Nieve Negra – Black Snow – Neve Negra

Um filme que parece ser de outra latitude e que requenta uma história que já assistimos antes. Nieve Negra chama a atenção por ser estrelado por Ricardo Darín, um dos grandes atores da história do cinema argentino, mas deixa a desejar. A produção tem uma narrativa bastante previsível e, quando resolve “surpreender”, revela muitas incongruências e situações um bocado sem sentido.

A HISTÓRIA: Neblina e neve em um local com muito gelo. Um menino caminha entre as árvores e sobre a neve com uma arma até que se vira ao escutar o próprio nome. Corta. Em um avião, Marcos (Leonardo Sbaraglia) acaricia o cabelo da esposa, Laura (Laia Costa). Eles estão viajando da Europa para a Argentina, terra natal dele, para resolver as pendências após a morte do pai de Marcos. Logo que chegam em casa, Marcos atende o telefone e fala com Sepia (Federico Luppi). Marcos pergunta porque a casa está toda desarrumada, e Sepia diz que foi o irmão dele, Salvador (Ricardo Darín). Sepia diz que Marcos deve pegar uma carta que o pai dele deixou e que deveria falar com o irmão sobre a oferta dos canadenses. Marcos tenta escapar, mas acaba indo para a propriedade da família e encontrando Salvador.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nieve Negra): Os primeiros minutos desta produção são um bom cartão de visitas da proposta do diretor Martin Hodara, que escreveu o roteiro de Nieve Negra junto com Leonel D’Agostino. Aquela sequência inicial de Juan (Iván Luengo) caminhando com uma arma entre algumas árvores de um bosque e sobre a neve se parece com tantas outras de filmes europeus. Digo que é um bom cartão de visitas porque o restante da história também caminha por semelhanças como esta.

Os europeus são mestres em contar histórias de dramas familiares com boas doses de suspense e de tensão. Também não são raras as histórias de adultério ou de outro tipo de relação amorosa que acaba “estragando tudo”. Nieve Negra caminha por essa seara, contando um drama familiar com uma tragédia no meio e alguns “temperos” que vamos descobrir apenas no final.

Francamente, por mais que Hodara e D’Agostino se “esforcem” para surpreender o espectador, eu não achei as “sacadas” do filme realmente surpreendentes. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). Não sei vocês, mas não demorou muito tempo para que eu desconfiasse de Marcos como o verdadeiro “assassino” de Juan. Talvez por causa das reações de Salvador, que parecia ser um sujeito que carregava uma culpa há muito tempo que não lhe pertencia – algo que se confirma no final.

Mas nem precisei chegar na derradeira “cena revelação” do crime para matar a charada. Estava na cara que Salvador não era o culpado… e se não era ele, sobrava apenas o outro irmão, Marcos. A justificativa para o crime me pareceu bastante forçada. Mas mais forçada que esta justificativa foi mesmo a reta final da produção. Vejamos algumas incongruências que realmente me incomodaram.

(SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, vamos falar sobre a essência da história. Marcos matou Juan, de forma proposital e covarde, pelas costas. Muito tempo depois, ele volta para a cidade natal e para a propriedade onde o crime aconteceu e faz de conta que não teve nada a ver com aquilo. Ele repete a história “oficial” de que quem atirou em Juan foi Salvador. Ora, se ele matou o irmão mais novo e tanto tempo depois ele ainda coloca a culpa em Salvador, de duas uma: ou ele “perdeu a memória” e realmente não lembra do que aconteceu (bem difícil de acreditar, não?) ou ele é um grande cínico que lembra de tudo e que atua como um grande “ator” enganando a todos.

Honestamente, acho muito difícil ele ter feito uma lavagem cerebral tão grande que não lembra de como Juan realmente foi morto e da relação que ele tinha com a própria irmã. E se, como parece mais lógico, ele está apenas fingindo e mentindo e, no fundo, sabe exatamente o que aconteceu no passado, que maluquice é aquela que Laura faz no final? Se ele lembra do que aconteceu, claro que ele vai reconhecer o bilhete que ele próprio escreveu e vai saber que Laura cortou um pedaço dele e que ela descobriu a verdade. O que explicaria ela se arriscar desta forma? Não faz o mínimo sentido.

Outra forma de encarar aquele final é pensar que Laura, desconfiando que o marido estava mentindo e “fazendo de conta”, resolveu mostrar para ele que ela sabia a verdade, mas que ia fingir como ele para que os dois ficassem juntos. Ainda que esta seja a alternativa que faça mais sentido, acho a saída para a encruzilhada da trama muito estranha. Primeiro que uma mulher com o mínimo de crítica pensaria que deveria fugir de uma relação com um sujeito que tem tanto sangue frio quanto Marcos – que matou o irmão pelas costas e que tinha uma relação amorosa com a própria irmã. Que tipo de sujeito é esse? E uma mulher em sã consciência vai querer se relacionar com um cara assim? Difícil de acreditar.

Mas as incongruências não param para aí. O que realmente me incomodou foi a sequência sem sentido no final. Primeiro, Marcos, sabendo que a mulher estava grávida, realmente cogitar deles ficarem dentro de um carro em uma tempestade de neve. Sem sentido. Por mais que o irmão tinha ameaçado ele, um sujeito com o mínimo de bom senso jamais ia buscar como saída aquela falta de solução que era ficar dentro do carro com aquela neve toda. Depois, muito difícil de acreditar que Laura acertaria Salvador atirando de dentro do rancho para fora – justamente ela que não tinha tanta experiência assim em lidar com uma arma.

Só que o roteiro de Hodara e D’Agostino consegue derrapar ainda mais. Depois que Marcos é levado para a delegacia, não faz sentido nenhum para a história que Laura fique naquela casa no meio do nada e sozinha em meio a uma temporada de tempestades de neve, não é mesmo? Não faz sentido algum. Faria muito mais sentido ela ir com Sepia para a cidade e ficar esperando Marcos na casa do pai dele ou mesmo ficar uma noite na casa de Sepia. A última alternativa seria ela ficar lá na propriedade em lugar ermo. Claro que eles optaram por esta alternativa nada lógica para que Laura descobrisse a verdade. Mas me pareceu uma forçada de barra grande demais para ser engolida.

Em resumo, os roteiristas poderiam ter trabalhado melhor a história e deixado ela sem tantos furos e derrapadas. Me incomoda quando um roteiro é desleixado, e isso me pareceu acontecer em Nieve Negra. A qualidade do filme é que escolheram um bom elenco para dividir a cena, com evidente destaque para o trio Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Os outros atores em cena fazem papéis menores. Eles estão bem, mas o roteiro realmente não os ajuda muito. Sem dúvida alguma há filmes argentinos muito melhores no mercado. Procure que vale a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As intenções de Martin Hodara em fazer este filme, tenho certeza, eram boas. Mas o diretor e roteirista precisa melhorar bastante a forma de contar histórias e, principalmente, buscar um pouco mais de características dentro da Argentina em lugar de “copiar” tanto o estilo europeu. Certamente vai lhe fazer bem. E o público também agradece. Afinal, se for para ver a um filme estilo europeu, melhor mesmo é assistirmos a uma produção destas legítima e direto da fonte.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Martin Hodara. Antes ele dirigiu a dois curtas, em 1987 e 1991, em em 2007, La Señal. A maior experiência de Hodara é na função de assistente de direção ou segundo diretor – ele tem 12 trabalhos neste rol. Ou seja, ainda que tenha um bocado de experiência no cinema, parece que ele precisa aprimorar melhor o seu trabalho antes de apresentar algo realmente bom.

Nieve Negra estreou na Argentina no dia 19 de janeiro deste ano. Depois o filme estreou no Uruguai e, em março, participou do Festival de Cinema de Málaga, na Espanha. No Brasil ele estreou nesta semana, no dia 8 de junho.

Algumas cenas da produção foram rodadas em Andorra, onde havia a neve que os produtores não encontraram na Patagônia.

