de dois atores soberbos, Truman tem um roteiro exemplar. O diretor Cesc Gay escreveu Truman junto com Tomàs Aragay e fez desta união um grande trabalho. Truman tem momentos de pura emoção e vários trechos de humor na medida – afinal a vida, mesmo perto da tragédia, não deixa de ser cômica. Como este filme trata de vida e de morte, não tinha como ele ignorar o drama e a comédia, a base de qualquer grande obra.

Enquanto a história se desenvolve, Julián vai prestando contas e fazendo tudo que ele acha necessário fazer antes de partir. Curioso que nós deveríamos fazer isso mais vezes também. Afinal, nunca sabemos quando será a nossa vez. Julián teve a “sorte” de fazer o que queria antes de partir porque sabia que a “sua hora” estava chegando. Mas e todas aquelas pessoas que partem repentinamente e que não podem fazer o mesmo? Seja mortas por acidente, crime ou por um ataque cardíaco fulminante? Ninguém está livre disso e, por mais que não gostemos de pensar na nossa mortalidade com muita frequência, deveríamos agir mais vezes como se “não tivéssemos amanhã”. Seria mais fácil encarar o fim quando ele realmente aparecesse.

Outro elemento que faz Truman entrar na minha lista de grandes filmes é que ele se passa em Madri. Como vocês sabem, o cinema é uma ótima forma de viajarmos no tempo e no espaço e a visitar e/ou revisitar lugares que não conhecemos ou aqueles que amamos e que não podemos vivenciar tanto quanto gostaríamos. Como eu vivi em Madri por três anos e voltei algumas vezes para lá desde então, sempre é um prazer ver a cidade na telona. Meu coração bateu forte ao ver o Café de Belén logo no início, um dos pontos queridos de quem vive naquela cidade.

Sou fã de carteirinha de Ricardo Darín (e quem não é?) e de Javier Cámara. Aqui eles fazem mais uma grande entrega. Palmas para Cesc Gay que conseguiu reunir estes dois monstros em uma mesma produção. Além deles e dos atores já citados, com destaque especial para Dolores Fonzi, que faz um grande trabalho também, vale comentar a atuação de outros atores muito bons em papéis secundários. Para começar, destaco Eduard Fernández, um competente ator espanhol, que faz uma ponta como Luis, amigo de Julián que foi traído por ele e com o qual ele se encontra em um restaurante; Oriol Pla como Nico, filho de Julián; José Luis Gómez, outro veterano ator espanhol, como o produtor de teatro que acaba dispensando Julián da peça que ele estava fazendo; Javier Gutiérrez como o assessor da funerária; Elvira Mínguez como Gloria, ex-mulher de Julián e mãe de Nico; e Lucie Desclozeaux como Sophie, namorada de Nico. Ah sim, e o cão que “interpreta” Truman se chama Troilo. 😉

O roteiro de Truman é, junto com a dupla de protagonistas, o ponto forte do filme. Assim como a direção de Cesc Gay que está sempre cuidando da câmara estar perto dos atores e enfocando as suas emoções, expressões e reações. Além disso, o diretor não se esquece de mostrar o ambiente e a atmosfera em que estas pessoas se movem e onde elas vivem. Elementos fundamentais quando estamos contando uma história de vida.

Da parte técnica do filme, além da direção e do roteiro, vale destacar a direção de fotografia de Andreu Rebés e a edição de Pablo Barbieri Carrera. Também funcionam bem o design de produção de Irene Montcada, a direção de arte de Jorien Sont e os figurinos de Anna Güell. A trilha sonora de Nico Cota e Toti Soler é pouco presente, mas é boa e casa bem com a história.

Truman estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, ele participou de outros oito festivais pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 21. Uma bela coleção – e merecida, diga-se. Entre os prêmios que recebeu, destaque para as seis categorias que abocanhou no Prêmio Gaudí, o principal do cinema catalão; para cinco estatuetas que recebeu no Prêmio Goya, o mais importante da Espanha; e para o SIGNIS Award – Special Mention no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: depois da estreia de Truman nos cinemas, o diretor Cesc Gay informou a imprensa que Troilo, o cão que dá vida a Truman no filme, morreu de causas naturais alguns meses depois das filmagens terem terminado. Em alguns eventos com tapete vermelho para divulgação do filme nos quais o ator Ricardo Darín participou ele levou uma das filhas de Troilo na apresentação da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 textos positivos para a produção. E isso é tudo. Este é um raro, muito raro exemplo de um filme que conseguiu 100% de aprovação dos críticos que deram a nota média de 7,7 para a produção. Tenho que admitir que estou com os críticos. Acho que isso ficou evidente com a nota acima, não é mesmo? Acho esse filme perfeito, simplesmente.

Truman é uma coprodução da Espanha com a Argentina. Ele teria custado cerca de 3,8 milhões de euros. Para comparação, Batman vs Superman: Dawn of Justice teria custado US$ 250 milhões. Não assisti ao filme, antes que alguém me questione, e francamente nem tenho a intenção de fazer isso. Não porque não gosto de filme de super-heróis ou baseados em HQ. Mas ouvi muitos comentários negativos dele e, francamente, não tenho tempo para perder com produções ruins. Além disso, desconfio que ele nem roce na humanidade deste Truman. E, volto a dizer, é deste tipo de filme que me interessa.

CONCLUSÃO: Para ser grande não é preciso ter ambições muito altas. Truman é um exemplo de que uma história aparentemente simples pode ter grande profundidade e emocionar por tudo aquilo que nos apresenta e também por tudo aquilo que nos faz resgatar de nós mesmos. Um filme exemplar na história e na forma com que ela é narrada, dando evidência para o trabalho excepcional de dois intérpretes gigantes. Vale mais que 10 filmes medianos de heróis em quadrinhos e sem metade do dinheiro gasto por um deles. Porque bom cinema não precisa de pirotecnia, ele precisa nos contar uma história convincente e, preferencialmente, envolvente e com empatia. Este é um belo exemplar deste tipo. Tendo a possibilidade de assistir a esta produção, não a desperdice.

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Séptimo – 7th Floor – Sétimo

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Ricardo Darín é um destes raros atores que consegue ser bom intérprete e convencer o espectador até calado ou debaixo de chuva. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que todo filme que ele encabeça seja bom. Séptimo, por exemplo, é uma produção que tem uma premissa boa e começa bem, mas que não demora muito para demonstrar como faltou desenvolvimento do roteiro. O que era promissor revela-se um bocado frustrante. Mas para os fãs de Darín, provavelmente, isso vai pouco importar.

A HISTÓRIA: Notícias falam dos últimos acontecimentos, enquanto imagens aéreas mostram Buenos Aires. A última notícia diz que o trânsito está carregado, mas a imagem mostra que ele flui bem. Entre os carros que estão trafegando, está o guiado pelo advogado Sebastián (Ricardo Darín). Toca o telefone, e a secretária do chefe dele, Goldstein (Jorge D’Elía), avisa que o patrão quer que Sebastián chegue antes no Tribunal para apoiar um cliente importante. Ele canta a secretária, que dispensa o colega.

Antes de ir para o Tribunal, Sebastián se encontra com a quase ex-mulher, Delia (Belén Rueda), e com os filhos, Luca (Abel Dolz Doval) e Luna (Charo Dolz Doval). Ele deve levá-los para o colégio. Mesmo com o alerta de Delia, Sebastián e os filhos brincam dele descer os sete andares desde onde eles moram e até o térreo de elevador enquanto eles correm pelas escadas. O problema é que chegando na recepção Sebastián descobre que os filhos dele sumiram. Daí começa a busca pelo paradeiro das crianças.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Séptimo): Os minutos iniciais desta produção já dão muitos indicadores para o espectador. Aquela técnica de misturar notícias de rádio e/ou TV com imagens aéreas da cidade e que, no conjunto, dão a entender que a história se passa em “uma grande metrópole” já é para lá de batida. Aqueles minutos iniciais revelam como Séptimo é um filme que mergulha sem medo na escola do cinemão dos Estados Unidos. E não apenas naquele início.