Este filme é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa direção de fotografia de Arnau Valls Colomer; a edição de Alejandro Carrillo Penovi; o design de produção um tanto óbvio de Marcela Bazzano e Josep Rosell; e a trilha sonora de Zacarías M. de la Riva.

Como eu comentei antes, os nomes fortes desta produção são, na ordem de importância, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Além deles, vale comentar o bom – e alguns momentos razoável – trabalho de Dolores Fonzi como Sabrina, irmã de Marcos e Salvador; Andrés Herrera como o pai dos três; Mikel Iglesias como Salvador na juventude; Iván Luengo como Juan; Federico Luppi como Sepia, advogado interessado nas vendas da propriedade, amigo do pai dos garotos e quem acaba ajudando Marcos; Biel Montoro como o Marcos adolescente; e Liah O’Prey como a Sabrina jovem. O elenco realmente é bastante restrito e diminuto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram três críticas positivas e duas negativas para a produção, o que garante para Nieve Negra uma aprovação de 60% e uma nota média 6. Francamente, estou com eles. Facilmente este filme poderia ter levado um 6 ou pouco mais que isso.

CONCLUSÃO: O bom e velho drama familiar com uma “tragédia” no meio e uma ou duas tentativas de surpreender o espectador. Nieve Negra tem bons atores, mas sofre com um roteiro fraco e com uma busca um tanto forçada por um estilo de filme tradicional na Europa mas que não parece combinar muito com a latitude latino-americana. Assista apenas se você não dispensa um filme estrelado pelo Ricardo Darín. Porque enquanto obra de cinema, existem muitas outras produções melhores no mercado.

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Truman

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O nosso coração sempre sabe de quem gostar, em quem confiar. Pelo menos quando falamos de amizade e de relações a longo prazo. Truman fala sobre amor, amizade, reencontros e decisões que não são fáceis de encarar. Um filme sensível, singelo, despretensioso e com dois dos maiores atores do cinema em língua espanhola dos últimos tempos como protagonistas e fazendo um dueto incrível. Procure não saber muito do filme antes de assisti-lo. Só assim vais aproveitar ao máximo tudo o que os realizadores de Truman prepararam pelo caminho.

A HISTÓRIA: Uma rua de um bairro residencial com casas cobertas de neve. Chega um táxi. Dentro da casa, Tomás (Javier Cámara) toma uma bebida quente, confere que as crianças estão dormindo e vai até a cama dar um beijo na mulher. Depois, ele termina de se arrumar para encarar o frio novamente. Desta vez, ele se prepara para viajar. Com atenção, contempla no caminho as paisagens cheias de neve e geladas. Com o passaporte espanhol na mão, Tomás voa para o seu país de origem. Em Madri, ele fica hospedado em um hotel, muito próximo da casa de Julián (Ricardo Darín), motivo de sua viagem de retorno, de reencontros e de novas descobertas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truman): Caros leitores, realmente só leiam este texto depois de terem assistido ao filme. Repito isso pela enésima vez e sendo até chata porque, sem dúvida, uma das forças de Truman é o roteiro fantástico escrito por Cesc Gay e Tomàs Aragay. E o texto deles só tem o impacto desejado se a história for descoberta assistindo ao filme e não antes.

Dito isso, impossível não comentar: que filme é esse, minha gente? Estrelado por dois atores magistrais, fantásticos, que repassam para quem vê esta produção a emoção adequada do primeiro até o último minuto. Não há excessos em Truman. O roteiro de Gay e Aragay é justo em cada palavra e em cada silêncio, e Cámara e Darín são soberbos ao viver as emoções de seus personagens em cada momento, especialmente nos olhares e momentos de silêncio.

Vou admitir, logo aqui no início, que chorei um bocado neste filme. Pelo menos em dois momentos as lágrimas caíram sem vergonha. Na verdade, acho difícil alguém assistir a Truman e não se emocionar, inclusive chorando em um ou mais momentos. Mas sei também que cada um vivencia o cinema e as suas histórias de uma maneira, é claro. Isso sempre foi assim e sempre será. Possivelmente esse filme faça pessoas que já tem uma certa trajetória de vida entender na plenitude o que Gay e Aragay quiseram dizer. Imagino eu adolescente assistindo a Truman e não tendo a mesma leitura que a Alessandra de agora, possivelmente com metade da vida já vivida e tendo presenciado tantas histórias de dores e mortes pelo caminho.

Porque este filme tem muito a ver com a passagem do tempo, com uma vida bem vivida e com o enfrentamento do fim inevitável. E tudo isso fica mais claro conforme vivemos, presenciamos despedidas e encaramos a nossa própria fragilidade. Mas Truman não é apenas isso, mas uma reflexão comovente sobre as relações que realmente são importantes e sobre a aceitação dos limites que cada um de nós tem.

No início desta produção, cheguei a me perguntar sobre a natureza da relação entre os protagonistas, entre Tomás e Julián. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Naquele primeiro contato entre eles, os segundos em que ficaram se olhando e não falaram nada, mil sentimentos passaram na nossa frente. Tomás poderia ter tido uma relação amorosa com Julián e depois ter casado e tido filhos? Mas não demora muito para essa possibilidade desvanecer e ficar claro que eles são apenas grandes amigos. Ou melhor, são um o melhor amigo do outro.

Pouco a pouco o roteiro também vai deixando claro a razão da viagem de Tomás. Ele voltou para Madri para tentar convencer o amigo a não desistir da vida. Depois que eles se encontram, Julián primeiro vai consultar o veterinário (Alex Brendemühl) que cuida de Truman para saber como ele pode ajudar o cão a ter uma adaptação melhor sem ele. Na sequência, todas as dúvidas são respondidas quando Julián vai em mais uma consulta com o seu médico (Pedro Casablanc). Depois de batalhar bastante contra um câncer agressivo, agora a doença retornou com mais força e ele está cansado.

Quando Tomás viaja para visitar o amigo, ele ainda tem a esperança de que Julián pode mudar de ideia. Que ele pode decidir por continuar lutando contra a doença. Mas Julián é muito claro, ao falar com o médico, de que ele está cansado e que quer viver o resto do tempo que ele tem com dignidade e não definhando em uma cama de hospital. Tomás é sutil nas tentativas, como quando ele vai com o amigo para uma livraria. Só que nada surte efeito porque Julián está tranquilo, em paz com a decisão que tomou.

Como tantas pessoas que já viveram um bocado de tempo, ele está tranquilo com o que fez da própria vida e tem por estilo não ter muitas “papas na língua”. Há vários exemplos dele sendo sincero com diversas pessoas no filme, em uma espécie de acerto de contas com todos que encontra. Ainda que ele tenha muita coragem, algo inerente para quem enfrenta algo tão duro quanto o fim da própria vida, ele é humano e também tem momentos de “covardia”. Como quando não consegue contar para o filho exatamente o que está passando.

Uma das belezas de Truman é que este filme é humano, demasiadamente humano. Por isso mesmo ele trata da vida e da morte, e de boa parte dos frutos destas duas realidades, como os afetos, os amores, o perdão, a raiva, a compreensão e a incompreensão. Tomás viaja sabendo que possivelmente esta será a última vez em que ele verá o seu grande amigo. Pensa que talvez consiga fazer alguma diferença, mas logo aceita que não e que o melhor é realmente respeitar a vontade de Julián. Isso é amor. Você respeitar a vontade da pessoa que você ama, mesmo não concordando com ela.

Julián, por sua vez, vive altos e baixos. Ao mesmo tempo que está seguro e sereno sobre a decisão que tomou e parece ter coragem de enfrentar o que virá, em alguns momentos ele revela fragilidade, insegurança e carência. Todos sentimentos previsíveis de quem está encarando o próprio fim. Altruísta, ele está preocupado com Truman, o seu grande companheiro de muitos anos. Quem já teve um cão ou outro animal de estimação com quem compartilhou vários anos de sua vida vai, com certeza, entender a preocupação pela que passa Julián.

Para mim, as peripécias de Julián para encontrar a “pessoa certa” para ficar com Truman revela todo o amor e sensibilidade do personagem. Não é porque ele vai morrer que ele deve entregar o seu “companheirão” para qualquer pessoa ou deixá-lo em qualquer lugar. Tomás acompanha o amigo em cada passo e é doloroso fazer isso. Mas, ao mesmo tempo, ele também acaba aceitando melhor a situação que está se apresentando. Os dois amigos, na verdade, estão em processo de aceitação. A despedida derradeira nunca é fácil, apesar disso.

Vale destacar também a diferença entre Tomás e Paula (Dolores Fonzi). Ela é a pessoa mais próxima de Julián e, por ser de sua família, não consegue aceitar que ele vai embora para sempre. Normalmente os familiares tem esse problema de aceitação. Eles querem que a pessoa lute e brigue até o final, e fica difícil aceitar qualquer outra alternativa. Para um amigo também não é fácil, não estou dizendo isso.

Mas o interessante é que Tomás e Paula encarnam duas personalidades diferentes e bem comuns em situações assim. Ele aceita a decisão do amigo, mesmo lhe doendo muito. Ela não, porque gostaria que ele lutasse até o final. Honestamente, entendo e consigo me colocar no lugar dos dois. Isso não é fácil, qualquer espectador mais sensível sente a dor de cada um dos personagens, porque esta história é de alta empatia. Mas apesar de toda a força de Paula, no fim, e isso Truman nos mostra muito bem, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Cada um sabe as alegrias e as dores por que passou como ninguém mais.

Então, até podemos argumentar, torcer mas, no fim das contas, cada um deveria saber a forma com que quer viver e acabar a própria trajetória. Aceitar nem sempre é fácil, mas obrigatoriamente fará parte do processo. Quanto antes conseguimos sair do campo do que queremos e passamos para o campo de aceitar, entender e respeitar o desejo de quem amamos, melhor. Por mais que a situação seja difícil e definitiva. Porque, no fim das contas, o que realmente fica e vale é o que vivemos juntos, o que demonstramos e como passamos o nosso tempo. Truman fala disso tudo com muita sinceridade e interpretações maravilhosas. Não é preciso nada mais.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sou uma apaixonada por filmes que nos fazem imergir em uma realidade, em uma história, especialmente quando o foco desta narrativa são pessoas e suas relações e sentimentos. Para mim, estes são filmes “humanistas”, porque tratam de pessoas e da própria humanidade. São, justamente, os que eu mais aprecio. Truman é um grande exemplar deste tipo de filme.

Além de dois atores soberbos, Truman tem um roteiro exemplar. O diretor Cesc Gay escreveu Truman junto com Tomàs Aragay e fez desta união um grande trabalho. Truman tem momentos de pura emoção e vários trechos de humor na medida – afinal a vida, mesmo perto da tragédia, não deixa de ser cômica. Como este filme trata de vida e de morte, não tinha como ele ignorar o drama e a comédia, a base de qualquer grande obra.

Enquanto a história se desenvolve, Julián vai prestando contas e fazendo tudo que ele acha necessário fazer antes de partir. Curioso que nós deveríamos fazer isso mais vezes também. Afinal, nunca sabemos quando será a nossa vez. Julián teve a “sorte” de fazer o que queria antes de partir porque sabia que a “sua hora” estava chegando. Mas e todas aquelas pessoas que partem repentinamente e que não podem fazer o mesmo? Seja mortas por acidente, crime ou por um ataque cardíaco fulminante? Ninguém está livre disso e, por mais que não gostemos de pensar na nossa mortalidade com muita frequência, deveríamos agir mais vezes como se “não tivéssemos amanhã”. Seria mais fácil encarar o fim quando ele realmente aparecesse.

Outro elemento que faz Truman entrar na minha lista de grandes filmes é que ele se passa em Madri. Como vocês sabem, o cinema é uma ótima forma de viajarmos no tempo e no espaço e a visitar e/ou revisitar lugares que não conhecemos ou aqueles que amamos e que não podemos vivenciar tanto quanto gostaríamos. Como eu vivi em Madri por três anos e voltei algumas vezes para lá desde então, sempre é um prazer ver a cidade na telona. Meu coração bateu forte ao ver o Café de Belén logo no início, um dos pontos queridos de quem vive naquela cidade.

Sou fã de carteirinha de Ricardo Darín (e quem não é?) e de Javier Cámara. Aqui eles fazem mais uma grande entrega. Palmas para Cesc Gay que conseguiu reunir estes dois monstros em uma mesma produção. Além deles e dos atores já citados, com destaque especial para Dolores Fonzi, que faz um grande trabalho também, vale comentar a atuação de outros atores muito bons em papéis secundários. Para começar, destaco Eduard Fernández, um competente ator espanhol, que faz uma ponta como Luis, amigo de Julián que foi traído por ele e com o qual ele se encontra em um restaurante; Oriol Pla como Nico, filho de Julián; José Luis Gómez, outro veterano ator espanhol, como o produtor de teatro que acaba dispensando Julián da peça que ele estava fazendo; Javier Gutiérrez como o assessor da funerária; Elvira Mínguez como Gloria, ex-mulher de Julián e mãe de Nico; e Lucie Desclozeaux como Sophie, namorada de Nico. Ah sim, e o cão que “interpreta” Truman se chama Troilo. 😉

O roteiro de Truman é, junto com a dupla de protagonistas, o ponto forte do filme. Assim como a direção de Cesc Gay que está sempre cuidando da câmara estar perto dos atores e enfocando as suas emoções, expressões e reações. Além disso, o diretor não se esquece de mostrar o ambiente e a atmosfera em que estas pessoas se movem e onde elas vivem. Elementos fundamentais quando estamos contando uma história de vida.

Da parte técnica do filme, além da direção e do roteiro, vale destacar a direção de fotografia de Andreu Rebés e a edição de Pablo Barbieri Carrera. Também funcionam bem o design de produção de Irene Montcada, a direção de arte de Jorien Sont e os figurinos de Anna Güell. A trilha sonora de Nico Cota e Toti Soler é pouco presente, mas é boa e casa bem com a história.

Truman estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, ele participou de outros oito festivais pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 21. Uma bela coleção – e merecida, diga-se. Entre os prêmios que recebeu, destaque para as seis categorias que abocanhou no Prêmio Gaudí, o principal do cinema catalão; para cinco estatuetas que recebeu no Prêmio Goya, o mais importante da Espanha; e para o SIGNIS Award – Special Mention no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: depois da estreia de Truman nos cinemas, o diretor Cesc Gay informou a imprensa que Troilo, o cão que dá vida a Truman no filme, morreu de causas naturais alguns meses depois das filmagens terem terminado. Em alguns eventos com tapete vermelho para divulgação do filme nos quais o ator Ricardo Darín participou ele levou uma das filhas de Troilo na apresentação da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 textos positivos para a produção. E isso é tudo. Este é um raro, muito raro exemplo de um filme que conseguiu 100% de aprovação dos críticos que deram a nota média de 7,7 para a produção. Tenho que admitir que estou com os críticos. Acho que isso ficou evidente com a nota acima, não é mesmo? Acho esse filme perfeito, simplesmente.

Truman é uma coprodução da Espanha com a Argentina. Ele teria custado cerca de 3,8 milhões de euros. Para comparação, Batman vs Superman: Dawn of Justice teria custado US$ 250 milhões. Não assisti ao filme, antes que alguém me questione, e francamente nem tenho a intenção de fazer isso. Não porque não gosto de filme de super-heróis ou baseados em HQ. Mas ouvi muitos comentários negativos dele e, francamente, não tenho tempo para perder com produções ruins. Além disso, desconfio que ele nem roce na humanidade deste Truman. E, volto a dizer, é deste tipo de filme que me interessa.

CONCLUSÃO: Para ser grande não é preciso ter ambições muito altas. Truman é um exemplo de que uma história aparentemente simples pode ter grande profundidade e emocionar por tudo aquilo que nos apresenta e também por tudo aquilo que nos faz resgatar de nós mesmos. Um filme exemplar na história e na forma com que ela é narrada, dando evidência para o trabalho excepcional de dois intérpretes gigantes. Vale mais que 10 filmes medianos de heróis em quadrinhos e sem metade do dinheiro gasto por um deles. Porque bom cinema não precisa de pirotecnia, ele precisa nos contar uma história convincente e, preferencialmente, envolvente e com empatia. Este é um belo exemplar deste tipo. Tendo a possibilidade de assistir a esta produção, não a desperdice.