Nas cenas seguintes, temos a apresentação do protagonista como um cara que tenta ser “descolado” – cheio de gracinhas com a colega de trabalho – e também eficiente. Aos poucos vamos entendendo como o personagem de Darín tem um certo problema com a fidelidade – ele gosta de pular a cerca – e com seguir regras. Até aí, tudo certo. Bastante lugar-comum, mas nada que prejudique a história logo de cara.

Quando Belén Rueda surge em cena, chega a ser um alento saber que existe ao menos mais uma atriz em cena de peso além de Darín. Afinal, por mais que ele seja bom, a história mostra como um único ator, sozinho, não consegue salvar uma produção. Quando ele resolve ir conta a orientação da quase ex-mulher e brinca com os filhos, mesmo atrasado, o espectador já está se preparando para o pior. E, de fato, as crianças somem.

Até este momento, o filme vai bem, apesar das obviedades. E os primeiros minutos de “desespero” do protagonista, bem interpretados por Darín, de fato incentivam a angústia do espectador. Mas daí logo surge aquela questão: de duas uma, ou as crianças saíram do prédio, e para isso o porteiro Miguel (Luis Ziembrowski) teria que estar envolvido, ou elas estão em alguma parte do prédio.

Se a premissa é boa – as crianças somem após o pai falhar em infringir uma regra -, a resolução dela acaba sendo vital para esta produção. E aí que o roteiro do diretor Patxi Amezcua com Alejo Flah falha. Justamente na resolução do caso. Oras pois, desde os livros de Agatha Christie aprendemos que o importante é termos bons “possíveis culpados” em cena. Entender a motivação das pessoas é tão ou mais importante que conhecer os fatos que antecederam o problema.

Séptimo é fraco nos possíveis culpados. Lá pelas tantas, Sebastián acaba acreditando que os filhos foram sequestrados a mando do homem poderoso que não quer que ele continue no caso que será defendido no Tribunal – ideia, cá entre nós, bem estapafúrdia e que não chega a convencer, afinal, ninguém foi visto carregando as crianças para fora do prédio – e, por poucos segundos, ele questiona se o ex-marido/namorado da irmão não teria sido o culpado.

Esta segunda opção, que poderia dar mais pano pra manga, é rapidamente descartada. Achei um desperdício – afinal, para que ter aqueles dois personagens (a irmã do protagonista e o perseguidor dela) na trama se eles não dariam muito mais que alguns segundos de tensão/drama?

Antes disso tudo, um ponto importante é que logo Sebastián acredita na tese de sequestro. E, junto com ela, aceita de ficar esperando, já ao lado de Delia, pela famosa ligação pedindo dinheiro. Oras, sério mesmo que um pai aceitaria tão rapidamente esta premissa? E se os filhos tivessem sido sequestrados por um psicopata ou por um pedófilo? O protagonista não teria que trabalhar com outras teorias antes de ficar esperando com a quase ex-mulher no apartamento e, enquanto isso, jogando papo fora sobre como ele havia pisado na bola?

As reações dos personagens também deixam a desejar. Primeiro que o protagonista vai de 0 a 100 em segundos de uma maneira pouco convincente. Ele não deveria ter um desespero crescente desde o sumiço dos filhos e ter mostrado um pouco mais desta preocupação/culpa na procura que começou a fazer apartamento por apartamento antes de estourar na unidade vazia do possível culpado? Também achei pouco factível ele ter tantas dúvidas com aquele policial meio velho – se ainda o ator escalado tivesse um pouco mais de perfil dúbio… mas não era o caso.

Pior que a reação um tanto intempestiva e um tanto tardia do personagem de Darín foi o segundo momento da reação da personagem de Belén Rueda na trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é difícil desconfiar dela depois que, após acusar o quase ex-marido de uma forma um tanto “leve”, ela fica calmamente esperando por uma ligação dos sequestradores em casa. Que mãe, naquela situação, teria reagido com tanta frieza se ela não tivesse alguma ideia de que os filhos estariam bem? Enquanto Sebastián faz teorias mirabolantes, a quase ex-esposa dá sinais estranhos de estar muito controlada para a situação.