Séptimo – 7th Floor – Sétimo

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Ricardo Darín é um destes raros atores que consegue ser bom intérprete e convencer o espectador até calado ou debaixo de chuva. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que todo filme que ele encabeça seja bom. Séptimo, por exemplo, é uma produção que tem uma premissa boa e começa bem, mas que não demora muito para demonstrar como faltou desenvolvimento do roteiro. O que era promissor revela-se um bocado frustrante. Mas para os fãs de Darín, provavelmente, isso vai pouco importar.

A HISTÓRIA: Notícias falam dos últimos acontecimentos, enquanto imagens aéreas mostram Buenos Aires. A última notícia diz que o trânsito está carregado, mas a imagem mostra que ele flui bem. Entre os carros que estão trafegando, está o guiado pelo advogado Sebastián (Ricardo Darín). Toca o telefone, e a secretária do chefe dele, Goldstein (Jorge D’Elía), avisa que o patrão quer que Sebastián chegue antes no Tribunal para apoiar um cliente importante. Ele canta a secretária, que dispensa o colega.

Antes de ir para o Tribunal, Sebastián se encontra com a quase ex-mulher, Delia (Belén Rueda), e com os filhos, Luca (Abel Dolz Doval) e Luna (Charo Dolz Doval). Ele deve levá-los para o colégio. Mesmo com o alerta de Delia, Sebastián e os filhos brincam dele descer os sete andares desde onde eles moram e até o térreo de elevador enquanto eles correm pelas escadas. O problema é que chegando na recepção Sebastián descobre que os filhos dele sumiram. Daí começa a busca pelo paradeiro das crianças.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Séptimo): Os minutos iniciais desta produção já dão muitos indicadores para o espectador. Aquela técnica de misturar notícias de rádio e/ou TV com imagens aéreas da cidade e que, no conjunto, dão a entender que a história se passa em “uma grande metrópole” já é para lá de batida. Aqueles minutos iniciais revelam como Séptimo é um filme que mergulha sem medo na escola do cinemão dos Estados Unidos. E não apenas naquele início.

Nas cenas seguintes, temos a apresentação do protagonista como um cara que tenta ser “descolado” – cheio de gracinhas com a colega de trabalho – e também eficiente. Aos poucos vamos entendendo como o personagem de Darín tem um certo problema com a fidelidade – ele gosta de pular a cerca – e com seguir regras. Até aí, tudo certo. Bastante lugar-comum, mas nada que prejudique a história logo de cara.

Quando Belén Rueda surge em cena, chega a ser um alento saber que existe ao menos mais uma atriz em cena de peso além de Darín. Afinal, por mais que ele seja bom, a história mostra como um único ator, sozinho, não consegue salvar uma produção. Quando ele resolve ir conta a orientação da quase ex-mulher e brinca com os filhos, mesmo atrasado, o espectador já está se preparando para o pior. E, de fato, as crianças somem.

Até este momento, o filme vai bem, apesar das obviedades. E os primeiros minutos de “desespero” do protagonista, bem interpretados por Darín, de fato incentivam a angústia do espectador. Mas daí logo surge aquela questão: de duas uma, ou as crianças saíram do prédio, e para isso o porteiro Miguel (Luis Ziembrowski) teria que estar envolvido, ou elas estão em alguma parte do prédio.

Se a premissa é boa – as crianças somem após o pai falhar em infringir uma regra -, a resolução dela acaba sendo vital para esta produção. E aí que o roteiro do diretor Patxi Amezcua com Alejo Flah falha. Justamente na resolução do caso. Oras pois, desde os livros de Agatha Christie aprendemos que o importante é termos bons “possíveis culpados” em cena. Entender a motivação das pessoas é tão ou mais importante que conhecer os fatos que antecederam o problema.

Séptimo é fraco nos possíveis culpados. Lá pelas tantas, Sebastián acaba acreditando que os filhos foram sequestrados a mando do homem poderoso que não quer que ele continue no caso que será defendido no Tribunal – ideia, cá entre nós, bem estapafúrdia e que não chega a convencer, afinal, ninguém foi visto carregando as crianças para fora do prédio – e, por poucos segundos, ele questiona se o ex-marido/namorado da irmão não teria sido o culpado.

Esta segunda opção, que poderia dar mais pano pra manga, é rapidamente descartada. Achei um desperdício – afinal, para que ter aqueles dois personagens (a irmã do protagonista e o perseguidor dela) na trama se eles não dariam muito mais que alguns segundos de tensão/drama?

Antes disso tudo, um ponto importante é que logo Sebastián acredita na tese de sequestro. E, junto com ela, aceita de ficar esperando, já ao lado de Delia, pela famosa ligação pedindo dinheiro. Oras, sério mesmo que um pai aceitaria tão rapidamente esta premissa? E se os filhos tivessem sido sequestrados por um psicopata ou por um pedófilo? O protagonista não teria que trabalhar com outras teorias antes de ficar esperando com a quase ex-mulher no apartamento e, enquanto isso, jogando papo fora sobre como ele havia pisado na bola?

As reações dos personagens também deixam a desejar. Primeiro que o protagonista vai de 0 a 100 em segundos de uma maneira pouco convincente. Ele não deveria ter um desespero crescente desde o sumiço dos filhos e ter mostrado um pouco mais desta preocupação/culpa na procura que começou a fazer apartamento por apartamento antes de estourar na unidade vazia do possível culpado? Também achei pouco factível ele ter tantas dúvidas com aquele policial meio velho – se ainda o ator escalado tivesse um pouco mais de perfil dúbio… mas não era o caso.

Pior que a reação um tanto intempestiva e um tanto tardia do personagem de Darín foi o segundo momento da reação da personagem de Belén Rueda na trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é difícil desconfiar dela depois que, após acusar o quase ex-marido de uma forma um tanto “leve”, ela fica calmamente esperando por uma ligação dos sequestradores em casa. Que mãe, naquela situação, teria reagido com tanta frieza se ela não tivesse alguma ideia de que os filhos estariam bem? Enquanto Sebastián faz teorias mirabolantes, a quase ex-esposa dá sinais estranhos de estar muito controlada para a situação.

Ainda que a condução até aqui seja falha, o pior ainda está por vir. A forma com que Sebastián consegue o dinheiro do chefe dele, no escritório de advocacia, é quase cômica. Não acredito que na vida real alguém conseguiria pegar aquele dinheiro – e, primeiro, ter toda aquela quantia de dólares no escritório do homem que recebe US$ 100 por semana… – e sair daquela forma tão “tranquila”.

Só mesmo em um filme que precisa, urgentemente, de uma saída para a história. Depois, bem difícil de engolir que um homem no centro do furacão como Sebastián se preocuparia em não deixar a linha de celular ocupada e deixaria a bateria terminar no momento decisivo das negociações para a libertação dos filhos. Por favor! São os roteiristas brincando com a nossa inteligência!

E daí que fica ultra suspeita a reta final da produção. Primeiro, até dá para acreditar que as crianças foram ajudar uma mulher que disse ser amiga do pai delas e que estava com problemas após a sacola de compras estourar e que, desta forma, elas entraram no apartamento do quarto andar sem dar na vista e sem resistência. Mas quantas horas passaram depois disso? E as crianças ficaram numa boa, ensinando a mulher a usar o Wii, por diversas horas sem nenhuma delas questionar que elas estavam indo para o colégio e que o pai estava preocupado com elas e que, desta forma, elas deviam sair dali?