Ainda que a condução até aqui seja falha, o pior ainda está por vir. A forma com que Sebastián consegue o dinheiro do chefe dele, no escritório de advocacia, é quase cômica. Não acredito que na vida real alguém conseguiria pegar aquele dinheiro – e, primeiro, ter toda aquela quantia de dólares no escritório do homem que recebe US$ 100 por semana… – e sair daquela forma tão “tranquila”.

Só mesmo em um filme que precisa, urgentemente, de uma saída para a história. Depois, bem difícil de engolir que um homem no centro do furacão como Sebastián se preocuparia em não deixar a linha de celular ocupada e deixaria a bateria terminar no momento decisivo das negociações para a libertação dos filhos. Por favor! São os roteiristas brincando com a nossa inteligência!

E daí que fica ultra suspeita a reta final da produção. Primeiro, até dá para acreditar que as crianças foram ajudar uma mulher que disse ser amiga do pai delas e que estava com problemas após a sacola de compras estourar e que, desta forma, elas entraram no apartamento do quarto andar sem dar na vista e sem resistência. Mas quantas horas passaram depois disso? E as crianças ficaram numa boa, ensinando a mulher a usar o Wii, por diversas horas sem nenhuma delas questionar que elas estavam indo para o colégio e que o pai estava preocupado com elas e que, desta forma, elas deviam sair dali?

Sério mesmo que eles querem nos convencer que as crianças brincaram com o Wii, ganharam umas bolachas, e esqueceram do pai, do colégio e da vida? Difícil de acreditar, hein? Se ao menos elas tivessem sido dopadas… mas não é isso que o filme sugere através da narrativa delas após a saída do apartamento que serviu de cárcere. Depois, estranho o porteiro comentar que Sebastián estava certo e que  as crianças estavam no 4º B. Não lembro em nenhum momento dele insistir nesta ideia.

E para fechar a série de peças mal encaixadas, na mesma noite de um dia em que as crianças foram sequestradas, a mãe delas de fato convence querendo tirar elas do país? Sério mesmo? Que mãe, por mais desesperada que estivesse com a “insegurança” da cidade onde mora, iria tirar as crianças do país – e não para uma viagem curta, mas para algo acima de 10 horas de voo – no final de um dia tenso como aquele, com as crianças ainda “traumatizadas” com um sequestro relâmpago? E o pior é Sebastián concordar com aquilo sem nem questionar muito – e não me digam que a culpa que ele pudesse estar sentindo justificaria aquilo.

Francamente, muito ruim a condução do filme e os pontos questionáveis que ele vai deixando no caminho. O início foi muito bom, apesar de um ou outro lugar-comum, mas boa parte da trama se mostra capenga e incoerente. Darín salva a maior parte das cenas, descontadas as partes do roteiro que prejudicam a interpretação dele – porque não dá para acreditar nas atitudes do personagem. O mesmo acontece com Belén Rueda. Ela está muito bem no início, mas quando o roteiro coloca a personagem em atitudes estranhas, a atriz também não se sai tão bem.

Ainda assim, apesar do problema fundamental do roteiro, é preciso dizer que a escalação do elenco foi muito bem acertada, e que a direção de Patxi Amezcua dá conta do recado. Ele acerta em manter a câmera perto dos atores, para registrar a emoção deles, ao mesmo tempo que explora bem a dinâmica das cenas com cortes bem feitos e uma edição competente. A trilha sonora, vital em produções de suspense como essa, também é acertada. Então, no fim das contas, o filme é bem acabado, apesar de ser falho na trama.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme como esse, muitas vezes, só vale a pena por causa do Ricardo Darín. Esse ator, além de ótimo intérprete, é um charme só. Por causa disso, mesmo com a idade que ele tem – 57 anos, perto de completar 58 no dia 16 de janeiro -, ele convence como um “don juan”, um garanhão que pode cantar a secretária do escritório de advocacia de Séptimo e quem mais ele quiser. Mesmo gostando tanto dele – e não conheço ninguém que não goste do ator -, admito que gostei de ver o nome de Belén Rueda no elenco. Não assisti a muitos filmes da atriz, mas em um recente ela manda muito bem: El Orfanato, comentado aqui no blog. Vale assistir.