Sério mesmo que eles querem nos convencer que as crianças brincaram com o Wii, ganharam umas bolachas, e esqueceram do pai, do colégio e da vida? Difícil de acreditar, hein? Se ao menos elas tivessem sido dopadas… mas não é isso que o filme sugere através da narrativa delas após a saída do apartamento que serviu de cárcere. Depois, estranho o porteiro comentar que Sebastián estava certo e que  as crianças estavam no 4º B. Não lembro em nenhum momento dele insistir nesta ideia.

E para fechar a série de peças mal encaixadas, na mesma noite de um dia em que as crianças foram sequestradas, a mãe delas de fato convence querendo tirar elas do país? Sério mesmo? Que mãe, por mais desesperada que estivesse com a “insegurança” da cidade onde mora, iria tirar as crianças do país – e não para uma viagem curta, mas para algo acima de 10 horas de voo – no final de um dia tenso como aquele, com as crianças ainda “traumatizadas” com um sequestro relâmpago? E o pior é Sebastián concordar com aquilo sem nem questionar muito – e não me digam que a culpa que ele pudesse estar sentindo justificaria aquilo.

Francamente, muito ruim a condução do filme e os pontos questionáveis que ele vai deixando no caminho. O início foi muito bom, apesar de um ou outro lugar-comum, mas boa parte da trama se mostra capenga e incoerente. Darín salva a maior parte das cenas, descontadas as partes do roteiro que prejudicam a interpretação dele – porque não dá para acreditar nas atitudes do personagem. O mesmo acontece com Belén Rueda. Ela está muito bem no início, mas quando o roteiro coloca a personagem em atitudes estranhas, a atriz também não se sai tão bem.

Ainda assim, apesar do problema fundamental do roteiro, é preciso dizer que a escalação do elenco foi muito bem acertada, e que a direção de Patxi Amezcua dá conta do recado. Ele acerta em manter a câmera perto dos atores, para registrar a emoção deles, ao mesmo tempo que explora bem a dinâmica das cenas com cortes bem feitos e uma edição competente. A trilha sonora, vital em produções de suspense como essa, também é acertada. Então, no fim das contas, o filme é bem acabado, apesar de ser falho na trama.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme como esse, muitas vezes, só vale a pena por causa do Ricardo Darín. Esse ator, além de ótimo intérprete, é um charme só. Por causa disso, mesmo com a idade que ele tem – 57 anos, perto de completar 58 no dia 16 de janeiro -, ele convence como um “don juan”, um garanhão que pode cantar a secretária do escritório de advocacia de Séptimo e quem mais ele quiser. Mesmo gostando tanto dele – e não conheço ninguém que não goste do ator -, admito que gostei de ver o nome de Belén Rueda no elenco. Não assisti a muitos filmes da atriz, mas em um recente ela manda muito bem: El Orfanato, comentado aqui no blog. Vale assistir.

Um problema de Séptimo é que além destes dois atores, que são protagonistas, o elenco de apoio deixa a desejar. Por exemplo os atores mirins, os irmãos Abel Dolz Doval e Charo Dolz Doval. A impressão que eu tenho é que eles estão ali para cumprir tabela, mas não agregam realmente valor enquanto intérpretes. Não importa se vemos eles antes ou depois do sequestro, porque eles estão sempre iguais. Mornos. Falta experiência e, no caso deste filme, talvez um pouco mais de preparo para eles.

Os outros atores do elenco de apoio são apenas razoáveis. Vale destacar o bom trabalho de Luis Ziembrowski como Miguel, porteiro do prédio que fica sempre com uma cara de semi-culpado e um tanto perdido; Osvaldo Santoro como Rosales, o policial veterano que mora no prédio e que acaba ajudando na procura das crianças – e com quem o protagonista já teve alguns desentendimentos; e Guillermo Arengo como Rubio, amigo e colega de Sebastián e que acaba ajudando o protagonista em diversos momentos. Jorge D’Elía como Goldstein, chefe de Sebastián, está muito mal – ele nem parece ter experiência na área… se bem que o roteiro não o ajuda.

Patricia Gilmour aparece pouco como a “senhora Maria”, vizinha do sexto andar que viu as crianças descendo as escadas; e Gaby Ferrero, identificada como “sequestradora”, apenas confunde ainda mais sobre, afinal, em que local estavam as crianças. Ferrero não é a mulher que aparece primeiro, junto com o namorado, e que era o meu palpite principal. Me parece que ela seria a última mulher que apareceu naquela sequência de apartamentos em que Sebastián procura os filhos, mas não dá para ter certeza.

Da parte técnica do filme, elogios para a direção de fotografia de Lucio Bonelli, que valoriza os ambientes – especialmente o vão central do prédio e sua escadaria – mostrados pelo filme; para a trilha sonora de Roque Baños, que ajuda a impulsionar o clima de tensão e de suspense; e para a edição de Lucas Nolla que, junto com a direção acertada de Patxi Amezcua, especialmente nas sequências iniciais do desespero do protagonista atrás dos filhos, é a responsável pela melhor parte da produção.

Séptimo estreou em setembro de 2013 na Argentina e, dois meses depois, na Espanha. O filme participou de apenas dois festivais, o de Miami e o do Rio de Janeiro. Nesta última semana o filme estreou no circuito comercial brasileiro. No Festival de Cinema de Miami a produção foi indicada para o Prêmio do Grande Júri, mas ela saiu de mãos vazias.

Como o filme sugere, Séptimo foi totalmente rodado em Buenos Aires.

Este é apenas o segundo longa-metragem do diretor Patxi Amezcua. Antes de Séptimo ele havia feito 25 Kilates, de 2008, e o curta Mus, de 2003.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. Achei a avaliação justa. Eu dei uma nota um pouco maior porque sou fã da dupla de protagonistas. O site Rotten Tomatoes não tinha nenhuma crítica sobre esta produção, um tanto ignorada fora da Argentina.

CONCLUSÃO: O resumo do que achei do filme já foi esboçado na introdução deste texto. Séptimo começa bem, consegue envolver o espectador em uma situação complicada e angustiante. Não por acaso, lembra um pouco do mestre Hitchcock. Pena que esta lembrança logo se esfumace. Conforme a condução da história vai evoluindo, percebemos que faltou um pouco de cuidado com o texto e com a narrativa. As reações dos protagonistas não condizem exatamente com o que se espera, e a tensão inicial desaparece – ou sobra muito pouco dela.

Não é difícil matar a charada antes do grand finale. E isso é apenas mais uma demonstração de que a trama poderia ter sido melhor desenvolvida. Darín está bem, mas até ele fraqueja em alguns momentos com um roteiro tão fraquinho. De qualquer maneira, algo que o filme acerta é em mostrar bem Buenos Aires. Filmes que exploram o contexto da trama sempre ficam mais interessantes. Pena que o principal ficou faltando: um roteiro melhor acabado.

Una Pistola en Cada Mano – O Que os Homens Falam

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As pessoas são uma coisa e normalmente falam sobre si mesmas de outra maneira. Esta é uma das reflexões deste Una Pistola en Cada Mano, um filme recheado de diálogos, descobertas e um bocado de conflito. Quando me refiro ao choque, não se trata apenas de desentendimentos entre pessoas, mas também sobre as ideias de umas fazem das outras – e, algumas vezes, de si mesmas. Um filme diferente e interessante, e que provavelmente fará você pensar sobre que imagem passa para os outros e a respeito do que os outros escondem de você.

A HISTÓRIA: Chove forte. Protegido por um jornal, E. (Eduard Fernández) chega devagar em um prédio. Olha as caixas de correspondência, larga o jornal e aperta o botão chamando o elevador. Quando o elevador chega, E. vê pelo espelho J. (Leonardo Sbaraglia) chorando. Os dois se cumprimentam, e E. pergunta se ele mudou tanto assim. Só então J. o reconhece. Eles foram colegas no colégio e estão se encontrando 10 anos depois da última vez em que esbarraram. A conversa sem muita graça começa a se tornar mais profunda, até que os dois desabafam sobre as próprias vidas. Conversas francas assim vão surgir em diferentes relações entre os personagens desta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Una Pistola en Cada Mano): Filmes como este são cada vez mais difíceis de encontrar. Os arrasa-quarteirões (blockbusters) que forram os estúdios e seus realizadores de dinheiro seguem a mesma fórmula: muitos efeitos especiais, atores de renome interpretando personagens rasos e uma história recheada de ação e/ou suspense. Una Pistola en Cada Mano é a antítese de tudo isso. Os atores são conhecidos em seus países de origem, mas não podem ser considerados astros mundiais. Os outros dois quesitos nem fazem parte do enredo.

Como vários outros filmes, esta produção dirigida e com roteiro de Cesc Gay (que escreveu a história junto com Tomàs Aragay) junta vários personagens com histórias que parecem isoladas em uma colcha de retalhos – exemplos de filmes assim remontam a Short Cuts, Magnolia e Babel, apenas para citar alguns. Mesmo que parte dos personagens que vemos em duetos que parecem isolados se conheçam, cada história particular pode ser vista isoladamente, o que dá um caráter de confessionário para o filme.

Aliás, este caráter dos personagens contarem um para os outros o que eles não tem coragem de verbalizar para mais (ou quase) ninguém é o que chamar a atenção desde o encontro dos primeiros a entrar em cena, os atores Eduard Fernández e Leonardo Sbaraglia. A conversação entre eles lembra a de tantos outros encontros de “bons” ou “grandes” amigos que por diversas contingências da vida ficam muito tempo sem se falar e que, quando se esbarram, vivem aquele misto de estranheza, culpa e vontade de tirar o atrasado.

Os diálogos são ótimos. E os trocados por E. e J. vão do constrangedor até o legitimamente confessional. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que a sensação que ficamos – pelo menos eu fiquei – do início ao fim da cena é que E. parecia estar enrolando J.. Ou ele poderia apenas estar se desfazendo para que o amigo se sinta melhor. Ainda que o final ajude a ampliar a leitura sobre E., não fica totalmente claro o quanto do que foi trocado por ele e J. era, de fato, 100% legítimo.

De qualquer forma, a esbarrada dos dois começa a introduzir um dos temas do filme, que é o de como encontros “casuais” podem despertar conversas de profunda intimidade – ao ponto de algumas delas flutuarem sempre entre o constrangedor e o surpreendente. Consequentemente, nos faz refletir sobre as razões que fazem algumas pessoas terem tanta dificuldade de serem honestas consigo mesmas e com as pessoas com quem elas convivem diariamente ao mesmo tempo em que são capazes de destilar honestidade com pessoas que não são próximas.

Para mim, essa dificuldade em ser honesto com quem está mais próximo é uma forma de defesa. Afinal, abrir-se com um quase desconhecido faz as vezes de uma confissão ao mesmo tempo que afasta o risco de ser cobrado ou julgado por alguém que estará presente no cotidiano e que poderá “cobrar um preço” pela honestidade. Esta também é a vantagem da confissão dos pecados, porque o padre não vai lembrar do que foi dito e nem poderá contar para ninguém sobre a confissão. Mas a sensação de ter sido honesto e de ter se revelado, além de conseguir o perdão, será importante para quem buscou este consolo.

Outra reflexão que a conversa inicial nos faz desenvolver é como a leitura de que “tudo está mal” depende da perspectiva. Para J. ele tem vários motivos para envergonhar-se, até que E. confessa que a vida dele toda está mal. Os “níveis” são diferentes, segundo E., mas ambos tem problemas. E quem não os tem? Mas o quanto estes problemas devem ser valorizados, servindo inclusive como agentes paralisantes, ou quanto eles devem ser superados, esquecidos, sublimados? Esta é a escolha que cada um deve fazer sozinho.

A introdução do filme é potente. Até porque percebemos como é fácil ajudar alguém. Basta querer. Ainda que uma ajuda mais profunda depende de uma abertura mútua, de quem está sofrendo também querer mudar a própria realidade. E isso sim, é mais difícil. Mas vale a pena o contato quando abrimos a guarda. Depois, cada um dos personagens vai para o seu lado e J., de forma bem simbólica, se encaminha para atravessar a “passagem da paz”. Ele saiu do encontro mais reconfortado, de fato.

Aliás, muito bom rever Barcelona pelas lentes de Gay. Em seguida, S. (Javier Cámara) aparece com o filho em um dos bares tradicionais da cidade, o Pintin Bar, que fica bem próximo ao Parc de la Ciutadella. Em seguida, S. também vai passar por uma “humilhação” ao declarar-se para a ex-mulher Elena (Clara Segura).

Evidente, logo no encontro deles na porta, que as intenções de S. eram muito diferentes da de Elena. Mesmo sem sabermos sobre a história deles – e vamos ser apresentados a ela em seguido -, dá para presumir que Elena não quer mais nada com ele. Mas S. não lê os sinais e abre o coração, apenas para ser rechaçado e ver que a vida da ex-mulher avançou para a frente, sem possibilidade de volta.

E isso acontece muito entre homens e mulheres, não é mesmo? Eles tendem a levar as relações de forma muito mais “frugal”, sem tanto apego e preocupação. Enquanto isso as mulheres se apegam, se entregam. O resultado? Muitas vezes o que percebemos em diversas histórias contadas em Una Pistola en Cada Mano: homens vendo as vidas que eles fizeram dar errado, sentindo-se miseráveis, quando eles são os atores da própria tragédia ao terem se entregado a relações sem sentido que apenas lhe fizeram perder o que gostariam de preservar.

A troca de Cámara e Segura é uma das mais hilárias do filme. Junto com as confissões de “cornudo” de G. (Ricardo Darín), sem dúvida as respostas dela para as investidas do ex-marido são a parte cômica da produção. Outras trocas são mais dramáticas, como a que abre o filme e a última, na qual as mulheres de A. e M. expõe de forma cruzada os segredos do matrimônio. De perto, já dizia o sábio, ninguém é muito normal – ou todo mundo, algumas vezes, é normal demais.

Ainda que seja engraçada a troca entre S. e Elena, não dá para evitar uma certa irritação com a cara-de-pau dele ao “filosofar” que a vida é feita de casualidades… e que se não tivesse chovido, e ele não tivesse por isso entrado em um bar, não teria traído ela apesar de uma história de 10 anos juntos. Ah, vamos! Os homens realmente arranjam desculpa para tudo, quando querem.

Ao mesmo tempo, a reflexão dele tem um certo grau de verdade. A vida é frágil, e são os pequenos desvios, as pequenas e grandes escolhas que fazemos diariamente que nos conduzem para uma direção ou para outra. Claro que a desculpa da chuva não convence. Ele poderia ter entrado no bar e não ter traído a mulher. Mas é o acúmulo de decisões e circunstâncias que definem as nossas vidas. Una Pistola en Cada Mano trata disso e, como deu para vocês perceberem até agora, das relações humanas e dos sentimentos pessoais que algumas vezes demoram para aflorar.

Depois de tentar se justificar, S. de fato confessa que fez besteira e que gostaria de voltar atrás. Mas como os personagens anteriores já esboçaram em dizer, não existe uma borracha para apagar os atos que cometemos. Por isso é tão importante pensar no que fazemos e falamos. Uma palavra dita e um ato desencadeado não podem ser apagados – na melhor das hipóteses, perdoados. Mas nem sempre o perdão quer dizer que tudo pode voltar para o ponto anterior – como em uma recuperação feita no Windows.

Em seguida somos apresentados à história de G., que descobre que está sendo traído pela mulher e que resolve segui-la. Bonita essa parte da história. Diferente dos demais, é G. que não quer se separar. Ele ama a mulher e quer reconquistá-la. Quem dera que mais pessoas acreditassem no amor desta forma. E que bom que o texto de Gay e Aragay resolveu fugir da maioria dos perfis masculinos, que é de cafajestes – ou de figuras que tem a moral bem “flexível”, para dizer o mínimo – para mostrar que existe exceções.

Mesmo que o que G. diz é bonito e sentimental – ele só podia ser argentino, não? – de fato é possível perdoar e reconquistar uma pessoa quando a relação está muito desgastada? Como comenta L. (Luis Tosar), um ótimo parceiro de cena para Darín, é fácil dizer que é preciso perdoar e valorizar a pessoa que sucumbiu à traição, mas o difícil é colocar essa ideia em prática. Acredito que há relações em que isso vale a pena, já em outras… o melhor mesmo é cada um seguir a sua vida.