Um problema de Séptimo é que além destes dois atores, que são protagonistas, o elenco de apoio deixa a desejar. Por exemplo os atores mirins, os irmãos Abel Dolz Doval e Charo Dolz Doval. A impressão que eu tenho é que eles estão ali para cumprir tabela, mas não agregam realmente valor enquanto intérpretes. Não importa se vemos eles antes ou depois do sequestro, porque eles estão sempre iguais. Mornos. Falta experiência e, no caso deste filme, talvez um pouco mais de preparo para eles.

Os outros atores do elenco de apoio são apenas razoáveis. Vale destacar o bom trabalho de Luis Ziembrowski como Miguel, porteiro do prédio que fica sempre com uma cara de semi-culpado e um tanto perdido; Osvaldo Santoro como Rosales, o policial veterano que mora no prédio e que acaba ajudando na procura das crianças – e com quem o protagonista já teve alguns desentendimentos; e Guillermo Arengo como Rubio, amigo e colega de Sebastián e que acaba ajudando o protagonista em diversos momentos. Jorge D’Elía como Goldstein, chefe de Sebastián, está muito mal – ele nem parece ter experiência na área… se bem que o roteiro não o ajuda.

Patricia Gilmour aparece pouco como a “senhora Maria”, vizinha do sexto andar que viu as crianças descendo as escadas; e Gaby Ferrero, identificada como “sequestradora”, apenas confunde ainda mais sobre, afinal, em que local estavam as crianças. Ferrero não é a mulher que aparece primeiro, junto com o namorado, e que era o meu palpite principal. Me parece que ela seria a última mulher que apareceu naquela sequência de apartamentos em que Sebastián procura os filhos, mas não dá para ter certeza.

Da parte técnica do filme, elogios para a direção de fotografia de Lucio Bonelli, que valoriza os ambientes – especialmente o vão central do prédio e sua escadaria – mostrados pelo filme; para a trilha sonora de Roque Baños, que ajuda a impulsionar o clima de tensão e de suspense; e para a edição de Lucas Nolla que, junto com a direção acertada de Patxi Amezcua, especialmente nas sequências iniciais do desespero do protagonista atrás dos filhos, é a responsável pela melhor parte da produção.

Séptimo estreou em setembro de 2013 na Argentina e, dois meses depois, na Espanha. O filme participou de apenas dois festivais, o de Miami e o do Rio de Janeiro. Nesta última semana o filme estreou no circuito comercial brasileiro. No Festival de Cinema de Miami a produção foi indicada para o Prêmio do Grande Júri, mas ela saiu de mãos vazias.

Como o filme sugere, Séptimo foi totalmente rodado em Buenos Aires.

Este é apenas o segundo longa-metragem do diretor Patxi Amezcua. Antes de Séptimo ele havia feito 25 Kilates, de 2008, e o curta Mus, de 2003.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. Achei a avaliação justa. Eu dei uma nota um pouco maior porque sou fã da dupla de protagonistas. O site Rotten Tomatoes não tinha nenhuma crítica sobre esta produção, um tanto ignorada fora da Argentina.

CONCLUSÃO: O resumo do que achei do filme já foi esboçado na introdução deste texto. Séptimo começa bem, consegue envolver o espectador em uma situação complicada e angustiante. Não por acaso, lembra um pouco do mestre Hitchcock. Pena que esta lembrança logo se esfumace. Conforme a condução da história vai evoluindo, percebemos que faltou um pouco de cuidado com o texto e com a narrativa. As reações dos protagonistas não condizem exatamente com o que se espera, e a tensão inicial desaparece – ou sobra muito pouco dela.

Não é difícil matar a charada antes do grand finale. E isso é apenas mais uma demonstração de que a trama poderia ter sido melhor desenvolvida. Darín está bem, mas até ele fraqueja em alguns momentos com um roteiro tão fraquinho. De qualquer maneira, algo que o filme acerta é em mostrar bem Buenos Aires. Filmes que exploram o contexto da trama sempre ficam mais interessantes. Pena que o principal ficou faltando: um roteiro melhor acabado.