A surpresa do duelo entre G. e L. demora para aparecer não apenas pelo bom texto dos roteiristas, mas também pelo trabalho competente dos atores. O que apenas reforça estas que são as duas qualidades principais da produção. Chegamos então até o encontro de P. (Eduardo Noriega) e Mamen (Candela Peña). Ele, um cafajeste clássico, que tenta trair a mulher com uma colega do trabalho com quem ele nunca tinha agido direito. Mas o importante é a transa, não é mesmo? Para figuras como ele, com certeza.

Para fechar a produção, outro ponto alto: a troca de confissões entre A. (Alberto San Juan) e María (Leonor Watling) quando ela dá carona para o amigo do marido já que eles vão para o mesmo lugar e, em um encontro casual, uma troca similar entre M. (Jordi Mollà) e Sara (Cayetana Guillén Cuervo) casados com os personagens anteriores.

Por mais que os homens se achem muito amigos e próximos, na conversa com suas respectivas mulheres que as “máscaras caem” e eles ficam sabendo de pormenores que jamais desconfiariam. Daí que surge aquela que é a grande reflexão do filme, para mim, dita por María: “Todos somos uma coisa e parecemos outra, não?”. E a expressão final dos amigos A. e M. quando eles ficam sozinhos diz tudo… quantos de nós olharíamos do mesmo jeito para os nossos amigos e para as demais pessoas que amamos se soubéssemos de todos os seus pecados e do que eles fazem entre as quatro paredes?

O que chama a atenção no filme, além do ótimo texto da dupla Gay e Aragay, são as interpretações dos atores. Só há feras no elenco. Eu conhecia a maioria deles, mas mesmo as “novidades” foram de tirar o chapéu. Todos envolvidos com os seus personagens e convencendo em falar cada linha do roteiro.

Um excelente trabalho do elenco, uma direção voltada para estas interpretações e para mostrar, entre uma história e outra, um pouco de Madrid. Dá para pedir mais? Definitivamente o filme agrada e faz pensar. Talvez lhe tenha faltado apenas um “arremate” melhor no final. Por isso a produção não ganha a nota máxima, mas fica perto dela. Ainda que há um sentido para as conversas entre os homens terem voltado a ser vazias: todos estão muito bem escondendo-se uns dos outros. Ou isso eles pensam.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, todos os atores estão ótimos. Mas para mim Javier Cámara consegue superar os demais em uma interpretação muito verdadeira e tocante. Grande ator espanhol. Merece sempre ser acompanhado. E mesmo que os outros estejam todos os ótimos, tanto atores quanto atrizes, gostei muito de rever Eduardo Noriega em cena. Desta vez no papel de crápula da história. Interessante vê-lo nesta posição diferente.

Ainda que as histórias girem em torno, principalmente, do comportamento masculino, as atrizes que contracenam com os protagonistas de Una Pistola en Cada Mano dão o tom exato para o filme funcionar. Teria sido muito chato se todas as pequenas histórias fossem narradas apenas por homens. A interação deles com elas, em especial, enriquece o filme. Todas estão muito bem, mas gostei, em especial, das atuações de Clara Segura e Candela Peña. E foi ótimo rever a diva Leonor Watling.

Una Pistola en Cada Mano estreou em novembro de 2012 no Festival Internacional de Cinema de Roma. Depois, o filme participaria ainda de quatro festivais. Nesta trajetória, ele ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña no Prêmio Goya 2013; para o de Melhor Performance para o elenco inteiro no Festival de Cinema de Miami; e os de Melhor Filme sem ser falado em catalão, Melhor Roteiro, Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña e Melhor Ator Coadjuvante para Eduard Fernández no Prêmio Gaudí.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o ator Leonardo Sbaraglia substituiu o ator Javier Bardem, que inicialmente foi escalado para viver J.; Ricardo Darín procurou o diretor de Una Pistola en Cada Mano consultando ele sobre o papel de G. depois que ele leu o roteiro; e o diretor e roteirista escreveu a personagem de Mamen especialmente para Candela Peña.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Andreu Rebés, bem eficaz; da trilha sonora pontual de Jordi Prats e da edição precisa de Frank Gutiérrez. Além deles, ótimo trabalho do produtor de elenco José Manuel Gómez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Una Pistola en Cada Mano. Achei baixa, mas bem coerente com o tipo de público que tem lotado as salas de cinema mundo afora e que não curtem uma produção neste estilo. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram duas críticas positivas para o filme – ele praticamente não recebeu críticas até o momento.

Fiquei interessada pelo trabalho de Cesc Gay. Natural de Barcelona, Gay tem 47 anos e 10 filmes na carreira como diretor – e 11 como roteirista. Nesta trajetória, ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 17. Ele estreou na direção em 1998 com o filme Hotel Room e ficou mais conhecido pelas produções Krámpack (de 2000) e En La Ciudad (de 2003). O próximo filme dele, previsto para ser lançado no ano que vem, é Truman, que tem Ricardo Darín e Javier Cámara no elenco. Vale acompanhá-lo.

Esse é mais um exemplar do que há de melhor no cinema espanhol. Lembrando que a produção foi toda rodada em Barcelona, terra natal do diretor.

Una Pistola en Cada Mano é um filme de 2012… mas chegou apenas agora, em maio de 2014, no mercado brasileiro. Eis o típico exemplo de “antes tarde do que nunca”.

CONCLUSÃO: Sempre que alguém se sente muito surpreso com a descoberta de uma “faceta” nova de outra pessoa, inevitavelmente reflito sobre o quanto as pessoas conseguem ser honestas consigo mesmas e com as demais. Para mim, cada notícia de pessoas “acima de qualquer suspeita” que cometem alguma barbaridade reforça a teoria que as pessoas são uma coisa na rua e outra muito diferente entre quatro paredes. Alguns filmes já trataram deste tema, mas poucos da forma direta, honesta e interessante como este Una Pistola en Cada Mano. O roteiro e a reunião de atores de primeira linha são as principais qualidades do filme, que reúne diversas histórias de pessoas que se comunicam melhor com desconhecidos do que com pessoas próximas. Cinema de qualidade baseado em duetos de interpretação e muitos diálogos. Fuja se o que lhe interessa são cenas de ação.

Tesis sobre un Homicidio – Tese sobre um Homicídio

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O cinema argentino dificilmente entrega um produto ruim. E um sinônimo de qualidade deste cinema é o ator Ricardo Darín. Gosto de assisti-lo em cena porque, além do talento evidente, ele é um intérprete que claramente se entrega em cada papel. E em Tesis sobre un Homicidio ele segue esta regra, abraçando um personagem cheio de controvérsia. Um filme interessante, especialmente pela conclusão final, mas com alguns exageros no caminho que acabam prejudicando a produção.

A HISTÓRIA: Uma moeda rola pelo chão em uma visão desfocada. O cenário tem garrafa vazia deitada, muitos papéis e livros no chão. A mão enfaixada, a cara amassada, e o cenário desolador revelam que Roberto Bermúdez (Ricardo Darín) não passa por um bom momento. Deitado no sofá, ele levanta com dificuldade. Corta. Em um ringue, Roberto treina boxe. Na saída, conversa com um colega sobre a tarefa de lecionar e, pouco tempo depois, inicia uma nova turma de pós-graduação. Ali, ele reencontra o filho de um casal de amigos que há muito tempo não vê, Gonzalo Ruiz Cordera (Alberto Ammann). Em pouco tempo, os dois vão se aproximar e se estranhar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Tesis sobre un Homicidio): O primeiro elemento que me chamou a atenção neste filme foi a trilha sonora exagerada de Sergio Moure. Pensei que ela poderia começar forte daquela forma mas que, conforme a história se desenrolasse, o trabalho entraria em uma sintonia melhor com a produção. Mas não foi isso que aconteceu. A trilha começa e termina pelo menos um tom acima do desejado. Primeiro ponto que joga contra a perfeição neste filme.

O segundo elemento que me chamou a atenção foi a ótima direção de fotografia de Rolo Pulpeiro e a direção estilosa de Hernán Goldfrid. Esta dupla criou uma identidade interessante para o filme desde o princípio. Um clima de mistério, mas com qualidade nas inúmeras cenas escuras, que é muito importante para a história. Depois, o principal desta produção: a interpretação precisa e envolvente de Ricardo Darín.

Ele é o melhor de Tesis sobre un Homicidio, não tenho dúvidas. Pouco a pouco o personagem principal desta história vai mergulhando em sua própria tese sobre o crime que ocorre em frente à universidade onde dá aula. Bebendo e fumando cada vez mais, Roberto está próximo de perder o controle. Mas sua teoria parece bem construída o que, evidentemente, levanta ainda mais dúvidas. Afinal, ele está chegando perto da verdade ou apenas ficando obcecado com a culpabilidade de um sujeito jovem, bonito, e com quem ele parece rivalizar?

Da minha parte, quanto mais crescia a teoria de Roberto sobre Gonzalo ser o culpado pela morte de uma das irmãs Di Natale, mais eu me convencia que aquela não deveria ser a verdade. Isso porque o mistério acabaria muito rápido. E não deu outra. O roteiro de Patricio Vega, baseado no livro de Diego Paszkowski, não fecha a questão, no final do filme, mas praticamente mata a charada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como a maioria dos espectadores deve ter suspeitado antes, Roberto estava exagerando as cores de sua teoria para comprovar que estava certo, ignorando as dúvidas e se agarrando a detalhes que poderiam ser facilmente refutados. Ainda que uma das cenas finais mostre o “fim” da adaga procurada, vejo aquela imagem como mais uma alucinação de Roberto. A imaginação dele falando mais alto.

Tesis sobre un Homicidio tem um bom ritmo, e não deixa a peteca cair em nenhum momento. A trilha sonora exagerada incomoda um pouco, mas os outros elementos técnicos, especialmente a direção segura de Goldfrid, equilibram a balança para o lado positivo. Uma pena que o roteiro tenha algumas falhas importantes. Para começar, não fica muito claro porque Roberto se interessa tanto pela morte de Di Natale. De fato ele está tão interessado pelo crime porque ele ocorreu perto dele, na frente da janela de sua sala de aula? Duvido muito que ele se interessaria pela morte de um rapaz no mesmo local.

Pouco a pouco outras leituras vão surgindo no horizonte para este abrupto interesse de Roberto por Di Natale. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em mais de uma ocasião, quando perguntam para o professor se ele conhecia a garota morta, ele não tem segurança para dizer que não. Depois, quando conclui que o assassino procurou a sua vítima porque ela era parecida com a mãe, uma morena com cabelos muito curtos, surge a primeira resposta para esta dúvida de Roberto se ele conhecia ou não a garota. Inconscientemente, parece, ele reconheceu o antigo caso naquela garota vitimada perto dele.

Mas há uma outra leitura mais psicológica para essa obsessão de Roberto para desvendar o crime. A verdade é que Gonzalo insiste em se aproximar de seu ídolo desde o início – o que é um pouco estranho, mas compreensível. Roberto parece ficar um pouco incomodado com isso e, logo em seguida, reage ao aluno como ele sendo um rival. Isso mesmo. Bonito, jovem e inteligente, Gonzalo parece ser um problema para o professor que acredita que o aluno pode estar lhe superando. E logo no início deste filme percebemos que Roberto tem um ego considerável, além de vestir a pele de galanteador.

Há como pano de fundo nesta produção, portanto, um choque entre gerações. E a derrocada de um sujeito que chegou à meia idade sem a vida que ele gostaria – talvez. Roberto tem prestígio, mas quando começa a exagerar a dose na investigação, logo tem as suas ações vistas com receio pelas pessoas que o cercam. E daí outro problema do roteiro. Apesar de um caso antigo em que ele se equivocou ser lembrado em mais de uma ocasião, não sabemos o que Roberto fez de errado no “caso da torre”. E vejo isso como uma falha no texto – afinal, para que citar este caso mais de uma vez e não explicá-lo? Qual é o propósito que ajuda o filme?

Além da obsessão de Roberto por Gonzalo que, para mim, passa pela competição entre eles como “machos dominantes”, chama a atenção a postura de Laura Di Natale (Calu Rivero) mais no final da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Impressiona quando ela corta o cabelo como a irmã morta, mimetizando-a. Não me pareceu que Gonzalo teria incitado a garota a fazer isso – afinal, eles mal se conheciam. Então por que ela cortou o cabelo daquela forma? Antes, Laura tinha iniciado o mesmo curso que a irmã. Curioso como algumas pessoas repetem os atos e modos de uma pessoa que elas perderam – seria uma forma de tornar a ausência “menor”?

Para mim, a conclusão desta produção acaba sendo o melhor do filme – junto com a interpretação de Darín. Qualquer tese pode ser refutada. Porque o “investigador” está propenso a encontrar, observar e analisar os elementos que servem para reforçar a sua teoria, ignorando outros elementos que podem enfraquecê-la. No fim das contas, Gonzalo está certo. De que não há forma de sabermos que tese é correta. Aparentemente Roberto estava errado sobre Gonzalo. Mas o filme deixa uma pequena lacuna para a dúvida. O que é sempre válido.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tesis sobre un Homicidio tem um ritmo interessante, é bem conduzido, mas poderia ser melhor. Especialmente o roteiro, que não deixa a dúvida pairar tanto no ar quanto deveria. Sem contar pelo menos um ponto não explicado na história. Essas são as razões principais para a nota acima.

Ricardo Darín está ótimo neste filme. Como sempre, aliás. Mas aqui ele tem um jovem ator competente para duelar. Alberto Ammann, que já tinha mostrado competência em Celda 211 (comentado aqui) e em Lope (neste texto no blog), faz um duelo à altura de Darín. Se o roteiro fosse melhor, deixando mais espaço para ele fazer um papel dúbio, tenho certeza que Ammann teria se saído ainda melhor. Eis um nome bom para ser acompanhado – assim como Darín.

O filme passa grande parte do tempo concentrado no protagonista. Além dele, do personagem de Ammann e o de Calu Rivero, há alguns coadjuvantes importantes. Vale citar o bom trabalho de Mara Bestelli como Mónica, ex-mulher de Roberto e psicóloga que opina durante a produção; Arturo Puig como Alfredo Hernández, policial responsável pela investigação da morte de Di Natale e marido de Mónica; Antonio Ugo como Mario Passalaqua, delegado que repassa as informações preliminares do caso para Roberto; e José Luis Mazza como Robles, que faz a autópsia da vítima.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia, já comentada, vale destacar o bom trabalho de edição feita por Pablo Barbieri Carrera.

Tesis sobre un Homicidio estreou em janeiro deste ano na Argentina. Até o momento, a produção participou de apenas dois festivais: o de Miami e o de filmes policiais de Beaune, na França.

Esta produção foi totalmente rodada em Buenos Aires.

Este filme é apenas o segundo na filmografia de Hernán Goldfrid. Antes ele havia dirigido Música en Espera, lançado em 2009.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Tesis sobre un Homicidio. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão de avaliações do site.

Tesis sobre un Homicidio é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme policia e de suspense precisa ter bons atores e um ótimo roteiro, correto? Tesis sobre un Homicidio tem o primeiro, mas patina um pouco no segundo. Quem já assistiu a várias produções do gêneros fica bem desconfiado(a) com esta história, porque ela parece “coerente” demais para um estilo de filme que sempre procura surpreender o espectador. E, no fim das contas, Tesis sobre un Homicidio acaba não surpreendendo. Cumpre o seu papel, com alguns exageros no meio, como a trilha sonora, mas não reinventa nada. Um passatempo competente, ainda que não consiga trazer nenhuma renovação para o gênero. Mas tem o Darín, que sempre é um prazer assistir.